Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



vivemos num país só para jovens? parece que sim

por Patrícia Reis, em 15.02.18

Vivemos num país deslumbrado pela juventude. O que é novo é bom, logo pode ser arrogante e até mal-educado. Pasmo perante a quantidade de gente nova que masca pastilhas elásticas com a boca aberta; jovenzinhos foliões que não dizem bom dia ou boa noite, obrigada ou se faz favor; gente com menos de trinta anos incapaz de entender que serão, não tarda, parte desta outra metade do mundo: os mais velhos.A juventude aguerrida é de louvar. Nem todos tiveram educação esmerada, logo é aconselhável optar por observar, aprender e replicar. Não me comovem os argumentos de que cresceu sem isto ou sem aquilo. O que aconteceu na nossa infância ou na adolescência pode ser revisto na idade adulta. Convém que o façam para que, uma vez traídos pela passagem do tempo, possam chegar aos trinta, quarenta, cinquenta e por aí fora sem se sentir postos de lado, nomeadamente no mercado de trabalho.

Sim, a juventude é boa para os potenciais empregadores e não se premeia a experiência. É triste, mas é a nossa realidade, o que leva a que muitas pessoas com 50 anos de idade e mais tenham perdido o emprego e não consigam arranjar soluções no mercado. De repente, tudo o que fizeram não tem qualquer importância? Parece que não.

Muitas pessoas que trabalharam uma vida inteira, muitas vezes em condições indignas, envelhecem sem qualquer abrigo ou protecção. As famílias não são os álbuns das festas com sorrisos e roupas engalanadas. As famílias também podem ser autênticos infernos a portas fechadas. E, perante a velhice, os mais novos preferem não ver, nem ouvir. E há ainda quem prefira abandonar ou agredir.

Há cinco anos, um estudo brasileiro indicava que a cada cinco minutos um idoso era agredido no país-irmão. Em Portugal, mais de um terço da população tem 65 anos de idade ou mais. O que significa que somos o quarto país mais envelhecido da Europa, ultrapassado apenas pela Grécia, Alemanha e Itália. Mas vamos um pouco mais longe. Sabe quantos octogenários temos? Pois são 5,84% da população. Estudos apontam para que daqui a 50 anos existirão cerca de 300 velhos para cada 100 jovens.

E tudo isto importa porquê?

Importa que o envelhecimento activo se torne uma prioridade. Não só para evitar a discriminação de quem quer manter-se no mercado de trabalho apesar de não ter uns gloriosos 20 anos de idade, mas também por ser melhor.

Portugal terá de se redefinir, elaborar estratégias de forma inteligente, porque a população não está a rejuvenescer, não vivemos numa série de ficção científica, logo temos de dar resposta à questão da idade de outra forma. A maioria das empresas parece preferir ter dois empregados a ganhar ordenado mínimo do que um sénior com um ordenado adequado ao seu percurso e experiência. Diz-me a experiência que não é necessariamente a melhor opção. Conheço quem faça tudo para continuar a trabalhar e se mantenha activo, apesar de se ter visto no desemprego ou na reforma por razões alheias à sua vontade.

Uma equipa que integra gente mais velha possui algo que muitos desconsideram e que é fundamental: a formação. Não é apenas ter alguém mais velho que pode saber mais, é alguém que tem outra memória, que pode ajudar a contextualizar.

Quando comecei a trabalhar nos jornais, há 30 anos, aprendi muito, muitíssimo, com jornalistas veteranos. Bebia o que me ensinavam com fervor e fui acarinhada de forma inimaginável por sentir que apostavam em mim, que queriam que eu fosse mais longe.

Hoje, perante um vídeo que se tornou viral e que faz uma paródia do que é uma entrevista a um millennial, tenho de me rir. Quando fui à minha primeira entrevista de trabalho não me passou pela cabeça estar em permanente contacto com ninguém a não ser com o meu sistema nervoso. Queria muito aprender, sabia o meu lugar e, como o poeta, se falhasse pois voltaria a tentar e, porventura, falhava melhor. Ter alguém ao meu lado com uma enorme experiência serviu para muito.

As empresas não reconhecem o valor dos mais velhos num país que só quer jovens, mas que não os tem em número suficiente? Não. Nem as empresas, nem o Estado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A minha morte é um assunto meu

por Patrícia Reis, em 08.02.18
A eutanásia nunca será um tema consensual? Porquê? Parecem perguntas simples, mas não o são.
 

A sociedade gere-se por regras e as mesmas são impostas por uma maioria forte, predominante e, muitas vezes, cingida a uma moral que deriva da religião. Fala-se muito em amor, em vida, direito à vida e ainda outras coisas como a invocação divina. Estamos no século XXI, há coisas que já perderam validade. Ora, em Portugal, alguns partidos políticos elaboraram, ou estão no processo de elaborar, projectos de lei de legalização da eutanásia. Só pecam por ser tão tarde. Sou completamente a favor. Haverá quem seja contra, não tenho a menor dúvida.

Dirão que serão necessárias limites e fronteiras, pois seja. Até porque importa acautelar a possibilidade de familiares demasiado ansiosos por eventuais heranças, ou desejosos de se verem livres do peso daquela pessoa doente, se apressarem a antecipar a sua morte. É, portanto, crucial que a lei seja claríssima e eficazmente explícita quanto aos mecanismos de confirmação inequívoca do desejo do doente. É um caso em que não podemos permitir que a lei tenha zonas cinzentas? Absolutamente. E é para isso que votamos e temos partidos a pesquisar para produzir decretos-lei com pés e cabeça.

O que me importa, contudo, é a possibilidade de ver eliminada esta indignidade que a evolução da medicina permite: estendemos a vida do corpo sem qualquer preocupação com a dignidade individual, com a qualidade de vida de cada um. Há sempre o argumento do instinto de sobrevivência, ninguém quer morrer (ora pois, então!), não sabemos ao que vamos e, mesmo os mais religiosos, com promessas de céu e salvação, virgens e outras coisas, têm grande dificuldade em digerir este momento biologicamente inevitável.

A morte não é simpática, mas a vida faz-se com alegrias e percursos mais árduos, numa presunção de que vamos envelhecendo, mas não ficamos apenas ali num canto a dizer que estamos vivos sem capacidade para nos mexer. Se não quero cá estar, se o corpo me trai, por que será que não posso colocar fim à minha vida?

Em casos de sofrimento, devo dizer que não tenho qualquer reticência. Os fundamentalistas dos movimentos pró-vida, irão invocar argumentos que não tenho como entender: e se um adolescente se quiser matar com assistência? Bom, a adolescência é uma espécie de construção e destruição diária, os adolescentes pensam na morte e os que se querem matar, matam-se, não será para isso que servirá um decreto-lei certamente. Existe sempre também quem veja o aspecto financeiro da coisa. Em tempos, noutra matéria sensível, ouvi um argumento contra o referendo do aborto que era surreal: se matamos as crianças por nascer, não estamos a garantir contribuintes para o futuro, logo estamos a lesar as pensões (sem comentários). Portanto, também teremos quem pergunte porque razão deverá o Estado financiar a morte.

Ora, todos os dias, em todos os hospitais do mundo, existem pessoas que viveram vidas cheias, umas melhores do que outras, não tenho dúvida, e que chegaram ao fim para estar no tal canto que a medicina proporciona, com comprimidos para o coração, para a tensão, para dormir, para ter fome, para o colesterol, para a insuficiência cardíaca, para ... e para.... Valerá a pena? Os moderados irão reclamar e bradar aos céus que cada caso é um caso.

No dia em que a minha vida for exclusivamente uma visão de caixas de comprimidos, sem trabalho, sem capacidade de leitura, de apreciar música, de sair à rua, pois não quero cá estar. Podemos concordar que discordamos, mas a minha morte é um assunto meu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O génio de Ursula K. Le Guin

por Patrícia Reis, em 01.02.18
Na semana passada, morreu Ursula K. Le Guin. Confesso-vos já que fiquei com lágrimas nos olhos e, por isso, se acham que é lamechas, mais vale não ler esta crónica. Nunca conheci a autora de fantasia que me mudou a forma de ver o mundo era eu ainda adolescente, mas li tudo o que escreveu e tenho-a como uma amiga. Morreu-me. Como só nos morrem as pessoas que amamos. 

O meu primeiro encontro com Ursula K. Le Guin deu-se com o livro Feiticeiro Terramar e depois nunca mais parei. Aprendi imensas coisas com ela ao longo da vida. Sobre a forma de estar, sobre a escrita, sobre a importância dos dragões. Para mim, nunca foi uma autora de ficção científica, embora seja esse o rótulo no mercado dos livros e dos leitores. Sempre entendi que os seus livros eram reflexões sobre a vida e os relacionamentos. Reflectir é um dos bens maiores da Literatura e a razão pela qual acusamos a falta de pensamento prende-se com essa preguiça no exercício de ler e de pensar. Ler e interrogar, ler e entender, ler e incomodar. Agustina Bessa-Luís disse muitas vezes que escrevia para incomodar.

A autora norte-americana, casada com um francês, filha de antropólogos, mãe de três filhos, dispôs-se a fazer-nos pensar e construiu histórias que ficarão para sempre com quem as leu. Uma das suas leitoras, acredito que devota, será J.K. Rowling, a autora do famoso entendedor de serpentes, Harry Potter de ser nome. Se Ursula K. Le Guin bebeu em J.R.R.Tolkien, Rowling foi beber à obra de Ursula e sempre que me cruzo com Harry Potter penso em Gued, o Gavião de Terramar, ele que falava com dragões, a língua mais antiga do mundo. A autora afirmou: “Escreva o que deseja escrever. Adicione tantos dragões quanto quiser”.

Imaginar o possível, ou o impossível, para pensar a humanidade é um talento de génio que poucos possuem. E claro que ainda hoje se diz que H.G. Wells, autor da Guerra dos Mundos, é o pai da ficção científica. O pai parece importar sempre mais do que a mãe, vá-se lá saber porquê. Eu, que sou cansativamente feminista, pois torço por Mary Shelley e pelo seu Frankenstein. Coisas minhas, já se sabe.

Uma das facetas de Ursula K. Le Guin era o seu feminismo num mundo manifestamente dominado por homens. Ela dizia que não tinha gostado de ficção científica ou de fantasia imediatamente. O facto de a maioria das histórias terem como protagonistas homens bélicos com desejos de invadir ou conquistar algo pareceu-lhe redutor. Assim, como lhe pareceu redutor ser apenas mãe e esposa. “Não há motivo para que uma mulher casada com filhos não possa ser uma artista comprometida. (Isso parece evidente, mas não foi imediatamente claro para mim)”. E, assim, entendendo o universo ao seu redor e o domínio do patriarcado, a escritora tornou-se feminista acima de tudo, mesmo quando os personagens centrais das suas histórias eram do sexo masculino. “Os valores do patriarcado estão enterrados em muitos dos enredos das nossas histórias. São necessários novos enredos”.

Frontal. Bem-disposta, capaz de se manter num certo anonimato para preservar a sua vida privada, Ursula K. Le Guin foi convidada para a Academia de Letras Americana em 2017 e terá, de acordo com declarações suas, perdido ou deitado a carta para o lixo. Meses depois da formulação do convite, sem resposta, a Academia decidiu interrogar a agente da escritora e é assim que fica a saber do convite. Escreve a agradecer e a aceitar, dizendo que não recebeu nada por escrito, não “estava a dar numa de Dylan”, aludindo ao silêncio de Bob Dylan à Academia Sueca aquando do Nobel da Literatura. O seu sentido de humor pode ser apurado em alguns vídeos na internet. Os livros, a sua maioria não está traduzida para português, são procurados pelo mundo inteiro. Não apenas a ficção, mas também a poesia, a literatura infantil e, claro, o guia para escritores. O mesmo livro onde afirma que ler é mais importante do que qualquer outra coisa e, por isso, os outros escritores não são concorrência, são sustento. É aí também que se pode ler que o arrependimento faz parte do crescimento enquanto escritor e que corrigir é bom, mesmo que os erros anteriores sejam eternos e possam estar a um “Google de distância. Não há nada vergonhoso em se tornar uma pessoa melhor, uma pessoa mais sábia”.

Morreu Ursula K. Le Guin. Ela que estudou o taoismo e o budismo, na busca permanente de equilíbrio, e que teimava na ideia de que o trabalho diário era o mais importante porque, afinal, “a imortalidade nunca funcionou bem para ninguém”, acrescentando: “Evite isso a todo custo”. Não creio que tenha conseguido atingir este objectivo. Quem leu os seus livros irá passá-los a outros e, de geração em geração, a escritora será única e, portanto, imortal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tem algum Nobel da Literatura no seu país?

por Patrícia Reis, em 25.01.18
Todos os anos, temos a saga do Nobel e, como um bom relógio suíço, há quem torça por António Lobo Antunes e quem recorde José Saramago. O Nobel da Literatura é porventura um dos poucos prémios Nobel sobre o qual as pessoas discutem com à-vontade, discutem e criticam.
 

Afinal, de literatura sabemos todos um pouco? Parece que sim. Ora, a opinião pública conta pouco – ou mesmo nada – para esta corrida já que os putativos vencedores devem ser nomeados por antigos laureados, instituições e academias cujo perfil seja indiscutível.

A Academia Sueca, na sua sabedoria imensa, gere uma pequena fortuna do senhor Alfred Nobel e tem alguns objectivos a cumprir. Não se rala com a opinião dos meros mortais, é preciso ser especial.

A corrida para os prémios de 2018 já começou. Podemos torcer por este ou aquele, pouco adianta. A Academia Sueca segue as suas normas e, apesar da maioria ignorar, existem candidaturas designadas por outras academias (não vinculativas) e requisitos que são inultrapassáveis. Um exemplo? Não estando traduzido para sueco, nenhum escritor(a) terá hipótese de ganhar. E não basta um livro, terão de ser dois no mínimo. No caso de Bob Dylan, que ganhou o Nobel da Literatura em 2016 por obra e graça da sua poesia, não foi preciso mais. Dois livros traduzidos para sueco e uma obra inteira que faz parte da banda sonora de muitos milhões de pessoas. Muitos ficaram boquiabertos. Poesia? Música? E isso é literatura?

O que é literatura? A pergunta impõe-se, porque anteriormente o prémio já tinha sido atribuído, em 2015, a Svetlana Alexiévitch, jornalista e escritora bielorussa. Muitas vozes identificaram a obra de Alexiévitch como jornalismo ficcional ou ficção a partir de jornalismo e a polémica durou o tempo que tinha de durar. E a literatura?

Bom, o Nobel não foi entregue a Jorge Luis Borges, a Virginia Woolf, a Marguerite Yourcenar, e por aí fora, a lista é extensa. Tem sido entregue a muitos, mesmo muitos autores, de que nunca mais ouvimos falar. Autores que ganharam o Nobel, mas não ganharam um lugar na História.

Desde 1901, o início da atribuição deste prémio, cujo valor financeiro é muito elevado e a projeção internacional é garantida, os diferentes prémios foram atribuídos 834 homens e 48 mulheres. Quando olhamos para o Nobel de Economia existe apenas uma mulher agraciada. No Nobel da Paz temos 16 mulheres e na Literatura temos 14 vencedoras (a primeira foi a sueca Selma Lagerlöf, em 1909, e a última a bielorrussa Svetlana Alexijevich, em 2015). 
A partir dos dados oficiais é possível perceber outras pérolas: 94 % dos vencedores são brancos, 88% são homens e 69% europeus. Negros e asiáticos? Representam 3% respectivamente. But who’s counting?

Discretamente, saiu a notícia de que a Academia Sueca terá pedido formalmente à Academia das Ciências de Lisboa a indicação de um candidato ao próximo Prémio Nobel da Literatura. Assina a carta de pedido Per Wästerberg, o presidente do comité Nobel. «Em nome da Academia Sueca [...] temos a honra de vos convidar a nomear, por escrito, um candidato (ou candidatos) ao Prémio Nobel da Literatura para o ano de 2018».

Perante o convite, os membros da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa indicaram dois nomes: Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre. Ora, o eterno candidato, Lobo Antunes, não terá apreciado grandemente este gesto, mas terá de o aceitar, porventura terá sido indicado no passado. Eu fico a torcer por Agustina Bessa-Luís. A Academia Sueca irá surpreender-me decerto e o gesto será entendido, outra vez, como um “sinal de abertura”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

jornalismo à portuguesa

por Patrícia Reis, em 18.01.18
A maioria dos jornalistas do país está nos centros urbanos e, a maior percentagem, em Lisboa. Não há nenhum problema com esta realidade, é assim há muito tempo e talvez seja o mais natural. Dito isto, os jornalistas a trabalhar em Lisboa estavam convictos de que Pedro Santana Lopes ganharia as eleições para presidente do Partido Social Democrata e foi um enorme desaire a vitória de Rui Rio.
 

