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Leituras

por Pedro Correia, em 28.05.17

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«Graças aos progressos da ciência, qualquer confusão entre história e lenda se torna cada vez menos possível. Uma acaba por fazer justiça à outra.»

Júlio Verne, A Invasão do Mar (1905), p. 41

Antígona, Lisboa, 2005. Tradução de Luís Leitão

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 28.05.17

«Somos nós que criamos os ídolos danados em falando ad nauseam sobre as suas acções cobardes, em lhes dando inesgotável tempo de antena e voz à vergonha letal que cometeram, que não é de todo terror, é apenas um absurdo corrosivo sem nome e sem raiz, que nunca deveria ter tido história, porque esta escória alimenta-se da mediatização .
Também não acredito que não se saiba onde está e quem é que instiga a extinção da vida como palavra de um deus qualquer.
Ter medo é definhar, é esconder-se nas frestas, é não existir. É dar vitórias a sicários do vazio.
Recuso-me a ter medo. Morrer, morremos todos um dia.

Mais um louco resolveu suicidar-se e massacrar crianças inocentes em nome de um futuro brilhante no qual estará bem morto. O Massacre dos Inocentes também aconteceu e não foi terrorismo, foi política.»

 

Da nossa leitora há Maria Dulce Fernandes. A propósito deste texto da Inês Pedrosa.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 28.05.17

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  A Lógica ou a Arte de Pensar, de Antoine Arnauld e Pierre Nicole

Tradução, apresentação e notas de Nuno Fonseca

Filosofia

(Edição Fundação Calouste Gulbenkian, 2016)

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Canções do século XXI (58)

por Pedro Correia, em 28.05.17

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Leituras

por Pedro Correia, em 27.05.17

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«O que é a memória? Devíamos encontrar outro nome para a maneira como vemos os acontecimentos passados que ainda estão vivos dentro de nós.»

John Le CarréO Túnel de Pombos (2016), p. 330

Ed. Dom Quixote, Lisboa, 2016. Tradução de Ana Saldanha

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 27.05.17

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  O Homem da Nave, de Aquilino Ribeiro

Prefácio de Álvaro Domingues

Crónicas da Serra da Nave

(Reedição Bertrand, 2017)

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Canções do século XXI (57)

por Pedro Correia, em 27.05.17

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Frases de 2017 (20)

por Pedro Correia, em 26.05.17

«Como mulher, a dr.ª Assunção Cristas sabe bem que, para se trabalhar, não se pode usar espartilho nem a saia travada. A saia tem de ser larga e, se necessário, vestir calças, que ultimamente não se sabe onde andam. Custam a ver

Gonçalo da Câmara Pereira, vice-presidente do PPM, na celebração de um acordo pré-eleitoral com o CDS em Lisboa (14 de Maio)

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Frases de 2017 (21)

por Pedro Correia, em 26.05.17

«Tenho calçado botas e calças de ganga muitas vezes para estar nos bairros sociais.»

Assunção Cristas, presidente do CDS, na mesma ocasião

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Desafio aos leitores

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Quem poderá ser o Emmanuel Macron português?

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Convidado: JOÃO LISBOA

por Pedro Correia, em 26.05.17

 

Utopias

 

Ia jurar ter lido algures que, acerca de Marx – Karl, não Groucho – , alguém terá dito que fez todas as perguntas certas e deu todas as respostas erradas. Procurei o autor mas não fui capaz de descobri-lo. Caso o consigam, agradeço. Se não, podem sempre atribuir-me a citação. Até porque, com autor devidamente identificado (Voltaire), há outra pelo menos tão eloquente: “Devemos julgar um homem pelas perguntas que faz mais do que pelas respostas que dá”.

Em Janeiro deste ano, “Le Monde”, numa das suas publicações “hors-série”, actualizava “L’Atlas des Utopies”, lançado pela primeira vez em 2012. Quase 200 páginas, outros tantos mapas e 25 séculos de História repletos de perguntas e respostas. Mas, naturalmente, num inventário que vai da propriamente dita “Utopia” – acerca de cujo autor os académicos hesitam: se muitos pensam ter sido Thomas More, outros, adeptos das “teses de Boliqueime” de um doutor honoris causa em Letras pelas universidades de Goa e Heriot-Watt, de Edimburgo, juram tratar-se de Thomas Mann – à “República”, de Platão, ao esperanto (designação anterior daquilo a que, hoje, chamamos “inglês”), às comunas owenianas, fourieristas, comunistas, socialistas e anarquistas (para cima de uma centena de covis de bisavós hippies), ou às profecias de Marx – Karl, não Groucho –, a utopia primordial é, sem dúvida, o Paraíso bíblico (ou Jardim do Éden), sobre o qual, mais do que exigir respostas, há imensas perguntas a fazer.

Umberto Eco, por exemplo, em “Serendipities: Language and Lunacy”, interrogava-se a propósito de um perturbante mistério: se, em Génesis 2:20, Adão teve por missão dar nome “a todos os animais: os rebanhos domésticos, as aves do céu e a todas as feras”, quem (sim, quem?) nomeou os peixes? Aliás, logo a seguir, surge outra dilacerante dúvida: se, em Génesis 1:27, lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, por que divino raio, em inexplicável raccord com o episódio da bicharada, somos testemunhas de um Jeová que, verificando que  "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”, não apenas pratica o primeiro acto cirúrgico precedido de anestesia – “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne” – como realiza uma pioneiríssima clonagem transgénero: “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele” (Génesis 2:21, 22)!... Onde pára, então, a miúda que nos tinha sido apresentada em Génesis 1:27?

 

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Poderá não ser a melhor resposta mas, algures entre os séculos VIII e XI, alguém arriscou dá-la, no “Alfabeto de Ben Sirach”. Afinal, no original, deveria ler-se assim: “Depois de ter criado Adão, Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Criou, então, da terra, uma mulher para Adão, tal como o havia criado a ele e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a desentender-se. Ela disse, ‘Não me deitarei por baixo de ti’, e ele disse ‘Não me deitarei por baixo de ti, apenas por cima. Foste feita para ficar por baixo e eu por cima’. Lilith respondeu ‘Somos iguais porque fomos ambos criados da terra’. Mas não chegaram a acordo e, quando Lilith se apercebeu disso, pronunciou o nome inefável e voou pelos ares”. Ou seja, tudo terá tido origem numa inconciliável diferença de preferências sobre posições coitais: enquanto Adão era adepto da que – por boas razões – viria a ser conhecida como “do missionário”, Lilith era, decididamente, uma “cowgirl”.

