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Desleixo ou desinteresse

por Alexandre Guerra, em 14.11.17

Vinte e três Estados-membro da UE assinaram ontem a notificação conjunta para a instituição da Cooperação Estruturada Permanente (PESCO), um passo muito importante na tua almejada política de Segurança e Defesa europeia comum e pela qual Portugal se tem batido. Mas, com bastante surpresa, constatou-se que o nosso País não esteve no grupo fundador, ainda por cima sendo este um instrumento previsto pelo Tratado de Lisboa. É certo que se pode juntar mais tarde e que para já estamos apenas a falar de uma notificação, mas a verdade é que para a História, Portugal não esteve no grupo da frente, rompendo com a boa tradição da diplomacia portuguesa, de ter sabido sempre posicionar-se na vanguarda do projecto europeu. E que ilações se pode tirar disto? Das duas uma: ou desleixo nacional, por não se terem cumprido uns prazos quaisquer (segundo as justificações do próprio chefe da diplomacia nacional), ou desinteresse. Em qualquer dos casos, é lamentável que a diplomacia portuguesa, historicamente sempre de grande qualidade, desta vez não tenha percebido onde Portugal devia estar.

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Catalunha, uma reflexão sistémica

por Alexandre Guerra, em 12.11.17

A questão da Catalunha tem suscitado inúmeras análises, muitas delas com pertinência e qualidade, outras, nem tanto, visto serem motivadas por preconceitos ideológicos, onde se esgrimam argumentos cuja validade pouco interessa para a compreensão daquele problema. Então o que há a acrescentar ao que se tem escrito e dito? Na verdade, não é tanto aquilo que se pode acrescentar em termos de informação, mas sim a forma como se pode ler tudo o que está em causa, partindo-se de uma abordagem sistémica à luz da história. Muitas vezes, fazendo-se esse exercício, que é uma prática comum para quem estuda Relações Internacionais, chegam-se a modelos que nos permitem, dentro de um certo limite, encontrar algumas respostas ou antecipar dinâmicas de um conflito ou de uma crise. De pouco serve recuar um, dois ou até cinco anos para se chegar a um racional sólido. Esse, aliás, tem sido um dos vícios na forma como a questão da Catalunha tem sido abordada, gerando, por vezes, equívocos. Neste caso, é importante recuar um pouco mais atrás, à altura em que surge a consciência política das massas trazida pela Revolução Francesa, depositando no Povo e na Nação a legitimidade do Estado. Essas sementes florescem em força com os nacionalismos do século XIX, apesar da tentativa de controlo sistémico promovido no célebre Congresso de Viena de 1815 (que marca politicamente o início do século XIX), no qual se definiu o “direito das nações se organizarem politicamente como Estados soberanos (embora sempre sob a vigilância dos grandes impérios)”.

É importante notar que o nacionalismo catalão nunca fez parte deste jogo dos nacionalismos exacerbados europeus. No entanto, um pouco por toda a Europa, com mais ou menos intensidade, o choque entre os resquícios do absolutismo do antigo regime e as sementes da Revolução Francesa faziam-se sentir no confronto entre Estado absoluto versus Estado nação. E, de certa forma, com contornos específicos, foi a isso que se assistiu durante o século XIX também em Espanha. E aqui, a história dos nacionalismos acaba por surgir no final do século XIX, altura em que se assiste à emergência dos chamados nacionalismos periféricos, assentes, sobretudo, no desenvolvimento económico, mas também nas nuances étnicas, culturais e linguísticas de algumas regiões espanholas face a Castela. O País Basco e a Catalunha, as duas regiões mais avançadas no final do século XIX em Espanha, são os projectos mais evidentes, no entanto, com vocações completamente diferentes. Aqui, neste texto, interessa apenas o nacionalismo catalão, claramente “o arauto da modernização e do progresso contra o conservadorismo do regime de Madrid”, escreveu Maria Regina Marchueta na obra “Os Nacionalismos Periféricos em Espanha (Edições Duarte Reis, Lisboa 2002. Pref. Adriano Moreira)”, a sua tese de doutoramento do ISCSP e de leitura obrigatória para quem gosta deste tema.

A verdade é que até finais do século XIX, e ao contrário do que muito se tem escrito e dito, a questão dos nacionalismos em Espanha não existia, quer em termos conceptuais, quer em termos políticos. Madrid iniciou esse papel, já que a Catalunha perdeu muito do seu poder com a decadência do comércio no Mediterrâneo, ao mesmo tempo que Castela assumiu a “sua função directora, de perfil militar e religioso”, orientando o seu projecto histórico numa lógica religiosa de Reconquista. “O nacionalismo espanhol, ainda inexistente esta época, seria o resultado de um processo gradual, que se ia completando à medida que recebia as contribuições da implantação do sistema nacional de educação primária, da ampliação territorial do recrutamento militar, da extensão dos meios de comunicação e do próprio desenvolvimento da organização do Estado”, lê-se no livro de Marchueta.

Neste quadro e receando tornar-se “um mero apêndice de França”, a Catalunha “aposta então pela Espanha imperial, oferecendo-lhe, como contrapartida, uma armadura ideológica ao seu deficitário conceito e nação, ainda demasiado preso, quer de uma concepção política teológica, quer da visão racionalista dos direitos naturais”. Se, por um lado, Madrid vai construindo uma ideia de Nação “através da captação das forças vivas das províncias”, por outro, vê reforçada essa construção com a reacção acérrima às invasões napoleónicas por parte das regiões. É importante constatar que a independência nunca foi um objectivo da Catalunha, que optou sempre por gerir os seus interesses sempre dentro do Estado espanhol. Porém, que não haja ilusões, esta construção da nação espanhola é forçada, precisamente, pelos interesses, o que não quer dizer que não seja concreta nem efectiva. E também não quer dizer que as diferentes sensibilidades não subsistam. É precisamente neste período que a esquerda republicana se começa a instalar na Catalunha, claramente defensora de um federalismo regional, muito por oposição ao carlismo conservador enraizado nas populações mais rurais (ideias que irão, décadas mais tarde, estar em confronto na sangrenta Guerra Civil).

Maria Regina Marchueta identifica a “independência de Cuba, a rebelião das Filipinas e a derrota frente aos EUA” como factores “reveladores da extrema debilidade de Espanha” e que “supuseram um rude golpe na consciência colectiva do país”. Além disso, “a Catalunha, firme na convicção de ser a sede da riqueza nacional, denunciará o falhanço da política centralizadora de Madrid”. E é precisamente nos finais do século XIX que surgem os primeiros teóricos que dão corpo doutrinário ao nacionalismo catalão. Talvez o mais importante seja Eric Prat de La Riba, que no seu livro “La Nacionalitat Catalana” formulou o catalanismo como a afirmação da identidade histórica, cultural e económica da Catalunha, mas sempre dentro do Estado espanhol. O catalanismo propôs-se também a ser um movimento regenerador face ao poder conservador de Madrid.

Não obstante os devaneios de um ou outro aventureiro (e Carles Puigdemont pode ser incluído nessa categoria), se olharmos para a história política da Catalunha, constata-se que a independência nunca foi a questão central nem reclamada por aquela região, mas sim a autonomia ou o federalismo. Muito se tem falado na Constituição de 1978 e no Estatuto de Autonomia, mas, na verdade, foi a Constituição espanhola de 1931, com a implantação da curta e turbulenta II República, que abre caminho para a solução do problema regional. “A Constituição da II República constituía, assim, o original precedente da organização territorial do Estado, mercê do reconhecimento da realidade histórico-cultural da Espanha”, escreve Marchueta. É aqui que se institui a Generalitat e que em 1978 é recuperada. Entretanto, em 1932 era aprovado o Estatuto catalão, em 1933 o basco e em 1936 o galego. O que aconteceu a seguir, com a Guerra Civil e o franquismo, acabou por oprimir os nacionalismos periféricos e adormecer a esquerda republicana. A própria ideia de nacionalidade espanhola ficou associada ao projecto do Estado franquista.

A Constituição de 1978 pode ser vista, de certa forma, como uma solução inevitável para descomprimir a pressão exercida durante décadas sobre os nacionalismos periféricos. Poderá nunca ter criado as expectativas que a Constituição de 1931 provocara nos movimentos nacionalistas, já que estávamos perante um documento progressista elaborado num regime republicano, mas a verdade é que a Lei constitucional de 78 permitiu arrumar os nacionalismos periféricos dentro do Estado espanhol até hoje e, diga-se, sempre com uma certa ordem sistémica. E no que à Catalunha diz respeito, Jordi Pujol foi uma figura central na gestão desse equilíbrio, entre o projecto nacionalista moderado e conservador e o Estado espanhol. Pujol personalizou aquilo que tantos outros líderes catalães foram fazendo ao longo da história daquela região: gerindo os interesses e cinismos de uma nação, que nunca se viu verdadeiramente empenhada em lutar por ser um Estado independente, mas também que nunca aceitou ser um elemento passivo na construção do Estado nação espanhol. Uma das virtudes do actual modelo de autonomia é que tem permitido, precisamente, a coabitação entre diferentes correntes nacionalistas na Catalunha e o relacionamento estável com Madrid. E isso, com mais ou menos questão pelo meio, tem funcionado dentro daquilo que seria expectável num país como a Espanha.

Perante o que aqui foi escrito, ou Carles Puigdemont não fez a devida leitura histórica ou assumiu que o “seu” povo lhe iria dar o projecto de nação independente. Ora, o que hoje já se pode assumir com toda a certeza (e era óbvio), é que o povo catalão, no seu todo, não se revê nesse projecto de nação protagonizado por Puidgemont. Nem de perto nem de longe e quando assim é, não há processo de auto-determinação que chegue a bom porto. O princípio da nação independente assenta, antes de mais, numa vontade popular imensa e massificada em partilhar uma ideia comum. Esse desejo ardente e quase irracional do povo assumir os desígnios do seu futuro, ao ponto de dar a vida por isso, é uma espécie de combustível para qualquer processo disruptivo e de independência. A questão é que os ímpetos independentistas nacionalistas nunca pulsaram com essa intensidade na história catalã, mesmo em períodos difíceis e turbulentos. Se assim foi – e sem que as relações de força entre Madrid e Barcelona estivessem a viver momentos particularmente especiais –, por que razão achou Carles Puigdemont que a História lhe teria concedido o privilégio de estar a viver um tempo especial? Uma coisa é certa, são muitos aqueles que, consumidos pelo seu ego ou até mesmo delírio, se consideraram predestinados para fazer algo de grandioso e acabaram na sarjeta da História… ou em manicómios.

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Pensamento da semana

por Alexandre Guerra, em 04.11.17
Pouco iluminados e recompensados ficam aqueles que, por interesse cívico ou obrigação profissional, têm de acompanhar o que se vai escrevendo e dizendo por uma pseudo elite, cuja sua "sabedoria" resulta de uma vivência confinada ao micro-cosmos delimitado por escassos quilómetros quadrados no centro de Lisboa, onde os egos se retroalimentam em almoços de "trabalho" e para quem Rio de Mouro ou Massamá são uma espécie de enclaves onde vivem os indígenas nas palhotas. Quase nada acrescentam aqueles protagonistas que diariamente fazem opinião na imprensa ou nas "redes" a pavonearem-se e a darem ares de sofisticação, mas ricos na incoerência, ignorantes nos argumentos e arrogantes na disponibilidade de apreender o desconhecido no confronto de ideias. E a verdade é que quanto mais os temas fracturam, mais os preconceitos e radicalismos emergem, numa lógica de proselitismo contra aqueles que, no seu pleno direito e através de argumentos válidos, têm uma opinião diferente que desafie o pensamento dominante do status quo ou o autoritarismo do politicamente correcto. É por isso que aliar o saber dos antigos ao conhecimento contemporâneo, juntando-se-lhe a experiência do quotidiano do povo, com uma pitada de humildade e bom senso, talvez seja a fórmula correcta para se ter uma opinião ponderada e fundamentada sobre os assuntos da sociedade, em geral, e da política, em particular. 
 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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O camponês da Ventosa

por Alexandre Guerra, em 17.10.17

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Foto de Adriano Miranda/Público

 

Não está a chorar, mas parece que já chorou. E muito. Talvez as lágrimas já se tenham evaporado com o calor infernal das chamas. O seu olhar nada espelha. A alma deve estar vazia… É o olhar de um homem devastado, não pela vida, porque estes são homens duros, habituados às agruras da terra, e muito menos pela Mãe Natureza, com quem deverá ter tido uma relação feliz de muitas décadas. Não, quem o prostrou fomos todos nós, enquanto sociedade, enquanto colectivo social, enquanto Estado, enquanto Nação, enquanto Governo. Fomos nós quem quebrou o espírito daquele camponês da Ventosa e o fez chorar.
A vida foi-lhe poupada pelo capricho cínico das chamas, mas sobre si abateu-se um céu dantesco, como que a lembrar ao camponês que de nada lhe serve a prece que parece estar a fazer, porque ninguém vem em seu auxílio. Está entregue ao seu triste destino, condenado a vaguear e a morrer, um dia, esquecido e sem nada. Até lá, vai sendo traído pelas memórias felizes dos tempos das lides nas suas terras, no trato dos animais, na sua casa, nas suas humildes posses que durante uma vida tentou juntar. Quanto mais a dor se vai instalando no espírito do camponês, mais nós, todos, vamos esquecendo que um dia aconteceram duas calamidades extraordinárias no mesmo Verão, que ceifaram mais de 100 vidas e destruíram literalmente parte de um país. Vamos esquecendo que, por acção ou omissão, acabámos por ser responsáveis pelo “duplo atentado” terrorista que auto-infligimos ao nosso país. E vamos contemporizando com todos aqueles que, pelas inerências das suas funções, mais obrigações têm na resposta de conforto e ajuda àqueles que mais sofreram com tudo o que se passou.
O olhar do camponês da Ventosa, que nos é trazido pela lente do Adriano Miranda no Público, atinge-nos no âmago dos nossos valores e princípios civilizacionais, porque nos lembra que, afinal, aquele Portugal que está na moda, aquele Portugal sofisticado e que é uma "estrela" internacional, é o mesmo Portugal que se deixou destruir, que deixou os seus cidadãos desprotegidos, morrerem barbaramente nas estradas, nas aldeias e vilas. E que vergonha tenho deste Portugal...

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Paixão e sangue

por Alexandre Guerra, em 02.10.17

Este texto não pretende identificar os culpados por aquilo que se tem passado em Espanha, mas propõe-se a fazer uma leitura mais fria e racional, porventura, mais cínica e politicamente incorrecta dos acontecimentos em questão. Governo central, de um lado, e Generalitat, do outro, terão, eventualmente, razões várias para justificar os seus actos, o que não quer dizer que sejam legítimas ou até mesmo aceitáveis para um observador externo. Mas o que interessa mesmo é analisar a forma como os seus intervenientes olham para os argumentos apresentados por cada um dos campos em confronto. E, sobretudo, perceber-se até que ponto as ideias em confronto são de tal maneira mobilizadoras para que o povo saia à rua em “armas”, disposto a dar a vida pela independência. A secessão de uma região é nada mais menos do que uma questão de sobrevivência de um Estado, é um assunto literalmente de vida ou de morte. Fazer uma ruptura secessionista pacífica dentro de um Estado de Direito com um quadro institucional instituído é algo, por definição, contraditório. É um contrassenso, porque nenhum Governo aceita perder parte do seu território a não ser que tal solução lhe seja imposta pela persuasão da força. Tem sido assim ao longo da História. A “via negocial” é um eufemismo para aquilo que costuma ser a resignação forçada por parte de um Governo que, em determinada altura da sua história, seja obrigado a abdicar de parte do seu território.

 

O referendo da Catalunha foi uma farsa, não tanto pelo processo em si (totalmente descredibilizado), mas como elemento catalisador de uma independência que, a acontecer, deixaria a Espanha prostrada. Um movimento destes, que infligiria um rude golpe na existência daquele Estado, dificilmente aconteceria sem paixão e sangue. O que aconteceu no Domingo foi mais um espectáculo mediático, numa sociedade ocidental já pouco habituada a fracturas sangrentas no seu seio no que a nacionalismos diz respeito. Falou-se do excesso de violência no dia do referendo, com aquelas imagens sentimentais que hoje em dia facilmente se propagam pelas redes sociais, do polícia a ser abraçado pelo cidadão ou da manifestante a oferecer uma flor a um agente da autoridade. Pelo meio, mostram-se umas cabeças partidas ou uns arranhões e está feita a encenação para as manchetes dos jornais. Pois a leitura que se deve fazer é precisamente a contrária, ou seja, para o caldeirão que estava a ser criado, e tendo em conta o histórico de sangue da história espanhola, a violência foi praticamente inexistente (e ainda bem). A maior parte dos oitocentos feridos ou são ligeiros ou são ataques de ansiedade.