O problema? Sentir o pulso do país com os dedos da capital é um erro crasso. Muitos jornalistas e fotógrafos ficaram em Lisboa e aguardaram a vitória daquele que seria, ouvi dizer amiúde por aí, um presidente do PSD que iria tornar “a cena mais divertida”. A cena é a cena política.

Um militante de Viseu conta-me que votou no Rui Rio por saber que este não se coibirá se fazer governo com o Partido Socialista e que isso é um regresso à forma antiga, antes das maiorias Cavaco e de Sócrates, e o fim da chamada geringonça.

O facto de os militantes terem trocado a volta aos jornalistas deu origem a alguns incidentes sem relevância e a perplexidade estendeu-se gloriosamente até às direcções de órgãos de comunicação social. Facto consumado, a vida anda para a frente. Há uma tragédia em Tondela e a maioria dos jornalistas a trabalhar em Lisboa interroga-se: Tondela? Perto de Coimbra? Não, distrito de Viseu. E lá vão à cata de como contar a história, tal como fizeram com Pedrogão Grande cuja localização seria, para muitos, igualmente desconhecida até aos incêndios.

Conhecemos o nosso país através da comunicação social mais generalista e com maior impacto ao nível nacional. Existem terras e terrinhas sobre as quais nunca ouvimos falar e, consequentemente, militantes de partidos vários que desconhecemos. A realidade da política é distinta.

Não é o Pacheco Pereira a pontificar na televisão ou os 30 segundos de discurso crispado na Assembleia da República. O mundo faz-se de outra forma quando é visto com olhos que não os de um lisboeta. Não é um problema do jornalismo, é um problema de todos nós.

O que consideramos normal e adequado em Lisboa pode ser o inverso para a realidade do Samouco ou de Marco de Canaveses. Os exemplos são mais do que muitos e convém não esquecer que a capital, ou o Porto, reflectem apenas os gostos e atitudes, comportamentos e vontades de uns tantos, não da totalidade.

Os jornalistas aceitaram a vitória de Rui Rio com espanto, mas já estão a organizar-se. As pessoas a norte não se surpreenderam grandemente. Santana Lopes não percebeu nada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A cerimónia dos Globos de Ouro deu vários frutos, além de uma parada impressionante de vestidos pretos que reflectiram o apoio das actrizes ao movimento #metoo contra o assédio sexual, abuso e discriminação. Horas depois da cerimónia, duas actrizes escreveram no Twitter contra o actor James Franco (entrou em Homem-Aranha e em Milk, para citar dois filmes), um dos premiados, não para maldizer os seus dotes enquanto actor, mas sim para o acusar.
 

James Franco foi acusado de quê? Violet Paley (actriz de Pink Zone e Sex, Drogs, Rock & Roll) acusa-o de ter sido obrigada a fazer-lhe sexo oral e a mensagem no twitter reza assim: «Remember the time you pushed my head down in a car towards your exposed penis...» Violet Paley não está sozinha nas suas acusações. A ela juntou-se Sarah Tither-Kaplan (The Pink House) que acusa James Franco de só lhe ter pago cem dólares diários para cenas de nu integral. Bom, Sarah Tither-Kaplan assinou um contrato, aceitou as condições e agora, à luz do movimento acusa James Franco de a ter discriminado do ponto de vista salarial e de lhe ter dito que tendo assinado o contrato, pois está tudo bem.

Não sei muito bem como reagir a isto, ou melhor, sei: este tipo de acusações serve para minar uma acção colectiva de mérito que é necessária, crucial e só peca pelo atraso em fazer-se ouvir.

Violet Paley não foi à polícia, não abriu boca quando o escândalo Harvey Weinstein deu origem a uma série de acusações frontais de várias actrizes contra actores, produtores, realizadores. Ficou calada. James Franco recebe o prémio e Violet Paley aparece com o seu tweet. Não se compreende as circunstâncias em que estava, porque carga de água é que o pénis de James Franco estava fora das cuecas e das calças e como é que foi obrigada.

Algumas denúncias e acusações, mesmo que justas, perdem força e legitimidade por não serem pensadas convenientemente e este rol de acusações enfraquece o movimento e toda uma causa que, como se sabe, é justa e universal. As mulheres são alvo de assédio, são discriminadas e abusadas. É um facto. Apontar o dedo é, por isso, importante, mas como fazê-lo? Desta forma, ajuda quem? O moralismo que sagra em Hollywood é perturbador por não sabermos exactamente qual é a fronteira que define os actos. O que para A é assédio, para B é sedução? Pois, acontece.

 

 

Num momento em que já existem aplicações para smartphones para gravar consentimentos prévios para a continuidade de relações sexuais, evitando posteriores acusações, a sexualidade está em perigo. A sua vivência é cada vez mais complexa. Como gerir tudo isto?

Vejo um filme, que recomendo, e que estará aí a estrear Call Me By Your Name de Luca Guadgnino com Armie Hammer e Timothée Chalamet. Dentro dos parâmetros norte-americanos, a história será definida deste modo: uma história de pedofilia e de consentimento dos pais no processo. Um dos personagens tem 17 anos, o outro terá mais de trinta. É uma história de amor. Belíssima história de amor. Não tendo o jovem a maioridade prevista na lei, em que ficamos? Continuo na minha: cada caso é um caso, a sexualidade não prevista na lei não deixa de ser sexualidade e essa, felizmente, é uma das características maravilhosas do ser humano. Ou já não será?

Gera-se à volta de todas estas questões muito burburinho e há quem afirme convictamente que o que importa é a denúncia. Os tweets fazem-me lembrar os posters nas comunidades chinesas durante a revolução cultural, tudo é possível, tudo é público e um colectivo acusador tem mais força do que uma acusado. Um movimento deste calibre, de protecção às mulheres, de dignidade e com dignidade não merece ser minado por fundamentalismos e outras acções menos pensadas.

Posto isto, talvez Violet Paley e Sarah Tither-Kaplan estejam cheias de razão e James Franco seja um abusador, discriminador e capaz do pior. Se for o caso, pois que sofra as consequência, mas Hollywood precisa de se organizar na forma como dará continuidade a este movimento, porque a verdade é que é demasiado importante para ser destruído com gestos desnecessários. É demasiado importante para o mundo inteiro, porque todas as mulheres, jovens e crianças têm os olhos postos em Hollywood por uma razão ou outra.

Não nos podemos dar ao luxo de estragar o que foi conquistado com tanta dificuldade, tanto ao nível da denúncia como ao nível da vivência da sexualidade. É preciso ter e assumir as causas de forma responsável.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Boas intenções

por Patrícia Reis, em 04.01.18
Todos os anos, faço uma lista com decisões tomadas. A cada ano que passa, a lista fica mais curta. Já percebi que posso fazer mil planos, a vida encarrega-se de os destruir e de colocar novos no meu caminho. Não tenho, por isso, desejos que cheguem para as doze passas da praxe, à meia noite de 31 para 1 de Janeiro. Vou repetindo as mesmas coisas básicas que posso resumir em saúde, amor e alegria e a coisa dá-se.
 

Dito isto, no dia 6 de Janeiro há algo que muda na minha forma de estar e estou pronta para fazer a simpatia dos Reis. Reunimos amigos à volta da mesa – a melhor forma de estar com os amigos, diria – e munidos de uma nota de cinco euros e de bagos de romã vamos dizendo e embrulhando três bagos: Melchior, Gaspar e Baltazar eis uma semente para ter e para dar.

A dita nota, no meu caso, está velha e seca, é sempre a mesma. Fica enrolada e bem apertada dentro da minha carteira durante o ano e tenho a certeza que nunca terei os 117 milhões de Cristiano Ronaldo, mas terei para ter e para dar. Todos os anos, o ritual repete-se. Depois de dobrar a nota três vezes com três bagos de romã, dou-me conta que ter e dar é apenas uma extensão do afecto gigantesco de quem partilha a mesa comigo.

Os amigos permitem-nos ter e dar. Estão cá para nós. São uma família lógica, distinta da família biológica, são a família que escolhemos.

O meu núcleo familiar é cada vez mais curto. As famílias não se praticam com os primores de outrora. No meu caso, o Natal mudou consideravelmente depois da morte do meu avô paterno que, na verdade, era um perpétuo Pai Natal, sempre de sorriso no rosto, capaz de dançar de andarilho e de não se chatear com nada. Faz falta o meu avô. Muita falta.

Contudo, olhando à minha volta, ouvindo as histórias mil vezes repetidas (amigos antigos também têm essa coisa da repetição), as gargalhadas, as exclamações de alegria e de espanto; observando a forma ternurenta como os meus amigos se abraçam, se tocam enquanto conversam, assegurando-se da importância de cada um, sei que estou bem entregue.

O meu avô apreciaria esta dádiva de amizade que me aconteceu na vida e, é claro, riria da minha lista de boas intenções. Para ele, um dia de cada vez era mais do que uma opção, era um mote. E eu, avô, estou a aprender, um dia ainda chego lá.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parece um guião para um filme de série B, com alegações relativas à segurança nacional, porventura envolvendo as secretas (agora dirigidas por uma mulher, saliente-se) e interesses ocultos. Não é. Trata-se tão somente de política à portuguesa, mal feita, indecorosa, ofensiva.
 

Que os partidos queiram tratar da sua existência financeira e fiscal com melhores opções não me espanta grandemente; que os partidos o façam à porta fechada, em sessões sem actas ou qualquer registo escrito (nem que seja para a posterioridade) é, no mínimo, suspeito. Nove reuniões à porta fechada decorreram entre abril e outubro deste ano. Nove reuniões, repito, para discutir, digamos, interesses próprios (fim do limite para a angariação de fundos, a possibilidade de pedir restituição do IVA pago na totalidade de aquisições de bens ou serviços, e ainda a possibilidade de pessoas singulares pagarem despesas de campanhas a título de adiantamento).

Podia ser um erro, uma inocência, mas nada disso: quando emails trocados mostram que há um encobrimento de quem propôs o quê, designando-se os partidos envolvidos pelas letras do alfabeto, pois não temos como acreditar na ingenuidade de nada, seja de ideias ou de processo.

O CDS e PAN foram os únicos partidos que não votaram a nova lei de financiamento, uma lei aprovada no dia 21 de Dezembro, vésperas de natal. Será que alguém, iluminado por luzinhas de fraca potência, pensou que a época permitiria que isto não viesse à tona? Terá sido essa a hipótese levantada naquelas cabeças, da esquerda à direita? A isto chamo eu um atestado de estupidez passado à sociedade portuguesa sem qualquer vergonha ou embaraço.

Resta-nos, portanto, que Marcelo Rebelo de Sousa leia com atenção o que é proposta de lei, perceba o processo de construção desta nova lei e faça o que é preciso ser feito: vetar a lei. Mas não pode ficar por aí. Terá de dar um puxão de orelhas a todos aqueles com assento na Assembleia da República e que dizem representar Portugal e os portugueses.

Marcelo Rebelo de Sousa redesenhou o nosso conceito de Presidência da República. Não pode ser comparado a nenhum dos presidentes anteriores. Cavaco era demasiado distante e rígido; Sampaio era diplomático e contido; Soares gostava de uma presidência inspirada na realeza e por aí fora. Marcelo Rebelo de Sousa apostou nas pessoas, na proximidade, na humanidade. Dizem que é o Presidente dos afectos e que está em todo o lado.

No caso desta lei de financiamento dos partidos e devolução do IVA, o Presidente terá de esquecer os afectos e tratar os partidos como merecem, alunos armados em espertos que não cumpriram com as regras de transparência que o exercício das suas funções obriga. Não deverá ser apenas uma reprimenda, terá de ser uma valente reprimenda. Não só porque a nova lei levanta questões variadas sobre as quais o Presidente tem uma opinião formada e conhecida (Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto líder do PSD, considerava que os partidos deveriam ser financiados pelo Estado na totalidade, retirando empresas e pessoas individuais do processo), mas sobretudo por ser evidente que em democracia não se aprovam leis desta forma.

No presente caso, espero que se recorde vivamente da sua profissão de professor e tenha a capacidade de dizer aos partidos o que é preciso ser dito: não brinquem com o poder que têm, sff.

 

P.S.: Como bom professor, Marcelo Rebelo de Sousa dá oito dias aos partidos para voltar atrás com a lei do financiamento. Resta saber se os “alunos” merecem ou estão ao nível.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pensamento da semana

por Patrícia Reis, em 23.12.17

A justiça portuguesa é cega, injusta, atrasada e está repleta de preconceitos.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

o moralismo que vai matar o consolo e o sexo

por Patrícia Reis, em 20.12.17
Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? Até a pergunta é perigosa de se fazer nos tempos que correm.
 

Ando a combater com esta mania de querer dizer as coisas como as penso em vez de as dizer dentro de uma forma que se pode classificar, nos dias que correm, como “politicamente correcta”. Sou acusada de ser frontal e bruta muitas vezes, é um karma como outro qualquer, assim fico com a fama e o proveito. O que me atormenta é o moralismo em que vivemos. Quem é que define o que é ética e moralmente correcto quando toca às coisas da sexualidade? Não, esta não é uma crónica sobre o Kevin Spacey, o Harvey Weinstein e afins. Nada disso. O que me preocupa é uma situação como esta que passo a descrever.

Na sala de aula de uma universidade decorre, num silêncio perturbado pelo choro, um exame. O professor, constrangido, aflito com a aflição da aluna, aproxima-se da mesa da rapariga e pergunta, em sotto voce, se há algum problema (bom, é evidente que há!), e a estudante continua a soluçar. O professor pede para o acompanhar e saem da sala, com o objectivo de não perturbar o resto da turma.

A rapariga lá começa a desbobinar o filme trágico que é a sua existência, perdeu o emprego, as chaves de casa, o gato teve um ataque cardíaco e mais não sei quantas coisas deprimentes e avassaladores que podem ocorrer na vida das pessoas. Está um caco. O professor tenta o consolo e uma solução: “Bom, nesse caso, se não está em condições de fazer o exame, o melhor será fazer na amanhã na outra turma...”.

A moça continua em prantos, são sete da tarde, a universidade não está a borbulhar de gente, não há testemunhos deste encontro, e o professor consola a aluna, coloca-lhe (ó meu Deus!) uma mão no ombro. Lá se consegue chegar a uma certa calma, regressam à sala de aula e a aluna recupera forças e ânimo e faz o exame. O professor conta este episódio a outros professores que o olham chocado: tu tocaste numa aluna sem testemunhas? Tu sabes que isso agora é assédio?

É triste que gestos de consolo possam ser confundidos desta forma, ou não é? Eu acho que é. Se tocar nas pessoas começa a ser pretexto para uma acusação, vamos viver amarrados, contidos, vigilantes uns dos outros e, pior ainda, vamos condenar as próximas gerações a terem uma sexualidade muito infeliz. Sim, a sexualidade deve ser vivida de forma saudável, de acordo, mas com tanto fiscalismo agora temos de perguntar: posso tocar-te? Posso beijar-te? Posso colocar a mão no teu corpo? É isto que os jovens devem fazer uns com os outros, para que estejam isentos dessa coisa perigosa que é a acusação?

Se assim é, só posso dizer uma coisa: ainda bem que nasci em 1970. O que sinto é um retrocesso civilizacional em termos de comportamento, uma obsessão pela vigilância, um discurso pelo politicamente correcto que cai constantemente num moralismo que ninguém sabe quem define ou comanda. Será isto saudável?

Uma coisa é certa, este professor nunca mais consolará aluna alguma. E os meus afilhados mais novos, quando chegarem à adolescência, e se questionarem sobre o seu próprio corpo e o dos outros ou outras, terão de fazer um percurso deveras complicado e, antevejo, perigoso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Por razões que são fáceis de entender não aprovei a publicação de comentários jocosos ou ofensivos, em especial de comentadores anónimos, relativos a um post interior com este titulo.

Desde o início da minha colaboração com o Delito de Opinião tenho libertado todo o género de comentários, dos mais elogiosos aos mais ofensivos. Hoje decidi que acaba a democracia disfarçada no anonimato e, no caso específico do comentador ou comentadora que me enviou uma mensagem com ameaça implícita, tratando-me por "minha menina", chamando-me à atenção para o meu futuro, agradeço que tenha em conta que eu sou o tipo de pessoa que guarda estas coisas e vai à Polícia Judiciária sem qualquer problema.

Aos restantes, peço desculpa por este post. Sempre considerei o debate essencial. As redes sociais ao abrigo do anonimato não são exercícios de liberdade e de argumentação, são apenas cobardia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Minha querida" juíza

por Patrícia Reis, em 15.12.17
Então, analisemos de forma muito simplista: se a juíza diz “Professor” para se dirigir a Manuel Maria Carrilho e opta pelo “Bárbara” ou "minha querida" para falar com a apresentadora de televisão Bárbara Guimarães, isso é ...? Não é normal.
 