Os sarilhos de Adão com mulheres continuariam com a segunda concubina, Eva. Por um motivo, aliás, teologicamente peculiar: em Génesis 2:16, Jeová, para autorizar o casal a viver no Eden Condominium, obrigara-o contratualmente a uma condição “De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Traduzindo: uma vez que “o conhecimento do bem e do mal” é aquilo a que chamamos moral, se pretendiam permanecer eternamente felizes, não deveriam preocupar-se sequer com tais ninharias. E, a fazer fé (pois é disso que se trata) na maravilhosa representação do fellatio interruptus no qual Miguel Ângelo os apanha no tecto da Capela Sistina, cumpriam à risca o acordo. Momento dramático esse, porém: é justamente nesse instante que, enroscada na árvore, a serpente oferece o fruto proibido (como vimos antes, a moral) à compreensivelmente distraída Eva. E nova perplexidade surge: de cabeça perdida, Jeová vira-se para o surpreendido réptil e amaldiçoa-o: “Rastejarás sobre o teu próprio ventre!” (Génesis 3:14). Seguramente, mais tarde ou mais cedo, a paleontologia criacionista haverá de descobrir provas da existência de serpentes bípedes ou quadrúpedes contemporâneas de Adão e Eva. Mas, numa história que começou tão problemática e só pode ter prosseguido com um reprovável festival de incesto, é capaz de ser optimismo demasiado pensar em utopias.

 

 

João Lisboa

(blogue PROVAS DE CONTACTO)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 26.05.17

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 História Natural da Estupidez, de Paul Tabori

Tradução de Fernando de Morais

Ensaio

(Reedição Book Builders, 2017)

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Aura Garrido

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Canções do século XXI (56)

por Pedro Correia, em 26.05.17

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 25.05.17

«Fernando Medina foi criticado por se ter deslocado ao hotel de Madonna, para lhe dar as boas-vindas e ajudá-la a encontrar casa. Há quem diga que se subjugou aos caprichos da cantora, que ela é que devia ter ido à Câmara. Discordo: foi golpe de génio. Se Madonna tivesse de ir do Ritz à praça do Município, demorava três horas só para se desembaraçar da rotunda do Marquês. Provavelmente, desistia de morar numa cidade tão caótica. E perdíamos a honra de ter entre nós a Miley Cyrus dos anos oitenta.

Até há pouco tempo, o sítio onde tivera mais dificuldade em orientar-me fora a medina da cidade de Fez. Agora é a cidade que Medina fez.»

 

José Diogo Quintela, no Correio da Manhã

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Penso rápido (84)

por Pedro Correia, em 25.05.17

Nem só jovens "radicalizados" filhos de imigrantes e nascidos já na Europa ruminam ódio à civilização europeia. Pela sua abertura, pela sua tolerância, pelo seu cosmopolitismo, pelo seu abraço acolhedor à diversidade.
Muitos europeus ancestrais estão na primeira linha do ódio à Europa. Odeiam a democracia liberal europeia e suspiram por um big bang que possa devolver-nos às cavernas.
Esses são os cúmplices morais dos terroristas - os que lhes dão alento e resguardo. Muitos deles acoitam-se sob pseudónimo nas redes sociais, onde exibem os instintos mais predadores e primitivos.
A avaliar pelo que escrevem, já regressaram emocionalmente às cavernas. Ou, no fundo, nunca de lá saíram.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 25.05.17

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  Tempo de Combate, de Baptista-Bastos

Crónicas

(Edição Parsifal, 2014)

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Canções do século XXI (55)

por Pedro Correia, em 25.05.17

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 Paris, Novembro de 2015

(foto: Charles Platieu, Reuters)

 

1

O terrorismo jiadista combate-se como se combateu o terrorismo extremista na Itália e na Alemanha, na década de 70. Combate-se como se combateu o terrorismo da ETA, como se combateu o terrorismo do IRA.

Como?

Com serviços de informações competentes e organizados em rede, infiltrados nas organizações terroristas e dotados de meios efectivos para desarticulá-las. Quebrando-lhes as células dirigentes, os circuitos informáticos e as vias de abastecimento de armas e munições. E utilizando dissidentes e terroristas arrependidos nessas operações.

Não é preciso inventar a pólvora. A pólvora já foi inventada há milhares de anos.

 

2

Alguns tudólogos com lugar cativo no espaço mediático teimam em "perceber" o "porquê de o serem [assassinos], o que os levou a isso". Estes raciocínios sempre me conduzem àqueles judeus que tentaram "perceber" as motivações dos nazis entre 1933 e 1939. Alguns desses judeus contemporizaram com a barbárie, deixaram que lhes saqueassem lojas e confiscassem propriedades enquanto procuravam mostrar-se bons cidadãos alemães: muitos escutavam Wagner e exibiam orgulhosamente as condecorações obtidas em combate na I Guerra Mundial em defesa do império germânico.

Acabaram nos campos de extermínio e nas câmaras de gás tal como os outros, os que não tinham tentado "perceber" o que levava as hordas hitlerianas a comportarem-se como bestas sanguinárias.

 

3

Rejeito as teses deterministas. Acredito firmemente no livre arbítrio e na responsabilidade individual: ninguém é criminoso antes de praticar um crime.
Mas não recorro a eufemismos para qualificar actos criminosos.
Lamentavelmente, quando ocorre um atentado terrorista, logo surge gente a considerar que os assassinos são vítimas. Da economia, da crise, da sociedade, da discriminação, do capitalismo, do aquecimento global, do planeta Terra, do sistema solar.
Isto para mim é inaceitável.
Um crime é um crime. A barbárie é a barbárie - tenha a cor ideológica que tiver, idolatre os deuses que idolatrar. Ponto final.

 

4

A ladainha da "destruição do Iraque", invocada por sistema quando ocorrem atentados terroristas na Europa, equivale a dizer que as vítimas inocentes destes atentados "estavam mesmo a pedi-las".
Equivale também a considerar vítimas os assassinos. Coitados, argumentam os arautos de tal tese, eles estão apenas a vingar o que os malandros dos ocidentais fizeram ao Iraque.
Essa é a lógica hitleriana do olho por olho, dente por dente. Hitler conquistou metade da Europa, espezinhando-a e escravizando-a, para vingar as humilhações sofridas pela Alemanha no Tratado de Versalhes. Alegava ele. E muitos concordaram.
Quando começamos a chamar vítimas aos assassinos os nossos padrões éticos invertem-se. O passo seguinte, nesta rota descendente, será chamar criminosos às vítimas verdadeiras.

