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Cortar os pulsos

por Patrícia Reis, em 24.09.17

Viver numa aldeia às portas de Lisboa durante o verão é bom. Fugir para uma aldeia às portas de Lisboa num fim de semana de inverno é bom. O pior mesmo é ir e vir todos os dias para uma aldeia às portas de Lisboa.

 

Por razões que agora não interessam para nada, vim viver para uma aldeia, na margem sul, a 40 minutos de Lisboa. Não vim de férias, nada disso, vim para estar e viver até Lisboa me ter de volta, que é como quem diz, até voltar a ter casa digna desse nome.

Eu nasci em Lisboa, sempre vivi em Lisboa e, como todas as pessoas das grandes cidades, tenho da aldeia a ideia idílica que me ajuda a pensar que, um dia, sabe-se lá quando, vou conseguir reformar-me (só esta afirmação dá logo vontade de rir) e viver num sítio mais tranquilo.

Estou na aldeia e a cortar os pulsos.

Sim, adoro aqui estar no pique do verão, quando a animação é mais que muita – numa única rua temos dois bares e um salão de jogos, é uma festa –, quando o peixe ainda chega vivo à peixaria, as pessoas acotovelam-se para comer gelados e temos um território bem demarcado na praia do costume.

Ou então, em pleno inverno, de lareira acesa, sem sair de casa, vivendo na ilusão de que o descanso se pode fazer num único fim de semana.

Tudo isso está muito bem, mas experimentem ter de passar a ponte (25 de Abril ou Vasco da Gama) todos os dias. Façam contas: quilómetros de gasolina, portagens, minutos perdidos no pára-arranca.

Sim, estou a queixar-me e algum de vós estará a pensar por que carga de água é que não vais de transportes públicos, certo? Pois, quem tem uma vida profissional como a minha dificilmente se adapta aos transportes públicos, porque às dez da manhã é preciso estar em Queluz, às duas da tarde no Saldanha e às quatro em Cascais.

Não será todos os dias, mas a verdade é que ando de um lado para o outro como os pombos andam por aí a conspurcar estátuas. Não tenho onde pousar verdadeiramente, não tenho um emprego das nove às seis. Portanto, a única solução é esta: ir e vir. E o que é agradável e quase consolador nas férias é agora uma tortura. A mercearia está fechada por estes dias. A gasolina acabou? Bom, talvez a bomba a três quilómetros de distância esteja aberta. Não sabes como atinar com o forno a gás ou ficaste sem gás? Respira fundo.

Depois deste desabafo, posso dizer que existem coisas boas: o café onde nos tratam como se fossemos realeza, o restaurante maravilhoso dos amigos que se mantém aberto já em modo fim de verão, a tabacaria onde os jornais podem ser guardados para quem ainda lê jornais em papel (eu!), o silêncio imprescindível, e quase estranho, dos carros que não passam, dos autocarros que não travam. Enfim. Por estes dias, viver na aldeia e trabalhar em Lisboa é um sacrifício. E ainda não fez um mês que aqui estou. Já disse que estou a cortar os pulsos?

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Para acabar de vez com a democracia

por Patrícia Reis, em 16.09.17

Em vésperas de eleições é muito fixe conspirar e mandar bitaites como se isto fosse, o que parece ser tantas vezes, a República das Bananas.

 

Eu tenho amigos de direita. Tenho um filho de direita. Não tenho nada contra quem segue esta linha política, mas tenho tudo contra a politiquice da treta. Temos para todos os gostos: se o/a candidato/a comprou uma casa é por ter comprado uma casa; se o/a candidato/a sabe fazer contas é por sabe fazer contas; e por aí fora.

Mas também temos este registo à esquerda. Não tenho a menor paciência para o argumento de que alguém não tem como governar uma cidade por não saber quanto custa um bilhete de metro (que não é uma empresa municipal, a última vez que verifiquei, e existem múltiplos tarifários).

Ataques e mais ataques, sem grande mérito para quem os começa, sem grande mérito para quem os decide combater. Na verdade, trata-se da canseira habitual em vésperas de eleições e que tem o condão de comover muito pouco o eleitor que estará entretido com o último reality show ou com a bola (talvez possamos inverter isto, porque a bola é evidentemente quem mais ordena).

Portanto, grande parte do debate político é entre políticos e os políticos, já se sabe, alimentam-se disto como os pombos no Chiado se alimentam de qualquer coisa que caía das mãos dos turistas ou dos locais.

Ideias? Ouço nos debates entre candidatos que existem ideias e estratégias, mas não há – quase nunca – um esmiuçar das mesmas. Para ver se eu, e qualquer outro eleitor, concordamos com as mesmas, e se apostamos no senhor ou senhora A por ter um plano com o qual possamos concordar. Não, nada disso. Temos umas coisas a que chamamos debates, temos os habituais com engajamento político e com palas nos olhos e pouco ou nada passa disto.

Acresce ainda que a direita tem feito um pobre serviço à democracia, por não ter candidatos que sejam – vá, vou ser querida e fofa - carismáticos. Não, a direita tem candidatos que são “mais ou menos”, são os “possíveis”, o que é preocupante porque fragiliza o processo democrático e a possibilidade de qualquer debate. Como o primeiro-ministro carrega no bolso das calças as duas esquerdas que podiam fazer alguma oposição, o cidadão que seja como eu, esperaria da direita mais política e menos politiquice. Não acontece.

O que é mesmo bom é fazer alvo aos patos, tiro para aqui, para acolá e a grande máquina do mais-do-mesmo vai rolando.

A minha fé na política é cada vez menor e, tenho cá para mim, estou cada vez menos sozinha nesta convicção. Por outro lado, espanta-me que existam pessoas que ainda queiram servir o país ou exercer qualquer tipo de serviço público, porque o escrutínio é absurdo, a maldade e a deficiência de alguns jornalistas é crónica e, por fim, nem sequer é bem pago.

Talvez eu esteja errada, pode sempre acontecer, mas temo muito pelo futuro da nossa democracia que, afinal, ainda nem tem 50 anos.

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Mulheres escritoras do mundo: uni-vos

por Patrícia Reis, em 01.09.17

São as mulheres que mais compram livros. São as escritoras mulheres que menos traduzidas - e editadas - são. Um contra-senso ou nem por isso.

 

De acordo com um estudo da Universidade de Rochester nos Estados Unidos da América, as traduções do mundo literário para a língua inglesa – essa que pode fazer toda a diferença entre ser ou não ser um(a) escritor(a) de renome internacional – são mais um universo de disparidade: apenas 28 por cento de livros escritos por mulheres é que chegam à tradução para a língua universal dos dias de hoje. Vou dizer outra vez: três por cento.

Uma carreira literária é duplamente difícil para uma mulher, já que o mercado está saturado e é difícil arranjar uma editora digna desse nome e, cereja no topo do enorme bolo!, uma mulher vende menos. Não sei de nenhuma estatística que possa provar esta afirmação de que as autoras vendem menos do que os autores, mas parece-me uma presunção certeira já que se publicam mais homens do que mulheres.

Quem compra livros? Isso está estudado: quem mais compra são as mulheres. Se apenas 28 por cento da literatura escrita por mulheres é traduzida, fazer uma carreira internacional é quase um achado e assim se compreende que Agustina Bessa-Luís, para dar apenas um exemplo, não cause furor além fronteiras. Não, não podem invocar a portugalidade e as derivações, característica de Agustina, porque, nesse caso, tenho para contrapor Saramago, Lobo Antunes e tutti quanti que escrevem ou escreveram sobre a vidinha por estas paragens. Lemos Jane Austen e será sobre a condição humana, sobre sentimentos transversais à humanidade ou sobre a sua época? Talvez tudo junto. Há mais exemplos, mas como para bom entendedor um ou outro chega, pois sigamos em frente que é preciso.

A possibilidade de internacionalização é pouca, e o mesmo se passa com idas ao estrangeiro, basta ver as comitivas para festivais e afins. Parece que as mulheres não gostam muito de se deslocar e quem organiza festivais tem dificuldade em ter mais mulheres. Contra mim falo que, caso exista um convite, sou muito rápida a declinar, com honrosas excepções. Porquê? Porque não tenho, como sugeriu Virgina Woolf, um quarto só para mim, a minha vida é como a de tantas outras mulheres, e, entre os mil afazeres, ainda telefono à minha mãe todos os dias.

O resto podem imaginar, entre emprego, filhos e roupa, o espaço mental que tenho para escrever é diminuto, o físico é relativo e a capacidade de mandar tudo às urtigas e ir ao estrangeiro – ou mesmo só ao sul do país – para falar sobre o que ando a escrever há mais de uma década é nula. Queixo-me e não me queixo desta situação, da miragem das traduções, de ver os livros bem expostos (mesmo aqueles que têm anos), enfim, de uma carreira literária que, para todos os efeitos, nunca o será.

Em Portugal, temos por hábito pensar que a desgraça e a frustração tem um cunho lusitano. Três por cento das escritoras do mundo conseguem ser traduzidas. Estou, por isso, muito acompanhada nesta solidão.

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erotismo 0 - tecnologia 2

por Patrícia Reis, em 21.08.17

Há uns anos, Agustina Bessa-Luís revelou, numa crónica de jornal, que nada é mais anti-erótico do que a praia, a praia onde metade do país se encontra de momento. Também escreveu, numa outra circunstância, que uma mulher para parecer inteligente só precisa de usar um vestido preto e ficar calada. É uma ironia, e é uma verdade, se considerarmos o quadro mental. Mas não vamos por aí.

 

O calor faz-se sentir e eis-nos na praia, esse cenário de tristes paisagens em que estamos no nosso melhor ou nosso pior. O tal anti-erotismo prevalece.

À minha volta, no fim de semana de dolce fare niente, vejo famílias ruidosas, os gestos do costume - "Pedro, vem aqui já, não te chamo outra vez"; "Maria, tens de meter protector", "Tens sandes, come uma sandes, já comeste um gelado" - e um outro que é perturbador, embora comum e, portanto, expectável: poucos livros protegidos por leitores ávidos de uma boa história (eu terminei o romance de Paul Auster, 4,3,2,1, que recomendo, embora possa compreender que o número de páginas assuste os menos experientes), jornais por ler encostados a mochilas e sacolas da moda e, pois claro, muitos telemóveis a emitir a luz da salvação e eternidade.

Para quê falarmos se posso estar no Facebook? Recordo-me das grandes conversas na praia, jovens em bando, partilhando histórias, reclamando levemente do horror que foi a escola, sem querer falar disso; piscadelas, início de namoros, jogos e cartas. A sedução fazia parte do verão e o tal anti-erotismo de Agustina ainda não me tinha assaltado como uma verdade fatal, ou seja, não tinha dois filhos, não passara a barreira dos 45 anos de idade.