A notícia de que Manuel Maria Carrilho foi ilibado no processo de violência doméstica do qual é acusado pela ex-mulher foi um vento mau que apareceu hoje de manhã. Não consigo entender várias coisas, mas há uma que me espanta mais do que qualquer outra: uma juíza que Bárbara Guimarães considerava incapaz de imparcialidade e tendo, por isso, pedido a sua escusa, mantém-se no caso e é capaz de dizer coisas como: “Causa-me alguma impressão a atitude de algumas mulheres." A mim também, sobretudo se são juízes.

A lei não confere poder a uma juíza para proferir semelhante frase e as implicações que possam ter, em especial junto da opinião pública. Ainda há quem venere os juízes com o mesmo fervor com que em outros tempos se venerava a opinião do padre ou do médico. Vivemos numa aldeia global, bem sei, mas os juízes deveriam perceber que existem limites e deveriam ter em conta que observações sobre o carácter das pessoas não são do seu pelouro.

No caso presente, seria ainda de ter em conta o vasto curriculum do acusado, com um conjunto de processos perdidos, de multas aplicadas, e ainda com uma constante presença nos meios de comunicação social a difamar a ex-mulher e familiares.

Bárbara Guimarães manteve uma elegância ímpar e tem sido enxovalhada da pior maneira. Sobre isto a juíza não tem nada a dizer? Tem, pois, tem para dizer uma pérola que, espero, possa ser analisada em aulas no Centro de Estudos Judiciários ou objecto de processo no Conselho Superior de Magistratura. Diz a juíza, Joana Ferrer de seu nome, que Bárbara Guimarães é uma mulher determinada e auto-suficiente do ponto de vista financeiro, que deveria ter ido ao Instituto de Medicina Legal mostrar como foi vítima de maus tratos.

Portanto, posso concluir que para esta espécie de juiz, garante da boa manutenção de uma sociedade, todas as vítimas de abuso estão a correr para o dito Instituto. Nunca leu, coitada, nada sobre o perfil psicológico de vítimas de abuso. Deveria ler. É pena que a justiça não sirva para ser justa. Mas, lá estamos, um é um professor e a outra é apenas a Bárbara.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não acontece só aos outros

por Patrícia Reis, em 15.12.17

A reedição do livro de Maria Antónia Palla, "Só acontece aos outros - histórias de violência" é uma radiografia de uma sociedade portuguesa que, afinal, em 40 e tal anos pouco ou nada mudou. Lançado há uma semana, pela novíssima editora Sibila da escritora Inês Pedrosa, este livro de Maria Antónia Palla tem agora uma segunda vida e permite que qualquer leitor possa descobrir uma grande jornalista através das reportagens que fez ao longo da sua vida. São peças de antologia, como descreve a editora, mas são também uma radiografia da sociedade portuguesa, que mudou muito e mudou quase nada. As reportagens de Maria Antónia Palla descrevem situações que ainda hoje perduram, violências sucessivas com crianças, mulheres e idosos. Histórias portugueses, muitas delas escritas na década de 70, algumas antes do 25 de Abril, espelham a vida de certas pessoas e de como a dor, a desilusão, a fraqueza ou o heroísmo podem ser, demasiadas vezes, penalizadoras. Uma menina que aparece morta; uma anciã violada por um jovem; ex-amantes que combinam espancar e torturar a mulher com quem andaram; uma mulher mata o filho recém-nascido; um rapaz português aparece morto numa cadeia espanhola; uma mulher, cansada de maus tratos, envenena o marido. Estas são algumas das histórias reais que serviram de mote para a investigação da jornalista Maria Antónia Palla. No prefácio, Helena Matos, também ela jornalista, escreve que este livro “mostra-nos como para lá da espuma do que enche as primeiras páginas dos jornais – os planos salvíficos para o país, as declarações dos governantes, os programas que vão resolver definitivamente os problemas inadiáveis [...] – estava e está a vida das pessoas. Porque a Maria Antónia, acima de tudo, conta-nos as pessoas”. O livro, há tanto esgotado, é agora reeditado com a inclusão de duas reportagens inéditas, uma delas escrita na década de 80 do século passado e outra já este ano. Comprova-se assim que a jornalista, de 83 anos de idade, mantém o seu interesse contínuo na sociedade portuguesa. Na biografia "Viver pela Liberdade" (edições Matéria-Prima), Maria Antónia explica-se com facilidade: uma vez jornalista, para sempre jornalista. E é essa forma de olhar o mundo que lhe permitiu, em 2017, voltar à reportagem, desta vez para abordar a questão da adopção e das instituições de acolhimento. Existem milhares de crianças nas instituições, abandonadas, retiradas à família. O mundo da adopção é visto agora por Maria Antónia Palla numa reportagem única, na qual não pretende atingir qualquer imparcialidade, já que não considera possível que um jornalista envolvido nas coisas do mundo possa ser imparcial. O facto de permanecer activa e sempre jornalista, confere a Maria Antónia Palla um olhar sobre o Outro que é raro, que é coincidente com o jornalismo que aprecia: aquele que implica pesquisar, ouvir, estar atenta. As histórias sobre as quais escreve são fortes e são, apesar de terem um tempo cronológico de escrita, intemporais. Infelizmente, a violência permanece mesmo que possamos nomear um certo avanço civilizacional. “Nem toda a mudança dependeu da vontade de mudar. E essa vontade, quando existiu, ficou muitas vezes aquém da necessidade, em particular no que se refere às mulheres, aos jovens e às crianças. Faltou à 'revolução' o rasgo de inventar o futuro. A voz do cidadão comum permanece silenciada. A dor da gente não chega aos jornais, o diz o poeta na canção”, escreve a jornalista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

quer saber a dieta da Adele?

por Patrícia Reis, em 06.12.17
Se é mulher, de qualquer idade, provavelmente quer. Se tem mais de 40, a probabilidade de querer é ainda maior. E porque todas-temos-de-ser-magras, há publicidade a receitas milagrosas a cada esquina das redes sociais - e parece que é tudo normal.
 

Então, a coisa dá-se. Chegamos aos 40 anos de idade e cada quilo que engordamos chega, generoso, com a família mais chegada, pai, mãe, filhos, instala-se naquilo a que a minha mãe designa como a faixa de Gaza, barriga, coxas, peito, cara, rabo. É um quilo, nada de grave. Vamos suar as estopinhas e caminhar ou frequentar o último ginásio genial com uma estratégia complexa e milagrosa. Sabemos, por termos a idade que temos, que estamos a viver uma ilusão.

Depois fazemos 45 anos de idade. A coisa piora um bocadinho – a vários níveis – e ver as revistas de moda só pode ser um exercício que se faz com descontração, cientes de que ninguém tem corpos assim, pelo menos ninguém feliz, a comer um bom queijo alentejano e a beber um copo de vinho tinto. Os nossos quilos a mais são nossos, logo não faz qualquer diferença a nossa melhor amiga ou a senhora a lavar a cabeça na calha ao lado no cabeleireiro, dizerem: ah, que disparate, estás óptima. Se uma pessoa sabe que já não entra numas calças 36, pois não entra numas calças 36 e já entrou, não há conversa.

Pessoalmente, aos 47 anos, não me posso queixar, admito. Vivo bem com o corpo que tenho, mesmo que me possa atraiçoar aqui e ali, e não vista um 36. O pior é a perpetuação do fascínio com a magreza e com as dietas mais estrambólicas. Como estamos todos dominados pelas redes sociais – eu só conheço duas pessoas que não têm facebook e uma delas é a minha avó – somos bombardeados com as informações mais diversas, basta serem publicações patrocinadas e nas quais nós nos inserimos, ou seja, fazemos parte do grupo alvo: mulheres, entre os 35 e os 55.

E estas publicações repetem-se todas as semanas e, todas as semanas, me perguntam: Sabe como Adele emagreceu? Veja como Julia Roberts se mantém. E por aí fora. Tudo isto com as fotografias das senhoras cuja imagem e nome é usado e abusado para vender uns comprimidos ( à base de umas plantas de que eu nunca ouvi falar, mas eu não sou especialista em plantas), que só se vendem online, e nesta semana, maravilhoso!, em promoção, encomende já, estamos com 30% de desconto.

Nada disto é bom, já se sabe, e há quem vá cair na canção do bandido por acreditar que a Adele ou Angelina Jolie (que está claramente feia de magra na minha opinião, mas isso agora não interessa nada) tomou aquelas coisas à base de Hoodia Gordonii ou Garcinia ou outra coisa qualquer que, afinal, depois de tudo, porque carga de água é que não se experimenta mais uma coisa? Depois da dieta do paleolítico, da dieta das maçãs, da dieta com produtos que parecem comida de astronauta, pois vamos lá experimentar estes comprimidos.

Esta semana atingimos o pináculo da perfeição, para citar Miguel Araújo, com um post patrocinado que anuncia uma dieta que não se deve fazer porque emagrece de imediato. Carregando então no botão que diz saber mais, fico eu, pobre alma inocente, horrorizada com a venda de outros comprimidos, que está provado que emagrecem de um dia para o outro, mas que os nutricionistas não recomendam. Mostram imagens do antes e depois que, para sermos honestos, são imagens da senhora A e da senhora B, nunca a senhora B podia ser o depois da senhora A pela simples razão que não são a mesma pessoa. O texto e as imagens mostram que é possível emagrecer num ápice, mas não o façam. É uma forma doentia de promover uns comprimidos (esta coisa dos comprimidos é uma mania?) que, no desespero, alguém menos sensato pode encomendar. Porventura com promoção especial desta semana.

Eu denunciei este post, um post patrocinado, algo que alimenta financeiramente o senhor Mark Zuckerberg e esta invenção extraordinária que une a aldeia global. Não sei se terei alguma sorte com a minha denúncia, o mais certo é ver isto outra vez daqui a duas semanas. O pior de tudo, penso eu que tenho sobrinhas a sair da adolescência, raparigas que vêem as tais revistas de moda e atrizes perfeitas em filmes românticos que Hollywood fazia na temporada antes-do-assédio-ser-assunto, são as jovens com problemas de peso que vão cair nesta esparrela.

Moral e eticamente, o senhor Mark Zuckerberg não deveria aceitar estas coisas, mesmo que lhe dê mais uns trocos. O mesmo tipo de posts é colocado no Instagram, criado pelo senhor Mike Krieger, com promessas de dietas milagrosas que vão mudar a vida de quem quer perder peso. Querer perder peso é, muitas vezes, uma questão estética, muitas vezes de saúde e bem estar e implica necessariamente com a auto-estima das pessoas. Não deveria ser possível enganar as pessoas deste modo. Dirão que só é enganado quem quer. Será?

Autoria e outros dados (tags, etc)

frames da vida

por Patrícia Reis, em 25.11.17

O Pedro a cortar um texto na Grafinova, em pé, com o x-acto na mão, concentrado. Foi a primeira vez que o vi, fazia ele parte daquele grupo especial do Caderno 3 de O Independente.

Não nos tornámos amigos com rapidez, eu era apenas a estagiária. Foi o tempo. Pedimos desculpa um ao outro num certo almoço de bacalhau num restaurante de que o Pedro gostava em especial.

Rimos os dois às gargalhadas com recordações da vida amorosa de cada um de nós.

Mostrámos o orgulho devido com as conquistas dos nossos filhos, filhos com Maria no nome.

E depois pequenos frames da vida.

O Pedro a discutir músicas com o João Gobern.

O Pedro abraçado à Cila. À Ana Teresa. À Margarida.

O Pedro sério. Na televisão, na rádio, por escrito.

O Pedro com a Helena a rirem os dois, a grupeta reunida, num jantar ali ao lado, num restaurante, e eu a invejar tanta partilha e alegria.

Bolas, Pedro, podias ter avisado que isto ia ser tão curto. Podíamos ter feito aquela coisa estranha para a Egoísta, ou aquela proposta igualmente estranha a uma fundação.

Podíamos ter feito tanto, e agora não há tempo. Tu fizeste muito e quem te conheceu só pode mesmo chorar-te. Desculpa se não te respondi com mais pressa, desculpa se a vida nos atrapalhou em algum momento.

Agora resta-me dizer, até já. Ficamos mais pobres sem ti.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Acabaram as manhãs da comercial?!!!

 

Entro no carro e oiço o Pedro Ribeiro a dizer esta enormidade: “as manhãs da comercial acabam” e o meu telemóvel toca, a rádio desliga-se, é o sistema de alta voz a funcionar, e fico ali aflita, sem saber o que fazer. Atendo a chamada, passam-se 47 segundos a falar com uma senhora que me quer vender um pacote Nos que, em teoria, é do caraças e lá consigo voltar à rádio, mas só tenho os Gift a cantar que já não sabem se sabem sentir amor e coisas assim.

Vou no trânsito a pensar: não pode ser, se ficar sem as manhãs da comercial, fico sem o Nuno Markl que não come carne, a Vera Fernandes que desafina no New York, New York, o Vasco Palmeirim que já não sei se gosta ou não de pickles e sem o César Mourão que fez a árvore perto da máquina de lavar. Não irei sobreviver. E não conheço nenhum deles, não somos amigos, mas talvez sejamos, afinal, esta cena sentimental é... complicada.

A música acaba e o meu telemóvel toca outra vez, parece de propósito, é mesmo uma chatice quando nos ligam às nove e pouco da manhã, é pouco civilizado, caramba, deixem-me lá perceber o que aconteceu na comercial. E quando volto à rádio já está tudo na galhofa com alcunhas estranhas, Naftalina e Saliva e Proteínas, é o dia das alcunhas, percebo e, até entrar na garagem para onde tenho mesmo de entrar, piso menos três, logo sem rede, vou ainda em pulgas e ninguém me diz nada. Malta! Não pode ser.

Subo até ao nono andar e abro o Facebook da Comercial. Ó alívio profundo!, afinal ofereceram cinco milhões de euros ao Pedro, uma tal Rose cujo português é altamente duvidoso, mas é uma vendida, mandou o mesmo email, com oferta semelhante, para metade do país. Ah, ok, ok, às sete eles lá estarão, certo?

O meu alívio é significativo.

Não posso dizer - até hoje não podia dizer - que sou uma groupie, mas afinal sou. Eu quero encher o bandulho, quero rir com o homem que mordeu o cão (invejar a memória do Markl, por ser absolutamente invejável), perceber o trabalho insano que esta malta tem para ser líder nas manhãs, e sempre com um sorriso, mais brincadeira, menos brincadeira, cortando as regras (adoro quando o Pedro Ribeiro diz que, ups, lá vem o director comercial dizer que não podemos falar na marca A ou B). Há ali muito, muito trabalho, porque ser divertido e diferente todos os dias é dose e não é para todos.

Eu, fã assumida de rádio, ouvindo o dia inteiro várias estações, tenho esta perdição pelas manhãs e agradeço às Rose do mundo, com cinco ou mais milhões, que se abstenham de assediar a equipas das manhãs.

A bem da saúde mental de um país. Agradecida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

querido, mudei a casa

por Patrícia Reis, em 16.11.17
Na secretaria da existência surgem coisas distintas, pois ele é impostos, modelos com nomes estranhos para preencher, dados que nos solicitam a todas as horas e em todos os sítios, assinamos de cruz, dizemos que aceitamos as condições e seja o que Deus quiser. Despachar.
 

De repente, quando é preciso fazer obras, a vida muda totalmente. Ao fim de dois meses fora de casa, regresso com alguma melancolia e apreensão. Estava eu cheia de energia para limpar e arrumar, abrir caixotes, seleccionar e mandar para o lixo, quando percebi que, afinal, ainda não está bem tudo pronto. Portanto, tenho de esperar para tirar as coisas do caixote. E não posso usar a cozinha. Apenas o frigorífico. Um dia, talvez, consiga usar o resto.

Há pó laranja por todo o lado (já disse que a cozinha está laranja? Pois, mas, por favor, não tirem conclusões políticas desta opção estética!), uma penumbra de pó acinzentado que cobre tudo e vários sacos com ferramentas diversas, algumas com aspecto terrífico, outras simplesmente incompreensíveis, há garrafas de água e papelões, cartões e plásticos.

Tudo se atrasa, obras são uma loucura, tu não te metas nisso. Ouvi eu estes meses, já com a obra começada e, consequentemente, sem hipótese de desistir. E uma cozinha parte-se num instante, fica mesmo como um cenário de guerra em meia dúzia de horas, o pior é a reconstrução. Para colocar armários e pedra, cubas e máquinas, ah, isso é todo um processo estranho e estamos sempre quase, mas falta o quase e o quase é avassalador. A vida é dominada pelo quase.