 

A independência de uma região é coisa séria, não vai lá com likes no Facebook, tweets ou “manifs” de jovens urbanos e elites intelectuais que abraçam uma causa que nem eles próprios compreendem o seu alcance. E não vai lá com líderes que não percebem que nem todo o povo está com eles nos intentos secessionistas. Avançar com uma “brincadeira” destas é de uma irresponsabilidade quase criminosa, porque acaba por criar clivagens dentro da própria sociedade, neste caso a catalã. A independência de uma região deve ser sempre um acto civilizacional, de progresso, de crença positivista nos direitos humanos e nunca um processo de burocracias políticas e judiciais ao serviço do capricho de alguns. A independência é o fim último, almejado para que um povo alcance um estádio de libertação com vista ao bem comum. E tal só pode acontecer com muito sacrifício, crença, empenho total e, muito importante, com a inspiração dos seus líderes. Alguém acredita que o senhor Carles Puigdemont estaria disposto a dar a vida pela independência da Catalunha? Poderá ser exagerada esta questão, mas a verdade é que no passado já tantos outros deram as suas vidas para ver os seus territórios independentes (e não se está a falar de um passado assim tão distante, mesmo na Europa). A História tem demonstrado que uma independência só se consegue com paixão e sangue. E isso os catalães demonstraram no Domingo que não estão dispostos a dar.

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Crianças

por Alexandre Guerra, em 28.09.17

Tudo tem a sua escala. Quando uma mãe, um pai, está no parque infantil com o seu filho ou filhos, normalmente, deixa-os à vontade, naquele espaço controlado, onde os seus ocupantes têm o mesmo código de “conduta” e lógica de discurso (na verdade, ausência dela) e são livres de fazer as diabruras que lhes são permitidas pela tenríssima idade. Os adultos, de longe, vão “deitando o olho” para assegurar que os disparates não ultrapassam os limites aceitáveis e desculpáveis para aquelas pequeninas amostras de gente. Caso o façam, não tendo bem a noção das consequências, de imediato os pais intercedem e males maiores são evitados. No final, todos vão para casa contentes sem danos a reportar. Com alguma sorte, é precisamente isso que se passa entre Donald Trump e Kim Jong-un, ou seja, duas crianças a disparatar no “recreio”, enquanto os “adultos” (espera-se) vão controlando os comportamentos para que nenhum deles cometa a infantilidade de carregar no “botão”. E quem são esses adultos? O aparelho em Washington, as estruturas e sub-estruturas das instituições americanas e também a gente responsável e com senso que está nas chancelarias de Pequim e Moscovo. E, sabe-se lá, se no meio do esquizofrénico regime de Pyongyang não haja alguém na cúpula do poder dotado de uma clarividência já (pelo menos) na idade juvenil.

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Vencer com paixão

por Alexandre Guerra, em 09.09.17

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No desporto há dois tipos de vencedores: aqueles que, de acordo com as suas competências e capacidades, vão gerindo a sua carreira de forma metódica e cuidada, com muito trabalho e empenho, apoiando-se e confiando numa equipa para alcançar os seus êxitos; e há aqueles que, para lá disso tudo e do talento que é sempre preciso ter, emanam uma forte paixão, uma estética intangível, uma irreverência e um espírito combativo destemido, muitas vezes em desafios quase condenados ao fracasso. São aqueles atletas que arriscam sempre, que vão contra tudo e contra todos. São aqueles atletas que emocionam, que fazem sonhar, que levam crianças e adultos a chorar pelos seus feitos ou desaires. Alberto Contador é um desses atletas. O que se viu este Sábado na penúltima e decisiva etapa da Vuelta na subida ao mítico Alto do Angliru foi grandioso e memorável, daqueles momentos que ficam na memória de todos os que gostam de desporto, em geral, e de ciclismo, em particular. Era o último desafio de Contador antes de terminar a sua carreira, com o fim da Vuelta este Domingo. Ele sabia que tinha de chegar em primeiro ao topo do "inferno" do Angliru. Todos nós esperávamos isso, como se tratasse de um final épico cinematográfico. Contador atacou logo ao início da subida e foi passando por todos os ciclistas à sua frente. Paixão, sacrifício, talento, arte... deixou tudo na estrada, ao mesmo tempo que era retribuído pela euforia de milhares de pessoas em delírio. No fim, ganhou. O desporto assim, é simplesmente belo.

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Como é possível não gostar do "General Lee"?

por Alexandre Guerra, em 18.08.17

Quantas horas passadas frente à televisão a ver os primos Duke a fazer as suas travessuras em Hazzard County ao volante do "General Lee". A questão é que na América de hoje, muito provavelmente, esta série não passaria no crivo dos puritanos de serviço.

 

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Uma obrigação cívica

por Alexandre Guerra, em 13.08.17

Estranho país este, onde metade está a banhos e a outra metade se auto-destrói. Dizem que a culpa é do calor e do vento, mas, de acordo com os dados divulgados há dias pelo Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais (EFFIS) da Comissão Europeia, desde 1 de Janeiro até 5 de Agosto, arderam quase 140 mil hectares em Portugal, ou seja, mais de um terço de toda a área ardida nos países da União Europeia nesse mesmo período. É a falência do Estado na protecção do seu território perante uma "ameaça" que nos destrói. O Inferno veio passar o Verão a Portugal e, confortavelmente, vai-se passeando por montes, serras, vales e aldeias. Para trás, fica a terra queimada e, em lágrimas, os despojados dos bens de toda uma vida. É certo que estamos em período estival, pouco convidativo a grande reflexões, mas tudo isto é demasiado triste para não deixarmos de pensar no país que vamos deixar aos nossos filhos e netos. É uma obrigação cívica.

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Amazing... Aos 35 anos e ainda por cima a correr na pista 8 (das piores), Justin Gatlin sagra-se campeão do mundo dos 100 metros no Estádio Olímpico de Londres. O que foi também impressionante, mas pela negativa, foi ver os tão cosmopolitas londrinos a assobiarem e a vaiarem Gatlin das três vezes que foi à pista para as eliminatórias e final. Tratado como se fosse um proscrito. Lamentável aquilo que lhe fizeram mal cortou a linha de meta ao vencer a medalha de ouro. Em tantos anos que acompanho eventos deste género nunca tinha visto nada semelhante. Foi um comportamento vergonhoso com alguém que, apesar de ter caído nas malhas do dopping há uns anos, cumpriu o seu longo castigo de suspensão e teve direito a recomeçar a sua carreira. Uma sociedade que não percebe nem respeita este princípio basilar de um Estado de Direito, é porque está doente.

 

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Fazer o papel de Deus

por Alexandre Guerra, em 03.08.17

Um homem, uma mulher... Um casal quer ter um filho, mas um deles tem uma doença crónica hereditária, ou seja, uma deformação genética que vai passando de geração em geração. São inúmeras as doenças e os dramas... Mas, imagine-se que, numa espécie de milagre da Criação, os cientistas arranjam forma de reprogramar o ADN do embrião do tão esperado filho. E uma criança que, muito provavelmente, poderia "herdar" a doença dos progenitores tem agora pela frente toda uma vida saudável. Foi o advento dessa revolução biotecnológia que a revista Nature ontem anunciou. Qual é a questão disruptiva em tudo isto? É que, para muitos, o papel de Deus está reservado apenas ao próprio.

 

PS: Já agora, e passando a auto-promoção, recupero um post do Pedro Correia no qual, simpaticamente, recomendou o meu livro lançado em Novembro passado, que, precisamente, aborda estas temáticas.

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John McCain

por Alexandre Guerra, em 28.07.17

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Há uns dias Barack Obama referia-se a John McCain como um herói americano e um dos mais corajosos lutadores que conheceu. E num acto de força e encorajamento, o ex-Presidente escrevia no Twitter que o "cancro não sabia com quem se tinha metido", numa alusão ao tumor cerebral diagnosticado a McCain. Eu só posso subscrever as palavras de Obama, sobre um homem e político republicano que tenho acompanhado ao longo dos anos e que, acima de tudo, foi sempre fiel aos seus valores e princípios. Herói de guerra, nunca se deixou enlamear pelas guerras intestinas partidárias do Congresso, em defesa daquilo em que acredita e sempre a pensar no superior interesse dos seus concidadãos. Ontem à noite, McCain voltou a ser um herói e um lutador ao votar ao lado dos democratas contra o desmantelamento do Obamacare, um dos mais importantes saltos civilizacionais da sociedade americana das últimas décadas. Ele e mais as colegas Susan Collins e Lisa Murkowski desafiaram a "disciplina partidária" tão cegamente seguida em Portugal e foram contra o seu próprio Partido Republicano. No final, a votação no Senado ficou 51-49 a favor da manutenção do Obamacare. Coube a McCain o voto decisivo e é nesses momentos em que se definem os bravos lutadores, que se desprendem de interesses e conivências em benefícios egoístas, para assumirem um combate duro, muitas vezes solitário, em prol de um bem maior.

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Do sublime ao grau zero

por Alexandre Guerra, em 23.06.17

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Através da lente de João Silva, vê-se Ken Oosterbroek, morto durante os incidentes de Tokosa, África do Sul, a ser carregado pelo seu colega Gary Bernard/18 de Abril de 1994

 

Durante algum tempo, quando era mais jovem e iniciava o meu percurso universitário no curso de Relações Internacionais, tive um recorte de jornal com esta fotografia colado na parede do meu quarto. A imagem abria uma janela para realidades dramáticas, mas ao mesmo tempo alimentava-me o sonho que um dia ambicionava concretizar. Muito por inspiração do meu pai, poucas dúvidas tinha na altura de que iria ser jornalista. Mas ao contrário dele, a minha paixão puxava-me para a área do jornalismo de internacional (o que veio a acontecer). A política nacional pouco me interessava, o que eu queria mesmo era acompanhar as grandes questões do mundo e lançar-me ao desafio supremo: ser repórter de guerra. No âmbito da política internacional, ainda tive o privilégio de fazer umas coisas engraçadas, para lá do tradicional jornalismo de takes da Reuters, da AFP ou da AP, e quanto a reportagem de guerra, tive a oportunidade de passar o primeiro verão explosivo da intifada de al-Aqsa na Palestina e Faixa de Gaza (jornalistas portugueses nem vê-los). Rebentavam bombas todas as semanas em Telavive e Jerusalém e os “territórios ocupados” viviam a ferro e fogo, sob o cerco das Forças de Segurança Israelitas. Voltei lá no ano seguinte por uns dias, quer a Gaza, quer a Ramalhah e, por coincidência, apanhei o bombardeamento à Mukata de Yasser Arafat.

 

Voltando à fotografia, ela lembrava-me também que os verdadeiros jornalistas de guerra (e não aqueles que dizem que são) podem às vezes ser eles as próprias vítimas das “histórias” que cobrem, mas mesmo assim sem nunca perderem o seu sentido profissional e, sobretudo, de missão. Os lamentos e os choros ficam para depois. Mas afinal o que se vê nesta fotografia? Vê-se o fotojornalista Ken Oosterbroek a ser carregado pelo seu colega Gary Bernard, depois de ter sido morto num fogo cruzado entre elementos da força de manutenção de paz e apoiantes do ANC na cidade sul-africana de Tokoza, a 18 de Abril de 1994, poucos dias antes das primeiras eleições livres pós-Aparheid. Só que esta imagem, de certa maneira icónica pelo que representa, só é possível vê-la porque naquele momento lá estava João Silva, fotojornalista luso-sul-africano, que, perante a morte do seu amigo, manteve o sangue-frio e, refugiando-se atrás da lente, fez aquilo que tinha que fazer. O seu trabalho.

 

Morria assim um dos quatro elementos do famoso Bang Bang Club que, além de Silva e de Oosterbroek, contava ainda com Kevin Carter e Greg Marinovich. Autênticos companheiros, destemidos repórteres de guerra que durante anos trouxeram ao mundo os horrores dos conflitos através das suas lentes. Os quatros fotojornalistas, todos eles premiados, cobriram juntos a violência na África do Sul durante vários anos até 1994, ano das eleições que deram a vitória a Nelson Mandela e que puseram fim ao regime de Apartheid.

 

A violência e a pressão psicológica a que estiveram expostos, ao longo de quase toda uma vida profissional, e os acontecimentos dramáticos de Tokoza, acabaram por levar ao suicídio de Carter, logo em Julho de 1994. Mais tarde, em 2000, Silva e Marinovich lançaram o livro The Bang Bang Club: Snapshots from a Hidden War, no qual os dois fotojornalistas espelharam as suas experiências, angústias e medos. Mas o sofrimento no seio do "clube" continuou, tendo João Silva, durante muitos anos fotojornalista no New York Times, sofrido um grave acidente em Outubro de 2010, ao pisar uma mina durante uma patrulha de soldados americanos em Kandahar. As suas duas pernas abaixo do joelho ficaram estilhaçadas, mas a sua máquina continuou a disparar. Com um enorme espírito de sacrifício e a ajuda de próteses fornecidas pelo Exército americano, João Silva recuperou, voltou ao activo e até o próprio Barack Obama fez questão de o receber na Sala Oval.

 

Perguntará o leitor a que propósito escrevo este texto. Escrevo-o porque, acima de tudo, considero que o (bom) jornalismo, seja ele de guerra, de sociedade ou de cultura, é essencial para termos uma sociedade livre e democrática. O que acima escrevi contempla uma ideia genérica de princípios concretos que devem nortear o jornalista. Sacrifício, coragem, inteligência, humildade, camaradagem, bom senso, princípios que se deveriam aplicar no quotidiano de qualquer jornalista, seja aquele que esteja a tentar entrar em Raqqa, como aquele que faz a cobertura de um assalto numa bomba de gasolina em Odivelas ou aquele que acompanha um comício de uma qualquer campanha eleitoral. São princípios orientadores de uma profissão que se quer sublime, mas que, infelizmente, em Portugal, chegou ao grau zero. É um exercício penoso e lamentável, para quem, como eu, e por força das circunstâncias profissionais, se vê obrigado a acompanhar quase ao minuto tudo o que se vai dizendo ou escrevendo nos órgãos de comunicação social, tudo o que os “jornalistas” vão twittando ou postando no Facebook, perdendo a compostura e a noção de respeito pela sua própria profissão, toda a arrogância e vaidade camufladas de pseudo-sabedoria. Mas é nestes momentos que gosto de voltar a olhar para a fotografia de João Silva e relembrar a história do Bang Bang Club para continuar a acreditar que ainda há jornalistas dignos desse privilégio.

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Incêndios, uma questão de soberania nacional*

por Alexandre Guerra, em 19.06.17

Dizem os manuais de Ciência Política que os elementos constitutivos do Estado são três: Governo, Povo e Território. Este tríptico assume um estatuto quase divino a partir do momento em que a integridade e a inviolabilidade de cada elemento são essenciais para a manutenção da soberania de um Estado. Um Estado que veja ameaçado o seu Território, o seu Povo ou o seu Governo, é um Estado que se vê ameaçado a si próprio, que vê ameaçada a sua soberania. É verdade que as fronteiras da soberania têm revelado uma enorme elasticidade, levando a que os Estados redefinam historicamente os conceitos de interesse e de defesa nacional. No entanto, nos Estados ditos ocidentais, qualquer ameaça que recaia sobre um daqueles três elementos deve ser vista como contrária ao interesse nacional e um perigo para a defesa nacional.

Daqueles três elementos, talvez o do Povo e o do Governo tenham sido os mais imutáveis desde a antiguidade clássica. Na verdade, os seus conceitos pouco se alteraram e, como tal, também as suas ameaças. Já o conceito de Território tem sofrido várias mutações ao longo da história dos Estados. O Território enquanto mera delimitação geográfica já faz pouco sentido em países como Portugal, integrados em zonas geopolíticas estáveis e consolidadas. Ou seja, perspectivar a ameaça com base neste princípio é um exercício obsoleto.

Se durante muitos anos, décadas e até séculos, Portugal teve parte do seu dispositivo militar colocado no terreno em função da fronteira com Espanha, ora, hoje em dia, nada disso faria sentido. Mas isto não quer dizer que o Território tenha perdido peso no tal tríptico divino aqui referido. Pelo contrário. O conceito evoluiu à medida que as sociedades evoluíram. O Território deixou de ser um assunto de fronteiras. Hoje, o Território é, mais do que tudo, o património do País, a fonte de recursos naturais (minérios, água, petróleo, alimentos, madeira, entre outros).

