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O interior que arde*

por Adolfo Mesquita Nunes, em 22.08.17

Se os fogos que consomem o interior fossem à entrada de Lisboa ou do Porto, com a sua devastação, olharíamos com a mesma complacência para as falhas de coordenação e afectação de meios? Continuaríamos a aceitar que ninguém assumisse responsabilidades? Deixaríamos que as explicações fossem de modo a tratar tudo isto como uma enorme fatalidade que não pode ser evitada?

À hora que escrevo, o fogo anda à solta na Serra da Estrela e às portas da minha terra, a Covilhã. Foi na Covilhã, ainda na parte urbana, que o fogo começou, sem eucaliptos, e dali se espalhou, até em zona de pinhal limpo e ordenado. Na semana passada, o fogo consumiu a bem ordenada Serra da Gardunha, levando uma parte da produção agroalimentar da Cova da Beira.

Conheço as justificações que correm para que tudo isto seja tratado como uma enorme fatalidade num ano extraordinariamente severo com demasiadas ocorrências, muitas delas simultâneas.

Sucede que essas explicações são desmentidas no recente relatório do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que faz uma análise comparativa do período de janeiro a 15 de agosto dos últimos dez anos.

 

 

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Modo de Vida (46)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 21.02.17

Há uns meses, andava eu pelo Porto, encontrei o 'Pensadora das Coisas Pensadas', da Agustina. Comprei-o, que ainda o não tinha, e abri uma página ao acaso, para nesse acaso me fixar na primeira frase que me surgisse. É um hábito antigo, este, o de abrir ao acaso os livros dos autores de que gosto muito, como que para receber uma inspiração, um conselho. Tiro uma fotografia, registo o dia, e procuro onde aplicar o ensinamento. Ontem dei pela fotografia que tirei ao 'Pensadora das Coisas Pensadas', num imprevisto exacto, oportuno: "O mistério da vida cumpre-se em cada homem de uma forma única. A harmonia depende possivelmente de que deveríamos impor menos as fórmulas de felicidade, que é bom senso de raros, e aceitar redimensionando-a pela responsabilidade própria, a incoerência de todos".

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Blogue da semana

por Adolfo Mesquita Nunes, em 20.11.16

Não gosto de acabar de ler ou ver uma entrevista pensando nas perguntas que faltam, naquelas que eu faria se tivesse a oportunidade de entrevistar aquela pessoa ou aquelas pessoas. Não se trata tanto de querer que as entrevistas repliquem aquilo que me pergunto, um atrevimento sem sentido, mas de querer que elas caminhem de tal forma que até eu me esqueço das perguntas que faria. Não sucede assim tantas vezes, mesmo que haja cada vez mais e mais entrevistas, mas sucede muitas vezes com as entrevistas da Anabela Mota Ribeiro, a que volto muitas vezes em dias de chuva como este, por exemplo. 

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Do princípio ao fim (26)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 19.10.16

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Procure-se pelas melhores primeiras frases de livros e lá constará, com certeza, a frase inicial do The End of the Affair, do Graham Greene.

 

A story has no beginning or end; arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which to look ahead.

 

Gosto deste começo, de me saber escritor, aqui também personagem, na decisão sobre o momento certo, o pretexto por onde começar, descobrindo afinal que somos uma extensão de momentos, sem princípio nem fim, porque a nossa história nunca começa ou acaba connosco, nem pode sequer ser lida de forma sequencial (o romance, precisamente, não é assim narrado). Esta percepção do tempo, apesar de me interessar muito, não é a razão pela qual escolho o The End of the Affair. Permitam-me que partilhe o parágrafo todo.   

 

A story has no beginning or end: arbitrarily one chooses that moment of experience from which to look back or from which, to look ahead. I say 'one chooses' with the inaccurate pride of a professional writer who - when he has been seriously noted at all - has been praised for his technical ability, but do I in fact of my own will choose that black wet January night on the Common, in 1946, the sight of Henry Miles slanting across the wide river of rain, or did these images choose me? It is convenient, it is correct according to the rules of my craft to begin just there, but if I had believed then in a God, I could also have believed in a hand, plucking at my elbow, a suggestion, 'Speak to him: he hasn't seen you yet.”

 

A razão pela qual escolho o The End of Affair está nesta continuação da primeira frase, a suspeição de que Alguém nos subtrai o livre arbítrio, se sobrepõe a nós nas nossas escolhas, ou pelo menos provoca as condições em que as fazemos. Terá sido Deus, mesmo um ateu se pergunta, a empurrar o protagonista para este momento inicial, para o primeiro diálogo, para o encontro com o marido da ex-amante? Foi Deus que me colocou aqui, neste país, nesta família, neste ambiente? E se o fez, porquê? E este é um tema que me interessa ainda mais.

 

Todo o livro nos confronta com esta omnipresença e omnipotência de Deus, de tal forma que o protagonista passa o tempo inteiro a querer provar justamente o contrário, que Ele não existe ou que, pelo menos, não exerce qualquer poder sobre ele, ainda que o apanhemos a rezar no final.

 

Neste sentido, há uma certa linha paralela com o Hazel Motes do Wise Blood, de outra escritora de que gosto muito, a Flannery O’Connor, nesta persistência em livrar-se de Deus, de uma autoridade que o anteceda e comande, sendo que aqui Deus exerce uma função rival, quase o antagonista sexual com quem Maurice compete por Sarah. Há por isso uma convicção de que Deus nos dificulta, nos perturba, sendo por isso mais fácil viver sem ele, mas há também uma noção de Deus enquanto nosso adversário, não apenas nosso arbítrio.

 

Volto várias vezes a este tema da nossa relação com Deus, quase sempre pela literatura, e talvez por isso goste tanto dos dois autores que refiro neste post. Não tenho por hábito partilhar reflexões demasiado pessoais na blogosfera, pelo que termino o post, sem sugestões, mas com a convicção de que há neste romance do Graham Greene um desenhar de combate que conheço muito bem. 

