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Convite aos autores, comentadores e leitores

por Luís Naves, em 11.03.17

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Aos autores, comentadores e leitores do Delito de Opinião: Estarei na próxima quarta-feira, dia 15, a partir das 18 e 30, na livraria Bertrand Picoas, em Lisboa, para a sessão de apresentação do livro que organizei, 43 anos e 6 Meses de Má Política, edição da Contraponto. Trata-se de uma recolha de mais de 1500 frases do período entre 1973 e 2016; no fundo, estas frases são pequenos vislumbres da política recente do país, com momentos divertidos e outros que fazem pensar. A apresentação estará a cargo de Pedro Correia.

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Muita areia para a nossa camioneta

por Luís Naves, em 07.03.17

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Ontem à noite, ouvi o comentador Miguel Sousa Tavares fazer um duro ataque à Hungria de Viktor Orbán. O jornalista falava sobre a discussão do futuro da Europa e, sem motivo óbvio, começou a desancar nos húngaros, misturando alhos com bugalhos. Não vou citar entre aspas, mas a ideia era mais ou menos esta: a Hungria não cumpre os valores europeus, logo, coloca-se a questão: o que é que estamos a fazer numa Europa que mantém gente desta?

Em relação à discussão sobre o futuro da Europa, ainda não ouvi um único membro das elites intelectuais ou políticas a dizer com clareza o que deve Portugal defender. Miguel Sousa Tavares também parece não ter uma única ideia sobre isso, limitando-se a repetir a beatice nunca definida dos “valores europeus”. Afinal, o que são estes valores europeus? O que distingue a Europa do resto? Bem, a Europa não seria o que é se não tivesse cristianismo, capitalismo, a ideia do primado da lei, a diversidade, o racionalismo, separação de poderes e resistência militante à unificação política ou às tiranias. Ora, os países de Visegrado, que estão a ser tão vilipendiados, apresentam um plano baseado em alguns destes valores, nomeadamente a resistência ao federalismo, devolução de poderes aos parlamentos nacionais e criação de uma união de nações que permita manter o mercado único. Isso corresponde mais ou menos ao cenário dois do Livro Branco, que Bruxelas, obedecendo a Berlim, recusa à partida.

Podia tentar explicar aqui que a Alemanha quer mais federalismo, que a França (dos partidos tradicionais) parece defender uma tese de Europa a várias velocidades, que Portugal não tem opinião que se veja, que cresce a fractura entre pequenos e grandes, com a Polónia excluída da reunião de Versalhes e a juntar-se aos primeiros, até a liderar a rebelião. A Polónia, aliás, tem um governo conservador, católico, e o cristianismo é um dos valores europeus que pretende incluir na discussão, algo que franceses e alemães recusam. A equação sobre o futuro da Europa tem muitas incógnitas que complicam os cálculos nacionais: o papel da Rússia e a evolução da mini-Guerra Fria, o futuro da NATO e o aumento dos orçamentos militares, a velocidade a que as economias estão a sair da crise, a eventual não-sobrevivência da zona euro, os vários cenários de Brexit, a forma como os movimentos populistas podem moldar as decisões.

A reacção fácil a estas complicações é dizer que não queremos saber nada disto e que os eleitores estão errados em todo o lado. Falar destas coisas em Portugal começa a ser inútil, pois no comentário oficial dos meios de comunicação vai triunfando o velho preceito português de que a Europa é demasiado complicada para nós. O melhor é seguirmos o caminho das ilusões ultramontanas, arranjando uma desculpa qualquer, dizendo mal dos vizinhos, a bater no peito e a gritar que somos os maiores e, claro, antigos onde os outros são novos, que não nos aborreçam com assuntos.

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Blogue da Semana

por Luís Naves, em 05.03.17

Na literatura portuguesa abundam exemplos de obras que, sem serem diários convencionais, teriam funcionado de forma perfeita em blogues, se esta tecnologia existisse na altura em que foram escritos. O Livro do Desassossego é um caso evidente, mas há outros, como os Diários de Miguel Torga ou o extraordinário Conta-Corrente, de Vergílio Ferreira, onde se misturam textos puramente literários com reflexões sobre o quotidiano. Em nenhum destes casos se escrevia exclusivamente 'hoje aconteceu-me isto', como em muitos diários de escritores famosos, mas encontramos por ali a mentalidade oficinal e um artesanato onde os autores exerciam a difícil prática quotidiana de apuramento da prosa, sem a intenção de que esses falsos diários valessem por si.

Actualmente, os blogues são um formato ideal para a reflexão e a escrita íntima, mas esta abordagem nunca funcionou na blogosfera portuguesa. Os escritores portugueses assinam romances, mas são raras as suas incursões no conto, na novela e neste novo meio. Os poucos autores que se dedicam à prática da oficina condenam-se à semi-invisibilidade. Por isso, tentar escrever com arte na blogosfera é, sem dúvida, uma forma de resistência.

O poeta Henrique Manuel Bento Fialho tem um dos blogues mais antigos em Portugal, este Antologia do Esquecimento, que escolhi para blogue da semana aqui no Delito. O autor não costuma frequentar as listas da moda, os links e as citações, mas habituou os seus leitores (sou um deles) a prosa de qualidade acima da média e à persistência que define as pessoas de valor. Este é um blogue literário raro e não me parece adequado poupar nos elogios. Fala-se aqui de livros, de cinema, de poesia, há também observações lúcidas sobre o nosso tempo, que suscitam a admiração e o prazer da leitura.       

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Europa, Europa

por Luís Naves, em 03.03.17

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A Comissão Europeia (o seu presidente, Jean-Claude Juncker) publicou esta semana um documento de reflexão sobre o futuro da Europa a 27, o chamado Livro Branco, que pretende balizar a discussão sobre o formato da UE em 2025. É um relatório muito relevante e recomendo a sua leitura. Infelizmente, os dirigentes que levaram a Europa a uma situação periclitante são os mesmos que querem agora controlar o debate sobre o que deve acontecer dentro de nove anos, questão que seria conveniente deixar para a próxima geração de políticos.

No documento do presidente da Comissão são incluídos cinco cenários de futuro: um de continuidade (como se fosse possível); outro de recuo para o mercado único (defendido pelos britânicos, está excluído pelo Brexit); o terceiro, de avanço mais rápido para uma vanguarda de países (possível); o quarto, visando a definição de ambições e o reforço da integração nesse núcleo central de problemas; o quinto, claramente federalista, prevendo, entre outras inovações, a união europeia de defesa, expansão significativa do orçamento comunitário e coordenação em questões sociais.

O que se pode criticar no documento não é a definição de cinco cenários, mas o que a Comissão decidiu escrever sobre cada um deles. Leia-se com atenção o texto, sobretudo a tabela da página 29, e percebemos o que Bruxelas pretende defender, ou seja, o cenário cinco, que lhe dará mais poder, do qual se pode recuar para o quatro, e deste para o três, se for impossível convencer a opinião pública. Os outros dois cenários estão lá só para decoração.

Na hipótese federal, com título inócuo de ‘fazer muito mais todos juntos’, o resultado é fantástico ou, na pior das hipóteses, idêntico ao cenário 4, à excepção da capacidade de realização, que é afinal uma função da vontade política. Se caminhar para o cenário 5 ou 4, a UE manterá o exclusivo dos acordos comerciais e terá normas europeias nas áreas onde estas ainda não existam (energia, trabalho, serviços); haverá uma agência comum para gerir os pedidos de asilo e um fundo monetário europeu controlado pelo parlamento; a união económica e monetária será concluída (acabando de vez com a autonomia orçamental dos países), o orçamento da UE será reforçado; enfim, teremos uma só voz na política externa, guardas de fronteira europeus, até talvez defesa comum.

Não sei em que bolha habitam estes políticos, mas não devem estar atentos às eleições francesas. Considerando as sondagens sobre a primeira volta, 40% do eleitorado prepara-se para votar em candidatos (Le Pen e Mélenchon) que defendem a saída do euro; na Holanda, a proporção não é muito inferior.

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Enfrentar os índios

por Luís Naves, em 21.02.17

 

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Não é fácil entender o mundo contemporâneo, a vaga de mudança e a crispação política nos países mais ricos do mundo sem considerar que há duas ideias incompatíveis em confronto. Um dos lados da barricada pensa que a civilização ocidental é um fracasso e deve reconhecer os seus erros históricos e mudar de práticas; a outra olha para os conflitos mundiais como parte de um choque de civilizações, onde culturas bárbaras ameaçam suplantar as avançadas. No fundo, ambos pensam que não existe lei do progresso e ambos consideram que somos testemunhas de um declínio da modernidade. A esquerda acredita que o cristianismo é totalitário e que o capitalismo leva os países para a escravatura e o império. A direita acredita que o ocidente se encontra em perigo iminente e defende o reforço da identidade como única saída para travar os processos de decadência.

A fronteira é o primeiro campo de batalha desta guerra de culturas, pois define o espaço em que as pessoas se incluem. É por isso que as migrações são o grande tema das campanhas políticas, pois tocam no nervo das opções da sociedade. Os argumentos mais acesos, por exemplo, sobre as decisões da nova administração americana ou nas campanhas eleitorais europeias em 2017, giram em torno do choque de civilizações ou da culpa do Ocidente e têm geralmente relação directa com a questão da identidade. As elites discordam dos seus compatriotas descontentes, os meios de comunicação recusam-se discutir o tema, as nações resistem, a globalização está a mudar de forma, reduzindo-se entre espaços que se consideram distintos, acelerando nos territórios que se reconhecem da mesma ordem. A parte mais irónica é que a ideia da dissolução do ocidente criou uma resposta que nos conduz a futuros mecanismos de alianças de poder. Lembram-se do livro de Samuel Huntington que popularizou a noção de ‘choque de civilizações‘? É curioso, mas estava lá tudo, os problemas de identidade, as migrações, as prováveis alianças, a ameaça do extremismo islâmico, o ocidente no auge do seu poder e a enfrentar os índios.

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A Carochinha e o João Ratão

por Luís Naves, em 24.01.17

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Está a tornar-se cansativa a interpretação que olha para as democracias contemporâneas como tendo dois tipos de eleitores: os que sabem pensar e votam bem; e os misóginos, reaccionários, estúpidos, racistas, xenófobos e genericamente brancos pouco qualificados cujo voto não devia contar. Nunca vi tantas pessoas de esquerda escandalizadas com os ataques ao livre comércio e à globalização. O novo presidente americano, condenado por cumprir o que prometeu, é geralmente descrito como não tendo credibilidade, legitimidade, popularidade ou sequer qualquer género de humanidade. Vladimir Putin, o czar da Rússia, parece que venceu as eleições na América, depois de ter vencido o Brexit, mas também se prepara para ganhar as eleições na Holanda, em França e talvez na Itália, usando fantoches e a desinformação da poderosa estação de televisão RT, capaz de enganar eleitores notoriamente estúpidos. Ao mesmo tempo, o líder chinês, que comanda o Partido Comunista, é um generoso defensor das liberdades. Estas histórias da carochinha são defendidas pelos mesmos que se indignam com os ataques de Trump aos espiões da CIA, agora denominados ‘comunidade de inteligência’.

Talvez seja possível uma explicação alternativa da realidade: os eleitores estão a votar contra as elites que falharam durante a crise e estas tendem a defender o statu quo. Os eleitores têm memória, concordam com tarifas sobre carros importados do México porque esses veículos são fabricados por multinacionais que receberam subsídios para evitar a bancarrota, mas que usaram o dinheiro para despedir milhares de trabalhadores e transplantar as fábricas para o México. A administração Obama salvou bancos do colapso, mas ninguém salvou do colapso milhões de devedores americanos que perderam as suas casas e empregos, que conseguiram trabalho precário e com salários inferiores (com sorte, pois há sempre um ilegal que aceita metade do preço e que remédio tem ele, pois se levantar cabelo é denunciado e recambiado). Na Europa, aconteceu algo de semelhante: a finança foi salva, as dívidas dos Estados aliviadas, mas ninguém perdoou um tostão aos brancos pouco qualificados, que viram com alarme a crise migratória, pois os refugiados nunca são instalados em bairros de ricos.