Tudo era uma festa e conhecer pessoas novas uma promessa de verão que se cumpria religiosamente, alguém que trazia uma prima que vivia no interior do país; um melhor amigo de há dois meses.

Agora, depois de pousar o livro, de ter lido os jornais e as revistas, a esconder-me na sombra desde as onze da manhã - aguentando heroicamente até às seis da tarde por amor, e só mesmo por amor -, eis que percebo que não são apenas os corpos que se degradam com o tempo. É o tempo que nos traz a tecnologia para dentro da vida, mesmo com água e areia, e não há espaço para conversas.

Foi-se a sedução. Não há nenhum bando na praia de adolescentes à espera de crescer mais em dois meses do que em um ano lectivo intenso: há telemóveis para todos os gostos. E, sim, corpos massacrados por essa realidade básica: com a idade vem o peso e cada quilo traz uma família inteira com ele, avó, tia, primo, e custa muito mais a perder esses excessos, ocupantes indesejados.

Porque não lemos, não conversamos, não andamos em grupo, mas, caramba, temos de comer uma bola de berlim.

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Eles têm as costas largas

por Patrícia Reis, em 02.08.17

As generalizações são tramadas, mas — tendo consciência ou nem por isso — mantemos essa necessidade de assumir o rótulo, de catalogar, de definir em bando para concluirmos coisas, em teoria, pertinentes e que devem algo à inteligência.

 

Os portugueses assumiram há muito tempo que existe essa figura de papão que os trama e designam o mesmo bicho mau e careca de uma forma quase incolor: eles.

Eles comem tudo e não deixam nada, pois lá diz a canção. O drama é que o Eles — vamos colocar em maiúscula para lhes dar um pouco mais de corpo, solidez, pertinência — não existem enquanto criaturas reais que tomam decisões. São apenas os que prejudicam, os que nos tiram os dias de sol, os que falharam, os que podiam ter feito melhor, mas  que não fizeram porque nunca fazem. Quase como uma versão castigadora da professora de matemática que prolonga o tempo de aula para massacrar os alunos que anseiam pela aula de português. Ou como uma entidade que procura vingar-se da Humanidade e que tem um desígnio maléfico que nos inflige um fado que, afinal, é apenas um fardo.

Seja qual for a metáfora usada, uma coisa é certa: a culpa é toda Deles. E Eles não se acusam, por não ser nomeados, e quando o são, já se sabe, estão no governo ou no partido A ou B.

Prezamos a democracia, já cá andamos há uns anos e sabemos que é  infinitamente melhor do que tínhamos antes da revolução dos cravos em 1974, mas será que ainda sabemos apreciar o sabor dessa democracia e a valorizar a importância do debate público?

Ah, Eles tratam, mesmo mal, resolvem, pensam e fazem com que a máquina se tenha instalado, criado raízes e se mantenha no seu movimento perpétuo. Ora, Eles, sejam lá quem forem, podem muito, têm as costas largas e não se importam com as críticas.

Alguns fazem parte dessa massa anónima do Eles há tanto tempo que encaram as críticas com a placidez com que algumas pessoas vivem uma hora de boca aberta para desvitalizar um dente. Não se importam nada com as críticas, as queixas, os comentários de fel nas redes sociais, os factos, isto ou aquilo. E estão instalados a ver a paisagem e a dormir sossegados porque são Eles e sendo Eles não são como Nós, os deste lado que, apesar da queixa, não queremos ir para ali.

Eu, para a política? Eu, ter de votar? Eu, ter de perceber a função exacta de um vereador, deputado, ministro? Eles comem tudo e não deixam nada, têm o poder.

O Nós não entendeu ainda que Eles têm o poder por lhes ter sido dada essa oportunidade. Ninguém quer fazer parte do Eles.

A fragilidade da democracia é a maior falha do Nós que, assobiando e cuscando o vizinho para o maldizer, está muito entretido a olhar para o seu umbigo em detrimento do Outro. O Outro é o bem comum. Nem Eles, nem Nós percebemos isso.

Por isto, e mais umas tantas coisas, vem aí a silly season e teme-se o pior. Ou então sou eu que estou especialmente pessimista. A culpa é Deles.

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a forma mais preguiçosa de ver o mundo

por Patrícia Reis, em 27.07.17

Esquerda, direita, volver. Ou porque é tão difícil abrir a discussão pública a novas pessoas, novas ideias, diferentes formas de pensar.

 

Dividir o mundo entre a esquerda e a direita é a forma mais cómoda de se viver, a mais preguiçosa e também a menos interessante. Mas é assim que vivemos. Na dicotomia que faz com que tudo tenha esta divisão categórica. Olhamos para os intervenientes em qualquer programa de televisão ou de rádio e lá estão os senhores mais assim, os senhores mais assado (escrevo senhores porque, objectivamente, as senhoras não aparecem com tanta frequência). O que muda em termos de pensamento? Nada. Existe uma agenda e um pensamento condicionado, logo é bastante previsível o que vai ser dito, ou dado a ouvir para que o público em geral possa processar e pensar.

Olhar para o mundo através deste binóculo bipolar parece-me redutor. Dirão que existem várias esquerdas e outras tantas direitas, clivagens, diferenças, actualizações, que existe um centro e os liberais e talvez, porque não?, neo liberais, e tal. Pois seja. Nasci antes da revolução, poucos anos antes, sou, por isso, também produto das conquistas de Abril. Cresci em democracia e, passados mais de 40 anos, pasmo com realidades que limitam a possibilidade de se pensar o mundo de uma forma que não seja partidarizada. E estou um pouco cansada de mais do mesmo, que é como quem diz dos comentários dos agentes informadores mais assim, ou mais assado.

Temos poucos académicos a escrever nos jornais, a falar na televisão. Temos uma mão cheia de politólogos, mas deixámos de ter historiadores, sociólogos, filósofos em contacto com o grande público. O que temos? Mais do mesmo. Os senhores do costume. Há décadas.

Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente que fez campanha sem outdoors, manifestações e outras acções típicas de uma campanha presidencial, esteve anos e anos a entrar pela casa das pessoas através da televisão. O poder que tem a pequena caixa que mudou o mundo é real e contribui para muito. Não sei se, em Portugal, nesta altura do campeonato, contribui para se pensar o país, o mundo, as questões que afectam as pessoas. O que importa é equilibrar as intervenções entre os agentes de esquerda e os da direita.

Nos jornais, durante muito tempo, os escritores – que pensam o estado do mundo e são uma forma de consciência do seu tempo – escreviam crónicas, eram chamados a apresentar ideias. Hoje, são raros os escritores que se envolvem nas matérias sociais. Não por não quererem, simplesmente por não terem esse espaço. Tudo o que envolve a sociedade é político e, portanto, é evidente que tudo se passa à volta da esquerda e da direita? Sim, tudo o que envolve a polis é político, todos nós temos gestos e discursos que formam uma ideia política, mas não precisa de estar engajada numa agenda de partido que, para tornar as coisas ainda mais pobres, resulta em “picar” os potenciais adversário e outras variantes pouco dignificantes.

Disseram-me, há uns meses, que não se pode deixar de ir buscar para intervir nas televisões, rádios e jornais pessoas cujo reconhecimento é imediato. Todas elas eram desconhecidas numa determinada fase da vida, certo? Certo. Portanto, podemos apostar em pessoas cujo discurso é diferente e que ninguém conhece. Ah, as audiências sofrem com isso, com o facto de ninguém saber quem é o académico que vem explicar coisas importantes, digamos, sobre o Islão. A solução é colocar alguém cujo rosto se multiplica em vários cantos da comunicação social, tornando-o um agente de comunicação. E, mesmo que não saiba nada sobre o Islão – que perspectiva de direita, que perspectiva de esquerda, pode existir nesta matéria não sei dizer, mas que importa muito que se saiba mais sobre o Islão não tenho a menor dúvida -, pois alguma coisa se arranjará para pontificar e fazer o contraponto, ou seja, o descascar no vizinho do lado, à esquerda, ou à direita. Do outro lado do ecrã, alguém irá dizer: este tipo é de direita/esquerda.

Perde-se muito quando se divide a realidade apenas desta forma e, acima de tudo, perde-se a possibilidade de abrir horizontes, de aprender, de formular ou reformular pensamento. E, caramba, precisamos tanto de pessoas que pensem bem, diferente, que nos empurrem para lugares melhores. Não dará audiências, mas talvez contribuísse para dar a volta ao estado do país.

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blogue da semana

por Patrícia Reis, em 23.07.17

Os dez melhores blogues do ano é uma competição que acompanho com gosto, sobretudo por perceber que existem muitas pessoas por aí no universo dos blogues a escrever bem e sobre temas diversos. Este ano, fui descobrir por fim o vencedor do prémio Melhor Blogue de Viagens Profissional nos Blogger Travel Awards 2015. Sim, já sei, estou atrasada dois anos, mas é a minha vidinha, que não sendo fácil, é animada. Filipe Morato Gomes assina este blogue, “uma espécie de viajante profissional”. Pareceu-me perfeito para mergulhar numa sexta-feira à tarde e assim fiz. Descobri várias coisas interessantes, relatos de viagem, experiências diversas, algumas dicas, listas de hotéis. Acima de tudo, proporcionou-me sonhar, já que viajar faz parte das minhas prioridades (tantas vezes adiadas!). Filipe Morato Gomes tem a felicidade de andar de um lado para o outro (já deu duas voltas ao mundo), escrever sobre isso e manter um blogue com pinta. Como tudo na vida é difícil e é preciso pagar contas, o blogue tem uma característica comercial: se quiser programar uma saída do país diferente, uma aventura, pois pode entrar em contacto com este viajante, nascido no norte do país, e combinar aquela viagem de sonho. Não se pode pedir mais nada, pois não? Verifiquem tudo em

http://www.fmgomes.com/ e façam as malas.

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welcome to my life

por Patrícia Reis, em 21.07.17

Cheguei de Itália - a belíssima - há uma semana. Já não me lembro de ter ficado de papo para o ar sem fazer nada, mirando vagamente as vinhas da Toscana ou espreitando a gente pelas praias de Roma. Sim, tenho problemas graves de memória, está visto. Acontece que desde que cheguei aconteceu tudo, ou quase tudo, do autoclismo que avariou, ao carro que não tinha gasolina nem óleo (pânico!), a textos que eram para ser mas depois não foram, a sessões de terapia individual, de grupo, no espelho e apenas para mim mesma, idas à província, vários livros à espera, sessões de fotografia, objectos estranhos e alguém à minha frente a dizer: gosto de comer. Há ainda toda a cena bizarra da inscrição do meu filho mais novo na faculdade (inscreveu-se, por esta ordem, em filosofia, ciências da comunicação e sociologia, todos os cursos na universidade Nova), ou dos cães que precisavam de ser vacinados, mas afinal não. O meu filho mais velho acredita que eu não percebi a mensagem (não perguntem, é demasiado), e a minha mãe diz que há pessoas que morrem com menos stress. Hoje é sexta-feira. Dizem-me que há vitaminas fixes, mas não fui à farmácia, fui à dentista que é um fado só meu e permanente. Ah, Itália? Foi maravilhoso.