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(Euro)peu

por Adolfo Mesquita Nunes, em 12.07.16

O Europeu de Futebol, com as suas emoções, é uma -- mais uma, mas bastante elucidativa -- demonstração de que a Europa é feita de nações com histórias, culturas, emoções e percursos próprios. Cada nação a sofrer pelo seu país, a criticar a selecção do lado, a orgulhar-se do seu trajecto, chamando pelos seus, chorando com os seus. Não há qualquer problema nisso, é o que nos sai com naturalidade, sem maldade. E talvez devêssemos prestar mais atenção a essa demonstração, porque ela diz muito de nós, das nossas circunstâncias.

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Só um totalitarismo poderá impedir essa diversidade de percursos, ou pelo menos a sua manifestação. Só uma ditadura nos impedirá de nos sentirmos mais portugueses do que qualquer outra nação a competir pelo título. Só coagidos nos esqueceremos de aplaudir e chorar os nossos golos e as nossas falhas.

 

Qualquer projecto político ou institucional europeu que não dê conta dessa diversidade, que a não integre no seu processo decisório, que não faça dela um activo, só encontrará problemas e criará outros tantos. É evidente que estas nações se unem por valores comuns, e que partilham muito do que as fez sobreviver num Mundo que viu tantos apogeus e tantos declínios. Mas essa partilha, genuína, nunca as fez perder essa individualidade.

 

Num momento em que a Europa enfrenta tantos desafios, talvez fosse bom olhar para o Europeu com olhos de ver.  

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Euro-snobbism

por Adolfo Mesquita Nunes, em 22.06.16

A 15 de Maio de 1992, em Haia, Margaret Thatcher sintetizava, num discurso intitulado de 'Europe’s Political Architecture', os seus principais receios sobre a moeda única e registava a forma como esses receios, as suas dúvidas, que lhe pareciam gritantes, não mereciam, no espaço público europeu, muito mais do que desdém, como se não merecessem atenção, como se fossem umas ideias antiquadas de uma provinciana (chegou a dizer-se que ela queria voltar ao Século XIX).

Aqui ficam, de novo, para que possamos dar-lhes a atenção que então não mereceram. E que pelo menos nos sirvam de lição, não tanto sobre o euro, mas sobre a forma como muitas vezes lidamos, no debate público, com as ideias com que não concordamos (o discurso integral pode ser lido aqui).   

If the European Community proceeds in the direction which the majority of Member State Governments and the Commission seem to want they will create a structure which brings insecurity, unemployment, national resentment and ethnic conflict.

Insecurity — because Europe's protectionism will strain and possibly sever that link with the United States on which the security of the continent ultimately depends.

Unemployment — because the pursuit of policies of regulation will increase costs, and price European workers out of jobs.

National resentment — because a single currency and a single centralised economic policy, which will come with it, will leave the electorate of a country angry and powerless to change its conditions .

Ethnic conflict — because not only will the wealthy European countries be faced with waves of immigration from the South and from the East.

Also within Europe itself, the effect of a single currency and regulation of wages and social costs will have one of two consequences.

Either there will have to be a massive transfer of money from one country to another, which will not in practice be affordable.

Or there there will be massive migration from the less successful to the more successful countries.

Yet if the future we are being offered contains so very many risks and so few real benefits, why it may be asked is it proving all but irresistible ?

The answer is simple.

It is that in almost every European country there has been a refusal to debate the issues which really matter.

And little can matter more than whether the ancient, historic nations of Europe are to have their political institutions and their very identities transformed by stealth into something neither wished nor understood by their electorates.

Yet so much is it the touchstone of respectability to accept this ever closer union, now interpreted as a federal destiny, that to question is to invite affected disbelief or even ridicule.

This silent understanding — this Euro-snobbism — between politicians, bureaucracies, academics, journalists and businessmen is destructive of honest debate.

So John Major deserves high praise for ensuring at Maastricht that we would not have either a Single Currency or the absurd provisions of the Social Chapter forced upon us: our industry, workforce, and national prosperity will benefit as a result.

Indeed, as long as we in Britain now firmly control our spending and reduce our deficit, we will be poised to surge ahead in Europe.

For our taxes are low: our inflation is down: our debt is manageable: our reduced regulations are favourable to business.

We take comfort from the fact that both our Prime Minister and our Foreign Secretary have spoken out sharply against the forces of bureaucracy and federalism.

Our choice is clear: Either we exercise democratic control of Europe through co-operation between national governments and parliaments which have legitimacy, experience and closeness to the people.

Or, we transfer decisions to a remote multi-lingual parliament, accountable to no real European public opinion and thus increasingly subordinate to a powerful bureaucracy.

No amount of misleading language about pooling sovereignty can change that.

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Modo de Vida (45)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 13.06.16

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 (sobre estes dias nossos, ocorreu-me este começo da Maria Gabriela Llansol)

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Fora de série (19)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 03.06.16

Explicar por que razão uma série de desenhos animados como ‘Era uma Vez o Espaço’ me atraiu tanto é um exercício de especulação. Foi a minha primeira série, no sentido em que foi a primeira vez que ansiei por novos episódios, em que me sonhei personagem, em que quis colecionar tudo o que existia e não existia sobre os desenhos animados. E a música do genérico é, ainda hoje, uma das canções da minha vida, com força suficiente para me fazer regressar a um tempo em que tudo ainda fazia sentido.

Mas como explicar este interesse, quando tinha 7 ou 8 anos? O que pode justificar este fascínio? Não sei responder com sinceridade, embora hoje possa, revendo e conhecendo melhor a série, perceber alguns dos aspectos que merecem ser destacados. Refiro dois.

Comecemos pelo tema, o espaço, ideal para atrair a atenção de qualquer criança. Havia no enredo uma aproximação aos temas clássicos da ficção científica, um planeta consciente, robôs que se revoltam, civilizações esquecidas, etc…, expostos de uma forma pouco comum nos desenhos animados sobre o espaço.