Da mesma maneira que a violação física de uma fronteira de um País era imediatamente tida como uma ameaça à soberania nacional – tendo por isso os Estados adoptado mecanismos permanentes para fazer face a essa realidade –, hoje esse princípio aplica-se numa lógica diferente: o desvio de um curso de água, a destruição de culturas, a apropriação ilegal de recursos minerais (diamantes, petróleo, entre outros), o comércio ilegal de madeira, etc. Quanto mais vitais são aqueles recursos para os Estados, mais o interesse nacional está em jogo e, consequentemente, os respectivos mecanismos de prevenção, protecção e reacção.

 

 

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“Enough is enough”, disse May. Mas só agora?

por Alexandre Guerra, em 05.06.17

Na ressaca de mais um atentado terrorista em Londres, Theresa May, confrontada com aquilo que de pior pode acontecer a um líder político – que é o de não conseguir garantir a segurança dos seus concidadãos –, disse uma coisa extraordinária e reveladora da impotência da chefe de Governo na luta antiterrorista que, como se sabe, é sobretudo feita ao nível da prevenção. “Enough is enough”, disse May à porta do Nº 10 de Downing Street, palavras que só podem causar estranheza pelo timing em que foram proferidas, se atendermos ao histórico sangrento do Reino Unido em matéria de terrorismo. A ideia que transparece é que só agora May chegou à conclusão de que “já é de mais” toda esta violência, que havia uma linha vermelha que só agora foi cruzada pelos terroristas islâmicos. Só agora? Um desastre completo em matéria de “public relations”, já para não falar nas acusações disparatadas às grandes empresas tecnológicas, por, supostamente, permitirem “safe space” para os terroristas difundirem a sua propaganda ideológica através das várias plataformas da Internet.

A questão é que, provavelmente, gigantes como a Google ou a Facebook têm feito muito mais dentro das suas competências e possibilidades do que o Governo liderado por May em matéria de contra-terrorismo. "Blaming social media platforms is politically convenient but intellectually lazy", dizia à BBC News a este propósito, Peter Neumann, director do International Centre for the Study of Radicalisation (ICSR) no King's College de Londres. É claro que muito mais pode ser feito por estas empresas na restrição do acesso por parte dos terroristas às suas plataformas, mas a questão que deve ser ponderada pelas agências anti-terroristas e forças de segurança britânicas é se a estratégia que está a ser seguida é a mais indicada. Existem muitas dúvidas em relação a essa matéria e, apesar de Theresa May já ter anunciado que vai rever a estratégia global contra-terrorista, neste momento, não parece estar à altura dos acontecimentos e vamos ver até que ponto isso não se irá reflectir nos resultados das legislativas de Quinta-feira.

Convém, aliás, não esquecer que May foi Secretária da Administração Interna entre 2010 e 2016, tendo Jeremy Corbyn, líder do Labour, acusado-a de nesses anos ter cortado no financiamento às polícias. A Sky News mostrava esta Segunda-feira de manhã um gráfico arrasador para May, em que mostrava um decréscimo anual do número de polícias durante os anos em que tutelou a Administração Interna. O mesmo Corbyn, juntamente com o líder dos Democratas Liberais, Tim Farron, pressionaram ontem à noite a primeira-ministra para divulgar um relatório sobre os supostos financiamentos aos movimentos jihadistas que operam no Reino Unido. Um documento que devia ter sido apresentado na Primavera do ano passado, mas que até ao momento não saiu da gaveta, tendo, entretanto, o Governo informado que ainda não está pronto para ser divulgado. O problema é que esse relatório incide sobre a Arábia Saudita, um país a quem o Reino Unido vendeu nos últimos dois anos cerca de 3,3 mil milhões de libras em armamento.

Numa altura em que o Reino Unido precisa de um líder forte para enfrentar um dos períodos mais difíceis da sua história moderna, May está demasiado frágil para levar por diante essa combate que é preciso travar. E se na Quinta-feira não conseguir obter, pelo menos, uma maioria com 12 deputados de diferença – que é aquela que existe actualmente, herdada de David Cameron –, a sua força política ficará comprometida e os terroristas verão nisso uma oportunidade para espalhar ainda mais terror.

 

Texto publicado originalmente no Diplomata.

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O que eu senti (25 anos depois)

por Alexandre Guerra, em 03.06.17

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Foto: Nuno Ferreira Santos/Público 

 

Senti sempre no hard rock um acto de libertação, de rebeldia, de excessos. Além do género musical propriamente dito (de que sou enorme fã), sempre associei o hard rock a um estilo de vida irrequieto, um desafio aos cânones tradicionais da sociedade e ao politicamente correcto. E sempre vi no hard rock um meio de confronto saudável em democracia ao poder instituído. Sempre me identifiquei com isso, talvez por sempre preferir os inconformados aos resignados, os rebeldes aos acomodados, os críticos aos silenciosos, os irreverentes aos submissos, os temperamentais aos indiferentes, os apaixonados aos calculistas.

As super-bandas de hard rock, de uma maneira de ou outra, personificaram esse espírito. Depois dos quatro meninos bem comportados de Liverpool, o contraste não podia ser maior, quando no final dos anos 60 surge Jimi Hendrix, o artista rock por excelência em toda a sua plenitude, fosse na sua arte, na forma como se apresentava em palco, fosse na forma como vivia (excêntrica e excessivamente) em sociedade. Morreu cedo, mas inspirou todos os grandes homens do rock que se lhe seguiram. Para a história fica a célebre interpretação de Star Spangled Banner (o hino nacional dos EUA), apenas ao som da sua Fender Strato, naquela manhã do Festival de Woodstock, num acto claramente de provocação e protesto em nome de uma América revoltada com o poder político. O hard rock é o único estilo musical que desempenhou esse papel, reservado apenas àqueles que são o produto genuíno em palco e fora dele. E, sobretudo, que assumem de forma destemida esse papel.

Os Guns N’Roses foram a última dessas grandes bandas. Quando surgiram no final dos anos 80 chocaram pela sua ousadia e até perversidade. Para a história fica também aquela actuação nos MTV Music Awards de 1988, quando o mundo vê em directo Axl, Slash e companhia, com botas por fora das calças de cabedal, ostentando adereços de todo o tipo, provavelmente com alguma droga e muito álcool à mistura, a cantarem músicas de chocar e arrasar. A ingenuidade dos anos 80 (deliciosos, note-se) acabara ali. Excederam-se em tudo, mas em tudo mesmo. Criaram o Appetite for Destruction que tinha tanto de genial como de destrutivo. Foi um “turning point” para o hard rock no final dos anos 80. Mas foi mais do que isso, foi um abanão ao status quo das cores florescentes e dos yuppies.

Na altura, os GNR pegavam-se com tudo e com todos e até os Metallica chegaram a dizer que era insuportável andar em tournée com eles. Por onde passavam, era como se um furacão por lá tivesse andado, mas uma juventude em todo o mundo aclamava-os e identifica-se com o que representavam. Quando em 1992 aterraram no velho Estádio de Alvalade, na companhia dos Soundgarden de Chris Cornell e dos Faith No More de Mike Patton, estavam no auge da fama e da loucura. Não havia limites para aqueles senhores e era precisamente essa ideia que nos contagiava a todos. Eu, como tantos outros jovens que lá estávamos, vivíamos uma espécie de histeria colectiva, numa idade em que o importante era embarcar nos impossíveis. No final, foi o que se sabe. E isso também ficou para a história, porque, a verdade é que ninguém esqueceu esse concerto.

Vinte e cinco anos depois o impensável aconteceu. Sobre o (brutal) concerto em si não vou estar com grandes análises, basta ler as várias críticas que foram publicadas este Sábado e logo se percebe porque razão os GNR foram a banda que mais lucrou no ano passado em concertos. É outro nível, é outro estofo em relação aos demais “players” que por aí andam. Provavelmente, o Passeio Marítimo de Algés não voltará a ter uma banda desta magnitude carismática a actuar por ali.

Quando vivemos numa sociedade cada vez mais igual e monótona em termos de mainstream, regida pela ditadura do politicamente correcto, quase que numa lógica asséptica ao nível de pensamento e costumes, é um conforto para a alma ver uma banda de hard rock à séria a partir a “louça toda”. Axl, Slash e Duff juntos são um tónico de rebeldia e de adrenalina. Os “meninos” ficaram em casa na Sexta-feira à noite, mas no Passeio Marítimo de Algés estiveram lá 57 mil que, de uma maneira ou de outra, têm algo dentro deles que os inquieta. E é sempre bom saber que não estamos sozinhos.

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The Art Of Slowing Down

por Alexandre Guerra, em 31.05.17

Arte, o único tema com direito a vídeo até ao momento. Grande malha.

 

Há uns dias, o agente do Slow J tinha-me perguntado se eu tinha gostado da “cena”. A “cena” a que ele se referia era o The Art Of Slowing Down (TAOSD), o novíssimo álbum de estreia do sadino João Batista Coelho, conhecido no mundo musical como Slow J. Eu não só gostei imenso da “cena”, como acho (a crítica ficou rendida) que estamos perante uma das melhores "cenas" feitas nos últimos anos em Portugal. É muito raro a música nacional oferecer-nos criações verdadeiramente inovadoras e disruptivas. É certo que há muita coisa com qualidade no mercado português, mas poucas merecedoras de um estatuto superior.  

 

“Eu estou aqui para fazer música nova”, disse há umas semanas este jovem de vinte e poucos anos numa entrevista ao Público. E fê-lo. Hip hop, R&B, rock, pop, electrónica, fado, semba, jazz, estão lá todos estes estilos, conciliados de uma forma irreverente e selvagem e ao mesmo tempo ordeira e precisa. É um daqueles álbuns que ouvimos com um prazer imenso na tranquilidade do lar, pela sua criatividade, pela sua qualidade, pelo rigor na produção. As letras cruas e acutilantes atingem-nos na alma.

 

(Ainda) Longe do panorama mainstream, Slow J estudou Engenharia de Som em Londres e demorou três anos a fazer este álbum. Ele já tinha criado algum buzz nos meandros da música nacional em 2015, aquando do lançamento do EP The Free Food Tape. Mas, agora, com o lançamento do álbum TAOSD, o nível é outro. Numa época de produção cultural massificada e de consumo imediato sem grande filtro crítico, é uma satisfação ver que há artistas que se entregam de corpo e alma à verdadeira criação artística.

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O discurso de Merkel

por Alexandre Guerra, em 29.05.17

O discurso de Angela Merkel proferido este Domingo num comício para 2500 pessoas em Munique é daqueles que poderá ficar para a História da construção europeia. Não se pode dizer que tenha passado despercebido à imprensa internacional, porque, que se recorde, é a primeira vez que se vê a chanceler alemã a pronunciar-se de uma forma tão assertiva para a necessidade dos europeus contarem com eles próprios e não estarem dependentes dos “aliados” tradicionais, em referências directas aos “afastamentos” dos EUA e do Reino Unido. Ao dizer que a União Europeia tem que “tomar o futuro pelas suas próprias mãos”, Merkel está na prática a assumir que está na hora dos líderes europeus começarem a pensar seriamente na criação de uma efectiva política europeia de defesa e segurança, algo que não existe neste momento. É certo que existem muitas proclamações políticas e alguns mecanismos, mas nada perto daquilo que poderá garantir a defesa física da Europa como um todo perante uma ameaça externa. E nesse ponto é importante não esquecer que a NATO continua a ser a única organização com essa capacidade de resposta, ou seja, com a agilidade de mobilizar forças de diferentes países sob um único “badge” (comando). Em termos de meios militares, a NATO propriamente dita tem uns aviões AWACS (que vão reforçar a sua acção na recolha e partilha de informação entre todos os Estados-membro da Aliança), alguns quartéis-generais e pouco mais, no entanto, tem uma experiência acumulada de décadas, que lhe permite reagir a diferentes ameaças e em diferentes cenários através da interoperacionalidade oleada das forças dos diferentes países colocadas ao serviço NATO. Na prática, a NATO tem sido a estrutura comum da defesa europeia e até há poucos anos o território europeu tinha o exclusivo da sua acção.

 

Não é mentira quando Trump enfatiza o desequilíbrio das contribuições financeiras de cada país aliado para aquela organização. É um facto histórico com origens conhecidas no surgimento da Guerra Fria e que durante muito tempo serviu os propósitos norte-americanos na lógica do sistema bipolar, onde parte da Europa era claramente uma área de influência sob o “guarda-chuva” de Washington. Desde o fim da ameaça do Exército Vermelho sobre a Europa que a discussão sobre a Defesa do Velho Continente tem sido recorrente, nomeadamente ao nível do investimento que é preciso ser feito por cada país. Concomitantemente, várias administrações em Washington têm, ao longo dos anos, lançado avisos à Europa para que começasse a investir mais na Defesa e no orçamento da NATO. Por várias vezes, e sobretudo em momentos de crise, política ou militar, líderes europeus vieram para a praça pública falar entusiasticamente na necessidade da Europa começar a gastar mais na sua Defesa. Chegaram a ser ensaiados alguns projectos comuns, mas que nunca se concretizaram. Por isso, aquilo que Merkel disse no Domingo não é propriamente novo no conteúdo nem na forma. A verdadeira novidade foi ter sido Merkel a dizê-lo, sobretudo no tom particularmente firme em que o disse. É certo que estava influenciada pelo ambiente pouco diplomático provocado por Donald Trump nas cimeiras da NATO e do G7, mas para a chanceler ter assumido uma posição daquele calibre é porque a mesma deverá vir acompanhada de uma política firme nos próximos tempos.

Merkel foi a primeira líder europeia a assumir uma divergência desta magnitude com a administração Trump. Em causa estão valores fundamentais para a Europa, como são as alterações climáticas, mas é preciso não esquecer que, à margem da cimeira da NATO, o Presidente americano tinha ameaçado restringir as importações de carros alemães para os EUA. Nestas coisas da política internacional, e ao contrário do que muita gente possa pensar, as relações pessoais entre líderes podem fazer toda a diferença no adensar ou no desanuviamento de uma potencial situação de escalada político-diplomática. Neste caso, admite-se que a convivência entre os dois, primeiro em Bruxelas e depois em Taormina, não tenha corrido pelo melhor. Acontece. Agora, é preciso que nos corredores da diplomacia sejam encetados esforços no sentido de se manterem os canais de comunicação abertos entre Berlim e Washington, porque, uma coisa é certa: a Europa não está em condições de caminhar sozinha em matéria de Defesa e vai continuar a depender do envolvimento dos EUA na NATO durante muitos e longos anos. Por outro lado, Trump não deve esquecer, nunca, que apesar de todas as diferenças, é com a Europa com quem os EUA partilham os valores basilares da democracia e do liberalismo que norteiam a sua democracia e sociedade. Além disso, Trump também não se deve esquecer de um conceito muito importante e desenvolvido há uns anos por Robert Keohane e Joseph Nye, o da interdependência complexa. E neste aspecto, EUA e Europa estão ligados um ao outro como dois siameses.

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642

por Alexandre Guerra, em 23.05.17

O terrorismo, sob as suas diversas formas, é um fenómeno que esteve sempre presente na Europa. Se formos a ver bem, o rastilho da I Guerra Mundial é aceso com um acto terrorista. Ao longo das décadas posteriores, o Velho Continente foi assistindo à emergência de vários grupos terroristas, com inspirações ideológicas várias e objectivos circunscritos a uma específica realidade, mas nunca estando em causa a ameaça generalizada a um determinado estilo de sociedade ocidental. Mesmo movimentos terroristas muçulmanos (alguns ligados à causa palestiniana) que surgiram nos anos 70, 80 e 90 tinham nas suas “declarações de guerra” fins muitos bem definidos que pouco ou nada tinham a ver com a destruição do modo de vida ocidental.

 

A Globalização que ganha força no início dos anos 90 após a queda do sistema bipolar das Relações Internacionais veio tornar o mundo mais igual, mais “flat” (pedindo emprestada uma expressão a Thomas Friedman), mas este movimento acaba por criar um paradoxo. Porque, se, por um lado, vai tornando o mundo cada vez mais interdependente e comunicativo entre os países, culturas e religiões, por outro, vai realçando as fracturas dos diferentes paradigmas de sociedade, criando fricções ou, se preferirmos, os tais “choques” de civilizações de que Huntington falava.

