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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 23.04.17

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 Evangelha, de David Toscana

Tradução de Helena Pitta

Romance

(Edição Parsifal, 2017)

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Canções do século XXI (23)

por Pedro Correia, em 23.04.17

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Leituras

por Pedro Correia, em 22.04.17

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«Só os que têm esperança podem tirar benefício das lágrimas

Nathanael WestA Praga dos Gafanhotos (1939), p. 64

Ed. Livros do Brasil, Lisboa, s/d. Tradução de Alfredo Margarido

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França: votar contra a eurofobia

por Pedro Correia, em 22.04.17

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 Le Pen e Mélenchon, irmãos siameses anti-UE

 

Nas presidenciais de amanhã em França decide-se, acima de tudo, o destino da Europa. Um destino em sério risco, na medida em que dois dos quatro candidatos mais bem situados para rumarem à segunda volta, segundo as mais recentes sondagens, somam 41% das intenções de voto.

Ninguém tenha dúvidas: esta corrida ao Eliseu é também um referendo à construção europeia. Se prevalecer a mensagem de ódio e anátema à União Europeia propalada nas margens extremas do sistema político por Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, irmãos siameses na eurofobia, todo o continente ficará mais perigoso. Porque esta lógica de exclusão para que apontam os extremismos, à esquerda e à direita, é herdeira directa de mil guerras num espaço continental assolado pelos fantasmas do soberanismo, do nacionalismo e da xenofobia - o horror ao "internacionalismo", ao "globalismo", ao que vem de fora.

O verdadeiro confronto ocorre aqui entre eurófilos e eurófobos. Emmanuel Macron destaca-se entre os primeiros e merece por isso o triunfo eleitoral que a maioria das pesquisas lhe augura, embora por números incertos e precários. Ninguém se iluda com a oratória dos demagogos de turno, sempre prontos a apontar ao inimigo externo, como ocorreu com o Brexit, vai fazer um ano: a União Europeia é uma conquista civilizacional que merece ser defendida todos os dias. Eleição após eleição, voto a voto.

Como a história nos ensina, nunca nada está definitivamente garantido.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 22.04.17

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O Último Salazarista, de Orlando Raimundo

Biografia

(Edição Dom Quixote, 2017)

"Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico de 1990"

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Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 22.04.17

Procura fazer um amigo por mês e um inimigo por ano: um homem avalia-se pela soma dos que o apreciam e o detestam.

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana.

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Canções do século XXI (22)

por Pedro Correia, em 22.04.17

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Importa é partir e não chegar

por Pedro Correia, em 21.04.17

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 Kim Novak em Vertigo (1958)

 

“Não podias gostar de mim? Apenas de mim, tal como sou?”, pergunta Kim Novak a James Stewart numa cena capital de Vertigo, sabendo que tem como séria concorrente uma hipotética dupla de si própria. Poucos filmes há como este, tão sulcado por vias sinuosas que acabam por desvendar o essencial da natureza humana, propensa a procurar o inalcançável.

O melhor cinema é sempre este – o que nos remete para o mais relevante da vida, por vezes à boleia de um desempenho inesperado. Kim Novak, que só obteve o papel de Judy devido à gravidez de Vera Miles, primeira actriz eleita por Alfred Hitchcock, confere um toque de fragilidade suplementar à personagem, perturbante aparição enquanto objecto de um desejo sempre por consumar. “Um dos melhores desempenhos femininos na Sétima Arte”, rendeu-se David Thomson. Um clássico é isto: uma obra que nunca cessa de nos interpelar.

Do fundo dos tempos continuará a soar-nos a dolorosa pergunta dela, ansiando por uma resposta que jamais virá. No cinema, como em qualquer viagem, o que importa é partir e não chegar.

 

Texto meu publicado no blogue Ordet, por amável convite do Carlos Natálio.

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Frases de 2017 (15)

por Pedro Correia, em 21.04.17

«Passos Coelho está morto politicamente e ainda ninguém lhe disse.»

José Miguel Júdice, hoje, em entrevista ao jornal i

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 21.04.17

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A Amante Holandesa, de J. Rentes de Carvalho

Romance

(Reedição 11x17, 2016)

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Belles toujous

por Pedro Correia, em 21.04.17

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Chiara Ferragni

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Canções do século XXI (21)

por Pedro Correia, em 21.04.17

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Já li o livro e vi o filme (181)

por Pedro Correia, em 20.04.17

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 A GUERRA DOS MUNDOS (1898)

Autor: H. G. Wells

Realizador: Steven Spielberg (2005)

O darwinismo social do escritor britânico cruza o optimismo antropológico de Spielberg com supremacia do primeiro ao antever a Terra devastada por uma invasão marciana, sem final açucarado. Aqui os mais aptos são os mais fortes.