E o que dizer daquele dia em que se visita a obra e – surpresa! – não há lugar para a máquina da roupa? A solução é simples, parte-se um pouco aqui, um pouco ali, e o quase foi-se.

O desespero é de tal ordem que considero nunca mais desencaixotar seja o que for. Quando isto terminar, vou deixar a cozinha impecável, super limpa, com os mega armários vazios por incapacidade de os encher. A minha cozinha cabe em trinta caixotes, a minha cozinha não tem 15 metros quadrados, nós acumulamos tanto que é quase anedótico.

Espreitando para dentro de um caixote descubro uma coisa verde de plástico que não sei para que serve. Do outro lado, está um livro de cozinha, em mandarim, oferta de uma amiga cheia de graça e boa disposição. Que grande chuto na tola! E ainda não sei qual é a conta final desta magna obra, mas não digam à minha mãe que ela é capaz de ter um ataque e deserdar-me (ela tem uns tachos de cobre maravilhosos que cobiço há anos, mas que nunca caberão no paraíso reformulado que é a minha bela-quase-cozinha-laranja). Para quê pensar no que isto vai custar? Prefiro admirar a minha existência e abrir uma pilha de correio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Alberto Luís

por Patrícia Reis, em 14.11.17

Morreu Alberto Luís, advogado, marido de Agustina Bessa-Luís. Casados desde 1945, eram um casal especial. A Agustina gosta de contar que colocou um anúncio no jornal para encontrar um marido, uma "pessoa culta". Tinha decidido que aquele que, ao abandonar a sala onde a entrevista se faria, olhasse para trás, seria o escolhido. Alberto Luís foi à entrevista com uns amigos, também candidatos (diz-se que teria sido uma aposta) e olhou para trás. Casaram. Durante anos e anos, Alberto Luís foi quem passou à máquina os textos de Agustina, ela que tem uma letra miúda e escreve a azul.

Na Egoísta fizemos um número especial dedicado

IMG_1115.JPG

 à Agustina do qual me orgulho muito. Alberto Luís foi incansável na ajuda que me prestou então. Publicámos os pequenos desenhos, retratos, que foi fazendo da escritora. Chamava-lhe sempre Maria Agustina. Eu gostei de os ver juntos das poucas vezes que tive esse privilégio. Que descanse em paz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

prostituta por acaso

por Patrícia Reis, em 14.11.17
Diferentes religiões cristãs insurgiram-se publicamente. O uso indevido da Bíblia e das suas narrativas para cumprir acórdãos de justiça é, no mínimo, um abuso.
 

Volto ao caso do acórdão do Tribunal da Relação do Porto sobre a mulher violentada pelo amante e pelo marido. O entendimento radical que se pode fazer da Bíblia é também algo que está datado. Estamos numa outra era. Entendemos melhor a Bíblia, as questões dramáticas da tradução, das diversas traduções (excelente trabalho de Frederico Lourenço, acaba de sair o terceiro volume da sua tradução a partir dos textos gregos). Sabemos hoje factos históricos que colocam em causa muito do que tomámos por certo ao longo de séculos.

A iniciativa de reunir várias vozes de líderes cristãos partiu da academia, da Universidade Lusófona, onde existe um mestrado - há 20 anos – dedicado às Ciências da Religião. O mestrado é um espaço de aprendizagem e de estudo, de partilha e aquisição de conhecimento e, nessa perspectiva, inscrevi-me há um ano e pouco, tendo cumprido os dois primeiros semestres. Aprendi muito, li o que de outra forma não leria, reanalisei os meus mitos, conferi histórias e, sobretudo, entendi a enorme importância da religião na história da Humanidade, mesmo para quem se diz ateu ou agnóstico. Porque a religião não é exclusivo do intelecto, é da dimensão do emocional.

Eli Wiesel, ele que recebeu o prémio Nobel da Paz, escreveu: “Podemos não ser a favor de Deus ou contra Deus, mas não podemos ser sem Deus”.

Ora, a Bíblia, que reúne textos importantes para as três religiões monoteístas, nunca foi a melhor plataforma para ajudar a causa das mulheres. Pelo contrário. Mas existem crenças colectivas extraordinárias que não correspondem à verdade e uma delas, exemplo máximo de como um texto sagrado pode ser desvirtuado e usado para manipular as mentes, é a questão de Maria Madalena.

Se perguntarmos,  numa sala cheia de pessoas de diferentes proveniências e condições sócio-económicas, qual a profissão de Maria Madalena, a resposta é: prostituta. Não há qualquer dúvida sobre esta matéria, é fazer o teste. Eu fiz, este ano, na feira do livro do Porto, numa conversa com José Luís Peixoto sobre o Sagrado e o Profano.

Ora, não há nada da Bíblia que nos indique claramente que esta mulher exercia a mais velha profissão do mundo. Nenhum versículo, nenhum evangelho. Há uma mulher, Maria Madalena, liberta de demónios (Lucas 8:2) que podem ser interpretados de várias formas; que acompanha Jesus, que esteve perto da cruz (Mateus 27.56; Marcos 15.40; Jo 19.25), que pode ser entendida como discípula até por ser aquela a quem Jesus aparece depois de ressuscitar (Mateus 28.9; Marcos 16.9; Jo 20.11-18).

Para o comum dos mortais, em Portugal ou em outro país, em pleno século XXI, Maria Madalena era uma prostituta. Porquê? A Igreja encarregou-se de dividir as mulheres em três figuras centrais: Eva, a tentadora demoníaca; Maria, a mãe silenciosa e cumpridora; Madalena, a devassa. Esta construção foi feita pelos homens e a virtude de Maria Madalena foi violada e vilipendiada ao longo dos tempos por causa de um papa: Gregório ( 540-604 d.C), que achou por bem afirmar que sabia de fonte segura que a senhora, afinal, era uma prostituta. E até hoje, o mito mantém-se.

Não é só errado invocar os textos sagrados e a religião, com o seu manancial de subjectividade e contexto histórico tantas vezes perdido, para reclamar boas acções ao nível da prática da Justiça, como  também  é terrível perceber que os homens o fazem há séculos e séculos e as maiores vítimas são sempre as mulheres.

Por isso, esta iniciativa do departamento de Ciências da Religião da Universidade Lusófona não é de somenos, é uma grande conquista. São as religiões de inspiração cristã em defesa das mulheres. Este gesto que, para muitos, pode ser simbólico, é uma porta que se abre com a força de uma ventania a que podemos chamar justiça.

Autoria e outros dados (tags, etc)

a ver se me ralo

por Patrícia Reis, em 11.11.17

Há muitos anos, aprendi com a Inês Pedrosa, e depois com outras pessoas, que é muito fácil levar porrada quando se escreve publicamente, se dá rosto e nome, se tem opiniões e, enfim, estamos disponíveis para as partilhar. Não se trata de ganhar palmadinhas nas costas, disse-me ela, o que é importante para ti, pode ser para outras pessoas. E depois falou-me da porrada que iria levar, da quantidade de fel que as pessoas destilam, e tantas vezes no anonimato, mas que isso não tinha qualquer importância.

A Inês é minha irmã e poucas pessoas têm levado pancada como ela. Vive com uma dignidade incrível, uma cabeça genial, uma capacidade excepcional de ser excepcional. É uma lição para mim. Há quase trinta anos que aprendo com ela e, muitas vezes (mesmo muitas vezes!), concordamos que discordamos, mas respeitamos a opinião de cada uma. Ela continua a levar porrada de forma idiota por pessoas que não pretendem construir nada, apenas destruir. E eu estou na mesma situação.

E serve o presente texto para dizer que podem continuar a ser assim, a ver se me ralo. Creio que ela tão pouco se rala. Tragam lá os vossos archotes e as vossas acusações, o vosso moralismo e preconceitos, descrevam a minha ignorância ou o que vos aprouver, vivemos em democracia, podem fazê-lo à vontade, mas depois não me digam que serve para estimular debates, porque a troca de ideias implica respeito e o respeito implica educação e a educação implica elegância. Na minha opinião, claro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Obviamente, demito-o

por Patrícia Reis, em 08.11.17
Caro Senhor,
 

Aprendi com o escritor Paul Auster, que tenho a certeza ser personagem que lhe desagrada profundamente, esse nova-iorquino, para mais de família judia, que posso escusar-me ao exercício de dizer o seu nome e reduzi-lo a um número e, assim, o senhor (perdoe, mas não lhe dou nem a importância de Voldemort), é o 45.

O senhor, como ser humano e como quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos da América, depois de Obama, quando a figura de Bush começava a desvanecer-se (embora não as suas múltiplas acções condenáveis, quase irrelevantes quando olhamos para o estado a que chegámos), condensa todas as ideias de retrocesso civilizacional que mais abomino, mas representa também um espelho terrível do que é a humanidade, o espectro emocional que condiciona e limita, sem permitir discernimento, bom senso, inteligência, sensibilidade ou simples educação.

Não é que o senhor seja racista ou misógino (calculo que por esta altura já entenda o significa da palavra), que use as redes sociais como os cowboys nos filmes usavam as pistolas ao entrar num salon cheio de gente de má índole. É muito pior do que isso. É como se tudo o que é do lado do mal, das trevas, tudo o que, historicamente, combatemos e prometemos não esquecer, tivesse regressado com dupla força e incorporado numa criatura como o senhor que, digo eu, não tem espelhos em casa para olhar no fundo dos próprios olhos. Talvez se dê o caso do senhor olhar e não ver. Porque o senhor diz que ouve, mas não escuta e os seus amigos, os senhores poderosos dos negócios das armas de guerra, do petróleo, estão prontos a idolatrá-lo e a ajudá-lo a fazer mais dinheiro, a ajudá-lo no processo de não ver, nem escutar.

O senhor é o 45º presidente de um país que nasce dos ideais franceses, que calculo ser uma referência que o ultrapasse e que eu não tenho como explicar nos 140 caracteres do Twitter, a plataforma da sua eleição.  Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Não tem noção do que são? Pois, então, venho por este meio informá-lo que chumbou em todas as frentes e, ao fim de 365 dias, é evidente que não cumpre os requisitos necessários para exercer as funções de líder de uma das maiores potências do mundo (desculpe, mas a China está a passar-vos a perna à grande e à francesa, para usar uma expressão que na Europa se aplica amiúde com conhecimento da sua origem). Não cumpre os mínimos olímpicos.

O senhor deveria ser demitido, sem direito a qualquer regalia futura. Nada de motorista, reforma, avião, secretária. Podia voltar para a sua torre em Nova Iorque, reaver os negócios que deixou bem entregues à família para que nada lhe falte, e talvez entrar em mais um programa de televisão. Tenho a certeza de que existirão sempre almas maléficas interessadas em patrocinar a sua existência. Há sempre quem prefira os maus, aos bons. É um facto que a História comprova.

O senhor, cansado da América multicultural, com mulheres que se manifestam na rua e dizem "coisas", pode optar por ir  viver para a Rússia. Dizem que o tempo lá até que é agradável em meados de Junho, mas com as alterações climáticas - que o senhor diz não existirem -, quem sabe se o universo não decide fazer-lhe um verão perpétua em terras da mãe Rússia? Tudo é possível.

Os milhões de pessoas que votaram em si, perante uma audiência mundial perplexa com a enormidade de ter um burgesso à frente dos destinos norte-americanos e do mundo (essa mania que a América tem de policiar o mundo começou com boas intenções, sabe?), são milhões, bem sei. Alguns devem sofrer do síndrome de avestruz, não querem saber, nem dizem que votaram. O silêncio é de ouro. Outros norte-americanos pedem desculpa. Outros aproveitam para capitalizar e outros para emigrar.

O senhor, eleito, com ou sem ajuda dos amigos russos, é um desastre para a Humanidade e colocou-nos na posição mais frágil de todas. O planeta a mudar, a diplomacia a falhar, o senhor a abandonar a Unesco - seguido pelos israelitas que estão igualmente parvos - e ainda tem tempo para enviar tweets apelando à destruição de países onde outros loucos têm igual acesso a material nuclear? A capacidade nuclear existente no planeta permite explodir a Terra dez vezes. Basta uma.

Por isto, e mais (incluindo as sucessivas gaffes, os factos alternativos, o controle desmedido sobre os media, a manipulação, o péssimo gosto em cortes e cor de cabelo e até a sua mulher-objecto), por favor, considere-se demitido. Por mim. E por uns tantos outros habitantes deste planeta. O século XXI, não podia, não devia, não merecia ter alguém como o senhor a dirigir fosse o que fosse, muito menos um país. Há muita coisa assustadora na forma como interage com o mundo, nas suas palavras e ameaças sucessivas. A História permite tirar algumas lições. Com tudo o que já vivemos até agora, temos de ter a certeza de que não esquecemos o que já vivemos. E nós já vivemos o inferno. Como lhe mandou dizer o senhor Macron, numa cerimónia em Paris, auxiliado por uma banda militar - o refrão é simples de cantarolar, sugiro que treine em frente ao tal espelho -, we've come too far to give up who we are.

Por isso, obviamente, demito-o.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Deus, estou francamente lixada contigo

por Patrícia Reis, em 06.11.17
Das conversas com Deus. O que lhe pedimos, do que refilamos e o que não entendemos. À procura de uma resposta para estarmos menos sozinhos na procura do que faz sentido.
 

Esta semana, morreu um jovem que chegara há pouco tempo à maioridade. Estava doente com cancro há já uns tempos. A última vez que nos cruzámos, no fim do verão, ia petiscar com os pais e com uma amiga. Tinha um sorriso pequeno, o corpo esguio, a careca assumida, não se escusava a um abraço. Eu quis acreditar que estaria melhor. Não perguntei nada. Por pudor, por medo, por egoísmo.

Umas semanas antes deste encontro, a minha avó, a propósito desta doença e deste jovem em particular, dissera: Se Deus quiser irá melhorar. E eu, muito armada em qualquer coisa que agora não sei como definir, repliquei com rapidez que o melhor seria tirar Deus da equação. Deus não pode servir para essas coisas, para pedirmos, caso contrário estamos mesmo tramados, Deus é surdo.

A minha avó, mulher sábia e católica convicta, riu-se devagar e disse-me que nunca pensara na questão dessa forma, pois fora educada assim e não é agora tempo de mudar essa parte da sua pessoa.

Eu acatei, não por dever, mas por entender que estava cheia de razão, a sua razão que, para o caso, era o que importava. Eu não fui educada com Deus à cabeceira, nem figuras de anjo, o primeiro terço que tive foi comprado por mim, fui muitas vezes a caminho da igreja de Santa Isabel para discutir Deus e outras coisas com José Manuel Pereira de Almeida, prior de Santa Isabel e um amigo.

 

Até me inscrevi no mestrado de Ciências da Religião e hoje sei mais do que sabia, sei a teoria, a filosofia, a História. Do resto, aquela coisa que se define comummente como fé, sei cada vez menos. Quando surge uma calamidade digo, como todos nós, as expressões onde Deus está enfiado: graças a deus, valha-me deus, deus nos livre e por aí fora. É cultural. Embora também seja identitário.

Este jovem que morreu no início da semana, desistindo de lutar, depois de tanto lutar, talvez não acreditasse em Deus, talvez nem tivesse pensamentos mágicos de que falam os oncologistas em seminários e congressos a propósito dos doentes e da forma como reagem e vivem a realidade hedionda do cancro. Não faço a menor ideia do que pensava sobre Deus ou sobre outras coisas. Sei que gostava dele, só assim: gostava dele.

E, sem saber o que dizer aos pais que perdem um filho desta forma, só me ocorre dizer que estou francamente lixada com Deus. Portanto, a minha avó tem razão, é cultural: voltamo-nos para Deus para pedir, para refilar, para gritar, para chorar. Ele podia dar-se ao trabalho de estar. E assim seria menos solitário.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Essa mulher somos nós

por Patrícia Reis, em 31.10.17
O Conselho Superior da Magistratura portuguesa pronunciar-se-á no dia 7 de Dezembro do ano da graça de 2017.
 

Só nesse dia, véspera do antigo dia da mãe (quando estas coisas eram programadas por questões teológicas e não comerciais), é que os senhores podem avaliar a conduta do juiz desembargador Neto de Moura e da senhora juíza desembargadora que deveria ser destituída de funções no momento exacto em que diz que, enfim, isto é uma maçada, mas eu só li na diagonal.

Eu conheço muita gente que só leu na diagonal o código da estrada e foi penalizada por isso. Ainda bem.

Conheço muita gente que não leu o código deontológico do jornalismo mas passa a vida a mastigá-lo como se fosse pastilha Gorila e a fazer balões para que o mundo possa reparar em tanta sapiência.