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É uma ilusão que alimentamos há mil anos: somos um país integrador, com boa vontade, tolerância e outros predicados de correcção extrema. Somos bonzinhos. Conquistámos o mundo, uma boa parte do mundo, e, nos tempos de glória, não fomos tão maus quanto... Eis o busílis: a comparação.

Nunca somos tão maus quanto A ou B, outros povos, outros colonizadores, outros intolerantes, racistas, xenófobos. Mas não é suficiente. Não temos no parlamento representação de outras etnias que, é bom que se entenda de vez, não têm se ser integradas na sociedade portuguesa, fazem parte da sociedade portuguesa.

Não se trata de dar lugar aos recém chegados. As comunidades africanas a residir em Portugal estão por cá há tempo suficiente para terem um lugar em funções de representatividade, nos órgãos de comunicação social (creio que temos, salvo erro, apenas uma pivot de origem africana e numa estação de televisão privada), na política, enfim, em todos os sectores da vida pública.

Em muitos casos, vivemos num gueto, tal como é a Cova da Moura. Será difícil ignorar ou desvalorizar os acontecimentos de discriminação e violência por parte dos 18 polícias da esquadra de Alfragide, na Amadora, acusados pelo Ministério Público de crimes diversos. Um dos polícias é acusado de cerca de 20 crimes. Os relatos são medonhos e não podemos simplesmente fingir que não sabemos, ou que o racismo não existe, que o índice de violência não é brutal.

O meu marido, nascido em Angola, não tem a cor certa para este mundo de falsos brandos costumes. Os meus filhos sofreram várias agressões verbais por causa da cor de pele do padrasto. Ainda hoje, com mais de uma década de casamento, há quem olhe, há quem comente, há quem não consiga conter um esgar. Já ouvi frases como “coitadinha, ela é tão branquinha”. O meu marido lida bem com isto. Eu, tenho os meus dias.

Aprendemos a ignorar, mas não nos surpreendemos com relatos de violência física ou verbal. Triste? Sim, mas não é apenas isso. É um retrocesso crescente ao nível civilizacional, dirão alguns. Também não é verdade. Nunca fomos um país isento de racismo, logo a ideia de retrocesso é relativa. Deveríamos denunciar mais? Sim. Mas importa perceber o medo e a ideia de inutilidade de denúncia, por existirem muitos casos em que as vítimas encolhem os ombros e dizem: "não queremos mais chatices".

Dos 18 polícias acusados - finalmente uma acusação real e adequada – podemos esperar que se faça justiça? Infelizmente, não tenho fé na justiça portuguesa, ou melhor, tenho tanto quanto nos bons e brancos costumes nacionais.

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eles não sabem, nós também não

por Patrícia Reis, em 14.07.17

Mais uma semana de exames, desta vez com a publicação das notas. Mais uma semana de ansiedades e de incertezas. para pais e filhos.

 

E saíram as notas dos exames. Os miúdos atropelavam-se para chegar às pautas, um burburinho nervoso persistia e alguns pais esperavam com ansiedade, braços cruzados, atentos. Os telemóveis memorizaram as notas. Os rostos dos finalistas do 12º, nas diferentes áreas, são uma palete confusa que abrange a totalidade do espectro emocional. Há riso, choro, aflição, mutismo, mãos a arrepelar cabelos.

Os jovens com a alegria conquistada pela visão da pauta agrupam-se naturalmente. Os menos felizes encolhem-se, o corpo em curvatura. Os rapazes contêm-se, as raparigas começam no frenesim de perceber a média, faz contas, corrige, liga à mãe que não está presente. Há duas miúdas que discutem se têm de se inscrever já para a segunda fase dos exames, ambas com 10 a História. Não sabem o que fazer. Uma delas pergunta: "Mas tu já sabes o que vais fazer? Que média precisas para entrar na faculdade?" E a resposta chega veloz: "Não sei. Não faço ideia. Talvez eu não devesse ir para a faculdade, mas a minha mãe..."

Afasto-me deste cenário com o coração apertado por todos os que ali ficaram contristados com os resultados. Sei de quem tenha pago explicações caríssimas e tenha de enfrentar a realidade: o filho traz notas negativas a ambos os exames. Sei de quem não quer pensar mais no assunto.

Vou com as boas notas do meu filho mais novo pela rua e penso que ele também não faz ideia do que será o futuro. Há uns anos, ainda criança, o mais velho sentenciou que o futuro é um país lá longe. E agora que parece mais próximo, mais assustador, não é possível ter a certeza de que estejamos a ser correctos.

 

Pressionamos os miúdos para decidirem? Escolham um curso, sff, depois logo se vê? Valerá a pena ficar a morder o lábio de nervosismo perante a decisão que diz: não quero ir para a faculdade? Ser pai não é ter um livro de receitas certas, nem garantias de eficácia como os pequenos electrodomésticos que por aí se vendem.

Ser pai é complicado. Ser filho é igualmente complicado.

Num mercado cada vez mais exigente, acreditamos que uma licenciatura é uma ferramenta básica e lutamos para que os nossos filhos adiram com empenho e alegria. Não saber o que se quer fazer é paralisante e, ao mesmo tempo, frustrante. Mas pior será pensar que estamos a depositar nos nossos jovens todas as esperanças de um mundo melhor, sabendo de antemão que o que importa verdadeiramente é encontrar algo de que se goste. A paixão importa.

Para muitos miúdos, esses que estudaram aqui por casa para os exames nacionais, o que parece ser mais urgente é "ter um emprego". Eu vou dizendo que o mais importante é fazerem algo de que gostem, algo que possa proporcionar conhecimento, mas também uma gratificação pessoal.

Levo as boas notas do meu filho para casa e sei que ele se inscreverá na faculdade sem saber nada do futuro. Eu sou mãe dele e também não tenho o direito de saber do futuro dele. Será uma presunção muito grande continuar a decidir o que quer ou não quer, o que deve e o que não deve. Ou não será?

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estes senhores não viajam separados

por Patrícia Reis, em 08.07.17

Comunicar é muito mais do que falar ou ouvir. Comunicar é tornar comum, o que implica esforço, atenção, proximidade e sobretudo interesse pelos outros. No aeroporto, há uns dias, um grupo de surdos mudos embarcava para Itália. Na algazarra típica dos aeroportos, chamadas para o voo internacional XPTO, viam-se pessoas a atropelar pessoas com trolleys desajeitados, crianças a dormir, ou a ser simplesmente crianças, este grupo de pessoas - a maioria adultos, dois casais de meia idade, dois adolescentes - manteve-se perto. E na sua Língua Gestual, formando uma roda, conversava e ria. Conversar, usando a Língua Gestual, implica também a capacidade de observar o outro. Na expressão facial, no corpo que se movimenta. Na semana passada, a propósito do concerto no Meo Arena de solidariedade para com as vítimas do incêndio de Pedrogão Grande, pudemos assistir, naquele quadrado no canto inferior direito, a uma tradução para Língua Gestual que assumia o ritmo, a música, o entusiasmo. E a dança do corpo e das mãos era simplesmente maravilhosa de ver. No aeroporto o que mais me comoveu foi perceber que o casal mais velho, mais de 65 anos, não precisa de muito para comunicar, como se os olhos dissessem tudo. Aquela mulher e aquele homem conhecem-se dentro de uma espécie de silêncio que obriga ao reconhecimento permanente do outro. Não se deixam de olhar por um segundo. Não precisam mais do que esboçar algum gesto. Sabem. Conhecem-se. De todos os casais que conheci ao longo da vida, nunca vi nenhum com aquele nível de intimidade. Dentro do avião, impossibilitados de ouvir os diferentes anúncios sonoros e com tripulação estrangeira (era um avião de uma abençoada companhia low cost) incapaz de os entender, o casal é separado. A senhora para a fila vinte e tal, o senhor deve ficar na fila quatro. Não é possível não ouvir estes pormenores, a hospedeira fala em inglês com sotaque italiano e fala alto. Talvez porque os senhores sejam surdos mudos, o que é ridículo. O senhor recusa sentar-se e tenta, sempre com um sorriso, explicar, aponta para a mulher, para a aliança, para o lugar ao lado. São salvos por um técnico português que fazia um controle qualquer ao avião e estava pronto para sair. O técnico vai ao fundo do corredor do avião, traz a senhora, pede licença ao senhor do lado e explica que é preciso trocar de lugar, "estes senhores não viajam separados". Pareceu-me justa está frase. O casal sentou-se por fim, fila quatro, lugares A e B. Deram as mãos.

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saber viver custa muito

por Patrícia Reis, em 01.07.17

Numa sociedade a sofrer de ansiedade, palpitante, impulsiva, temos cada vez mais dificuldade em viver bem. O que é viver bem?

 

Aprendi há algum tempo que existe uma máxima que me permite conquistar alguma tranquilidade: se tem solução é um problema; se não tem solução, pois siga, andemos para a frente. Podemos ficar a congeminar em muita coisa, construir cenários, projectar o que teríamos dito a A ou B se tivesse havido tempo, ou agilidade mental, naquele momento específico. Tudo isto é uma enorme tanga, já se sabe, o tempo não volta para trás, não conseguimos repor a verdade.

Ficamos agarrados a muitos preconceitos e somos minados de tal forma que o nosso quadro mental revolta-se e esquece o bom senso. Dentro do bom senso está a nossa capacidade de parar e reflectir. Como o avô de um amigo que dizia que antes de comprar qualquer coisa precisava de um período de reflexão. Só partia efectivamente para a comprar depois de perceber se esse objecto de desejo espontâneo fazia mesmo falta.

Parar permite também escolher. E torna-se mais fácil perceber quem são as nossas pessoas. Nem todas as pessoas fazem parte do nosso clã. Sim, convivemos, mas existem pessoas que nos pertencem, com quem temos afinidades, projectos, possibilidades de crescer, de partilhar. As outras não são da nossa equipa, vestem um equipamento distinto, fazem juízos e validações que nos são incompreensíveis. Até aqui, tudo bem. Não temos de gostar de todas as pessoas; nem todas as pessoas têm de gostar de nós.