Havia naquela história, muitas vezes inspirada na mitologia grega, em que as armas não matavam e os bons eram liderados por uma mulher, uma preocupação em explorar os temas de uma forma mais filosófica: democracia, religião, morte, tolerância, diversidade. Talvez por isso, havendo bons e maus, a história se passasse num ambiente apesar de tudo pacificado, em que espécies diferentes conviviam em harmonia, em que a ciência e a razão dominavam como fontes de prosperidade e em que uma das protagonistas não era ariana.

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E agora a música, do Michel Legrand, com orquestra sinfónica, que atravessa toda a série. Poucos desenhos animados se terão dado a este luxo, de juntar um grande compositor e uma orquestra de propósito para acompanhar as cenas espaciais das personagens. Ainda hoje essas composições têm força suficiente para tornar esta série numa série de culto, embora ofuscada por séries como Espaço 1999 ou Gallactica, que na altura competiam também pelo público infantil. Ora escutem.

Não sei se isto ajuda a explicar por que razão esta série me marcou tanto. Mas não deixa de ser uma boa forma de despertar a curiosidade de quem ainda não conhece esses desenhos animados, muito diferentes aliás dos restantes da mesma série ‘Era uma Vez’ (os mais populares, em Portugal, davam pelo nome de ‘Era uma Vez a Vida’). Quanto ao mais, tudo o que esta série me faz recordar, tudo o que nela me inspira, não caberia aqui. 

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Blogue da semana

por Adolfo Mesquita Nunes, em 30.05.16

A blogosfera começou, para mim, por ser política. Estávamos em 2003 ou 2004 e nela encontrava, ou começava a encontrar, outras formas de pensar os factos e a história que não vinham nos jornais. Fossem de esquerda ou de direita, pensassem ou não como eu, os blogues políticos serviram-me, anos a fio, como leitura primeira do dia, antes mesmo dos jornais. E desses tempos ainda hoje guardo amigos, de vários cantos. Mas a chegada de novas plataformas, para onde muitos dos seus autores migraram, fez com que a política deixasse de ser, para mim, o principal motivo de leitura da blogosfera. É hoje raro, muito raro, perder minutos na blogosfera, para além da leitura dos blogues liberais com que me identifico, para descobrir análise política que me interesse. Mas há excepções, e escolho uma delas para blogue da semana: o Gremlin Literário. Uma análise acutilante e com um enorme sentido de humor a que regresso com muita frequência.

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Modo de Vida (44)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 12.01.16

“Eu gosto que a escrita se dissipe, e volte texto” ficou-me como uma maldição, da primeira vez que li o Ardente Texto Joshua. Um texto que não se encontra na literatura, para além da minha capacidade de discernimento, que justifica a procura, como uma missão. Tudo o que tento é escrita, não volta. Não chego lá, não chegarei lá, e é essa a maldição.  

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Blogue da semana

por Adolfo Mesquita Nunes, em 04.01.16

O Bruno Garschagen é um professor brasileiro de teoria política, podcaster, tradutor e escritor, para além de ser mestre em ciência política e relações internacionais pela Universidade Católica Portuguesa/Universidade de Oxford.

Lançou há uns tempos um livro de que gostei particularmente, Pare de Acreditar no Governo, onde o autor evidencia um paradoxo que poderia bem aplicar-se por cá: os brasileiros atribuem ao Estado um papel crescente na sociedade e economia brasileira mas detestam os políticos que o compõem.

No fundo, o livro explora a ideia de que não há Estado sem políticos e que a demanda por mais e mais Estado resulta sempre em mais e mais políticos.

É, pois, o blogue do Bruno que destaco como blogue da semana, à conta de afinidades liberais, mas que serve essencialmente para vos dar conta do divertido e interessante livro: http://www.brunogarschagen.com/

 

 

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Modo de Vida (43)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 26.12.15

Hoje fiquei sem uma amiga. Sem aviso, sem premonição, fiquei sem ela. E há um sentido inaugural nesta absoluta perda, a primeira que me chega sem cumprir qualquer lógica, consequência ou ordem natural; e que por isso me apanha à socapa, onde mais me dói. Hoje fiquei sem uma amiga. Não é este o momento para escrever, nem saberia o quê, que só me ocorre esta frase, uma e outra vez: hoje fiquei sem uma amiga. Mas não quero deixar passar o dia, quero marcá-lo. Da última vez, há poucos dias, falámos d’O Número dos Vivos, de que ambos gostámos muito. Abro a primeira página e encontro: “existira na bênção saudável e pesada que cobre as flores e os homens a quem o sol desperta e a noite faz horror”. Basta isto. Um beijinho muito grande, Catarina.

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Modo de Vida (outra vez o 20)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 20.12.15

Por quem sofremos primeiro quando abraçamos um grande amigo que acaba de perder o pai? Por ele, que enfrenta a morte e chora no nosso abraço, ou por nós, que somos chamados a enfrentá-la de novo? 

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O Delito foi à apresentação do(s) Presidenciáveis

por Adolfo Mesquita Nunes, em 02.12.15

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O Pedro Correia é o Presidente do Delito. Não foi eleito, é certo, mas foi aclamado uma e outra vez, em liberdade e com mérito. Foi ele que nos juntou, que nos descobriu cumplicidades, que encontrou a geometria das diferenças. É nele que o Delito começa e foi com ele que todos aqui chegámos e ficámos. O Delito é de todos nós, que a presidência não confere ao Pedro qualquer direito acrescido, mas todos nós lhe devemos a alegria de nos ter colocado na vida uns dos outros. E não é pouco, isto de nos sabermos parte do percurso de quem gostamos.

E porque o Pedro publicou um novo livro, lá fomos, os que pudemos fazendo inveja aos que não puderam, à sua apresentação, como se testemunha na fotografia. Se foi um pretexto para estarmos juntos, foi também uma oportunidade de mostrar ao Pedro o apreço que lhe temos e de lhe falarmos do orgulho que sentimos ao ver uma parte do Delito transformar-se em livro.

Vale a pena reler os posts do Pedro, agora em livro. E vale a pena fazer parte do Delito. 