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Convidado: JOSÉ MEIRELES GRAÇA

por Pedro Correia, em 20.04.17

 

Victor Lustig dos pequeninos

 

Sabe-se que o governo resulta de um imaginativo golpe de rins do PM, que trocou uma possível luta de faca nos dentes dentro do PS, decorrente da sua surpreendente derrota eleitoral, pelo poder de distribuir lugares no governo e no aparelho do Estado, que garante o sossego e a unanimidade das hostes. Fê-lo com o expediente simples, e inesperado, de atrelar comunistas a uma maioria parlamentar.

A jogada não havia sido prevista, e menos ainda discutida, na campanha, e não tinha precedentes. E como o PCP sempre se distinguiu, desde há quarenta anos, pela sua adaptação meramente táctica à democracia parlamentar, que aliás nos seus textos doutrinários continua a desprezar; nem se nota qualquer quebra de disciplina entre o seu pessoal político, que é inteiramente recrutado nas suas coudelarias privativas, que asseguram a opacidade e a reprodução do pessoal político por cissiparidade - são todos iguais: resulta que trazer comunistas para o poder não foi cousa pouca.

Acharam muitos, e eu também, que um governo destes não podia durar: António Costa, e com ele a camarilha dirigente do PS, não tem, sobre o governo do país, ideias substancialmente diferentes das que tinha Sócrates; a negociação permanente com o PCP e as vedetas bolivarianas do BE só podia reforçar o pendor despesista, estatista e terceiro-mundista da situação; e a UE cedo cortaria cerce as veleidades no derrapar da despesa, no aumento do défice e na continuação do financiamento.

O Orçamento confirmou as presunções: era inexequível sem agravamento do défice, não continha medidas sérias de reforma do Estado que facilitassem o crescimento e, cria-se, Bruxelas não o deixaria passar.

Mas deixou, com reservas e vigilância. O Orçamento foi o segundo golpe de rins de Costa, e desta vez duplo: aldrabou os patrões europeus pelo expediente de garantir o cumprimento das metas, custasse o que custasse, com a consciência de a UE não querer, por estar ela própria periclitante, dar as mesmas provas de intransigência que deu aquando do programa da tróica; e obteve aprovação dos seus parceiros apresentando-lhes um orçamento incompatível com as metas que traçava, que depois adulterou comprimindo as despesas mais caras à esquerda, aumentando os impostos que a mesma esquerda considera mais injustos, e dando um bodo fiscal às empresas, sob a forma de perdão fiscal e reavaliações. Para garantir o apoio da massa dos votantes retocou pensões e salários da função pública, mesmo ficando sempre aquém da propaganda que uma imprensa obsequiosa veicula, e estancou a redução de pessoal empregado no Estado.

Com isto, mais cativações e aldrabices menores, às quais de resto os governos da democracia sempre recorreram, apresentou o menor défice da democracia. Não foi, claro: O Conselho de Finanças Públicas acha que não, mas o que o eleitor vê e ouve todos os dias não é aquele Conselho, nem os discursos cépticos de economistas sérios, nem a Oposição que ainda há pouco deprimia toda a gente por não prometer um futuro radioso. O que vê é o optimismo nas declarações oficiais, a taxa de desemprego que baixa, a paz nas ruas que a CGTP garante e os bancos que recomeçaram a dar crédito ao consumo.

Jogada de mestre. Tão de mestre que eu, se fosse comunista, começava a perguntar aos meus botões se não estava a pagar caro demais o apoio: as sondagens mostram que o PS sobe nas intenções de voto e Costa, se tiver uma maioria absoluta, não hesitará em reverter, à menor pressão europeia, as cedências que já fez aos bandos à sua esquerda, porque não tem mais norte do que seja o interesse público do que as galinhas, que entendem que aquele interesse é onde estiver o milho.

 

António Costa e Mário Centeno, na Assembleia da República. Foto: Gustavo Bom/Global Imagens

 

Entretanto, a dívida pública continua a derrapar. E suponho que os Centenos, Trigos Pereira, mais a vasta floresta de académicos e funcionários que servem o poder do dia, muito devem coçar as pensativas cabeças sobre como aldrabar este indicador, que não cola com o resto. Se houver alguma maneira, encontrá-la-ão. E têm para isso suporte teórico: não é verdade que a economia vive da confiança e das expectativas? Pois então, dourar os números é, bem vistas as coisas, quase um dever patriótico. Sê-lo-ia, também, o trabalho de explicar como é possível que a dívida pública cresça mais do que o défice, mas os economistas ditos de direita têm-se poupado, que eu saiba, a esse excessivo trabalho, decerto por não terem acesso a números que estão escondidos nalgumas gavetas.