É isto que explica a insurreição do eleitorado e a substituição das elites, mas esse processo é tratado na Imprensa como se fosse o início da Terceira Guerra Mundial. Nas eleições europeias que se aproximam haverá dois tipos de candidatos: liberais dos partidos centristas e críticos do liberalismo, de esquerda e direita. Nesse aspecto, Trump tem semelhanças com Bernie Sanders, que se tivesse ganho as eleições estaria a acabar com os mesmos tratados comerciais, sob o estrondoso aplauso dos meios de comunicação que arrasam o presidente proteccionista e isolacionista de direita.

Em 2017, nas eleições europeias, haverá cordões sanitários para impedir a vitória das formações de extrema-direita, mas as democracias não podem eternamente recusar-se a ouvir as razões de queixa dos perdedores do sistema, ou então devem retirar-lhes o direito de voto. Em Portugal, claro, onde a política é original (ou atrasada no tempo, não sei), o cordão sanitário, aqui chamado geringonça, já serviu para impedir o centro-direita de governar, para aplauso unânime dos que não estão a ver o filme.

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Demagogos e populistas

por Luís Naves, em 13.12.16

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A ascensão dos populismos escapou a muitos autores e, pelo menos aqui na parvónia, surgem agora opiniões que demonstram perplexidade em relação às recentes votações no Reino Unido, EUA, Itália ou Áustria, como se a demagogia fosse um fenómeno desconhecido ou inédito nos países democráticos. Daí a importância deste texto de Rui Ramos, que tenta ir um pouco mais fundo na análise das mudanças em curso.

Não correram no passado rios de tinta sobre a fraqueza das direcções políticas? Hoje, na opinião publicada, é mais comum encontrarmos o horror aos homens-fortes e a tese da estupidez do eleitor contemporâneo, formas úteis de evitar debater o fenómeno da rebelião eleitoral e de impedir a crítica aos poderes instalados. As elites fracas, que falharam em tudo na última década, querem agora convencer-nos de que devem ser elas a conduzir o processo de renovação? Os comentadores acham que não é preciso mudar nada, mas como era possível que a grande crise não desse origem a uma transformação na política?

Muitos eleitores sentem que perderam o controlo sobre as suas vidas. Já não existe segurança no emprego e as novas gerações vivem pior do que as anteriores: pagam mais impostos, têm menos direitos, pensões em dúvida, rendas altas, precariedade. Os países estão endividados e as economias crescem a passo de tartaruga. Ocorre igualmente uma desindustrialização generalizada e os países de dimensão média tornaram-se irrelevantes. A isto acresce a ansiedade tecnológica, já que a nova economia é apenas para alguns felizardos.

Nas votações onde houve revolta eleitoral os analistas notaram o seguinte padrão: os populistas tinham proporção elevada do eleitorado branco, masculino e de baixas qualificações. Nunca vi isto escrito de outra forma, mas a definição ‘branco de baixas qualificações’ lembra um eufemismo para ‘classe operária’ e, sendo assim, mudaram as tradicionais clivagens entre esquerda e direita. Ao levar o debate político para temas de identidade e fragmentação social, a esquerda perdeu o seu bastião, que evidentemente já não será operário, mas precário, tentando desenrascar-se na adaptação a pequenos serviços e estando nas tintas para a rigidez sindical ou para a linguagem beata que domina os meios de comunicação. A traição dos partidos tradicionais também ocorreu à direita. Os conservadores abandonaram os seus temas favoritos, de pátria, ordem e soberania, a favor da promoção de uma globalização que trouxe benefícios para o capital e prejuízos para os trabalhadores. A extrema-direita apropriou-se dos temas conservadores e, pelo menos em França e Áustria, apropriou-se também do voto operário.

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Westworld e a complexidade

por Luís Naves, em 06.12.16

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A série Westworld, cuja primeira temporada terminou ontem, não é apenas um clássico da televisão, mas uma das mais perturbadoras obras de ficção que tenho visto. Na televisão do futuro, existirá um antes e um depois de Westworld, pois atingiu-se ali um novo patamar na qualidade do argumento e na profundidade das personagens, na complexidade das ideias, na mistura de narrativas e de camadas temporais. Tal como acontece aos turistas humanos que percorrem aquele mundo, o espectador é confrontado com uma imensa teia de possibilidades e julga descobrir elementos que só ele está a ver: não haverá duas opiniões iguais sobre os episódios da primeira temporada, nem será dada por duas pessoas diferentes a mesma importância a informações que, pelo menos na aparência, nos foram proporcionadas como verdadeiras. Nunca uma série de televisão tentou ir tão longe na liberdade concedida a interpretações da história, enigmas narrativos ou ambiguidade das personagens.

A série levantou questões sobre liberdade, memória e consciência, inteligência artificial, destino, limites do humano e da tecnologia, a moderna indiferença, mas sobretudo sobre a impiedade perversa e a manipulação da realidade, dois aspectos da sociedade contemporânea que certamente farão parte do nosso futuro. Para mim, o mais difícil foi perceber que a nudez e a violência, quando aplicadas a máquinas, não tinham a mesma capacidade de me incomodar do que na circunstância dessas mesmas cenas envolverem personagens que eu considerasse pessoas. Explico melhor: os autores mostraram claramente que os seres que estavam a ser torturados, maltratados ou mortos, de forma extremamente cruel, eram máquinas que, no dia seguinte, estariam de novo na sua tarefa de cumprir uma narrativa pré-programada e inflexível, sem memória da dor sentida nas violações, torturas ou homicídios; o destino trágico repetia-se todos os dias, (Dolores deixava sempre cair a lata de conserva nas mesmas circunstâncias), com pequenas alterações resultantes da interacção com os turistas, mas sem livre arbítrio.

Nós, espectadores indefesos, ao entrarmos neste conceito, passámos a funcionar como os turistas, estávamos a ver o que acontecia a máquinas programadas, e não tínhamos a mesma sensação de horror pela violência que lhes caía em cima. A nudez dos robôs nunca foi erotismo, mas vulnerabilidade. Na prática, os autores da série conseguiram manipular os espectadores criando um efeito de desumanização dos robôs, que do nosso ponto de vista formam um grupo separado, cuja rebelião, porventura justa, tem os limites da manipulação da realidade que lhes é imposta. Por este mecanismo, que já transformou pessoas cultas em nazis homicidas, aderimos facilmente à falta de compaixão que os turistas demonstram. A morte de personagens-pessoas, nesta série, perturbou-nos sempre mais do que a morte (ridícula, grotesca ou gratuita) das personagens-máquinas. Não haja dúvida: estivemos do lado das pessoas, apesar da ganância e maldade que estas manifestaram.

Para onde irá a segunda temporada? Aparentemente (tal como acontecia no filme original) há outros parques temáticos. As máquinas estão a evoluir e tornam-se progressivamente conscientes; vamos talvez estar mais do seu lado, mas os deuses (que somos nós) continuarão a dominar o mundo deles; tudo o que vimos é provavelmente engano, como aconteceu na genial cena pirosa da morte de Dolores, a máquina que resume a ideia da busca da beleza e da liberdade que define o humano, a robô que possui a centelha da consciência e da vida e que, segundo parece, vai liderar a rebelião. Enfim, seremos turistas neste explosivo e contraditório Westworld, que não é um mundo a preto e branco, daqueles que a televisão nos deu até hoje, onde a gente sabia exactamente onde arrumar o bem e o mal.

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Anti-americanismo primário (17)

por Luís Naves, em 30.11.16

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A revolta do rebanho

por Luís Naves, em 29.11.16

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Um pouco por todo o Ocidente, alastram fenómenos de protesto eleitoral que podíamos definir como ‘voto puta-que-os-pariu’. Em consequência, no prazo de um ano, a Europa será um lugar muito diferente, com novas lideranças na maioria dos países, porventura à excepção da Alemanha, que foi o país que menos sofreu na pele os efeitos da grande recessão de 2008. Na União Europeia, está em curso uma revolução política ou, no mínimo, uma grande transformação nas maquinarias da sociedade.

 

1

Os últimos 30 anos foram marcados pelo triunfo das ideias do liberalismo económico, que transformaram o poder, e pelas utopias forjadas no Maio de 68, que mudaram a cultura. Nos últimos oito anos vivemos a crise final deste ciclo, que foi marcado pela aceleração da globalização e por profundas mudanças no trabalho ou nos meios de comunicação. Os intelectuais excederam-se no duplo critério das suas interpretações da realidade: basta ver como recentemente o regime totalitário de Fidel Castro, que não deixa dúvidas ao mais desatento, foi envolvido no perfume de uma retórica romântica que ignorou a violência do poder e a miséria do povo cubano; nenhum dos que elogiaram os feitos de Fidel acharia tolerável viver mais do que uma semana em Cuba.

Nestes últimos trinta anos, no Ocidente, a educação foi infantilizada, banalizou-se a contestação primária de toda a autoridade, o cristianismo foi ridicularizado, a família perdeu importância e não há carreiras no poder mediático para alguém que conteste a bondade destas ideias.

Liberalismo económico e utopia libertária tiveram o mesmo efeito de fragmentação do poder. Por exemplo, as lideranças moles são hoje preferidas a líderes considerados ‘duros’; o consenso é elogiado, a ruptura criticada. Os mercados financeiros controlam a economia e é considerado normal que organizações supranacionais não-eleitas fiscalizem países inteiros; a palavra pátria desapareceu dos dicionários e a palavra nacionalista é um insulto. As elites intelectuais entretêm-se a fazer comparações absurdas com o tempo do fascismo e comunismo, e pensam hoje que as fronteiras são o maior perigo que existe no mundo contemporâneo. Os proletários vivem como precários, o pleno emprego foi substituído pelo desemprego crónico, as desigualdades aumentaram, há uma nova classe de excluídos, com menos direitos do que os refugiados que desembarcarem amanhã nas nossas costas.

 

2

Muitos eleitores atingidos pela crise foram considerados ignorantes quando resmungaram contra o encerramento das suas fábricas ou quando foram expulsos das suas casas, por não poderem pagar hipotecas a bancos salvos com dinheiro público. Estes eleitores foram classificados como racistas e xenófobos quando acharam que a abertura de fronteiras facilitava a entrada de trabalhadores mais baratos, que competiam com os seus salários. Estes eleitores foram desprezados quando insistiram na defesa dos seus valores e tradições, que mais não eram do que tradições e valores que os seus pais e avós tinham como garantidos. Estes eleitores continuam a ser insultados quando votam nos movimentos ‘puta-que-os-pariu’ e vão continuar a votar em formas de protesto semelhantes, pelo menos enquanto mantiverem o direito de voto e os partidos tradicionais não compreenderem que o seu ressentimento e raiva resultam do vazio provocado pela desvalorização da classe média e a extrema insegurança que têm em relação ao futuro.

As elites trataram o seu ‘povo’ como um rebanho ingénuo que não pode decidir sobre assuntos já validados pelas classes bem-pensantes. E, no entanto, é evidente que as ideias libertárias e liberais não vão desaparecer, embora seja incompreensível que a sociedade não queira discutir racionalmente o sismo social em curso ou os erros que foram cometidos no ciclo político que agora encerra. Os comentadores dizem que vem aí o fim do mundo, que a democracia liberal vai acabar, mas o que seria verdadeiramente calamitoso era que a democracia não conseguisse mudar as lideranças que falharam ou que o sistema político fosse incapaz de reagir às imensas transformações que aconteceram e estão para acontecer nas nossas vidas.