O maior drama de tudo é quando nos deparamos com uma das características nacionais mais danosas: a inveja. Podemos utilizar o cliché e dizer que a inveja mata. Enquanto mata por dentro os invejosos(as), atinge de forma extrema o alvo da inveja. E, em vez de termos armas para combater que assentem na seriedade e intelecto, ficamos estarrecidos a ver como a inveja se propaga como um gás mortal. As redes sociais são pródigas neste capítulo. Os mass media divulgam online títulos bombásticos que, tantas vezes, não correspondem à verdade. A exposição é hoje uma constante e como não lhe vejo solução, creio que terei de seguir a tal máxima e seguir em frente, ignorar o que se diz levianamente sobre A ou B. Enquanto sigo para a frente, paro.

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Pensamento da semana

por Patrícia Reis, em 24.06.17

Quando uma mulher escreve uma história de amor, é mais uma história de amor. Quando um homem escreve uma história de amor é sobre a condição humana.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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É tempo de exames e enquanto dura esta ansiedade evita-se a próxima. Aos 17 anos, é legítimo ter dúvidas e não saber o que se quer fazer para o resto da vida. Aliás, o conceito do resto da vida é hoje tão móvel como tudo o resto.

 

Adolescente chegou a casa e comunicou que o exame nacional de português – para alunos do 12º ano – foi bastante mais fácil do que pensara. “Saiu Alberto Caeiro e Vergílio Ferreira”, disse, não estando particularmente entusiasmado, nem tão-pouco aliviado. Confessou que deixou por fazer duas perguntas. Não, nada de interpretação, apenas o terror da gramática cuja terminologia, confesso, também me assombra. A evolução da língua, pois e tal, mas a nova terminologia é um verdadeiro chuto na tola e, por muito que se possa dizer que a lógica ajuda a chegar lá, não tenho como. Sou de outra geração e não sei o que é um complemento oblíquo. O meu filho talvez saiba. Ou não.

Hoje é dia do exame nacional de História cuja matéria é vasta e, por isso, os livros estiveram espalhados na mesa da sala e houve adolescentes que entraram e sairam, fizeram perguntas, desesperaram.

A época de exames é sempre assim, dirão. O stress acumula-se, há uma cambada de nervos para controlar e, a seguir, a ânsia da espera pelos resultados. Lá para meados de Julho chegam as notas e depois a decisão de ir ou não à segunda época.

Tudo isto foi falado e discutido ao longo do ano escolar e o adolescente cá da casa sabe bem o que o espera. O que me incomoda verdadeiramente é ver o nível de cansaço a que chegou e como a perspectiva de ir para a universidade não parece sequer ser aliciante. Diz que está ocupado com os exames, que não pensa nisso. Eu não sei se acredito nesta versão. Posso apenas dizer que os outros adolescentes, aqueles que por aqui andam e não são meus filhos (logo falam comigo mais facilmente, é uma das leis da vida quando se vive a maternidade e a adolescência), mostram-se apreensivos e, na sua maioria, não sabem que curso escolher. Um diz-me: “Vou para onde a média for mais baixa”. Outro adiante: “O meu pai diz que Direito é que é e eu, como não sei, vou para Direito”. E outro, mais felizardo: “Eu posso ir para onde quiser, tenho uma média alta, mas ainda não decidi”.

Não saber o que se quer fazer com o resto da vida aos 17 anos parece-me perfeitamente natural, da mesma forma que advogo que frequentar um curso superior não significa obrigatoriamente seguir a via profissional que deriva do curso.

Do que entendo dos miúdos com quem vou falando, a questão mais pertinente é conseguir ter um emprego. Fazer a universidade é apenas mais uma inevitabilidade, mas o que importa é saber como irão ter emprego, que ordenado conseguirão ter, como farão a vida de adulto.

Esta é a geração que nasceu dentro da crise, a geração que nasceu com a notícia regular de atentados terroristas. Toda a pressão está em cima deles e não podem respirar um pouco e viver as férias de verão como em outros tempos.

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Quotas. Sim ou não?

por Patrícia Reis, em 16.06.17

Não sei se as quotas servem para mudar mentalidades ou apenas para perpetuar essa ideia de que alguns homens nos fazem favores imensos em consentir a nossa presença. A presença da mulher em lugares de poder é diferente, sendo só mera presença, adianta pouco.

 

Sempre tive sentimentos contraditórios até por perceber que muitas vezes – demasiadas vezes – as mulheres estão pouco disponíveis para algumas coisas, recusam convites, ponderam muito sobre cargos públicos e as suas enormes desvantagens.

Sim, existem desvantagens claras e uma delas é o escrutínio público exacerbado (basta pensar na quantidade de processos de difamação para perceber o que quero dizer).

A uma mulher comenta-se o penteado, o vestido, o sorriso, qualquer gesto e pesam-se todas as palavras com minúcias e requintes – tantas vezes – de pura maldade.

A verdade é que a luta pela paridade continua a fazer sentido. Direitos e deveres iguais, para homens e mulheres, tal e qual como ordenados, progressão de carreira, oportunidades. Estamos longe, muito longe de um registo paritário e, compreensivelmente, mulheres e homens continuam a marchar com a bandeira do feminismo.

No parlamento discute-se a questão das quotas – outra vez. Agora a discussão é sobre a imposição de quotas às empresas públicas e às empresas cotadas em bolsa de valores. Os conselhos de administração devem ter mulheres? Pois. Parece uma evidência, mas são pouquíssimas as mulheres em lugares de topo, pode-se imaginar que ao nível dos conselhos de administração a tendência masculina seja a mais poderosa.

A votação desta proposta será feita na próxima semana e, como sempre, temos quem seja contra (o Partido Comunista Português é uma fonte maravilhosa de surpresas, ou melhor, de não-surpresas). Desta vez o CDS, que tem uma maioria feminina no Parlamento, alinha com o resto. Se a dita lei for aprovada teremos uma questão pertinente que é semelhante à de alguns gestores culturais quando precisam de ter paridade nos programas que desenham: como cumprir com a quota, a noção de paridade, se as mulheres se recusam a assumir certas tarefas?

Diz-se que desde 2006 os partidos políticos sofrem com esse pesadelo constituído lei que é a paridade nas listas eleitorais. No caso das empresas, onde as mulheres a partir de 2018 deverão constituir cerca de 33 por cento das administrações e órgãos de fiscalização, há multa para quem não cumprir.

E aqui é que eu torço o nariz. Eu não quero ver uma mulher incompetente num conselho de administração de uma empresa pública só para cumprir a quota, para não pagar multa. Eu quero ver mulheres competentes reconhecidas por mérito próprio. Nesse aspecto, o quadro mental potencialmente misógino mudou muito em 40 anos de democracia, mas não mudou tanto assim.

Acresce que às mulheres falta um sentido de corporativismo e raramente se defendem umas às outras. Não sei se as quotas servem para mudar mentalidades ou apenas para perpetuar essa ideia de que alguns homens nos fazem favores imensos em consentir a nossa presença. A presença da mulher em lugares de poder é diferente, sendo só mera presença, adianta pouco. Mas fica bem dizer que somos paritários, defensores da igualdade de género. É mais bonito e nem divide a esquerda e a direita (excepção feita ao Partido Comunista Português, claro).

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Camões, Cultura e Estratégia

por Patrícia Reis, em 10.06.17
 

A 10 de Junho de 1580 morre Luiz Vaz de Camões e a homenagem ao escritor dos Lusíadas é muitas vezes esquecida no âmbito do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Esquecida apesar de Camões ser um nome maior da Cultura nacional e a promoção e divulgação da cultura ser essencial para manutenção da nossa identidade.

Temos na Cultura, como em outras áreas, nomes maiores. E continuamos a ter, nas novas gerações, mentes criativas e inovadoras. Não me refiro apenas à Literatura. A nossa Cultura é uma moldura de grande dimensão e reflecte a nossa História, as nossas lendas, os nossos mitos e, ao mesmo tempo, fixa a contemporaneidade.

A Cultura é, por sistema, a parente mais pobre da política. Nos governos sucessivos que preenchem a nossa jovem democracia, a Cultura nunca teve o investimento que deveria ter.

Este 10 de Junho, celebrado na cidade do Porto, é porventura um momento para pensar se temos uma estratégia cultural que acompanhe o facto de Portugal estar na moda, ter tão bons indicadores ao nível do Turismo, e se apostamos ou não em quem insiste em ser agente cultural, artista plástico, escritor, músico, etc.

Há ainda uma reflexão adicional que deveremos fazer, sobretudo num país que parece estar cada vez mais deslumbrado pela juventude: apoiamos ou não apoiamos os mais velhos que contribuem significativamente para este património que é nosso, a Cultura Portuguesa?

Marcelo Rebelo de Sousa esteve mais de uma década na televisão como comentador. Sempre teve uma rubrica de livros. Há uns tempos, confidenciou-me que gostaria de ter feito um programa de livros na televisão. Pode ser que ainda venha a fazer. O único programa sobre livros que existe é na RTP 2. As outras estações de televisão dizem que a Cultura é uma chatice, pouco comercial, não ajuda aos shares e outras coisas.

Marcelo Rebelo de Sousa, homem culto, tem corrido feiras do livro, festivais literários, lançamentos e é um Presidente atento à cultura. Há muito tempo que não tínhamos um Presidente para quem a Cultura fizesse diferença. Pode ser que aconteça algo de extraordinário e o Presidente consiga que o resto das instituições oficiais entendam que sem Cultura não existe a soberania, não existem as comunidades portuguesas e, consequentemente, não existe necessidade para um 10 de Junho.

Texto para o site do Porto Canal

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Defendo os professores sempre que posso, pasmo perante a notícia que diz que a Fenprof e a Federação Nacional da Educação planeiam uma greve para o dia 21 de Junho, dia de exame nacional para muitos alunos.

 

Posso simpatizar com a causa – progressão na carreira, melhores condições – mas não tenho como não considerar esta atitude como um acto de bullying aos alunos. Os anos de exame nacional são difíceis para qualquer estudante. São jovens, preocupam-se, entram em pânico, são pressionados pelos pais e constantemente recordados do exame e da proximidade do mesmo pelos professores. O stress é muito. Gasta-se dinheiro em explicações (quem pode), faz-se pesquisa na internet e descarregam-se textos de exames de anos anteriores. Muitos adolescentes perdem noites, têm pesadelos, distúrbios alimentares, roem as unhas, e por aí fora.

A par disto, os jovens que estão no 10º ano ou a terminar, no 12º, têm ainda uma pressão adicional. É que o mercado de trabalho está mau, as notícias sobre a crise fazem parte da banda sonora das suas curtas vidas deste sempre e há um discurso pessimista que é, parece, inevitável. Depois temos ainda aquela máxima que advoga que é importante ir para a faculdade. Há sempre uma alma que lá debita o cliché destes tempos: sem uma licenciatura não vais a lado algum. E o melhor, acrescenta a mesma alma, é fazeres já mestrado e, mesmo assim, nada está garantido.