O que eu não conheço é alguém que venha dizer: meus senhores, o que aconteceu no Tribunal da Relação do Porto é infame, indigno da profissão que exercem, portanto tomem lá com a devida punição.

Não, vamos esperar até dia 7 de Dezembro, dia em que pode chover ou fazer sol, e até lá, enfim, são tantos dias, existirão outras mulheres que podem ser vítimas de violência e acusadas a partir da lógica da Bíblia ou de uma lei de há um milhão de anos.

Que importância é que isto tem? Tem muita. Tem mais importância, por exemplo, do que discutir na televisão, durante duas horas!, a entrevista do primeiro ministro que durou meia hora. Dirão que exagero, pois talvez. Para mim tem mais importância por saber que a questão das mulheres parece ser apenas um rolo de tinta que sobe e desce e nada acrescenta, uma coisa cansativa, mas o que querem?, dá-me para aqui.

Essa Mulher Somos Nós é o nome da petição que circula para que possamos mudar a Justiça e a forma como a Justiça é praticada em Portugal no que toca às mulheres. Porque a pergunta é: quem fiscaliza os juízes? São os tais senhores que se vão pronunciar no dia 7 de Dezembro? E quem fiscaliza esses? A petição visa repor a justiça e entender se é possível ultrapassar este estado de graça de impunidade que alguns juízes parecem gozar com um à-vontade ofensivo. Eu assinei, porque também sou esta mulher, esta vítima. E vocês?

 

P.S. - The Guardian e o The Independent já fizeram uma notícia sobre este caso. Ficámos bem no retrato, como podem imaginar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

#metoo

por Patrícia Reis, em 24.10.17
Sobre o assédio e sobre tudo aquilo que não se diz e, na maior parte das vezes, não se denuncia.
 

Não importa se o assédio foi maior ou menor, ser vítima de assédio não pode ser mensurável do seguinte modo:” ah, foi perseguida, é mais grave do que ter sido só elogiada em forma de piropo ofensivo” ou, numa outra versão, “ah, foi coagida a ter relações para subir na carreira, é pior do que ter um homem a tirar-lhe as medidas”. Assédio é assédio. O facto de ser preciso existir um escândalo​ em Hollywood para que o assunto pegue moda é, como em quase tudo o que acontece nos dias de hoje, fruto da vertigem da informação, dessa contaminação veloz que só as redes sociais conseguem. A aldeia global no seu esplendor.

A mim, dá-me igual se o dono da produtora Miramax, Harvey Weinstein, alega estar doente, se se despediu, se foi corrido da Academia e se, de repente, é o pai de todos os quem praticam o assédio na indústria cinematográfica ou outra. O que me custa, e considero hediondo, é o silêncio que várias actrizes praticaram religiosamente durante décadas. O que me custa é saber que existem outras tantas que nunca chegarão à denúncia pela simples razão de que o dinheiro (a vergonha e o medo de que a carreira fosse interrompida se se​ recusassem) falou mais alto, assinaram acordos com o dito senhor para manter essa coisa preciosa e conivente que se chama silêncio.

Custa-me também que em Portugal – ó para nós a correr atrás de uma tendência - não se faça uma reportagem séria, o chamado bom jornalismo, sobre o assunto. Faz-se uma notícia a dizer que alguém falou sobre assédio no primeiro Encontro das Mulheres nas Artes que se realizou na Gulbenkian dias 16 e 17, e contou um episódio. E pronto.

Ora, se o tema está na ordem do dia, por favor, façam perguntas a mulheres das diferentes áreas: existe assédio em Portugal? Alguma vez foi vítima de assédio? Sentiu-se prejudicada por não ceder a avanços masculinos e foi prejudicada no seu local de trabalho? Certamente que as muitas mulheres terão coisas a dizer.

Eu, para poupar já as perguntas, deixo as minhas respostas: fui assediada ao longo dos anos por colegas e superiores hierárquicos, fui acusada de ser filha de ninguém, logo não podia ter talento e era apenas uma miúda com dois palmos de cara. Como comecei cedo, havia quem dissesse alto e bom som que os meus textos não eram escritos por mim, que eu nunca seria uma jornalista de qualidade, que era demasiado bonitinha. Bonitinha é igual a burrinha, certo? Pois, é isso.

No próximo ano, faço 30 anos de carreira como jornalista e, embora afastada das redacções tradicionais, sou e serei sempre jornalista. Sou do tempo em que não havia nenhuma mulher nas direcções dos jornais; sou do tempo em que a única mulher numa chefia no semanário Expresso era a senhora do arquivo; sou do tempo em que o meu ordenado era sempre inferior ao de qualquer homem que fizesse o mesmo ou menos do que eu. Tive muitas insinuações, muitas bocas, muitos olhares da cabeça aos pés. Dei um safanão a um editor numa sala de reuniões antes que me agarrasse. Mandei à merda um outro.

O conjunto dos meus colegas homens e mulheres, vou sublinhar aqui esta parte, homens e mulheres, meteram-me na cama com A, B e C. Porque não era possível que uma mulher, que começou a trabalhar ainda menor, loirinha e magrinha, não fosse uma devassa, uma vendida. Talento? Nah. Isso seria pedir muito. Talvez não se recordem, mas eu até obtive um prémio de “alpinista do ano”, prémio atribuído pela defunta revista Kapa onde trabalhavam só bons rapazes.

Penei mais do que a maioria dos homens para ter a carreira que tenho? É evidente. Mas nunca estive calada, nunca deixei de dizer o que penso, o que quero e o que não quero. Aprendi com mulheres de enorme talento que o silêncio não é uma forma de evitar a chatice, é apenas indigno de quem eu sou.

Portanto, aqui vai o hashtag: #metoo. E vocês?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mulheres portuguesas, deixai hoje de trabalhar

por Patrícia Reis, em 15.10.17
Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.


Não é grave, é apenas para manter a paridade.
 

Se nos próximos 79 dias as mulheres não recebem salário, porque carga de água é que devem ir trabalhar? De acordo com os últimos dados, a disparidade de salários entre mulheres e homens em Portugal é de tal ordem que, para efeitos práticos, as mulheres não ganham nada até ao fim do ano, mesmo mantendo um ritmo de trabalho igual, melhor ou pior do que o habitual.

Os salários para as mulheres são 21,8% por cento menos. E são prejudicadas no local de trabalho se, por acaso, engravidarem, tiverem de licença de parto, precisarem de ir a uma consulta pré-natal. Os relatos são inúmeros e mesmo quando uma mulher chega a um lugar de topo, aufere menos do que um homem no mesmo lugar. É um facto, comprovado, sem volta a dar. Porquê? Porque o mundo muda lentamente, muito lentamente.

As mulheres, ao longo da História, tiveram de cumprir apenas duas quotas: ou são umas Evas – logo demoníacas e tentadoras, perversas e afins – ou são Marias – a mãe, beatificada e calma, sempre cumprindo a tradição e, acima de tudo, o silêncio. Desde o chamado pecado original que temos esta avaliação extrema das mulheres seja em que situação for.

No caso dos ordenados ou promoção nas carreiras, andámos muito, conseguimos muito, mas falta bastante para chegar à famosa e pouco cumprida paridade.

O Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social aponta como diferença ao nível dos salários dos tais 21,8% (dados de 2016) e releva que 28,9% das mulheres recebem o ordenado mínimo nacional. O mesmo ordenado mínimo vai para 18,5% dos homens.

Como combater esta desigualdade? Mantendo ferozmente a convicção de que os direitos são iguais. Por favor, não me falem em mérito.

As mulheres portuguesas trabalham muito. Todas as mulheres trabalham muito, dirão. Sim. A tradição pesa e a cultura também. E, se existem filhos, cabe por regra à mulher tratar dos infantes, da casa, dos mais velhos, desdobrar-se. Considerando que esta situação, em pleno século XXI, parece perpetuar-se, talvez seja mesmo bom irmos para casa fazer o que nos apetece, ou passear, já que para muitas de nós o que fazemos não vale o mesmo do que aquilo que é feito por homem.

Depois dizem-me que ser feminista é uma coisa datada? Tenham paciência.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cortar os pulsos

por Patrícia Reis, em 24.09.17

Viver numa aldeia às portas de Lisboa durante o verão é bom. Fugir para uma aldeia às portas de Lisboa num fim de semana de inverno é bom. O pior mesmo é ir e vir todos os dias para uma aldeia às portas de Lisboa.

 

Por razões que agora não interessam para nada, vim viver para uma aldeia, na margem sul, a 40 minutos de Lisboa. Não vim de férias, nada disso, vim para estar e viver até Lisboa me ter de volta, que é como quem diz, até voltar a ter casa digna desse nome.

Eu nasci em Lisboa, sempre vivi em Lisboa e, como todas as pessoas das grandes cidades, tenho da aldeia a ideia idílica que me ajuda a pensar que, um dia, sabe-se lá quando, vou conseguir reformar-me (só esta afirmação dá logo vontade de rir) e viver num sítio mais tranquilo.

Estou na aldeia e a cortar os pulsos.

Sim, adoro aqui estar no pique do verão, quando a animação é mais que muita – numa única rua temos dois bares e um salão de jogos, é uma festa –, quando o peixe ainda chega vivo à peixaria, as pessoas acotovelam-se para comer gelados e temos um território bem demarcado na praia do costume.

Ou então, em pleno inverno, de lareira acesa, sem sair de casa, vivendo na ilusão de que o descanso se pode fazer num único fim de semana.

Tudo isso está muito bem, mas experimentem ter de passar a ponte (25 de Abril ou Vasco da Gama) todos os dias. Façam contas: quilómetros de gasolina, portagens, minutos perdidos no pára-arranca.

Sim, estou a queixar-me e algum de vós estará a pensar por que carga de água é que não vais de transportes públicos, certo? Pois, quem tem uma vida profissional como a minha dificilmente se adapta aos transportes públicos, porque às dez da manhã é preciso estar em Queluz, às duas da tarde no Saldanha e às quatro em Cascais.

Não será todos os dias, mas a verdade é que ando de um lado para o outro como os pombos andam por aí a conspurcar estátuas. Não tenho onde pousar verdadeiramente, não tenho um emprego das nove às seis. Portanto, a única solução é esta: ir e vir. E o que é agradável e quase consolador nas férias é agora uma tortura. A mercearia está fechada por estes dias. A gasolina acabou? Bom, talvez a bomba a três quilómetros de distância esteja aberta. Não sabes como atinar com o forno a gás ou ficaste sem gás? Respira fundo.

Depois deste desabafo, posso dizer que existem coisas boas: o café onde nos tratam como se fossemos realeza, o restaurante maravilhoso dos amigos que se mantém aberto já em modo fim de verão, a tabacaria onde os jornais podem ser guardados para quem ainda lê jornais em papel (eu!), o silêncio imprescindível, e quase estranho, dos carros que não passam, dos autocarros que não travam. Enfim. Por estes dias, viver na aldeia e trabalhar em Lisboa é um sacrifício. E ainda não fez um mês que aqui estou. Já disse que estou a cortar os pulsos?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para acabar de vez com a democracia

por Patrícia Reis, em 16.09.17

Em vésperas de eleições é muito fixe conspirar e mandar bitaites como se isto fosse, o que parece ser tantas vezes, a República das Bananas.

 

Eu tenho amigos de direita. Tenho um filho de direita. Não tenho nada contra quem segue esta linha política, mas tenho tudo contra a politiquice da treta. Temos para todos os gostos: se o/a candidato/a comprou uma casa é por ter comprado uma casa; se o/a candidato/a sabe fazer contas é por sabe fazer contas; e por aí fora.

Mas também temos este registo à esquerda. Não tenho a menor paciência para o argumento de que alguém não tem como governar uma cidade por não saber quanto custa um bilhete de metro (que não é uma empresa municipal, a última vez que verifiquei, e existem múltiplos tarifários).

Ataques e mais ataques, sem grande mérito para quem os começa, sem grande mérito para quem os decide combater. Na verdade, trata-se da canseira habitual em vésperas de eleições e que tem o condão de comover muito pouco o eleitor que estará entretido com o último reality show ou com a bola (talvez possamos inverter isto, porque a bola é evidentemente quem mais ordena).

Portanto, grande parte do debate político é entre políticos e os políticos, já se sabe, alimentam-se disto como os pombos no Chiado se alimentam de qualquer coisa que caía das mãos dos turistas ou dos locais.

Ideias? Ouço nos debates entre candidatos que existem ideias e estratégias, mas não há – quase nunca – um esmiuçar das mesmas. Para ver se eu, e qualquer outro eleitor, concordamos com as mesmas, e se apostamos no senhor ou senhora A por ter um plano com o qual possamos concordar. Não, nada disso. Temos umas coisas a que chamamos debates, temos os habituais com engajamento político e com palas nos olhos e pouco ou nada passa disto.

Acresce ainda que a direita tem feito um pobre serviço à democracia, por não ter candidatos que sejam – vá, vou ser querida e fofa - carismáticos. Não, a direita tem candidatos que são “mais ou menos”, são os “possíveis”, o que é preocupante porque fragiliza o processo democrático e a possibilidade de qualquer debate. Como o primeiro-ministro carrega no bolso das calças as duas esquerdas que podiam fazer alguma oposição, o cidadão que seja como eu, esperaria da direita mais política e menos politiquice. Não acontece.

O que é mesmo bom é fazer alvo aos patos, tiro para aqui, para acolá e a grande máquina do mais-do-mesmo vai rolando.

A minha fé na política é cada vez menor e, tenho cá para mim, estou cada vez menos sozinha nesta convicção. Por outro lado, espanta-me que existam pessoas que ainda queiram servir o país ou exercer qualquer tipo de serviço público, porque o escrutínio é absurdo, a maldade e a deficiência de alguns jornalistas é crónica e, por fim, nem sequer é bem pago.

Talvez eu esteja errada, pode sempre acontecer, mas temo muito pelo futuro da nossa democracia que, afinal, ainda nem tem 50 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mulheres escritoras do mundo: uni-vos

por Patrícia Reis, em 01.09.17

São as mulheres que mais compram livros. São as escritoras mulheres que menos traduzidas - e editadas - são. Um contra-senso ou nem por isso.

 

De acordo com um estudo da Universidade de Rochester nos Estados Unidos da América, as traduções do mundo literário para a língua inglesa – essa que pode fazer toda a diferença entre ser ou não ser um(a) escritor(a) de renome internacional – são mais um universo de disparidade: apenas 28 por cento de livros escritos por mulheres é que chegam à tradução para a língua universal dos dias de hoje. Vou dizer outra vez: três por cento.

Uma carreira literária é duplamente difícil para uma mulher, já que o mercado está saturado e é difícil arranjar uma editora digna desse nome e, cereja no topo do enorme bolo!, uma mulher vende menos. Não sei de nenhuma estatística que possa provar esta afirmação de que as autoras vendem menos do que os autores, mas parece-me uma presunção certeira já que se publicam mais homens do que mulheres.

Quem compra livros? Isso está estudado: quem mais compra são as mulheres. Se apenas 28 por cento da literatura escrita por mulheres é traduzida, fazer uma carreira internacional é quase um achado e assim se compreende que Agustina Bessa-Luís, para dar apenas um exemplo, não cause furor além fronteiras. Não, não podem invocar a portugalidade e as derivações, característica de Agustina, porque, nesse caso, tenho para contrapor Saramago, Lobo Antunes e tutti quanti que escrevem ou escreveram sobre a vidinha por estas paragens. Lemos Jane Austen e será sobre a condição humana, sobre sentimentos transversais à humanidade ou sobre a sua época? Talvez tudo junto. Há mais exemplos, mas como para bom entendedor um ou outro chega, pois sigamos em frente que é preciso.

A possibilidade de internacionalização é pouca, e o mesmo se passa com idas ao estrangeiro, basta ver as comitivas para festivais e afins. Parece que as mulheres não gostam muito de se deslocar e quem organiza festivais tem dificuldade em ter mais mulheres. Contra mim falo que, caso exista um convite, sou muito rápida a declinar, com honrosas excepções. Porquê? Porque não tenho, como sugeriu Virgina Woolf, um quarto só para mim, a minha vida é como a de tantas outras mulheres, e, entre os mil afazeres, ainda telefono à minha mãe todos os dias.

O resto podem imaginar, entre emprego, filhos e roupa, o espaço mental que tenho para escrever é diminuto, o físico é relativo e a capacidade de mandar tudo às urtigas e ir ao estrangeiro – ou mesmo só ao sul do país – para falar sobre o que ando a escrever há mais de uma década é nula. Queixo-me e não me queixo desta situação, da miragem das traduções, de ver os livros bem expostos (mesmo aqueles que têm anos), enfim, de uma carreira literária que, para todos os efeitos, nunca o será.