Estamos assim. E como a população só vê ao perto, e não tem nem quer ter óculos para ver ao longe; como a Europa finge que é míope, porque corrigir as dioptrias causaria de momento alguma perturbação noutros órgãos; e como a comunistada ou foi apanhada na sua própria armadilha ou aposta que quanto pior a prazo, melhor:

Portugal hoje está um torpor, tanto que Costa pode talvez durar. Para mim, isto é uma grande maçada, não tanto por estar excessivamente preocupado com as futuras e garantidas desgraças dos meus concidadãos - têm o que merecem - mas porque me enganei.

A União Europeia, o PCP, o Bloco, a maioria dos eleitores e eu - somos muita gente a ser enganada. Este homem ou é um génio, ou um crápula, ou um crápula de génio.

Génio não creio, porque lhe falta esta estatura.

 

José Meireles Graça

(blogue GREMLIN LITERÁRIO)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 20.04.17

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 Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa, de Miguel Real

Prefácio de José Eduardo Franco

Ensaio

(Edição Planeta, 2017)

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Canções do século XXI (20)

por Pedro Correia, em 20.04.17

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Um editorial não é uma crónica. Convém que os membros da direcção de um jornal sejam os primeiros a não estabelecer confusões entre os dois géneros jornalísticos. Com clareza e rigor.

A crónica reflecte uma visão pessoal, necessariamente muito subjectiva e de preferência original sobre um tema qualquer à escolha do autor. Pode ser até sobre o bei de Tunes, para evocar o clássico exemplo de Eça de Queirós, quando era afectado por uma súbita crise de inspiração ou vogava num deserto de ideias. "Em Tunes há sempre um bei; arrasei-o", confessou o escritor, com óbvia ironia, em carta a Pinheiro Chagas.

O editorial, pelo contrário, reflecte a posição do próprio jornal. Não é escrito na primeira pessoa do singular e abarca uma gama mais reduzida de temas - debruçando-se de preferência sobre um dos assuntos dominantes da actualidade noticiosa do dia.

 

No editorial de hoje do El País podemos ler a posição do mais influente periódico espanhol sobre a rede de corrupção que afecta o PP madrileno. O editorial do Guardian pronuncia-se em termos críticos sobre a convocação de eleições legislativas antecipadas no Reino Unido, ontem anunciada por Theresa May. O editorial do Washington Post emite um forte juízo crítico sobre o recente referendo turco, ganho tangencialmente por Erdogan.

Por cá, nas direcções de jornais, há quem confunda editorial com crónica. Escrevendo sobre irrelevâncias na primeira pessoa do singular, confundindo opinião própria com opinião do jornal. Exemplo? Aqui vai um, também de hoje: «Como tantos outros portugueses, quando viajo numa estrada com três faixas tenho uma tendência quase irresistível para seguir pela do meio. Viajar na faixa central coaduna-se com a velocidade moderada a que conduzo e permite-me manter as opções em aberto.» Começa assim o editorial do i, assinado por José Cabrita Saraiva, "subdirector executivo" (passe a redundância).

Como se estivesse numa conversa de café, a cavaquear entre amigos.

 

Tanto se fala hoje na crise do jornalismo. Pois essa crise começa precisamente em pormenores como este: um membro da direcção de um jornal não fazer a mais remota ideia do que é um editorial. Num país que, noutros tempos, contou com uma Agustina Bessa-Luís, um Vitorino Nemésio, um David Mourão-Ferreira, um Francisco de Sousa Tavares, um Mário Mesquita ou um Vicente Jorge Silva entre os editorialistas da imprensa.

Vai um abismo entre uma época e outra.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 19.04.17

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 Deus Não Mora em Havana, de Yasmina Khadra

Tradução de Maria Carvalho

Romance

(Edição Bizâncio, 2017)

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Canções do século XXI (19)

por Pedro Correia, em 19.04.17

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Trair nem sempre é mau

por Pedro Correia, em 18.04.17

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Há muito tempo que um dos romances capitais do século XX, O Zero e o Infinito, não é reeditado em Portugal. Quando isso ocorrer, temo que suceda com esta obra-prima de Arthur Koestler o que tem acontecido com tantos filmes e tantos livros nos anos mais recentes: ser brindado com um anódino e insosso título de tradução literal, como agora é moda dominante, roubando toda a beleza poética da tradução simbólica.

Com isto quero dizer que certos títulos portugueses de obras de autores estrangeiros têm uma identidade própria, constituindo uma espécie de segunda pele da qual ninguém devia desapossá-los, sob pena de se repetir o sucedido com o romance Wuthering Heights, de Emily Brontë, que na clássica tradução portuguesa ficou imortalizado com um belíssimo nome: O Monte dos Vendavais. Traduções muito posteriores, e já contemporâneas, baptizaram-no das mais diversas formas – d’ O Monte dos Ventos Uivantes a O Alto dos Vendavais. Uma diferença tão gritante que nem é preciso assinalar qual destas versões é a melhor.