Ora, a vivência de tudo isto nos nove meses em que dura o ano lectivo é, no mínimo, motivo de stress, de angústia e de grande dúvida. Muitos são os alunos que não sabem verdadeiramente o que fazer a seguir. Ah, existem os psicotécnicos, dirão. Sobre isso muito haveria a dizer, mas agora não vamos por aí.

Para perturbar mais ainda os alunos que estão no primeiro ano do secundário ou que são pré-universitários, a Fenprof e a Federação Nacional da Educação anunciam que os exames podem ter de ser adiados, os professores vão fazer greve (ou ameaçam apenas para fazer paragonas nos jornais?).

Com todo o respeito pelos professores, a pergunta é: não podiam pensar no que isto causa aos miúdos que estão a preparar-se para ir a exame? Ou não lhes ocorreu? O argumento que esta data chama mais a atenção para os problemas dos professores é, no mínimo, triste. E, se é forma de chantagem perante o Ministério da Educação, diria que não é motivo para prejudicar centenas e centenas de alunos que hoje se perguntam como é que isto vai ficar. Até dia 21 de Junho muita água correrá debaixo da ponte, já se sabe. Para os miúdos será apenas uma greve de nervos.

P.S: Acabo de ler que o governo tem como garantir os serviços mínimos de forma a não prejudicar os exames nacionais de dia 21 de Junho. Vou ali explicar isso a três adolescentes em stress, a ver se ficam melhor.

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Feminista e Cavalheiro

por Patrícia Reis, em 02.06.17

Haja esperança nos miúdos que estão prontos a ser homens, haja mães que assim os ensinam. A ser feministas e cavalheiros. Quer se queira ou não, lutar pela paridade é – e sempre foi – uma causa comum, não uma causa das mulheres.

 

A mãe explicava ao filho adolescente que para ser feminista não é preciso ser mulher. O miúdo, 15 ou 16 anos, algumas borbulhas, o mesmo corte de cabelo padronizado desta época, calças de ganga do sítio do costume e ténis de uma das três marcas mais afamadas, olhava para a mãe com aquele ar que só os filhos têm e que podemos traduzir assim: eu-até-te-dizia-que-estás-maluca-mas-vou-só-revirar-os-olhos-para-não-te-ouvir.

Tudo isto se passava num café, cinco e meia da tarde, o jovem com a mochila, a mãe com um ar de quem já subiu aos Himalaias três vezes. E a mãe disse: “Portanto, se queres que haja igualdade entre homens e mulheres tens de te esforçar por isso e, se acreditas que essa é a melhor situação, pois é feminista.” Bom, o miúdo lá revirou os olhos, mirou os ténis, espreitou o smartphone, suspirou, considerou várias coisas que não suspeito e manteve-se calado.

A mãe insistiu como só as mães insistem, é um mecanismo já instituído: as coisas importantes repetem-se para ver se entram na cabeças dos infantes. O miúdo anuiu e, por fim, disse: “Ok, e se eu for feminista, dás-me a semanada mais cedo?” Por breves instantes consegui imaginar com exactidão as várias formas de tortura que a mãe terá congeminado, mas tudo se reduziu a um encolher de ombros e, lançando a mão à mala tirou a carteira e deu-lhe dez euros.

O miúdo sorriu e percebeu que estava na altura de se retirarem, a mãe já de costas em direcção à porta. Apressou o passo, ultrapassou a mãe pela esquerda, estendeu o braço e, gentil, abriu a porta pesada de vidro para a mãe passar. E o miúdo exclamou sorridente: “Claro que eu sou um feminista e um tipo como deve ser.” A mãe riu-se e eu sorri.

Haja esperança nos miúdos que estão prontos a ser homens, haja mães que assim os ensinam. A ser feministas e cavalheiros. Quer se queira ou não, lutar pela paridade é – e sempre foi – uma causa comum, não uma causa das mulheres. Como se sabe, de pequenino se torce o pepino e, neste caso como em outros casos, importa que os valores inerentes ao feminismo sejam aprendidos em casa. Dirão que muitas famílias não cumprem os requisitos e estarão certíssimos. Mais uma razão para que outras famílias possam promover o feminismo como algo que – infelizmente – ainda faz sentido e precisa de adeptos no século XXI.

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Temos medo

por Patrícia Reis, em 23.05.17

Temos medo. Podemos dizer que não temos, podemos tentar racionalizar, mas é um facto que o século XXI é o século do medo. Pelo menos até agora. Pode ser que mude, porém não vejo sinais de qualquer mudança, sinto apenas a escalada do medo. Aqueles pais, e Manchester, à espera de entender se o filho ou filha morreram é uma imagem que irá permanecer comigo durante muito tempo. Existem imagens hediondas que nos atingem todos os dias, mas o que se passou em Manchester não é um atentado como os outros. O público que assiste aos concertos da artista norte-americana Ariana Grande é jovem, muito jovem. A artista tem um concerto agendado para o Meo Arena e a pergunta que faço é: quantos pais vão repensar essa ida nocturna dos filhos a um concerto? E quantos perguntarão: um dia destes será em Lisboa, certo?

O medo é paralisante e será com isso que muitos movimentos terroristas contam. Não se sabe se o bombista suicida que se fez explodir em Manchester - matando (até ao momento) os 22 e ferindo 59 pessoas - era de algum grupo terrorista. O ataque não foi reivindicado. Uma coisa é certa, conseguiu entrar numa arena com capacidade para milhares de pessoas levando uma bomba que se supõe caseira. Não se sabe quem era, de onde vinha, o que fazia, em que acreditava.

Adonis, o poeta sírio tantas vezes indicado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, escreve no livro “Violência e Islão” que não é possível o Ocidente e o Islão chegarem a um entendimento enquanto os estados árabes não forem laicos. Afirma que a religião como forma organizadora da sociedade implica, no caso do Islão, violência por ser uma religião criada na violência. Nunca quis acreditar nesta versão, por ser demasiado redutora, por reflectir a vida do poeta, que admiro, mas que está condicionado pela sua experiência. Numa coisa, contudo, está absolutamente certo: o islamismo é a religião que mais cresce, é o que mostram os últimos estudos, e o Ocidente sente-se ameaçado pelo invisível. Os terroristas que se dizem islâmicos não têm uma agenda lógica, atingem onde menos se espera. Nada pior do que não conseguirmos prever. O mundo que temos para os nossos filhos, os nossos netos, não promete nada que seja fácil e não garante qualquer segurança. Sim, repito, temos medo. E temos razões para ter medo.

O medo rouba-nos a liberdade, promove a desconfiança, remete-nos para o que consideramos seguro. O conhecimento e a vida não se fazem sem riscos e essa é a maior vitória do terrorismo que, tantas vezes, diz ofender-se com o estilo de vida ocidental. Sem liberdade não conseguiremos evoluir como sociedade e os retrocessos ao nível dos valores serão inevitáveis, os direitos serão condicionados. Não é assim que queremos viver, bem sei. Seria bom promover o diálogo, mas quem é que quer falar com terroristas que matam crianças? Manchester é assustador por ser no nosso contexto, dentro do padrão normal do nosso comportamento. Outras crianças morrem. Todos os dias, na Síria por exemplo, a morte é o mais comum. Qual é a diferença? O que acontece num país tão distinto da nossa realidade é algo que nos comove pontualmente. Talvez por isso as nossas crianças sejam mais importantes que as crianças dos outros. Nada podia ser mais triste.

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Não se pode ter tudo

por Patrícia Reis, em 20.05.17

O tempo não estica. O tempo parece cada vez mais curto. O tempo é o mesmo mas gastamos cada vez mais em frente a um ecrã. Precisamos de sair da internet. Para ter vida e nessa vida ter também tempo para ler.

 

“O mercado está um desastre e é o mercado mundial”, quem o diz é um agente literário norte-americano. Portanto, o drama não é nacional. Ok. Não se consegue tirar qualquer consolo desta realidade.

“Não sei onde vamos parar”, suspirou-me uma editora da nossa praça. O que se passa? Os livros não vendem. Nenhum autor que tenha recebido direitos de autor este ano conseguirá sorrir.

Há excepções? Sim, é verdade, já se sabe que sim. Mas as excepções são isso mesmo, excepções. Capas com letras a dourado e indicação de best-seller do jornal estrangeiro A ou B já não surtem o mesmo efeito. É difícil vender livros, é difícil pensar carinhosamente na ideia de que um dia, quem sabe?, conseguiremos viver desse ofício solitário que é a escrita.

O mundo de hoje faz-se em frente ao ecrã, do smartphone, do computador ou tablet, e pouco mais importa. As redes sociais roubaram-nos o tempo para fazer muitas coisas, entre eles ter capacidade para sair para a rua e entrar numa livraria. Roubaram-nos concentração e os miúdos de hoje estudam com televisão, computador, consola, telemóvel. É a realidade deles. Talvez por isso alguns torçam o nariz quando têm de ler Camões ou, esforço suplementar!, Agustina Bessa-Luís.

Sem livros não há pensamento e sem pensamento não há civilização. Parece uma lapalissada banalzinha sem qualquer importância, mas não é. Não podemos achar normal que para entender "Os Maias" os miúdos do secundário se auxiliem somente de um livro de resumo da obra. Não podemos estar permanentemente ligados nas redes como se não existisse mais nada.

Neste país de escritores e poetas – e de enorme qualidade – vivemos um momento terrível: há mais escritores do que leitores. Pela parte que me toca, vou sair da internet e comprar um livro. Pergunte-se: há quanto tempo não faço o mesmo? Pois.

Até podia dizer que a feira do livro de Lisboa inaugura no dia 1 de Junho, contudo sei que é indiferente. No ano passado, em plena feira, uma criança pedia um livro, a choramingar, e o pai respondeu: “Nós viemos comer gelados. Não se pode ter tudo.” É isto. Não se pode ter tudo.

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o que o desemprego mata em nós

por Patrícia Reis, em 15.05.17
Se a vida te dá limões, faz limonada. Pode parecer uma banalidade, mas serviu para dizer a uma amiga que tinha de andar para a frente. Acrescentei que o açúcar é o amor que tem à sua volta. Porque tem amor na sua vida e tomou sempre decisões em prol da família.
 

A minha amiga não tem 20 anos, está quase nos 40. É uma mulher inteligente, com curso, pós-graduações e outras valências. Saiu de Lisboa com a filha às costas por saber que já não tem idade para encontrar trabalho na grande cidade. Levou algum tempo a perceber isto, e foi à força de múltiplas desilusões antecedidas por cartas, envios de curriculum, entrevistas várias.

A empresa onde esteve faliu, fechou portas, deu-lhe os papéis para o fundo de desemprego, mas a minha amiga teimou que continuaria à procura de trabalho. Finalmente, como diz, caiu na real.

Sair de Lisboa podia ser melhor, tinha algum dinheiro de lado, a vida é mais barata, quem sabe se a sorte não lhe sorria lá para os lados da serra? Não sorriu.