 

Se é verdade que Huntington identificava zonas geográficas claras de confronto entre civilizações, o terrorismo global fundado por Osama bin Laden acabaria por levar esse “choque” para as ruas de cidades como Nova Iorque, Paris, Bélgica ou Londres. A al Qaeda é a primeira “multinacional” do terrorismo, com “franchisados” em quase todo o mundo, e a partir desse momento vai inspirando cada vez mais seguidores. Os ataques de 11 de Setembro de 2001 a Nova Iorque e a Washington são uma espécie de “apresentação” hollywoodesca ao “mercado”, sendo que já antes a al Qaeda tinha actividade e era sobejamente conhecida das autoridades, mas totalmente desconhecida do grande público e jornalistas. As imagens dos aviões a embater nas Torres Gémeas a sua consequente queda foram de tal maneira impressivas, com quase três mil mortos, que a al Qaeda ganhou a tal notoriedade que pretendia para poder mobilizar, recrutar e inspirar milhares de militantes radicais em diferentes partes do mundo que estavam “adormecidos”. Tudo o resto, nomeadamente o Estado Islâmico, já é uma consequência disso.

 

Se verificarmos a lista dos principais atentados do terrorismo islâmico na Europa desde 2004, chegamos ao número 642. É o número de pessoas que morreram desde aquele ano até hoje. É certo que a ETA matou mais de 800 pessoas desde a sua fundação em 1959 e o IRA Provisório terá matado cerca de 1800 pessoas entre 1969 e 1997, mas escusado será sublinhar as diferenças evidentes nos tipos de terrorismo em causa e das suas finalidades. Numa análise fria, convenhamos, foram tantas as notícias de mortes em Espanha e no Reino Unido por causa daqueles movimentos e, para lá da comoção momentânea, as pessoas nos vários países europeus nunca sentiram que os seus modelos de sociedade estivessem em causa e muito menos a segurança dos seus estilos de vida. Era um conflito lá “deles”, ou seja, não havia uma sensação de ameaça generalizada na Europa.

 

Ora, ataques como o de ontem em Manchester resultam de uma guerra generalizada e arbitrária à Europa, infligindo o medo e o receio transversais a todos os seus cidadãos, estejam onde estiver, vivam onde viver. E o pior é se cada cidadão começa a pensar que podia fazer parte daquelas 642 pessoas que morreram nos últimos anos em várias cidades europeias, em locais tão comuns, como um mercado ou uma sala de concerto, e isso condicionar a sua liberdade. Se isso vier a acontecer, é a partir desse momento que o terrorismo começa a vencer.

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Um grito constante de sofrimento

por Alexandre Guerra, em 26.04.17

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Recordo, há uns anos, em conversa sobre o Guernica, de alguém me dizer que, para um especialista em pintura ou para um aspirante a pintor, mais do que apreciar aquele famoso quadro, o mais emocionante era ver e estudar os 45 esboços e estudos prévios igualmente expostos nas galerias contíguas. Compreendi a lógica. Muitas vezes, e dependendo sempre da perspectiva de quem vê, o mais importante pode ser o processo técnico e artístico que conduz a um determinado fim.

 

Para um simples admirador de pintura, como é o meu caso, é naturalmente a obra final que mais interessa, porque é lá que a arte e a mensagem atingem a sua plenitude, aquelas que o artista queria transmitir, deixar para a Humanidade. E no caso do Guernica, o que vi há uns anos no Museu Reina Sofia, em Madrid, foi a expressão máxima da violência e da destruição, provocada pelo bombardeamento dos aviões da Alemanha Nazi, aliada de Francisco Franco, sobre a pequena aldeia basca perto de Bilbao, precisamente a 26 de Abril de 1937, em plena Guerra Civil Espanhola. Todo o quadro é um retrato premonitório do horror apocalíptico que se viria viver poucos anos depois na II Guerra Mundial e uma antecipação dos bombardeamentos massivos que seriam levados a cabo pela Luftwaffe. Mais mais do que isso, é um grito constante de sofrimento de uma população indefesa. 

 

Além de toda a componente artística, aquilo que me toca tanto neste quadro é o facto de representar uma reacção imediata do pintor aos acontecimentos, uma espécie de “fotografia” em tela... E, sobretudo, a visão e o sofrimento de Picasso, o seu statement contra a perversidade que o Homem consegue infligir ao seu semelhante.

 

Guernica foi criado como um manifesto pacifista ou anti-guerra (ou pelo menos adquiriu esse estatuto) contra as acções políticas que conduzem a um massacre deliberado de homens, mulheres, crianças e até animais. Infelizmente, hoje, ao olharmos para o quadro de Picasso, sabemos que há sempre alguém, algures no mundo, a gritar de sofrimento por causa das motivações perversas do Homem. E nisso, 80 anos depois do génio ter pintado aquela obra prima, o mundo continua igual.

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O dia em que entrevistei o "Mandela palestiniano"

por Alexandre Guerra, em 17.04.17

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Ilustração de Marwan Barghouti da autoria de Durar Bacri/Haaretz

 

Marwan Barghouti é, desde há alguns anos, a maior figura palestiniana na liderança da resistência palestiniana. É aquela que mais carisma tem junto da população da Cisjordânia, sobretudo a que está mais identificada com a Fatah. Para muitos, é visto como o sucessor natural de Yasser Arafat, visto que o actual Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, pelo seu perfil moderado e apagado, nunca despertou grandes paixões numa região que vive diariamente inflamada pelo conflito com Israel. É, por isso, normal que, tanto palestinianos, como líderes mundiais, o vejam como o único homem capaz de conduzir a Palestina à independência. O problema é que Barghouti, que liderou as milícias Tanzim, braço armado da Fatah (uma acusação que ele sempre negou), está encarcerado nas prisões israelitas, sentenciado a passar ali o resto dos seus dias. Tendo sido em tempos secretário-geral da Fatah e alvo de inúmeras tentativas de assassinato por parte dos serviços secretos do Exército de Israel (Shin Bet), Barghouti foi um dos principais líderes da Intifada de al-Aqsa, acabando por ser preso em 2002, em Ramallah, pelas Forças de Segurança Israelitas (IDF). Desde então, a sua popularidade e notoriedade aumentaram exponencialmente, passando a ser uma voz activa atrás das grades e um símbolo da resistência palestiniana, o que lhe valeu a alcunha de "Mandela palestiniano".

 

Este Domingo, voltou a promover uma acção pacífica de contestação, ao dar início a uma greve de fome que envolve 700 reclusos palestinianos ligadas à Fatah, que se estendeu também a mais algumas centenas de prisioneiros da Jihad Islâmica e do Hamas. Esta iniciativa poderá reacender a tensão nas ruas das principais cidades da Cisjordânia e recentrar a problemática israelo-palestiniana no topo da agenda internacional, já que Barghouti tem hoje mais influência política do que tinha há 15 anos. Alguns governantes, como Ehud Barak, e responsáveis militares israelitas, estão conscientes desse facto. Aliás, o próprio Barak, aquando da detenção de Barghouti, ligou para Shaul Mofaz, na altura chefe do Estado-Maior das IDF, e disse-lhe o seguinte: “Have you lost your mind? What’s the story with Barghouti? If it’s part of your struggle against terrorism, it’s meaningless. But if it’s part of a grand plan to make him a future national leader of the Palestinians, then it’s a brilliant scheme, because what’s really missing in his résumé is direct affiliation with terrorism. He will fight for the leadership from inside prison, not having to prove a thing. The myth will grow constantly by itself.”

 

Conheci Barghouti um ano antes, quando ele era secretário-geral da Fatah. Fui entrevistá-lo. No seu escritório em Ramallah, lá estava ele, uma figura de pequena estatura, com ar amistoso e com o seu famoso bigode (hoje anda de barba). Cordial e acessível, embora não exibisse uma simpatia excessiva, o militante da Fatah demonstrou desde logo uma convicção política firme. A entrevista foi partilhada com um jornalista da agência de notícias alemã, e apesar das insistências, Barghouti nunca admitiu que era o líder das milícias Tanzim, responsáveis por vários atentados terroristas contra Israel. Recordo que ele se serpenteava como um verdadeiro político na forma como respondia às perguntas mais sensíveis que lhe eram colocadas, chegando mesmo a dizer que acreditava que a Palestina ia ser independente “dentro de cinco anos” (foi este o título da entrevista depois publicada no jornal Público. No entanto, a História viria demonstrar que Barghouti estava errado). Relembro que dias antes, Barghouti tinha escapado a um atentado selectivo das IDF contra o carro onde viajava. Um ano mais tarde, os soldados israelitas acabariam por deter Barghouti, sendo condenado posteriormente a cinco penas perpétuas. Quando,10 anos depois, foi tornado público um importante acordo de troca de prisioneiros que estava a ser forjado entre o Governo israelita e o Hamas, uma centelha de esperança reacendeu-se para milhares de palestinianos, que viram ali uma oportunidade para fazer regressar a casa o carismático Barghouti. Mas, rapidamente essa esperança se esvaneceu. Sabendo do prestígio e da notoriedade do ex-líder das Tanzim, as autoridades israelitas tiveram o cuidado de deixar bem claro desde o início desse processo de troca de prisioneiros, que Barghouti não estava incluído nas listas dos palestinianos a serem libertados. Mas, a questão é que Ehud Barak foi certeiro quando ligou a Mofaz, porque quanto mais tempo Barghouti estiver preso, mais o seu carisma e a sua capacidade de mobilização popular vão aumentando. É muito provável que, para Israel, Barghouti se torne cada vez mais um problema atrás das grades do que em liberdade. Para já, o "Mandela palestiniano", com apenas 57 anos, vai fazendo a sua resistência pacífica, que lhe poderá vir a ser muito mais eficaz do que os anos de violência que perpetrou na tal luta pela independência que sempre almejou.

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Rollback

por Alexandre Guerra, em 29.03.17

Com mais ou menos polémica e trapalhada, mais ou menos anúncio espalhafatoso, a verdade é que, até ontem, Donald Trump ainda não tinha concretizado qualquer medida que fosse verdadeiramente maléfica para a Humanidade. Nalguns casos até se mostrou mais moderado em relação à sua posição inicial, como observou (e bem) o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Portas, esta semana numa conferência em Lisboa, ao lembrar que Trump “fez a revisão do acordo NAFTA, mas não o denunciou, como não denunciou o acordo com o Irão, optando por vigiá-lo” e também “abandonou a ideia de transferir a embaixada [dos EUA] de Telavive para Jerusalém”. E já houve até um ou outro caso de humilhante derrota face àquilo que tinha prometido em campanha, como aconteceu na passada Sexta-feira ao ser obrigado a retirar do Congresso a “ bill” que iria revogar o Obamacare.

 

Mas ontem, não. Ontem, Trump clamou “vitória” e assinou um decreto presidencial na Sala Oval que tem como objectivo reverter muitas das medidas implementadas por Barack Obama em matéria ambiental. Algumas ainda nem sequer estavam em vigor, mas, muito provavelmente, e à luz desta nova orientação, nunca chegarão sequer a concretizar-se. Como também dificilmente se alcançarão as metas definidas nos Acordos de Paris de 2015, aquilo que tinha sido um marco histórico na política ambiental norte-americana.

 

É um autêntico “rollback” na política ambiental da administração Obama, com consequências nefastas a médio e a longo prazo e que depois serão difíceis de reparar. Porque, a questão não se põe só ao nível das medidas que Obama tinha implementado (já por si muito importantes), mas também no exemplo e motivação que os Estados Unidos deram ao mundo para que outras nações, nomeadamente algumas das mais poderosas e poluentes, seguissem políticas mais sustentáveis em termos ambientais. Quando Obama se comprometeu com os Acordos de Paris estava claramente a dar um sinal ao mundo, em nome dos Estados Unidos, para a necessidade de serem adoptados modelos de sustentabilidade nas economias mais desenvolvidas, por modo a fazer-se face à realidade inequívoca das alterações climáticas e do aquecimento global.

 

Ao assinar aquele decreto presidencial, Trump não só deitou por terra todo o esforço e pedagogia que Obama desenvolveu, como legitimou e recuperou as teses mais ignorantes e retrógradas em matéria ambiental. E isso é assustador e triste.

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It’s not the economy

por Alexandre Guerra, em 16.03.17

Na campanha presidencial de 1992 contra Bush pai, o staff de Bill Clinton tinha como uma das mensagens-chave a famosa expressão “the economy, stupid”, forjada pelo estratego James Carville (ex-CNN e actual FOX News). Mais tarde, quando esse conceito transbordou para a esfera pública, a frase foi usada e abusada ao longo dos anos na sua versão mundialmente conhecida: “It’s the economy, stupid”. Ainda hoje aquela expressão é utilizada vezes sem conta por comentadores e opinion makers nas suas colunas de jornais e revistas. A questão é que além daquela frase ser completamente datada, o seu conteúdo (que na verdade nunca terá sido bem interiorizado por muitos que ainda hoje a utilizam), pouco ou nenhum sentido faz nos dias que correm se olharmos com atenção para as realidades políticas e eleitorais de alguns países, nomeadamente os Estados Unidos ou o Reino Unido.

 

Na altura, o ainda governador do Arkansas colocou a economia como tema central da campanha, talvez não tanto pela questão do estado real dessa mesma economia americana (que embora não sendo famosa, não era dramática), mas porque, no fundo, Carville sabia que era necessário encontrar um factor de contraste evidente com o mandato de George H. W. Bush que, pela força das circunstâncias, foi dominado pela política espectacular dos grandes acontecimentos mundiais e das grandes cimeiras. Para quem se recordará desses tempos ou tem algum conhecimento das relações internacionais, dificilmente encontrará um período da História recente tão “político”, interessante e entusiasmante como aquele que Bush pai viveu enquanto Presidente entre 1989 e 1993.

 

Foi aquilo a que os especialistas chamam de período de transição sistémica. Hoje é um assunto arrumado de que o século XX acabou ali. Para trás, ficaram décadas de Guerra Fria, onde a economia jamais tinha suplantado a política enquanto tema de campanha ou de topo de agenda mediática. Em quatro anos, e apesar dos problemas da economia dos EUA, o mundo assistia à morte do comunismo, à queda do Muro de Berlim, à implosão da União Soviética, às reformas na China, à primeira Guerra do Golfo, à intervenção americana no Panamá e na Somália, já para não falar na Guerra da Bósnia. Aliás, já antes, Ronald Reagan tinha ficado para a História como o homem que vencera a Guerra Fria.

 

Poder-se-á dizer que os acontecimentos de política externa pouco ou nada interessavam aos americanos perante as dificuldades que enfrentavam no seu dia-a-dia. Pois, mas a questão é que nem os problemas da economia americana eram assim tão dramáticos, como alguns desses acontecimentos internacionais entraram no quotidiano dos americanos de uma forma bastante intensa. Além disso, é preciso notar que a América já tinha vivido períodos bem mais difíceis em termos de economia em décadas anteriores, bastando referir, por exemplo, o processo de desindustrialização nos anos 70 e 80, nomeadamente no sector automóvel, com o surgimento da concorrência asiática.

 

A verdade é que olhando para os tempos de Guerra Fria não havia grande “espaço” para a prevalência da economia sobre a política na condução dos Estados e muito menos para os comentadores económicos e para as análises económicas híper-amplificadas nos media (os canais também eram diminutos, note-se). A política pura e dura dominava e os tempos que se viviam eram deveras muito interessantes. É certo que a partir do início dos anos 90, com o advento da globalização e com as teorias do Fim da História e outras, a política vai perdendo relevância para dar lugar à economia enquanto móbil da História. Os grandes líderes e estadistas foram desaparecendo e surgiram os tecnocratas ou os dirigentes orientados por critérios quantitativos. Começa-se a criar uma ideia (errada) de que a política acabou e as sociedades ocidentais entram num Fim de História, dominadas pelo capitalismo e democracias liberais.

 

A euforia durou até 11 de Setembro de 2001, que foi uma espécie de “wake up call”, mas foram precisos vários anos e muitos acontecimentos geopolíticos para se perceber que, afinal, o mundo está longe de ser “plano” e que a política impera naquilo que é a história dos Estados e as Relações Internacionais. Aliás, olhando para os fenómenos eleitorais mais recentes, com resultados que muitos consideraram de “protesto”, como foram os casos dos EUA, com a eleição de Trump, e do Reino Unido, com o referendo ao Brexit, constata-se que as motivações da maioria do eleitorado pouco ou nada tiveram a ver com economia, pelo menos numa lógica directa, já que ambos os países apresentam índices bastante satisfatórios nestas matérias, quer em crescimento do PIB, quer em taxa de desemprego.