 

5

É um absurdo incorporar um homicida numa categoria étnica, religiosa ou cultural, fixando-o neste rótulo.
Há assassinos em todos os quadrantes, em todas as etnias, em todas as classes sociais.
Este princípio não é de via única. É tão absurdo dizer ou escrever que "os muçulmanos professam uma ideologia assassina" como fazer proclamações genéricas de sentido inverso: "os ocidentais são culpados de terem explorado populações noutros continentes e estão a pagar pelo que fizeram" ou "os americanos foram lançar bombas ao Iraque e agora recebem o troco".

 

6

A vida humana para mim tem valor absoluto em qualquer lado. Em Paris como na Síria. Em Bruxelas como no Paquistão. Sou incapaz de alimentar duas teses sobre o assunto em função das coordenadas geográficas.

A minha posição é clara: não quero "compreender" os terroristas. Que armam meninos na Libéria e os transformam em carne para canhão. Ou que usam meninas na Nigéria como bombas humanas. Ou que investem com demencial fúria apocalíptica contra crianças e adolescentes, como ainda há dois dias aconteceu em Manchester.
Nem conseguiria, mesmo que quisesse.

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Convidada: ANA

por Pedro Correia, em 24.05.17

 

As crianças de hoje

 

Dei catequese durante anos numa paróquia muito dividida em termos de classes sociais. Crianças muito, muito pobres, e, no outro extremo crianças com muitas posses. O comum entre a maioria delas? A Hiperatividade diagnosticada e comprovada cientificamente.
Lidar com crianças hiperativas pode ser esgotante, desgastante, frustrante. Sabemos que não podemos ir a qualquer local público, pois não sabemos que comportamento elas poderão vir a demonstrar. Pode chegar mesmo a ser humilhante para os adultos que as acompanham, sendo pais ou não.
No início do ano de catequese, e com um grupo novo, coloquei-me à prova, tentei desvendar o que poderia estar por trás deste comportamento. Eu não acredito que as crianças nasçam hiperativas só porque sim, sempre acreditei que existem diversos motivos para que este comportamento se desencadeie. E não me enganei. Vou apenas enumerar alguns exemplos, infelizmente reais:
 
 
- Crianças que viveram na rua até aos 3 anos de idade – Não se recordam da maior parte das coisas, mas há três memórias fundamentais e que as irão acompanhar para a vida: a sensação de insegurança, a fome e o frio;
- Crianças que assistiram à morte de um dos familiares perpetrada por outros, ou seja, pessoas em quem confiavam;
- Crianças que apareciam com a marca do cinto no rosto, nos braços, e sempre que me arriscava a levantar um pouco a camisola a algum, as lágrimas tendiam a cair tal a crueldade, a violência a que tinham sido sujeitas;
- Crianças que destruíam os vidros ao murro por se sentirem presas, por não sentirem a liberdade tão desejada;
- Crianças que não tinham o mínimo acompanhamento em casa, uma palavra de carinho, força e confiança. A sua companhia eram os gadgets eletrónicos, os telemóveis topo de gama, as consolas de inúmeras formas e feitios;
- Crianças “depositadas” na catequese, como se de um ATL se tratasse;
- Crianças sem estrutura familiar;
- Crianças que à pergunta “O que queres ser quando fores grande?”, respondiam “Quero ser pai, quero ter muitas mulheres, que vou matando à medida que tenho filhos.”
  

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Todos estes exemplos indicados como hiperativos ou mesmo psicopatas (num dos casos). O acompanhamento que tinham a nível psicológico? Nenhum! Como é que a sociedade quer integrar estas crianças? Qual o papel da escola, das assistentes sociais no seu desenvolvimento?
Classificar as crianças como hiperativas é fácil, o difícil é mudar mentalidades, o difícil é fazer com que ultrapassem certas vivências, o difícil é fazer esquecer… No fundo, o difícil é agir e ajudar!
 
A catequese era assim uma hora semanal em que se falava da Igreja, de princípios e valores que lhes custava a interiorizar, mas acima de tudo era um espaço em que eles desabafavam, um espaço em que se sentiam seguros, um espaço onde podiam abraçar e beijar sem medo, um espaço onde podiam ser crianças e interagir com os outros, brincar sem maldade associada. Um espaço que ia deixando a teoria da Igreja cada vez mais para trás, um espaço que se tornou o espaço deles, o espaço em que deixei um pedacinho do meu coração a cada semana.
 
Quando conhecerem uma criança identificada / diagnosticada com alguns destes sintomas, tentem perceber a sua história de vida e não a classifiquem logo como irritante, provocadora, briguenta, intolerável. Pode ter suportado em poucos anos de vida aquilo que nenhum adulto suportaria. E estas crianças merecem ser ajudadas!
Numa semana em que se comemorou o Dia do Abraço, lembrem-se: este simples gesto pode curar meses de sofrimento.

 

 

Ana

(blogue CHIC' ANA)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 24.05.17

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  O Ano da Dançarina, de Carla M. Soares

Romance

(Edição Marcador, 2017)

"Por vontade expressa da autora, a presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa"

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Canções do século XXI (54)

por Pedro Correia, em 24.05.17

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No centenário de John F. Kennedy

por Pedro Correia, em 23.05.17

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«Ele adorava ser Presidente.»

Arthur Schlesinger

 

A autoconfiança é um atributo fundamental num político. John Kenneth Galbraith notou certa vez que nunca tinha conhecido um homem tão confiante em si próprio como John Fitzgerald Kennedy – o que serve para explicar grande parte do sucesso do 35.º Presidente dos EUA, nascido a 29 de Maio de 1917, faz dentro de poucos dias um século.

Na fascinante obra The Best and the Brightest, dedicada aos bastidores da presidência Kennedy, David Halberstam mostra-nos outra característica do inquilino da Casa Branca que viria a ser assassinado em Dallas: ele era exactamente como parecia. Ao contrário de outros políticos, que fazem tudo para parecer o que não são, Kennedy tinha uma autenticidade que empolgava os adeptos e desarmava os adversários. Isto ajuda a explicar a sua inédita popularidade: atingiu uma extraordinária taxa de aprovação -- 83% -- e à data da sua morte, segundo a Gallup, era aplaudido por 70% dos americanos.

Galbraith e Halberstam falam com conhecimento directo: ambos conheceram pessoalmente Kennedy e privaram com ele.