A minha amiga conseguiu esta semana um emprego (ao fim de uns anos a bater às portas, a inventar). Vai passar recibo todos os meses, é um trabalho precário, sem regalias. Ela está contente por ter conseguido um trabalho. Vai receber 530 euros, mais coisa, menos coisa.

Ela está triste com o estado das coisas e com a sua vida. Acha que talvez não mereça mais, que talvez não seja competente em nada apesar de ter um curriculum que indica o contrário.

O desemprego mata a auto estima. A minha amiga, como tantos outros, merecia mais e melhor. Está farta de beber limonada.

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Paulo Mendes Pinto directo de Fátima

por Patrícia Reis, em 12.05.17

https://www.publico.pt/2017/05/12/culturaipsilon/noticia/o-circo-mediatico-em-fatima-1771948

 

O circo mediático, as televisões, os crentes.

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Quase que chorou

por Patrícia Reis, em 10.05.17

A minha avó ligou ao meu filho para saber coisas sobre o real e o atlético, não percebi nada da conversa. Depois ele mandou beijos, despediram-se e continuou a falar do Salvador Sobral e eu pensei: há meses e meses que temos o disco, tem de o ouvir. E ele disse: "Quando o vi hoje quase que chorei, é o novo Éder". Não preciso de sugerir que vá ouvir o disco, parece-me.

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Ser mãe é ter vários corações que não se controlam. Cuidamos, perdemos o sono, sentimos uma alegria imensa, morremos de aflição. Em pequenos tentamos perceber quem são, mas é muito cedo que os filhos nos conhecem como conhecem a palma da mão, porque os adultos são previsíveis, repetem-se muito e esta fatalidade é letal quando se chega à adolescência.

Já o escrevi muitas vezes, a adolescência é a fase mais triste da vida de uma mãe. Há uma guerrilha permanente, a comunicação falha – falar com um adolescente é o mesmo que dar banho a um peixe -, alguém encolhe os ombros, revira os olhos, o espelho de quem fomos na nossa adolescência.

E uma mãe tem e não tem memória do que foi. Diz “no meu tempo” quando é favorável, mas tende a esquecer-se do que fez, do que disse, quem foi na adolescência.

A guerrilha dura uma época e, de repente, parece quase esfumar-se.

Muitas vezes, a reaproximação faz-se mais tarde e surgem os sentimentos justos de frustração: o meu filho já não quer saber de mim. Ora, os filhos têm de ir à sua vida, como as mães antes de serem mães também optaram por fazer. É a vida que o exige, são os tempos, é o mais saudável.

A família funciona para muitos como um fantasma permanente e nem sempre simpático. A mãe tem de se despedir da função de ser mãe a tempo inteiro (sim, até uma mãe a trabalhar permanece mãe todos os minutos do dia). Não se desliga dos filhos anos e anos a fio e, de repente, parece que é obrigatório o dar espaço, o gerir do silêncio.

Quem faz dos filhos o seu projecto de vida atravessa então um momento de redefinição que nem sempre é feliz. Quem sou eu depois de ser mãe? Não é que exista uma total perda de identidade, mas corremos o risco de nos perder nos mil e um afazeres da educação e do amor.

Custa perceber que os filhos já não precisam tanto de nós; dói quando há informação que não partilharam connosco, quem sabe se emoções, os momentos menos felizes.

Nunca se deixa de ser mãe e, fatalmente numa sociedade marcada pela palavra tremenda que é a “culpa”, nunca deixamos de pensar no que falhámos, como falhámos.

Depois a montanha russa da vida dá um piparote e os filhos regressam com aflições sobre os próprios filhos, deixam-se estar mais tempo, fazem confidências, precisam de colo. E há outra mudança na relação, volta-se a um estado de compreensão e a partilha faz-se de uma outra maneira.

Ser mãe é um estado feliz, é um estado de alerta, é querer que os filhos nos superem, sejam mais e melhores do que somos. Quando se consegue vislumbrar o sucesso dos filhos no seu comportamento, na sua vida, temos de sorrir.

São sempre os nossos meninos, o nosso coração fora do corpo.

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Crónicas

por Patrícia Reis, em 25.04.17

Olhar para Portugal e manter esse tesouro “inicial inteiro e limpo” por ser urgente ainda agora a Liberdade, uma outra forma de Liberdade ou várias liberdades. Como se a luta pelo melhor fosse infinita e, por isso, o que foi ontem ainda é hoje e podemos construir sempre mais e melhor.

Foi ontem a madrugada pela qual tantos esperaram. Foi ontem que as conversas em sussurro vieram para a rua em clamor, sem receios ou olhares de soslaio.

Foi ontem que capitães juntaram os homens para mudar o estado das coisas.

Foi ontem que Paulo de Carvalho cantou E Depois do Adeus de José Niza e José Calvário.

Foi ontem que as mulheres passaram a conseguir sair do país sem precisar de autorização do pai ou do marido.

Foi ontem que o poema de Sophia tatuou para sempre o que todos sentiam.

 

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio 

E livres habitamos a substância do tempo (*)

 

Foi ontem que a senhora dos cravos nos deu esse símbolo, mesmo que a história tenha várias versões.

Foi ontem que os estabelecimentos prisionais se abriram para deixar livre quem nunca deveria ter sido preso.

Foi ontem que se cantou Liberdade com a convicção de que o futuro seria melhor, seria nosso.

Foi ontem e foi agora mesmo, porque importa recordar o 25 de Abril, o que nos uniu, a razão para a luta.

*Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'

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Carinhoso

por Patrícia Reis, em 20.04.17

 

“Carinhoso” de Pixinguinha faz cem anos. Alguns artistas, como  Zélia Duncan, Monarco, Chico Buarque, Joyce e Carminho, gravaram a canção. Aqui podem ouvir, Carinhoso de Pixinguinha, letra de Braguinha.

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O mundo é um lugar perigoso, já se sabe. Todos os dias temos notícias sobre como o Mal nos assola. O que se passa na Tchetchénia é, no limite, um atentado a todos os valores humanistas que aprendemos a conhecer e, ao mesmo tempo, exemplar de como não evoluímos como espécie.

 
 

Somos capazes do pior, sobretudo quando cultivamos a ignorância, quando acreditamos que a nossa forma de estar e a nossa opinião prevalece e deve prevalecer. Existem campos de concentração para homossexuais na Tchetchénia. Quando escrevo campos de concentração agradeço que se entenda na dimensão terrível que atribuímos ao Holocausto. Não é melhor.

É triste e desumano que a sexualidade seja discriminada, seja questionada e, quando fora de um padrão que alguém definiu como certo (só esta ideia é já um chuto na tola), passível de levar à tortura.

O senhor Putin é homofóbico? Não tenho a menor dúvida e, para não ficar sozinho, foi buscar o senhor Ramzan Kadyrov para manter a Tchechénia na ordem. Trata-se de mais um regime e, como em todos os regimes, o tal padrão normalizador é, no limite, espelho de quem governa.

Sunita, muçulmano, ex-separatista, dono de um exército privado, o senhor Kadyrov faz o que quer e como quer há já uns anos. O poder é seu desde 2007. A perseguição a homossexuais não é de hoje, mas agora chegam testemunhos e relatos perturbadores que indicam que a homofobia chegou a um extremo. Se é gay, é para abater, ou torturar até que denuncie quem é igualmente gay.

Sim, em pleno século XXI, com tudo o que deveríamos saber, há um lugar no planeta Terra em que os homossexuais têm de ter medo, têm de se casar e ter filhos para esconder a sua verdadeira sexualidade. Um sítio onde as famílias são instigadas a denunciar quem possa ser gay ou – muito melhor – tratar do assunto, que é como quem diz, executar filhos, primos, tios, sobrinhos ou outros que possam ser homossexuais ou suspeitos de tal.

A Amnistia Internacional criou uma petição, o mesmo fez a organização Avaaz. Lemos nos jornais – no The Guardian têm-se escrito vários artigos sobre esse terror – e comentamos nas redes sociais. Não chega. Contra o Mal não chega.

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velocidade furiosa 8 (sem Marcelo e afins)

por Patrícia Reis, em 19.04.17

Fomos ao cinema, eram seis da tarde e fomos por ser um compromisso assumido, bilhetes comprados na véspera. Nada de pipocas para não perder a fome para o jantar (argumento do meu filho, eu comprei logo um gelado e uma garrafa de água). Sou uma devota dos filmes de mocinho, filmes de bang bang, filmes com espada e capa, filmes de pancada, com explosões e afins. Depois de sete filmes liderados pelo nunca demais elogiado Vin Diesel (Dom para os amigos), eis que estamos no pináculo da perfeição: carros na neve a deslizar perseguidos por um submarino enquanto no avião um mata todos e ainda leva uma criança sorridente na tal cadeira ovo do costume. Diz-me o meu filho: "A mensagem é sempre a mesma, não se brinca com a família, nada é mais importante." E fico a pensar naquilo e em como conseguiram montar a perseguição pelas ruas de Nova Iorque com carros sem motorista e carros a voar de prédios. Aguardo com impaciência o capítulo 9, o regresso de Cipher, a criança a crescer e, por favor, mais um pouco da maravilhosa Helen Mirren, sim? Muito agradecida.

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Aterrar no Cristiano Ronaldo

por Patrícia Reis, em 31.03.17

Levantaram-se vozes sobre o nome do aeroporto do Funchal, a legitimidade, a pertinência, etc, etc, etc. Depois, na cerimónia transmitida pelos diferentes media, o assunto mudou: tem mais graça maldizer o busto onde o desgraçado do Cristiano Ronaldo parece tudo menos ele.

 
 

Deduzo que tenha visto o busto antes da cerimónia, deduzo que tenha gostado caso contrário tem poder para dizer: oiçam, está tudo bem, mas esta cara não é a minha. Para isso teria toda a legitimidade. Digo eu.

Oiço dois adolescentes, em conversa de fim de tarde, a discutir o assunto e um diz com convicção: “O CR7 é o português mais importante do século XXI.”

O mais importante não será, fico eu a pensar para os meus botões, ou talvez seja (que sei eu?), mas o certo é que se tornou um símbolo, um embaixador português pelo mundo. A carreira de CR7 não irá durar muito mais – o drama do corpo como grande traidor -, contudo há ainda muito que pode fazer e, garantem-me, já o faz.

O quê? Apoia instituições, apoia pessoas em concreto, dá o exemplo, não se refugia na celebridade para evitar beijar uma criança.

Que a terra onde nasceu o queira celebrar em vida é algo que não me choca nada. Para uma terra que vive do turismo, faz sentido que quem chega receba as boas vindas de uma personalidade incontornável a nível planetário.