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Blogue da semana

por Adolfo Mesquita Nunes, em 25.05.15

É meu o encargo de destacar o blogue da semana. Deixo-vos com o Imprensa Falsa, o melhor jornal satírico português que conheço, e que não tem o destaque merecido. Qualquer semelhança com a coincidência é pura realidade. 

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Blogue da semana

por Adolfo Mesquita Nunes, em 21.12.14

Sei bem que este espaço é para blogues e que não é blogue o que hoje venho destacar. Em minha defesa vos digo que o que hoje destaco já foi, e por bons anos, um blogue. Mas cresceu, acho que quase se multiplicou, e virou site. Não há mal nenhum em se ser site, digo eu, quando de um blogue se nasceu. E quando, talvez mais importante e por isso mesmo aqui em destaque, se não perdeu alguma da generosidade ou ingenuidade iniciais. Deixo-vos com Altamont, um dos melhores sites de música de que conheço. Podem lá ir sem medos.  

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A playlist de AMN (6)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 26.11.14

Hoje temos Chico Buarque e a canção Basta um Dia.

Descobri um dia, por acaso, o vinil da Ópera do Malandro lá por casa, e o meu padrasto não me deixou continuar sem o ouvir. Fiquei siderado. Daí até continuar pelo Buarque fora foi um ápice, e do Buarque até toda uma constelação que não passava nas novelas um ápice foi.

Há muito para gostar em Chico Buarque, das letras aos compassos, mas fico-me agora pela capacidade metafórica de fintar uma censura e uma ditadura. Escolho por isso uma canção da peça Gota d’água, baseada na tragédia grega Medeia, de Eurípedes, passada no subúrbio do Rio de Janeiro e centrada nas suas dificuldades habitacionais.

A canção chama-se Basta um dia e é, de certa forma, o clímax da peça, através da qual a protagonista, Joana, indicia que prefere a sua própria morte, e a dos seus filhos, a ter de viver a tragédia brasileira.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida há uns bons dias, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

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A playlist de AMN (5)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 25.11.14

Hoje temos Chava Alberstein e a canção Chad Gadya.

A canção que vamos ouvir agora vem de Israel e chama-se Chad Gadya. Foi lançada no início de 1989 e entrou directamente para a lista de músicas mais vendidas. Depois de algumas semanas, o governo de Yitzhak Shamir proibiu a canção de ser tocada, e ficou proibida até ao início dos anos 2000.

A letra é uma alegoria da política externa de Israel naqueles tempos, especialmente a frase, que traduzo livremente, que diz o seguinte: "Eu costumava ser uma ovelha e um cordeiro pacífico, hoje eu sou um tigre e um lobo à caça”. No fundo, trata-se de uma profunda crítica política utilizando para o efeito vários motivos pascais.

A proibição não impediu esta música de fazer o seu caminho; é uma das canções pacifistas mais conhecidas e cantadas em Israel, de tal forma que é hoje um clássico, tenho feito parte da banda sonora de Free Zone, com Natalie Portman, acompanhando a cena mais emotiva do filme, e que está no vídeo que seleccionei.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida há uns bons dias, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

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A playlist de AMN (4)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 24.11.14

Hoje temos Cat Stevens e a canção Sad Lisa.

A primeira vez que ouvi o Tea For Tillerman de Cat Stevens era ainda uma criança. Fui atraído pela desconcertante capa do álbum, com desenhos de crianças e um velho ruivo a beber chá, pensando que era um álbum de música infantil. Não era, claro, e foi uma enorme desilusão.

Voltei ao álbum uns poucos anos depois, porque o meu pai gostava muito de Cat Stevens e as canções dele apareciam de quando em vez nas cassetes que ouvíamos nas insistentes viagens entre Lisboa e a Covilhã, e a sensação foi totalmente diferente.

Hoje olho para trás e não percebo sequer porquê. A viragem espiritual e religiosa de Cat Stevens, que está suficientemente perceptível neste álbum, não era tema que me tocasse aos 17 anos. Talvez por isso, aliás, tenha sido o Sad Lisa, para mim a mais neutra das canções do álbum, a ficar como favorita. E é essa mesmo que vamos ouvir.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida há uns bons dias, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

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A playlist de AMN (3)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 20.11.14

Hoje temos Blur e a canção The Universal.

Pelos anos 90 andava eu pela Covilhã quando me dei conta, com atraso, do que se passava pelo terreno da brit pop. Vivia-se então uma tão aliciante quando desnecessária disputa entre os Oasis e os Blur.

Tomei instintivo partido pelos Blur, talvez pela construção metafórica de algumas das suas letras, e confirmei o acerto da escolha quando, já a estudar em Lisboa, os Blur lançaram o álbum The Great Escape. Não tanto pelo álbum, penso que menos interessante do que Parklife, mas por causa de The Universal, a canção que escolhi para ouvirmos agora e que é, ainda hoje, uma das mais inspiradoras baladas que conheço.

Mas foi o teledisco que primeiro me chamou a atenção para a canção, já que imediatamente nos transporta para o Korowa Milk Bar de A Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, e que por isso mesmo recomendo. A música e o teledisco valem por si, mas vistos em conjunto ganham, sobretudo para os que se deslumbram com Kubrick, um peso especial.

Partilhei com os ouvintes da TSF a minha playlist. Foi emitida na semana passada, e partilho-a agora, aos bochechos, com os leitores do Delito.

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A playlist de AMN (2)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 19.11.14

E hoje proponho Benito Lertxundi e Gaua eta Ni.

Gosto muito de música de intervenção. Há nela uma solidão melódica que me interessa muito e um recuperar de alma que, mesmo quando triste ou muito triste, me convoca a uma sensação de esperança.

Bem sei que, sendo de direita, gostar de música de intervenção soa quase a provocação. Mas é um facto de que gosto, e de que gosto muito, independentemente de não me rever, para além da poesia, nas motivações da maior parte das canções de que gosto. O que de certa forma, perdoem-me a nova provocação, demonstra como, à direita, a tolerância tem um papel especial na fruição cultural.