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Há um episódio da disputadíssima campanha eleitoral de 1960 que ilustra bem tudo isto: a certa altura alguém pergunta a Kennedy se não se sente exausto. A resposta, negativa, veio num sorriso. Mas o então senador do Massachusetts que se candidatava à Casa Branca pelo Partido Democrata acrescentou ter a certeza de que o seu antagonista republicano, Richard Nixon, se encontrava à beira da exaustão (o que mais tarde se provaria ser verdade). E como é que Kennedy sabia isto? O futuro presidente esclareceu o seu interlocutor: «Sei bem quem sou e não tenho de me preocupar em adaptar-me ou transformar-me. Tudo quanto tenho que fazer, em cada etapa da campanha, é mostrar-me tal como sou. Mas Nixon não sabe bem quem é. Portanto, cada vez que faz um discurso tem de decidir que face dele próprio irá mostrar, o que deve ser extenuante.»

Assim foi. Enquanto na campanha de 1960 Nixon se esforçava sempre por aparentar o que não era, Kennedy jamais fazia um esforço nesse sentido: a imagem que projectava dizia muito do que ele era de facto, o que lhe dava uma vantagem sobre o principal rival. Isto é um traço de carácter que deve ser valorizado num político.

 

Oriundo de uma família milionária de Boston, herói da II Guerra Mundial, congressista e depois senador pelo Massachusetts, galardoado em 1957 com o Prémio Pulitzer pelo seu livro Retratos de Coragem e o mais jovem Presidente eleito desde sempre pelo Partido Democrata, em Novembro de 1960, Kennedy tinha uma sólida cultura e um dos mais fascinantes percursos biográficos de que há memória entre os inquilinos da Casa Branca.

Filho do embaixador americano em Londres, Joseph Patrick Kennedy, tinha 22 anos quando assistiu à declaração de guerra britânica à Alemanha, na manhã de 3 de Setembro de 1939, na galeria dos visitantes da Câmara dos Comuns. Um episódio que nunca mais esqueceu.

 

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 Com Willy Brandt e Adenauer em Berlim (Junho de 1963)

 

A frase que mais contribuiu para imortalizar John Fitzgerald Kennedy no decurso dos 1037 dias do seu mandato na Casa Branca não foi pronunciada em inglês, mas em alemão. Ao declarar-se cidadão de Berlim no local mais emblemático da Guerra Fria, por onde passava a última fronteira do mundo livre. Ninguém imaginava, nesse dia 26 de Junho de 1963, que o seu mandato terminaria menos de cinco meses depois, ao fim de uma manhã de sol outonal no Texas.

Muita gente ignora que essa frase não constava da versão original do seu discurso. Foi o próprio Kennedy que decidiu pronunciá-la enquanto a viatura que o conduzia nas avenidas de Berlim era saudada por multidões entusiásticas vitoriando o seu nome. Fora-lhe sugerida pelo principal conselheiro do presidente -- o seu irmão Robert Kennedy, na altura procurador-geral dos EUA.

«Há dois mil anos a afirmação mais orgulhosa era Civis romanus sum. Hoje, no mundo da liberdade, a afirmação mais orgulhosa é Ich bin ein Berliner», declarou o líder norte-americano nas imediações do Muro da Vergonha erigido apenas dois anos antes pelos soviéticos na cidade dividida.

 

A génese desta frase ilustra bem a forma de trabalhar de Kennedy, um homem que gostava de funcionar em equipa e absorvia com rara intuição as melhores sugestões da sua competentíssima equipa de conselheiros. Três deles, curiosamente, oriundos das fileiras do Partido Republicano -- o secretário da Defesa, Robert McNamara, o secretário do Tesouro, C. Douglas Dillon, e o conselheiro da Segurança Nacional, McGeorge Bundy. O facto de serem simpatizantes do partido rival -- e um deles, Dillon, ter chegado a integrar a anterior administração Eisenhower e a contribuir com 26 mil dólares para a campanha presidencial de Nixon -- não os impediu de atingir o primeiro plano no Executivo democrata, prova evidente do rasgo político de Kennedy.

Ao ser convidado para liderar o Pentágono, McNamara reagiu com surpresa, dizendo que não tinha experiência governativa. «Também não há escola para presidentes. Aprenderemos juntos», respondeu-lhe o inquilino da Casa Branca.

 

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Precursor em vários domínios, estava vinte anos à frente da maioria dos políticos seus contemporâneos.

Foi ele que pela primeira vez compreendeu a importância da televisão -- ao ponto de se ter inscrito em 1959 num curso da CBS destinado a dominar as técnicas televisivas.

Foi também o primeiro presidente a conceder conferências de imprensa regulares na Casa Branca e a responder em directo aos repórteres da TV.

Deu um toque majestático à presidência com os banquetes de Estado aos visitantes, inspirado na recepção de que foi alvo no Palácio de Buckingham em Junho de 1961.

Baptizou o avião presidencial -- um Boeing 707 -- com o nome Air Force One, «para que descesse dos céus como símbolo do próprio poder presidencial».

Transformou os assessores da Casa Branca em decisores políticos, instituindo o cargo de conselheiro da Segurança Nacional, mais importante do que muitos postos no Governo.

 

A ida de Kennedy a Berlim naqueles escaldantes dias de Guerra Fria revelou muita coragem. Coragem política e até coragem física: basta lembrar que a actual capital alemã era então um minúsculo enclave no império comunista, armado até aos dentes. Também por esse atributo ele é lembrado. E ainda pelo desassombro intelectual, de que deu inúmeras provas. É aliás muito interessante verificar como várias frases que proferiu em discursos entraram na linguagem comum, tornando-se deste modo património universal.

Eis algumas:

«Não perguntem ao vosso país o que poderá fazer por vós, perguntem a vós próprios o que podereis fazer pelo vosso país.»

«Se uma sociedade livre não consegue ajudar os seus inúmeros pobres, não conseguirá salvar os seus raros ricos.»

«Nunca negociemos por medo -- mas nunca tenhamos medo de negociar.»

«A vitória tem muitos pais, mas a derrota é órfã.»

«A corrida ao armamento deve ser extinta antes que nos extinga a nós.»

«Apoiamos qualquer amigo e enfrentamos qualquer inimigo para assegurar a sobrevivência e o êxito da liberdade.»

«Não procuremos a resposta republicana ou a resposta democrata, mas a resposta certa.»

«Decidimos ir à Lua nesta década não porque seja fácil mas porque é difícil.»

 

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 Na campanha presidencial de 1960

 

Outra virtude: onde outros viam problemas, ele via oportunidades.

Ao conquistar a nomeação democrata no Verão de 1960 após uma fracturante campanha interna – com 806 votos dos delegados, contra 409 recolhidos por Lyndon Johnson e 287 distribuídos por outros concorrentes - logo o seu primeiro passo, aliás incompreendido à época por vários colaboradores, foi estender a mão ao principal rival no interior do partido, convidando-o a ser o candidato à vice-presidência. Uma aposta que valeu a pena. Em Novembro desse ano, a dupla Kennedy-Johnson bateu os republicanos por margem muito escassa: cerca de 110 mil votos. Sem a junção dos dois nomes complementares, concluem hoje os historiadores, a derrota dos democratas teria sido inevitável.