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Anti-americanismo primário (16)

por Luís Naves, em 29.11.16

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Anti-americanismo primário (15)

por Luís Naves, em 28.11.16

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Anti-americanismo primário (14)

por Luís Naves, em 27.11.16

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Anti-americanismo primário (13)

por Luís Naves, em 26.11.16

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Anti-americanismo primário (12)

por Luís Naves, em 25.11.16

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Anti-americanismo primário (11)

por Luís Naves, em 24.11.16

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Anti-americanismo primário (10)

por Luís Naves, em 23.11.16

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Anti-americanismo primário (9)

por Luís Naves, em 22.11.16

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Anti-americanismo primário (8)

por Luís Naves, em 21.11.16

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Anti-americanismo primário (7)

por Luís Naves, em 20.11.16

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Anti-americanismo primário (6)

por Luís Naves, em 19.11.16

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Anti-americanismo primário (5)

por Luís Naves, em 18.11.16

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Anti-americanismo primário (4)

por Luís Naves, em 17.11.16

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Anti-americanismo primário (3)

por Luís Naves, em 16.11.16

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Anti-americanismo primário (2)

por Luís Naves, em 15.11.16

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As deportações de Obama

por Luís Naves, em 15.11.16

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O presidente eleito dos Estados Unidos anunciou numa entrevista que ia deportar dois a três milhões de imigrantes ilegais e logo se ouviram na imprensa nacional as inevitáveis comparações com o fascismo dos anos 30. Ninguém fez uma simples pesquisa sobre a realidade, pois poderia concluir facilmente que durante a administração Obama foram deportados 2,5 milhões de imigrantes ilegais. A notícia é que Trump pretende acelerar as deportações, aumentar o número anual em qualquer coisa como um terço, para poder atingir o valor prometido, mas não fará nada de original.

As comparações com os anos 30 são absurdas e, no fundo, uma forma de banalizar o horror do totalitarismo. Os números da Grande Depressão não têm semelhança com os da Grande Recessão de 2008. Passados oito anos desde o início do processo, o desemprego na América é agora de 4,9%; em 1938, era de quase 20%. Em todos os indicadores, as duas histórias são incomparáveis. No plano político, nem se fala: na nossa realidade não há milhões de veteranos sobreviventes das trincheiras da I Guerra Mundial nem rancores de vencidos, não há nacionalismo histérico nem recuo drástico do comércio mundial. A destruição e morte de vários regimes democráticos nos anos 30 não tem explicação fácil, mas nessa época as máquinas de propaganda fascista e comunista prometiam futuros brilhantes que, hoje em dia, poderão no máximo convencer franjas lunáticas.

É caso para nos interrogarmos para que serve esta narrativa, ensaiada a propósito da vitória de Trump, de que vem aí um novo fascismo e se prepara uma perigosa vaga populista na Europa? Populismo, aliás, que nunca é definido, pois a palavra serve apenas para rótulo. Segundo parece, os líderes sentem que o chão lhes está a fugir debaixo dos pés, que o poderoso descontentamento das classes médias implica mudanças na governação e que eles não estão em condições de proporcionar essa mudança. O liberalismo falhou na economia e a esquerda ficou refém da cultura politicamente correcta dominante nas academias, nunca tendo compreendido as reservas que o seu eleitorado de trabalhadores colocava às políticas de imigração ilimitada.

Vem aí uma vaga de votações em partidos conservadores e nacionalistas, também de populistas que vieram da extrema-direita, mas que não são iguais aos primeiros, como nos querem fazer crer. Façam o favor de dar alguma atenção aos discursos de Theresa May. O processo de erosão dos partidos tradicionais do centro já se verifica há vários anos, deverá agora acelerar, pois a fórmula de vitória de Trump está ao alcance de muitos grupos europeus.

Isto devia ser mais ou menos claro, mas ouvir o ministro português dos Negócios Estrangeiros dizer que os valores europeus não são compatíveis com deportações em massa só pode causar perplexidade. Onde estavam os protestos da diplomacia portuguesa em relação às deportações de Obama? E que dizer do acordo entre UE e Turquia, que prevê a devolução de refugiados à procedência? O ministro discordou? 

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Anti-americanismo primário (1)

por Luís Naves, em 14.11.16

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Publique-se a lenda

por Luís Naves, em 06.11.16

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A lenda é mais ou menos esta, de facto. Não vou comentar todas as coisas de que discordo no texto de Filipe Roque, mas lembro apenas que a mitologia dos conservadores húngaros se baseia na revolução de 1956 e, portanto, a amálgama feita pelo autor contém indícios de uma história mal contada. Sei que é inútil, mas também não posso deixar de insistir num ponto que abala a confortável narrativa de estarmos perante um poder autoritário na Hungria: o partido dominante, Fidesz, é conservador e democrata-cristão, europeísta, com um líder carismático (excelente orador político), que venceu as últimas oito eleições realizadas no País, algumas de forma arrasadora: todas as três europeias (2004, 2009 e 2014); as locais (2006, 2010 e 2014); e as parlamentares de 2010 e 2014, a primeira destas com maioria constitucional.

Como se pode perceber neste comunicado, a narrativa do texto de Filipe Roque sobre o perigo que o fecho de um jornal representa para a liberdade de imprensa passa ao lado de factos importantes (leiam a versão inglesa do comunicado, que está logo abaixo da versão húngara). O jornal Népszbadság perdeu 74% da circulação em dez anos e já só vendia à volta de 30 mil exemplares diários quando a sua produção foi suspensa; repare-se que os proprietários austríacos admitem o regresso do título. Na realidade, o jornal perdera grande parte dos seus melhores jornalistas e também o apoio do próprio Partido Socialista (MSZP, na oposição). No início da década de 2000, o Népszabadság vendera mais de 200 mil exemplares diários.

A decisão da empresa austríaca que adquiriu o grupo não tem, desta forma, qualquer relação com uma suposta intenção governamental de “silenciar os canais de comunicação independentes”. Tratou-se de uma decisão empresarial, pois o jornal acumulara um prejuízo de 5 mil milhões de forint (16 milhões de euros); o grupo manterá os seus 12 jornais regionais e mais de 1100 trabalhadores; esses jornais regionais são responsáveis por três quartos do negócio (receitas de 80 milhões de euros). Repare-se ainda como a compra é recente e como o novo grupo austro-húngaro terá a sede no edifício do defunto jornal, edifício certamente valioso. Convém não esquecer que, em 1956, o Népszbadság era o órgão oficial do partido único que sufocou a rebelião popular húngara. A imagem em cima mostra a destruição de exemplares da publicação durante a revolta. Em democracia, perdeu os seus leitores e os seus melhores jornalistas, mas por culpa própria. É sempre uma pena que um jornal morra (e neste caso, o encerramento final, sendo provável, nem é garantido), mas os jornais dependem dos leitores e não podem vender gato por lebre ou deixar que os factos sejam ignorados por causa de uma linda história.

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Grandes mudanças

por Luís Naves, em 30.10.16

O nosso mundo é dominado por dois fenómenos que correm em paralelo, a ruptura e a dessacralização. Vemos a tendência da ruptura em notícias diárias sobre rebeliões populistas nas democracias, em delirantes projectos para criar regimes teocráticos ou ainda nas cenas caóticas envolvendo migrações em massa: no fundo, as sociedades contemporâneas não têm soluções para as ‘selvas’, para o ocasional demagogo ou para os delírios homicidas dos fanáticos. Todos estes exemplos estão ligados a mundos em extinção, que não têm resposta para o que aí vem.

A dessacralização é menos óbvia, mas está presente na linguagem politicamente correcta que cada vez mais trava as discussões, está também presente na forma algo estranha como instituições conservadoras acompanham os tempos (tentando adiar o seu declínio) surpreendendo os próprios críticos com a ousadia das inovações. Os papas da literatura, para citar um exemplo recente, guardiães do templo, atribuíram em dois anos consecutivos o Prémio Nobel da Literatura a um trovador e a uma repórter, dois excelentes exemplos da cultura popular.

Pode ser menos evidente, mas esta cultura popular vive dias revolucionários, a dessacralização garante-lhe um lugar proeminente na linha do tempo, para além de existir uma nova e agressiva corrida à criação de impérios que vão dominar ainda mais o seu futuro. Por razões tecnológicas, não haverá sobrevivência para quem não tiver massa crítica. O que se aplica, aliás, ao jornalismo ou à literatura: acabou a era dos autores obscuros que vendiam meia dúzia de exemplares e iam ganhando lentamente a fama; hoje, sem garantir escala, ninguém é publicado. Assim será com a televisão, com o cinema. Os países ocuparão pequenos nichos de exotismo. Isto aplica-se a todas as elites que dominaram o passado, até nas descobertas científicas, que dependem do dinheiro para experiências complexas.

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Tudo baralhado outra vez

por Luís Naves, em 29.10.16

Vivemos numa época dominada pela ideia imprecisa de que ninguém controla os acontecimentos. As eleições americanas, onde a oligarquia parece ter perdido o pé, é um bom exemplo deste triunfo da imprevisibilidade. O caminho que parecia fácil para a vitória de Hillary Clinton transformou-se ontem num gigantesco ponto de interrogação. O anúncio de que o FBI investiga novos e-mails do servidor particular que a candidata manteve enquanto secretária de Estado fez cair a bolsa de Nova Iorque e desencadeou um clima de pânico entre as elites políticas. A nove dias das eleições presidenciais, a democracia americana mergulhou de novo na irrealidade. Já não bastavam os sinais de chapelada eleitoral, a retórica delirante, a argumentação absurda, as manipulações mediáticas; na recta final da corrida surge um escândalo que ameaça mudar a opção de muitos americanos que iam votar de forma relutante na candidata e agora talvez não lhe concedam o benefício da dúvida.

Ninguém em seu perfeito juízo pode dizer como é que isto acaba, uma coisa é certa: seja quem for o vencedor das eleições, sabemos que o próximo presidente dos EUA será uma criatura detestada por mais de metade do país, talvez o mais isolado presidente da história americana, com grandes hipóteses de nem sequer concluir o primeiro mandato. A insurreição eleitoral que Trump cavalgou é mais funda do que parece, tem a ver com um poderoso descontentamento em relação às elites, mas não ultrapassa um terço da população. Se vencesse por causa da abstenção, Trump teria a hostilidade dos outros dois terços da América. Em condições normais, os democratas deviam ganhar com facilidade, mas foi escolhida uma candidata com demasiados esqueletos no armário, que defraudou eleitores entusiasmados com a rebelião populista de Bernie Sanders. Se sobreviver aos próximos dias, Clinton terá a presidência, mas sem direito a estado de graça, pois é perseguida por escândalos e já perdeu de vez a benevolência dos compatriotas.

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Do princípio ao fim (25)

por Luís Naves, em 18.10.16

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Camilo Castelo Branco começou muitos dos seus livros com uma grande frase, como por exemplo este “o progresso é uma voragem”, ideia que inicia uma obra menos conseguida, Vinte Horas de Liteira. Um dos textos maiores do autor, Romance de um Homem Rico, começa de forma simples, mas eficaz, pois já ali se resume a história: “Na Primavera de 1859, comprei, na estação de Santa Apolónia, um bilhete de via férrea, para a ponte da Asseca”. Camilo lança alguns livros com uma gargalhada de desafio, basta citar O Retrato de Ricardina, que começa desta forma arrasadora e plena de ironia: “O abade de Espinho, um dos mais ricos da diocese de Viseu, pecara na mocidade. Coisa rara, senão singular, em abades”. Também gosto do começo de As Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado, que em tão poucas linhas consegue transmitir o carácter essencial desta personagem cómica: “Basílio Fernandes é um sujeito de trinta e sete anos, com senso comum, engraçado a contar histórias da sua vida, activo negociante de vinhos do Porto, amigo do seu amigo, e bastante dinheiroso — o que é melhor que tudo já dito e por dizer”.