Em Portugal, temos por hábito pensar que a desgraça e a frustração tem um cunho lusitano. Três por cento das escritoras do mundo conseguem ser traduzidas. Estou, por isso, muito acompanhada nesta solidão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

erotismo 0 - tecnologia 2

por Patrícia Reis, em 21.08.17

Há uns anos, Agustina Bessa-Luís revelou, numa crónica de jornal, que nada é mais anti-erótico do que a praia, a praia onde metade do país se encontra de momento. Também escreveu, numa outra circunstância, que uma mulher para parecer inteligente só precisa de usar um vestido preto e ficar calada. É uma ironia, e é uma verdade, se considerarmos o quadro mental. Mas não vamos por aí.

 

O calor faz-se sentir e eis-nos na praia, esse cenário de tristes paisagens em que estamos no nosso melhor ou nosso pior. O tal anti-erotismo prevalece.

À minha volta, no fim de semana de dolce fare niente, vejo famílias ruidosas, os gestos do costume - "Pedro, vem aqui já, não te chamo outra vez"; "Maria, tens de meter protector", "Tens sandes, come uma sandes, já comeste um gelado" - e um outro que é perturbador, embora comum e, portanto, expectável: poucos livros protegidos por leitores ávidos de uma boa história (eu terminei o romance de Paul Auster, 4,3,2,1, que recomendo, embora possa compreender que o número de páginas assuste os menos experientes), jornais por ler encostados a mochilas e sacolas da moda e, pois claro, muitos telemóveis a emitir a luz da salvação e eternidade.

Para quê falarmos se posso estar no Facebook? Recordo-me das grandes conversas na praia, jovens em bando, partilhando histórias, reclamando levemente do horror que foi a escola, sem querer falar disso; piscadelas, início de namoros, jogos e cartas. A sedução fazia parte do verão e o tal anti-erotismo de Agustina ainda não me tinha assaltado como uma verdade fatal, ou seja, não tinha dois filhos, não passara a barreira dos 45 anos de idade.

Tudo era uma festa e conhecer pessoas novas uma promessa de verão que se cumpria religiosamente, alguém que trazia uma prima que vivia no interior do país; um melhor amigo de há dois meses.

Agora, depois de pousar o livro, de ter lido os jornais e as revistas, a esconder-me na sombra desde as onze da manhã - aguentando heroicamente até às seis da tarde por amor, e só mesmo por amor -, eis que percebo que não são apenas os corpos que se degradam com o tempo. É o tempo que nos traz a tecnologia para dentro da vida, mesmo com água e areia, e não há espaço para conversas.

Foi-se a sedução. Não há nenhum bando na praia de adolescentes à espera de crescer mais em dois meses do que em um ano lectivo intenso: há telemóveis para todos os gostos. E, sim, corpos massacrados por essa realidade básica: com a idade vem o peso e cada quilo traz uma família inteira com ele, avó, tia, primo, e custa muito mais a perder esses excessos, ocupantes indesejados.

Porque não lemos, não conversamos, não andamos em grupo, mas, caramba, temos de comer uma bola de berlim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eles têm as costas largas

por Patrícia Reis, em 02.08.17

As generalizações são tramadas, mas — tendo consciência ou nem por isso — mantemos essa necessidade de assumir o rótulo, de catalogar, de definir em bando para concluirmos coisas, em teoria, pertinentes e que devem algo à inteligência.

 

Os portugueses assumiram há muito tempo que existe essa figura de papão que os trama e designam o mesmo bicho mau e careca de uma forma quase incolor: eles.

Eles comem tudo e não deixam nada, pois lá diz a canção. O drama é que o Eles — vamos colocar em maiúscula para lhes dar um pouco mais de corpo, solidez, pertinência — não existem enquanto criaturas reais que tomam decisões. São apenas os que prejudicam, os que nos tiram os dias de sol, os que falharam, os que podiam ter feito melhor, mas  que não fizeram porque nunca fazem. Quase como uma versão castigadora da professora de matemática que prolonga o tempo de aula para massacrar os alunos que anseiam pela aula de português. Ou como uma entidade que procura vingar-se da Humanidade e que tem um desígnio maléfico que nos inflige um fado que, afinal, é apenas um fardo.

Seja qual for a metáfora usada, uma coisa é certa: a culpa é toda Deles. E Eles não se acusam, por não ser nomeados, e quando o são, já se sabe, estão no governo ou no partido A ou B.

Prezamos a democracia, já cá andamos há uns anos e sabemos que é  infinitamente melhor do que tínhamos antes da revolução dos cravos em 1974, mas será que ainda sabemos apreciar o sabor dessa democracia e a valorizar a importância do debate público?

Ah, Eles tratam, mesmo mal, resolvem, pensam e fazem com que a máquina se tenha instalado, criado raízes e se mantenha no seu movimento perpétuo. Ora, Eles, sejam lá quem forem, podem muito, têm as costas largas e não se importam com as críticas.

Alguns fazem parte dessa massa anónima do Eles há tanto tempo que encaram as críticas com a placidez com que algumas pessoas vivem uma hora de boca aberta para desvitalizar um dente. Não se importam nada com as críticas, as queixas, os comentários de fel nas redes sociais, os factos, isto ou aquilo. E estão instalados a ver a paisagem e a dormir sossegados porque são Eles e sendo Eles não são como Nós, os deste lado que, apesar da queixa, não queremos ir para ali.

Eu, para a política? Eu, ter de votar? Eu, ter de perceber a função exacta de um vereador, deputado, ministro? Eles comem tudo e não deixam nada, têm o poder.

O Nós não entendeu ainda que Eles têm o poder por lhes ter sido dada essa oportunidade. Ninguém quer fazer parte do Eles.

A fragilidade da democracia é a maior falha do Nós que, assobiando e cuscando o vizinho para o maldizer, está muito entretido a olhar para o seu umbigo em detrimento do Outro. O Outro é o bem comum. Nem Eles, nem Nós percebemos isso.

Por isto, e mais umas tantas coisas, vem aí a silly season e teme-se o pior. Ou então sou eu que estou especialmente pessimista. A culpa é Deles.

Autoria e outros dados (tags, etc)

a forma mais preguiçosa de ver o mundo

por Patrícia Reis, em 27.07.17

Esquerda, direita, volver. Ou porque é tão difícil abrir a discussão pública a novas pessoas, novas ideias, diferentes formas de pensar.

 

Dividir o mundo entre a esquerda e a direita é a forma mais cómoda de se viver, a mais preguiçosa e também a menos interessante. Mas é assim que vivemos. Na dicotomia que faz com que tudo tenha esta divisão categórica. Olhamos para os intervenientes em qualquer programa de televisão ou de rádio e lá estão os senhores mais assim, os senhores mais assado (escrevo senhores porque, objectivamente, as senhoras não aparecem com tanta frequência). O que muda em termos de pensamento? Nada. Existe uma agenda e um pensamento condicionado, logo é bastante previsível o que vai ser dito, ou dado a ouvir para que o público em geral possa processar e pensar.

Olhar para o mundo através deste binóculo bipolar parece-me redutor. Dirão que existem várias esquerdas e outras tantas direitas, clivagens, diferenças, actualizações, que existe um centro e os liberais e talvez, porque não?, neo liberais, e tal. Pois seja. Nasci antes da revolução, poucos anos antes, sou, por isso, também produto das conquistas de Abril. Cresci em democracia e, passados mais de 40 anos, pasmo com realidades que limitam a possibilidade de se pensar o mundo de uma forma que não seja partidarizada. E estou um pouco cansada de mais do mesmo, que é como quem diz dos comentários dos agentes informadores mais assim, ou mais assado.

Temos poucos académicos a escrever nos jornais, a falar na televisão. Temos uma mão cheia de politólogos, mas deixámos de ter historiadores, sociólogos, filósofos em contacto com o grande público. O que temos? Mais do mesmo. Os senhores do costume. Há décadas.

Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que fez campanha sem outdoors, manifestações e outras acções típicas de uma campanha presidencial, esteve anos e anos a entrar pela casa das pessoas através da televisão. O poder que tem a pequena caixa que mudou o mundo é real e contribui para muito. Não sei se, em Portugal, nesta altura do campeonato, contribui para se pensar o país, o mundo, as questões que afectam as pessoas. O que importa é equilibrar as intervenções entre os agentes de esquerda e os da direita.

Nos jornais, durante muito tempo, os escritores – que pensam o estado do mundo e são uma forma de consciência do seu tempo – escreviam crónicas, eram chamados a apresentar ideias. Hoje, são raros os escritores que se envolvem nas matérias sociais. Não por não quererem, simplesmente por não terem esse espaço. Tudo o que envolve a sociedade é político e, portanto, é evidente que tudo se passa à volta da esquerda e da direita? Sim, tudo o que envolve a polis é político, todos nós temos gestos e discursos que formam uma ideia política, mas não precisa de estar engajada numa agenda de partido que, para tornar as coisas ainda mais pobres, resulta em “picar” os potenciais adversário e outras variantes pouco dignificantes.

Disseram-me, há uns meses, que não se pode deixar de ir buscar para intervir nas televisões, rádios e jornais pessoas cujo reconhecimento é imediato. Todas elas eram desconhecidas numa determinada fase da vida, certo? Certo. Portanto, podemos apostar em pessoas cujo discurso é diferente e que ninguém conhece. Ah, as audiências sofrem com isso, com o facto de ninguém saber quem é o académico que vem explicar coisas importantes, digamos, sobre o Islão. A solução é colocar alguém cujo rosto se multiplica em vários cantos da comunicação social, tornando-o um agente de comunicação. E, mesmo que não saiba nada sobre o Islão – que perspectiva de direita, que perspectiva de esquerda, pode existir nesta matéria não sei dizer, mas que importa muito que se saiba mais sobre o Islão não tenho a menor dúvida -, pois alguma coisa se arranjará para pontificar e fazer o contraponto, ou seja, o descascar no vizinho do lado, à esquerda, ou à direita. Do outro lado do ecrã, alguém irá dizer: este tipo é de direita/esquerda.

Perde-se muito quando se divide a realidade apenas desta forma e, acima de tudo, perde-se a possibilidade de abrir horizontes, de aprender, de formular ou reformular pensamento. E, caramba, precisamos tanto de pessoas que pensem bem, diferente, que nos empurrem para lugares melhores. Não dará audiências, mas talvez contribuísse para dar a volta ao estado do país.

Autoria e outros dados (tags, etc)

blogue da semana

por Patrícia Reis, em 23.07.17

Os dez melhores blogues do ano é uma competição que acompanho com gosto, sobretudo por perceber que existem muitas pessoas por aí no universo dos blogues a escrever bem e sobre temas diversos. Este ano, fui descobrir por fim o vencedor do prémio Melhor Blogue de Viagens Profissional nos Blogger Travel Awards 2015. Sim, já sei, estou atrasada dois anos, mas é a minha vidinha, que não sendo fácil, é animada. Filipe Morato Gomes assina este blogue, “uma espécie de viajante profissional”. Pareceu-me perfeito para mergulhar numa sexta-feira à tarde e assim fiz. Descobri várias coisas interessantes, relatos de viagem, experiências diversas, algumas dicas, listas de hotéis. Acima de tudo, proporcionou-me sonhar, já que viajar faz parte das minhas prioridades (tantas vezes adiadas!). Filipe Morato Gomes tem a felicidade de andar de um lado para o outro (já deu duas voltas ao mundo), escrever sobre isso e manter um blogue com pinta. Como tudo na vida é difícil e é preciso pagar contas, o blogue tem uma característica comercial: se quiser programar uma saída do país diferente, uma aventura, pois pode entrar em contacto com este viajante, nascido no norte do país, e combinar aquela viagem de sonho. Não se pode pedir mais nada, pois não? Verifiquem tudo em

http://www.fmgomes.com/ e façam as malas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

welcome to my life

por Patrícia Reis, em 21.07.17

Cheguei de Itália - a belíssima - há uma semana. Já não me lembro de ter ficado de papo para o ar sem fazer nada, mirando vagamente as vinhas da Toscana ou espreitando a gente pelas praias de Roma. Sim, tenho problemas graves de memória, está visto. Acontece que desde que cheguei aconteceu tudo, ou quase tudo, do autoclismo que avariou, ao carro que não tinha gasolina nem óleo (pânico!), a textos que eram para ser mas depois não foram, a sessões de terapia individual, de grupo, no espelho e apenas para mim mesma, idas à província, vários livros à espera, sessões de fotografia, objectos estranhos e alguém à minha frente a dizer: gosto de comer. Há ainda toda a cena bizarra da inscrição do meu filho mais novo na faculdade (inscreveu-se, por esta ordem, em filosofia, ciências da comunicação e sociologia, todos os cursos na universidade Nova), ou dos cães que precisavam de ser vacinados, mas afinal não. O meu filho mais velho acredita que eu não percebi a mensagem (não perguntem, é demasiado), e a minha mãe diz que há pessoas que morrem com menos stress. Hoje é sexta-feira. Dizem-me que há vitaminas fixes, mas não fui à farmácia, fui à dentista que é um fado só meu e permanente. Ah, Itália? Foi maravilhoso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

É uma ilusão que alimentamos há mil anos: somos um país integrador, com boa vontade, tolerância e outros predicados de correcção extrema. Somos bonzinhos. Conquistámos o mundo, uma boa parte do mundo, e, nos tempos de glória, não fomos tão maus quanto... Eis o busílis: a comparação.

Nunca somos tão maus quanto A ou B, outros povos, outros colonizadores, outros intolerantes, racistas, xenófobos. Mas não é suficiente. Não temos no parlamento representação de outras etnias que, é bom que se entenda de vez, não têm se ser integradas na sociedade portuguesa, fazem parte da sociedade portuguesa.

Não se trata de dar lugar aos recém chegados. As comunidades africanas a residir em Portugal estão por cá há tempo suficiente para terem um lugar em funções de representatividade, nos órgãos de comunicação social (creio que temos, salvo erro, apenas uma pivot de origem africana e numa estação de televisão privada), na política, enfim, em todos os sectores da vida pública.

Em muitos casos, vivemos num gueto, tal como é a Cova da Moura. Será difícil ignorar ou desvalorizar os acontecimentos de discriminação e violência por parte dos 18 polícias da esquadra de Alfragide, na Amadora, acusados pelo Ministério Público de crimes diversos. Um dos polícias é acusado de cerca de 20 crimes. Os relatos são medonhos e não podemos simplesmente fingir que não sabemos, ou que o racismo não existe, que o índice de violência não é brutal.

O meu marido, nascido em Angola, não tem a cor certa para este mundo de falsos brandos costumes. Os meus filhos sofreram várias agressões verbais por causa da cor de pele do padrasto. Ainda hoje, com mais de uma década de casamento, há quem olhe, há quem comente, há quem não consiga conter um esgar. Já ouvi frases como “coitadinha, ela é tão branquinha”. O meu marido lida bem com isto. Eu, tenho os meus dias.

Aprendemos a ignorar, mas não nos surpreendemos com relatos de violência física ou verbal. Triste? Sim, mas não é apenas isso. É um retrocesso crescente ao nível civilizacional, dirão alguns. Também não é verdade. Nunca fomos um país isento de racismo, logo a ideia de retrocesso é relativa. Deveríamos denunciar mais? Sim. Mas importa perceber o medo e a ideia de inutilidade de denúncia, por existirem muitos casos em que as vítimas encolhem os ombros e dizem: "não queremos mais chatices".

Dos 18 polícias acusados - finalmente uma acusação real e adequada – podemos esperar que se faça justiça? Infelizmente, não tenho fé na justiça portuguesa, ou melhor, tenho tanto quanto nos bons e brancos costumes nacionais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

eles não sabem, nós também não

por Patrícia Reis, em 14.07.17

Mais uma semana de exames, desta vez com a publicação das notas. Mais uma semana de ansiedades e de incertezas. para pais e filhos.

 

E saíram as notas dos exames. Os miúdos atropelavam-se para chegar às pautas, um burburinho nervoso persistia e alguns pais esperavam com ansiedade, braços cruzados, atentos. Os telemóveis memorizaram as notas. Os rostos dos finalistas do 12º, nas diferentes áreas, são uma palete confusa que abrange a totalidade do espectro emocional. Há riso, choro, aflição, mutismo, mãos a arrepelar cabelos.

Os jovens com a alegria conquistada pela visão da pauta agrupam-se naturalmente. Os menos felizes encolhem-se, o corpo em curvatura. Os rapazes contêm-se, as raparigas começam no frenesim de perceber a média, faz contas, corrige, liga à mãe que não está presente. Há duas miúdas que discutem se têm de se inscrever já para a segunda fase dos exames, ambas com 10 a História. Não sabem o que fazer. Uma delas pergunta: "Mas tu já sabes o que vais fazer? Que média precisas para entrar na faculdade?" E a resposta chega veloz: "Não sei. Não faço ideia. Talvez eu não devesse ir para a faculdade, mas a minha mãe..."