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Ouvir o outro

por Alexandre Guerra, em 08.03.17

A propósito da liberdade de expressão e da importância da troca de ideias (por mais distantes que sejam umas das outras) na construção e reforço de uma sociedade verdadeiramente democrática, nunca esqueci aquilo que um professor meu de Mestrado disse numa aula sobre a capacidade de estarmos sentados à mesma mesa de forma civilizada com alguém que, eventualmente, acredite em modelos ideológicos que possam corresponder a formas mais extremadas ou radicais de ver a organização da sociedade. Dizia esse meu professor, infelizmente já desaparecido e que era uma referência da academia portuguesa na área da sociologia, que o importante é termos a capacidade para debater com o próximo de forma livre e sem preconceitos. E dava o exemplo dele próprio, contando que tinha um amigo assumidamente de extrema direita, um tipo inteligentíssimo e cheio de piada, e com quem tinha conversas muito interessantes, apesar de não partilhar qualquer das suas ideias. Esse seu amigo, era educado, respeitava a lei e apresentava argumentos válidos na defesa dos seus pontos de vista, por mais desacordo que o meu professor tivesse com eles. A questão é que essa conversa era interessante e profícua e isso é algo que deve ser louvado num debate intelectual e académico. Infelizmente, muitas vezes, são aqueles que mais apregoam o seu pseudo estatuto de guardiões dos valores da liberdade que acabam por fazer os maiores disparates em matéria de democracia. A incapacidade de ouvir o outro com ideias diferentes das nossas é um caminho muito perigoso e inaceitável em fóruns e espaços que, pela sua natureza intrínseca, devem estar na vanguarda dos confrontos ideológicos, por mais extremadas que sejam as posições em debate.

 

Esta reflexão remete-me para 2001, ano em que a Intifada de Al Aqsa estava no seu clímax e em que me tornei no primeiro português a estudar na Universidade de Birzeit, a mais reputada instituição de ensino superior da Palestina. A experiência foi gratificante a várias níveis e apesar de ser uma universidade altamente politizada, claramente dominada pela Fatah, havia uma ampla liberdade de troca de opiniões divergentes em relação ao desempenho da Autoridade Palestiniana. Lembro-me perfeitamente que o meu professor do Estudos Palestinianos, Sattar Qassem, um proeminente académico e figura política conhecida na Palestina, assumia frontalmente o seu desagrado com a liderança de Yasser Arafat e mais tarde viria a candidatar-se contra este (entretanto, soube que foi detido no ano passado pela Autoridade Palestiniana sob acusações de "hurting the national feeling"). Ao andar pelos corredores daquela Universidade e nas conversas com os vários amigos que fui fazendo, retenho a forma interessada e apaixonada com que se discutia política, com várias opiniões contrárias e muitas delas altamente críticas à própria Fatah. E havia mesmo opiniões "arriscadas" (tendo em conta o ambiente de conflito que se vivia e os "olhares" sempre atentos de alguns elementos da Fatah) de jovens a assumir que não se podia culpar Israel por todos os problemas dos palestinianos. Debaixo daquele clima tenso e de violência, nunca vi ninguém inibido de dar a sua opinião e muito menos alguém impor o silêncio na troca de ideias. Para mim, foi um exercício de aprendizagem e de grande valor, que contrasta, segundo li e ouvir dizer, com a excitação de alguns "meninos" que, cegados pelo politicamente correcto e reféns de uma lógica político partidária mesquinha, estão a cercear os valores mais nobres que devem reger uma instituição de saber.

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Até quando a passividade das potências mundiais?

por Alexandre Guerra, em 06.03.17

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Notícia do lançamento dos mísseis norte-coreanos numa televisão da estação central de comboios de Seul/Foto:Lee Jin-man

 

A Coreia do Norte lançou/testou esta Segunda-feira mais quatro mísseis balísticos de médio alcance, que acabaram por cair no Mar do Japão. É um cenário que se tem repetido vezes de mais e tem toda a razão o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, ao classificar aquela acção como "extremamente perigosa". Três daqueles mísseis despenharam-se na Zona Económica Exclusiva nipónica, ou seja, numa área até ao máximo de 200 milhas náuticas da sua linha de costa. Inicialmente, as primeiras notícias falavam em mísseis de curto alcance que, podem ir até aos 500 quilómetros, mas mais tarde percebeu-se que se tratava de projécteis que alcançaram, pelo menos, os 1000 quilómetros de distância. E é por causa disto que os alarmes em Tóquio e em Seul estão a soar, porque o regime norte-coreano tem vindo a fazer testes consecutivos, sendo notórios os progressos que têm sido alcançados por Pyongyang. O regime norte-coreano não esconde o objectivo de vir a desenvolver um míssil balístico intercontinental (ICBM), cujo alcance vai para além dos 5500 quilómetros, ou seja, capaz de atingir território dos Estados Unidos. É certo que o desenvolvimento da tecnologia de mísseis, por si só, constitui uma ameaça diminuta, mas o problema é que, paralelamente, Pyongyang tem continuado a envidar esforços no seu programa nuclear, suspeitando-se que já possa ter conseguido, com sucesso, construir ogivas suficientemente pequenas para serem transportadas numa cabeça de míssil. E é nesta conjugação terrível que surge a ameaça à paz internacional. 

 

Entre 2006 e 2016, a Coreia do Norte efectuou cinco testes nucleares e, de acordo com o que se vai sabendo, o poder destrutivo dos engenhos tem vindo a aumentar. As ondas de choque detectadas pelos sismógrafos japoneses no último teste subterrâneo norte-coreano de Setembro do ano passado, revelaram uma explosão com a potência de 10 a 30 quilotoneladas. Dada a escassez de informação relativa ao programa nuclear da Coreia do Norte, os especialistas não conseguem ter a certeza quanto ao tipo de bomba de que se está a falar. Se é de hidrogénio, as chamadas bombas termonucleares, as mais potentes, que assentam num processo de fusão de isótopos de hidrogénio (na verdade é um duplo processo, já que tem uma fissão inicial), ou se é uma bomba atómica (fissão). Apesar do regime de Pyongyang ter anunciado que os dois testes realizados em 2016 foram de bombas de hidrogénio, os especialistas duvidam deste alegação, uma vez que não tiveram suficiente potência para se enquadrarem nessa categoria.

 

Apesar destes sinais de preocupação, o grau de desenvolvimento da tecnologia nuclear e dos respectivos vectores de lançamento ainda não atingiu aquele patamar dramático, em que a Humanidade se vê perante a iminência de ter um regime esquizofrénico na posse de um engenho capaz de aniquilar milhões de pessoas. No entanto, se a Coreia do Norte continuar a ter esta "liberdade" para manter em curso o seu programa de armas de destruição maciça (como parece que está a ter, apesar de todas as restrições), é apenas uma questão de "quando" (e não "se") terá um míssil balístico nuclear pronto a ser disparado, capaz de atingir países vizinhos inimigos, como a Coreia do Sul e o Japão ou até mesmo os EUA.  

 

Estranhamente, a comunidade internacional parece estar bastante permissiva perante esta ameaça, dando muito mais atenção a outros assuntos (importantes, é certo), mas que não têm a gravidade do que se está a passar na Coreia do Norte. Admito que o perigo não esteja ao virar da esquina, mas é muito provável que, se nada for feito, poderemos chegar ao dia em que terão que ser tomadas medidas dramáticas para evitar um mal maior. A História recente tem alguns episódios de acções "preemptivas" e "preventivas", nomeadamente executadas por Israel, que levaram à destruição de complexos militares de desenvolvimento de armas de destruição maciça. Em 1981, o primeiro-ministro hebraico Menachem Begin deu ordem para que oito caças F-16 destruíssem o reactor nuclear de Osirak, no Iraque, que Israel acreditava produzir plutónio para ogivas. Secretamente e contra a vontade de Washington, Begin não hesitou. Estava lançada a “doutrina Begin”, que assenta no seguinte princípio: “The best defense is forceful preemption." Para Begin, nenhum adversário de Israel deveria adquirir armas nucleares. Em 2007, seria a vez de Ehud Olmert pôr em prática a “doutrina Begin”, desta vez contra a Síria. Anos mais tarde, a New Yorker explicava como Israel tinha bombardeado secretamente o suposto reactor nuclear de Al Kibar sem que ninguém desse por isso e o assumisse posteriormente.

 

Estes exemplos devem ser tidos em conta quando se analisa a ameaça do programa nuclear norte-coreano, porque, por mais violentos que tenham sido os regimes de Saddam e de Hafez al-Assad, nunca chegaram ao grau de loucura e de insanidade das lideranças de Pyongyang. Bem sabemos que qualquer acção militar contra a Coreia do Norte contaria, quase de certeza, com a oposição da China, no entanto, não deixa de ser preocupante a atitude contemplativa que as principais potências têm tido em relação à forma como Pyongyang tem desenvolvido o seu programa de armas de destruição maciça. Por muito menos, mas muito menos mesmo, os EUA invadiram o Iraque em 2003.

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Estou com Adele: Lemonade é o álbum do ano

por Alexandre Guerra, em 21.02.17

Admito que, entre tantos assuntos da maior importância nacional e internacional, as minhas atenções viraram-se para uma discussão menos profícua que ocorreu nos últimos dias, mas que me suscitou bastante curiosidade. Até percebi a razão de existir, mas para ter certezas tive que ir ouvir os álbuns “25” de Adele e “Lemonade” de Beyoncé (este último andava para ouvi-lo desde que fora lançado). Apesar da minha estranheza inicial e das muitas críticas que se fizeram ouvir, percebo agora porque razão o Grammy de Melhor Álbum do Ano tenha ido para o “25”. Não concordo com a decisão, mas percebo-a à luz daquilo que são os Grammy que, à semelhança dos Óscares, premeiam e dão primazia ao “mainstream”. Não quer isto dizer que o vencedor não seja de grande qualidade musical porque, neste campo, Adele mostra bem os seus pergaminhos e apresenta um álbum pop mais “baladeiro”, bastante bem conseguido, mas sem grandes rasgos criativos e inofensivo em termos de mensagem. Não tem (nem pretende ter) aquele arrojo social e politicamente disruptor que o “Lemonade” de Beyoncé tem e que pretende colocar em causa a ordem estabelecida. E quando se trata de “agitar as águas”, por mais brilhante que seja o álbum (que é), o conservadorismo destas organizações fala mais alto. Neste aspecto, até acho que os Óscares têm sido mais “atrevidos” do que os Grammy que, no ano passado, voltaram a errar ao permitir que o sublime, poderoso, provocador e aclamadíssimo “To Pimp a Butterfly" de Kendrick Lamar perdesse o prémio de Melhor Álbum do Ano para “1989” de Taylor Swift. Da minha parte, não tenho dúvidas de que "To Pimp a Butterlfly" foi o melhor álbum de 2015, tal como fiquei rendido ao "Lemonade" de Beyoncé, uma artista que se assume neste álbum com uma grandeza artística e social, um patamar que Adele não conseguiu alcançar com o seu "25".

 

"Formation", umas das músicas mais interventivas de Beyoncé no muito bem conseguido álbum "Lemonade". 

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Quando o ex-Presidente George W. Bush teve a rara oportunidade de nomear dois juízes para o Supremo Tribunal dos Estados Unidos, John Roberts, em 2005, e Samuel Alito, um ano depois, conseguiu impor um registo mais conservador naquele órgão de nove elementos, cujos seus membros são vitalícios. Estas nomeações foram vistas como um dos principais legados da administração republicana de Bush para a posteridade, já que a sorte das circunstâncias permitiu-lhe perspectivar marcar ideologicamente futuras decisões sobre as questões mais fracturantes da sociedade americana. Na altura, não se esperava que tão cedo um outro Presidente tivesse a oportunidade de voltar a ter uma interferência tão influente na composição do Supremo. Mas, depois do Presidente Barack Obama ter tido a oportunidade de nomear Sonia Sotomayor logo no seu primeiro ano de mandato, após a saída do juiz David Souter por vontade própria, voltou, em 2010, a ter a possibilidade de escolher outra mulher para o Supremo, neste caso Elena Kagan. Tal só foi possível com a retirada do juiz John Paul Stevens.

 

Apesar destas mudanças de cadeiras, em termos de equilíbrio ideológico o Supremo ficou na mesma, já que os dois juízes que tinham saído alinhavam quase sempre pelo campo liberal, ou seja, Obama não conseguiu trocar um juiz conservador por um progressista. Essa oportunidade só surgiu em Fevereiro de 2016, com a morte do juiz conservador Antonin Scalia, só que, com as eleições presidenciais à vista, os republicanos do Congresso e o então candidato Donald Trump avisaram logo que não valeria a pena Obama tentar propor algum nome para o Supremo, já que nem sequer seria considerado, quanto mais nomeado. Apesar das ameaças, Obama propôs o juiz Merrick B. Garland que, se tivesse sido aceite, teria, efectivamente, voltado a fazer pender o cariz ideológico do Supremo para o lado mais progressista, uma vez que ficariam cinco juízes mais liberais contra quatro mais conservadores. Ora, tal não aconteceu e o processo de substituição de Scalia ficou suspenso até ontem, com a escolha, por parte de Trump, do juiz conservador Neil Gorsuch. É o mesmo que dizer que o Supremo manterá a sua maioria conservadora. Aliás, para o New York Times, Gorsuch está muito próximo do estilo e da filosofia do falecido Scalia e adivinha-se agora uma batalha feroz no Senado, onde os republicanos têm uma maioria de apenas 52 lugares (em 100), sendo que uma maioria simples não é suficiente para fazer passar o nome proposto por Trump. São precisos pelo menos 60 votos. Aqui, deverá acontecer o primeiro grande embate entre democratas e republicanos nesta nova presidência. 

 

Mas antes de se entrar num debate histérico, com troca de argumentos muito pouco fundamentados, é importante ter alguma noção histórica do papel dos nove juízes do Supremo Tribunal e conhecer o perfil de cada um deles, porque se percebe que há uma certa lógica ideológica na composição daquele órgão. A verdade é que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos é daqueles órgãos de soberania que, independentemente da sua composição ideológica, revela sempre um elevado nível de bom senso e um sentido muito apurado dos tempos. O que de certa forma é surpreendente, se tivermos em consideração que os seus nove juízes são nomeados vitaliciamente e carregam consigo, quase sempre, uma carga ideológica bem vincada, seja mais para o lado conservador, seja mais para o lado liberal. Mas o que é certo, e a avaliar pelas decisões mais importantes dos últimos anos, o discernimento daquele instituição não costuma ser afectada e, quase sempre, vai no sentido certo do progresso da Humanidade. 

 

Publicado originalmente no Diplomata.

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Sean Spicer, um porta-voz à medida do seu líder

por Alexandre Guerra, em 31.01.17

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Depois de Donald Trump ter dado, na Quarta-feira passada, a primeira entrevista em sinal aberto ao canal ABC, no dia a seguir reparei que um dos apresentadores da FOX News não deixou de atirar uma "boca" ao Presidente por ter escolhido a concorrência para tão importante momento televisivo. De facto, nessa altura, só faltava mesmo a "insuspeita" FOX News juntar-se ao coro de críticas que vinham dos media americanos. Trump foi literalmente arrasado durante a primeira semana de mandato, com os principais canais noticiosos americanos a dissecarem até ao tutano os vários disparates que se iam sucedendo. Tive o privilégio de assistir a essa primeira semana da presidência de Trump nos EUA, mas a questão é de que não me recordo de qualquer outro mandato ter começado de forma tão atribulada e polémica. Foi a argumentação patética de Trump por causa da assistência que esteve na cerimónia do "inauguration day" em Washington, depois veio a polémica do muro e a questão do imposto de 20 por cento sobre produtos mexicanos. Trump lançou ainda a "bomba" da possível fraude eleitoral, algo que terá passado despercebido nos media europeus, mas que os jornalistas americanos consideraram uma acusação de proporções monumentais, questionando o Presidente por que razão então não concretizava essa acusação e pedia uma investigação federal. E, finalmente, a "immigration order". Muita coisa para apenas uma semana e meia de trabalho. E em todas estas frentes de combate mediático, Trump tem contado basicamente apenas com uma pessoa ao seu lado: Sean Spicer, o seu assessor de imprensa. Nestes quatro casos, Spicer, tal e qual como se estivesse frente a um pelotão de fuzilamento, surgiu perante os jornalistas num exercício penoso e que o próprio um dia deverá recordar como momentos bastante humilhantes na sua carreira.

 

Spicer, num dos briefings da Casa Branca, chegou mesmo a ser interrogado por um dos jornalistas se acreditava naquilo que estava a dizer. Uma pergunta que eu nem queria acreditar estar a ouvir logo na primeira semana de trabalho de uma presidência. Como era possível que os jornalistas questionassem a palavra do assessor de imprensa do Presidente logo nos primeiros dias de mantado? Mas a verdade é que Spicer tem sido o único porta-voz das trapalhadas de Trump e isso certamente terá custos na sua reputação e credibilidade junto dos jornalistas. Nem mesmo outras figuras republicanas se têm atravessado pelas medidas que o Presidente tem adoptado. Na verdade, as figuras de topo do Partido Republicano ou estão caladas ou as que têm aparecido é para criticarem.