Amor de Perdição e O Bem e o Mal, duas das obras-primas de Camilo, começam com frases sintéticas, mas em comparação algo frouxas, demonstrando sem equívoco que um mau início nada nos diz sobre a qualidade geral da obra, sendo provavelmente errada aquela ideia feita de se avaliarem os romances pela força das primeiras palavras, um pouco à semelhança de se julgarem as pessoas pela primeira impressão, que pode ser um dos maiores erros das nossas vidas.

No caso do romance contemporâneo, a primeira impressão é geralmente enganadora, pois os autores ganharam consciência do valor dos inícios fulgurantes e, frequentemente, o tom alucinante do lançamento vai abrandando, as ideias enterram-se no pântano de um miolo mal resolvido, o autor não consegue fixar as personagens, que se diluem em contradições, e o livro arrasta-se num lamaçal de monotonia. As primeiras frases de impacto são fundamentais em crónicas, mas talvez não o sejam em romances.

 

 

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Do princípio ao fim (5)

por Luís Naves, em 27.09.16

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A obra-prima de Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro, tem um início de aparência banal, mas importante para se imaginar a intriga futura. O livro tem também dois finais, um para encerrar a história, o outro menos conseguido, que pretende ser ideológico. Julgo que não existe na nossa literatura um romance tão devastador e cruel em relação às limitações da alma portuguesa. O livro é brutal nas suas mais minúsculas observações sobre a hipocrisia nacional, a culpa e a inveja. A pequena sociedade de Leiria funciona como microscosmos da pátria. De resto está lá tudo o que persiste, a cobardia e as indignações beatas, a fanfarronice e a vaidade, a ignorância e o provincianismo, a importância da classe social e o poder da intriga.

Amaro é um encantador hipócrita, que se deixa ir na corrente dos acontecimentos, um videirinho ambicioso, manipulador e cobarde, que inventa argumentos para se justificar, acabando por trair a sua amante. Na realidade, não tem qualquer convicção, nem sequer acredita nas coisas religiosas que vai pregando com aborrecimento. Amélia é a vítima, infantil quase até ao fim, cega para a evidência que está à frente dos olhos. A sua ingenuidade é uma tragédia, a sua beleza uma má circunstância (escreve o autor que até a penugem de um ligeiro bigodinho aloirado a torna mais apetecível).

Além das personagens principais, o romance tem uma galeria impressionante de figuras secundárias e até de pequenos esboços menores, entre eles, por exemplo, Libaninho, que julgo ser na literatura portuguesa o primeiro exemplo de homossexual fora do armário: sabemos pelo próprio que “estava a fazer muitas virtudes no quartel de Leiria”, mas apanhado em flagrante delito na companhia de um sargento, acaba recompensado com um lugar de sacristão; o curioso desenlace sugere que em O Crime do Padre Amaro as indignações são selectivas e a intolerância, tão omnipresente neste universo, é um pouco mais flexível do que parece.

A importância das personagens secundárias é vital no texto, pois elas criam um ambiente de sociedade, permitindo a ilusão de movimento, o humor e diversidade da vida, facilitando o fluxo narrativo. O começo do romance, a primeira frase, é exactamente sobre uma personagem secundária e julgo que só há mais uma referência a esse padre falecido, o que nos deixa na total ignorância sobre a sua existência: “Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé. José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia”. Só ficamos a saber o estritamente necessário, que era um homem dado a fúrias ocasionais e certas contradições de carácter, o que acentua o mistério deste início: parece de uma banalidade extrema, não nos diz nada sobre Amaro ou Amélia, embora se refira à abertura de uma vaga na paróquia. Só no final do romance, quando tentamos imaginar a continuação não escrita, enfim, a história para além do enredo, percebemos a importância do início: a morte de José Miguéis é idêntica à morte de Amaro, a premonição do mesmo fim banal a que ele não poderá escapar, pois todo o resto da sua vida será uma rede de mentiras, também ele terá fúrias ocasionais e acabará morto por uma apoplexia.

 

 

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A frase

“Acredito que me queiram afastar de tudo”.

Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal responsável pela instrução do caso que envolve o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

Expresso

17 de Setembro de 2016

 

Post

Este texto de Francisco José Viegas sobre a pobreza da linguagem deve ser lido em conjunto com este sobre o ensino.

 

A semana

Domingo, 11 de Setembro de 2016

Foi um fim-de-semana horrível para Hillary Clinton: num comentário infeliz, a candidata democrata classificou de “deploráveis” os eleitores do seu rival, Donald Trump; horas depois, domingo, quando estava nas cerimónias do 11 de Setembro, em Nova Iorque, a ex-secretária de Estado teve de abandonar o local com evidentes dificuldades de saúde. O comentário sobre os deploráveis foi a melhor demonstração do elitismo de que é acusada pelos detractores; o aparente desmaio foi causado por uma pneumonia, mas a campanha de Trump insinuou que se passa algo de mais complexo; afinal, nos dias anteriores, a candidata democrata dissera ter umas alergias e até brincara, dizendo que tinha alergia ao rival.

Elitismo e suspeitas de problemas de saúde são uma combinação tóxica na campanha, para mais estando Hillary Clinton a deslizar nas sondagens. A vantagem confortável que os democratas tinham há apenas um mês dissipou-se e a eleição será, no mínimo, difícil. Trump avança em todos os Estados que vão decidir a votação de Novembro. As eleições americanas são indirectas, por colégio eleitoral, e cada Estado atribui todos os delegados ao vencedor estadual, nem que seja por um voto: o candidato mais votado a nível nacional pode perder, pelo que as sondagens a nível nacional têm de ser vistas com cautela. Há Estados que votam sempre no mesmo partido, ganhos ou perdidos à partida e nenhum dos candidatos gastará neles muitas munições. A eleição decide-se num pequeno número de votações parciais, nos chamados swing states, cujos maiores são, neste momento, os seguintes: Ohio, Flórida, Carolina do Norte, Virgínia, Pensilvânia, Geórgia e Michigan. É sobretudo nestes campos de batalha que a situação está a mudar depressa a favor de Trump.

 

Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016

A entrevista do ministro das Finanças Mário Centeno à CNBC provocou forte reacção em Portugal, com críticas da oposição e textos de opinião contundentes, como este de António Ribeiro Ferreira. Evitar o segundo resgate é de facto a prioridade do governo de António Costa, como seria a prioridade de qualquer outro governo. Se conseguir evitar a derrapagem orçamental, o primeiro-ministro terá ganho a sua arriscada aposta política. Ao alcançar a meta de 2,5% no défice, Costa terá cumprido as promessas eleitorais e, ao mesmo tempo, os compromissos com os credores. O inverso implica a desconfiança das instituições europeias, o fim da notação favorável da dívida, sanções automáticas, subida dos juros. Três ou quatro décimas acima de 2,5% e todo o edifício entra em colapso. A questão estará em saber qual é a fronteira da tolerância.

 

 

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Uma pedra no bolso

por Luís Naves, em 13.09.16

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O jornalismo político português está de tal forma habituado à mentira dos políticos que reagiu com uma pedra no bolso a um momento de sinceridade do ministro das Finanças, criticando o facto de Mário Centeno aceitar uma pergunta sobre o eventual segundo resgate ao país. Claro que evitar este segundo resgate é a prioridade do ministro, sendo evidente que este cenário nunca deixou de existir. Centeno limitou-se a dizer a verdade e não tem culpa dos títulos utilizados.

É bem mais preocupante para o país esta entrevista do ministro das finanças finlandês, Petteri Orpo, com criticas às instituições europeias por não haver sanções a Portugal. As duas entrevistas estão relacionadas. As sanções resultam do incumprimento das metas do défice, fracasso que no caso português é grave devido ao montante da dívida pública. Sem a disciplina das sanções, o euro não tem credibilidade. Além disso, Portugal já recusou medidas adicionais recomendadas pelos parceiros europeus, alegando que conseguirá atingir a meta de 2,5% de défice orçamental em 2016.

Se o Governo de António Costa conseguir uma execução orçamental brilhante, atingindo os objectivos europeus, cumprindo promessas eleitorais e o acordo com os partidos de esquerda, então a sua estratégia funcionou e o país evita um pedido de ajuda. Afinal, havia alternativa.

O falhanço atira-nos de cabeça na direcção do segundo resgate: as contas públicas ficavam mais longe do valor negociado para 2017, haveria exigência de medidas adicionais (cortes na despesa e impostos), provável conflito com a UE, sanções automáticas, desconfiança dos mercados, fim das compras do BCE, taxas de juro a subir, incapacidade de Portugal se financiar, degradação da notação da dívida, aflição nos bancos, num ciclo capaz de se auto-alimentar como uma bola de neve. Os partidos de esquerda não poderiam aceitar cortes de 2017 a que se somava a parcela da diferença, no orçamento anterior, entre metas e realidade. Contas erradas darão um primeiro trimestre de 2017 infernal, à semelhança do que aconteceu em 2011, mas esta nova crise teria um péssimo contexto, com o avanço de partidos de protesto em toda a Europa. Se o défice for muito superior a 2,5%, game over, pode ser necessário pedir ajuda externa.

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Uma frase:

8 de Setembro de 2016 “Sou o saloio de Mação, com créditos hipotecários, que tem de trabalhar para os pagar, que não tem dinheiro em nome de amigos, não tem contas bancárias em nome de amigos e, até desse ponto de vista, que não tem amigos”.

Carlos Alexandre, juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal responsável pelo caso que envolve José Sócrates

SIC

8 de Setembro de 2016

 

Um post:

A rentrée de Filipe Nunes Vicente, autor sempre atento, sempre lúcido.

 

A semana

Domingo, 4 de Setembro de 2016

A CDU, partido democrata-cristão da chanceler Angela Merkel, sofreu uma derrota estrondosa no pequeno estado de Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental, ficando em terceiro lugar na votação, atrás da Alternativa para a Alemanha, AfD, partido de protesto que está a conquistar largas fatias dos eleitores da direita. Esta formação é recente, começou por ser anti-euro, mas adoptou um discurso anti-imigração que, no último ano, fez triplicar as suas intenções de voto em todo o País. Em Outubro deverá entrar no Bundestag. As sondagens mostram que desde Setembro do ano passado a CDU sofre uma sangria de eleitores a favor da AfD. Isso já era motivo para críticas em voz baixa à actuação da chanceler, sobretudo em relação à imigração, mas as eleições de domingo desencadearam uma discussão mais acesa e há quem se interrogue sobre o futuro da líder alemã. As eleições federais serão em Outubro do próximo ano e Merkel ainda não anunciou se vai tentar um quarto mandato. Este é mais um dado da complexa situação das incertezas ocidentais.

 

Segunda-feira, 5 de Setembro de 2016

O calendário político do próximo ano será no mínimo alucinante, com a ascensão das diversas rebeliões populistas. Há incógnitas em relação às eleições americanas de Novembro e espera-se turbulência nos mercados, sobretudo se Donald Trump subir nas sondagens. A incerteza estende-se aos principais países europeus: a Itália está sob ameaça de uma crise financeira e o governo de Matteo Renzi pode não resistir a um referendo dentro de semanas; a Espanha terá provavelmente a terceira eleição consecutiva em Dezembro, com a possibilidade de novo impasse; em França, aproxima-se o período eleitoral e perfilam-se várias candidaturas populistas; na Holanda, a direita anti-imigração quer referendar a Europa se vencer as eleições de 2017. Os próximos meses terão muitas oportunidades para dúvidas existenciais, nomeadamente a negociação do terceiro resgate da Grécia e o lançamento das negociações do Brexit, algures no início do próximo ano. Estes são apenas riscos políticos, pois no meio de tudo isto há bancos em dificuldades, nervosismo nas bolsas, aumento dos preços de petróleo e os imponderáveis do costume, da Turquia a Vladimir Putin, passando pelos horrores terroristas do Estado Islâmico.