 

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Segundo um velho aforismo, “traduzir é trair”. Mas não necessariamente. A tradução pode até superar o original. No caso dos filmes, se é manifesto o mau gosto da versão brasileira d’ O Padrinho, de Francis Ford Coppola (a que os nossos irmãos de idioma chamaram O Poderoso Chefão), já Citizen Kane, de Orson Welles, melhorou na transposição para a nossa língua: O Mundo a Seus Pés é infinitamente superior a Cidadão Kane, que seria a tradução literal, pela qual neste caso os brasileiros optaram. E se é ridículo o nome com que o Brasil brindou The Sound of Music (A Noviça Rebelde), podemos dizer que o tradutor português também neste caso melhorou o título original, chamando-lhe Música no Coração.

Certos títulos célebres de filmes de Hollywood chegaram-nos, curiosamente, por influência francesa: foi o caso de O Comboio Apitou Três Vezes, que no original se chamava High Noon. Fez-se bem, em Paris e cá, em evitar a tradução literal. Em E Tudo o Vento Levou (Gone With the Wind, no original), o E Tudo faz muita diferença – para melhor. São inúmeros os exemplos de títulos portugueses que se sobrepuseram aos originais no cinema – de O Crepúsculo dos Deuses (para Sunset Boulevard, de Billy Wilder) a Os Amigos de Alex (para The Big Chill, de Lawrence Kasdan), que até cunhou uma expressão entretanto generalizada como emblema geracional.
Quem disse que um bom tradutor não pode criar?
 

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É por isso que receio a próxima versão portuguesa d’ O Zero e o Infinito (Darkness at Noon, no original), um livro que me marcou tanto. Não gostaria que lhe sucedesse algo semelhante a The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, que João Palma-Ferreira magnificamente traduziu para Uma Agulha no Palheiro e agora, com esta nossa mania de mudar o nome a tudo, se intitula À Espera no Centeio, o que não atrai ninguém. Ou a clássica Cabra-Cega, de Roger Vailland, entretanto denominada Jogo Curioso (alguém se convence que será esta a melhor tradução do Drôle de Jeu original?). Ou o consagrado Três Homens num Bote, de Jerome K. Jerome, agora crismado de Três Homens num Barco (mudança imbecil, como se um bote não fosse um barco).
Ou ainda o fabuloso O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, que na versão da Antigona (que até é uma editora de que gosto muito) se intitula A Quinta dos Animais. Eu sei que assim é mais fiel ao original. Mas quem elege a fidelidade como suprema virtude? Se assim fosse, o Alex nunca teria amigos...

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 18.04.17

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 A Rapariga de Antes, de J. P. Delaney

Tradução de Ester Cortegano

Romance

(Edição Suma de Letras, 2017)

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Canções do século XXI (18)

por Pedro Correia, em 18.04.17

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Convidado: ALEXANDRE BORGES

por Pedro Correia, em 17.04.17

 

O som da televisão aos domingos

 

De vez em quando, acontece uma pequena coisa que nos lembra quem somos.

Um tipo nasce um calhau, depois vai sendo esculpido e depois levam-no a passear, põem-no em exposição, tiram-lhe fotografias, penduram-lhe coisas ao pescoço, dão-lhe o suposto mundo, e, às tantas, uma pessoa já não sabe se é a pedra original, a estátua – por mais bruta ou primária – nela esculpida, ou tudo quanto lhe puseram em cima. É a diferença entre o excesso que se tirou e o supérfluo acrescentado.

Às vezes, esquecemo-nos, mas o que somos é o que está ali no meio.

Como tivemos a sorte de viver até ver o dia de hoje – e, tudo correndo bem, também o de amanhã – foi-nos pedido em contrapartida que tivéssemos bastante mais elasticidade do que aqueles que nos precederam. Viajaríamos mais, veríamos mais, leríamos mais, ouviríamos mais, provaríamos mais, conheceríamos mais – também tínhamos de compreender mais.

E assim me tornei um liberal. Acima de tudo, liberdade para todos. Liberdade para se ser quem se é, para se viver com quem se quiser viver, para viver do que se quiser até quando se quiser, e onde se quiser, com os líderes políticos que se escolheu, rezando ao deus que se ouviu ou julgou ouvir, assumindo a responsabilidade, sem outro poder qualquer sempre a intrometer-se no caminho entre um homem ou uma mulher e as suas escolhas.

 

Até que se me deu uma espécie de epifania.

Ao contrário do que talvez se esperasse, era auditiva, não visual, mas sucedeu num domingo, como convém. Estava este vosso escriba em casa, dividido entre a preguiça dominical, a metafísica dos afazeres da loiça e da roupa e um trabalho intelectual qualquer à espera de conclusão no computador aberto… quando ressoou pela casa, sereno e claro, o som da televisão ao domingo.