Para não ser demasiado provocador, escolho um cantautor não português, mas basco. Benito Lertxundi, numa extraordinária canção, Gaua eta Ni, aqui cantada com a mulher, Olatz Zugazti. Trata-se da versão musicada de um poema do poeta libanês Kahlil Gibran, A Noite e o Louco, e que portanto não está directamente ligada às causas do cantor Basco.

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A playlist de AMN (1)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 18.11.14

 

Começo com Bebo & Cigala e La Bien Pagá.

A mescla de jazz cubano, nas mãos do Bebo Valdez, e do flamenco, de Diego Jimenez Salazar (Cigala), foi uma ideia de génio que deu origem a Lágrimas Negras, um dos melhores álbums de world music que conheço, e a um extraordinário concerto filmado por Fernando Trueba.

Gosto particularmente de world music e de me perder por sons que demoram a entranhar-se e palavras que custam a entender-se, como se de um desafio se tratasse. No campo da world music, o flamenco está no topo das minhas preferências e a verdade é que Portugal lhe tem sido fiel nos últimos anos, recebendo cantores pouco imediatistas como Estrella Morrente. Neste caso, temos uma notável junção de jazz e flamenco, que não se transforma num exercício de experimentação. Ela resulta logo, imediata, como se estivesse apenas há décadas à espera de ser descoberta. Do álbum, escolhi La Bien Pagá.

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Notas à margem (2)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 19.08.14

"A vida ser-nos-ia insuportável, mesmo nas condições mais felizes, se nos estivesse vedada a possibilidade do suicidio", diz-nos Endriade do Grande Retrato de Dino Buzzati, que tenho trazido comigo. Fiquei nesta frase por algum tempo, procurando ir além do deleite aforístico, e descobri-lhe uma interessante ilustração da liberdade enquanto valor primeiro e anterior a qualquer outro. O valor da vida, assim como o valor do bem, existe na medida em que esta se funda também numa escolha. O que seria de nós, como nos provoca Endriade, se soubéssemos que não díspunhamos da nossa própria vida? Que sentido lhe encontraríamos? 

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Delitos poéticos (7)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 07.07.14

Andy Warhol, Eggs (1982)

 

 

Omeleta

 

Quando se mis­tu­ram gema e clara,

se trans­forma o branco em ama­relo e o ama­relo

em branco, e a púr­pura do meio se con­funde

com um raio de sol, invento um canto

para que o ovo se não que­bre. Então, vejo-o

ficar sus­penso no equi­lí­brio do poema. De

um lado, dá-lhe a luz do sol; do outro, a pali­dez

da lua rouba-lhe o bri­lho. Gira

sobre si pró­prio: e a sua rota­ção sobrepõe-se

ao movi­mento da terra. Depois, com um gesto brusco,

parto-o: para que a sua gemada se espa­lhe pelo chão.

e o som do poema se mis­ture com os seus pedaços

- ali­te­ra­ções duras como as cas­cas, vogais

divi­di­das pela sime­tria do ovo.

 

Nuno Júdice

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Blogue da semana

por Adolfo Mesquita Nunes, em 07.07.14

Se tivesse de descrever a minha relação com a escrita da Maria Gabriela Llansol não me ocorreria outra imagem que não a de uma boca fria apressando-se para uma chávena de chá a escaldar (quase apetece que de um chá possa dizer-se que é fulgurante). Procurarei um dia elaborar sobre isso, que hoje é dia de escolher o blogue da semana. Aí fica ele, então: Espaço Llansol.

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Modo de Vida (42)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 11.04.14

Lá de onde eu venho não há quem a não conheça, que tratamos por tu o que no frio encontra conforto para crescer. E de tal forma ali existe, ou persiste, que nunca imaginei que não fosse de conhecimento geral. Só me apercebi do segredo bem guardado quando, chegado a Lisboa para estudar, a não encontrei em lado nenhum. Já lá vão 20 anos e ainda recordo a peregrinação pelas mercearias. Não bastava que nenhuma a tivesse, nenhuma - ou ninguém, melhor dizendo -, sequer parecia saber de que falava eu quando perguntava pela cherovia. As coisas mudaram, bem se vê, e hoje a cherovia vai aparecendo, num ou outro supermercado, com um ou outro nome, que os há. Mas a noção de segredo, de uma coisa de covilhanenses, resiste, e ainda bem. 

 

 

 

 

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revolutìo,ónis (5)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 11.04.14

A revolução tem um sentido instrumental, derradeiro. A sua transformação em fim, em método, não trouxe nunca um bem comum ou geral. De certa forma, a institucionalização da revolução é já outra coisa que não esse momento de revolta que agrega aspirações gerais - há aí uma degeneração que não pode deixar de incomodar aqueles que querem decidir de si e por si e que desautorizam a que se catalogue de revolução uma comum tentação autoritária.  

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revolutìo,ónis (4)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 10.04.14

Uma revolução que não devolva as liberdades aos indivíduos não deixa de ser uma revolução, mas não merece mais do que um súbito frémito. E ainda que dela resulte uma melhoria comparativa, estamos ainda no campo de uma apropriação indevida, porque as liberdades devem ser reconhecidas e não atribuídas. É por isso que o reino das revoluções acaba por ser o reino das expectativas, porque são estas que as alimentam e, faltando estas, as abortam ou deixam morrer. 

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Modo de Vida (41)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 09.04.14

Pela manhã, marcava a mim próprio uma tarefa mínima de setecentas e cinquenta palavras do romance, e conseguia habitualmente por volta das onze horas ter umas mil. O poder da esperança é extraordinário; o romance, que se arrastara por todo o ano passado, aproximava-se do fim.