 

«Ele adorava ser presidente», lembrava o historiador Arthur Schlesinger, que também integrou  a administração Kennedy, como biógrafo oficial, apontando desta forma um dos ingredientes do sucesso deste mandato: um político que não goste do que faz está condenado a fracassar.

Hoje olhamos para a presidência Kennedy e parece-nos «um período quase idílico» de paz e prosperidade, como acentua outro dos seus biógrafos. É sempre assim: só a passagem do tempo presta verdadeira justiça aos políticos, separando os estadistas dos restantes. Kennedy foi um estadista: isso é o que importa celebrar neste centenário.

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Canções do século XXI (53)

por Pedro Correia, em 23.05.17

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Ler

por Pedro Correia, em 22.05.17

O País do Futuro. Do Francisco José Viegas, n' A Origem das Espécies.

Agora Marcelo Caetano. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Laicidade. De Vital Moreira, na Causa Nossa.

Valha-me Nossa Senhora da Geringonça. Da Lina Santos, no Quem Sai aos Seus.

O silêncio de Francisco. Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

Caminhos. Da Sónia Morais Santos, no Cocó na Fralda.

Das conversas em corpo e alma. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Uma crónica usando o template do Fernando Alves. De Vítor Cunha, no Blasfémias.

Do alheamento. Da Vânia Custódio, na Caixa dos Segredos.

O pó da fivela. De Carla Romualdo, no Aventar.

Maias da Madeira. De Maria Carvalho, no Dias com Árvores.

A diversidade da Gardunha. Do Eduardo Saraiva, n' O Andarilho.

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Um general com sorte

por Pedro Correia, em 22.05.17

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Diz-se que o primeiro critério de Napoleão para atrair generais ao seu estado-maior não era o da competência técnica. "Quero generais com sorte", exigia o imperador francês, curtido de vitórias em mil batalhas.

Há poucas coisas tão difíceis de definir como a sorte. Não falta até quem jure que conceitos como a sorte e o azar são totalmente desprovidos de sentido. A verdade, porém, é que estas palavras têm uso corrente entre nós. Por vezes olhamos para certa pessoa e desde logo sentimos que se trata de alguém bafejado pela sorte. Ou pelo azar, conforme as circunstâncias.

Veja-se o caso de Marcelo Rebelo de Sousa: basta olhar para ele para se perceber que é alguém que goza de boa fortuna. Não a fortuna pecuniária, mas aquela que mais interessa: a que vai removendo cada obstáculo do caminho por artes inexplicáveis dos humores astrais.

Reparem: desde que ascendeu à Presidência da República, por uma fabulosa conjunção de factores (impossibilidade de reeleição de Cavaco, processo judicial contra Sócrates, indisponibilidade de Guterres, recusa de Durão, falta de comparência de Rui Rio, o extravagante professor Tornesol como rival na corrida ao Palácio de Belém), os portugueses não param de celebrar boas notícias: inédita conquista do Campeonato Europeu de Futebol em França; eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU; a  arte da falcoaria portuguesa e a  olaria negra de Bisalhães declaradas património da Humanidade; produtor musical André Allen Anjos torna-se o primeiro português a ser distinguido com um Grammy em competição; vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão; triunfo de Leonardo Jardim como treinador do Mónaco, novo campeão de futebol em França; maior crescimento trimestral da economia nacional desde 2010.

O que vai seguir-se? Uma actriz portuguesa a conquistar o Óscar em Hollywood? Lobo Antunes a receber enfim o Nobel da Literatura? O futebol pátrio a erguer o troféu na Taça dos Libertadores? Marcelo vai sorrindo, distribuindo abraços, figurando em fotografias de grupo - espécie de amuleto desta nação bisonha habituada durante séculos a rogar pragas ao destino.

Vejo-o nos telejornais, sem falhar um dia, e penso no que diria Napoleão se o conhecesse: "Eis aqui um general com sorte." Portugal estava a precisar dele.

 

Texto ampliado e actualizado, no dia em que a Comissão Europeia, por unanimidade, propôs o fecho do procedimento por défices excessivos aberto a Portugal em 2009

 

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Convidado: DIOGO OURIQUE

por Pedro Correia, em 22.05.17

 

Ases Indomáveis

 

– Mamã, que aviões grandes são aqueles?

– São aviões militares americanos, filho.

– Americanos? Mas os americanos não estavam a sair da nossa base?

– Pois, parecia que sim. Mas têm agora um presidente novo que, pelos vistos, os quer manter por cá.

– Aquele senhor cor-de-laranja?

– Sim, filho, aquele senhor cor-de-laranja.

– É por isso que têm passado muitos aviões pelo nosso aeroporto nestes dias?

– Sim.

– E isso é bom ou mau, mamã?

– Não sei, filho… Sinceramente, não sei.

– Mas não devia ser bom? A nossa professora de inglês diz que os americanos contribuíram muito para o desenvolvimento das nossas ilhas.

– E quantos anos tem a tua professora?

– Sessenta e tal, não sei bem.

– Pois, é normal, filho. A tua professora já está numa idade em que é bastante comum ter-se uma memória selectiva.

– O que é isso, mamã?

– Memória selectiva? É quando, por exemplo, tu nunca te esqueces de levar o equipamento para as aulas de Educação Física, mas esqueces-te sempre dos TPC que tens para fazer.

– Mas não foram os americanos que nos trouxeram músicas e filmes novos, e que deram muito dinheiro às nossas ilhas?

– Sim, filho, mas… Explico-te da seguinte forma: gostas muito da tia Teresa, não gostas?

– Sim, claro! E do Tomás, e da Marta, e…

– Pois. Agora imagina que a tia Teresa, o Tomás e a Marta vinham viver para nossa casa durante muitos e muitos anos. E, com eles, vinha o resto da família toda. Até pagavam renda e compravam umas coisinhas para a casa; só que deixavam tudo sujo, nunca saíam da casa-de-banho, usavam os teus brinquedos e escondiam bombinhas de mau cheiro debaixo dos tapetes. Bombinhas que, ao longo dos anos, deixavam a terra e as nossas plantinhas doentes.

– Credo, mamã! Porque é que iam fazer isso tudo?

– Porque sim, filho. Porque estavam a pagar, e achavam que o dinheiro justificava tudo. É mais ou menos assim que os americanos funcionam.

– Então e porque é que não alugamos a casa a outras pessoas, se eles são assim tão maus?