O som da televisão ao domingo emitindo para ninguém. Falando para o boneco na sala ou na cozinha. Dando filmes propositadamente escritos, financiados, interpretados e produzidos para serem emitidos ao domingo e, portanto, não serem vistos por ninguém. Ou por ninguém que esteja acordado. Ou ao menos sentado, olhando para eles. Televisão propositadamente feita para o tédio, a inutilidade, o sentimento de absurdo, o nada.

E, de repente, veio aquele conforto das velhas certezas. Do calor do sol do regresso a casa tocando-nos no rosto: sim, o que nós realmente somos é uns conservadorões sem remédio.

Debaixo dos adornos, a estátua, ou calhau polido, revelava-se: sim, ó cafés chiques que saem nas revistas, rooftops trendy no topo das pesquisas. Sim, ó turistas de toda a parte, gente de todas tribos trocando mimos entre todos os sexos, em todas as línguas. Bem-vindas ciclovias e piqueniques electrónicos, brunches para os retardados e delícias em versão fast food gourmet. Vinde, ó entretenimento portátil empacotado no smartphone, manias do running e inaugurações múltiplas. Vinde, que há lugar para todos, ó empreendedores, ó iniciativa privada, ó venture capitalists, ó startups, ó founders – a vida é vossa, mesmo que eu tema pelo dia em que se passe directamente de CEO a sem-abrigo.

 

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Bem-vindos todos, sem amargor nem ironia, mas há mesmo dias em que só apetece fugir de tudo e arrastar-se, no roupão mais coçado, pela casa, ao som da televisão de domingo. Fugir para o café mais banal, uma das 25 pastelarias de fabrico próprio todas iguais acerca das quais a Time Out nunca fará um artigo. Esconder-se no café mais banal do mundo, sem gente nem mundo nem nada particularmente que o recomende, só uma máquina de café e uma daquelas instalações artísticas feitas com garrafas de whisky e Porto e latas de iced tea na montra. Fugir para umas ruelas quaisquer, onde ainda se consiga ouvir o sino de uma igreja badalando ao domingo, não porque sequer se vá entrar na igreja, mas apenas para nos dizer que algumas coisas continuam lá, exactamente iguais ao que sempre foram, indiferentes à febre da estação. Fugir para um livro e um chá banal de infusão, para o que se é, mesmo que se esteja nos subúrbios do assunto, ou da moda, ou do nosso tempo. E não ter vergonha de o dizer segunda-feira. E bater palmas aos outros que não foram à inauguração e não estiveram no evento e não viram e não provaram. A Expo 98 acabou em 98 – já não precisamos todos de andar a recolher carimbos no passaporte para provar que se esteve e se viveu. Mesmo sabendo que o mundo agora já é da gente para quem esta referência não tem absolutamente sentido algum.

 

Respiro fundo e sorrio, reencontrado. Passam agora os créditos finais do filme que nunca vi e me parece ter salvo a vida. Encerrada a aparição, porém, um instante de sobressalto: como resolver aquela aparente esquizofrenia? Como conciliar o liberalismo adquirido com o conservadorismo inato? Um momento volvido, porém, o suspiro de alívio… Havia uma resposta.

Sou um liberal. Um liberal a toda a prova. Acredito que, no mundo, há lugar para todos os povos, todas as religiões, todas as gerações, todas as opções sexuais, para toda a gente. Até para nós, empedernidos, teimosos, intratáveis, irredutíveis conservadores.

 

Alexandre Borges

(blogue 31 DA ARMADA)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 17.04.17

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 Dois Povos Ibéricos, de Fèlix Cucurull

Tradução de Carlos Loures

Ensaio

(Reedição Guerra & Paz, 2017)

"A presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico"

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Canções do século XXI (17)

por Pedro Correia, em 17.04.17

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 16.04.17

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 Livro de Letras, de Vinicius de Moraes

Poesia

(Edição Companhia das Letras, 2017)

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Canções do século XXI (16)

por Pedro Correia, em 16.04.17

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 15.04.17

«Ele [António Mexia] dirá e fará o necessário para agradar ao accionista. Accionista que, não será exagero acreditar, tem o estado português (tem-nos a nós) tranquilamente nas mãos. De modo que é decerto muito natural que o despudor e a arrogância imperem paulatinamente. Desde os crimes ecológicos e paisagísticos que se conhecem, perpetrados em nome dessa diabólica divindade chamada construção civil e obras públicas, e demonstradamente sem outra utilidade efectiva que não a de servi-la, até à extraordinária desfaçatez revelada nessa frase.

Uma coisa, todavia, parece ser verdade: a habitação por cá tende a ser gelada de Inverno e um forno no Verão. Num país com um clima tão repetidamente gabado pela sua geral doçura (resta saber se merecidamente), cabe perguntar se as técnicas e materiais de construção não têm peso nisso.