 

O Fim da Aventura, Graham Greene (Ed. Asa, Tradução de Jorge de Sena)

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revolutìo,ónis (3)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 09.04.14

Uma revolução não pode ser traída, no sentido em que nela cabem tantas aspirações quantas pessoas nela tomaram directa ou indirectamente parte. Pode haver um mal-estar geral, um despeito que se impõe, mas esse sentimento declina-se em tantas motivações que quem ousar decretar a traição não está senão a falar de si. E ainda que todos se sintam traídos - o que implica uma quase impossibilidade -, tal não basta para que todos se sintam traídos da mesma forma e se autorizem estados de alma gerais.   

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Modo de Vida (40)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 08.04.14

O melhor do Sol não é o calor: é a luz.

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revolutìo,ónis (2)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 08.04.14

A revolução pressupõe uma confluência de muitos, ainda que os actos materiais que a confirmam sejam praticados por poucos. De certa maneira, esses actos materiais, a que não podemos retirar heroísmo, herdam uma legitimidade que não têm só por si, e que lhes é conferida por esses muitos que confluem, ou permitiram que se confluísse, para esse momento de superação.     

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revolutìo,ónis (1)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 07.04.14

As palavras, que haviam circulado apenas entre elites, ainda vagas, ainda delicadas, encorpavam e tornavam-se fáceis de entender. Nascera uma amizade entre a linguagem dos ideais e aquele mal-estar sem nome com que os pobres dormiam e acordavam.

 

Adoecer, Hélia Correia (Ed. Relógio d'Água)

 

Há uns largos meses, quando li o Adoecer, sublinhei esta frase, que me pareceu uma precisa noção de revolução. Relembro-a agora, que passam 40 anos da nossa, sem obviamente querer identificar a Hélia Correia com qualquer uma das minhas ideias, e como forma de iniciar uma série de reflexões sobre revoluções ou sobre a nossa revolução. 

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Modo de Vida (39)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 06.04.14

Há quem chegue ao calor antes de tempo, comportando-se como se as ameaças fossem já uma confirmação. Uma espécie de dança da chuva, mas ao contrário - uma dança da luz, feita de linho e pele e por vezes mar, que eu confundo com superstição. 

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Modo de Vida (38)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 04.04.14

Gostar muito de um escritor ainda vivo permite a expectativa, e sou dos que valoriza esse estado. Gostar muito de um escritor já desaparecido, sobretudo quando não foi assim tanto o que escreveu, encerra, de certa forma, o caso. Bem sei que as releituras oferecem algum espaço, todavia nada que possa comparar-se com a possibilidade de algo nos ser trazido como novidade. Mas de quando em vez descobrimos que o caso não está tão encerrado assim: Flannery, ela mesma, a ler-nos o 'A Good man is hard to find'.  

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Modo de Vida (37)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 03.04.14

A reaprendizagem da noção de começo, a que imprevistamente me dedico, fez-me procurar ‘O começo de um livro é precioso’, que comprei, aliás, num dia inicial. E dei-me conta que passaram já seis anos, mais precisamente seis anos e um mês, da morte da Maria Gabriela Llansol.

 

Dei-me conta assim, só assim, que nada houve, nem ninguém, que a tivesse trazido às páginas que lamentam a morte dos grandes (excepciono, claro, o Espaço Llansol). Não fará grande mal. Suspeito até que assim se faça melhor. E penso no ‘encontro inesperado do diverso’, que acaba por ser, destacando essas palavras do corpo que subtitulam, uma boa noção de turismo.

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Modo de Vida (36)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 01.04.14

O tempo vai passando de tal forma que a noção de começo quase nos parece antiga e, de certa forma, desaprendida. Num tempo de começos, volto aqui.

 

O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos.
Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo perseguindo.
Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia.
Basta esperar que a decisão de intimidade se pronuncie.
Vou chamar-lhe fio ___ linha, confiança, crédito, tecido.

 

O começo de um livro é precioso, Maria Gabriela Llansol (Ilustrações Ilda David', Ed. Assírio & Alvim)

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Modo de Vida (35)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 27.01.14

Filme de uma família, rodado em 1 de Dezembro de 1947, durante uma viagem à Serra da Estrela, e que me fez regressar às fotografias lá de casa, nas gavetas que só a minha avó abria, e que quase sempre tinham a Serra por cenário.  

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Blogue da Semana

por Adolfo Mesquita Nunes, em 16.06.13

A minha relação com a blogosfera começou em 2002, com a Coluna Infame. E foi nesse blogue que pensei assim que soube ter-me de novo calhado em sorte escolher o blogue da semana. Numa fase em que tenho tido poucas oportunidades de ler novos blogues, daqueles que mereçam aqui ser destacados quase com sentido proclamátório, dou por mim a regressar ao tempo em que a blogosfera me surgiu. Há 10 anos, mais coisa menos coisa. Comecei por ler, só ler, e acabei a escrever. Comecei por ler, só ler, e acabei a fazer amigos. Comecei por ler, só ler, e acabei aqui, por exemplo, no Delito. Não sei, nem me interessa, como seria a minha vida se a blogosfera me não tivesse despertado, se ela não tivesse tido essa vocação inaugural que me fez chegar aqui. Mas sei reconhecer a sua importância, enorme, no meu percurso. O meu blogue da semana, ou não fosse eu nostálgico, é o já extinto Coluna Infame

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France Gall e os lollipops

por Adolfo Mesquita Nunes, em 29.01.13
A razão pela qual cheguei a France Gall é suficientemente ridícula para que a deixe para outra ocasião. Mas foi nesse momento, em que a vi e ouvi cantar, que começou esta minha - também ela ridícula - queda por cantoras de vozes limitadas, na vertigem da afinação e sempre à beira do abismo. Mas voltemos a France Gall, que é dela que quero falar. Quem a visse cantar as músicas de Serge Gainsbourg, ainda adolescente e com ar inconsciente, não podia deixar de perguntar: mas sabe ela o que está a cantar, percebe ela o significado das coisas que o Gainsbourg lhe escrevia para cantar?