 

Reconheça-se que, apesar dos erros e dos disparates, coragem é coisa que parece não faltar a Spicer porque, mesmo caminhando para o abismo, ele segue em frente. Ou, por outro lado, também pode ser apenas loucura. Lembro-me sempre daquele ministro iraquiano da Informação e que foi o porta-voz de Saddam Hussein durante a invasão americana em 2003, que ficou célebre pela sua propaganda tola (e que divertiu muita gente, incluindo o Presidente George W. Bush), ao repetir convictamente que o Exército iraquiano iria vencer aquela batalha, quando a realidade mostrava os soldados americanos já às portas de Bagdade. Loucura à parte, a verdade é que a partir daí Mohammed Saeed al-Sahaf se tornou uma estrela à escala global até com direito a clube de fãs. Pode ser que Spicer tenha a mesma sorte.

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Para quem assistiu, na passada Sexta-feira, à inédita mesa redonda com dezanove directores de jornais, rádios e televisões nacionais no âmbito do 4º Congresso dos Jornalistas que decorreu no Cinema São Jorge, em Lisboa, não teve muitas razões para sair de lá entusiasmado com a dinâmica e conteúdo do debate. Talvez se deva ao facto de há anos a esta parte se discutirem os mesmos problemas e a eterna questão do “futuro” do jornalismo, sem que se encontre uma qualquer solução mágica para a criação de um modelo sustentável. Além do mais, continuam-se a notar os mesmos vícios e defeitos de uma classe que, em Portugal (e aqui há grandes diferenças em relação a outros países), há muito devia ter feito um exame de auto-consciência e parado para pensar sobre os seus próprios erros. Aliás, este teria sido o primeiro passo para que os responsáveis pelo jornalismo no nosso país começassem por admitir as suas falhas.

 

Não deixa também de ser sintomático que entre 19 directores dos mais importantes meios de comunicação social do país ali presentes só estivessem lá duas mulheres, Graça Franco (RR) e Mafalda Anjos (Visão). E o mais extraordinário é que lendo os vários artigos de imprensa que têm saído sobre o Congresso não se vê qualquer referência a este facto embaraçoso, para um sector que advoga estar na vanguarda das ideias e do pensamento. Porém, não hesitam em fazer essas contas quando se estão a referir a um Governo ou a uma administração de uma entidade pública ou grande empresa privada. Ainda mais revelador da inconstância deste sector em Portugal, é constatar que a maioria dos directores ali presentes têm entre um a dois anos dessas funções.

 

Seria saudável que esse processo introspectivo já tivesse ocorrido mas, infelizmente, não aconteceu e, por isso, não é de estranhar quando se ouve Ricardo Costa (SIC) a admitir que a qualidade do jornalismo que se faz naquela televisão ou no Expresso (onde foi director) é hoje muito menor do que há uns anos. A oferta é mais vasta, mas a qualidade diminuiu. E o problema, como disse ainda Ricardo Costa, nem se coloca ao nível das audiências, mas sim nos modelos de negócio que sustentam os órgãos de comunicação social. Também Pedro Santos Guerreiro (Expresso) considera que nunca houve tanta oferta tecnológica e uma audiência tão vasta para se informar, mas o problema é como valorizar financeiramente o produto que se disponibiliza, quase sempre de borla. Uma ideia partilhada também pelo director do Público, David Diniz, que valoriza as ferramentas tecnológicas que existem hoje em dia para se poder conhecer melhor os hábitos dos leitores.

 

Foi quase unânime entre os vários directores de que a gestão do “negócio” está cada vez mais presente no seu quotidiano, a admitirem que dedicam bastante tempo a assuntos que pouco ou nada têm a ver com temas editoriais. Quase todos disseram que gostariam de investir mais tempo nestas matérias, no entanto, também admitem que as horas que perdem nas áreas de marketing ou de recursos humanos é uma outra forma de estarem a contribuir para a sobrevivência ou evolução do seu meio de comunicação social.

 

A juntar-se a estas questões de “negócio”, há aquilo que João Paulo Baltazar (Antena 1) classificou de “agenda asfixiante”, onde os jornalistas estão cada vez mais sujeitos a uma multiplicidade de acções que os deixam sem tempo para reflexão e investigação. Aliás, a falta de tempo foi uma das principais queixas dos directores. O mote de João Paulo Baltazar é, por isso, certeiro: “Fazer menos, fazer melhor, pensar mais."

 

É verdade que, com a imposição da realidade do digital e das redes sociais, começaram a ser ensaiadas diferentes formas de adaptação do jornalismo aos novos tempos da comunicação e informação. As soluções de vanguarda vieram sempre do universo anglo-saxónico ou então de jornais como o El País, mas nem sempre com os resultados esperados. É uma descoberta que ainda está a ser feita. O tão esperado retorno no digital nunca chegou, apesar de alguns jornais terem dados interessantes para mostrar. É inegável que a emergência de inúmeras plataformas comunicacionais veio alterar por completo a forma de se consumir informação, seja num jornal, televisão ou rádio.

 

Em Portugal, essa tentativa de adaptação aos “novos tempos” aconteceu de forma muito mais lenta e, olhando para aquela mesa redonda, percebe-se, mais uma vez, que o jornalismo no nosso país sofre de problemas muito específicos, apesar de muitas vezes se tentar “vender” a ideia que são comuns ao que se passa noutras realidades. A verdade é que muitos desses problemas exclusivos da nossa realidade nacional têm a ver com a própria arrogância, presunção, corporativismo e até mesmo incompetência com que muitos “senhores” do jornalismo encaram a profissão. E como se isso não bastasse, o jornalismo e os jornalistas portugueses, ao contrário do que acontece noutros países, nunca tiveram um escrutínio a sério. O papel de entidades como o Sindicato dos Jornalistas ou a Comissão da Carteira está perto da irrelevância e nem sequer vale a pena falar do princípio da auto-regulação, até porque para isso acontecer era preciso que todos os directores e jornalistas tivessem a noção de responsabilidade e brio profissional naquilo que fazem e hoje em dia é duvidoso que tal aconteça. Quanto ao espírito crítico dos próprios leitores e consumidores de informação, está tudo dito: cada vez disponibilizam menos dinheiro para ter informação, ou seja, valorizam cada vez menos aquilo que jornais, televisões e rádios produzem. E enquanto tudo isto assim for, por mais congressos e lamentos que se façam, nunca será possível elevar o jornalismo português para outro patamar.

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Hesitei antes de escrever este texto e isso raramente me acontece. E normalmente quando hesito, não escrevo. Mas, desta vez, decidi fazê-lo. Não tenho qualquer presunção de trazer mais alguma informação ao muito que tem sido escrito ou comentado sobre o percurso político de Mário Soares. Nem sequer é isso que me motiva e muito menos faço-o numa lógica de homenagem fúnebre ou de elogio póstumo ao antigo Presidente da República. Sei bem o papel que Mário Soares desempenhou na história de Portugal e de que forma é que isso se reflecte na minha vida quotidiana. Isso não esqueço e nem aqueles que prezam os valores da democracia e da liberdade devem esquecer. Sempre o considerei o maior estadista português no pós-25 de Abril, com as suas virtudes e defeitos, com os seus feitos e erros.  

 

Mas a questão não é essa. O que me levou a escrever este texto é ter percebido que na hora do adeus a Mário Soares, o povo já não está com ele. Estão os comentadores, os jornalistas e os políticos do regime, mas o povo não tem acompanhado Mário Soares na sua última caminhada. Nem sequer o povo mais idoso, o que tem uma memória mais viva dos tempos áureos da actividade daquele político. Das impressões que fui tendo desde o anúncio da morte de Mário Soares, fosse na rua, nos cafés, junto de amigos e colegas, no comboio, o tema despertou pouca comoção e muito menos debate sobre o seu legado. Podia estar errado na minha percepção, mas as transmissões televisivas desta Segunda-feira, onde fui acompanhando o cortejo fúnebre durante a manhã, confirmaram aquilo que se tornou impressivo para mim: Portugal, o do povo, não está com Soares na hora do adeus. Nas ruas de Lisboa viu-se gente acima dos 50 anos, mas poucos, muito poucos. Nos Jerónimos, igual. Quanto aos mais novos – e quando digo mais novos, estou a ser simpático para aqueles que já têm entre 30 e 40 anos –, praticamente ausentes. Jovens abaixo dos 30, nem vale a pena falar.

 

É normal em qualquer parte do mundo que à medida que os políticos vão envelhecendo se distanciem da memória das pessoas, que vão seguindo as suas vidas, no tempo presente, com as suas alegrias e problemas. As memórias políticas, essas, ficam para os protagonistas do regime que, nestes dias, se têm atropelado uns aos outros para “reagir” e mostrar toda a sua sabedoria em relação à essência de Mário Soares. Nas televisões, rádios e jornais falam uns para os outros e nem percebem que o povo está noutro registo.

 

Mário Soares é e será sempre uma grande referência para Portugal e o povo ficar-lhe-á eternamente agradecido mas, neste momento, para a maioria das pessoas, é já um apontamento histórico que há muito ficou lá atrás. Os tempos pós-modernos são assim, implacáveis na preservação de um sentimento vivo de proximidade com alguém que teve um papel importante na nossa História. As elites vão guardando essas memórias de Mário Soares e os livros de História o registo do seu papel enquanto político português, mas a verdade é que as pessoas comuns parecem cada vez menos entusiasmadas com as tradicionais figuras políticas contemporâneas, as mortas ou as vivas. E quem achar o contrário, é porque vive numa realidade alheada, preso na glória do passado, sem a noção daquilo que o rodeia no presente. E um dia vai perceber que o povo já não se lembra dele, já não quer saber... As honras do adeus serão feitas pelos decrépitos do regime.

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2017, o ano do renascimento do Czar Putin

por Alexandre Guerra, em 02.01.17

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A eleição de Donald Trump veio colocar Vladimir Putin numa posição de enorme relevância no sistema internacional, talvez como nunca tenha tido antes, porque, pela primeira vez, tem em Washington um interlocutor que lhe parece reconhecer o seu poder czarista e autoritário sem qualquer constrangimento ou julgamento moral. Mais, Trump parece estar disposto a aceitar e a respeitar as regras do jogo definidas por Putin, naquilo que poderá ser um paradigma com algumas semelhanças ao sistema de Guerra Fria em matéria de delimitação de zonas de influência. Perante isto, e à luz daquilo que se tem vindo a saber, é muito provável que Putin venha novamente a estar num plano de igualdade com o seu homólogo norte-americano. Trump parece querer conceder-lhe esse privilégio, já que não o deverá fazer a mais nenhum chefe de Estado. Além disso, do que se vai percebendo, Trump acreditará que o mundo pode ser gerido novamente pelas duas potências, numa divisão de influências, onde a China e outros Estados emergentes não lhe merecem grande atenção (quantas vezes ouvimos Trump falar do Brasil, da Índia ou até mesmo do Reino Unido ou da Alemanha???). Hoje, mais do que nunca, é importante perceber quem é Putin, como pensa e como age.

 

Acompanho com atenção o percurso de Vladimir Putin ainda antes de ter sido eleito Presidente da Rússia pela primeira vez em 2000. Quando a 9 de Agosto de 1999 o então já falecido Presidente Boris Yeltsin demitia o seu Governo e apresentava ao mundo uma nova figura na vida política russa, poucos eram aqueles que conheciam Vladimir Putin. Aos 46 anos, Putin, ligado ao círculo de São Petersburgo, e antigo oficial do KGB (serviços secretos), assumia a chefia do novo Executivo, com a motivação manifestada por Yeltsin de que gostaria de vê-lo como seu sucessor nas eleições presidenciais de 2000. Segundo alguns registos, Putin nunca terá tido a intenção de seguir uma carreira política, no entanto, teve sempre um alto sentido de servidão ao Estado, como aliás fica bem evidente na recente biografia de Steven Lee Myers, "O Novo Czar" (2015, Edições 70). Na altura, terá confessado que jamais tinha pensado no Kremlin, mas outros valores se erguiam: “We are military men, and we will implement the decision that has been made”, disse Putin. Muitos viram na decisão de Yeltsin o corolário de uma carreira recheada de erros e que conduzira o país a um estado de sítio. A ascensão de Putin era vista como mais um erro. Citado pelo The Moscow Times, Boris Nemtsov, na altura um dos líderes do bloco dos "jovens reformistas" na Duma e que viria a ser assassinado em Fevereiro de 2015, disse que Putin causou uma fraca impressão na primeira intervenção naquela câmara. "Não era carismático. Era fraco." Também ao mesmo jornal, Nikolai Petrov, do Carnegie Moscow Center, relembrava que Putin deixou uma "patética imagem", sendo um desconhecido dos grandes círculos políticos, e que demonstrava ter pouco à vontade com aparições públicas, chegando mesmo a ter alguns comportamentos provincianos. 

 

Apesar disso, a Duma acabaria por aprovar a sua nomeação para a liderança do Governo, embora por uma margem mínima. É preciso não esquecer que Putin reunia apoio nalguns sectores, nomeadamente naqueles ligados aos serviços de segurança, que o viam como um homem inteligente e com grandes qualidades pessoais. E, efectivamente, após ter assumido os desígnios do Governo, Putin começou de imediato a colmatar algumas das suas falhas, nomeadamente ao nível de comunicação, e a desenvolver capacidades que se viriam a revelar fundamentais na sua vida política. É o próprio Nemtsov que reconheceu o facto de Putin se ter tornado mais agressivo e carismático, dando às pessoas a imagem do governante que os russos prezam. Características que se encaixaram na perfeição ao estilo musculado necessário para responder às explosões que ocorreram em blocos de apartamentos de três cidades russas, incluindo Moscovo, em Setembro de 1999, vitimando sensivelmente 300 pessoas, colocando o tema da segurança no topo da agenda da vida política russa, para nunca mais sair de lá. Em Outubro desse ano, como resposta, Putin dava ordem para o envio de tropas para a Chechénia.

 

Nas eleições presidenciais de 2000, Putin obteve 53 por cento dos votos, contrastando com os 71 por cento conquistados quatro anos mais tarde. Por motivos de imposição constitucional que o impedia de concorrer a um terceiro mandato presidencial, Putin teve que fazer uma passagem pela chefia do Governo entre 2008 e 2012, mas era claro que nunca teve verdadeiras intenções de deixar os desígnios da nação nas mãos do novo ocupante do Kremlin. Conhecendo-se um pouco da história política russa e da sua liderança, facilmente se chegaria à conclusão de que Putin era o homem por detrás do poder, enquanto o novo Presidente em exercício, Dimitri Medvedev, seria apenas um "fantoche". Medvedev compreendeu bem o seu papel nesta lógica de coabitação, remetendo-se praticamente a uma mera representação institucional, sem ousar discutir com Putin a liderança da política russa. Como na altura se constatou, a forma seria apenas um pormenor porque o que estava em causa era a substância da decisão. Ouvido pela rádio Ekho Moskvy, na altura, o analista russo Gleb Pavlovsky ia directo à questão central: "We can forget our favourite cliche that the president is tsar in Russia." E neste caso o Czar é Vladimir Putin que tanto o poderia ser na presidência, na chefia do Governo ou noutro cargo qualquer, desde que fizesse as devidas alterações constitucionais e que continuasse acompanhado dos seus "siloviki".

 

Aparentemente, Putin tem em Washington um parceiro que não o recriminará e que respeitará a sua liderança, desde que o Presidente russo não mexa com os interesses norte-americanos que, diga-se, nem será assim um exercício tão difícil de aplicar. Actualmente, Moscovo joga algumas das suas prioridades geoestratégicas e geopolíticas em tabuleiros que Trump já deu a entender não estar interessado. Agora, é ver a partir de dia 20 de Janeiro como o Czar Putin e o populista Trump se vão entender.

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O nascimento de Jesus Cristo e a política

por Alexandre Guerra, em 23.12.16

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The Adoration of the Magi  
ANTONIO VIVARINI (Murano, 1440-1480) 
Gemäldegalerie, Berlin

 

O Natal é vivido pela maioria das pessoas como um acontecimento "familiar", no qual se celebra o nascimento do Rei dos Judeus (embora nas actuais sociedades pós-modernas já muito poucos façam essa associação). Nesta lógica de pensamento, a época natalícia é sobretudo um fenómeno social com um brutal impacto económico. No entanto, e remontando às origens do Natal, na pequena cidade de Belém, vislumbrava-se algo mais do que a componente familiar/social. Efectivamente, não foi preciso muito tempo para que o nascimento de Jesus Cristo fosse assumindo um carácter político e para que lhe tivesse sido atribuído uma dimensão para lá da manifestação familiar/social.