Porquê um aeroporto? Podia ser outra coisa qualquer, já se sabe. Para mim, dá-me igual. Confusão fez-me quando decidiram chamar ao aeroporto de Pedras Rubras no Porto o aeroporto Francisco Sá Carneiro. Considerando as circunstâncias da sua morte, acho uma graça de mau gosto.

Aterrar no Cristiano Ronaldo parece-me idílico, em comparação. E gosto de saber que alguém se rala em celebrar os que conseguem atingir patamares de excelência enquanto estão vivinhos da silva.

Somos um país que gosta de adorar alguém depois de morto. Pouco mais. Diria que CR7 merece melhor e merece em vida.

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blogue da semana

por Patrícia Reis, em 27.03.17

Às vezes o que parece não é. A primeira vez que ouvi falar da oficina poeiras não associei à apresentadora de televisão Leonor Poeiras. Confesso até que me surpreendeu. Se fosse um blogue de dietas ou de roupa teria sido diferente? Admito que sim. O facto é que www.oficinapoeiras.com é um blogue para coisas faça você mesmo e ainda com um pezinho na natureza (ver Horta). Mais nova de cinco irmãos, Leonor Poeiras habitou-se a transformar peças – nomeadamente de roupa – para as tornar suas, para lhes conferir outra vida, outra identidade. A mesma lógica forçou-se ao mundo dos objectos e, desde criança, Leonor nunca mais deixou de reciclar à sua maneira. O blogue mostra soluções, prima pela criatividade e pelo bom aspecto, é uma viagem que faço regularmente, até para pensar em coisas distintas. Tive algum receio de o referir aqui no delito, mas depois pensei que todos temos coisas a mais, que todos precisamos de reformular o que nos rodeia, portanto aqui vos deixo um blogue que não tem nada de politica, nada de literatura, mas tem tudo sobre a vida.

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A Construção do Vazio

por Patrícia Reis, em 24.03.17

Enquanto tu dormes, eu posso ouvir-te com mais precisão. Tem que ver com a tua respiração. O peito, que se enche devagar. Há um sorriso no canto da boca enquanto os sonhos passam na cortina dos teus olhos. Não sei nada de ti, nestes momentos. O que oiço do teu corpo é apenas uma música em surdina, como o restolhar dos pássaros ao fim do dia, escondidos na confusão das folhas. Tu suspiras, o braço pendente na cama branca. Sinto-me próxima da oração, meu Deus, o teu corpo perdido e eu sem salvação.

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Ruy Belo

por Patrícia Reis, em 23.03.17

 Algumas proposições com pássaros e árvores

 

 

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

 

 

 

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Francisco José Viegas escreve hoje no seu blog / crónica no CM sobre o juiz que decide defender o homem viril e conta um episódio que, infelizmente, não é ficção. A nossa justiça anda assim, ou melhor, não anda, está assim. É a injustiça, pura e simples. Ora leiam: "Vejamos: em 2011, uma mulher acusou o marido de violência doméstica (e de violação), além de infligir maus-tratos físicos e psicológicos às três filhas. Diante disso, o tribunal condenou-a por difamação, considerando que a mulher, está na cara (com nódoas negras), agiu com o "propósito de difamar e caluniar" o marido, já que as suas acusações são atentatórias (ui, ui) do "bom nome, hombridade, reputação e decoro" do cavalheiro. De acordo. E mais: como não concordar que se trata de "suspeições desprimorosas"? Evidentemente que são. Nojentas. E como não concordar com o tribunal ao considerar que essas "suspeições" põem em causa a "honorabilidade, consideração, honra e dignidade" do marido? Parece, inclusive – que horror –, que ele passou a ser tratado com ‘comentários e olhares vexatórios’, o que não se pode permitir. Os tribunais têm de defender a honra destes maridos viris. Curiosamente, o tribunal, que condenou a malvada (à primeira), não considera falsas as suas acusações; simplesmente são chatas para o marido. A Relação de Guimarães veio agora anular a sentença. Pobre marido."

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Tudo na mesma (II parte)

por Patrícia Reis, em 29.12.16

Depois de ter publicado um texto a propósito da capa do Público e seus cronistas homens, recebo um comentário (de alguém que não se identifica, pois o que seria?) que reza assim:

....quanto recalcamento que por aqui vai....arranje uma vida!


É por estas e por outras que, às vezes, me apetece mandar tudo às urtigas e esquecer que as redes sociais podem ser um lugar para debate de ideias. As pessoas não querem debater nada, não pessoas como este Me (assim se designa a criatura que pode ser de ambos os sexos, não é verdade?), pessoas assim só querem ofender. Pois, eu cá não me ofendo com pessoas que não existem. E agora?

Nada. Não se passa nada. Hoje a revista Sábado tem uma capa com 6 homens que também têm coisas para dizer sobre 2017, a média de idades destes senhores, brancos, de formação dita clássica, etc e tal, é superior a 75 anos, mas isso não tem qualquer importância. Ou terá?

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Tudo na mesma

por Patrícia Reis, em 28.12.16

O jornal Público só encontrou os cronistas do costume para dizerem de sua justiça sobre 2017 e colocou as fotografias dos senhores na primeira página. Não existem mulheres dignas desse nome? Parece que não. É certo que os tempos são outros, que temos mulheres ministras, procuradoras, já tivemos uma presidente da assembleia da república, mas ainda são excepções. Compõem o quadro, é tudo. As mulheres em Portugal - e no mundo - não são tratadas com sentido de paridade. Não se discute se temos alma, como na Idade Média; assume-se que não temos nada para dizer e, por isso, as mulheres não são cronistas com honras de primeira página, raramente se eternizam em programas de debate com eixos, círculos e outras figuras geométricas. Também é preciso dizer que quando se pensa que uma mulher que atinge um determinado cargo irá lutar para uma maior visibilidade das mulheres, o efeito é o contrário, para não melindrar, para não serem acusadas de mulherzinhas. Ou pior, de feministas. Conclusão? Tudo na mesma. Nem mesmo as mulheres que conseguem ter poder escapam à misoginia.

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terapia e natal

por Patrícia Reis, em 25.12.16

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José Luis Peixoto

por Patrícia Reis, em 24.12.16

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Fernando Pessoa

por Patrícia Reis, em 24.12.16

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés. 

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Clarice Lispector

por Patrícia Reis, em 16.12.16

Viver em sociedade é um desafio porque às vezes ficamos presos a determinadas normas que nos obrigam a seguir regras limitadoras do nosso ser ou do nosso não-ser...
Quero dizer com isso que nós temos, no mínimo, duas personalidades: a objetiva, que todos ao nosso redor conhece; e a subjetiva... Em alguns momentos, esta se mostra tão misteriosa que se perguntarmos - Quem somos? Não saberemos dizer ao certo!!!
Agora de uma coisa eu tenho certeza: sempre devemos ser autênticos, as pessoas precisam nos aceitar pelo que somos e não pelo que parecemos ser... Aqui reside o eterno conflito da aparência x essência. E você... O que pensa disso?


Que desafio, hein?
"... Nunca sofra por não ser uma coisa ou por sê-la..."

Perto do Coração Selvagem - p.55

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Hilda Hilst

por Patrícia Reis, em 14.12.16

Hoje

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.

Antes, o cotidiano era um pensar alturas

Buscando Aquele Outro decantado

Surdo à minha humana ladradura.

Visgo e suor, pois nunca se faziam.

Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo

Tomas-me o corpo.

E que descanso me dás

Depois das lidas.

Sonhei penhascos

Quando havia o jardim aqui ao lado.

Pensei subidas onde não havia rastros.

Extasiada, fodo contigo

Ao invés de ganir diante do Nada.

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Manoel Bandeira

por Patrícia Reis, em 11.12.16

Assim eu quereria meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

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O dia da Mãe

por Patrícia Reis, em 08.12.16

Para a minha mãe, para a minha avó e para mim, este é o dia da mãe. Não nos corre bem desde há uns anos, porque essa coisa em Maio veio tramar a malta e os filhos, de cada uma, tendem a esquecer-se do dia 8 de Dezembro, para mais quase em cima do Natal. Assim, temos um acordo que nos une, celebramos nós, telefonamos e festejamos. Para quem estiver connosco, pois tenham um feliz dia da Mãe.

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A nossa Helena faz anos!

por Patrícia Reis, em 07.12.16

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Hilda Hilst

por Patrícia Reis, em 17.11.16

"Eu adoraria estar apaixonada sempre. A minha mãe dizia uma frase que eu nunca esqueci: 'Tens um inimigo, deseja-lhe uma paixão'. Eu não entendia o que ela queria dizer, mas agora eu entendo. A paixão é uma doença mesmo, uma doença total. E eu gostaria de, velha, ter uma paixão, de me apaixonar."

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Manuel António Pina

por Patrícia Reis, em 20.10.16

Vê se há mensagens

no gravador de chamadas;
rega as roseiras;
as chaves estão
na mesa do telefone;
traz o meu
caderno de apontamentos
(o de folhas
sem linhas, as linhas distraem-me).
Não digas nada
a ninguém,
o tempo, agora,
é de poucas palavras,
e de ainda menos sentido.
Embora eu, pelos vistos,
não tenha razão de queixa.
Senhor, permite que algo permaneça,
alguma palavra ou alguma lembrança,
que alguma coisa possa ter sido
de outra maneira,
não digo a morte, nem a vida,
mas alguma coisa mais insubstancial.
Se não para que me deste os substantivos e os verbos,
o medo e a esperança,
a urze e o salgueiro,
os meus heróis e os meus livros?
Agora o meu coração
está cheio de passos
e de vozes falando baixo,
de nomes passados
lembrando-me onde
as minhas palavras não chegam
nem a minha vida
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.”

Cuidados Intensivos (1994)

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blogue da semana

por Patrícia Reis, em 16.10.16

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Do princípio ao fim (13)

por Patrícia Reis, em 05.10.16

“Viu a Selva da sua vida e viu a Fera a espreitar; então, enquanto olhava, viu-a, como numa agitação do ar, erguer-se, enorme e horrenda, para o salto que o iria aniquilar. A vista escureceu-lhe — estava próximo. E, voltando-se instintivamente, na sua alucinação, para a evitar, mergulhou de cara para baixo sobre a campa.”