Afasto-me deste cenário com o coração apertado por todos os que ali ficaram contristados com os resultados. Sei de quem tenha pago explicações caríssimas e tenha de enfrentar a realidade: o filho traz notas negativas a ambos os exames. Sei de quem não quer pensar mais no assunto.

Vou com as boas notas do meu filho mais novo pela rua e penso que ele também não faz ideia do que será o futuro. Há uns anos, ainda criança, o mais velho sentenciou que o futuro é um país lá longe. E agora que parece mais próximo, mais assustador, não é possível ter a certeza de que estejamos a ser correctos.

 

Pressionamos os miúdos para decidirem? Escolham um curso, sff, depois logo se vê? Valerá a pena ficar a morder o lábio de nervosismo perante a decisão que diz: não quero ir para a faculdade? Ser pai não é ter um livro de receitas certas, nem garantias de eficácia como os pequenos electrodomésticos que por aí se vendem.

Ser pai é complicado. Ser filho é igualmente complicado.

Num mercado cada vez mais exigente, acreditamos que uma licenciatura é uma ferramenta básica e lutamos para que os nossos filhos adiram com empenho e alegria. Não saber o que se quer fazer é paralisante e, ao mesmo tempo, frustrante. Mas pior será pensar que estamos a depositar nos nossos jovens todas as esperanças de um mundo melhor, sabendo de antemão que o que importa verdadeiramente é encontrar algo de que se goste. A paixão importa.

Para muitos miúdos, esses que estudaram aqui por casa para os exames nacionais, o que parece ser mais urgente é "ter um emprego". Eu vou dizendo que o mais importante é fazerem algo de que gostem, algo que possa proporcionar conhecimento, mas também uma gratificação pessoal.

Levo as boas notas do meu filho para casa e sei que ele se inscreverá na faculdade sem saber nada do futuro. Eu sou mãe dele e também não tenho o direito de saber do futuro dele. Será uma presunção muito grande continuar a decidir o que quer ou não quer, o que deve e o que não deve. Ou não será?

Autoria e outros dados (tags, etc)

estes senhores não viajam separados

por Patrícia Reis, em 08.07.17

Comunicar é muito mais do que falar ou ouvir. Comunicar é tornar comum, o que implica esforço, atenção, proximidade e sobretudo interesse pelos outros. No aeroporto, há uns dias, um grupo de surdos mudos embarcava para Itália. Na algazarra típica dos aeroportos, chamadas para o voo internacional XPTO, viam-se pessoas a atropelar pessoas com trolleys desajeitados, crianças a dormir, ou a ser simplesmente crianças, este grupo de pessoas - a maioria adultos, dois casais de meia idade, dois adolescentes - manteve-se perto. E na sua Língua Gestual, formando uma roda, conversava e ria. Conversar, usando a Língua Gestual, implica também a capacidade de observar o outro. Na expressão facial, no corpo que se movimenta. Na semana passada, a propósito do concerto no Meo Arena de solidariedade para com as vítimas do incêndio de Pedrogão Grande, pudemos assistir, naquele quadrado no canto inferior direito, a uma tradução para Língua Gestual que assumia o ritmo, a música, o entusiasmo. E a dança do corpo e das mãos era simplesmente maravilhosa de ver. No aeroporto o que mais me comoveu foi perceber que o casal mais velho, mais de 65 anos, não precisa de muito para comunicar, como se os olhos dissessem tudo. Aquela mulher e aquele homem conhecem-se dentro de uma espécie de silêncio que obriga ao reconhecimento permanente do outro. Não se deixam de olhar por um segundo. Não precisam mais do que esboçar algum gesto. Sabem. Conhecem-se. De todos os casais que conheci ao longo da vida, nunca vi nenhum com aquele nível de intimidade. Dentro do avião, impossibilitados de ouvir os diferentes anúncios sonoros e com tripulação estrangeira (era um avião de uma abençoada companhia low cost) incapaz de os entender, o casal é separado. A senhora para a fila vinte e tal, o senhor deve ficar na fila quatro. Não é possível não ouvir estes pormenores, a hospedeira fala em inglês com sotaque italiano e fala alto. Talvez porque os senhores sejam surdos mudos, o que é ridículo. O senhor recusa sentar-se e tenta, sempre com um sorriso, explicar, aponta para a mulher, para a aliança, para o lugar ao lado. São salvos por um técnico português que fazia um controle qualquer ao avião e estava pronto para sair. O técnico vai ao fundo do corredor do avião, traz a senhora, pede licença ao senhor do lado e explica que é preciso trocar de lugar, "estes senhores não viajam separados". Pareceu-me justa está frase. O casal sentou-se por fim, fila quatro, lugares A e B. Deram as mãos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

saber viver custa muito

por Patrícia Reis, em 01.07.17

Numa sociedade a sofrer de ansiedade, palpitante, impulsiva, temos cada vez mais dificuldade em viver bem. O que é viver bem?

 

Aprendi há algum tempo que existe uma máxima que me permite conquistar alguma tranquilidade: se tem solução é um problema; se não tem solução, pois siga, andemos para a frente. Podemos ficar a congeminar em muita coisa, construir cenários, projectar o que teríamos dito a A ou B se tivesse havido tempo, ou agilidade mental, naquele momento específico. Tudo isto é uma enorme tanga, já se sabe, o tempo não volta para trás, não conseguimos repor a verdade.

Ficamos agarrados a muitos preconceitos e somos minados de tal forma que o nosso quadro mental revolta-se e esquece o bom senso. Dentro do bom senso está a nossa capacidade de parar e reflectir. Como o avô de um amigo que dizia que antes de comprar qualquer coisa precisava de um período de reflexão. Só partia efectivamente para a comprar depois de perceber se esse objecto de desejo espontâneo fazia mesmo falta.

Parar permite também escolher. E torna-se mais fácil perceber quem são as nossas pessoas. Nem todas as pessoas fazem parte do nosso clã. Sim, convivemos, mas existem pessoas que nos pertencem, com quem temos afinidades, projectos, possibilidades de crescer, de partilhar. As outras não são da nossa equipa, vestem um equipamento distinto, fazem juízos e validações que nos são incompreensíveis. Até aqui, tudo bem. Não temos de gostar de todas as pessoas; nem todas as pessoas têm de gostar de nós.

O maior drama de tudo é quando nos deparamos com uma das características nacionais mais danosas: a inveja. Podemos utilizar o cliché e dizer que a inveja mata. Enquanto mata por dentro os invejosos(as), atinge de forma extrema o alvo da inveja. E, em vez de termos armas para combater que assentem na seriedade e intelecto, ficamos estarrecidos a ver como a inveja se propaga como um gás mortal. As redes sociais são pródigas neste capítulo. Os mass media divulgam online títulos bombásticos que, tantas vezes, não correspondem à verdade. A exposição é hoje uma constante e como não lhe vejo solução, creio que terei de seguir a tal máxima e seguir em frente, ignorar o que se diz levianamente sobre A ou B. Enquanto sigo para a frente, paro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pensamento da semana

por Patrícia Reis, em 24.06.17

Quando uma mulher escreve uma história de amor, é mais uma história de amor. Quando um homem escreve uma história de amor é sobre a condição humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Autoria e outros dados (tags, etc)

É tempo de exames e enquanto dura esta ansiedade evita-se a próxima. Aos 17 anos, é legítimo ter dúvidas e não saber o que se quer fazer para o resto da vida. Aliás, o conceito do resto da vida é hoje tão móvel como tudo o resto.

 

Adolescente chegou a casa e comunicou que o exame nacional de português – para alunos do 12º ano – foi bastante mais fácil do que pensara. “Saiu Alberto Caeiro e Vergílio Ferreira”, disse, não estando particularmente entusiasmado, nem tão-pouco aliviado. Confessou que deixou por fazer duas perguntas. Não, nada de interpretação, apenas o terror da gramática cuja terminologia, confesso, também me assombra. A evolução da língua, pois e tal, mas a nova terminologia é um verdadeiro chuto na tola e, por muito que se possa dizer que a lógica ajuda a chegar lá, não tenho como. Sou de outra geração e não sei o que é um complemento oblíquo. O meu filho talvez saiba. Ou não.

Hoje é dia do exame nacional de História cuja matéria é vasta e, por isso, os livros estiveram espalhados na mesa da sala e houve adolescentes que entraram e sairam, fizeram perguntas, desesperaram.

A época de exames é sempre assim, dirão. O stress acumula-se, há uma cambada de nervos para controlar e, a seguir, a ânsia da espera pelos resultados. Lá para meados de Julho chegam as notas e depois a decisão de ir ou não à segunda época.

Tudo isto foi falado e discutido ao longo do ano escolar e o adolescente cá da casa sabe bem o que o espera. O que me incomoda verdadeiramente é ver o nível de cansaço a que chegou e como a perspectiva de ir para a universidade não parece sequer ser aliciante. Diz que está ocupado com os exames, que não pensa nisso. Eu não sei se acredito nesta versão. Posso apenas dizer que os outros adolescentes, aqueles que por aqui andam e não são meus filhos (logo falam comigo mais facilmente, é uma das leis da vida quando se vive a maternidade e a adolescência), mostram-se apreensivos e, na sua maioria, não sabem que curso escolher. Um diz-me: “Vou para onde a média for mais baixa”. Outro adiante: “O meu pai diz que Direito é que é e eu, como não sei, vou para Direito”. E outro, mais felizardo: “Eu posso ir para onde quiser, tenho uma média alta, mas ainda não decidi”.

Não saber o que se quer fazer com o resto da vida aos 17 anos parece-me perfeitamente natural, da mesma forma que advogo que frequentar um curso superior não significa obrigatoriamente seguir a via profissional que deriva do curso.

Do que entendo dos miúdos com quem vou falando, a questão mais pertinente é conseguir ter um emprego. Fazer a universidade é apenas mais uma inevitabilidade, mas o que importa é saber como irão ter emprego, que ordenado conseguirão ter, como farão a vida de adulto.

Esta é a geração que nasceu dentro da crise, a geração que nasceu com a notícia regular de atentados terroristas. Toda a pressão está em cima deles e não podem respirar um pouco e viver as férias de verão como em outros tempos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quotas. Sim ou não?

por Patrícia Reis, em 16.06.17

Não sei se as quotas servem para mudar mentalidades ou apenas para perpetuar essa ideia de que alguns homens nos fazem favores imensos em consentir a nossa presença. A presença da mulher em lugares de poder é diferente, sendo só mera presença, adianta pouco.

 

Sempre tive sentimentos contraditórios até por perceber que muitas vezes – demasiadas vezes – as mulheres estão pouco disponíveis para algumas coisas, recusam convites, ponderam muito sobre cargos públicos e as suas enormes desvantagens.

Sim, existem desvantagens claras e uma delas é o escrutínio público exacerbado (basta pensar na quantidade de processos de difamação para perceber o que quero dizer).

A uma mulher comenta-se o penteado, o vestido, o sorriso, qualquer gesto e pesam-se todas as palavras com minúcias e requintes – tantas vezes – de pura maldade.

A verdade é que a luta pela paridade continua a fazer sentido. Direitos e deveres iguais, para homens e mulheres, tal e qual como ordenados, progressão de carreira, oportunidades. Estamos longe, muito longe de um registo paritário e, compreensivelmente, mulheres e homens continuam a marchar com a bandeira do feminismo.

No parlamento discute-se a questão das quotas – outra vez. Agora a discussão é sobre a imposição de quotas às empresas públicas e às empresas cotadas em bolsa de valores. Os conselhos de administração devem ter mulheres? Pois. Parece uma evidência, mas são pouquíssimas as mulheres em lugares de topo, pode-se imaginar que ao nível dos conselhos de administração a tendência masculina seja a mais poderosa.

A votação desta proposta será feita na próxima semana e, como sempre, temos quem seja contra (o Partido Comunista Português é uma fonte maravilhosa de surpresas, ou melhor, de não-surpresas). Desta vez o CDS, que tem uma maioria feminina no Parlamento, alinha com o resto. Se a dita lei for aprovada teremos uma questão pertinente que é semelhante à de alguns gestores culturais quando precisam de ter paridade nos programas que desenham: como cumprir com a quota, a noção de paridade, se as mulheres se recusam a assumir certas tarefas?

Diz-se que desde 2006 os partidos políticos sofrem com esse pesadelo constituído lei que é a paridade nas listas eleitorais. No caso das empresas, onde as mulheres a partir de 2018 deverão constituir cerca de 33 por cento das administrações e órgãos de fiscalização, há multa para quem não cumprir.

E aqui é que eu torço o nariz. Eu não quero ver uma mulher incompetente num conselho de administração de uma empresa pública só para cumprir a quota, para não pagar multa. Eu quero ver mulheres competentes reconhecidas por mérito próprio. Nesse aspecto, o quadro mental potencialmente misógino mudou muito em 40 anos de democracia, mas não mudou tanto assim.

Acresce que às mulheres falta um sentido de corporativismo e raramente se defendem umas às outras. Não sei se as quotas servem para mudar mentalidades ou apenas para perpetuar essa ideia de que alguns homens nos fazem favores imensos em consentir a nossa presença. A presença da mulher em lugares de poder é diferente, sendo só mera presença, adianta pouco. Mas fica bem dizer que somos paritários, defensores da igualdade de género. É mais bonito e nem divide a esquerda e a direita (excepção feita ao Partido Comunista Português, claro).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Camões, Cultura e Estratégia

por Patrícia Reis, em 10.06.17
 

A 10 de Junho de 1580 morre Luiz Vaz de Camões e a homenagem ao escritor dos Lusíadas é muitas vezes esquecida no âmbito do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Esquecida apesar de Camões ser um nome maior da Cultura nacional e a promoção e divulgação da cultura ser essencial para manutenção da nossa identidade.

Temos na Cultura, como em outras áreas, nomes maiores. E continuamos a ter, nas novas gerações, mentes criativas e inovadoras. Não me refiro apenas à Literatura. A nossa Cultura é uma moldura de grande dimensão e reflecte a nossa História, as nossas lendas, os nossos mitos e, ao mesmo tempo, fixa a contemporaneidade.

A Cultura é, por sistema, a parente mais pobre da política. Nos governos sucessivos que preenchem a nossa jovem democracia, a Cultura nunca teve o investimento que deveria ter.

Este 10 de Junho, celebrado na cidade do Porto, é porventura um momento para pensar se temos uma estratégia cultural que acompanhe o facto de Portugal estar na moda, ter tão bons indicadores ao nível do Turismo, e se apostamos ou não em quem insiste em ser agente cultural, artista plástico, escritor, músico, etc.

Há ainda uma reflexão adicional que deveremos fazer, sobretudo num país que parece estar cada vez mais deslumbrado pela juventude: apoiamos ou não apoiamos os mais velhos que contribuem significativamente para este património que é nosso, a Cultura Portuguesa?

Marcelo Rebelo de Sousa esteve mais de uma década na televisão como comentador. Sempre teve uma rubrica de livros. Há uns tempos, confidenciou-me que gostaria de ter feito um programa de livros na televisão. Pode ser que ainda venha a fazer. O único programa sobre livros que existe é na RTP 2. As outras estações de televisão dizem que a Cultura é uma chatice, pouco comercial, não ajuda aos shares e outras coisas.

Marcelo Rebelo de Sousa, homem culto, tem corrido feiras do livro, festivais literários, lançamentos e é um Presidente atento à cultura. Há muito tempo que não tínhamos um Presidente para quem a Cultura fizesse diferença. Pode ser que aconteça algo de extraordinário e o Presidente consiga que o resto das instituições oficiais entendam que sem Cultura não existe a soberania, não existem as comunidades portuguesas e, consequentemente, não existe necessidade para um 10 de Junho.

Texto para o site do Porto Canal

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Defendo os professores sempre que posso, pasmo perante a notícia que diz que a Fenprof e a Federação Nacional da Educação planeiam uma greve para o dia 21 de Junho, dia de exame nacional para muitos alunos.

 

Posso simpatizar com a causa – progressão na carreira, melhores condições – mas não tenho como não considerar esta atitude como um acto de bullying aos alunos. Os anos de exame nacional são difíceis para qualquer estudante. São jovens, preocupam-se, entram em pânico, são pressionados pelos pais e constantemente recordados do exame e da proximidade do mesmo pelos professores. O stress é muito. Gasta-se dinheiro em explicações (quem pode), faz-se pesquisa na internet e descarregam-se textos de exames de anos anteriores. Muitos adolescentes perdem noites, têm pesadelos, distúrbios alimentares, roem as unhas, e por aí fora.

