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Francisco José Viegas escreve hoje no seu blog / crónica no CM sobre o juiz que decide defender o homem viril e conta um episódio que, infelizmente, não é ficção. A nossa justiça anda assim, ou melhor, não anda, está assim. É a injustiça, pura e simples. Ora leiam: "Vejamos: em 2011, uma mulher acusou o marido de violência doméstica (e de violação), além de infligir maus-tratos físicos e psicológicos às três filhas. Diante disso, o tribunal condenou-a por difamação, considerando que a mulher, está na cara (com nódoas negras), agiu com o "propósito de difamar e caluniar" o marido, já que as suas acusações são atentatórias (ui, ui) do "bom nome, hombridade, reputação e decoro" do cavalheiro. De acordo. E mais: como não concordar que se trata de "suspeições desprimorosas"? Evidentemente que são. Nojentas. E como não concordar com o tribunal ao considerar que essas "suspeições" põem em causa a "honorabilidade, consideração, honra e dignidade" do marido? Parece, inclusive – que horror –, que ele passou a ser tratado com ‘comentários e olhares vexatórios’, o que não se pode permitir. Os tribunais têm de defender a honra destes maridos viris. Curiosamente, o tribunal, que condenou a malvada (à primeira), não considera falsas as suas acusações; simplesmente são chatas para o marido. A Relação de Guimarães veio agora anular a sentença. Pobre marido."

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Tudo na mesma (II parte)

por Patrícia Reis, em 29.12.16

Depois de ter publicado um texto a propósito da capa do Público e seus cronistas homens, recebo um comentário (de alguém que não se identifica, pois o que seria?) que reza assim:

....quanto recalcamento que por aqui vai....arranje uma vida!


É por estas e por outras que, às vezes, me apetece mandar tudo às urtigas e esquecer que as redes sociais podem ser um lugar para debate de ideias. As pessoas não querem debater nada, não pessoas como este Me (assim se designa a criatura que pode ser de ambos os sexos, não é verdade?), pessoas assim só querem ofender. Pois, eu cá não me ofendo com pessoas que não existem. E agora?

Nada. Não se passa nada. Hoje a revista Sábado tem uma capa com 6 homens que também têm coisas para dizer sobre 2017, a média de idades destes senhores, brancos, de formação dita clássica, etc e tal, é superior a 75 anos, mas isso não tem qualquer importância. Ou terá?

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Tudo na mesma

por Patrícia Reis, em 28.12.16

O jornal Público só encontrou os cronistas do costume para dizerem de sua justiça sobre 2017 e colocou as fotografias dos senhores na primeira página. Não existem mulheres dignas desse nome? Parece que não. É certo que os tempos são outros, que temos mulheres ministras, procuradoras, já tivemos uma presidente da assembleia da república, mas ainda são excepções. Compõem o quadro, é tudo. As mulheres em Portugal - e no mundo - não são tratadas com sentido de paridade. Não se discute se temos alma, como na Idade Média; assume-se que não temos nada para dizer e, por isso, as mulheres não são cronistas com honras de primeira página, raramente se eternizam em programas de debate com eixos, círculos e outras figuras geométricas. Também é preciso dizer que quando se pensa que uma mulher que atinge um determinado cargo irá lutar para uma maior visibilidade das mulheres, o efeito é o contrário, para não melindrar, para não serem acusadas de mulherzinhas. Ou pior, de feministas. Conclusão? Tudo na mesma. Nem mesmo as mulheres que conseguem ter poder escapam à misoginia.

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terapia e natal

por Patrícia Reis, em 25.12.16

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José Luis Peixoto

por Patrícia Reis, em 24.12.16

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Fernando Pessoa

por Patrícia Reis, em 24.12.16

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés. 

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Clarice Lispector

por Patrícia Reis, em 16.12.16

Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser...
Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!!
Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você... O que pensa disso?


Que desafio, hein?
"... Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la..."

Perto do Coração Selvagem - p.55

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Hilda Hilst

por Patrícia Reis, em 14.12.16

Hoje

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo.

E que descanso me dás

Depois das lidas.

Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

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Manoel Bandeira

por Patrícia Reis, em 11.12.16

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

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O dia da Mãe

por Patrícia Reis, em 08.12.16

Para a minha mãe, para a minha avó e para mim, este é o dia da mãe. Não nos corre bem desde há uns anos, porque essa coisa em Maio veio tramar a malta e os filhos, de cada uma, tendem a esquecer-se do dia 8 de Dezembro, para mais quase em cima do Natal. Assim, temos um acordo que nos une, celebramos nós, telefonamos e festejamos. Para quem estiver connosco, pois tenham um feliz dia da Mãe.

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A nossa Helena faz anos!

por Patrícia Reis, em 07.12.16

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Hilda Hilst

por Patrícia Reis, em 17.11.16

"Eu adoraria estar apaixonada sempre. A minha mãe dizia uma frase que eu nunca esqueci: 'Tens um inimigo, deseja-lhe uma paixão'. Eu não entendia o que ela queria dizer, mas agora eu entendo. A paixão é uma doença mesmo, uma doença total. E eu gostaria de, velha, ter uma paixão, de me apaixonar."

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Manuel António Pina

por Patrícia Reis, em 20.10.16

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.”

Cuidados Intensivos (1994)

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blogue da semana

por Patrícia Reis, em 16.10.16

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Do princípio ao fim (13)

por Patrícia Reis, em 05.10.16

“Viu a Selva da sua vida e viu a Fera a espreitar; então, enquanto olhava, viu-a, como numa agitação do ar, erguer-se, enorme e horrenda, para o salto que o iria aniquilar. A vista escureceu-lhe — estava próximo. E, voltando-se instintivamente, na sua alucinação, para a evitar, mergulhou de cara para baixo sobre a campa.”

A Fera na Selva, 1903

 

Caríssimo Senhor Henry James
 
Escrevo-lhe ao chegar da tarde do primeiro dia de Outono. O sol mostrou-se em Lisboa com alguma timidez, mas apesar disso, rejubilámos. A casa está em silêncio e é oportuno deixar-lhe estas linhas agora antes que os afazeres diários me atropelem e perca esta possibilidade.
Tenho o seu livro na minha mesa de cabeceira há mais de vinte anos. Não sei quantos exemplares já ofereci, na verdade poucos, não conheço muitas pessoas com vontade de chegar a esta elevação. Chamo-lhe elevação porque, de certa forma, a “Fera”, como carinhosamente é conhecida aqui em casa, só ataca alguns e, quando o faz, é de forma quase letal. Fica connosco. Podia ter na mesa de cabeceira outros – e tenho – porém o seu livro, este livro, é diferente. Serve-me como memória e espelha um exemplo. Todos os dias o encaro com desânimo ou entusiasmo. Depende do que me acontece.
Quererá saber porquê. Sei que gosta de uma boa história e que é um ouvinte treinado para as miudezas do mundo, essas que, porventura, utilizou para a ficção e para a dramaturgia. Esqueçamos a dramaturgia? Certo, o fracasso nunca é de louvar. Posso garantir-lhe que o desapontamento que sofreu nos palcos de Londres e arredores, no seu tempo, não são verdades de hoje. Os seus livros tornaram-se filmes, as suas peças encenam-se amiúde. Quer saber se o mesmo se passa com Oscar Wilde? Vejo que o trauma permanece. Oscar Wilde, como quase todas as figuras capazes de fugir ao padrão da época, era irresistível ao grande público. Para si não o seria. Compreendo. Deixemos isso, então. Voltemos à “Fera” e à razão que me leva a escrever-lhe.
Convivi estes anos todos com o seu John Marcher e a sua amiga, a senhora May Bartram. Por vezes, acontece-me regressar à história deste desencontro e aprendo sempre alguma coisa. Marcher serve-me de modelo: um homem que viveu a vida pela metade, convicto de que estava destinado a algo maior, incapaz de amar e reconhecer esse amor. “A solução teria sido amá-la; então, e só então, ele teria vivido”, conclui quase no fim da “Fera”. A pequena lombada que vislumbro da minha cama recorda-me que tenho de estar atenta às coisas do mundo, à “expressão dos afectos” à minha volta, aos que se aproximam e ficam. Se calha a sofrer do síndrome de Marcher, como lhe chamo, penalizo-me de forma brutal. É fácil ser-se egocêntrico, viver na permanente admiração do nosso umbigo. Perdoe-me, não será uma expressão do seu tempo. Seja como for, vejo a “Fera” e tento redimir-me. Em vez de me encolher na minha convicção de justiça e grandeza, procuro desfazer-me e estar disponível. Não como May Bartram, repare, porque o excesso de amor não me convêm. Ou melhor, não convêm a este século XXI. Nunca senti qualquer espécie de piedade por May Bartram, sempre a considerei altruísta e magnânima nos seus sentimentos, contudo demasiado contida para o meu gosto. Se fosse eu, teria gritado o meu amor por Marcher, teria sofrido mais e a amizade terminaria, estou certa. Quando li a sua história pela primeira vez, Senhor James, chorei e continuo a chorar.  
É-me incompreensível a ideia de paixão e a sua conjugação com a frieza e a distância: como é que podem conviver no mesmo tempo e espaço? Como é que gestos delicados e despojamento não são entendidos como entrega total? O amor está em desuso. As relações entre as pessoas não são, em nada, similares às do seu tempo. Há uma liberdade que nos é agradável e uma quebra de regras de cavalheirismo que, decerto, teria dificuldade em aprovar. Pouco importa, porque a sua “Fera” quando ataca um leitor dos dias de hoje permanece com a mesma força de sempre. Espero que isso lhe traga algum contentamento.
Passei a entender John e May de outra forma depois de ler “Autor, autor” de David Lodge, um inglês, como o senhor. Sim, peço desculpa, o senhor pediu a nacionalidade depois da Primeira Guerra Mundial como forma de solidariedade para com os Aliados. Ao mesmo tempo, acredito que ser norte-americano não estivesse de acordo com a sua natureza. Não sei porque lhe escrevo isto, se me engano, peço desculpa. O livro de Lodge é-lhe dedicado. O senhor, tão discreto e sedento da sua privacidade, não gostaria da biografia ficcionada que este escritor imaginou, partindo apenas do pouco que se sabe. O livro começa com duas epígrafes, uma delas sua, retirada do livro “Middle Years” e reza assim: “Trabalhamos no escuro – fazemos o que podemos – damos o que temos. A nossa dúvida é a nossa paixão e a nossa paixão é o nosso trabalho. O resto é a loucura da arte”. Fui à procura deste livro e, como aconteceu com os restantes, devorei-o palavra por palavra. É um texto que podia, de certa forma, ter sido escrito ontem. Leio qualquer obra assinada por si como se tivesse sido escrito para mim, lamento a ousadia. Ao mesmo tempo, percebi que a sua devoção à Literatura e o seu temor pelas questões financeiras - sempre difíceis, sempre actuais - o afastou de uma vida em pleno.
 Com o livro de David Lodge aprendi muito e comecei a vê-lo, a si, caro James, como outra personagem, se quiser mais próximo de John Marcher. Não fiquei desapontada, não se preocupe. Apenas entendi melhor a sua forma de estar. O alheamento face às coisas da vida, as coisas comuns. Descobri May Bartram em Constance Fenimore Woolson. Não se ofenda. Não o culpabilizo pela morte de Constance, mas julgo que só a sua amizade o poderia ter levado a escrever a “Fera”. É um símbolo, uma metáfora da sua relação com Constance, não é? Escusa de responder. Não sou a primeira a especular sobre a vossa amizade, não serei a última.
Ao contrário do que antevia, o senhor é estudado e lido à exaustão. O que não sucedeu então, vive-se agora.  

Jorge Luís Borges, um escritor que não teve ocasião de ler, compilou uma colecção de literatura fantástica e dedicou um volume inteiro à sua obra. Chamou-lhe, como um dos seus contos, “Os Amigos dos Amigos”. No prefácio desse volume, Borges considera-o, caro James, tão grande quanto Kafka, Kipling ou Tolstoi. Diria que, no mínimo, há um conforto neste sucesso póstumo porque a forma única de observação da sociedade, os enredos que congeminou e toda a sua arte, a sua paixão, deixam eco na história da Literatura.
Na minha primeira viagem a Veneza procurei a casa que Constance alugou, os cafés que frequentaram, visitei a Academia e os Ticianos. Pensei muito em si. Sei o quanto gostava de Itália. Compreendo agora como fugiu a uma viagem para não se confrontar com a sua amiga. Tenho procurado as obras dela, especialmente “Anne” de 1880, mas sem qualquer sucesso. Talvez não tenha pesquisado com o afinco devido. Confesso-lhe a minha imensa curiosidade. Não o acuso de inveja, já que ela teve algum êxito e vendas significativas numa época em que o senhor sofreu diferentes golpes terríveis. Não lhe escrevo para defender Constance. Contudo, depois de entender a relação que mantiveram ao longo dos anos, o facto de nenhum dos dois ter casado, e do senhor ter queimado a correspondência que trocou com ela, obrigando-a ao mesmo gesto, acredito que a “Fera” possa ter outro significado. Quer isto dizer que o senhor foi incapaz de amar? A paixão que o tomou foi a da Literatura e por ela abdicou de tudo o mais. Estou certa? Mais uma vez, não precisa de me responder.