Depois vem a carga fiscal e para-fiscal. Impostos, taxas e taxinhas (e a tal "promiscuidade", claro). Que não dará grande autoridade ao estado português (o poder de turno, entenda-se, seja ele qual for sempre insaciável) para, perante esta declaração, apontar com um mínimo de firmeza o dedo ao sr. Mexia. Admitindo - pensamento extravagante, evidentemente - que tal lhe passasse, ao estado português, pela cabeça.

O sr. Mexia diz e dirá, impante e triunfador, achando-se detentor da Verdade, o que lhe der na real gana. Porque pode fazê-lo.
A tempestade perfeita (e perene), portanto, para quem paga muito para passar frio.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste meu postal.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 15.04.17

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  1933 Foi um Mau Ano, de John Fante

Tradução de José Remelhe

Novela

(Edição Alfaguara, 2017)

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Canções do século XXI (15)

por Pedro Correia, em 15.04.17

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Todas as horas de um homem

por Pedro Correia, em 14.04.17

«Morrer por uma religião é mais simples do que vivê-la com plenitude; lutar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um acto é menos que todas as horas de um homem.»

Jorge Luis Borges, O Aleph

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 14.04.17

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 Hoje Estarás Comigo no Paraíso, de Bruno Vieira Amaral

Romance

(Edição Quetzal, 2017)

"Por decisão do autor, este livro mantém a grafia anterior ao Acordo Ortográfico"

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Deus feito homem da gruta à cruz

por Pedro Correia, em 14.04.17

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 O Cristo Amarelo, de Paul Gauguin (1889)

 

«Jesus chorou.»

João, 11-35 (o versículo mais curto da Bíblia)

 

A mensagem arrebatadora do Evangelho - e aquela que resume toda a essência do cristianismo - é a de um Deus que assume a plenitude da condição humana. Com os seus luminosos momentos de alegria, os seus lampejos de júbilo, as suas inevitáveis dores, a sua irrenunciável agonia. Como se a missão do criador ficasse incompleta sem esta experiência radical de abraçar por inteiro o ser débil, indeciso e angustiado que o barro divino moldou.

Até ao fim dos séculos, Jesus será inseparável da circunstância deste percurso terreno em que voluntariamente se irmana ao mais comum dos homens. Nasce pobre, numa gruta. Enaltece os humildes. Elege simples trabalhadores como discípulos. Rejeita sem vacilar o ilusório fulgor dos bens materiais. Perdoa os pecadores: «Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.» (João, 12-47). Enfrenta os fariseus com palavras tão actuais na manhã de hoje como há dois mil anos: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade.» (Lucas, 11-39). E não hesita em dar a mais humana das interpretações à pétrea Lei de Moisés: «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.» (Marcos, 2-27).

Condenado sem apelo nem recurso, renegado pelos seus, vilipendiado pela multidão que aclama Barrabás, confrontado perante a prepotência de Caifás e a cobardia moral de Pilatos, crucificado entre dois salteadores como um delinquente pelo crime de blasfémia. Deus feito homem num mundo de homens que sonham ser deuses.

Pouco antes confessara aos discípulos em Getsemani que sentia «uma tristeza de morte». E ali mesmo implora numa prece que poderia brotar da voz interior de qualquer de nós: «Pai, tudo Te é possível, afasta de Mim este cálice!» (Marcos, 14-36).

Um cálice que, no entanto, beberá até ao fim. Imerso na condição humana da gruta à cruz.

 

Texto reeditado

 

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Canções do século XXI (14)

por Pedro Correia, em 14.04.17

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Frases de 2017 (14)

por Pedro Correia, em 13.04.17

«A electricidade não é cara, as casas é que estão mal construídas.»

António Mexia, presidente da EDP

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O trágico destino dos escritores

por Pedro Correia, em 13.04.17

Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão.
Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Essenin, Vladimir Maiakovski. E Stefan Zweig, Primo Levi, Emilio Salgari, Yasunari Kawabata, Arthur Koestler, Paul Nizan, Yukio Mishima, Sándor Márai, Reinaldo Arenas, David Foster Wallace – acrescento eu.
No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca, Miguel Rovisco.
Outros houve, outros há.
 
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
 
Texto reeditado e ampliado

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 13.04.17

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 Obra Completa, 1969-1985, de Nuno Bragança

(Reedição D. Quixote, 2.ª edição, 2017)

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Ler

por Pedro Correia, em 13.04.17

O estado dos cientistas. Do José Pimentel Teixeira, no Courelas.

Guia de tipos de posts do Facebook. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Amizade. De Maria do Rosário Pedreira, no Horas Extraordinárias.

Se eu soubesse como se dá um beijo. Do Manuel S. Fonseca, no Escrever é Triste.

Sobre esferas. Do Luís Robalo, no Redondo Vocábulo.