 

O Império Romano acabaria por constatar essa tendência nos seus terrítórios, ao ver transformado um fenómeno social e religioso numa questão política. A fundação da Igreja de Roma por São Pedro, o Pescador, e o respectivo "aval" do Império acabou por ser uma resposta política a um problema que extravasava as esferas social e religiosa. Porém, esta componente política raramente é associada ao nascimento de Jesus Cristo e ao Natal na altura das pessoas se reunirem na noite da Consoada. Aqui, sobressai sempre o espírito familiar daquela noite de Belém. Mas, repare-se que mesmo nesse ambiente surgiu o primeiro sinal político, com a presença de emissários (Três Reis Magos) que, vindos do Próximo Oriente, deslocaram-se à Cisjordânia para ver o recém nascido "rei" dos judeus. Aliás, este acontecimento gerou de imediato preocupações políticas na corte do Rei Herodes, sentindo-se este ameaçado com o nascimento de Jesus Cristo.

 

Tal como se veio a verificar mais tarde, as preocupações de Herodes adensaram-se, tendo o nascimento de Jesus Cristo transformado-se numa problemática de poder para a corte hebraica, originando as mais vis e perversas tácticas de propaganda e contra-informação, de forma a fragilizar o novo "Rei dos Judeus" perante o Império e mais tarde face ao Sinédrio. Apesar disto, a verdade é que o Natal é unicamente associado a uma noite idílica de criação, esquecendo-se quase sempre os ventos turbulentos que tal acto trouxe consigo. Por isso, seria um exercício interessante e curioso se as famílias aproveitassem esta época festiva para se reunirem à mesa não apenas para comer e trocar oferendas, mas para discutir e debater a sociedade que os rodeia, os seus problemas e desafios. Estariam a celebrar verdadeiramente o nascimento de Jesus Cristo.

 

Publicado originalmente no Diplomata a 23 de Dezembro de 2015.

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Blogue da semana

por Alexandre Guerra, em 04.12.16

Confesso que já não me recordo como cheguei a este blogue, Two Weeks Notice, mas já foi há alguns anos e, desde então, vou lá dando uma espreitadela de temos a tempos à procura de mais informação sobre assuntos da América Latina e a sua relação com os Estados Unidos. O seu autor, professor na Universidade da Carolina do Norte, está devidamente credenciado e o mais interessante deste espaço é que se mantém no formato clássico de blogue, sem ter evoluído para uma plataforma mais sofisticada. Percebe-se claramente que estamos perante boa informação, escrita por alguém que está muito atento às questões da América Latina e que tem todo um background académico que só ajuda a credibilizar o conteúdo. 

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Consequências

por Alexandre Guerra, em 04.12.16

Desconhecia até ontem quem era Michael Finkel, quando vi o filme True Story, baseado em factos reais. Não foi tanto a história do filme que me prendeu a atenção, mas sim uma das cenas iniciais que ocorre em 2002, em que Finkel, na altura tido como um jornalista de topo do New York Times, é despedido daquele jornal porque adulterou uma reportagem sobre escravatura infantil na Costa do Marfim. Para quem gosta de bom jornalismo, é reconfortante ver a implacável conversa que a sua editora e, presume-se, o chefe de redacção tiveram com Finkel para o confrontar com o seu erro e imputar-lhe as devidas consequências por ter infligido danos à reputação do jornal, à causa do combate à escravatura infantil e, sobretudo, ao jornalismo de referência. Felizmente, e uma vez que os erros acontecem, seja de forma involuntária ou por má fé, o jornalismo de referência anglo-saxónico tem-se revelado absolutamente impiedoso no "julgamento" destes casos e nas respectivas consequências. Mas, infelizmente, esse escrutínio não tem sido uma prática seguida por outros jornais (ditos de referência) em diferentes países, nomeadamente Portugal. É lamentável como ao longo dos anos, jornalistas e jornais de referência nacionais têm cometido os maiores atentados ao jornalismo sem que alguém seja demitido ou peça desculpa aos leitores. São vários os casos vergonhosos que me vêm memória, mas cujas consequências na defesa do jornal, do jornalismo e do interesse do leitor ainda aguardo para ver.

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Sem grandes dramas

por Alexandre Guerra, em 30.11.16

A Itália é um país fascinante por diversas razões. Politicamente, sempre foi um laboratório para todo o tipo de experiências. Nos últimos 70 anos teve 63 governos, mas a verdade é que, com mais ou menos instabilidade, a Itália lá vai funcionando no seu estilo muito próprio e ao mesmo tempo sedutor e único. No Domingo, realiza-se um importante referendo sobre várias alterações constitucionais, as mais importantes desde a II GM, entre as quais a diminuição da relevância do Senado naquele sistema político. As sondagens indicam que o primeiro-ministro Matteo Renzi se arrisca a perder a votação, mas mesmo que isso aconteça, acredito que a Itália, com toda a sua classe e arte, olhará para todo este processo sem grandes dramas.

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Escolhas interessantes de Trump

por Alexandre Guerra, em 23.11.16

Interessantes, é o que se pode dizer de algumas escolhas que Donald Trump tem feito para a sua equipa. Contrariando um pouco a ideia que reinou nos primeiros dias após a sua eleição, de que se estaria perante uma equipa de transição caótica e que se estava perante um "assalto ao poder" por parte de "amigos" e familiares, não deixam de ser curiosos os nomes que Trump escolheu para a Educação, Habitação e Desenvolvimento Urbano e para o lugar de Embaixador dos EUA nas Nações Unidas. Betsy DeVos, na Educação, é republicana, activista conservadora, filantropista e presidente da American Federation for Children, um grupo de interesse bastante agressivo na defesa da atribuição de vouchers de dinheiro público para que as famílias mais carenciadas possam colocar os seus filhos a estudar em escolas privadas. É claro que por detrás desta medida está uma opção ideológica, com a qual se pode concordar ou não, mas a verdade é que DeVos não é propriamente uma pessoa de quem se possa dizer que é completamente desajustada ao lugar. Penso que, efectivamente, qualquer que fosse o candidato republicano, o seu nome seria visto com normalidade.

 

Para a Habitação e Desenvolvimento Urbano, é surpreendente a escolha de Trump ao ir buscar Ben Carson, negro, neurocirurgião retirado, e que foi seu rival nas primárias. Embora não tenha qualquer experiência governativa, merece pelo menos o benefício da dúvida. Também hoje se ficou a conhecer a Embaixadora dos EUA para as Nações Unidas. Nikki Haley parece ser uma escolha acertadíssima. "Rising star" no Partido Republicano, de 44 anos, era até agora a primeira mulher governadora do estado da Carolina do Sul. É filha de imigrantes indianos e por várias vezes já demonstrou ser uma pessoa defensora dos valores da integração e do diálogo.

 

Ao nomear estas três pessoas, Trump tem, por um lado, o objectivo estratégico de aliviar a pressão sobre si, escolhendo duas mulheres e um negro, passando a ideia de diversidade e escapando ao estigma de que se estava a criar uma administração maioritariamente "branca" ligada aos interesses de grupos de direita mais radical. Por outro lado, e esse é um lado mais curioso, Trump revela algum desportivismo, porque todos estas pessoas foram suas críticas. E a ironia disto é que muitos dos políticos europeus arautos da liberdade que tanto têm criticado Trump (e existem razões para isso) jamais nomeariam alguém que os tivesse criticado. Nesse aspecto, Trump parece estar a dar algumas lições. Logo se verá se é para durar. Até ver...

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Fica o convite...

por Alexandre Guerra, em 10.11.16

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Fica aqui o convite aos meus companheiros de blogue e aos leitores do Delito. 

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Ainda a propósito da XI Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP, realizada em Brasília, continua a ser muito interessante ver a hipocrisia diplomática de algumas vozes em Lisboa (e não só) face à Guiné Equatorial. Por um lado, lá se fazem umas críticas ao regime de Teodoro Obiang, mas depois é extraordinário ver outros responsáveis nacionais, em jeito de auto-convencimento, a sublinhar que a Guiné Equatorial já informou ter ratificado os estatutos da CPLP e que a decisão da abolição da pena de morte tramitou no processo legislativo e aguarda publicação. Ou seja, mais uma vez, as autoridades portuguesas assumem uma postura de conivência com um regime que, mesmo que ratifique os estatutos da CPLP, que abula a pena de morte (o que ainda está para se ver) e que generalize o ensino do português no país (o que dificilmente acontecerá), continua a ser um dos melhores exemplos de uma ditadura ao bom e velho estilo africano.

 

Relembro algo que aconteceu no ano passado. Cavaco Silva, no prefácio de um dos seus célebres “Roteiros”, revelou que, nas vésperas da X Conferência realizada em Díli, em 2014, foi Timor Leste que se empenhou na adesão da Guiné Equatorial, um processo que contava com o apoio de Angola e do Brasil. Cavaco dava a entender que Portugal tinha resistido a este processo até ao limite e que, quando a comitiva portuguesa chegou a Díli, já nada havia a fazer perante o empenho de Timor Leste. Ora, o antigo Presidente e primeiro-ministro timorense, José Ramos Horta, rejeitou esta versão, referindo que o seu país apenas deu seguimento a um processo que já estava a andar. A verdade é que, tirando alguns protestos diplomáticos de circunstância, de Lisboa nunca se viu um movimento concreto e veemente de oposição à entrada da Guiné Equatorial. Note-se que este país africano se tornou membro de pleno direito da CPLP na cimeira de Díli, em julho de 2014, na sequência de um roteiro de adesão que incluía o fim da pena de morte no país e a disseminação do português naquela antiga colónia espanhola.

 

Não deixa de ser incómodo que, agora, dois anos depois, lá se tenha incluído na declaração final de Brasília que os estados-membros da CPLP se "congratularam com o anúncio da conclusão dos procedimentos internos de ratificação dos Estatutos" da organização por parte da Guiné Equatorial. É ainda mais desconfortável ver como os países da CPLP registaram "com agrado a solicitação da Guiné Equatorial de apoio técnico à harmonização legislativa interna, decorrente da moratória à pena de morte em vigor, no sentido de a converter em abolição". Na prática, desde Díli, que nada foi concretizado daquilo que estava previsto no roteiro. Agora, em Brasília, deram-se uns passos muito curtos, apenas para não cobrir de ridículo os intervenientes na cimeira. A questão é que mesmo que a Guiné Equatorial tivesse cumprido com todos os requisitos nestes dois anos, estaria muito longe daquilo que são os valores e princípios que um país como Portugal e, apesar de tudo, uma organização como a CPLP, defendem e partilham.

 

O regime de Teodoro Obiang é um dos mais corruptos de África e funciona numa lógica familiar, com um dos seus filhos, vice-presidente para a área da segurança e defesa, a ostentar uma vida de luxo, gastando milhões do erário público em gostos extravagantes, que vão desde jatos a mansões de luxo, passando por objectos de Michael Jackson. Neste momento, enfrenta várias investigações, em França e nos EUA. Teodoro Obiang está no poder há quase 37 anos, sendo o líder há mais tempos em exercício de funções em África. A Guiné Equatorial é rica em gás e petróleo, mas a maior parte da sua população vive na pobreza. Faltam hospitais e a água e luz é um sonho para muitos dos habitantes daquele país. A Amnistia Internacional acusa aquele regime de praticar tortura recorrentemente e detenções arbitrárias contra os críticos do Governo.

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A minha "conversa" com João Lobo Antunes

por Alexandre Guerra, em 27.10.16

Tinha-me cruzado com o Professor João Lobo Antunes por duas ou três ocasiões, por motivos profissionais, mas nunca tinha falado (e nunca falei pessoalmente) com ele. Desses breves momentos, nunca fiquei com a ideia de que seria uma pessoa simpática, pelo contrário, daquilo que ia vendo e conhecendo do Professor João Lobo Antunes, enquanto personalidade pública, sempre o considerei algo elitista e pouco acessível (nada que me incomodasse), mas nunca tive dúvidas quanto à sua rara envergadura intelectual e, sobretudo, quanto à sua firmeza nas convicções ideológicas que tinha.

Em Maio último, por razões que um dia poderei contar, tive o privilégio de trocar alguns e-mails com João Lobo Antunes. Fiquei esmagado com a sua dureza de argumentos intelectuais e ideológicos. O professor foi impiedoso comigo, mas ao mesmo tempo concedeu-me o privilégio de poder rebater e contra-argumentar, tendo eu as devidas réplicas da sua parte.

Divergimos naquilo que era o âmago da questão, com João Lobo Antunes a expor os seus argumentos de uma forma duríssima, como nunca ninguém me tinha confrontado. Ao projectar a sua intelectualidade e ao exprimir as suas convicções, acabei por perceber que João Lobo Antunes me tinha concedido um estatuto merecedor do seu tempo e atenção.

No final, e depois de ter literalmente arrasado os meus pontos de vista, embora eu me tenha mantido firme em relação àquilo que defendia, o Professor João Lobo Antunes despediu-se de uma forma que nunca irei esquecer e que tanto me orgulha. Só um homem de tal inteligência, sofisticação e elegância responderia o que ele respondeu. Mas isso, fica só para mim.

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O veto da Valónia e o negócio de armas

por Alexandre Guerra, em 26.10.16

A mais recente crise espoletada pela região francófona da Valónia, que se recusa a aceitar o acordo económico e de comércio entre a União Europeia e o Canadá, e que está a deixar os responsáveis europeus em Bruxelas à beira de um ataque de nervos, é paradoxal e tem uma dose considerável de hipocrisia à mistura. E porquê? Primeiro, porque o CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement) -- cuja sua assinatura está prevista para amanhã em Bruxelas, onde se espera a presença do primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, que ainda acredita numa solução de última hora -- é um acordo que poucas implicações terá numa região que representa apenas 10 por cento das trocas comerciais da Bélgica com o Canadá. Ou seja, os restantes 90 por cento dessas trocas são feitas através da Flandres. Segundo, porque, embora o primeiro-ministro da Valónia, Paul Magnette, longe de ser um eurocéptico, se apresente como uma espécie de herói ao resistir à pressão da União Europeia, naquilo que ele considera ser a defesa dos standards europeus em matéria de direitos sociais, dos trabalhadores e do ambiente, a verdade é que muitos vêem nisto uma mera manobra interesseira de hipocrisia. E lembram, como aliás o próprio site Politico europeu sublinha, que a Valónia parece não ter qualquer problema de princípio ou de consciência em vender armas para o Médio Oriente, nomeadamente, para a Arábia Saudita, mas as campainhas de alarme já soam quando está em causa um acordo que, diga-se, poderá beneficiar a União Europeia e prejudicar muito pouco, ou quase nada, a Valónia.

De notar que o estado regional da Valónia é detentor a 100 por cento da FN Hersta, uma empresa de armamento que é acusada de pouca transparência na sua actividade. Por exemplo, em 2009, a FN Hersta causou muita polémica, ao vender armas para o falecido líder líbio, Muammar Khadafi.  Além disso, no ano passado, a FN Herstal e outras empresas da Valónia obtiveram licenças para venderam armas no valor de quase mil milhões de euros, o dobro do valor em relação a 2004. E de realçar que 60 por cento dessas vendas foram para a Arábia Saudita. Mas um dos casos mais exemplares da hipocrisia de Paul Magnette, um socialista moderado e especialista em assuntos europeus, tem a ver com aquilo que aconteceu em 2014, quando o parlamento valão aprovou um negócio de armas de 3,2 mil milhões de euros com o Canadá, para a montagem de viaturas militares cujo destino final era a Arábia Saudita.

Perante isto, não são de estranhar as críticas que o primeiro-ministro da Flandres fez a Magnette, ao acusá-lo de preferir vender armas aos sauditas do que fazer um acordo de comércio com o Canadá. E embora o Governo belga, liderado pelo francófono Charles Michel, apoie o CETA, a questão é que este é um acordo misto, o que implica que o mesmo, além de ser aprovado pelo Conselho e Parlamento europeu, terá também de ser ratificado pelos Estados-membros. O problema é que a Constituição da Bélgica obriga a que esta ratificação passe pelos parlamentos regionais.

Magnette tem explorado ao máximo o sentimento de descontentametno dos valões, que vêem na sua região uma grande crise industrial, o que tem contribuído para a subida do Partido do Trabalho da Bélgica (marxista), sendo que ainda recentemente a Caterpillar anunciou o encerramento da sua fábrica na Valónia, levando ao despedimento de 2200 trabalhadores. Tudo isto está a permitir a Magnette bloquear o CETA, o problema é que, ao que tudo indica, está a fazê-lo pelas razões erradas.

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Alucinante

por Alexandre Guerra, em 24.10.16

 

Mais uma edição do Red Bull Rampage nas montanhas do Utah. Alucinante a run do vencedor. 