 

 

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A sedução populista

por Luís Naves, em 04.09.16

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A CDU da chanceler Angela Merkel sofreu uma pesada derrota no Estado de Mecklenburgo-Pomerânia, ficando atrás da AfD, Alternativa para a Alemanha, partido populista e anti-imigração que nas últimas eleições federais, em 2013, ficara abaixo do limiar de 5%. Independentemente dos aspectos da política interna deste pequeno Estado alemão, a votação terá leituras complexas e sugere que a questão das migrações se tornou politicamente tóxica.

Os democratas-cristãos estão em plena hemorragia de votos, como se pode ver neste gráfico, onde são aparentes as transferências directas da CDU para a AfD. No último ano, o partido de Merkel perdeu sete a oito pontos percentuais, andando agora pelos 33%; a AfD ganhou algo de semelhante e estará acima de 10%. A maior incógnita é saber em que ponto do declínio eleitoral os barões da CDU-CSU decidem livrar-se da líder ou se esperam até às eleições federais de Outubro do próximo ano.

 

Os líderes que não escutam os eleitores estão condenados a perder eleições. A rebelião populista que alastra nas democracias ocidentais tem muitas formas, mas elementos comuns: estes eleitores desconfiam dos banqueiros, dos meios de comunicação e dos políticos, recusam novos acordos de liberalização do comércio, são vagamente anti-americanos, gostam de líderes carismáticos de língua afiada, detestam a conversa da abrangência, têm urticária às burocracias não eleitas, querem travar a imigração, sobretudo a de muçulmanos. Como mostrou o Brexit, a resposta das elites não tem sido eficaz. Apesar de serem diabolizados, estes movimentos de protesto continuam a cavalgar a onda de descontentamento gerada pela crise de 2008.

A insegurança económica é hoje fortíssima nos países ocidentais e os perdedores da globalização recusam aceitar a política do costume. Objectivamente, a vida das pessoas mais pobres piorou: nos bairros degradados há má convivência, nas fábricas mecanizadas menos empregos. O terrorismo causa alta insegurança, os ricos enriqueceram e vivem em condomínios fechados, a classe média perdeu as ilusões e os trabalhadores são sensíveis à ideia de que os seus rendimentos estagnaram por causa da imigração em massa. As elites fracassaram. Onde havia empresários paternalistas que cuidavam dos seus trabalhadores, agora há gestores cuja capacidade é medida em função do número de colaboradores despedidos. A imprensa esqueceu-se de servir os leitores e não faz qualquer esforço para compreender o descontentamento popular, não perdendo uma oportunidade para definir estes votantes como xenófobos e de extrema-direita. Os intelectuais parecem ter desistido de descodificar o mundo, têm medo de dizer o que pensam e adoptaram linguagem politicamente correcta, que nada explica. Os políticos talvez não tenham verdadeiras soluções ou não avaliam a poderosa sedução destas ideias.

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Histórias de bloqueios e fracassos

por Luís Naves, em 03.09.16

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Uma frase

“Este é um momento difícil para a UE e nós, que somos a favor da União Europeia e não desistimos, não passamos uma certidão de óbito à UE, nós temos a responsabilidade de trabalhar no sentido de apontar caminhos, encontrar respostas e intervir para que a UE siga em frente”.

Jaime Gama, dirigente do PS, antigo presidente da Assembleia da República

Observador

30 de Agosto de 2016

 

Um post

Leio as crónicas de Pedro Rolo Duarte sempre com imenso prazer. O autor tem um blogue fantástico com o seu nome, mudou agora o grafismo e o resultado ficou ainda mais agradável. Este post explica tudo e inclui uma ‘carta de princípios’ que resume o espírito do bom jornalismo.

 

A Semana

Domingo, 28 de Agosto de 2016

O Partido Popular de Mariano Rajoy e o Ciudadanos de Albert Rivera chegaram a um acordo que visa acabar com o impasse na escolha do novo governo espanhol, mas as expectativas são baixas. Rajoy ficou a seis votos de garantir a maioria e dependerá (nas duas votações que se realizam esta semana) do apoio ou abstenção de outros partidos. Rivera arrisca-se a ser visto como a muleta do PP e pode ser penalizado por um futuro voto útil. As contas da investidura são complexas e apontam para o fracasso da solução de centro-direita, o que implicará dois meses de negociações e alta probabilidade de novas eleições. Contra o conselho de antigos líderes e a vontade do seu eleitorado, o PSOE manteve a oposição a um governo liderado por Rajoy, mas a estratégia do líder socialista, Pedro Sánchez, é de alto risco. Sendo remota a hipótese daquilo a que alguns chamam o Governo Frankenstein (geringonça idêntica à portuguesa, mais independentistas bascos e catalães), a Espanha pode ter uma terceira edição de legislativas em cerca de um ano, o que coloca graves problemas, nomeadamente atraso no orçamento e nas políticas económicas, falta de dinheiro em autonomias dominadas pelos próprios partidos da oposição. O jornal El País sintetizava o dilema dos dois maiores partidos espanhóis: um não tem votos suficientes, o outro não consegue criar uma alternativa. Veremos nos próximos dias, mas a Espanha pode ter entrado num pântano.

 

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016

É uma verdade de La Palisse, que parecia evidente desde que a geringonça foi criada: a Europa é o factor que limita a acção da aliança dos partidos à esquerda, como constatou agora José Manuel Pureza, nesta entrevista. Para o dirigente do Bloco, o cumprimento das regras de Bruxelas obrigará em breve a escolher entre desobediência externa ou ruptura interna. Ninguém com lucidez acredita na hipótese de cumprimento das regras europeias e obediência simultânea ao acordo tripartido. Esta contradição explica que os partidos à esquerda estejam a radicalizar o discurso de contestação à UE, algo que já entrou inclusivamente nas conversas de rua, com muitos cidadãos a acreditarem ingenuamente que a origem dos nossos problemas está numa Europa que se fragmenta. O governo minoritário do PS é pressionado pelos parceiros para desafiar as instituições europeias e seguir uma via distinta da que vigorou em Portugal desde a adesão às comunidade e que não passa, em grande medida, de uma criação do próprio PS. O novo eurocepticismo socialista é instrumental, retórico, pouco convicto, é um ‘não fazemos’ que procura manter o generoso acesso aos fundos comunitários, à livre circulação e mercado único. O caso dos partidos à esquerda do PS tem aspecto diferente: comunistas e bloquistas acreditam que só  fora da UE podem construir uma sociedade socialista.

 

 

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Não basta inventar rótulos

por Luís Naves, em 02.09.16

Políticos sem argumentos novos começam a usar o rótulo de ‘populismo‘ para atacar as ideias dos adversários. Como está mal definida, sendo repetida em múltiplas situações, esta acusação tenta formar uma amálgama de tudo o que vai desde extrema-direita ultra-nacionalista até às propostas mais lunáticas da extrema-esquerda. Enfim, ao tentar apanhar tudo, a palavra acaba por não definir coisa alguma.

As propostas populistas podem ser consideradas reacções ao fracasso do também mal definido neo-liberalismo que dominou as útimas três décadas. O Brexit foi evidente consequência do movimento populista, mas Donald Trump será um exemplo ainda mais certeiro. Que padrões encontramos? Os seguintes: violento discurso anti-elites; defesa dos perdedores da globalização; nacionalismo nostálgico de um passado mítico; a ideia de que a comunidade precisa de regressar às suas raízes perdidas; contestação do capitalismo ou, no mínimo, da ganância das grandes empresas sem rosto; recusa de mais poderes para organizações inter-governamentais não eleitas; rejeição da imigração em massa, devido ao efeito negativo no rendimento dos mais pobres, mas também devido à insegurança gerada pelo terrorismo islamita.

A grande crise foi provocada pelo fracasso das elites e pelo esgotamento de um modelo de globalização económica que não trouxe benefícios para vastos grupos da população. Por isso, nas sociedades industrializadas, será difícil para um político ganhar eleições sem adoptar algumas destas interpretações da realidade. Os elitistas e pragmáticos que defendem o statu quo terão dificuldade em encontrar argumentos contra a plataforma populista. Em resumo, se insistirem na rejeição pura e simples desta rebelião, os partidos tradicionais não poderão adoptar a sua parte lúcida. Essa estratégia separa-os irremediavelmente do eleitorado, na certeza de que uma alternativa ocupará o vazio. Aliás, isso já acontece: os partidos extremistas estão a tomar conta do descontentamento popular, assumem-se como os seus campeões e continuam a subir nas intenções de voto, perante a surdez e a impotência dos partidos tradicionais democratas-cristãos, liberais e social-democratas, que não conseguem mudar de discurso.

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Comparações superficiais

por Luís Naves, em 01.09.16

O PSD quer regressar ao poder usando este tipo de argumentação? Mais vale ir tirando o cavalinho da chuva. A comparação feita pelo ex-ministro Poiares Maduro mistura alhos com bugalhos: a Grécia está sob resgate e tem um governo com ‘populistas’ não apenas da esquerda, mas que incluem um partido de direita nacionalista. Essa geringonça grega cumpre um programa de ajustamento negociado com as instituições europeias. Qual é a diferença entre um governo de centro-direita (aquele a que pertenceu o ex-ministro Poiares Maduro) e um governo ‘populista de esquerda-direita’, quando ambos cumprem com rigor um programa de ajustamento impopular imposto pela mesma troika? A diferença é nula.

A comparação do governo Costa com os casos da Polónia e Hungria pode parecer muito inteligente, mas também é enganadora. Na Europa Central não há geringonças, mas governos nacionalistas estáveis que tentam negociar uma nova relação com a Europa, após uma transição difícil que prejudicou as classes trabalhadoras, deixando ali um lastro de descontentamento que nenhuma análise pode ignorar.

O chamado ‘populismo húngaro’ venceu todas as eleições desde 2008 (europeias, regionais, etc.), incluindo duas legislativas, uma delas com maioria qualificada que permitiu ao partido no poder (Fidesz, conservador) alterar a Constituição. Os ‘populistas húngaros’ talvez mereçam essa designação por fazerem parte do partido popular europeu onde milita o PSD do ex-ministro Poiares Maduro. São populares? Sem dúvida. São populistas? Aceita-se. São comparáveis com a geringonça portuguesa? Quase consigo ouvir as gargalhadas que essa ideia provoca em Budapeste.

Em abono da verdade, há uma semelhança com o ex-governo do próprio Poiares Maduro: os ‘populistas húngaros’ também herdaram uma bancarrota socialista e um programa do FMI, só que mudaram o destinatário da factura, dos contribuintes, trabalhadores e pensionistas para os bancos e rendas excessivas. Foi ‘populista’? Sem dúvida. O resultado é que conseguiram pôr a economia a crescer quase 3% anualmente, reduziram o desemprego de 15% para os actuais 5%, conseguiram investimento externo em larga escala, aumento das exportações, redução de impostos, mantendo inflação baixa, alta qualidade do ensino público gratuito e a universalidade do sistema nacional de saúde. Já saíram do procedimento por défice excessivo e dão-se inclusivamente ao luxo de pagar mais devagarinho a sua dívida pública, para não atingirem tão depressa o nível de 60% do PIB que os obrigaria a entrar na zona euro. Houve ainda um brinde que contrasta com a estratégia da nossa paróquia: a banca era dominada a 90% por instituições estrangeiras, agora é 50% húngara. Nada mau para ‘populistas de direita’. Se Costa fizesse o mesmo...

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Estranhas Formas de vida

por Luís Naves, em 27.08.16

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Uma frase:

“No que se refere ao Orçamento de Estado para 2017, estamos disponíveis para examinar e propor as soluções que sejam necessárias para repor os direitos perdidos pelo povo português. Tudo aquilo que for negativo e nos empurrar para trás votaremos contra”.

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, explicando que será uma “ilusão” o governo acreditar que é possível ter crescimento económico e respeitar as “imposições e ameaças” da UE.