Aguça a minha curiosidade o facto de saber que se encarregou a tempo de fazer desaparecer provas e pistas sobre a sua vida, a sua intimidade. Receava o quê? O escrutínio público e a devassa que tanto afectaram o seu contemporâneo e suposto rival, Oscar Wilde? Duvido. Estou convicta de que a sua personalidade assentava numa ideia de representação ou, se preferir, de efabulação da realidade, sem se confundir com as suas personagens, resguardando-se numa imagem discreta, elegante, sem ser sinuosa. Faz-me lembrar uma lição de outros tempos em que era pequenina: disse-me, então, o meu tio-avô, seu devoto, que nunca temos a percepção do que somos porque só nos vemos ao espelho. Só os outros é que nos vêem como somos, vêem as nossas acções, os nossos gestos, percebem a nossa linguagem corporal antes de nós. São os nossos olhos. A esta luz, pergunto-me se o senhor não quereria o sucesso literário, o reconhecimento público, o respectivo encaixe financeiro e ainda, e sempre, uma imagem de algum mistério. Ficaram famosas as suas queimadas, milhares de documentos que hoje fariam com que a sua história fosse possível de percorrer. Estamos no fio de arame, sem rede, no domínio da especulação, até certo ponto. É pena, garanto-lhe.
Não se preocupou com a efemeridade da sua obra e - deixe-me dizer-lhe - fez mal. Restam-nos os vinte romances que escreveu, cento e doze contos, doze peças de teatro e, ainda, alguns artigos de crítica literária. É pouco, terá de concordar.  Por outro lado, a sua aposta alta na Literatura rendeu. Antes de morrer, sem condições de tal cerimónia, foi-lhe entregue a Medalha de Ordem de Mérito de Sua Majestade. Estou certa de que se a lucidez permitisse, o gesto seria uma espécie de conclusão e conquista final. O senhor, caro James, não passou impune neste mundo. Quem sabe se passará nesse onde agora está. Como me disse uma vez Agustina Bessa-Luís, uma escritora portuguesa que acredita ser mais conhecida do que lida, daqui lhe mando um aceno de cabeça e lhe agradeço a gentileza de ter escrito para mim. Egoisticamente é o que me ocorre. Espero que não me leve a mal.
Cumprimentos.

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Al Berto

por Patrícia Reis, em 22.09.16



se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

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Agustina Bessa-Luís

por Patrícia Reis, em 21.09.16

A paz não tem figura nem desejo absoluto; viver em paz não é viver; (...) a paz é um absurdo, como a realidade concreta é um absurdo que é preciso recriar para que se torne afecto do homem, obra sua.

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Arturo Pérez-Reverte

por Patrícia Reis, em 13.09.16

Amanhã, no âmbito do FIC (Festival Internacional de Cultura), entrevistarei Arturo Pérez-Reverte, ele que é o escritor espanhol mais traduzido (40 países), com cerca de 17 milhões de livros vendidos. Passei o verão a ler e a reler a sua obra, terminando com o novo livro Homens Bons (edições Teorema), uma aventura no século XVIII e, a propósito, várias considerações filosóficas da época sobre a luz e as trevas, a razão e a ciência, a fé e a religião, e até as mulheres e as suas coisas. Pérez-Reverte é um dos nomes grandes da Literatura e é, sobretudo, um homem livre, para muitos politicamente incorrecto, para outros corajoso e lúcido na forma como vê o mundo. Repórter de guerra durante 21 anos, este autor dedicou-se aos livros e à navegação, as duas artes que o salvaram. Será uma conversa e tanto e tenho quase a certeza de que falaremos de História, de memória (ou da falta dela), de xadrez, barcos e livros, muitos livros. Por isto e mais, tragam o corpo. É às 22h00 na Casa das Histórias Paula Rêgo em Cascais.

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Mia Couto

por Patrícia Reis, em 13.09.16

 

Estou
E num breve instante
Sinto tudo
Sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
E despeço-me de mim
Para me encontrar
No próximo olhar.

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão .

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos

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Carlos Drummond de Andrade

por Patrícia Reis, em 12.09.16

Era manhã de setembro

e

 ela me beijava o membro

 

Aviões e nuvens passavam

coros negros rebramiam

ela me beijava o membro

 

O meu tempo de menino

o meu tempo ainda futuro

cruzados floriam junto

 

Ela me beijava o membro

 

Um passarinho cantava,

bem dentro da árvore, dentro

da terra, de mim, da morte

 

Morte e primavera em rama

disputavam-se a água clara

água que dobrava a sede

 

Ela me beijando o membro

 

Tudo o que eu tivera sido

quanto me fora defeso

já não formava sentido

 

Somente rosa crispada

o talo ardente, uma flama

aquele êxtase na grama

 

Ela a me beijar o membro

 

Dos beijos era o mais casto

na pureza despojada

que é própria das coisas dadas

 

Nem era preito de escrava

enrodilhada na sombra

mas presente de rainha

 

tornando-se coisa minha

circulando-me no sangue

e doce e lento e erradio

 

como beijara uma santa

no mais divino transporte

e num solene arrepio

 

beijava beijava o membro

 

Pensando nos outros homens

eu tinha pena de todos

aprisionados no mundo

 

Meu império se estendia

por toda a praia deserta

e a cada sentido alerta

 

Ela me beijava o membro

 

O capítulo do ser

o mistério de existir

o desencontro de amar

 

eram tudo ondas caladas

morrendo num cais longínquo

e uma cidade se erguia

 

radiante de pedrarias

e de ódios apaziguados

e o espasmo vinha na brisa

 

para consigo furtar-me

se antes não me desfolhava

como um cabelo se alisa

 

e me tornava disperso

todo em circulos concêntricos

na fumaça do universo

 

Beijava o membro

beijava

e se morria beijando

a renascer em setembro

 

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Sophia de Mello Breyner Andresen

por Patrícia Reis, em 09.09.16

Noites sem nome, do tempo desligadas,
Solidão mais pura do que o fogo e a água,
Silêncio altíssimo e brilhante.

As imagens vivem e vão cantando libertadas
E no secreto murmurar de cada instante
Colhi a absolvição de toda a mágoa.

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Rainer Maria Rilke

por Patrícia Reis, em 07.09.16

O Poeta

Afasta-te de mim, ó hora.
O bater de tuas asas faz-me feridas.
Mas: que hei-de eu fazer da minha boca agora?
e do meu dia? e das noites compridas?

Não tenho amada, nem casa,
nem lugar onde viva.
As coisas, a que a minha alma se casa,
enriquecem e gastam a alma viva.

 

in Poemas. Trad.: Paulo Quintela. Editorial O Oiro do Dia)

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Fúria

por Patrícia Reis, em 02.09.16

 

Há aquele momento estranho que antecede a chegada. Há um barulho nas escadas, a porta do elevador, os passos na laje. Um aperto, uma quase dor. Prevendo o pior, ainda na esperança do melhor, ela deixa-se estar de costas para a porta, na cozinha, a barriga húmida da água que escoa do lavatório. Depois há duas hipóteses: ou ele se chega, bem disposto, a mão na porta do frigorífico, e uma frase qualquer, desgarrada, como se estivessem a falar há muito; ou a mão na porta do frigorífico e o silêncio a romper o gelo no copo alto. Um aperto, uma quase dor.

São segundos que definem a noite. Manchas de peso que alastram pela casa, propagando a aflição no peito, o bater do coração descompassado, deslocado, a meio do pescoço, prestes a deixar o corpo. Se o coração não estivesse preso, embrulhado nas cordas e no tubo de dez centímetros que é a traqueia, talvez conseguisse gritar. Um grito por ela, de terror por aguentar, de aviso, de guerra. Mas ela está assim, interdita, as mãos na água, as pulsações a contabilizar o medo e o medo a dominar tudo.

Julga-se protegida por não terem tido filhos. Seria pior. Tenta acreditar nisso. Muitas vezes acredita. Defende-se sem habilidade quando lhe perguntam porque é não tiveram, porque é que não cumpriu o seu papel, a coisa grandiosa da maternidade que confere sentido de vida mesmo ao que não terá nunca sentido. Para a esquerda? Para a direita? Como definir um sentido? As pessoas encaram-na com uma certa pena. Como se não fosse mulher o suficiente, como se dependesse dela. Nessas ocasiões sorri e olha para longe e espera que passe, sabendo de antemão que falta uma resposta e que do seu silêncio nascerá apenas desconforto, constrangimento e, por fim, outra vez pena.

Ele não julga nada porque a vida não lhe ensinou isso. Ensinou-lhe as coisas básicas da sobrevivência: o trabalho é para trabalhar. Um homem não deixa e não faz um rol de coisas que não importa agora nomear. Um homem fuma e bebe, não chora nem pede. Paga as contas e verifica o dinheiro. Fecha a porta da casa de banho. Sempre. Compra roupa uma vez por ano. Usa o mesmo tipo de sapatos. Arranja as coisas em casa. Procura não pensar. Nada de sonhos, nada de fantasias.

 

Larga essas revistas, que porra!

 

Ela sonha com as extensões de cabelo da apresentadora do concurso da televisão; sente as dores da outra que foi trocada pelo marido seis meses depois de um casamento majestoso numa quinta qualquer; comove-se com o nascimento da modelo; tenta imitar a actriz da telenovela da noite. Tudo isto antes de fazer o jantar, as revistas escondidas do olhar dele. A mesa está posta e ele arrasta-se com o copo na mão até ao sofá gasto. Ela atreve-se

 

Um dia vou mudar de sofá.

 

Nem penses, este já tem o buraco do meu cu.

 

São coisas assim. Coisas que a limitam, aprisionam, desfiguram. Ele torna-a um conjunto de coisas sem nome. Ela sabe e sabe melhor quando vê as horas a serem comidas pelas telenovelas e o ouve roncar de álcool no sofá. A cozinha está arrumada, não lhe resta mais nada, a luz da televisão a engolir-lhe a tristeza e ela a perder a noção de si, pronta para ser uma princesa, alguém outro que ninguém conhece. Uma mulher, por fim.

Nessa sexta-feira fazia calor. Era tarde. Não lhe apetecia carregá-lo para a cama, ouvi-lo na sua voz empastada a dizer asneiras, a chamar-lhe nomes, a agressividade nos olhos, os gestos de guerra, a guerra dos dois. Quando começou? Já nem se lembra. Um dia, a mão no frigorífico, o gelo e o copo, sempre o mesmo copo. Começou assim e não importa se foi ontem ou há dez anos porque nada mais mudou. Há uma sucessão de desenganos e pequenas tristezas que convergem lentamente para um final que ela entende como um castigo: a mão no cotovelo dele a endireitar o corpo, rumo ao quarto, a mão dele na blusa dela, os dedos grossos

 

Nunca foste boa. Podias ser boa.

 

O corpo dele, por fim, na colcha de salmão brilhante e os sapatos a não querer sair, as calças a prender, a força de o levantar um pouco mais, ele a gritar

 

Deixa-me estar, porra.

 

Ela, paciente, silenciosa, a trabalhar com as mãos, os botões da camisa, o fecho do casaco de malha. As coisas no corpo dele. Podia despi-lo de tudo o resto. Não é capaz sequer de pensar nisso. Despi-lo da pequenez, da falta de mundo, da bebida, da vida. Podia até matá-lo, como viu numa série policial. Podia isso tudo e naquela sexta-feira imaginou que sim porque na televisão uma senhora pequenina, com um xaile pelos ombros, disparou olhando-a nos olhos, só a ela.

Na imensidão da noite, dentro daquela luz branco azulada do ecrã, a escritora virou-se para ela e disse

 

As mulheres pequenas inspiram um sentimento de vaga hostilidade, como se pertencessem a uma raça diferente. (*)

 

 

E naquele momento, como uma vocação, encarou o marido no sofá, o copo em cima da mesa de acrílico, junto ao cinzeiro imundo, a paisagem da sala por inteiro, como uma novidade, e considerou que era verdade, a escritora tinha razão. Ela, como outras, era de uma raça diferente. E, sem fúria, já calma nos seus ímpetos de fuga, optou por deixar o marido no sofá de cornucópias. Fez a cama de lavado, uns lençóis brancos de algodão puro, suaves e menineiros, e deitou-se nua no calor da noite. Repetiu alto a frase de Agustina Bessa-Luís sobre as mulheres pequenas e a diferença.

Sentiu-se bem.

Pela primeira vez, depois de muito tempo, de tanto tempo, sentiu-se bem.

 

*

Agustina Bessa-Luís, As Fúrias, página 47.

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Eduardo Prado Coelho

por Patrícia Reis, em 25.08.16

"O mais terrível é sentirmos a irreversibilidade do tempo. Que mesmo quando tudo se repete, já nada se repete, pela primeira vez. E que nós nos gastamos como borrachas na demorada corrosão das coisas. Um dia acordamos e já não é a primeira vez. A não ser quando a paixão nos diz que, nupcial e navegante, cada gesto de amor é sempre o primeiro."

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Não

por Patrícia Reis, em 16.08.16

Hoje aprendi que consigo dizer que não. Foi um acontecimento tardio mas muito desejado. Parece que a minha vida mudou. À conta de uma palavra tão pequena. Há esperança.

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da dificuldade de se ser adolescente (ou adulto)

por Patrícia Reis, em 07.08.16

Não tenho muito jeito, nunca tive, para ficar calada. É um defeito e uma virtude. Por vezes gostaria de voltar a engolir as palavras. Outras, seria magnífico deixar que o chorrilho de disparates na minha cabeça encontrasse eco no exterior. É que, apesar da fama, ainda vou engolindo uns sapos. E sobre isto e mais estive eu à conversa ontem à noite com duas adolescentes. O que as magoa, o que lhes faz confusão - elas com 15 anos - é muito parecido com aquilo que me magoa e me faz confusão, no entanto concluí que ser crescido tem inúmeras vantagens e uma delas é aceitar que é preciso fazer rupturas, chamar os bois pelos nomes. Durante a nossa conversa, ouvindo o mais atentamente possível, voltei a sentir o mesmo que sentia na minha adolescência: incompreensão. Caramba, ser jovem não é um posto, nunca foi, mas é muito difícil. Será sempre muito difícil. E, talvez por isso, acabei por mandar para a outra parte um adulto que teve a infelicidade de dizer: ah, o que eu dava para ter a vossa idade. As minha interlocutoras olharam para o senhor com incompreensão. Eu também.