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Não tenho dúvidas de que hoje em dia está na moda dizer mal da União Europeia e de tudo que ela faz e representa. Os políticos europeus estão na linha da frente desses "ataques", muitas das vezes esquecendo-se o que essa mesma União (ou Comunidades, dantes) deu e contribuiu para o progresso e salto civilizacional deste Continente. O povo, naturalmente, vai atrás, criticando sem saber bem do que fala, embora, também se deva dizer que as supostas elites pensantes que pululam pelos meios de comunicação social são mais críticas em relação à UE do que os cidadãos comuns, que, apesar de tudo, são mais justos na análise que fazem aos benefícios e virtudes da Europa Comum. E no meio desta ânsia mediática de se criticar e dizer mal, acaba-se por dar ênfase ao que está errado (e há muita coisa) e ignorar o que diariamente é feito de positivo ao nível comunitário e devidamente comunicado pelas instâncias de Bruxelas. Mas, a questão é que isso pouco interessa às redacções e essa informação não tem espaço nos alinhamentos de comentários dos muitos "especialistas" que se redistribuem pelos vários canais noticiosos. 

 

Há dias, tivemos um bom exemplo disso, com a União Europeia a dar um passo político muito importante na sua história ao ter, pela primeira vez, como um todo, ratificado um acordo internacional, optando por não esperar pelas ratificações nacionais dos Estados-membros. Pouco se ouviu falar sobre isso, mas o que é certo é que os ministros de Meio Ambiente dos países-membros da UE aprovaram no passado dia 30, em Bruxelas, a ratificação do Acordo de Paris, que determina as directrizes universais para o combate ao aquecimento global. A decisão foi aprovada por unanimidade, num raro avanço político na UE. Os ministros aprovaram, na prática, a aceleração do processo de ratificação, sem esperar pela implementação do acordo em cada Estado-membro. De notar que apenas sete países da União Europeia já tinham concluído esse procedimento de ratificação nacional. Entretanto, o Parlamento Europeu também já aprovou a ratificação do Acordo de Paris, estando, agora, fechado o processo político e aberto o caminho para a sua entrada em vigor, no prazo de 30 dias. Sublinhe-se que para entrar em vigor, o Acordo de Paris precisava da ratificação de, pelo menos, 55 países responsáveis por 55% das emissões de gases com efeito de estufa. Até agora já tinha sido ratificado por 62 países, mas estes representavam apenas 52% das emissões, incluindo os dois maiores emissores – a China (20% do total) e os EUA (18%) –, pelo que a ratificação da UE permitirá a implementação do compromisso, 30 dias depois de a mesma ser depositada na ONU.

 

Ora, além da importância óbvia da entrada em vigor do Acordo de Paris (e isso foi noticiado timidamente no meio de tantas outras notícias), existe a vertente política no âmbito do processo europeu e esse enquadramento esteve praticamente ausente da imprensa e televisões portuguesas. É pena, porque este processo é um dos bons exemplos de como a Europa pode estar ao serviço de grandes causas, desde que haja consenso entre os líderes europeus. E era bom que isso fosse explicado e salientado.   

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Do princípio ao fim (21)

por Alexandre Guerra, em 13.10.16

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Lendo com atenção os magníficos textos que têm composto esta rubrica, registo uma enorme qualidade na abordagem feita pelos meus companheiros de blogue a diferentes livros que, de uma maneira ou de outra, lhes terão marcado "do princípio ao fim". A questão é que nestas coisas da literatura, a impressão com que cada um de nós fica de um livro pode ser influenciada por diferentes factores, que podem ir desde a qualidade da obra ao “mood” com que cada um de nós parte para a sua leitura.

São vários os livros sobre os quais poderia escrever, mas apeteceu-me ir para algo mais “pornográfico”. O leitor poderá ficar desde já tranquilo porque o texto que segue em baixo cumpre todos os requisitos dos bons costumes e da decência. Na verdade, estou a falar de um livro biográfico altamente respeitável, que foi New Times Best Seller e que teve como co-autor Neil Strauss, jornalista, escritor, ghost writer, e colunista da Rolling Stone e do New York Times.

Neste livro, Strauss ajuda a contar a história de vida de Jenna Jameson que, para quem não conhece, é uma das maiores “porn star” dos EUA, que se tornou num ícone da cultura pop norte-americana. O livro está longe de ser uma grandeza literária, mas tem o seu valor, por ser cru e pragmático, espelhando aquilo que a sociedade americana é. Se, por um lado, os preconceitos e o puritanismo fazem parte do quotidiano de uma certa América, por outro lado, aquela sociedade é de tal forma livre ao ponto de uma pessoa poder chegar ao topo, sendo aceite pelo sistema “mainstream” e não ser julgada pela sua “profissão” ou passado. De facto, o “céu é o limite” e o “american dream” é sempre possível, independentemente de onde se venha ou do que se tenha feito.

E o capítulo Um do livro começa assim:

“There comes a moment in every life when a choice must be made between right and wrong, between good and evil, between light and darkness. These decisions are made in an instant, but with repercussions that last a lifetime. My troubles began the day I chose the darkness – the day I chose Jack.

At age sixteen, I finally grew the breasts and pubic hair I had been praying for since sixth grade. It was as if they just appeared overnight. And suddenly I transformed from a homely wallflower to a full-bodied woman who turned heads. It was every father’s nightmare.”

O livro chama-se How to… Make Love Like a Porn Star e foi editado em 2004. E termina da mesma forma como começa, sem floreados ou figuras de estilo: “Because we were too busy at the time to travel, we decided to have our honeymoon at the Ritz-Carlton in Phoenix, so we booked the rest of the week there. That first night, we had fantastic sex – especially compared with my first wedding, when I didn’t-have sex at all – and fell asleep in each other’s arms.

When we woke up at 10 A.M, I looked into his eyes. He looked into my eyes. And we both said the same thing: ‘Let’s go home.’”

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Temple of the Dog, 25 anos depois

por Alexandre Guerra, em 30.09.16

A partir do início dos anos 90, Seatlle passou a ser o símbolo de uma tendência social e cultural que influenciou e inspirou parte de uma geração, na altura ainda na sua adolescência. É certo que a cidade já tinha visto nascer Jimi Hendrix e que, antes, já tinha experimentado um fervilhar musical, sobretudo ligado ao jazz. Mas, é no final dos anos 80 e início da década de 90, quando uma parte dos adolescentes se encontram musicalmente órfãos e as “trends” da altura pouco lhes diziam, que Seattle emerge como um centro de sub-cultura que vem rasgar por completo com as tendências instituídas.

 

Este movimento “independente”, que mais tarde viria ser chamado de “grunge”, resulta da combinação espontânea de talento, juventude e irreverência (e, já agora, de alguma droga à mistura). O que alimentou esse movimento foi a música, um determinado estilo de música, à volta da qual se criaram tendências culturais e sociais, um certo estilo de vida, e que se prolongaram durante muitos anos. O expoente máximo desse fenómeno criativo não terá durado mais do que cinco anos, talvez entre 1989 e 94, mas foi o suficiente para criar colossos como os Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden, Alice in Chains ou Stone Temple Pilots. Mas estas bandas, provavelmente, não teriam existido se não fossem os Mother Love Bone, grupo criado em 1988, considerado como o percursor do movimento “grunge” e que durou até 1990, tempo suficiente para fazer um espectacular EP, chamado Apple, já lançado depois da morte por ovedrose do seu vocalista, Andrew Wood.

 

E a história começa a partir daqui. Daquela banda, faziam parte Jeff Ament, baixista, e Stone Gossard, guitarrista, músicos que viriam a fundar os Pearl Jam. E como? Porque, Chris Cornell, amigo de Andrew Wood e que dispensa qualquer apresentação, foi ter com Ament e Gossard para fazerem um álbum de homenagem ao antigo vocalista dos Mother Love Bone. Esse álbum viria a ser feito com a colaboração de Eddie Vedder que, juntamente com Cornell, gravaria o espectacular dueto, Hunger Strike.

 

O álbum chamou-se Temple of the Dog, nome também desta banda improvisada, e foi das melhores coisas feitas no último quarto de século em termos musicais no estilo rock/alternativo. É muitas vezes esquecido pelo público mais “mainstream”, mas quem gosta de música e esteve atento ao fenómeno “grunge”, reconhece a importância e a qualidade daquele álbum na influência que teve em tudo o que se lhe seguiu. Foi um trabalho único e, entretanto, cada músico seguiu a sua vida com o sucesso que se conhece.

 

Hoje, dia 30 de Setembro, 25 anos depois, vai ser lançada uma reedição de aniversário de Temple of the Dog, e com o anúncio de que essa super-banda se vai reunir em Novembro para dar uns concertos nos Estados Unidos. Em tempos de alguma desertificação no panorama rock actual, é sempre inspirador recuperar o que de muito bom se fez.

 

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A última "pomba" do Médio Oriente

por Alexandre Guerra, em 28.09.16

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Desde que me lembro de ter alguma consciência política e sensibilidade para as questões do mundo, que convivo quase diariamente com o conflito do Médio Oriente, seja em momentos de maior ou menor intensidade. Não estarei a exagerar se disser que aquela realidade israelo-palestiniana me tem acompanhado ao longo da vida, onde aliás já tive o privilégio de estar por mais que uma vez. Havia três figuras que faziam parte desse meu mundo: duas já morreram há uns anos; Ytzhak Rabin, em 1995, e Yasser Arafat, em 2004. E a terceira figura era Shimon Peres, que morreu esta manhã. Todos eles foram em tempos das suas vidas "falcões", que lutaram pela sua terra, mas morreram como "pombas" na tentativa de encontrar uma solução de paz para um conflito milenar.

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Imagine

por Alexandre Guerra, em 21.09.16

Quando o presidente americano Woodrow Wilson enunciou os seus famosos Catorze Pontos, em 1918, no final da Grande Guerra, tinha como ideal construir uma paz global para o mundo. Rapidamente se percebeu a ingenuidade da sua proposta e Wilson ficaria para a história como um idealista. Hoje é o Dia Internacional da Paz, uma daquelas datas que têm tanto de simbólico como de inócuo. Mas imaginemos que até seria possível...

 

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Excitações

por Alexandre Guerra, em 20.09.16

No exercício das suas funções, os políticos, sobretudo aqueles com responsabilidades de liderança e mais visibilidade, não devem, por definição, ser pessoas excitadas, precipitadas, estridentes, irritadas ou deslumbradas. É pelo menos este o meu entendimento daquilo que um político nao deve ser. Os políticos nunca devem achar que têm uma missão messiânica ou que são uma espécie de Dom Quixote em que, contra tudo e contra todos, focam-se apenas numa ideia, independentemente das "baixas" ou dos "danos colaterais" que isso possa provocar. E sobretudo, os políticos nunca devem achar que têm sempre a razão do seu lado. Devem estar preparados para aceitar a diferença, ceder, assumir o erro (se for caso disso) e corrigir a trajectória. Brincar à política pode ser um dos exercícios predilectos dos governantes e líderes partidários cá do burgo (e não só), no entanto -- e além do divertimento que isso possa gerar interpares e na classe jornalística/comentadores --, à margem desse espectáculo circense, encontra-se uma vasta massa, o tal Povo, que, apesar de lhe terem dito, em tempos, que era quem mais ordenava, na verdade manda pouco. Não é que tenha que mandar, porque por alguma razão foi inventada a Política e os governos, agora, o que se espera é que essas elites estejam à altura dos seus mandatos, de servir o Povo com o máximo de responsabilidade e bom senso. Não se pede muito mais, pede-se apenas responsabilidade e bom senso. 

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É quase tudo uma questão de inspiração

por Alexandre Guerra, em 15.09.16

Um dos passatempos preferidos dos actuais governantes do Velho Continente é criticar o projecto europeu e reduzi-lo a um monte de burocracia, que está em decadência e que pouco ou nada faz pelos seus povos. Com mais ou menos intensidade, esta é a tónica dominante da retórica de praticamente todos os líderes dos vinte e oito Estados-membros. Seja por convicção, seja para agradar ao seu eleitorado interno, seja até por razões válidas (porque há muitos erros que devem ser corrigidos), são diárias as críticas e os ataques feitos ao projecto de construção europeia. No meio de tudo o que se vai ouvindo, é recorrente o lamento sobre a falta de liderança política na Europa. Ao nível dos Estados-membros, não existem figuras carismáticas que possam assumir esse designio comum e inspirador de levar isto por diante e, no âmbito das instituições comunitárias, percebe-se que as figuras que têm sido escolhidas para assumir tais cargos nos últimos anos não têm gerado o efeito de mobilização e de alavancagem que se precisava. De certa maneira, hoje em dia, fica-se com a sensação de que a construção do edifício europeu entrou em piloto automático a partir do início dos anos 90, acrescentando-se andares sobre andares em cima de "pilares" frágeis, mas sem qualquer farol que apontasse um porto seguro.

 

Não se estranha, por isso, que uma certa ideia romântica de Europa unida e solidária se tenha perdido lá atrás, com a saída de cena de homens como Delors, Kohl, Miterrand, Soares ou González, apenas para dar alguns exemplos. No entanto, se é verdade que Jacques Delors é e será sempre uma figura de referência na construção europeia, tal evidência não deve distorcer a análise comparativa entre os seus dois mandatos na Comissão e os que se lhes seguiram. Porque, de certa maneira, no final dos anos 80 e no início dos anos 90 viveu-se uma euforia europeia, com alguns dos principais líderes europeus da altura, com destaque para Helmut Kohl e Francois Miterrand, a “acelerarem” o projecto europeu para um nível de integração absolutamente inédito. Maastricht é precisamente o resultado, mas também o símbolo, dessa vontade política. Na prática, e até pela realidade ainda bem presente dos traumas de uma Europa dividida, todos eles estavam a lutar pelo mesmo. E isto veio facilitar (e de que maneira) o trabalho de quem estava nas instâncias comunitárias e, ao mesmo tempo, criar uma onda de entusiasmo junto dos cidadãos europeus.

 
Hoje, a euforia deu lugar ao descontentamento e cepticismo no seio dos Vinte e Oito. Os europeus não parecem ver na Europa um projecto aliciante, mas sim uma entidade burocrática, dominada por tecnocratas que se limita a emitir directivas. A juntar-se a esta ideia, muitos dos intervenientes políticos nos vários Estados-membros tecem duras críticas e enveredam por discussões bizantinas sobre questões que, com alguma arte política e inspiração, podiam ser ultrapassadas, tendo sempre presente que este mesmo projecto europeu já ultrapassou períodos bem mais complicados da sua história. A diferença é que nessas alturas lá estavam os líderes carismáticos, a meterem de lado as suas diferenças e egoísmos e a pensarem no bem comum, e, desta forma, a inspirarem os seus povos. 

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Recordar o 9/11

por Alexandre Guerra, em 11.09.16

Quinze anos depois, estive a reler aquilo que escrevi ao longo dos dois dias que se seguiram aos atentados do 11 de Setembro (uma Terça-feira) e que seria publicado na edição seguinte do SEMANÁRIO, na Sexta-feira (14). Enquanto editor da secção de Internacional daquele jornal, recordo-me perfeitamente que, na altura dos atentados, estava na redacção (naquele edifício cor-de-rosa no Dafundo cheio de história ligada ao jornalismo), o que me permitiu acompanhar todos os desenvolvimentos desde o início. Depois do choque inicial, foi preciso afastar as emoções, perceber o que estava a passar e perspectivar o que iria acontecer. Foram dias de muito trabalho e confusão, mas um privilégio, porque, foram momentos como aqueles que me fizeram desenvolver a paixão que sempre tive pelo jornalismo.   

 

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Primeira página do SEMANÁRIO de 14 de Setembro de 2001

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Uma brincadeira cada vez mais séria

por Alexandre Guerra, em 09.09.16

O mundo ocidental acordou hoje com a notícia de que a Coreia do Norte fez mais um teste nuclear, com os registos de actividade sísmica a indicarem poder tratar-se de um engenho de 20 a 30 quilotoneladas de potência, ou seja, superior à bomba que os EUA lançaram sobre Hiroshima. Mas o problema já nem é só este, o da bomba em si, é o facto do regime de Pyongyang ter aparentemente conseguido desenvolver os vectores de lançamento para transportar essas ogivas, nomeadamente, os mísseis balísticos de médio alcance. E é sobretudo esta questão que torna a ameaça norte-coreana cada vez mais perigosa e imprevisível. A julgar pelas informações que vão chegado, neste momento parecem começar a estar reunidas condições para que um qualquer lunático em Pyongyang carregue no botão e lá dispare um míssil com ogivas nucleares com capacidade para atingir a Coreia do Sul, o Japão e até mesmo território americano no Pacífico.

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