Diário de Notícias 21 de Agosto de 2016

 

Um post:

Há demasiadas interrogações sobre o caso da reestruturação da Caixa Geral de Depósitos, como se pode ler neste post de Maria Teixeira Alves, em Corta-Fitas. 

 

A semana

Domingo, 21 de Agosto de 2016

Martin Jacques interroga-se neste artigo sobre as consequências da grande crise de 2008, a maior perturbação do capitalismo desde os anos 30 do século passado. O autor britânico escreve sobre o aparente paradoxo do falhanço das ideias neo-liberais não ter ainda produzido uma vaga de ideias contrárias entre as elites intelectuais, que desvalorizam como ‘populismo‘ a vaga de contestação já tão evidente nas democracias avançadas.

A revolução neo-liberal dos anos 70 e 80 do século passado aumentou as desigualdades, permitiu uma onda migratória sem precedentes, reduziu a regulação dos mercados e a dimensão dos aparelhos governamentais. O capital foi beneficiado em relação ao trabalho e o rendimento dos mais pobres estagnou ao longo dos últimos 30 anos. Os ricos ficaram extraordinariamente ricos e, além disso, as taxas de crescimento económico não foram nada de especial. Este período prejudicou os trabalhadores menos qualificados, que foram vítimas da deslocalização dos seus empregos para zonas mais baratas ou que enfrentaram a concorrência dos imigrantes, também pouco qualificados, que aceitavam salários baixos, criando uma pressão que empobreceu o proletariado.

Esta interpretação ajuda a compreender fenómenos populistas como o Brexit ou Donald Trump: o candidato republicano é campeão da classe trabalhadora e contesta acordos comerciais que, até há muito pouco tempo, eram peças fundamentais das crenças políticas da direita. O artigo explica que os movimentos ditos ‘populistas’ estão a atacar o neo-liberalismo, mas também a esquerda europeia, que deixou de defender os trabalhadores: veja-se, por exemplo, a política de imigração, que os partidos de esquerda geralmente apoiaram, embora esta seja prejudicial para os seus eleitores tradicionais. A ideologia da esquerda permanece nos anos 70 e a linguagem é cada vez mais politicamente correcta, ou seja, repleta de eufemismo, evitando as questões essenciais. A mensagem simples, anti-globalização, de movimentos populistas é acompanhada da exigência de controlo sobre as grandes empresas e banca, de limites à imigração.

 

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016

Alemanha, França e Itália querem liderar a reconstrução do projecto europeu no período pós-Brexit e os líderes destes três países estiveram reunidos na ilha italiana de Ventotene, para preparar a cimeira de Bratislava do próximo mês, onde serão discutidos os problemas mais urgentes da UE: consequências do Brexit, conflito na Síria, crise migratória e relações com Turquia e Rússia. A cimeira entre Hollande, Merkel e Renzi não trouxe ideias novas ou decisões históricas, mas houve uma importante carga simbólica no encontro, pois foi nesta pequena ilha que Alfiero Spinelli escreveu em 1941, com Ernesto Rossi, o famoso Manifesto de Ventotene, documento político que defendia a necessidade de se criar uma Europa federal. Neste texto fundador das comunidades europeias, pretendia-se uma utopia socialista que pudesse responder ao nacionalismo que tinha dominado a década anterior.

A Europa enfrenta os mesmos dilemas do tempo de Spinelli: federalismo ou nacionalismo, capital ou trabalho, como acomodar os interesses dos pequenos países, que dose de social-democracia no consenso político. As lideranças parecem não ter ideias práticas: Jean-Claude Juncker afirmava recentemente em Viena que “as fronteiras [nacionais] são a pior invenção jamais feita pelos políticos”, frase incompreensível para a maioria dos europeus. O federalismo, nos termos em que Juncker o imagina, é uma ideia etérea sem sustentação na vontade do eleitorado. Os líderes das três maiores potências europeias da UE pós-Brexit enfrentam rebeliões populistas e pelo menos dois deles. Hollande e Renzi, correm sério risco de não estarem no poder dentro de poucos meses. Além disso, este trio está dividido em relação ao Tratado Orçamental: dois dos países querem flexibilização das regras, o outro resiste. Mesmo assim, estamos longe da ruptura da aliança europeia.

 

 

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"Nada retoma a forma antiga"

por Luís Naves, em 20.08.16

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Uma frase

“Não faz sentido imaginar isso [coligação com o PS]. António Costa está, e está para durar. Chegou ao poder da forma como chegou. Quem chega ao poder assim, fará tudo para lá continuar. Não tenho nada a ideia de que isto esteja quase a acabar, não vou fazer cenários. No CDS vemo-nos como oposição ao Governo das esquerdas e como parceiros do PSD”.

Assunção Cristas, líder do CDS

18 de Agosto de 2016

Revista Sábado

 

Um post

Francisco Seixas da Costa explica as implicações legais de um caso raro: os dois filhos do embaixador iraquiano espancaram um jovem em território nacional e poderão ficar impunes.

 

A semana

Domingo, 14 de Agosto de 2016

No recomeço da temporada política da oposição, com o tradicional discurso do líder do PSD no Pontal, o mandarinato do comentário não se cansou de sublinhar dois pontos: o PSD anda farto do seu líder e o discurso da oposição é pessimista, faltando-lhe a parte da esperança. Passos devia ter subido ao palanque para dizer que está tudo bem e que o primeiro-ministro é um formidável estadista. Sobre a sua substituição, não se conhece um único facto, mas todos dão isso como adquirido ou inevitável: haverá intrigas, movimentações misteriosas, mas nem sequer se sabe quem se movimenta nos bastidores e quem será o possível substituto. Nenhum dos analistas explica o óbvio, que as sondagens não seriam as mesmas em caso de ruptura da aliança da esquerda e que dificilmente as próximas eleições serão as autárquicas de 2017, nas quais, de facto, o PSD pode levar uma banhada, pelo menos em Lisboa e Porto.

 

Segunda-feira, 15 de Agosto de 2016

O Governo minoritário do PS vai durar dois anos? Pela amostra dos primeiros oito meses, não parece. A economia cresce a metade do ritmo previsto, mas acredita-se numa execução orçamental espectacular. Os parceiros europeus vão fiscalizar as contas de três em três meses e mantêm ameaças de sanções e cortes de fundos, mas a malta da esperança acha que podemos confiar numa negociação favorável. A dívida pública cresceu em vez de diminuir, o Governo recusa aplicar medidas adicionais pedidas por Bruxelas, mas há esperança. As taxas de juro negativas atingem já os bancos alemães, mas espera-se que as políticas do BCE continuem eternamente. Está tudo a correr bem, como acontece no Natal com o peru: o animal dispõe de comida abundante, donos contentes, o peso aumenta, o que poderá correr mal no futuro brilhante que se adivinha?

 

Terça-feira, 16 de Agosto de 2016

Como escreve Jorge Costa, em O Insurgente, a economia portuguesa está presa por um fio. O texto comenta as declarações de um responsável da agência de notação canadiana DBRS, que menciona as dúvidas sobre o crescimento medíocre, a necessidade de meter dinheiro público nos bancos e ainda a incerteza que rodeia a actual situação política. O facto é que na democracia portuguesa nunca existiu um governo minoritário estável, pormenor esquecido em todas as análises políticas que leio na Imprensa. Os comentadores tendem também a subestimar a conjuntura económica: a calamidade social do desemprego desapareceu por inteiro dos radares jornalísticos; o fraco crescimento impede a recuperação da banca e ameaça a receita de impostos; há pressões da Europa no sentido de Portugal fazer as reformas que garantam orçamentos equilibrados e o pagamento da dívida pública, mas ouvimos cada vez mais o argumento da esquerda de que é preciso sair do euro ou renegociar a dívida, única maneira de manter a despesa a crescer mais depressa do que a economia. Restam poucas vozes lúcidas. Uma das excepções é António Barreto, que na sua coluna no DN sublinhava esta semana a pobreza da argumentação da esquerda e o inaturável tom de superioridade moral com que começam todas as discussões. 

 

 

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A árvore e a floresta

por Luís Naves, em 13.08.16

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Uma frase

“Não posso deixar de sublinhar aquilo que tem sido uma redução muito significativa da área ardida quando comparada com os anos anteriores”.

João Matos Fernandes, ministro do Ambiente, falando dos fogos, na véspera do grande incêndio que atingiu a cidade do Funchal.

8 de Agosto de 2016

 

Um post:: No excelente Desvio Colossal, Pedro Romano faz a análise dos últimos dados sobre o emprego.

 

A semana: 

Domingo, 7 de Agosto de 2016

Notícia do Público dava conta que o Banco Central Europeu já está a limitar as compras de dívida portuguesa, provavelmente numa tentativa de esticar ao máximo o período em que fará essas compras. O problema, diz o jornal, é que a autoridade monetária estará a chegar ao limite legal do mecanismo que lhe permite comprar activos. Quais são as implicações desta situação? As taxas de juro das obrigações do tesouro a dez anos estiveram de forma consistente num intervalo entre 3% e 3,5% e a redução das compras mensais do BCE poderá ter um efeito de subida do respectivo valor. Estão igualmente a chegar ao fim outros programas de compras de activos e aparentemente estas medidas de estímulo não tiveram o efeito desejado. Esgota-se assim a pequena janela de oportunidade de que Portugal beneficiou durante dois anos, com juros historicamente baixos. Vem aí um período de dificuldades no financiamento da República.

 

Segunda-feira 8 de Agosto de 2016

Uma invulgar vaga de calor e ventos fortes desencadeou incêndios florestais de grandes dimensões que atingiram zonas habitadas em várias regiões do continente e também na Madeira. Este ano os fogos começaram relativamente tarde, mas atingiram depressa proporções catastróficas. O Inverno húmido também contribuiu para o crescimento de matos que agora, em condições secas, aumentam o combustível florestal.

Os incêndios são um fenómeno recorrente e as vagas de calor ocorrem de forma cada vez mais violenta. Os cientistas afirmam que Portugal será bastante afectado pelas alterações climáticas, passando a ter um clima parecido com o de Marrocos. No futuro, haverá maior número de períodos secos e quentes. A floresta portuguesa já tinha as espécies erradas para o clima que existia nos anos 50 ou 60 do século passado; agora, a floresta existente é ainda mais vulnerável, como sugere a redução progressiva da mancha de pinhais. A demografia rural e a própria sociedade mudaram completamente, os interesses económicos estão montados para este tipo de floresta caótica, com espécies combustíveis, como é caso das resinosas. Perante as alterações de clima que ninguém conseguirá travar, a adaptação urgente será porventura a concentração de subsídios florestais em espécies que resistam melhor aos incêndios. A questão está estudada e há muitos trabalhos sobre o tema, como por exemplo este relatório, com pistas interessantes de leitura.

 

Terça-feira, 9 de Agosto de 2016

Uma verdadeira tempestade de fogo desceu sobre a Madeira. Impulsionada por ventos muitos fortes, após semanas de tempo quente e seco. Os fogos florestais no topo da Ilha assumiram proporções devastadoras e invadiram zonas urbanas do Funchal, destruindo inúmeras casas, desalojando centenas de habitantes, matando pelo menos três pessoas. As televisões mostraram em directo o pânico, a histeria, a coragem doida, o esforço inútil, a confusão e o medo. Os incêndios multiplicavam-se pelos jardins da cidade, numa espécie de guerrilha furiosa, e os meios de combate foram insuficientes. A cidade tinha antes sido atingida por inundações: os dois fenómenos estão ligados: as inundações foram mais destruidoras devido a incêndios anteriores e o ciclo vai repetir-se. Caos urbanístico, regras de construção permissivas, excesso de concentração populacional, um clima agora com mais fenómenos extremos (calor e vento forte ou chuva anormal), a Madeira é provavelmente um pequeno laboratório dos erros de ordenamento misturados com os efeitos das alterações climáticas.