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Fictiongram, final

por Patrícia Reis, em 03.08.16

Palmadas nas costas, uma ida à casa de banho, o ar derrotado do escritor faz com que pareça mais velho, muitíssimo mais velho. O que fazer? Deambula na sala até chegar ao seu poiso final, a poltrona velha e cómoda como um casaco (estou a repetir-me? Devo estar).

Você desculpe. Deixei de fumar há uns anos.

Não faz mal, o que me importa é saber se não deitou fora a ideia para terminar o romance. Deitou?

 

Deitar fora a ideia que tinha para terminar o romance, o escritor não deitou, porém existem questões de ordem logística que são importantes e essas não sabe como resolver. Atenção, tem a certeza de que terá de falar com o advogado, não só por causa das cartas, mas para resolver a hipótese levantada de Martim querer ficar com a herança que pertence a Carmen.

Sabemos que existem duas heranças. Qual é o esquema do Martim?

E isso importa?

Então? Se não resolver isto, não sabemos como chegamos ao fim... Só se... só se matar a Carmen.

 

Matar a Carmen não é uma solução para o Paulo e o escritor já o suspeitava, na verdade sabia-o, mas gostou de o ver ficar direito, empertigado, a cara de escândalo, a missão falhada

Ó por favor, deixe-me morrer, por favor, no lugar de todos.

O escritor apreciou o pânico da personagem Paulo, psicólogo ficcional, futuro amante de Carmen. Espera, amante? Eis outra ideia. Entusiasmado, levanta-se de novo, abandonando a poltrona mais velha do planeta (e cara, design italiano, importada, está-se a ver), e gesticula, gesticula como um maestro com a sua batuta (sim, aquele pauzinho chama-se batuta).

 

Meu caro Paulo, não imagina como a sua visita me ajudou e muito. Muito. Se quiser fazer o obséquio de ir embora, já me posso sentar escrever.

Eu não vou lado nenhum. O senhor tem de me dizer como é que as coisas se vão desenrolar. Não consigo ir embora sem saber. Por favor.

Bom, se insiste... não sei se será do seu agrado, mas pelo menos ninguém morre.

 

O facto de ninguém morrer não estava no programa. Maria Luísa podia ir desta para melhor, Laura ficava com Carlos por fim, Martim sabia da história e reconciliava-se com a ideia de família. Era um caminho. Matar a mãe de Carmen e de Martim era uma excelente solução, era quase superlativo. E Paulo podia ficar com Carmen? Bom, ela não iria para um convento, disso temos nós a certeza, para suspirar já lhe basta a vida, não precisa de intervenção divina.

 

Paulo tentou convencer o escritor.

Faça isto assim, vá lá. Eu até posso ficar sem a Carmen.

E ela volta para o Jaime.

De acordo.

Você é parvo ou quê? Então não gosta da mulher? Não o entendo.

 

A troca de palavras vai longa e nada se resolve, portanto a intervenção divina tem de provocar aqui uma agitação, pequeno tsunami e, a propósito, alguém toca a porta e o escritor vocifera

A esta hora? Porra.

Não olha pelo tal buraquinho de vidro espetado no meio da porta da entrada. Abre a porta num repente e Carmen mostra-se no seu esplendor.

 

Isto está a ficar um pouco doido demais, medita o escritor, mas não se faz rogado, deixa-a entrar e ali está ela, suave, num tailleur belíssimo, nova aquisição, uns saltos altos pretos de verniz. Uma bela mulher. Chata como o raio que a parta, mas bela. O escritor, por fim, achou-se capaz de compreender Paulo. Carmen era mais que uma personagem plana, oca, neurótica, afinal podia ser todo um universo. Por isso, disse

Caramba, nunca pensei que fosse assim.

Então como é que queria que eu fosse? Foi o senhor quem me escreveu, não foi?

Mas não a escrevi assim.

 

Sentaram-se os três no sofá. Carmen pediu para ele não matar a mãe. Paulo pegou-lhe na mão, o escritor comoveu-se, ouviu as badaladas do relógio da vizinha - Dona esperança, uma jóia de senhora -, era meia noite, tinha uma dor de cabeça monumental e abriu os olhos. Decidiu que afinal a história que queria escrever não era aquela. Pouco importava um ano e tal de trabalho. Fez contral + alt + delete e foram-se todos, os tais sete: Carmen, Paulo, Jaime, Carlos, Maria Luísa, Martim, Carlota e ainda o oitavo, o nosso escritor. Só porque fica bem. O leitor pode fechar a boca de espanto, foi um prazer, acredite. Bem haja por ter chegado aqui. Agora começa o mês de Agosto, vá comprar um livro.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 18.07.16

Paulo conforta-o dizendo que as fragilidades são as impressões digitais da sua humanidade, ou do que resta dela. O escritor bebe mais um pouco e pergunta

Gosta da Carmen?

Gosto.

Quer ficar com ela?

Isso nunca vai acontecer.

 

Se Paulo fica com a Carmen, ou nem por isso, o escritor não sabe, porém, de forma súbita e atabalhoada levanta-se, parece uma diva e vislumbra-se o seu ser feminino em todo o esplendor, e grita para a sua personagem

Já sei, já sei como resolver tudo. Parece complicado mas não é, venha para a sala preciso de um cigarro. Tem cigarros? Eu deixei de fumar.

Paulo dá-lhe um cigarro de um maço que traz no bolso de dentro do casaco. O escritor pensa

Ele fumava, na história?

 

O escritor inaugura o fumo do cigarro com prazer, mas o corpo rejeita tudo aquilo, alarme, alertas, o corpo a cuspir e um ataque de tosse sem fim. A figura que faz é triste, quase ridícula, o escritor tosse, engasga-se um pouco mais, sente as lágrimas a saltarem dos olhos e, como uma criança em convulsões, há ranho que lhe sai pelo nariz. Paulo faz um esgar. É nojo, senhores, nojo do seu criador, a criatura não faz destas coisas.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 13.07.16

 

Assim, Paulo e o escritor discutiram o enredo. Dissecaram tudo e lembravam-se de pormenores que eu já nem sabia possíveis, verificaram questões de verosimilhança (por exemplo? Bom, Jaime não podia ter a idade que se dizia que tinha, caso contrário como é que estava no liceu e o irmão, pouco mais velho, na faculdade? Coisas destas devem existir aos pontapés, a grande Agustina ria-se destas coisas, o que é sempre um bom conselho. O riso trata tudo).

 

Bom, estou a ver que não consigo convencê-lo de nada, não é? Eu gostava de morrer, não só para poupar o Jaime, mas sobretudo por estar olimpicamente farto de servir de tampão – não é uma boa palavra -, de rolha, de qualquer coisa, que impeça a loucura da minha mãe e o entendimento de Jaime de que, no fundo, é um deficiente emocional maior do que a Carmen e que até o emprego dele não existe como o afirma. Sabia disto? Tenha paciência, o senhor é apenas o escritor, não sabe nada.

 

Desta feita, em defesa do nosso escritor, é preciso dizer que este não teve tempo de terminar fosse o que fosse, portanto julgá-lo com pormenores do futuro é injusto. As personagens sabem sempre, ou muitas vezes, o que as aguarda, os escritores precisam de mais tempo para ficarem elucidados e, acontece, podem enganar-se redondamente. Afinal, o escritor não suspeitava que Paulo estava deprimido. Não era preciso ser psicólogo para chegar tão longe.

 

Paulo recusou a ideia taxativamente, até se sentiu incomodado, ele deprimido? Um profissional de saúde mental sabe quando está deprimido. Paulo estava para lá disso.

Deprimido o quê? Deprimida está a Laura, a Carmen, a Maria Luísa e ainda o Carlos, não chega num romance esta gente toda? São sete personagens, a oitava ainda não chegou, não me diga que é da polícia judiciária e vem saber quem matou quem?, e quatro estão deprimidas. Parece-me o suficiente e mais lhe digo, não entendo como é que o senhor, um escritor com tanto pergaminho (ainda se diz?), cai na esparrela de começar um romance com uma mulher neurótica, arranja uma embrulhada e não sabe como sair dela. Não pensou no final previamente? Claro que não. Arrogante.

 

O escritor anuiu, e depois, um momento de constrangimento que nunca acontece nos filmes, a sua barriga emitiu um ronco perfeitamente audível. Precisa de comer, não só por causa do ronco, mas também por ser urgente ensopar o whisky com um sólido qualquer. Paulo, ajuizado e sabedor, levantou-se e caminhou na direcção da cozinha como se a casa fosse sua

Deixe-se estar, eu faço o jantar.

 

Jantaram, não sei se se lembram do ronco, da fome, da necessidade de ensopar o whisky, mas cá estou eu para vos pôr no carril dos acontecimentos. Jantaram, dizia eu, e muito bem, porque o Paulo, além de bom ouvinte e de deprimido, é bom cozinheiro. Nunca se mencionou o facto anteriormente por estarmos indecisos, agora não faz mal, é necessário que cozinhe. E bem. O escritor louva-lhe a mão para o tempero. Abrem uma segunda garrafa de vinho tinto e Paulo ameaça

Vamos acabar com isto? Vamos resolver a história?

 

O escritor, para resolver a história, como Paulo o instigou, tem de mastigar muito e tem de rever coisas no seu passado sobre as quais ainda não falou em terapia. Sim, o escritor sabe que terá de voltar ao consultório, que remédio, é tão velho ali como o cacto que está num vaso pindérico na sala de espera. Não que o escritor alguma vez tenha posto o rabo no sofá de espera, não, sempre entrou direitinho para o consultório. Ele é uma pessoa importante, porventura o mais importante que o país produziu depois de... alguém.

 

O escritor revela então a Paulo as suas inseguranças. Está com os copos, estão os dois, portanto as palavras correm o risco de perder consoantes, mas eu vou tentar remediar a situação e fazer um resumo. As inseguranças do escritor são, por ordem aleatória

A vergonha de ser adoptado

Saber que não foi adoptado

Odiar a mãe tanto quanto a ama

Querer as cartas de volta

Ter medo do ridículo

Não ter uma porra de uma ideia sobre esta história que conta ou qualquer outra para um futuro mais risonho, uma história que dê frutos, sei lá, um ou dois prémios (com dinheiro, é evidente).

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Yehuda Amijai

por Patrícia Reis, em 05.07.16
 

"Por vezes uma bala atravessa
o corpo do homem e fere
também a terra."

Yehuda Amijai ( 1924 - 2000)

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 01.07.16

 

Tínhamos ficado onde? Não, tínhamos ficado na utilização indevida da negação para início de frases que não correspondem a uma pergunta concreta do interlocutor. Vocês estão a ver a ideia. O Paulo murmurou o tal

Não, quer dizer, sim...

e, depois, teve uma iluminação. Era melhor interessar-se pelo escritor, fazê-lo sentir-se importante.

Não me quer contar o problema das cartas?

As cartas? Como sabe das cartas?

Toda a gente sabe.

Toda a gente? Não, não.

Conte-me tudo.

 

E assim foi, o escritor meteu os fígados bons e maus contra o seu Jaime real para fora como alguém que vomita voluntariamente. Gostava de se ouvir falar, sabia que tinha um tom de barítono apropriado para intimidar, logo fazia uso da voz de forma apropriada, colocando-a como fazem os radialistas e alguns predadores. Contou como tinha sido convidado pela nobreza, uma certa nobreza, a passar uma temporada num chalé sofisticado na Suíça igualmente sofisticada. Explicou que escrevera as cartas ao Jaime por sentir compaixão. Foi a palavra que usou. Compaixão e Paulo aproveitou.

 

É o que espero de si...

podia dizer o Paulo, ainda tentou

... espero compaixão

mas o escritor estava lançado e servia-lhe bem essa ideia de que o Paulo não existia, portanto podia dizer o que fosse.

Nunca gostei de Jaime, sabe?

Nunca?

Nunca. Precisava de companhia. Era só isso, companhia. O amor é uma ilusão, todos o sabemos.

 

Foi um instante para que Paulo fizesse o paralelismo com a situação do Jaime ficcional e, a medo, perguntou quais eram as intenções do escritor. Ele sacrificava-se por todos os outros, os seis personagens do costume, Laura, Carlos, Maria Luísa, Jaime, Martim, Carlota (viram que agora comecei a enumeração ao contrário? Ele há truques). Estava o escritor a ouvir? Ele, Paulo, queria morrer.

 

Mas olhe que não me dá jeito nenhum matá-lo, Paulo, não a si. A sua personagem é aglutinadora, é o cimento bom que faz com que o caminho possa ser feito, em especial o caminho de Jaime e de Laura. Não, não o posso matar, agradeço a oferta, mas não pode ser. Confesso que ainda não sei como terminar isto, entende? Nós também temos momentos de fraqueza, sou um grande escritor mas estou muito pressionado e não consigo, não consigo, Paulo.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 24.06.16

As personagens, embora menos incómodas que a maioria dos mortais com os quais nos cruzamos durante uma vida inteira, também têm manias. O escritor percebeu que Paulo vinha em missão e, surpreendentemente, até por não ter nada de interessante para fazer, dispõe-se a ouvi-lo, porque não? É a sua personagem, um homem interessante, psicólogo, altruísta, tolerante, novo, bem posto. O raio da enumeração!

 

Paulo lá começa a tentar dizer ao que vem. O escritor interrompe-o com um gesto que podia ser classificado de teatral, acredita que ainda vai a tempo de lhe oferecer um whisky cujo a personagem recusa com um ligeiro aceno de cabeça, conseguem imaginar? Claro que conseguem, então é tão perto da banalidade, vá lá, façam um esforço. E Paulo começa.

Percebi que tenciona matar um de nós e venho tentar...

Mudar as minhas ideias sobre o assunto?

Se for possível?