Menina e Meças. De Rui Ângelo Araújo, n' Os Canhões de Navarone.

Finalistas. Do Henrique Fialho, na Antologia do Esquecimento.

As 25 fotos da Argentina que mais me marcaram. De João Freitas Farinha.

Um dia vou descobrir. Do Nelson Reprezas, no Espumadamente.

O futuro mesmo ali à esquina. Da Vanita, na Caixa dos Segredos.

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Canções do século XXI (13)

por Pedro Correia, em 13.04.17

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Sempre ao lado dos ditadores

por Pedro Correia, em 12.04.17

O PCP votou na Assembleia da República contra a condenação do uso de armas químicas na Síria, colocando-se assim ao lado do ditador Assad.

É de assinalar, esta linha de rumo dos comunistas portugueses. Sem "desvios burgueses", sem brechas na muralha.

 

Já em Dezembro de 2016 tinham alinhado com a ditadura de Assad quando foram a única bancada parlamentar a opor-se em São Bento a um voto de condenação dos bombardeamentos e outros crimes contra a população civil praticados na cidade de Alepo.

Já em Novembro de 2014 o partido liderado por Jerónimo de Sousa recusara subscrever um voto de congratulação pelo 25.º aniversário do derrube do Muro de Berlim.

Já em Fevereiro de 2014 o grupo parlamentar do PCP se isolara das restantes forças parlamentares ao negar-se a  condenar os crimes contra a humanidade cometidos pelo regime totalitário da Coreia do Norte.

Já em Dezembro de 2011 a bancada comunista se mantivera fiel à cartilha ideológica, isolando-se na rejeição de um voto de pesar pelo falecimento do escritor e dramaturgo Vaclav Havel, ex-preso político da ditadura comunista em Praga e primeiro Chefe do Estado da República Checa democrática.

 

Sempre ao lado de regimes tirânicos, sempre contra quem os combate: assim se vê a coerência do PCP.

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Já li o livro e vi o filme (180)

por Pedro Correia, em 12.04.17

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PAPILLON (1969)

Autor: Henri Charrière

Realizador: Franklin Schaffner (1973)

Narrativa autobiográfica de um ex-recluso na infame Ilha do Diabo (Guiana Francesa). O livro foi campeão de vendas e o filme prolongou-lhe a fama num merecido êxito de bilheteira. Com Steve McQueen e Dustin Hoffman no elenco.

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Convidada: CRISTINA NOBRE SOARES

por Pedro Correia, em 12.04.17

 

Zé Inácio

 

Zé Inácio fazia por estar de bem com todos. Que ele não andava neste mundo para fazer zaragatas, até para garantir que não levava ressentimentos para onde fosse depois de morrer. Já basta a alma de uma pessoa andar a penar, quanto mais estar de mal com as outras uma eternidade inteira. Por isso quando lhe perguntavam a opinião sobre alguma coisa, fosse sobre uma zanga de extremas ou sobre uma notícia no jornal, safava-se sempre com um sorriso, que os outros tomavam por franco, ou com um provérbio popular que, mesmo que não viesse a propósito, soava sempre a sabedoria da velha, daquela que não se compromete com nada.

Esta maneira esquiva de estar na vida ganhou-lhe a fama de homem de tino e juízo certo. Que é uma coisa diferente de bom homem, que tino e o saber viver nem sempre andam a paredes meias com a bondade, pois quem sabe viver é esperto e os espertos sabem que bondade a mais é coisa de gente tonta.

Diziam os outros que ele era um homem de juízo certo e sem vícios. Fama que ele cuidava que nunca se manchasse, que um homem sem vícios tem sempre mais razão que os outros, mesmo que não tenha razão nenhuma. E por isso Zé Inácio desde cedo, porque nascera velho, cuidou com esmero sobre o que dele pensavam, pois sabia que a verdade que se conta acerca de um homem nem sempre é o que realmente se passou, mas mais o jeito de como disso se fala. E assim garantia que a verdade que os outros contavam dele seria sempre boa. Zé Inácio fazia por estar de bem com todos, porque não andava nesta vida para arranjar zaragatas mas acima de tudo porque acreditava que mais importante que a vida que realmente se vive é a vida que de nós se fala e conta.

 

Cristina Nobre Soares

(blogue EM LINHA RECTA)

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 12.04.17

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 Diário dos Imperfeitos, de João Morgado

Romance

(Edição Casa das Letras, 2017)

"O autor escreve de acordo com a antiga ortografia"

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Canções do século XXI (12)

por Pedro Correia, em 12.04.17

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Pelo Aeroporto Sacadura Cabral

por Pedro Correia, em 11.04.17

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 Artur Sacadura Cabral (1881-1924)

 

Corre de momento por aí uma petição pública para que o futuro aeroporto do Montijo, adaptado a voos comerciais, receba o nome de Artur de Sacadura Freire Cabral, um dos pioneiros da aviação portuguesa. Contrariando o impulso do Presidente da República, que sem consultar ninguém se apressou a sugerir o nome do antigo Presidente da República Mário Soares.