Também houve fogos em várias regiões do continente: Aveiro, Viseu, Viana do Castelo e Leiria. As populações organizaram-se como podiam, usando conhecimentos acumulados em episódios anteriores. Numa impressionante reportagem da televisão, mostrava-se uma aldeia a fazer um contra-fogo: era uma cena dramática, mas estranhamente tranquila. Nos incêndios em Portugal vemos muitas pequenas aldeias cercadas, meios que tardam em chegar e populações que se queixam de abandono. A questão dos incêndios é demasiado antiga, resulta “da natureza” e “das transformações sociais do último século”, como aqui justamente escreveu o historiador Rui Ramos.

O Presidente da República, entretanto, travou à nascença as primeiras tentativas de politizar estas catástrofes. Foi uma intervenção cirúrgica de Marcelo Rebelo de Sousa. Num momento de perfeita lucidez, quarta-feira, na Madeira, Marcelo travou o passo às críticas demagógicas e ao circo mediático que já se estava a montar.

 

 

 

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Não se deixem cair na tentação

por Luís Naves, em 06.08.16

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Uma frase: "Não excluo legislativas antes das autárquicas".

Rui Rio, ex-dirigente do PSD

Diário de Notícia, 6 de Agosto de 2016

 

Um post: Francisco José Viegas escreve aqui sobre a hipocrisia política e elogia as raras vozes que vão remando contra a maré.

 

A semana

Domingo, 30 de Julho de 2016

O País seguiu para férias e, como se toda a gente ouvisse um sinal sonoro, desapareceram de repente os problemas da crise. Tirando os incêndios, que infelizmente fazem parte da paisagem de Verão, chega o tempo das histórias positivas: famosos a banhos, políticos descontraídos, dinheiro a rodos, abundantes trabalhos sazonais e festas de ricos. Subitamente, anda toda a gente feliz e a esquerda radical já não critica como antigamente. Os desempregados desapareceram e nenhum jovem foi forçado a emigrar. As redes sociais descansam umas semanas e não sentiremos o seu veneno e frenesim. No intervalo de Agosto percebe-se melhor como o debate político é uma repetição de mais do mesmo, com umas pitadas de treta.

 

Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016

A campanha eleitoral nos EUA está a tornar-se invulgarmente negativa, mesmo para os padrões americanos. Donald Trump troçou de uma família de origem paquistanesa que perdeu um filho no Iraque e começa a ser penoso assistir às intervenções malévolas do candidato republicano. Ao hostilizar a poderosa instituição dos combatentes e veteranos, Trump escandalizou outro influente sector da sociedade americana. Um incidente igual a este teria liquidado qualquer campanha anterior de um candidato à Casa Branca, em qualquer eleição que não esta. Trump tem sobrevivido às piores controvérsias mas, neste caso, está a sofrer uma queda nas sondagens, com perdas em estados decisivos, não se tratando ainda de uma derrocada. Sendo o candidato fora do sistema, Trump pode dizer o que quiser, mas esta suposta invulnerabilidade talvez não seja mais do que uma ilusão. O Partido Republicano ficou desfeito com a escolha de um candidato que não respeita os seus valores tradicionais. As críticas tornam Trump mais atrevido e os seus apoiantes mais convictos de estarem a ser manipulados por elites financeiras e políticas. Se cair na tentação de continuar este jogo de casino, Trump arrisca-se a uma derrota humilhante. Caso seja eleito, mesmo após atacar tanta gente, o novo presidente será contido pelas restantes instituições da democracia americana, tendo mesmo assim amplas oportunidades para fazer estragos sérios, criar divisões e frustrar aliados. Como escreve Robert Kagan neste artigo há algo de incrivelmente errado com o candidato republicano, que dispara em todas as direcções, como se fosse um pistoleiro do velho oeste em busca de notoriedade: e só diz coisas tremendas, por exemplo, que os Estados Unidos são um país do terceiro mundo, que Hillary Clinton é o diabo.

 

Terça-feira, 2 de Agosto de 2016

Entraram em vigor novas regras para calcular o imposto municipal sobre imóveis (IMI), pago pelos proprietários, e as alterações são delirantes: os imóveis terão um agravamento de imposto em função da exposição solar e em função das vistas, entre outros elementos pouco objectivos, que introduzem componentes discricionárias na avaliação das finanças. Os socialistas responderam à reacção negativa da direita com a habitual agressividade, à qual juntaram argumentos pouco convincentes (que não há nada de novo, que se pretende introduzir justiça): afinal, os imóveis com boas vistas e boa exposição solar já são mais caros, portanto, tendem a pagar mais IMI; a partir de agora, pagam duplamente. Francisco Sarsfield Cabral observa, neste texto: fracassou o plano do governo de estimular o consumo e pôr a economia a crescer mais depressa; resta a via dos impostos.

 

 

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Mundos com regras próprias

por Luís Naves, em 30.07.16

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Frase

“É possível, dentro das regras europeias, gerir um orçamento com o rigor necessário, sem penalizar os rendimentos das pessoas, sem mais cortes nos salários e pensões e sem carregar a economia com impostos”. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, recusando a recomendação da Comissão de aplicar medidas equivalentes a 0,25% do PIB.

SIC, 28 de Julho de 2016

 

post:

A ironia de Rui a, em Blasfémias, aplicada aos exageros patrióticos dos últimos dias.

 

A semana

Domingo, 24 de Julho de 2016

Foram conhecidos mais pormenores sobre o golpe na Turquia. Um artigo do New York Times explicava que, antes dos acontecimentos, os serviços de informação turcos estavam a recolher informação sobre milhares de adeptos do movimento de Fethullah Gulen, o clérigo que Erdogan acusa de ter inspirado a acção militar. A sede dos serviços de informação foi um dos primeiros alvos dos ataques. Sabe-se agora que o regime preparava uma purga destes elementos, que se lançaram no golpe para impedir o seu próprio afastamento da hierarquia militar. A facção gulenista é acusada de se ter infiltrado em todos os sectores da sociedade, sobretudo nas mesquitas, meios de comunicação, magistratura e forças armadas. Segundo o jornal americano, o poder dos gulenistas era enorme, incluindo no sector financeiro, universidades e funcionalismo público. Enfim, estas informações indicam que a purga do movimento Hizmet de Fethullah Gulen vai certamente continuar, o que não deixará de criar profundas divisões na sociedade turca.

 

Segunda-feira, 25 de Julho de 2016

Sequência de quatro atentados na Alemanha em apenas uma semana provocou nova discussão sobre a vaga de refugiados. Num destes ataques, um sírio matou uma mulher grávida e feriu outras duas; outro caso envolveu um refugiado que teve acesso a explosivos (o homem morreu na explosão e deixou quinze pessoas feridas). Os autores destes actos de violência tinham problemas psiquiátricos, mas cresce a irritação em relação à política de imigração do Governo. Para muitos alemães, permitir a vaga de refugiados foi um erro de Angela Merkel. Os partidos populistas, com destaque para Alternativa para a Alemanha, tentarão aproveitar a onda de descontentamento. Há um clima de insegurança em toda a Europa, mas os políticos e os meios de comunicação continuam a desvalorizar o fenómeno, o que apenas reforça a desconfiança popular. O estado de negação tende sempre a agravar o problema.

 

Terça-feira, madrugada de 26 de Julho de 2016

A divulgação de mails comprometedores sobre a parcialidade do comité nacional democrata marcou o primeiro dia da convenção do Partido Democrata, em Filadélfia. É profunda a irritação dos apoiantes de Bernie Sanders e o escândalo pode ter efeitos significativos na campanha de Hillary Clinton. Apesar dos primeiros discursos de unidade, muitos eleitores à esquerda terão relutância em votar numa candidata que vêem como a personificação de um sistema político corrompido. Clinton escolheu um candidato a vice-presidente que a ala liberal do partido considera demasiado conservador. As sondagens indicam crescentes dificuldades em estados onde a vitória dos democratas devia ser mais fácil do que se adivinha. A eventual eleição de Donald Trump seria um sismo sem paralelo na história do país, mas os políticos parecem continuar a subestimar a rebelião do eleitorado. Parafraseando a famosa tirada do marido de Hillary, (‘é a economia, estúpidos’), desta vez grita-se: ‘é o sistema político, estúpidos’.

 

Quarta-feira, 27 de Julho de 2016

A Comissão Europeia optou por propor sanções zero a Portugal e Espanha, em relação ao procedimento por défice excessivo. Terminou em anti-clímax um episódio onde ninguém ficou bem na fotografia. Perante a opinião pública, a direita foi colada (justa ou injustamente) ao desejo de que as coisas corressem mal, mas livrou-se de culpas nas contas de 2015; o Governo fez grande berraria contra os credores europeus e os falcões de Bruxelas, terá por isso dificuldade em explicar as medidas adicionais que aí vêm e, paradoxalmente, mais facilidade em manter a geringonça a funcionar. A Comissão, por seu lado, frustrou os países que querem maior rigor na aplicação dos tratados, provocando irritação em alguns deles. O presidente da comissão, Jean Claude Juncker, parece ter caído num momento de hipocrisia delirante, ao vangloriar-se que o órgão a que preside tem de ser mais ‘político’: quem o elegeu para extravasar as suas competências? A Comissão é um organismo técnico que defende a aplicação dos Tratados.

Enfim, o Governo de António Costa deixou de ter álibis para justificar os problemas que criou nos primeiros seis meses de governação. Culpar o governo anterior passa a ser um pouco absurdo e acusar Bruxelas de inflexibilidade colide de forma demasiado óbvia com os factos. Não há, a partir de agora, qualquer pretexto para demissões, nem mesmo a recomendação de medidas adicionais para aplicar até 15 de Outubro (num valor de 0,25% do PIB, ou 450 milhões de euros). O próximo orçamento será rigoroso, sobretudo se o novo objectivo de défice para 2016 (2,5% do PIB) não for alcançado, mas não haverá mais reversões de reformas. Os partidos que apoiam o Governo assinam por baixo ou entram em ruptura. É irónico, mas a esquerda, que cantou vitória com as sanções zero, está numa curva apertada: se sobreviver até fim do mandato, é porque continuou o ciclo de reformas iniciado no tempo da troika. Recomendo, a propósito do futuro, a leitura deste excelente texto de Rui Ramos.

 

 

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Realidades paralelas

por Luís Naves, em 23.07.16

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A frase:

“Seria uma aventura referendária (...) e por isso inadmissível para o Presidente da República, seja um referendo sobre a pertença à Europa ou um referendo sobre a vinculação a tratados ou pactos celebrados no quadro europeu”.

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República

21 de Julho de 2016

 

O post

Reflexão sobre Donald Trump e a sua imagem nos meios de comunicação, por José Mendonça da Cruz, em Corta Fitas

 

O livro:

Amor de Salvação, de Camilo Castelo Branco

Este romance de 1864 foi escrito após alguns dos melhores livros de Camilo, como Amor de Perdição ou O Bem e o Mal. O narrador (o próprio Camilo, claro) ouve o relato de uma paixão antiga de um fidalgo que reencontra por acaso, anos depois dos factos. É a história de um adultério, de um amor proibido, com os habituais mal-entendidos e desencontros dos amantes. Camilo parece recear o tema e, após algumas divagações moralistas, o amor pecaminoso transforma-se num labirinto de ódios e termina no tal amor de salvação que redime a alma perturbada do protagonista. A personagem de Teodora é um dos modelos de mulher camiliana: nunca percebemos bem a sua motivação, a infidelidade é demasiado conveniente, não percebemos por que razão ela desiste do amante, é demasiado bela, exerce demasiado poder, é a perdedora, torna-se perversa e perigosa. Talvez esta seja apenas a versão do homem que desistiu do amor e Camilo não se interessa pelo que aconteceu à mulher da história. Naturalmente, está lá tudo o resto: a prosa esfuziante, as frases esculpidas, o ritmo que leva tudo à frente, o génio das novelas de Camilo.