 

Ora, possível tudo é, já se sabe, o que há é uma percepção limitado do que consideramos possível (frase atribuída ao Dalai Lama que vi na internet às três da manhã a curtir uma insónia), consequentemente será possível mudar as ideias do escritor. O Paulo sabe que será uma caminho árduo, pelo menos está convicto de que o escritor é teimoso que nem uma mula, caso contrário não teria inventado para ele, Paulo, uma vida tão... tão... qualquer coisa.

 

O escritor atira-se para a poltrona, maldiz o facto de ter deixado de fumar há uns anos – as maravilhas da acunpuntura, da hipnose, de medicamentos e, por fim, a ameaça de um cancro no pulmão que teve o condão de o afastar do tabaco de uma vez por todas – por saber que seria mais feliz se tivesse qualquer coisa onde chuchar. Hum? Pensa no que acabou de pensar para concluir que talvez esteja a ficar senil. Tem idade para isso.

 

Paulo quase que parece recolhido, como se fosse uma criança, no sofá imenso. Tem muito para dizer, tem ainda queixas e depois pedidos, mas é difícil, muito difícil, falar, ele foi construído para ser bom ouvinte, era a intenção do escritor, servia à história e, só por isso, sente-se impedido a dizer coisas inteligentes. Começa a frase como a maioria dos portugueses começa as frases:

Não, quer dizer, sim...

Não o quê, perguntam vocês? Não faço ideia, mais uma vez.

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só isto

por Patrícia Reis, em 13.06.16

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 13.06.16

Não gosta de beber sozinho. Gosta de morar sozinho, sobre isso não tem a menor dúvida, e nunca tivera relações longas por causa dessa ideia de estar apegado à sua casa, às suas coisas. No princípio das relações estava tudo bem, até sentia algum deleite em ver os amantes no seu sofá, na sua cama, à sua mesa. Quando a novidade passava, esgotava-se em tentativas estúpidas para manter a relação. Sempre a dizer aos seus botões, pode ser que seja desta, afinal não posso ser assim tão insuportável. Talvez não fosse, mas aqueles por quem se apaixonava passavam a ser tudo o que deriva de insuportável.

Uma vez tinha escrito um conto – há muito tempo – gozando com o fim das relações, era uma época infeliz, considerava-o agora, porque escrevia usando sempre essa coisa fatídica e cansativa da enumeração. Sim, enumerar tinha sido uma moda, havia quem a mantivesse mas esses estavam claramente fora de moda, o nosso escritor já não começava as suas histórias (com h, por favor, que com e também já não se usa) com: Da janela vi o autocarro, a mulher que atravessava a rua, o semáforo a mudar de cor e depois, numa sucessão alucinante, os rapazes de bicicleta, a porteira colocar o lixo, o taxista. Tudo era vago, idiota, banal, sem sentido. Não, ele já não escrevia assim. Agora era mais elaborado.

Falando em escrever, era essa a sua função, que diabo, estava a engonhar e empurrar com a barriga. Toma decisões, be a man, pensa e cria. Ah, o criador no seu ninho, de copo na mão, a ver se descobre como acabar o que começou. Pois. Então, tem sete personagens, embora esteja seguro que pelo mais uma terá de ser construída, mesmo que à pressa, é essencial. Um leitor disse-lhe um dia que se perdia nos livros que ele escrevia por terem demasiadas personagens. Ora, sete não são muitas, pois não? Pois.

Tem a Carmen, a parva e despeitada; a Carlota deslumbrada e interesseira; o Martim cobiçador e amoral; o Jaime ambicioso, embora preocupado; o irmão, Paulo, o atormentado e depois aqueles três, os mais velhos, Laura, a doida, Carlos, o corno, Maria Luísa, a bruxa. Quem quer morrer?, pergunta o escritor em voz alta olhando o ecrã do computador. Ninguém lhe responde.

As personagens só falam com ele em sonhos, pelos menos foi o que afiançou a uma jornalista, por acaso esperta, que o entrevistou há pouco tempo. Nunca sonhou com qualquer personagem, é evidente, mas ficava bem dizer aquele tipo de coisas e o escritor já tinha algumas mitologias que, mais uma vez, precisava de cumprir para não desiludir. Um dia teve de inventar que em pequeno queria ser bombeiro – queria agora! – porque uma jornalista o convenceu que a fotografia ficava melhor. Enfim.

E andava nessa vida de escrever dez mil caracteres, perturbado com as sucessivas mensagens e telefonemas do ex namorado, o Jaime real, não o da ficção, quando alguém teve o enorme desplante de tocar à porta. Repreendeu mentalmente o sacana que o perturbava àquela hora e, arrastando os pés, quase em slow motion, que é mais literário, seguiu em direcção à porta, que neste caso também é o desconhecido. Só porque fica bem.

Do outro lado daquele buraquinho especado na porta de entrada, aquele buraquinho de vidro que permite ver para fora, que terá um nome, existirá uma palavra, mas não tem tempo para essas minudências, pois pelo buraquinho viu um rapaz alto, bem posto, rosto sério. Vestido com um casaco que lhe pareceu de bom corte. A cor era excelente: azul. Fixou-se na cara do indivíduo. E depois pensou: olha, é o Paulo.

Então o disparate começou. Não se queixem, por favor, não façam comentários jocosos, o que é queriam? O disparate também é uma imagem de marca e o escritor precisa de dar uma reviravolta à situação, é verão (tanto ão, Nossa Senhora, a aliteração ficou pior por ter reparado na dita cuja, mais valia não ter dado por ela), as notícias são poucas e mais uma série de coisas que me escuso a escrever. O que importa mesmo é que o escritor tem razão e, do outro lado da porta, está o Paulo. O ficcional Paulo.

Entra o piano, esqueçam os violinos

Sim?

É o escritor?

Sim?

Eu sou o Paulo. Precisamos de conversar. Posso entrar?

Entre, por favor.

O escritor afastou-se elegantemente. Era um homem de bem, já o dissemos, e bem educado também. Paulo, a personagem sem espessura digna desse nome, entrou no apartamento do escritor e surgiu uma música, um piano, só porque fica bem.

O escritor manteve-se alerta, entre o perplexo e o contentamento, afinal era pai daquele homem, tinha-o criado, de certa forma cuidava do seu futuro. O Paulo. O escritor tinha orgulho naquela personagem, ele que é irmão de Jaime, a cobiçar a Carmen, a aturar as taras da mãe, a aplacar a vidinha de doentes com egos mexidos, a única razão para se fazer terapia, certo? Certo. Pois, o dito cujo, a personagem (adoro que seja no feminino!), lá está a ver se consegue articular qualquer coisa inteligente que agora mesmo me escapa.

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Pedro Tamen

por Patrícia Reis, em 07.06.16

A minha morte, não ta dou.

A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
- a flor, a sesta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?

Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?

Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.

 

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 05.06.16

O escritor não era incauto. Tinha mantido relações, quase que íntimas, com um advogado com bom nome na praça e - talvez - fosse verdadeiramente inteligente fazer o gesto de lhe ligar. Podia resolver o problema das cartas, as ditas cartas que escrevera a Jaime e que ele ameaçava publicar. Não utilizara esta história, nem transfigurada, no novo romance, tinha-se mantido numa tónica emocional, forte, achava ele, bom, podia não ser tão forte, mas intencional, e remetia-se à vida de sete criaturas. Tudo começara com o Jaime de olhos cor de caramelo e depois a história tinha-lhe dito: agora vais para ali.

 

Ele foi. Primeiro para dentro da cabeça de uma mulher, a detestável Carmen, histérica e porventura frígida Carmen que foi abandonada pelo Jaime ficcional e depois catrapiscada (será?) pelo irmão, o tal Paulo que, basicamente, era a única personagem que lhe agradava sobremaneira. Lá está, era um homem de bem, o tal Paulo. Era uma maldade colocá-lo na mira de Carmen, mas fazer o quê? Quando o livro for adaptado para o cinema ou para uma mini série, logo será vendida para a América Latina, onde faz tanto sucesso, pois o plot funciona e isso é que importa.

 

O escritor sente-se a perder o pé, o que se calha a ser sincero, acontece-lhe mais vezes do que aquelas que admite. Obriga-se a uma pausa para recuperar prioridades, tem de se organizar. É crucial perceber as coisas que precisa de fazer. Tem de acabar ao livro, é um facto, não vai devolver o adiantamento chorudo que a editora lhe pré-pagou, terá de entregar o romance para a feira do livro, e terá de fazer o esforço sobre humano de se deslocar à dita feira. O escritor levanta-se e anda pelo escritório, as mãos atrás das costas, pondera: ligo ao advogado por causa das cartas? Trato do livro ou simplesmente atendo o idiota do Jaime, histérico qual Carmen? O melhor será beber um copo de qualquer coisa e, a caminho desse desejo alcoólico, viu-se em pequeno numa fotografia. Ele, a mãe e as tias. Naquela época estava convencido de que tinha sido adoptado. Ele, de cabelos loiros e olhos claros, ao lado da mãe mais morena do mundo. Tinha sido enganado e isso dera azo à construção da personagem aparvalhada de Martim. Não era um bom personagem.

 

O escritor tinha a sua certidão de nascimento, aliás já fora publicado na fotobiografia feita há dez anos, ou coisa que o valha. Ali está o nome do pai e da mãe e não há a menor dúvida que não veio da Casa Pia, veio de uma clínica privada que já não existe. Talvez o pai fosse loiro. Talvez. Não podia assegurar-se de tal facto já que só possuía duas fotografias do pai, ambas a preto e branco, num dia em Coimbra, com os amigos, um dia de caçada. O que podia assegurar é que o homem tinha pinta. Traidor e imbecil, mas com estilo.

 

Cristo, que disparate pegado, tenho lá a vidinha toda metida?, vai resmungando consigo enquanto bebe um whisky e revê mentalmente a história. Claro que o melhor será matar alguém. O seu pai está metaforicamente morto, resolvido. Ou talvez já esteja mesmo debaixo do chão na cidade maravilhosa. Como saber? Não quer saber, o escritor só se interessa por ele, pela história e, claro, pela recuperação das cartas.

....

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algumas proposições com pássaros e árvores

por Patrícia Reis, em 30.05.16

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

 

Ruy Belo  

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 29.05.16

Portanto, a coisa do Jaime, a sua sobranceria, a ideia de que era capaz de ser superior e viver longe de Carmen, isto dentro do seu putativo manuscrito (que chatice, não pode dizer manuscrito se escreve num computador, ou pode? decide que pode) era apenas uma alteração mínima da realidade. Ele, o escritor, fora o Jaime na vida real, ou seja, não sairá de casa, mas dissera aquelas coisas

Nem na cama és bom.

 

A ficção tem esse grande poder salvador. Tudo se transfigura, mas se há falta de assunto, ou não existe a mínima paciência para a pesquisa e para o romance histórico, pois escreve-se sobre aquilo que se vive. É preciso ter uma vida interessante. Convém. Nem todos os escritores têm. Por exemplo, ele, o escritor, sabia que a conversa sobre os filhos servia apenas para albardar o burro à vontade do dono. Ou seja, se Carmen tem a idade que tem (que idade tem?), pois terá aquela coisa do relógio biológico e tal. O escritor é ajuizado, sabe que quem compra livros são as mulheres, por isso os filhos e as dores.

 

O telemóvel tocou de novo. Jaime. Tão chato e comprido, o Jaime que fora fascinante durante dois anos – como se ele não soubesse de antemão que nada dura mais de vinte quatro mesinhos, sendo os últimos uma boa chatice – queria coisas. Achava que tinha direitos. Fazia ameaças. Claro que existia a questão das cartas, mas o escritor convencia-se de que ele nunca se atreveria a tanto. Não iria, decerto, publicar as cartas num livro com uma capa horrenda e com um prefácio de um pensador actual. O escritor despreza livros com prefácios, se o livro precisa de explicação, então é mau, nem tem discussão.

 

Escrevera cartas a Jaime quando aceitou o convite de uma figura da realeza europeia que o convidara para passar o princípio do Inverno na Suíça. Não é possível satisfazer a sua curiosidade, lamentamos, caro leitor, estamos obrigados a algum recato e até assinámos um contrato de confidencialidade, logo não nos é possível dizer onde e com quem, podemos adiantar apenas que estava lá todo o mundo. Todo o mundo. Menos o Jaime. Por mais incrível que fosse, o convite era pessoal e intransmissível e para uma pessoa apenas: o escritor que iria “prestigiar” a grupeta afectada junto à neve.

Pois. Jaime amuara.

Queria tanto ir, mas porque não posso eu ir? Tu já não me amas, que mau que és. Vai lá estar o E.J.? Não me digas que sim que eu morro, morro. Se tu vais sem mim, morro.

O escritor, feito estúpido, em vez de ter uma ideia brilhante para uma trilogia que fosse passível de ser traduzida, pelo menos, para trezentos países, decidira passar uma hora por dia, à lareira, a escrever a Jaime. As tais cartas.