O duplo sentido das canções de Gainsbourg era evidente, sobretudo quando coladas a uma ninfeta como Gall. Mas mesmo que não fosse evidente, seria sempre presente. E bastava saber que vinham de Gainsbourg para que a certeza se instalasse: estas letras dizem muito mais do que a mera literalidade. E France Gall, sabia? Quando, ninfeta, lambia lollipops em Les Sucettes, sabia o que estava a fazer? Sabia a imagem que emprestava a pedaços de letra como este: Lorsque le sucre d'orge, parfumé à l'anis, coule dans la gorge d'Annie, elle est au paradis? E quando, de boca sensual, se dizia uma boneca de cera à mercê de tentações, em Poupée de Cire, Poupée de Son, sabia o que estava a fazer? Sabia o que aquele beicinho ilustrava quando cantava elles se laissent séduire pour un oui, pour un nom?

Na altura em que ouvi pela primeira vez France Gall, algures no princípio dos anos 90 (estas canções são do começo da carreira dela, lá para 1965 e 1966) não havia internet e as perguntas que me fiz, numa altura em que, à conta de uma mãe absolutamente francófona, me iniciei na música francesa, ficaram sem resposta. Há uns tempos lembrei-me de France Gall, não vou dizer a propósito de que outra cantora, e fui procurar a resposta.

Ela está aqui, numa pequena entrevista, que partilho convosco. A ninfeta France Gall não sabia, ou diz que não sabia. Sentiu-se, de certa forma, enganada e traída pelos adultos que a rodeavam, e o momento em que se viu enganada marcou-a para sempre, alterando a forma como via e se relacionava com os rapazes. Curiosamente, esse é o tema de Poupée de Cire..., canção que, ao lado de Les Sucettes, foi banida do seu repertório. Chega a ser comovente a forma como France Gall, em imagens antigas mostradas na entrevista, descreve, alheada, uma letra que contava uma história um pouco mais densa do que aquela de 'rapariga que gosta de lamber lollipops'.

Esta história lança várias discussões (o papel dos adultos que rodeiam jovens cantores, a moralidade de autores como Gainsbourg quando escondem, ou parecem esconder, desses jovens cantores o significado das letras que estes manifestamente não alcançam, etc...), que podem correr nas caixas de comentários. Não quis foi deixar de partilhar esta história, real, que me parece demasiado actual, 40 e tal anos depois. 

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Modo de Vida (34)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 18.01.13

Não podemos controlar o que sentimos. Podemos treinar-nos na domesticação - nem sempre pelo medo - do que sentimos, e podemos até, com sorte e engenho, aclimatar-nos a um estado de constante alerta. Mas não vale a pena perder tempo em terrenos onde a liberdade ainda não existe e a derrota é certa. O que fazer desses sentimentos, como reagir ou dar-lhes seguimento, aí sim estamos no terreno da escolha. E é aí, só aí, onde a liberdade existe, que a moral começa e a confissão encontra justificação.

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Modo de Vida (33)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 15.01.13

Lembro-me que quis calar a cidade e suspender os movimentos, fazer de tudo uma estátua. Havia um céu enorme, desmanchado em luz, que quis desligar. E não consegui esquecer os eléctricos que passavam, levando e trazendo pessoas com destino. Aparentemente o Mundo convivia bem com o mais trágico dos acontecimentos, abrindo a ferida, para usar um eufemismo. E fiquei a pensar na cobardia do Mundo perante a morte. Volto aqui sempre que me morre alguém e dou comigo a pedir desculpa por, também eu, participar dessa cobardia. À família e aos amigos do João, um enorme abraço. 

 

    

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Lista de Presenças - Almoço Delito

por Adolfo Mesquita Nunes, em 14.01.13

 

Não sei quem foi o primeiro, aquele por quem esta acta deveria começar. Mas, se tivesse de fazer um palpite, diria que foi a Leonor a primeira a entrar naquele princípio de verde que é a casa da Ana. Uma pessoa entra, imaginemos a Leonor, de tarte de lima na mão e determinação no gesto, e dá de caras com a serra. Poderia ser uma parede de serra, daquelas que nos trava, mas não: é um começo de serra e de verde, mesmo.

 

Mas voltemos aos restantes autores do Delito, que chegaram enquanto eu, aliviado, discutia Hélia Correia com a Ivone, e ela, compreensiva, me dava a conhecer a Teresa Veiga. Quem chegou depois? Depois, talvez para temperar aquele sobressalto que a Leonor não disfarça, deve ter chegado a Teresa, que trouxe bolo de caramelo, imagino que para nos convencer, sem sucesso, que a doçura lhe tinha escorrido toda para o bolo. A Teresa e a Leonor as primeiras a chegar, é o que imagino, numa espécie de equilíbrio que terá confortado a Ana: tudo no seu lugar, o céu e o inferno em paz, o Delito em começo de festa. E estava tudo no seu lugar, de facto.

 

O Pedro, porque se sente responsável, não deve ter demorado muito mais. Há ali uma liderança que se pressente e que o antecede. Poderíamos chamar-lhe de carisma mas nós temos por hábito chamá-lo de Pedro. E ele, que não sabe da confusão do nome próprio com o substantivo, nem dá pela coisa, distraído talvez com a determinação do Luís, que lhe fez companhia. E é bom ter o Luís por perto nestes almoços. Por vários motivos e por mais este: o sossego de saber que há quem já tenha pensado e concluído sobre como vai este país (era o senhor contente ou o senhor feliz?).

 

Se o Zé Navarro só chegasse depois de compilar tudo o que sabe, não teria sido o seguinte. Nem teria chegado a tempo, sequer. Mas deve ter sido ele a entrar, logo a seguir ao Pedro e ao Luís. Não por competição, mas porque as histórias que o Zé tem para contar não cabem num fim de tarde e convém chegar cedo. Se quiserem ver o Delito em movimento, convidem o Zé. São dezenas de posts, um a um, a surgir à nossa frente, num convite ao plágio. O Zé André, que publica posts, e livros daqueles a sério, resiste bem a isso do plágio. E até aos seus próprios temas, que ficaram em suspenso, para nos fazer lembrar, vem daí lamechice, que é bom ver alguém feliz, e não necessariamente pelo pleno 'árvore, livro e filho'.