– Porque eles não deixam. Porque já não vivem cá a tempo inteiro, mas, pelos vistos, continuam a pagar. Só vêm nas férias, ou então quando há guerra.

– E estes aviões todos? Vêm de férias, agora que está a ficar calor? Ou vêm para a guerra?

– Não faço ideia, filho. Mas, normalmente, os aviões militares não transportam pessoas que vêm de férias.

 

 

Diogo Ourique

(blogue QUERIA? JÁ NÃO QUER?)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.05.17

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  Sob os Céus do Estoril, de Maria João Fialho Gouveia

Romance

(Edição Topseller, 2017)

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Canções do século XXI (52)

por Pedro Correia, em 22.05.17

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Frases de 2017 (18)

por Pedro Correia, em 21.05.17

«Música não é fogo-de-artifício, é sentimento.»

Salvador Sobral, em Kiev, momentos após ter ganho o Festival da Eurovisão

(13 de Maio)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 21.05.17

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  O Irmão Alemão, de Chico Buarque

Romance

(Edição Companhia das Letras, 2015)

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Canções do século XXI (51)

por Pedro Correia, em 21.05.17

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Os comentários da semana

por Pedro Correia, em 20.05.17

«As claques da bola - essas louvabilíssimas associações de beneficência, cultoras da mais fina educação e elegância de modos - há muito mereciam o reconhecimento académico da importantíssima actividade que desenvolvem e da excelência da sua liderança. Eis, ainda que tardio, um primeiro passo de elementar justiça.

A vasta extensão e subida erudição da tese apresentada, meticulosamente organizada e elegantemente vertida, abordando tema crucial para o bem comum e em tão boa hora suscitado e resgatado de tão sinistras trevas, demonstram exuberantemente esse merecimento.
Louve-se o mestre. E, com ele, o estabelecimento de ensino superior que, em tão desinteressado serviço ao Saber, soube acolher o intelecto e a magna questão sobre que ele tão brilhantemente se debruçaria.

Quanto ao resto: o tempo em que a dignidade de grau universitário - da Universidade, enfim - não era conferida ao alegado estudo de qualquer assunto (e perante isto certo mestrado em gestão de campos de golfe - se bem recordo - que deu que falar há uns anos, adquire densidade incontestável); o tempo em que um mestrado significava mais alguns semestres de estudo, depois de uma licenciatura em regra de cinco anos (ou mais) e em que a avaliação contínua não dispensava os exames (os escritos, pelo menos), e uma nota de muito bom era impensável sem exames orais; o tempo em que, fosse a coisa em "letras" fosse em "ciências", se terminava o ensino liceal sabendo de facto ler e escrever - conhecimento que na verdade se adquiria bem antes na vida escolar -, tudo isso é passado irrelevante, bizantinice reaccionária, nestes anos de Bolonha e da geração "mais bem preparada de sempre".»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto do Rui Rocha.

 

............................................................................................

 

«Ena, tanto educador do Povo junto!
Nestas alturas faço meu o manguito do Zé Povinho. Ide-vos fxxxr. Deixai o Povo ter as crendices que quer, gostar do Fado (então não andaram todos a promovê-lo a património da Humanidade?) e de futebol. Como eu os compreendo, já que nunca achei graça ao ténis nem ao críquete.

Os padres que não gostam de Fátima são aqueles que se enfurecem porque Nossa Senhora tem o mau costume de não lhes pedir autorização para nada e muito menos para aparecer quando, onde e a quem entende, o que numa mente machista como a deles, e de alguns comentadores daqui, é insuportável.

Não consigo entender quem crê na transubstanciação e acha Fátima uma crendice.

Gosto de Fado na taberna (não em concerto), Futebol na TV e de Fátima e de Romarias. E prefiro todo o mau gosto das nossas aldeias ao bom gosto de Brasília e de todo o urbanismo modernista que abomino.

Olhem, tomem um manguito do Zé.»

 

Do nosso leitor Xico. A propósito deste meu postal.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 20.05.17

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  O Pianista de Hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Romance

(Edição D. Quixote, 2017)

"Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990"

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Canções do século XXI (50)

por Pedro Correia, em 20.05.17

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Frases de 2017 (17)

por Pedro Correia, em 19.05.17

«Agora os portugueses acham que vão ganhar tudo na vida.»

Marcelo Rebelo de Sousa, hoje, em Zagrebe

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Convidados: NELSON REPREZAS

por Pedro Correia, em 19.05.17

 

Bruscamente, debaixo do chuveiro

 

Tenho andado entra e sai, em casa, por motivos vários. Ao mesmo tempo, a minha filha pediu-me para lhe ficar com as duas gatinhas enquanto ela se ausentou por um par de dias.

Anteontem entro em casa, ligo mecanicamente o televisor para quebrar a paz e o silêncio, as gatas ronronavam num maple e fui para o duche. Eis senão quando, oiço miadelas estridentes, correrias, barulho de um par de coisas a cair e a estilhaçarem-se… mais correrias, choques com portas e é aí que, debaixo do chuveiro, me pergunto se estarei a ser assaltado. Molhado e nu não é propriamente a melhor maneira de resistir a assaltantes, salvo especialíssimas circunstâncias… mas enchi-me de coragem, enrolei-me na toalha e segui para o hall. Olhei para a sala, não vi nada, vou à cozinha e vejo as gatinhas assustadas, muito encolhidas e enroscadas, junto ao fogão. Que coisa, pensei eu… serão mesmo assaltantes?

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E é neste ponto que oiço uma gritaria que, por motivos claros, não provinha das gatas, Vou à sala, procuro identificar o ruído, mais ou menos semelhante a um grupo de carpideiras bem pagas, talvez, ainda, uma vaca que um dia vi o meu irmão veterinário ajudar a parir e deparo com a imagem do Manuel Serrão, na TV, no “Prolongamento”, a imitar (!!!!????!!!!) o Salvador. Pensei sobre que diabo se estaria a passar. Curioso, aproximei-me e na ininteligibilidade dos lances canoros da criatura, percebo que havia uma tentativa de uma letra. O homem imitava o Salvador, o que percebi pelos gestos, naturalmente não pela música. Mas a letra, meu Deus… só percebi Poooooorto… peeeeeenta e qualquer coisa que rimava com penta. Não era pimenta, mas algo por lá perto e que não consegui definir. Insisti E quando julgava que a letra continuava, o homem insistia… peeeeeenta….. pimeeeeeeeeeeeeenta…. (acho) e fiquei-me por aqui. 