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Carlos Drummond de Andrade

por Patrícia Reis, em 25.05.16

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Escreve a revista sábado sobre a Feira do Livro deste ano:

 

Aqui, destaque para os clássicos e/ou bestsellers portugueses que vão estar a autografar:
- António Lobo Antunes
- Gonçalo M. Tavares
- José Rodrigues dos Santos
- Miguel Sousa Tavares .
- José Rentes de Carvalho
- Mário de Carvalho
- Mário Cláudio
- Eduardo Lourenço

Referência ainda para a presença de alguns autores estrangeiros a dar autógrafos:
- Joel Dicke:
- José Eduardo Agualusa
- John Banville:
- Pepetela:
- Ondjaki:
- M. J. Arlidge:
- Ruy Castro:
- Luis Sepúlveda
- Jerónimo Pizarro

No parágrafo acima já falámos de alguns lançamentos, mas há outros a reter:
de Bernardo Pires de Lima.
de Richard Zimler e Júlio Pomar
de Rui Cardoso Martins
de António Marujo
de José Pacheco Pereira

 

Portanto a feira faz-se sem Alice Vieira, Lidia Jorge, Inês Pedrosa,  Luisa Costa Gomes, Teolinda Gersão, Hélia Correia, Ana Margarida de Carvalho, Gabriela Ruivo Trindade, Tânia Ganho, Cristina Carvalho, Filipa Leal, Ana Cristina Silva, Maria Manuel Viana, Maria João Lopo de Carvalho, Helena Sacadura Cabral, Alexandra Lucas Coelho, Leonor Seixas, Maria Manuel Viana, Rita Ferro, Isabel Alçada, Ana Magalhães, Cláudia Clemente, Marta Vaz, Carla Maia de Almeida, Rute Coelho, Dulce Maria Cardoso, Inês Almeida, Fausta Cardozo, Irene Pimentel, Ana Luísa Amaral, Helena Marques entre outras. Estou esclarecida.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 20.05.16

Nessa noite carioca bebeu caipirinhas a mais e acabou numa festa de alguém que conhecia outro alguém. Conheceu pessoas, mantendo a sua pose de Estado, a sua figura meio desfeita, porque a sua imagem de marca era ser um homem triste. Era sempre assim que se referiam a ele, triste, tristonho, capaz de toda a tristeza do mundo. E ele acatava, mais uma vez cumpria. Nunca se imaginou obediente, no entanto a importância do público – quer dizer, da comunicação social – levava-o a ser assim. E a comunicação social, como é bom de ver, está em todo o lado, é uma espécie de Nosso Senhor.

 

Tinha tiques que importava manter, porque estavam à espera que fizessem parte dele, assim como um casaco velho que se mantém no armário por estar feito ao corpo. Então, o escritor era triste. E não ia a festivais literários, porque haveria de ir?, era crucial não ir a festivais literários, só de pensar que tinha de aturar a mesma corja ... Suspirou e voltou a olhar para o telemóvel mudo e quieto na secretaria de mogno, coisa de excelência, comprada num antiquário em Sintra quando ainda mantinha relações com um casal de editores que se gaba de ter um palacete para aqueles lados. Eram outros tempos. Ainda conseguia conversar com o casal extraordinário, ele alto e barbudo; ela magra e esguia, com umas mãos gigantes. Volta a olhar para o telemóvel que mostra 17 chamadas não atendidas, isso sim, um luxo. O ex namorado era persistente.

 

Chamava-se, et pour cause?, Jaime e tinha uns olhos verdes infinitos. Foi isso que lhe disse quando foram apresentados na editora, o escritor pronto a assinar em série, qual máquina, livros atrás de livros com dedicatórias idiotas tipo

Um abraço

Com amizade

Era sempre isso. O assistente editorial a querer saber se ele não se importava, se fazia o jeitinho, de assinar para a mãe. Ou era para a mulher? Não sabia dizer. O certo é que Jaime, o Jaime real, estava a fumar à janela, num gabinete cuja vista dava para o local onde o escritor assinava livros para jornalistas que nunca falariam da sua narrativa, do trabalho de linguagem, da espessura (talvez profundidade seja melhor) da história que publicava então.

 

Era uma história de amor, portanto era sobre a condição humana. Riu-se, para si, por saber que quem tinha dito esta verdade absoluta sobre a forma como a literatura é vista amiúde, neste e em outros países, era apenas uma mulherzinha que, de facto, privilegiava os sentimentos e as pessoas. Agora tinha deixado de escrever, ele tinha sido informado online, horas mortas pela noite na versão solteiro de novo; a escritora que bradava aos céus sobre a condição humana anunciou ao mundo que deixou de escrever. Por não aguentar o silêncio sobre a sua obra. A sua obra.

 

O escritor voltou a rir e pensou que a designação “obra” era risível. Quantos anos tinha a moça? Pouco importava, o olhar fixou-se no fumo que saía da boca de Jaime e foi o início que depois deixou de ser início e, claro, perdeu a graça. Pediu ao assistente editorial um copo de água e, mal a criatura diligente rumou em direcção à copa da editora, onde supostamente haveria água e outras coisas (podia até comentar como ele hoje, o grande escritor, estava bem disposto; podia dizer que já tinha o seu autógrafo para a mãe, ou seria para a mulher?), abriu a janela do pequeno espaço inócuo onde estava a assinar livros. Sorriu. Tristemente. E a coisa deu-se.

....

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Fora de série (4)

por Patrícia Reis, em 18.05.16

«We’ll meet again, don’t know how, don’t know when...»

Assim reza a canção e faz parte das minhas memórias afectivas por causa de uma série fora de série. Eu teria onze ou doze anos e, todas as semanas, como ritual, ficava a ver mais um episódio de We’ll Meet Again, produção britânica, exibida em 1982. Mais importante do que o cenário – Inglaterra rural e base norte-americana pronta para combater Hitler e os seus terrores – o que me importava verdadeiramente eram as histórias de amor, em especial uma que me inquietava semana a semana: da médica Helen Dereham (Susannah York) e do major Jim Kiley (Michael J. Shannon). Como é que uma mulher respondia assim, com tanta rapidez? E como é que podia ser tão bonita? E como é que...

Eram as minhas perguntas. Logo no primeiro episódio, quando Helen e Jim se conhecem – na berma da estrada junto a um ferido – ela não demonstra qualquer constrangimento. Sabe o que se passa e exige que o ferido seja levado no seu carro. O major, americano, rola os olhos e diz I should take care of this myself. Mal sabia ele – ou eu – que estava ali a mulher da sua vida, por sinal casada com um senhor que fica numa cadeira de rodas, que serviu a causa dos Aliados e é gentil. Tão gentil que nunca percebi se intuiu o affair que a mulher manteve com o dito major durante episódios e episódios.

Como o próprio nome indica, o futuro talvez fosse mais feliz, mas estavam condenados a viver vidas separadas. Susannah York encheu-me as medidas, era a minha actriz preferida (na altura eu só conhecia duas actrizes pelo nome, esta e Julia Andrews – et pour cause?) É evidente que a série tinha mais sumo, muitas histórias paralelas, rapazes americanos apaixonados por meninas inglesas, encontros e desencontros, traições e o fantasma de Hitler, logo do perigo ou da morte. We’ll meet again marcou-me ao ponto de ter comprado a série em DVD há uns anos e, ao contrário do que aconteceu com outros produtos televisivos datados, ter ficado presa à história e à excelência dos actores. Uma boa história não perde qualidade. Se não tiveram oportunidade de ver, deixo-vos um conselho: vejam na net os primeiros episódios disponíveis. Basta ir ao doutor youtube.

 

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A minha loucura

por Patrícia Reis, em 16.05.16

A mulher foi categórica: a tua vida é de loucos. E eu pensei que nem por isso, houve tempos, agora até consigo dormir oito horas. A mulher insistiu e pediu-me para relatar o meu dia e eu lá disse que tive reunião de planeamento na 004, a empresa que vou gerindo; a seguir ponto de situação relativo ao próximo número da revista Egoísta; verificar se estava tudo bem explicado no dossier de apresentação do conceito e logotipo que irá constar em todos os documentos da candidatura de Lisboa a Capital Europeia do Desporto 2021; reunião sobre estratégia de comunicação; pesquisa sobre um autor famoso para uma putativa exposição; treino da cadela; fazer lasanha de soja e ver uma série qualquer ou terminar o livro de Javier Marías "Assim começa o mal". A mulher riu-se e perguntou se não estava cansada. Respondi que foi um dia calmo. Não me queixo. Ela, gentil, perguntou-me: sabes o que me disseste quando estoirei e tive um ataque cardíaco? Tu disseste que eu ia morrer e não sabia quando exactamente, o avc tinha sido um aviso, e era preciso fazer apenas o essencial.

A mulher afastou-se com uma calma olímpica, ela que se limitou a fazer consultas no Instituto de Oncologia todo o santo dia. O verbo limitar é dela. E eu pensei, ok, tens razão, mas eu prefiro a minha loucura. Depois senti-me cansada.

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Tudo o que o Lev levou

por Patrícia Reis, em 15.05.16

Fui ontem, sábado, às dez da manhã, de comboio em direcção ao Porto. Ao meu lado, Rui Tavares lia jornais e depois Claudio Margis, em jeito de preparação para uma mesa com o escritor. Vi a paisagem, li o Expresso de fio a pavio, o Público, a Sábado. Estava frio quando chegámos e a Teolinda Gersão congratulou-se com o casaco quente, eu feita parva limitei-me a imaginar o meu sobretudo, lá longe, no armário de casa. Almoçámos salmão grelhado e conversámos sobre coisas díspares. O Ricardo Araújo Pereira na Flip - incompreensível para alguém como eu -, a capa da visão com a Fernanda Cância e, agora é quase obrigatório, esta coisa de sermos habituais nos festivais literários. Não sou uma festivaleira convicta e nesta última década não estive em muitos festivais, facto que pelos vistos passa despercebido a algumas mentes iluminadas. É-me indiferente o que se diz, o que se publica na imprensa à laia de reportagem entristece-me, porém não é por isto escrevo. Ao fim de dez edições, o Lev, em Matosinhos, dá gosto. Porquê? Casa cheia, homens, mulheres, crianças, de idades diversas, pessoas que tiram um dia para ouvir autores a falar e, para mais, ainda têm perguntas. Regressei no comboio das 18h47 e vi a paisagem, li o resto do novo livro de Pepetela - se o passado não tivesse asas - e cheguei a Lisboa às 21h22. Sozinha, sem filhos ou marido nas imediações, apeteceu-me comer pipocas e fiz algo que não fazia há muito: fui ao cinema. Deram-me um bilhete que dizia fila J, lugar 17. Concluí que tal não existe, mas tudo bem, fiquei numa coxia vazia a ver o Money Monster, a perceber como tudo na televisão pode ser corrompido, virado do avesso, como a banalidade é triste e pouco edificante (Julia Roberts começa logo por dizer que ali não se faz jornalismo, o que seria). Saí antes da meia noite e não tinha ninguém com quem falar. Caminhei até casa e afaguei os cães, tomei banho, meti-me na cama com o computador e eis o ponto alto do meu dia: recebo uma mensagem que reza assim:

Vou ao Lev há já uns anos. Gostei de a ouvir. Gostei de perceber que há escritores sem merdas.

Fiquei a pensar nisso, na parvoíce da pergunta sobre a escrita feminina, na forma repentista como respondo e, por fim, na falta que me faz a grande Agustina, ela que disse tantas vezes que nada disto é para levar a sério.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 13.05.16

 

E quando chegou aqui o escritor parou. Era uma dor de costas, um bloqueio. Podia – devia – matar uma das personagens? Martim fica com a herança de Carmen? Carlota torna-se banal? Tantas perguntas e poucas respostas. E, nisto, o telemóvel tocou. O escritor gemeu baixinho, o nome do ex namorado do outro lado. Iria dizer que precisavam de conversar. Iria dizer um chorrilho de disparates que ele, o escritor, dispensava. Até a voz, a hipótese teórica de o ouvir, afligia. Pensou que era um chuto na tola, como tinha ouvido no café a um gaiato com pouco mais de dez anos. Chuto na tola.

 

Até podia falar com o ex namorado, porque não?, mas um escritor é aquele que não pactua com a norma. Tinha lido aquilo algures e não percebia como ele, publicado dentro e fora de portas, a escrever todos os dias dez mil palavras, obediente, sem falhas (tinha-o dito numa entrevista e não podia deixar de cumprir, sentia que seria desonesto se não cumprisse o sacrifício das dez mil palavras. Caramba!, dez mil palavras é muito, há pareceres jurídicos mais pequenos), precisava de citar terceiros. O escritor ficou a olhar para o nome do ex namorado a piscar no telemóvel e, subitamente, sem demoras pegou na caneta e rabiscou o futuro de Carmen.

 

Embirrava com Carmen, não seria o único, estava certo disso, mas tinha esta tendência para escrever sempre sobre uma mulher depressiva. Lembrava-lhe a mãe, era o que era, e o escritor já tinha passado muito tempo a fazer psicanálise para entender que nunca se livraria da mãe, o fantasma dela, a voz dela, as suas manias, o pacote inteiro a persegui-lo até depois da senhora ser cremada. Morte. O escritor sorri. Coloca o telemóvel no silêncio, afinal para quê dar a satisfação de atender à primeira?

 

Diziam que ele era caprichoso e com mau feitio, portanto importava seguir a tendência. O escritor não tinha mau feitio, nem era caprichoso, pelo menos no seu entender. Não se sabe o que diria o psicanalista, mas isso não interessa nada para o caso. Se fizesse uma auto-análise, exercício matinal que lhe afagava o ego, o escritor diria que é uma pessoa atormentada, com uma infância difícil, sempre dentro dos livros. Não foi à guerra, como outros, não tem idade; nunca foi jornalista, também os há, é apenas um escritor pacato. Talvez não seja gentil ou um poço de delicadeza, é verdade, porém é um homem de bem. O que importa verdadeiramente é ser isso: do bem. Sorriu beatificado.

 

Imagina o seu pai. Esse alguém que o abandonou com dois anos de idade para desfrutar de outras manhas – umas manhas brasileiras, para cumprir o cliché já que a vida também isso, ou talvez seja só mesmo isso – do outro lado do Oceano Atlântico. Consta que teve mais dois filhos e o escritor, ferido e implacável, uma vez no Rio de Janeiro, a propósito da entrega de um prémio importante, escusou-se a falar desse pai. Alguém, um jornalista de um diário digital, agora é assim, o papel está caro, insistiu muito na ideia idílica de um encontro, ao fim de trinta e tal anos, com o pai, esse traidor, que agora queria, quem sabe?, ver-se numa selfie com o escritor.