Estou plenamente de acordo com esta homenagem a Sacadura Cabral, que com Carlos Viegas Gago Coutinho fez em 1922 a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, unindo Portugal ao Brasil. Aliás os brasileiros preservam com carinho a memória destes dois aviadores, que tão esquecidos têm sido cá na terra - sobretudo Sacadura Cabral, que em Lisboa dá apenas nome a uma artéria secundária, entalada entre o Campo Pequeno e a Avenida de Roma.

"O futuro Aeroporto do Montijo, situado na actual Base Aérea N.º 6 da Força Aérea Portuguesa, do ponto de vista histórico terá toda a lógica chamar-se de Aeroporto Sacadura Cabral, pois aquando do tempo da Aviação Naval (1917-1952) que aqui operava chamava-se a nível oficial Centro de Aviação Naval Comandante Sacadura Cabral. O planeamento e as suas obras foram conduzidos pela nossa Marinha desde os anos 30, que culminaram na sua inauguração e baptismo com o nome deste intrépido aviador naval. (...) Assim, perante os factos históricos, seria de boa justiça dar novamente o seu nome inicial de Sacadura Cabral ao futuro Aeroporto do Montijo", refere o texto da petição.

Que naturalmente já subscrevi.

 

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Monumento de homenagem a Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Recife (Brasil)

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291 visualizações por hora

por Pedro Correia, em 11.04.17

Ao longo do dia de ontem, recebemos no DELITO DE OPINIÃO 5093 visitas e 6974 visualizações.

Média: 291 visualizações por hora.

Prossegue a tendência do nosso blogue, neste nono ano de existência, em afirmar-se como um dos mais lidos pelos internautas portugueses. Nos últimos doze meses, recorde-se, registámos 761.180 visitas e 1.175.926 visualizações.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 11.04.17

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 El-Rei Junot, de Raul Brandão

Narrativa histórica

(Reedição Guerra & Paz, 2017)

"A presente edição não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico"

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Canções do século XXI (11)

por Pedro Correia, em 11.04.17

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Da igualdade e da liberdade

por Pedro Correia, em 10.04.17

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Há quem enalteça a igualdade como o valor mais nobre da democracia. Mas um relance pela história dos últimos decénios demonstra que isso não corresponde à verdade.

Em nome da igualdade foram cometidos alguns dos maiores crimes do século XX. O extermínio de pequenos agricultores russos e ucranianos que não se submeteram à norma "igualitária" da Revolução de Outubro. O internamento em campos de "reeducação", a humilhação pública e as sevícias que desabaram sobre o embrião de classe média nos anos desvairados da pseudo-Revolução Cultural na China maoísta. A igualdade utópica erigida em dogma supremo que justificava os mais cruéis anátemas, como a liquidação de qualquer indivíduo que usasse óculos – esse absurdo símbolo de uma cultura "decadente" – no Camboja sujeito à mão de ferro de Pol Pot.

 

Depois das escabrosas experiências de engenharia social feitas pelos maiores tiranos apostados em garantir a "igualdade", o termo passou a ser um dos mais corrompidas da nossa época.
George Orwell tornou bem evidente esta irremediável corrupção lexical, em que a palavra serve apenas de camuflagem para ocultar o seu significado oposto, na mais corrosiva fábula política de todos os tempos – O Triunfo dos Porcos (Animal Farm, 1945), quando se torna inequívoco, aos olhos de todos os animais que habitam a quinta, que “uns são mais iguais do que os outros”. Precisamente os que integram a camarilha triunfante, formando uma nova classe – igualitária no verbo, despótica no mando.
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Ao contrário do que supõem algumas boas almas, o valor mais nobre da democracia não é a igualdade – é a liberdade. A "igualdade", como já se viu, pode coexistir com a mais aberrante ditadura (reina a "igualdade", por exemplo, entre todos os prisioneiros num campo de concentração).
Mas nunca haverá democracia sem liberdade. Não pode haver.
“A liberdade é preciosa – tão preciosa que deve ser racionada”, assegurou Lenine, numa das maiores proclamações de cinismo político de que há memória. Mas que é também uma notável - embora involuntária - homenagem do fundador do Estado soviético a essa aspiração suprema da condição humana que é a liberdade. Que só mantém o seu valor facial quando é aplicada sem racionamentos.
Até contra a igualdade, se for preciso.

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Sugestão: um livro por dia

por Pedro Correia, em 10.04.17

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 A Construção do Vazio, de Patrícia Reis

Romance

(Edição D. Quixote, 2017)

"Este livro segue a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico"

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