Volto à cozinha e olhei, enternecido e solidário com as gatinhas. Pequei no “remote” e calei o Serrão. As gatas olharam para mim, embevecidas e agradecidas. Peguei nelas, fiz-lhe um mimo e elas deitaram-se de novo no maple. Voltei ao chuveiro e  prolonguei aquele jacto quente e gostoso até me desaparecer aquela rima estranha de …peeeeeenta…..pimenta…
Mesmo assim, quando me deitei, e cada vez que fechava os olhos… é… aquela sensação que todos nós certamente temos e que faz com que não consigamos deixar de trautear mentalmente uma canção… lá estava ela. Só que desta vez era mais grave. Além do peeeeenta, pimeeeeeenta mesmo de olhos fechados eu tinha a visão festivaleira do Manuel Serrão e de gatas assustadas, tal como se nota na foto.
Tomei um Dormonoct. 

 

 

Nelson Reprezas

(blogue ESPUMADAMENTE)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 19.05.17

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  A Brecha, de João Pedro Porto

Ficção, teatro, poesia

(Edição Quetzal, 2017)

"Por decisão do Autor, este livro mantém a grafia anterior ao Acordo Ortográfico"

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Belles toujours

por Pedro Correia, em 19.05.17

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 Natalie Madueño

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Canções do século XXI (49)

por Pedro Correia, em 19.05.17

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Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 18.05.17

 

Futebol, Fátima e fado: vitória póstuma de Salazar.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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A literatura que vai à cozinha

por Pedro Correia, em 18.05.17

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 O arroz de favas com galinha corada descrito por Eça no romance A Cidade e as Serras

(foto: blogue Outras Comidas)

 

1

Come-se pouco e mal na literatura portuguesa. E bebe-se ainda pior.

Percorremos centenas e centenas de páginas escritas pelos nossos mais reputados escritores sem deparar com um almocinho homérico ou um jantarinho opíparo. Falta vibração latina aos literatos lusos na hora de comer.

Por motivos que não vêm ao caso, tenho percorrido nas últimas semanas largas dezenas de obras de ficção de autores nacionais sem deparar com uma só refeição memorável. Tirando as excepções da praxe, Eça e Camilo sobretudo, dir-se-ia que os nossos romancistas fizeram votos perpétuos de castidade gastronómica.

Pessoa, Torga, Miguéis, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Régio, Sophia, Namora, Ruben A, Sena, Sttau Monteiro, Abelaira, Urbano, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Santareno, Nuno Bragança: obra após obra, capítulo após capítulo, página após página sem um repasto digno de nota.

O mesmo para Saramago ou Lobo Antunes. De Aquilino, retive sobretudo as trutas – o que me parece coisa pouca.

Já nem menciono os neo-realistas puros e duros - um Redol, um Soeiro, um Manuel da Fonseca – para quem a frugalidade era uma bandeira e qualquer comezaina soava a pecado mortal no Portugal salazarista.

 

2

Desde quando a gula ficou arredada das letras pátrias?

Não era assim na época e na arte de Camilo, que nos legou inesquecíveis parágrafos de volúpia refeiçoeira – como bem documentou José Viale Moutinho na sua obra Camilo Castelo Branco e o Garfo (Âncora Editora, 2013). Ou nas incontáveis incursões de Eça pelos prazeres da boa mesa, culminando na ascensão de Jacinto a Tormes, onde comeu o melhor arroz de favas da sua vida.

 

3

Gostava que a literatura portuguesa se reconciliasse com a gastronomia, seguindo o excelente exemplo desses nossos maiores.

Gostava que nos legasse manjares perpétuos, como a magnífica paelha real invocada por Manuel Vázquez Montalbán no seu romance Os Pássaros do Sul (Los Mares del Sur, 1979) – “a do país autêntico, a que se fazia antes de ter sido corrompida pelos pescadores ao afogarem peixe em refogado”. Com os ingredientes descritos assim: “Meio quilo de arroz, meio coelho, meio frango, um quarto de quilo de bajocons [variedade de feijão verde catalão], dois pimentos, dois tomates, salsa, alhos, açafrão, sal e nada mais. Tudo o resto são estrangeirismos.” Ou as superlativas beringelas gratinadas com gambas e presunto, descritas com minúcia na mesma obra. Tudo regado talvez com um Albariño Fefiñanes, “uma das melhores coisas que nos chegaram através da estrada de Santiago”.

 

4

Gostava que a arte culinária deixasse de ser encarada como um pecado social pelos nossos escritores que cultivam uma prosa ensimesmada e meditabunda, sem vestígios de risos ou alegria. A ditadura passou há muito, mas legou-nos uma atmosfera de clausura que tarda em dissipar-se - como a nossa ficção literária bem demonstra.

Apetece-me pedir aos romancistas: deixem as vossas personagens comer e beber e gargalhar à vontade. Façam como Montalbán. Ou como Rex Stout, um dos mestres maiores da literatura que nunca se fica pela sala ou pelo quarto: entra sempre na cozinha.

"Quando terminámos o sumo das amêijoas, Fritz apareceu com a primeira dose de pastelinhos, quatro para cada um. Um dia gostaria de saber durante quanto tempo conseguiria comer os pastelinhos de Fritz, feitos com tutano de vaca picado, pão ralado, salsa (cebolinho, hoje), casca de limão ralada, sal e ovos, escalfados durante quatro minutos em caldo de carne forte. Se ele os escalfasse todos ao mesmo tempo, ficariam moles depois dos primeiros oito ou dez, mas ele só faz oito de cada vez, e continuam sempre a chegar."

Deliciosas linhas contidas no romance Clientes a Mais (Too Many Clients, 1960). De ler e chorar por mais.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.05.17

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Se Beethoven Pudesse Ouvir-me, de Ramon Gener

Tradução de Lucília Filipe

Histórias da música

(Edição Objectiva, 2017)

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Canções do século XXI (48)

por Pedro Correia, em 18.05.17

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Já li o livro e vi o filme (185)

por Pedro Correia, em 17.05.17

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A COLINA DA SAUDADE (1952)

Autor: Han Suyin

Realizador: Henry King (1955)

O romance - em grande parte autobiográfico - que deu fama à escritora sino-belga viu ampliado o sucesso após a estreia do filme, rodado em Hong Kong e Macau, com Jennifer Jones e William Holden. Gosto de ambos, mas prefiro o livro.

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Plano B

por Pedro Correia, em 17.05.17

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Na vida, devemos ter sempre um plano B. Por maioria de razão isso deve acontecer na política.