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Manoel de Barros

por Patrícia Reis, em 04.05.16

O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 03.05.16

Martim tinha um propósito, era um homem com um objectivo e não o diria com facilidade, estava satisfeito com a armadilha que montara e, por isso, podia-se dizer que imperava uma característica mais extrovertida. Ria alto, bebia, batia nas costas de Jaime, contava histórias cujo desenlace garantiam risos e gargalhadas. Gostava de ver a atenção pendente de Carlota e o olhar quase intoxicado de Jaime. Seria fácil estabelecer um laço e, depois, com tempo, meter-se na cabeça de Jaime, tirar-lhe com jeito, de forma quase milimétrica, não se importava com isso, toda a informação que Carmen lhe passara. Martim sabia que existiam duas fortunas e ele, apesar do pouco pedigree, de se saber o filho que não era realmente, teria acesso ao dinheiro antes da irmã. Era crucial que assim fosse. Para a sua carreira.

O problema é que Jaime era um tipo desligado dessas coisas e Carmen tudo fizera para garantir que as conversas eram sobre eles os dois, a relação, o casal. Era essa uma das razões para Jaime ter terminado tudo. Não aguentava o casulo onde Carmen o que queria ter mantido, só dela, ali confinado, sem vida digna desse nome. De repente viu-se casado e careca, com filhos e um problema de ossos, um cenário de meia idade precoce que o assustou e foi isto tudo que acabou por revelar a Martim e a Carlota, já sob o efeito de muito álcool. Carlota podia ter defendido a amiga, é verdade, mas isso daria imenso trabalho, portanto optou por afagar o braço ao Martim, na esperança de que a noite terminasse.

 

Paulo tentou convencer Carmen que voltar para Lisboa de noite era uma tolice. Foi isso que se ouviu dizer

 

É uma tolice.

Ela sorriu e explicou que preferia apanhar o comboio das sete e tal da tarde, mesmo que estivesse escuro, era possível dizer que era a tarde do dia e não ainda a noite. Ele entendia? Paulo fez que sim com a cabeça. Não sabia se lhe devia dar boleia e regressar a Lisboa também, se devia ir com a mãe ao médico – tinham posto essa hipótese – para entender o que se passava com ela, se existia a possibilidade de um diagnóstico. Sentia-se dividido e, apesar disso, teve a percepção exacta de que não podia deixar Carmen sozinha. Importava que falasse e começou a fazer perguntas.

 

Não, não, a minha avó foi quem me salvou. Estava a ouvir os meus pais ontem à noite e percebo agora que não os entendo e tão pouco os conheço. Não sei nada deles. O Martim pode ser estranho, estouvado, parvo, porém sempre o tive como um irmão e não entendo como é que o criaram e nunca lhe disseram que tem uma mãe e, já agora, também não entendo a tua mãe, como é que se dá um filho? Desculpa, não estou a criticar, ou melhor, estou, mas terás de me desculpar, não percebo algumas atitudes, eu nunca abandonaria um filho. Claro que a tua mãe era muito nova, muito mais nova do que eu sou agora, e teve o Martim e depois teve-te a ti e ao Jaime e fez a vida dela, mas mesmo assim, sabia que o seu primeiro filho estava aqui, em Coimbra. Não quero entender. Só quero voltar para Lisboa.

 

Paulo tentou reconforta-la, mas Carmen não estava convicta de que fosse possível aplacar qualquer sentimento. Tudo estava ao rubro, era uma guerra antiga e interior: Martim não pertencia, não encaixava e havia uma razão para isso. Quando conhecesse Laura, o irmão iria, por fim, encontrar um destino, porque – Carmen acreditava nessa ideia – mãe é sempre mãe. Paulo entendera que Carlos, Maria Luísa e Laura não tencionavam dizer nada a Martim. Tentou que Carmen fosse razoável. Ela disse

É o teu carro, mas se vais comigo, eu guio

 

Jaime teve pena de que a conversa tivesse sido tão curta. Gostaria que o irmão lhe explicasse mais coisas, coisas concretas, mas Paulo mantivera a ideia de que era melhor falarem olhos nos olhos. Fora essa a expressão – olhos nos olhos – e Jaime entendeu de imediato que tudo se prendia com a mãe, fosse o tudo o que fosse, Laura tinha este dom de lhes desarrumar a vida, porém desta feita Jaime estava convencido de que existia algo de grave. Paulo pareceu-lhe cansado ao telefone e, de repente, ouviu-o dizer

Vou para Lisboa agora. Levo a Carmen.

A Carmen está contigo?

Eu depois explico-te.

Pensei que tinhas desaparecido por causa da mãe, uma bodega qualquer que tivesse feito, para variar, mas estás-me a dizer que estiveste fora com a Carmen? Incrível. E tu nunca gostaste dela, Paulo.

Agora gosto.

Desde quando?

Desde a festa da tua empresa.

Mas... Olha, eu nem sei o que te diga.

Falamos quando eu chegar.

Talvez não seja preciso, não tenho nada a ver com a tua vida privada.

Não sejas parvo, Jaime.

Parvo...

Não aconteceu nada entre mim e a Carmen.

Aposto que não.

 

Paulo deixara Carmen conduzir não por opção, mas por não querer discutir. Percebia agora que o espaço de conflito na sua vida – além da mãe – estava reduzido ao consultório, no consultório os doentes podiam chorar, gritar, alguns até se aborreciam com ele e Paulo mantinha a pose. Há uns meses que tratava uma mulher que, recentemente, lhe dissera em consulta

Não tem outra cara? Só essa cara de parvo? Eu estou aqui neste disparate e não se chateia comigo? Você não é humano.

Paulo sentia-se humano. Sabia que tinha de controlar as emoções com os doentes, estava treinado para tanto. E existiam doentes de quem não gostava, a quem talvez desse dois berros mentais, porém nada transparecia. Era um bom actor. Jaime achava-o um bom actor, sobretudo agora, com a proximidade de Carmen. Não podia dizer que não gostava da ex namorada do irmão, não podia dizer que a sua intensidade o esmagava, que era um possessiva e controladora. Agora entendia-a melhor.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 23.04.16

Quando a verdade não liberta

Laura manteve-se em silêncio, certa de que Carlos conseguiria dominar o histerismo de Maria Luísa que, depois de tanto rir, se queixava de uma dor de cabeça explosiva, pronta para berrar de dor, instável, eléctrica. Paulo não se mexia. Mantinha-se sereno e Carmen, ao seu lado, tentava não olhar para a mãe. Laura teve pena dos dois. Depois teve pena de todos. Carlos vivia com Maria Luísa por imposição do estatuto, Coimbra também tinha esse encanto. Maria Luísa castigava-o, ainda agora, por ter libertado o coração num outro território. Laura ouvia tudo com atenção. Tinha-se deixado vestir de forma apropriada pela antiga amiga e, naquele momento, só tinha vontade de rasgar o vestido azul escuro, deitar as pérolas ao chão e exigir qualquer coisa que não sabia nomear. A liberdade dela nunca fora verdadeira. Laura entendia agora que nada, nada na sua vida, era mais do que um adiar do encontro com Maria Luísa e Carlos, como se a ligação entre eles fosse essencial para um significado real.

 

Jaime conseguiu ouvir o relato do irmão com alguma dificuldade. O álcool toldava-lhe, tornando-as imprecisas. Tinha deixado Martim numa discoteca e andara até a casa, não sabia quantos quilómetros, mas muitos, pareciam-lhe muitos passos numa Lisboa fria. Quando viu a sms do irmão a pedir para ligar fosse a que horas fosse, percebeu a urgência pela forma como o coração desatou a gritar no peito. Pontadas. Repentes vertiginosos que o obrigaram a parar. Respirou fundo e ligou para o número de Paulo, o único que tinha em marcação rápida, o único que sabia de cor. Depois ouviu, atento, a história incrível de como tinha um meio irmão, não um irmão, só meio, assim o consagrava a lei portuguesa, por ser filho da mãe. Laura tinha sempre mais uma surpresa. Explicou a Paulo que tinha estado com Martim, um acaso e como se sentia enjoado, pronto para vomitar. Eram quase duas da manhã. Paulo pediu-lhe calma. Jaime quis saber onde estava.

Em casa dos pais da Carmen, com a mãe.

E a Carmen está aí? Vais ficar aí a dormir?

Paulo olhou para o lado, viu o rosto imperturbável da ex namorada do irmão a dormitar no sofá da grande sala de estar.

Laura manteve-se na cozinha, numa semi escuridão protectora que lhe agradava especialmente. Maria Luísa tomara um comprimido desfeito no chá e Carlos alegava que era imperativo conversar. Conversar longe dela, a sua mulher, a amiga de infância de Laura, um mecanismo de papel na mão com flores e casinhas.

Quantos queres?

Três.

Eram pedaços de vida que lhe surgiam, de forma inesperada, e Laura procurava algum consolo nisso, no passado. O passado como moldura de uma certa felicidade, pelo menos até ao momento em que Carlos a tinha beijado para depois a repudiar e regressar para Maria Luísa. Ela, Laura, era um desperdício e a ideia do amor fora consumada num filho que não conhecia. Os seus três maridos, relações tensas com homens com quem não mantinha contacto, não tinham tido qualquer hipótese, ela estava marcada por Carlos e por Maria Luísa, eram eles o fiel da balança dela e, sozinha, só chegava a um limiar de desequilíbrio que era permanente, era assustador.

Não era de admirar que tivesse falhado com os filhos, em especial com o primeiro, o desconhecido. Carlos fez questão de dizer que Maria Luísa tinha em Martim um centro, dedicara-se a ele com o afinco proporcional de negligência face a Carmen. Laura não se consolou com o argumento. Algo dentro dela, perturbada, zangava-se com a importância que Carlos estava a conferir à criança que tinham tido os dois. Para Laura existiam dois filhos: Paulo e Jaime. Era o que sentia e sobre isso falou com alguma brutalidade. Sobre isso e a ideia de que estava a perder a noção das coisas, esquecia-se de tudo.

 

Preciso que tomem conta de mim. O meu pai morreu com isto, lembras-te?

 

Carlos lembrava-se. O pai de Laura tinha-se desligado do mundo gradualmente. Quando chegou o dia do coração parar de bater violento, já não conhecia ninguém. A mãe de Laura despedira-se do marido sem uma lágrima, cansada. Partira nesse dia da realidade e, meses mais tarde, deixara-se morrer. Laura não falava sobre isso, nunca falara aos filhos sobre os avós, por se ter convencido que não prestavam, que não se tinham dedicado a ela. Laura optara por viver nas entrelinhas da vida de Maria Luísa por não ter um espaço que fosse possível reclamar como seu. Agora percebia que estava a chegar ao mesmo estado do pai. A cabeça começava a apagar pormenores, como pixels de uma fotografia, a realidade a desbotar, roupa suja e velha, era ela, a cabeça dela.

Carmen acordou com frio, o corpo no sofá, as pernas em cima do colo de Paulo que, de olhos fechados, não lhe parecia adormecido. A casa estava calada. A mãe tinha-se fechado no quarto e, por fim, a paisagem era segura. Olhou para o irmão do ex namorado com ternura. Havia entre eles uma ligação, não por causa de Jaime, mas por causa de Laura, a mulher que afinal podia ser que tivesse o coração de Carlos, o seu pai. Sentiu-se pronta para conversar sobre o assunto e começou a falar como se nada fosse, sem princípio.

Mas tu achas que podemos viver todos como uma família feliz? Isto é inesperado, não achas? Nunca pensei que o meu pai... Olha, talvez seja o destino.

O destino?

Sim, sermos uns dos outros.

Paulo perturbou-se com essa ideia. Depois Carmen sentou-se e sorriu. Pensou como seria beijá-la.

 

Martim mandou uma mensagem escrita a Carlota. Eram sete da tarde e, subitamente, era com ela que queria estar. Podia ter sido directo e perguntar se queria passar lá em casa, ficando evidente o propósito da mensagem. Martim, com o seu ego tão mexido quanto todas as outras vaidades, não se preocupou com o episódio no restaurante. Carlota já não se lembraria. Não fora uma afronta, estava a trabalhar. Era só isso. A vida não precisava de mais complicações. Martim decidia que tudo era passível de ser entendido dentro da moldura das suas ideias e isso chegava. Carlota, por seu turno, mantinha uma memória doce da noite que passara com o irmão da amiga, apesar dos avisos desta, das previsões catastrofistas. Leu a mensagem de Martim e percebeu a pergunta. Sim, ela queria voltar para a cama dele. Estava-se bem na cama dela.

 

Laura fez sinal ao filho mais velho, a cabeça na direcção do jardim, o olhar fixo. Paulo percebeu que era melhor segui-la. Seria possível fazer as perguntas que se acumulavam desde a noite anterior? Laura disse:

Tu não vais entender, Paulo.

Experimenta.

Morrer é fácil, perder a consciência não é fácil. Eu estou a perder a memória. Perco-me.

Não estás a exagerar?

Não viste os bilhetes pela casa? É uma forma de me tentar lembrar. Até de dar de comer aos gatos. Não consigo.

E vieste para aqui porquê?

Eles devem-me isso. Têm de tomar conta de mim.

Porque? Que disparate é esse?

 

Laura suspirou. Não era um acaso, não era um capricho. Se alguma existira uma dimensão de delírio na sua vida tinha sido há muito tempo, há mais de vinte cinco anos, aquela gravidez inesperada, o casamento apressado de Carlos e Maria Luísa. Tentou enquadrar o filho, explicar de forma sucinta, não se queria alongar. Paulo não lhe deu hipótese.

Se queres a minha ajuda, por favor, conta-me tudo.

Laura não sabia se era preciso precisar do filho. Quando era mais nova, admitia-o com facilidade, imaginava por vezes que os filhos desapareciam. Não morriam, ficavam apenas suspensos na sua existência para que a vida não lhe fosse tão pesada, para conseguir sair com os amigos, para rir às gargalhadas pela madrugada sem preocupações com horas de escola, com comida a existir no frigorífico ou nem por isso. Depois lembrava-se deles, os rostos de Jaime e Paulo, o coração encolhia e o arrependimento era gigante. Amava os filhos. Amava-os animalmente.