A Fera na Selva, 1903

 

Caríssimo Senhor Henry James
 
Escrevo-lhe ao chegar da tarde do primeiro dia de Outono. O sol mostrou-se em Lisboa com alguma timidez, mas apesar disso, rejubilámos. A casa está em silêncio e é oportuno deixar-lhe estas linhas agora antes que os afazeres diários me atropelem e perca esta possibilidade.
Tenho o seu livro na minha mesa de cabeceira há mais de vinte anos. Não sei quantos exemplares já ofereci, na verdade poucos, não conheço muitas pessoas com vontade de chegar a esta elevação. Chamo-lhe elevação porque, de certa forma, a “Fera”, como carinhosamente é conhecida aqui em casa, só ataca alguns e, quando o faz, é de forma quase letal. Fica connosco. Podia ter na mesa de cabeceira outros – e tenho – porém o seu livro, este livro, é diferente. Serve-me como memória e espelha um exemplo. Todos os dias o encaro com desânimo ou entusiasmo. Depende do que me acontece.
Quererá saber porquê. Sei que gosta de uma boa história e que é um ouvinte treinado para as miudezas do mundo, essas que, porventura, utilizou para a ficção e para a dramaturgia. Esqueçamos a dramaturgia? Certo, o fracasso nunca é de louvar. Posso garantir-lhe que o desapontamento que sofreu nos palcos de Londres e arredores, no seu tempo, não são verdades de hoje. Os seus livros tornaram-se filmes, as suas peças encenam-se amiúde. Quer saber se o mesmo se passa com Oscar Wilde? Vejo que o trauma permanece. Oscar Wilde, como quase todas as figuras capazes de fugir ao padrão da época, era irresistível ao grande público. Para si não o seria. Compreendo. Deixemos isso, então. Voltemos à “Fera” e à razão que me leva a escrever-lhe.
Convivi estes anos todos com o seu John Marcher e a sua amiga, a senhora May Bartram. Por vezes, acontece-me regressar à história deste desencontro e aprendo sempre alguma coisa. Marcher serve-me de modelo: um homem que viveu a vida pela metade, convicto de que estava destinado a algo maior, incapaz de amar e reconhecer esse amor. “A solução teria sido amá-la; então, e só então, ele teria vivido”, conclui quase no fim da “Fera”. A pequena lombada que vislumbro da minha cama recorda-me que tenho de estar atenta às coisas do mundo, à “expressão dos afectos” à minha volta, aos que se aproximam e ficam. Se calha a sofrer do síndrome de Marcher, como lhe chamo, penalizo-me de forma brutal. É fácil ser-se egocêntrico, viver na permanente admiração do nosso umbigo. Perdoe-me, não será uma expressão do seu tempo. Seja como for, vejo a “Fera” e tento redimir-me. Em vez de me encolher na minha convicção de justiça e grandeza, procuro desfazer-me e estar disponível. Não como May Bartram, repare, porque o excesso de amor não me convêm. Ou melhor, não convêm a este século XXI. Nunca senti qualquer espécie de piedade por May Bartram, sempre a considerei altruísta e magnânima nos seus sentimentos, contudo demasiado contida para o meu gosto. Se fosse eu, teria gritado o meu amor por Marcher, teria sofrido mais e a amizade terminaria, estou certa. Quando li a sua história pela primeira vez, Senhor James, chorei e continuo a chorar.  
É-me incompreensível a ideia de paixão e a sua conjugação com a frieza e a distância: como é que podem conviver no mesmo tempo e espaço? Como é que gestos delicados e despojamento não são entendidos como entrega total? O amor está em desuso. As relações entre as pessoas não são, em nada, similares às do seu tempo. Há uma liberdade que nos é agradável e uma quebra de regras de cavalheirismo que, decerto, teria dificuldade em aprovar. Pouco importa, porque a sua “Fera” quando ataca um leitor dos dias de hoje permanece com a mesma força de sempre. Espero que isso lhe traga algum contentamento.
Passei a entender John e May de outra forma depois de ler “Autor, autor” de David Lodge, um inglês, como o senhor. Sim, peço desculpa, o senhor pediu a nacionalidade depois da Primeira Guerra Mundial como forma de solidariedade para com os Aliados. Ao mesmo tempo, acredito que ser norte-americano não estivesse de acordo com a sua natureza. Não sei porque lhe escrevo isto, se me engano, peço desculpa. O livro de Lodge é-lhe dedicado. O senhor, tão discreto e sedento da sua privacidade, não gostaria da biografia ficcionada que este escritor imaginou, partindo apenas do pouco que se sabe. O livro começa com duas epígrafes, uma delas sua, retirada do livro “Middle Years” e reza assim: “Trabalhamos no escuro – fazemos o que podemos – damos o que temos. A nossa dúvida é a nossa paixão e a nossa paixão é o nosso trabalho. O resto é a loucura da arte”. Fui à procura deste livro e, como aconteceu com os restantes, devorei-o palavra por palavra. É um texto que podia, de certa forma, ter sido escrito ontem. Leio qualquer obra assinada por si como se tivesse sido escrito para mim, lamento a ousadia. Ao mesmo tempo, percebi que a sua devoção à Literatura e o seu temor pelas questões financeiras - sempre difíceis, sempre actuais - o afastou de uma vida em pleno.
 Com o livro de David Lodge aprendi muito e comecei a vê-lo, a si, caro James, como outra personagem, se quiser mais próximo de John Marcher. Não fiquei desapontada, não se preocupe. Apenas entendi melhor a sua forma de estar. O alheamento face às coisas da vida, as coisas comuns. Descobri May Bartram em Constance Fenimore Woolson. Não se ofenda. Não o culpabilizo pela morte de Constance, mas julgo que só a sua amizade o poderia ter levado a escrever a “Fera”. É um símbolo, uma metáfora da sua relação com Constance, não é? Escusa de responder. Não sou a primeira a especular sobre a vossa amizade, não serei a última.
Ao contrário do que antevia, o senhor é estudado e lido à exaustão. O que não sucedeu então, vive-se agora.  

Jorge Luís Borges, um escritor que não teve ocasião de ler, compilou uma colecção de literatura fantástica e dedicou um volume inteiro à sua obra. Chamou-lhe, como um dos seus contos, “Os Amigos dos Amigos”. No prefácio desse volume, Borges considera-o, caro James, tão grande quanto Kafka, Kipling ou Tolstoi. Diria que, no mínimo, há um conforto neste sucesso póstumo porque a forma única de observação da sociedade, os enredos que congeminou e toda a sua arte, a sua paixão, deixam eco na história da Literatura.
Na minha primeira viagem a Veneza procurei a casa que Constance alugou, os cafés que frequentaram, visitei a Academia e os Ticianos. Pensei muito em si. Sei o quanto gostava de Itália. Compreendo agora como fugiu a uma viagem para não se confrontar com a sua amiga. Tenho procurado as obras dela, especialmente “Anne” de 1880, mas sem qualquer sucesso. Talvez não tenha pesquisado com o afinco devido. Confesso-lhe a minha imensa curiosidade. Não o acuso de inveja, já que ela teve algum êxito e vendas significativas numa época em que o senhor sofreu diferentes golpes terríveis. Não lhe escrevo para defender Constance. Contudo, depois de entender a relação que mantiveram ao longo dos anos, o facto de nenhum dos dois ter casado, e do senhor ter queimado a correspondência que trocou com ela, obrigando-a ao mesmo gesto, acredito que a “Fera” possa ter outro significado. Quer isto dizer que o senhor foi incapaz de amar? A paixão que o tomou foi a da Literatura e por ela abdicou de tudo o mais. Estou certa? Mais uma vez, não precisa de me responder.

Aguça a minha curiosidade o facto de saber que se encarregou a tempo de fazer desaparecer provas e pistas sobre a sua vida, a sua intimidade. Receava o quê? O escrutínio público e a devassa que tanto afectaram o seu contemporâneo e suposto rival, Oscar Wilde? Duvido. Estou convicta de que a sua personalidade assentava numa ideia de representação ou, se preferir, de efabulação da realidade, sem se confundir com as suas personagens, resguardando-se numa imagem discreta, elegante, sem ser sinuosa. Faz-me lembrar uma lição de outros tempos em que era pequenina: disse-me, então, o meu tio-avô, seu devoto, que nunca temos a percepção do que somos porque só nos vemos ao espelho. Só os outros é que nos vêem como somos, vêem as nossas acções, os nossos gestos, percebem a nossa linguagem corporal antes de nós. São os nossos olhos. A esta luz, pergunto-me se o senhor não quereria o sucesso literário, o reconhecimento público, o respectivo encaixe financeiro e ainda, e sempre, uma imagem de algum mistério. Ficaram famosas as suas queimadas, milhares de documentos que hoje fariam com que a sua história fosse possível de percorrer. Estamos no fio de arame, sem rede, no domínio da especulação, até certo ponto. É pena, garanto-lhe.
Não se preocupou com a efemeridade da sua obra e - deixe-me dizer-lhe - fez mal. Restam-nos os vinte romances que escreveu, cento e doze contos, doze peças de teatro e, ainda, alguns artigos de crítica literária. É pouco, terá de concordar.  Por outro lado, a sua aposta alta na Literatura rendeu. Antes de morrer, sem condições de tal cerimónia, foi-lhe entregue a Medalha de Ordem de Mérito de Sua Majestade. Estou certa de que se a lucidez permitisse, o gesto seria uma espécie de conclusão e conquista final. O senhor, caro James, não passou impune neste mundo. Quem sabe se passará nesse onde agora está. Como me disse uma vez Agustina Bessa-Luís, uma escritora portuguesa que acredita ser mais conhecida do que lida, daqui lhe mando um aceno de cabeça e lhe agradeço a gentileza de ter escrito para mim. Egoisticamente é o que me ocorre. Espero que não me leve a mal.
Cumprimentos.

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Al Berto

por Patrícia Reis, em 22.09.16



se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição

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Agustina Bessa-Luís

por Patrícia Reis, em 21.09.16

A paz não tem figura nem desejo absoluto; viver em paz não é viver; (...) a paz é um absurdo, como a realidade concreta é um absurdo que é preciso recriar para que se torne afecto do homem, obra sua.

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Arturo Pérez-Reverte

por Patrícia Reis, em 13.09.16

Amanhã, no âmbito do FIC (Festival Internacional de Cultura), entrevistarei Arturo Pérez-Reverte, ele que é o escritor espanhol mais traduzido (40 países), com cerca de 17 milhões de livros vendidos. Passei o verão a ler e a reler a sua obra, terminando com o novo livro Homens Bons (edições Teorema), uma aventura no século XVIII e, a propósito, várias considerações filosóficas da época sobre a luz e as trevas, a razão e a ciência, a fé e a religião, e até as mulheres e as suas coisas. Pérez-Reverte é um dos nomes grandes da Literatura e é, sobretudo, um homem livre, para muitos politicamente incorrecto, para outros corajoso e lúcido na forma como vê o mundo. Repórter de guerra durante 21 anos, este autor dedicou-se aos livros e à navegação, as duas artes que o salvaram. Será uma conversa e tanto e tenho quase a certeza de que falaremos de História, de memória (ou da falta dela), de xadrez, barcos e livros, muitos livros. Por isto e mais, tragam o corpo. É às 22h00 na Casa das Histórias Paula Rêgo em Cascais.

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