A par disto, os jovens que estão no 10º ano ou a terminar, no 12º, têm ainda uma pressão adicional. É que o mercado de trabalho está mau, as notícias sobre a crise fazem parte da banda sonora das suas curtas vidas deste sempre e há um discurso pessimista que é, parece, inevitável. Depois temos ainda aquela máxima que advoga que é importante ir para a faculdade. Há sempre uma alma que lá debita o cliché destes tempos: sem uma licenciatura não vais a lado algum. E o melhor, acrescenta a mesma alma, é fazeres já mestrado e, mesmo assim, nada está garantido.

Ora, a vivência de tudo isto nos nove meses em que dura o ano lectivo é, no mínimo, motivo de stress, de angústia e de grande dúvida. Muitos são os alunos que não sabem verdadeiramente o que fazer a seguir. Ah, existem os psicotécnicos, dirão. Sobre isso muito haveria a dizer, mas agora não vamos por aí.

Para perturbar mais ainda os alunos que estão no primeiro ano do secundário ou que são pré-universitários, a Fenprof e a Federação Nacional da Educação anunciam que os exames podem ter de ser adiados, os professores vão fazer greve (ou ameaçam apenas para fazer paragonas nos jornais?).

Com todo o respeito pelos professores, a pergunta é: não podiam pensar no que isto causa aos miúdos que estão a preparar-se para ir a exame? Ou não lhes ocorreu? O argumento que esta data chama mais a atenção para os problemas dos professores é, no mínimo, triste. E, se é forma de chantagem perante o Ministério da Educação, diria que não é motivo para prejudicar centenas e centenas de alunos que hoje se perguntam como é que isto vai ficar. Até dia 21 de Junho muita água correrá debaixo da ponte, já se sabe. Para os miúdos será apenas uma greve de nervos.

P.S: Acabo de ler que o governo tem como garantir os serviços mínimos de forma a não prejudicar os exames nacionais de dia 21 de Junho. Vou ali explicar isso a três adolescentes em stress, a ver se ficam melhor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Feminista e Cavalheiro

por Patrícia Reis, em 02.06.17

Haja esperança nos miúdos que estão prontos a ser homens, haja mães que assim os ensinam. A ser feministas e cavalheiros. Quer se queira ou não, lutar pela paridade é – e sempre foi – uma causa comum, não uma causa das mulheres.

 

A mãe explicava ao filho adolescente que para ser feminista não é preciso ser mulher. O miúdo, 15 ou 16 anos, algumas borbulhas, o mesmo corte de cabelo padronizado desta época, calças de ganga do sítio do costume e ténis de uma das três marcas mais afamadas, olhava para a mãe com aquele ar que só os filhos têm e que podemos traduzir assim: eu-até-te-dizia-que-estás-maluca-mas-vou-só-revirar-os-olhos-para-não-te-ouvir.

Tudo isto se passava num café, cinco e meia da tarde, o jovem com a mochila, a mãe com um ar de quem já subiu aos Himalaias três vezes. E a mãe disse: “Portanto, se queres que haja igualdade entre homens e mulheres tens de te esforçar por isso e, se acreditas que essa é a melhor situação, pois é feminista.” Bom, o miúdo lá revirou os olhos, mirou os ténis, espreitou o smartphone, suspirou, considerou várias coisas que não suspeito e manteve-se calado.

A mãe insistiu como só as mães insistem, é um mecanismo já instituído: as coisas importantes repetem-se para ver se entram na cabeças dos infantes. O miúdo anuiu e, por fim, disse: “Ok, e se eu for feminista, dás-me a semanada mais cedo?” Por breves instantes consegui imaginar com exactidão as várias formas de tortura que a mãe terá congeminado, mas tudo se reduziu a um encolher de ombros e, lançando a mão à mala tirou a carteira e deu-lhe dez euros.

O miúdo sorriu e percebeu que estava na altura de se retirarem, a mãe já de costas em direcção à porta. Apressou o passo, ultrapassou a mãe pela esquerda, estendeu o braço e, gentil, abriu a porta pesada de vidro para a mãe passar. E o miúdo exclamou sorridente: “Claro que eu sou um feminista e um tipo como deve ser.” A mãe riu-se e eu sorri.

Haja esperança nos miúdos que estão prontos a ser homens, haja mães que assim os ensinam. A ser feministas e cavalheiros. Quer se queira ou não, lutar pela paridade é – e sempre foi – uma causa comum, não uma causa das mulheres. Como se sabe, de pequenino se torce o pepino e, neste caso como em outros casos, importa que os valores inerentes ao feminismo sejam aprendidos em casa. Dirão que muitas famílias não cumprem os requisitos e estarão certíssimos. Mais uma razão para que outras famílias possam promover o feminismo como algo que – infelizmente – ainda faz sentido e precisa de adeptos no século XXI.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Temos medo

por Patrícia Reis, em 23.05.17

Temos medo. Podemos dizer que não temos, podemos tentar racionalizar, mas é um facto que o século XXI é o século do medo. Pelo menos até agora. Pode ser que mude, porém não vejo sinais de qualquer mudança, sinto apenas a escalada do medo. Aqueles pais, e Manchester, à espera de entender se o filho ou filha morreram é uma imagem que irá permanecer comigo durante muito tempo. Existem imagens hediondas que nos atingem todos os dias, mas o que se passou em Manchester não é um atentado como os outros. O público que assiste aos concertos da artista norte-americana Ariana Grande é jovem, muito jovem. A artista tem um concerto agendado para o Meo Arena e a pergunta que faço é: quantos pais vão repensar essa ida nocturna dos filhos a um concerto? E quantos perguntarão: um dia destes será em Lisboa, certo?

O medo é paralisante e será com isso que muitos movimentos terroristas contam. Não se sabe se o bombista suicida que se fez explodir em Manchester - matando (até ao momento) os 22 e ferindo 59 pessoas - era de algum grupo terrorista. O ataque não foi reivindicado. Uma coisa é certa, conseguiu entrar numa arena com capacidade para milhares de pessoas levando uma bomba que se supõe caseira. Não se sabe quem era, de onde vinha, o que fazia, em que acreditava.

Adonis, o poeta sírio tantas vezes indicado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, escreve no livro “Violência e Islão” que não é possível o Ocidente e o Islão chegarem a um entendimento enquanto os estados árabes não forem laicos. Afirma que a religião como forma organizadora da sociedade implica, no caso do Islão, violência por ser uma religião criada na violência. Nunca quis acreditar nesta versão, por ser demasiado redutora, por reflectir a vida do poeta, que admiro, mas que está condicionado pela sua experiência. Numa coisa, contudo, está absolutamente certo: o islamismo é a religião que mais cresce, é o que mostram os últimos estudos, e o Ocidente sente-se ameaçado pelo invisível. Os terroristas que se dizem islâmicos não têm uma agenda lógica, atingem onde menos se espera. Nada pior do que não conseguirmos prever. O mundo que temos para os nossos filhos, os nossos netos, não promete nada que seja fácil e não garante qualquer segurança. Sim, repito, temos medo. E temos razões para ter medo.

O medo rouba-nos a liberdade, promove a desconfiança, remete-nos para o que consideramos seguro. O conhecimento e a vida não se fazem sem riscos e essa é a maior vitória do terrorismo que, tantas vezes, diz ofender-se com o estilo de vida ocidental. Sem liberdade não conseguiremos evoluir como sociedade e os retrocessos ao nível dos valores serão inevitáveis, os direitos serão condicionados. Não é assim que queremos viver, bem sei. Seria bom promover o diálogo, mas quem é que quer falar com terroristas que matam crianças? Manchester é assustador por ser no nosso contexto, dentro do padrão normal do nosso comportamento. Outras crianças morrem. Todos os dias, na Síria por exemplo, a morte é o mais comum. Qual é a diferença? O que acontece num país tão distinto da nossa realidade é algo que nos comove pontualmente. Talvez por isso as nossas crianças sejam mais importantes que as crianças dos outros. Nada podia ser mais triste.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não se pode ter tudo

por Patrícia Reis, em 20.05.17

O tempo não estica. O tempo parece cada vez mais curto. O tempo é o mesmo mas gastamos cada vez mais em frente a um ecrã. Precisamos de sair da internet. Para ter vida e nessa vida ter também tempo para ler.

 

“O mercado está um desastre e é o mercado mundial”, quem o diz é um agente literário norte-americano. Portanto, o drama não é nacional. Ok. Não se consegue tirar qualquer consolo desta realidade.

“Não sei onde vamos parar”, suspirou-me uma editora da nossa praça. O que se passa? Os livros não vendem. Nenhum autor que tenha recebido direitos de autor este ano conseguirá sorrir.

Há excepções? Sim, é verdade, já se sabe que sim. Mas as excepções são isso mesmo, excepções. Capas com letras a dourado e indicação de best-seller do jornal estrangeiro A ou B já não surtem o mesmo efeito. É difícil vender livros, é difícil pensar carinhosamente na ideia de que um dia, quem sabe?, conseguiremos viver desse ofício solitário que é a escrita.

O mundo de hoje faz-se em frente ao ecrã, do smartphone, do computador ou tablet, e pouco mais importa. As redes sociais roubaram-nos o tempo para fazer muitas coisas, entre eles ter capacidade para sair para a rua e entrar numa livraria. Roubaram-nos concentração e os miúdos de hoje estudam com televisão, computador, consola, telemóvel. É a realidade deles. Talvez por isso alguns torçam o nariz quando têm de ler Camões ou, esforço suplementar!, Agustina Bessa-Luís.

Sem livros não há pensamento e sem pensamento não há civilização. Parece uma lapalissada banalzinha sem qualquer importância, mas não é. Não podemos achar normal que para entender "Os Maias" os miúdos do secundário se auxiliem somente de um livro de resumo da obra. Não podemos estar permanentemente ligados nas redes como se não existisse mais nada.

Neste país de escritores e poetas – e de enorme qualidade – vivemos um momento terrível: há mais escritores do que leitores. Pela parte que me toca, vou sair da internet e comprar um livro. Pergunte-se: há quanto tempo não faço o mesmo? Pois.

Até podia dizer que a feira do livro de Lisboa inaugura no dia 1 de Junho, contudo sei que é indiferente. No ano passado, em plena feira, uma criança pedia um livro, a choramingar, e o pai respondeu: “Nós viemos comer gelados. Não se pode ter tudo.” É isto. Não se pode ter tudo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

o que o desemprego mata em nós

por Patrícia Reis, em 15.05.17
Se a vida te dá limões, faz limonada. Pode parecer uma banalidade, mas serviu para dizer a uma amiga que tinha de andar para a frente. Acrescentei que o açúcar é o amor que tem à sua volta. Porque tem amor na sua vida e tomou sempre decisões em prol da família.
 

A minha amiga não tem 20 anos, está quase nos 40. É uma mulher inteligente, com curso, pós-graduações e outras valências. Saiu de Lisboa com a filha às costas por saber que já não tem idade para encontrar trabalho na grande cidade. Levou algum tempo a perceber isto, e foi à força de múltiplas desilusões antecedidas por cartas, envios de curriculum, entrevistas várias.

A empresa onde esteve faliu, fechou portas, deu-lhe os papéis para o fundo de desemprego, mas a minha amiga teimou que continuaria à procura de trabalho. Finalmente, como diz, caiu na real.

Sair de Lisboa podia ser melhor, tinha algum dinheiro de lado, a vida é mais barata, quem sabe se a sorte não lhe sorria lá para os lados da serra? Não sorriu.

A minha amiga conseguiu esta semana um emprego (ao fim de uns anos a bater às portas, a inventar). Vai passar recibo todos os meses, é um trabalho precário, sem regalias. Ela está contente por ter conseguido um trabalho. Vai receber 530 euros, mais coisa, menos coisa.

Ela está triste com o estado das coisas e com a sua vida. Acha que talvez não mereça mais, que talvez não seja competente em nada apesar de ter um curriculum que indica o contrário.

O desemprego mata a auto estima. A minha amiga, como tantos outros, merecia mais e melhor. Está farta de beber limonada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Paulo Mendes Pinto directo de Fátima

por Patrícia Reis, em 12.05.17

https://www.publico.pt/2017/05/12/culturaipsilon/noticia/o-circo-mediatico-em-fatima-1771948

 

O circo mediático, as televisões, os crentes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Quase que chorou

por Patrícia Reis, em 10.05.17

A minha avó ligou ao meu filho para saber coisas sobre o real e o atlético, não percebi nada da conversa. Depois ele mandou beijos, despediram-se e continuou a falar do Salvador Sobral e eu pensei: há meses e meses que temos o disco, tem de o ouvir. E ele disse: "Quando o vi hoje quase que chorei, é o novo Éder". Não preciso de sugerir que vá ouvir o disco, parece-me.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

 

Ser mãe é ter vários corações que não se controlam. Cuidamos, perdemos o sono, sentimos uma alegria imensa, morremos de aflição. Em pequenos tentamos perceber quem são, mas é muito cedo que os filhos nos conhecem como conhecem a palma da mão, porque os adultos são previsíveis, repetem-se muito e esta fatalidade é letal quando se chega à adolescência.

Já o escrevi muitas vezes, a adolescência é a fase mais triste da vida de uma mãe. Há uma guerrilha permanente, a comunicação falha – falar com um adolescente é o mesmo que dar banho a um peixe -, alguém encolhe os ombros, revira os olhos, o espelho de quem fomos na nossa adolescência.

E uma mãe tem e não tem memória do que foi. Diz “no meu tempo” quando é favorável, mas tende a esquecer-se do que fez, do que disse, quem foi na adolescência.

A guerrilha dura uma época e, de repente, parece quase esfumar-se.

Muitas vezes, a reaproximação faz-se mais tarde e surgem os sentimentos justos de frustração: o meu filho já não quer saber de mim. Ora, os filhos têm de ir à sua vida, como as mães antes de serem mães também optaram por fazer. É a vida que o exige, são os tempos, é o mais saudável.

A família funciona para muitos como um fantasma permanente e nem sempre simpático. A mãe tem de se despedir da função de ser mãe a tempo inteiro (sim, até uma mãe a trabalhar permanece mãe todos os minutos do dia). Não se desliga dos filhos anos e anos a fio e, de repente, parece que é obrigatório o dar espaço, o gerir do silêncio.

Quem faz dos filhos o seu projecto de vida atravessa então um momento de redefinição que nem sempre é feliz. Quem sou eu depois de ser mãe? Não é que exista uma total perda de identidade, mas corremos o risco de nos perder nos mil e um afazeres da educação e do amor.

Custa perceber que os filhos já não precisam tanto de nós; dói quando há informação que não partilharam connosco, quem sabe se emoções, os momentos menos felizes.

Nunca se deixa de ser mãe e, fatalmente numa sociedade marcada pela palavra tremenda que é a “culpa”, nunca deixamos de pensar no que falhámos, como falhámos.

Depois a montanha russa da vida dá um piparote e os filhos regressam com aflições sobre os próprios filhos, deixam-se estar mais tempo, fazem confidências, precisam de colo. E há outra mudança na relação, volta-se a um estado de compreensão e a partilha faz-se de uma outra maneira.

Ser mãe é um estado feliz, é um estado de alerta, é querer que os filhos nos superem, sejam mais e melhores do que somos. Quando se consegue vislumbrar o sucesso dos filhos no seu comportamento, na sua vida, temos de sorrir.

São sempre os nossos meninos, o nosso coração fora do corpo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Crónicas

por Patrícia Reis, em 25.04.17

Olhar para Portugal e manter esse tesouro “inicial inteiro e limpo” por ser urgente ainda agora a Liberdade, uma outra forma de Liberdade ou várias liberdades. Como se a luta pelo melhor fosse infinita e, por isso, o que foi ontem ainda é hoje e podemos construir sempre mais e melhor.

Foi ontem a madrugada pela qual tantos esperaram. Foi ontem que as conversas em sussurro vieram para a rua em clamor, sem receios ou olhares de soslaio.

Foi ontem que capitães juntaram os homens para mudar o estado das coisas.

Foi ontem que Paulo de Carvalho cantou E Depois do Adeus de José Niza e José Calvário.

Foi ontem que as mulheres passaram a conseguir sair do país sem precisar de autorização do pai ou do marido.

Foi ontem que o poema de Sophia tatuou para sempre o que todos sentiam.

 

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio 

E livres habitamos a substância do tempo (*)

 

Foi ontem que a senhora dos cravos nos deu esse símbolo, mesmo que a história tenha várias versões.

Foi ontem que os estabelecimentos prisionais se abriram para deixar livre quem nunca deveria ter sido preso.

Foi ontem que se cantou Liberdade com a convicção de que o futuro seria melhor, seria nosso.

Foi ontem e foi agora mesmo, porque importa recordar o 25 de Abril, o que nos uniu, a razão para a luta.

*Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D