Laura explicou que a gravidez fora um percalço, tudo era um acidente absurdo numa via rápida sem fiscalização ou regras. A vida também era isso. Sabia hoje que era apenas uma variável na equação e pouco importava querer controlar tudo, o mundo era impossível de dor e a verdade tinha sempre dor por dentro, dor sistemática. Paulo ouviu-a no seu desvio, pensamentos soltos, ela a encarar a relva debaixo dos pés, sentada com um sossego que não lhe conhecia. A mãe tinha-se transmutado numa outra pessoa. Paulo só lhe reconhecia a vertente estrangeira, era ela e, ao mesmo tempo, era uma Laura de outro tempo em que a vida parecia ter possibilidades de sucesso. Ela contou sem mudar o tom de voz, sem hesitações, as palavras contidas. Maria Luísa deixara o namorado, Carlos, pai de Carmen e de Martim, e tinha-se encantado com alguém mais velho que a deixara com uma rapidez assustadora. Laura tinha recolhido o coração partido de Carlos, era um resto de Maria Luísa e pareceu-lhe natural tentar aplacar o seu sofrimento. Mas nada seria tão simples. Abandonada, zangada, Maria Luísa reclamou o regresso de Carlos e marcou um casamento rápido para que não fosse possível recordar que se tinha entregue a um homem que a deixara, um homem que afinal não era superior a Carlos. Laura deixou-o ir. Paulo não fez um esforço para compreender.

Entretanto, em Lisboa, Martim descobria o humor negro de Carlota. Ela faz-se difícil. Menos amorosa do que pretende, do que seria normal. Se não lhe der importância, Martim não terá a leviandade de a menorizar. Se parecer distante, ele irá atrás dela. É um jogo. Não quer que Martim perceba que só a sua mão na dela, esse primeiro toque ligeiro, ainda sem atrevimento, a desmorona. Perde o céu quando o sente perto. Isso não se pode vislumbrar. Em nenhum gesto, em nenhuma palavra. Carlota acredita que será assim. Quando o telemóvel toca é Jaime do outro lado que, num fio de voz, deixa uma mensagem esquisita. Carlota não quer saber. Martim vai acabar enfeitiçado por ela. Nem que seja preciso. Qualquer coisa.

 

Laura e Paulo foram interrompidos por Carlos. Era um momento confuso, silencioso e pesado. Não havia palavras suficientes, pensou Paulo, calado, apostado em não dizer nada. Nada o preparara para as loucuras da mãe, nem para o passado, cada dia com ela fora sempre um exercício penoso que ele, Paulo, escolhera tomar para si como um sacrifício em prol do irmão. Agora a mãe dizia-lhe que estava a perder a memória, que esse gastar das ideias e a incapacidade de fixar pormenores era real, não uma mera fantasia, que podia até possuir contornos genéticos, afinal, o avô que Paulo não conhecera deixara de ser gente assim, perdendo as ideias. Paulo lembrou-se de Jaime a dizer, há muitos anos, que o irmão estudava para ser médico das ideias.

Podia ser que Carlos tivesse mais esclarecimentos, decerto que haveria uma versão só sua e Paulo sabia como uma mulher pode ser castigadora, limitativa e outras coisas, ora Carlos estava ladeado por duas mulheres e nenhuma fácil na sua forma de existir. Paulo decidiu ali que não gostava de Maria Luísa e que não teria pudor em confessá-lo. Havia algo de perverso naquela mulher e, ele, mesmo no seu melhor feitio, na contenção de quem estudou para ser imparcial nas coisas no emocional, estava do lado oposto ao de Maria Luísa. Não gostava dela. Por entender o poder que tinha sobre a mãe dele e sobre aquele homem gentil, que lhe parecia gentil, agora a fumar um cigarro e a olhar o jardim com tristeza, uma tristeza velha.

Carmen decidiu que era hora de regressar a Lisboa, estava cansada do teatro trágico-cómico da família e agora que se sabia irmã adoptiva de um irmão que nunca gostara, Martim, preferia seguir com a vida. Apesar da ideia absurda que Paulo era uma possibilidade, depois de tudo o que chorara por Jaime, o coração partido e os insultos repetidos como uma lengalenga, Carmen só queria voltar à universidade, assistir o professor sem mérito mas com cátedra e pouco mais. Não valia a pena tentar entender os pais e, por outro lado, era incapaz de processar toda a estranheza de Laura. Não era de admirar que Jaime tivesse tanta deficiência emocional, afinal a mãe dele era um destroço de um navio sem rumo. Parecia-lhe que sempre fora assim e teve pena de Jaime. Depois de Paulo. Procurou-o com o olhar e lá estava ele no jardim, em silêncio, a cara fechada, a fingir-se adulto entre Laura e Carlos, duas criaturas presas na mitologia de uma idade adulto com mais de vinte anos.

Jaime estava aborrecido, ligou a Martim. Não sabia o motivo desse gesto precipitado, um convite para uma bebida e estavam a conversar, meias palavras, conversa sem importância, quando ouviu a voz de Carlota e perguntou:

Estás com a Carlota?

Estou. Vamos tomar um copo os três.

Ok.

Conduzindo agora sem vontade, antevia uma noite de copos frustrante e não entendia a razão pela qual tinha telefonado, a razão que o levara a sugerir um encontro que não fosse um exercício típico de homens que não têm mais nada para fazer. Tinha o que fazer. Podia olhar para Carlota. Ver-lhe os lábios a abrir e fechar e prender-se nisso, sem ter em conta qualquer outra coisa. O que Jaime queria era entender o que fazia a caminho daquele encontro e por que carga de água é que Paulo não lhe respondia às mensagens.

Carlota viu-o primeiro. Jaime estava ao fundo do bar, numa mesa encostada à janela, fumava um cigarro e, como todos os solitários, brincava com qualquer coisa no telemóvel ou via notícias. Lembrou-se que Carmen tinha o hábito de jogar majong no telemóvel, peças que procuravam o seu companheiro, Carlota nunca entendera. Agora era tempo para sorrir e, pendurada em Martim, fazer-se entender com Jaime de uma forma amigável, porque, quem sabe?, podiam todos ser amigos. Uma coisa era certa, não tencionava olhar para Jaime com qualquer nota de interesse. Estava, aliás, ofendida com o interesse súbito, que lhe pareceu ser súbito, com que Martim encarava a hipótese de se encontrarem com Jaime.

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blogue da semana

por Patrícia Reis, em 17.04.16

"Na minha cabeça já comecei este texto várias vezes. Ou pelo menos iniciei a ideia de o começar. Mas a verdade é que não sei como o fazer, como escrever uma linha sobre um livro que é todo surpresa e espanto.

Não escrevo sobre os livros que não gosto, primeiro porque não os chego a terminar, segundo porque acho que não vale a pena perder tempo a dizer mal. Mas sobre os que gosto, sim. Para esses eu quero escolher as palavras mais bonitas, aquelas que me ocorreram durante a leitura, outras em que pensei depois, e ainda as que surgem enquanto escrevinho o que há de ser uma espécie de opinião.

Bom, mas esta conversa não vai fazer ninguém pegar no livro, e neste ponto vou ser muito objectiva: eu quero que leiam este livro. É bastante provável que eu chegue ao fim deste texto sem ter reunido razões suficientes para que o leiam, e isso será por mera incapacidade minha, mas já sabem o que têm de fazer. Ler este livro."

É assim que começa o último post do blog planetamarcia, http://planetamarcia.blogs.sapo.pt, de Márcia Balsas. A enorme vantagem do blogue? Máricia Balsas não é uma crítica literária a trabalhar para um jornal,  é uma leitora atenta e curiosa que escreve somente sobre os livros de que gosta, como se pode ler no texto acima. Todos os seus posts explicam as razões que a levam a gostar do livro A ou B numa descrição que não estraga uma potencial leitura a quem estiver interessado e que, acima de tudo, é de uma honestidade enorme. Não há um registo académico, nem jornalístico, repito, o que há é alguém que ama os livros e que escreve sobre o espanto de conseguir encontrar na leitura um espaço feliz. Ah, não é de somenos sublinhar que a Márcia Balsas lê indiscriminadamente, ou seja, está- se nas tintas se fica bem ou mal dizer bem de certos autores ou livros, logo é um blogue muito recomendável.

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Fictiongram, continuação da continuação

por Patrícia Reis, em 31.03.16

Carmen voltou a casa dos pais para passar o fim de semana. Não sabia o que a esperava mas sentira na voz do pai uma pressa qualquer por definir e percebeu que era importante ir. A instabilidade que a mãe lhe provocava era uma guerra antiga, guerra dela, Carmen, interior, indizível, forte e sem tréguas, nunca seria a perfeição que a mãe entendia como padrão de elevada categoria, nunca seria como o irmão. Martim era mais. Sempre mais mesmo quando era menos. As vagabundagens de Martim não se assemelhavam em nada à vida de Carmen, as asneiras eram múltiplas, as falhas teriam o condão de compor uma lista imensa. Apesar disso, a mãe preferia-o. Era o seu menino.

Carmen debatera-se na adolescência com esse amor maior que, parecia-lhe, era um poder que Martim tinha, subjugando a mãe ao que fosse. A avó era o único porto seguro para Carmen e lembrava-se, ainda agora, de lhe escrever bilhetes com uma caligrafia inaugural, desejando sonhos felizes, dizendo que a amava. A avó correspondia sempre. Quando Carmen chegou aos doze anos, a avó foi internada, ninguém lhe explicou o que era, ninguém tinha essa preocupação com “as crianças”. A avó regressou débil, muito mais velha. Carmen teve dificuldade em processar essa constatação de velhice, a primeira: nada é eterno, a minha avó não estará sempre comigo. Atormentou-se com ideias de morte e fez planos de fuga caso a avó não sobrevivesse. O cansaço instalou-se, os movimentos eram mais lentos, mas a avó manteve-se, até Carmen fazer vinte e três anos, a avó manteve-se ali, uma bolha segura para a qual a menina que ela tinha sido podia voltar. O pai concedia-lhe esse privilégio de estar com a avó.

A mãe não comentava a relação da filha com a sogra, talvez porque a sua própria mãe não estivesse disponível. A avó materna de Carmen morrera pouco tempo antes dela nascer. Via-lhe as fotografias e interrogava-se se gostaria tanto dessa avó roubada ao tempo. A mãe nunca lhe contava nada sobre esse lado da família, Carmen tinha apenas uma avó, portanto. A mesma que encarava Martim com uma certa contrariedade, facto que Carmen explorou com alegria uma vida inteira. Ele tinha a mãe, ela tinha a avó. E nenhum tinha, verdadeiramente, o pai. O pai não era um homem para se ter, pouco dado aos afectos, sempre sério, mantinha-se ausente por opção e mesmo quando a mãe perdia a compostura com qualquer detalhe da vida quotidiana, o pai limitava-se a dizer

 

Menos, Maria Luísa. Menos.

 

Carmen chegou a Coimbra era o fim da tarde. O corpo denunciava o cansaço e, dentro dela, a ansiedade crescia. Uma espécie de guerrilha entre a cabeça e o corpo: a cabeça a debitar perguntas, a reviver momentos, frames da vida; o corpo a pedir o regresso a casa, a Lisboa, numa agonia de antecipação centrada no rosto da mãe, Maria Luísa. Não podia correr para casa da avó, não podia sentir-se feliz de novo. Pensou ainda em Jaime e na forma como não estavam um no outro, nunca tinham estado. Enganara-se. Iludira-se. Ele era agora uma imagem difusa. Era uma das suas especialidades. Carmen voltou à sensação que a diminuía, não saber lidar com o todo da sua vida. E com o menos que sentia ser.

Paulo fez a auto-estrada com irritação, com a ideia absurda de estar apenas a ser um filho perseguidor, um mini marido, controlador. No dia anterior, uma paciente tinha-lhe dito que o filho mais velho era uma espécie de marido, ele que controlava as contas, os jantares, os humores da mãe, mesmo tendo apenas treze anos. Paulo ouviu a mulher com atenção, era o que fazia sempre, ouvia com atenção. Talvez nunca tivesse dado à mãe, a Laura, essa possibilidade. Estava demasiado zangado com ela. Consigo. Importava perceber que acatara o exercício de ser quem Laura precisava que ele fosse, mesmo que isso fosse, por si só, uma castração. Paulo conduzia dentro dos limites da lei e até isso o enjoava, ser certinho e aplicado. Carregou no acelerador e chegou a Coimbra em menos de uma hora. Onde procurar Laura, era outra questão.

Carlos percebeu que teria um problema, uma aflição, um pesadelo quando decidiu ir fumar à janela. Maria Luísa odiava o cheiro do tabaco, com odiava quase tudo que o implicava directamente. Carlos geria o silêncio. Há anos que o fazia, portanto era quase automático. Esquecia-se do som da sua voz a ressoar na casa gigante. À janela viu a mulher e percebeu que não era só uma mulher. Laura. Do outro lado da rua, estava Laura, a mãe do seu filho, a mulher que não lhe diria maldades com a rapidez de Maria Luísa, mas que o odiava, só podia ser assim: o ódio forrava a memória de tudo, em especial do que ele, Carlos, não conseguira fazer. Laura teria apenas ódio por ele, ele que ainda se recordava do toque da pele dela, a cova do ladrão no pescoço, a forma como o corpo dela mergulhava no seu.

O táxi parou junto à casa dos pais e Carmen teve uma hesitação. Pagou e agradeceu, sentindo que o taxista contabilizava os seus gestos, que o homem veria com desagrado a sua forma de suspirar. Fechou a porta do táxi e encarou a casa. Viu o pai à porta, esperava-a. Não. Uma mulher passou por perto, roçou-lhe o ombro, abriu a porta do jardim e disse

 

Olá Carlos.