 

E foi este o grupo que, com uma hora de viagem, eu e a Ivone encontrámos. Pontualíssimos, apesar de tudo, porque lá estávamos para receber a Gui. A nossa caloira, sem a timidez dos caloiros, arranjou logo forma de escapar à praxe. De igual para igual, sem espaço para hierarquias. E nós fomos na conversa, que acabámos a oferecer ao Zé Maria, que chegou depois, o estatuto de caloiro. Não que a idade não justificasse e os recados trazidos da mãe não provocassem, mas a verdade é que nos deixámos levar pela mestria da caloira. E ficou assim: Gui 1, Zé Maria, também Gui, 0.

 

Vá lá que o Gui caloiro trouxe arroz doce, daqueles que poderiam ter dizeres a canela: Delito de Opinião, por exemplo. Mas não tinha, por causa de uma desculpa qualquer. De qualquer forma, os dizeres alinhados a canela não teriam durado outro tempo que não o de exibição, que o João Campos, embalado pelas raízes do Alentejo, atacaria o dito sem vergonha, entre a ficção científica e o liberalismo clássico (curiosa combinação, bem sei). E assim começou mais um almoço do Delito.

 

Do que se falou e de quem por lá passou, naquele dia de Reis, prometeu-se o segredo, que agora cumpro, deixando esta acta confundir-se com uma mera lista de presenças em casa da vital Ana. E que isto sirva de lição aos faltosos. Acabou-se isso de faltar e ficar a saber tudo pelas actas.

 

Ah. E o almoço foi um caril, que estava daqui.

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Modo de Vida (32)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 26.12.12

Apenas no Natal me interrogo - com uma inveja para mim pouco compatível com o sentido e espírito de Natal - sobre a vida dos que lidam bem com a nostalgia.    

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Blogue da Semana

por Adolfo Mesquita Nunes, em 23.12.12

O facto de termos posições distintas, e bem, quanto ao contexto político actual, nomeadamente quanto ao papel de parlamentares liberais no âmbito do sistema partidário, parlamentar e eleitoral português (a minha fotografia, precisamente, no último post do seu blogue é um bom exemplo disso), não me impede de considerar o Carlos Guimarães Pinto como um dos melhores autores de blogues da actualidade. Já o era n'O Insurgente, confirma-se agora na sua aventura a solo. Daí que, sem surpresa, escolho o seu Montanha de Sísifo como blogue da semana.

 

São várias as razões que me levam a considerar o Carlos um dos melhores autores de blogues da actualidade. Independência nas opiniões, capacidade de desmontar falácias, intransigência na exposição ideológica, arquivo mental suficiente para expor contradições e double standards, inovação face à opinião já publicada, sustentação e informação no que escreve, condições essenciais para se assumir como uma referência ideológica, que merece ser lida por quem discorda e por quem concorda. E por mim.  

 

Aproveito esta oportunidade para desejar a todos os leitores do Delito um Santo Natal.

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Agustina

por Adolfo Mesquita Nunes, em 15.10.12

Poucos escritores se bastam com o nome próprio, privilégio de quem se senta à nossa mesa nos Domingos que não são de festa. Sabemos que alguém é da casa quando o nome se antecipa a tudo o resto. Vem aí a Agustina. Estou a ler Agustina. Agustina é da nossa casa, portuguesa porque o seu (fora de) tempo é demasiado português para ressoar devidamente em casas estrangeiras. E se digo Agustina, e não a obra de Agustina, é porque sei, e ela também, que muitos dos que a admiram confessadamente nunca lhe leram uma linha. Bastava ouvi-la, travessa arguta desconcertante fulminante, para a sentirmos nossa. Agustina, como o tempo no fado da Argentina Santos, fica, ficará sempre, enquanto nós nos contentamos com estar de passagem.     

 

Comecei a lê-la na faculdade, com a Sibila, e nunca mais parei, até à Ronda da Noite, com paragens pelas bermas, sempre sem saber porquê. Talvez porque haja ali um qualquer (fora de) tempo em que encontro uma ordem para o que sinto. E há sempre um riso, não muito óbvio, que se ouve enquanto nos deixamos levar pelos aforismos ou no momento em que uma personagem – são sempre as personagens, nunca os seus actos ou factos – nos passa a comandar, que me comove e desafia. E não sei resistir ao riso, nunca soube.  

 

Parabéns, Agustina.  

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Modo de vida (31)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 03.09.12

Descubro que a morte não é, afinal, a única irreversibilidade que podemos conhecer. E há algo de muito forte e inaugural nesta descoberta. Como se só agora começasse a idade adulta. E talvez comece mesmo.

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Vocabulário (até aos 34): T

por Adolfo Mesquita Nunes, em 14.05.12

Traição

 

Oh, as if you had no choice? There's a moment, there's always a moment, «I can do this, I can give into this, or I can resist it», and I don't know when your moment was, but I bet there was one”.

 

A traição não nos acontece. Nós é que a chamamos, primeiro ao de leve, como quem finge que não quer, depois quase aos berros, como quem finge que resiste. Ainda que dependa da oportunidade, a traição é sempre um exercício de vontade. É por isso que, nesse momento em que nos sabemos presos, apenas nos resta abraçar a liberdade do arrependimento. Só ele respeita a traição enquanto aquilo que ela é: uma opção.   

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Vocabulário (até aos 34): M

por Adolfo Mesquita Nunes, em 12.05.12

Morte

 

A morte é para onde vão as almas. Tudo o resto pode ficar por cá: a voz, as palavras, a obra, até o cheiro. Mas é a alma, que não volta mais, que nos escapa sabemos lá até quando. Não sei, por isso, neste tempo, dedicar-me à evocação daquilo que o engenho permite reter. O inglório esforço de agarrar a alma ocupa-me a mente. Há tempo para o resto.    

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Em que ficamos? (6)

por Adolfo Mesquita Nunes, em 16.03.12

Quanto mais depressa, sabemos todos, mais devagar. E a galinha, a que enche o papo grão a grão, sabe disso?

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