Surpreendentemente, o PSD assumiu o protagonismo da oposição a partir de Novembro de 2015 sem um plano B. Apostou todas as fichas na certeza antecipada de um péssimo desempenho da economia portuguesa, subestimando a capacidade de António Costa para neutralizar os ímpetos reivindicativos do PCP e do Bloco de Esquerda, que queriam fazer disparar a despesa pública com o reforço do investimento estatal.

Ao contrário do que os sociais-democratas auguraram, sempre sem cenário alternativo, Costa não andou a reboque dos dois partidos menores da actual coligação parlamentar: foram os bloquistas e os comunistas a abdicar das suas teses, no essencial, concedendo uma espécie de livre-trânsito ao Governo. Que até ultrapassou os anteriores na “obsessão com o défice”.

E ainda bem. Como o Instituto Nacional de Estatística acaba de confirmar já com dados de 2017, a economia portuguesa segue em rota ascendente. Com o maior crescimento trimestral desde 2010, cifrado em 2,8% e sustentado em simultâneo no aumento das exportações e na recuperação do investimento. Como mandam as boas práticas.

 

São óptimas notícias para o País. No entanto, dado todo o seu discurso anterior, parecem más notícias para o PSD. Que, sem plano B, perdeu o mote e se mostra incapaz de dar a volta rumo a um novo argumentário.

Talvez isso explique o motivo de o líder social-democrata andar desaparecido por estes dias, que por motivos vários têm sido de júbilo para milhões de portugueses.

 

Mas, mesmo com Passos Coelho ausente, outra figura de relevo do partido laranja poderia ter surgido a comentar os mais recentes indicadores estatísticos do desempenho económico do País. Também não. Nem Maria Luís Albuquerque, nem Luís Montenegro, nem Marco António. Nem Leitão Amaro ou qualquer outro vice-presidente da bancada parlamentar.

Estarão talvez todos reunidos, a congeminar um plano B.

Já vão tarde.

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Convidado: JOSÉ DA XÃ

por Pedro Correia, em 17.05.17

 

Palavra de médico

 

Desculpem este à-vontade ao entrar assim, de supetão, numa casa que, não sendo minha, visito amiúde, para dizer somente que um homem não é de ferro. Nem de madeira ou silicone (se bem quem haja por aí quem use, mas enfim…).

O que trago aqui é aquele imbecil sentimento de impotência perante a classe médica. É mais ou menos consensual que os médicos são um tanto corporativistas, lavando quantas vezes as mãos com as velhas desculpas já de todos sobejamente conhecidas.

Partindo deste pressuposto, reconheço que não tenho qualquer hipótese de ser convenientemente tratado, porque cada profissional que consulto anuncia, para os mesmos sintomas denunciados, diferentes palpites de doenças, consoante a sua especialidade.

 

Passemos assim aos factos.

Um destes dias surgiu-me uma dor intensa no pé direito. A dor apesentava-se com tamanha intensidade que quando me deslocava mais parecia um ancião de provecta idade.

Consultei então um médico muito simpático que avançou com o primeiro palpite: gota! E disse-o de forma peremptória. Palavra de médico.

Uma série de questões formuladas levou-o a concluir que o problema tivera origem na pinga do fim de semana. Prescrição de análises, sangue tirado para a cabidela e o resultado veio finalmente, dizendo: não tem nada que justifique essa dor!

No entanto insiste numa medicação específica e numa dieta pormenorizada. Pílulas azuis, verdes, amarelas, tudo para combater o tal… nada.

Não convencido, procuro outro especialista. Mais exames, pílulas de outras cores, mas sem evidentes melhoras. Diz o médico actual que deverão ser artroses. Artolas sou eu em lhes dar crédito.

Todavia com este último médico há uma evidente melhoria… acabou-se a dieta! O que há duas semanas era veneno agora deixou de o ser.

Palavra de médico.

 

Não gosto de servir de bola de ténis… passa para cá, devolve para lá… Mas deve ser do meu mau feitio, assumo.

Neste dérbi médico verificou-se uma espécie de empate. Definitivamente como não aprecio indecisões, eis-me na busca de outro especialista. Conclusão rápida e quiçá assertiva: isso é coluna! Palavra de médico.

Desta vez com pior prognóstico: tinha de ser operado.

Havia agora uma derrota e por goleada, o que, digamos, não é nada agradável. E muito menos desejável.

 

Vai daqui procurei um velho amigo, que não sendo médico vai endireitando alguns ossos. Após análise do meu problema, pergunta-me:

- Tu não bateste em lado nenhum com o pé?

Fui ao meu disco interno e procurei na memória eventuais episódios. Finalmente respondo:

- Há uns tempos dei uma pantufada numa pedra, lá na aldeia. Porém na altura pouco me doeu…

- Pois… já deves ter percebido que não és de ferro. Desconfio que partiste o pé.

Incrédulo com a revelação, ainda pergunto:

- E nos exames não dava para ver?

Após um breve silêncio, o meu amigo respondeu:

- Provavelmente até dava, mas não era a especialidade deles.

Pronto… batido aos pontos. Palavra de não-médico!

 

 

José da Xã

(blogue LADO A/B)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.05.17

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  Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt

Tradução de Ana Corrêa da Silva

Introdução de António Araújo e Miguel Nogueira de Brito

Reflexão histórica e política

(Reedição Ítaca, 2017)

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Canções do século XXI (47)

por Pedro Correia, em 17.05.17

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Um país futebolizado

por Pedro Correia, em 16.05.17

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Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto - ou, no caso português, apenas o futebol - potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro - muito diferente e claramente negativo - é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta.

 

O eco que os meios de informação tradicionais fazem do que se publica na Rede, amplificando tudo de forma acrítica e seguidista, vai produzindo cada vez mais estragos.

A crise financeira dos media conduziu nos últimos anos a drásticas alterações de âmbito editorial. A deontologia jornalística manda auscultar todas as partes com interesses atendíveis numa determinada história, obrigando também o jornalista a não eleger uma "verdade" sem pelo menos registar a soma das "verdades" em disputa. Acontece que a urgência de conseguir leitores e audiências tem levado muitos jornais e televisões a "queimar etapas" e a elevar o tom do relato noticioso, desvirtuando-o.

Os adversários tornaram-se inimigos, os desafios transformaram-se em batalhas, os saudáveis confrontos derivaram para devastadoras guerras.

 

Somar a febre do futebol à necessidade imperiosa de estancar quebras de tiragens dos jornais e fugas dos telespectadores para canais temáticos alternativos dá nisto: visões extremadas onde a emoção substitui o raciocínio, toda a moderação é considerada imprestável e o "vencedor" proclamado dos debates é invariavelmente o que berra mais que os outros.

Eis-nos mergulhados num caldo de cultura que nada augura de bom.

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