 

O pai quase que sorriu, Carmen pareceu-lhe ver um sorriso.

Lisboa encerrava um nevoeiro cruel. A luz tinha desaparecido. Carlota mirava as estatuetas que estavam na estante e considerava o ridículo de comprar artesanato. Ou qualquer outra coisa. Sentia-se deprimida e não percebia. Não se percebia. Ligou a Carmen que a informou da sua ida a Coimbra. Pouco adiantou sobre o seu estado de espírito, Carmen que fosse em paz. Ligaria a Martim? Não, isso é que nunca.

Martim analisou com atenção o Facebook de Carlota. Surpreendeu-se com o número de fotografias da irmã. Carmen pareceu-lhe uma desconhecida, sentimento que não lhe provocou nenhuma arrelia, era assim desde sempre. A irmã abraçada à Carlota era apenas um corpo de uma mulher. Não a odiava. Era-lhe indiferente. Como os pais lhe eram indiferentes. O pai ligara a dizer que talvez fosse de ir a Coimbra, a mãe, enfim, a cabeça da mãe, estava pior.

 

Vai perder tudo

 

disse o pai e a frase não suscitou nada no coração de Martim.

 

Tentou o telemóvel da mãe várias vezes. Laura manteve-se desligada

 

O número para o qual ligou não tem voicemail activo

 

Paulo percorreu a cidade sem saber onde ir. Impotência, frustração. Estava perto de desistir quando deu de caras com Carmen em plena Praça da República. Ela estava ali. Numa esplanada, alheada de tudo, a ver o horizonte sem focar nada. Tinha uma tristeza quase esmagadora. Paulo percebeu que existiam camadas distintas em Carmen e que podia passar uma vida inteira a tentar perceber. Quando se aproximou não houve qualquer sobressalto. Ficaram em silêncio. Paulo esqueceu-se da mãe. Laura perdeu-se.

 Tudo se precipitara. Carlos não esperava Laura, nunca tinha esperado e estava convicto do ódio, por isso ficou incapaz, perdido de palavras. Atrás de Laura, viu a filha e encolheu-se. Tudo se precipitara, pensou de novo. Carlos tentou ser gentil. Carmen passou por eles célere, como quem intui o desconforto do pai. Não disse nada. Havia algo que a impedia de cortar aquele fio entre o pai e a mulher desconhecida. Entrou em casa, largou a pequena mochila com uma muda de roupa e saiu. Caminhar seria o melhor.

 

Estou sozinha, Carlos. E preciso de conversar com quem me conhece.

E eu conheço-te, Laura?

Se não tu, quem?

A Maria Luísa conhecia-te bem. Agora não sei...

Ela nunca me aprovou.

Ela nunca te perdoou a liberdade, Laura.

 

Maria Luísa estava deitada. Os olhos semicerrados. Parecia uma senhora dentro de uma tela barroca, as rendas da camisa de dormir, o folho do lençol, a cama em dossel. Tudo estava parado no tempo. Maria Luísa mantinha uma das mãos junto ao peito e via-se um cristo redentor de ouro, pendurado no seu pescoço. O silêncio dominava a cena e Carlos, indiferente, já não absorvia nada e tão pouco se cuidava nos esforços para não fazer barulho. Entrou no quarto com à-vontade. Laura ficou à porta.

Paulo sentou-se e pediu um café. Carmen sorriu ligeiramente. O telemóvel de Paulo estava aos berros dentro do casaco e temeu que fosse a mãe, precipitou-se para o apanhar, era Jaime. Colocou o aparelho no silêncio e, por fim, conseguiu sentir-se descansado. Era curioso como Carmen tinha esse poder sobre ele. Não compreendia como se tinha permitido sentir um certo desgosto por aquela mulher quando namorara com Jaime. A sua fragilidade tinha-o irritado. Agora comovia-o. Ela disse

 

Tive de fugir de casa.

Como os adolescentes?

Sim. Por isso mesmo, terei de voltar.

Eu ando à procura da minha mãe.

Ah.

 

Foi, de repente, a frase

 

Eu ando à procura da minha mãe.

 

e Carmen percebeu quem era a mulher com quem o pai parecia querer conversar a sós, aquele olhar de quem diz, por favor, sai daqui que a levara até ao centro, fora isso: sai daqui. A mulher era a mãe de Jaime e de Paulo, era tão evidente que era a mesma, apesar de Carmen só conhecer Laura de fotografias que tinha visto no computador de Jaime. Ponderou se deveria dizer alguma coisa, mas optou por uma manobra que, de imediato, lhe pareceu cruel: levaria Paulo para casa com ela. Um convite para jantar.

 

Estava à tua espera.

Não estavas, mas eu aqui estou.

Não, Laura, estava à tua espera.

Tu nunca esperaste por ninguém.

Tu enganaste-me. Eu precisava de ti e fugiste e mentiste.

É o que faço.

Não é. Fazes outras coisas e agora ficas comigo, não ficas?

Fico.

 

Carmen não precisou de se esforçar para convencer Paulo de que um jantar em casa dos pais era o programa ideal. Ele não conhecia bem Coimbra, a mãe podia ter ido para outras paragens. Caminharam os dois de braço dado, um gesto antigo. Quando Carmen abriu a porta, Paulo viu uma senhora ao cimo das escadas, vestido azul escuro, colar de pérolas. Foi preciso focar, obrigar o cérebro a ir mais rápido, para vislumbrar a mãe naquelas roupas. Carlos surgiu da sala de estar e perguntou

Conhecem-se?

 

Jaime tentou telefonar a Paulo. Tocou, tocou e nada. O silêncio do irmão incomodou-o. Sentiu-o como uma traição, tornou-se pequeno, infantil, capaz de ser injusto e amuar. Controlou-se. A casa da mãe vazia, Paulo desaparecido, a assistente dele, no consultório, a explicar que não sabia, não tinha como. Jaime decidiu que era melhor espairecer, tentar não pensar nisso. Na mãe. Em Paulo. Estava incapaz de destrinçar a realidade à sua volta e tinha um pressentimento, a ideia de um mau pressentimento. E, nesse momento da decisão de se alhear, ouviu

 

Jaime? Certo?

 

Martim estendeu-lhe a mão e abriu um sorriso que surgiu inesperado. Jaime sabia que Carmen odiava o irmão. Não era um ódio recente, era visceral. Ela tinha dito

Ele não pertence. Sabes o que é viver com uma pessoa que não encaixa?

Jaime sabia. A mãe era a maior lição de vida sobre pertencer ou não pertencer, sobretudo a parte de não encaixar. Martim hesitou e depois perguntou

 

Bebemos um copo?

 

Jaime acenou de forma imperceptível, nem sim, nem não, mas Martim já tinha decidido que tomariam algo, fosse o que fosse. Jaime, perdido, entrou num lobby de hotel, seguindo as passadas aceleradas de Martim. Temia o pior.

 

Calculo que a minha irmão não tenha falado de mim.

 

Martim disse a frase sem qualquer ressentimento, cada palavra dita de forma clara, sem hesitação, num tom de voz que não o denunciava. Jaime sorriu. Não tinha nada para lhe dizer. Rodou o copo de whisky na mão. Martim não precisava de retorno, bastava-lhe público.

 

A Carmen é... Não sei bem, conheço-a mal. Sei que nunca me gramou. Sou o irmão mais velho de quem a mãe gosta. A Carmen tem falta de mãe.

 

Jaime voltou-se para a imagem de Laura e, como sempre, associada à mãe estava Paulo, o irmão salvador.

Paulo fixou-se na imagem estranha da mãe, refeita com a roupa delicada de Maria Luísa. A voz pareceu-lhe diferente. Os anéis tinham desaparecido, o cabelo estava apanhado. A mãe estava sobre o efeito de algo que Paulo não entendia. Depois Maria Luísa falou e Paulo deixou-se prender pelo espanto da outra mulher, a desconhecida frágil, de roupão, que encostada a Laura, sorria idiotamente. Ela disse

 

Carmen, trouxeste um amigo? Que bom, querida.

 

Laura passou pelo filho e não o olhou. Não era ela. Paulo manteve-se calado, sempre calado, incapaz de entender, perplexo com tudo, a casa, o cenário, as personagens. Podia pedir para sair, podia. Não fez nada. Encaminharam-se para a sala de estar e Carmen pegou-lhe na mão. Tudo era estranho.

Maria Luísa tinha uma maneira especial de falar, um tom de voz baixo que obrigava ao silêncio e os olhos dela eram hipnóticos. Carlos e Laura fixavam-na e, ao mesmo tempo, fixavam-se. Estavam frente a frente, Maria Luísa a meio, no sofá. Carmen não conversava com ninguém e Paulo observava. Era como estar numa sessão de cinema. Paulo descobria a mãe, e dentro da mãe outra mãe. Por fim, perguntou

 

Conhecem-se há muito tempo?

 

Carlota passeou no facebook a ver se se metia feliz, se conseguia chegar a uma fórmula de sossego e se deixava contaminar por alguns posts daquelas pessoas que estão sempre a alardear felicidade, verdadeira ou falsa, tanto lhe fazia, não as conhecia, apenas lhe apetecia um mundo mais cor de rosa, ou​ talvez mesmo só​ ver se ​conseguia. O facto de Carmen estar fora era apenas um contratempo. Queria dizer-lhe que as asneiras não têm previsão e que não tem mãe para lhe fazer avisos adolescentes. Nada disso. Está sozinha. Com o seu corpo a borbulhar uma ideia de vida, lá dentro. Carlota vê os gatos e os cães, os gifs com John Travolta, e tenta, tenta desesperadamente, não chorar. Não se revê nesse destroço imprevisível de querer tirar do peito uma angústia que não corresponde a quem é. Carlota faz um esforço, limpa o rosto, pensa-se forte e feliz e depois desiste.

 

Carlota passeou no facebook a ver se se deixava contaminar por alguns posts daquelas pessoas que estão sempre a alardear felicidade, verdeira ou falsa, tanto lhe fazia, não as conhecia, apenas lhe apetecia um mundo mais cor de rosa, ou​ talvez mesmo só ver se ​ conseguia chegar a uma fórmula de sossego. O facto de Carmen estar fora era apenas um contratempo. Queria dizer-lhe que as asneiras não têm previsão e que não tem mãe para lhe fazer avisos adolescentes. Nada disso. Está sozinha. Com o seu corpo a borbulhar uma ideia de vida, lá dentro. Carlota vê os gatos e os cães, os gifs com John Travolta, e tenta, tenta desesperadamente, não chorar. Não se revê nesse destroço imprevisível de querer tirar do peito uma angústia que não corresponde a quem é. Carlota faz um esforço, limpa o rosto, pensa-se forte e feliz e depois desiste.

 

Laura olhou o filho do outro lado da mesa, havia um silêncio quase confortável, apesar de Maria Luísa pontuar com uma outra pergunta. Carlos não a olhava nunca, tão pouco respondia, permanecia fixado em Laura, em suspenso, capaz de dizer qualquer coisa a qualquer momento mas sem o fazer. Carmen arrependera-se já de não ter explicado que Paulo era filho de Laura, incomodada com o silêncio entre os dois e esse anúncio de ligação. Havia algo perturbador em tudo aquilo. O pai tinha-lhe dito que a mãe não estava bem e, de repente, a mãe parecia ter rejuvenescido e dirigia-se a Laura com um entusiasmo pouco habitual. Paulo repetiu a perguntar que tinha ficado por se saber. Como se tinham conhecido? E tinha sido há muito tempo? Laura começou a responder, hesitante, mas Maria Luísa disse que contaria a história e contou.

Paulo e Carmen perceberam coisas distintas. Maria Luísa não se enganou em nada, a percepção de cada um estava limitada à informação prévia que possuíam e, por isso, tinham perguntas a fazer, mas não conseguiam. Maria Luísa imponha um silêncio. Era o seu palco. O pai de Carmen, Carlos, levantou-se para ir fumar. Laura manteve-se, imperturbável, desconhecida para o filho, incapaz de o olhar directamente. Paulo percebeu que a mãe tinha um passado mais desfeito do que alguma vez imaginara e que Maria Luísa era quem a dominava, era aquela a pessoa que podia colocar Laura no sítio certo. Carmen, por seu turno, só se encantou com a amizade antiga, tão visceral, de grande pertença e identificação e teve pena do pai, ele que não fazia parte daquela relação umbilical que Laura tinha com a sua mãe.

Havia ali vários enganos e um mal estar crescente. Laura sabia que iria rebentar, fazer explodir a bolha da decência e manchar o resto do serão com palavras que seriam outra guerra, um conflito desconhecido de Paulo ou de Carmen, uma história antiga que a ligava a Maria Luísa e a Carlos. Estragar a harmonia era a sua forma de estar e, reclamando uma liberdade que Maria Luísa condenava, Laura explicou o inexplicável.

 

Nós somos os pais do teu irmão, Carmen. Eu sou a mãe, Maria Luísa é a mãe adoptiva. Carlos é o pai. Martim é teu irmão, Paulo.

 

Maria Luísa, em sobressalto, mexendo-se de repente, encarou Paulo com surpresa. Houve uma interrupção no correr do tempo, ficaram todos suspensos e, por fim, Carmen riu, riu de forma histriónica, sem qualquer elegância.

 

Muito bem, muito bem. Portanto, não foi incesto por pouco.

 

Carlos, regressado à sala nesse instante, interrogou.

 

Incesto?

 

Prático, recuperado do espanto e da dor, Paulo explicou que Carmen namorara o Jaime, seu irmão, filho de Laura e, desse vez, foi Maria Luísa quem se riu até que as lágrimas começaram a surgir no olhos azuis transparentes.

 

Não foi incesto, mas foi por pouco. O teu pai não é o pai do Paulo ou do Jaime.

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