 

A semana

Domingo, 17 de Julho de 2016

Excelente artigo no jornal El Pais sobre o crescente movimento de partidos insurgentes na Europa. Não concordo com todas as escolhas (a inclusão do Fidesz húngaro, como se vê na tabela; e, no caso português, falta o PCP), mas é mesmo assim o trabalho mais completo que já vi sobre este tema. A análise tem aspectos interessantes, por exemplo a constante do anti-americanismo ou o número surpreendentemente elevado de formações que contestam a participação dos respectivos países na Aliança Atlântica. Em relação a Portugal, segundo sugere o gráfico, os partidos que cabem neste conceito de rebelião anti-sistema não estão abaixo de 10% da votação, mas na realidade eles rondam 20%, que é provavelmente a média europeia (temos de somar os comunistas e os bloquistas). A média está talvez a subir, não apenas em Portugal, mas nos outros países analisados. Não parece tão acertada a contabilização no caso dos países de leste, onde a insurreição terá a dimensão típica, em redor de um quinto do eleitorado. Independentemente dos exageros ou erros, tudo indica que as próximas eleições europeias vão criar um Parlamento Europeu pouco interessado na fórmula actual. Já este ano veremos cenas dos próximos capítulos na Áustria e no referendo constitucional italiano. Em 2017, teremos novos episódios, com a Frente Nacional, Geert Wilders e a Alternativa para a Alemanha. Serão os grandes testes desta insurreição e já veremos até onde ela irá.

 

Segunda, 18 de Julho de 2016

A propósito do tema anterior, o Observador publicou esta notável entrevista ao historiador e autor britânico Timothy Garton Ash, onde se encontram reflexões sobre o Brexit, Donald Trump e o enorme movimento que poderemos definir como vaga iliberal. A entrevista inclui uma aparente contradição de Garton Ash: por um lado, o autor está convicto da superioridade do sistema liberal; por outro lado, reconhece que o período de globalização que se seguiu à queda do Muro de Berlim provocou grandes descontentamentos. Ash fala também do que viu durante a campanha do referendo britânico, na sua região de Oxford, ao encontrar pessoas zangadas com o sistema, temendo perder empregos para imigrantes de leste e que criticavam os vizinhos: banqueiros, oligarcas russos e milionários chineses. Na mesma cidade, viviam vencedores e perdedores da globalização. A entrevista sugere que no mundo industrializado emerge uma viragem ideológica empurrada pelo descontentamento dos perdedores. Esta transformação está presente em cada uma das notícias que vemos diariamente, dos atentados do jihadismo à convenção republicana nos Estados Unidos, da emergência de insurreições partidárias à votação no referendo britânico. Também parece que alguns liberais estão a cair na mesma ilusão que no passado embalou os defensores de outras ideologias: que o seu sistema era tão perfeito e vantajoso, que seria o fim da história.

 

Terça-feira, 19 de Julho de 2016

A sequência de más notícias na economia começa a ser preocupante. A incerteza em relação à Caixa Geral de Depósitos não faz sentido e o sistema financeiro parece andar sobre gelo fino, a ponto de o FMI ter incluído a pequena banca portuguesa no lote dos problemas que a organização detectou. No sábado passado, o Expresso noticiava que o crédito malparado, em 2015, seria superior a 33 mil milhões de euros, ou quase 13% do total. O mesmo jornal referia que a poupança das famílias foi negativa pela primeira vez no primeiro trimestre de 2016 (a série tem 40 anos), pois os gastos cresceram dez vezes mais do que o orçamento familiar, uma loucura. Em Maio, o saldo da balança corrente foi um dos mais negativos da Europa (940 milhões de euro, na realidade o pior em percentagem de PIB) e é um susto olhar para o gráfico incluído neste post de Mário Amorim Lopes. Em resumo, tudo isto sugere que os políticos deram os sinais errados à população, que houve excesso de optimismo e falsas promessas de que a crise tinha acabado. O essencial do problema está bem explicado neste texto de Sérgio Figueiredo: o crescimento económico é insuficiente. O Governo queria estimular a economia desapertando o cinto, mas a economia abrandou, não há confiança dos investidores e credores, não há poupança, os bancos estão a perder depósitos, as pessoas desataram a consumir e a balança externa degradou-se. A Europa sabe que as contas públicas foram afectadas por erros desnecessários, a política interna exige que esses erros prossigam, isto é como aquelas bebedeiras eufóricas, que já não param até ao momento da ressaca.

 

 

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A tragédia espanhola

por Luís Naves, em 18.07.16

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Dias de confusão

Era sábado, 18 de Julho de 1936, há 80 anos. As notícias, ainda confusas, começaram a surgir através das agências, indicando que decorria uma sublevação das tropas espanholas em Marrocos. Os jornais levaram vários dias a compreender o que verdadeiramente se passava. Começou assim, pelo menos do ponto de vista da opinião pública portuguesa, uma das mais brutais guerras civis europeias, que duraria três anos. A república espanhola já esperava um golpe das direitas, essa foi mesmo a notícia principal do Diário de Lisboa no dia 16. Era uma questão de tempo antes de haver uma rebelião, mas ninguém se prepara para um conflito prolongado e a guerra civil só foi possível porque o golpe falhou e, de súbito, a Espanha estava dividida em duas zonas, com dois exércitos (enfim, eram três zonas, porque o lado rebelde ocupava dois territórios sem continuidade). Nenhum lado se podia render.

Ao longo da primeira metade do ano de 1936 (o ano da morte de Ricardo Reis), a agitação em Espanha tinha sido tremenda. A 13 de Julho fora assassinado em Madrid um deputado monárquico, Calvo Sotelo, cuja família se refugiou em Portugal, recebida em Lisboa no meio de grande emoção. A figura de maior destaque na estação do Rossio, quando os exilados foram esperar a viúva do deputado e os seus quatro filhos, era indiscutivelmente o general Sanjurjo, infeliz exemplo do homem certo no sítio errado e no momento errado. A liderança da rebelião devia ter sido dele, mas à frente do golpe estavam outros generais, nomeadamente um relativamente desconhecido, Francisco Franco.

Soube-se mais tarde que o Exército Espanhol de Marrocos não teria atravessado o estreito de Gibraltar sem ajuda de uma ponte aérea da aviação da Alemanha nazi e também se sabe hoje que alguns aviões alemães fizeram escala para reabastecimento em território português. Salazar tinha de saber disto: no fundo, ajudou a salvar a rebelião, que esteve à beira de soçobrar naqueles primeiros dias frenéticos, marcados por fuzilamentos sumários dos militares apanhados no lado errado.

 

Acidente em Cascais

A 20 de Julho, Portugal foi palco de um dos episódios cruciais da Guerra Civil de Espanha. O general Sanjurjo, (ao centro na imagem), que vivia exilado no Estoril e era facilmente a figura militar mais prestigiada do lado rebelde, morreu num acidente de aviação que a imprensa portuguesa narrou em reportagens detalhadas. O general tentava chegar a Burgos e embarcou num pequeno avião que, à descolagem, não terá conseguido evitar as árvores no topo da pista de má qualidade, na actual quinta da marinha, em Cascais. O avião caiu, aparentemente por perder a hélice, e o piloto foi projectado da cabina, tendo ficado apenas com ferimentos ligeiros.

O general não teve tanta sorte: ia na parte de trás e levava uma pesada mala (com a farda), que impedia a sua movimentação naquele espaço exíguo. Testemunhas disseram que o avião pareceu levar demasiado peso e não conseguiu, por muito pouco, evitar as árvores, no entanto houve testemunhos contraditórios que não coincidem com esta história plausível, nos quais não se menciona o choque com o arvoredo, mas súbita perda de altitude. Estava um dia esplêndido. O voo para Burgos não apresentava dificuldade e a máquina voara anteriormente sem problemas. O piloto era um dos melhores, mas nunca se apurou se houve erro humano.

O facto é que Sanjurjo não conseguiu sair a tempo do aparelho, ou ficou preso pela mala ou teria ficado contundido na queda, não se sabe. Houve um incêndio, as pessoas que se tinham despedido do general não conseguiram correr a tempo para apagar as chamas. Enfim, Sanjurjo morreu carbonizado.

O Governo português teve dificuldade em demonstrar às autoridades de Madrid que desconhecia em absoluto aquele voo clandestino. O embaraço foi minimizado pela violência das notícias que chegavam de Espanha. Na altura, os rebeldes conspiravam em Lisboa, mas os republicanos tinham a sua presença. Aliás, muitos espanhóis estavam aqui de férias e ficaram retidos durante semanas, antes de conseguirem regressar à respectiva zona. Também havia muitos refugiados que não se metiam em política.

Ao longo da guerra civil de Espanha, Portugal manteria uma relação ambígua com os dois lados do perigoso conflito. Há um exemplo menos famoso dessa ambiguidade: no final do Verão, as autoridades não impediram que se instalassem cerca de mil refugiados num campo do lado de cá da fronteira, nos arredores de Barrancos. Fugiam da brutalidade (das forças marroquinas)  da coluna que acabaria por executar um massacre em Badajoz. No caso de Barrancos, foram todos salvos, transportados de comboio para Lisboa e depois por barco para território republicano, numa altura em que o conflito já era uma matança sem quartel. Houve na altura umas pequenas notícias sobre este episódio, mas foi tudo discreto. Recentemente, foi publicado um livro que conta a história deste campo de refugiados na Herdade da Coitadinha, Contra as Ordens de Salazar, de Pedro Prostes da Fonseca, ajudando a dar maior visibilidade a um tema cuja divulgação tem sido sobretudo académica.

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Semana sangrenta

por Luís Naves, em 16.07.16

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Frase

“Mais injustas do que qualquer sanção são as palavras da dra. Maria Luís Albuquerque”, António Costa, primeiro-ministro, reagindo em Bruxelas à acusação da ex-ministra das Finanças de que o Governo não defendeu o legado recebido. 12 de Julho de 2016

Um post

Suzana Toscano, em Quarta República

Um livro

Pierrot Meu Amigo, de Raymond Queneau

Sentido de humor delirante, diálogos precisos, numa linguagem cheia de invenção; a história é simples e as personagens têm complexidade e um pouco de loucura. O ritmo da prosa é alucinante. Como a França era engraçada. Apesar de ter sido publicado em 1942, este romance não tem referências políticas e mostra uma cultura optimista e alegre, que celebra a vida.    

 

Domingo, 10 de Julho

Portugal venceu a final do campeonato europeu de futebol, num jogo repleto de emoção e drama, com um suplemento de alma que parecia improvável. Fica para a História a imagem das lágrimas de dor e alegria de Ronaldo, fica na nossa memória a tenacidade do seleccionador Fernando Santos, que durante semanas foi vergastado por mil tudólogos. É bem ténue a linha que separa a vitória da humilhação: muitos observadores já afiavamas facas para criticar todos os que deram o litro em campo, incluindo o extraordinário Cristiano Ronaldo. Ironia das ironias, o golo da vitória foi marcado pelo ‘patinho feio‘ da equipa, Éder, aquele que ninguém achava à altura dos nossos longos pergaminhos de derrotas morais. Éder desmentiu os sábios da farinha amparo e ainda nos deu uma vitória que levará anos, talvez décadas, a ser repetida.

 

Segunda-feira, 11 de Julho

Portugal celebrou nas ruas, onde se acumularam multidões eufóricas. Buzinas, cânticos, danças, alegria, o esvoaçar de bandeiras, a explosão da cor no dia quente. Este povo, que as elites tanto subestimam, teve sempre nos momentos de adversidade a mesma coragem e resistência que a sua equipa de futebol mostrou em campo, quando tudo parecia perdido. Neste texto, o historiado Rui Ramos, notou com lucidez que assistimos ao “sequestro da selecção” pelos políticos, espectáculo embaraçoso que teve momentos de algum ridículo e mostrou o “desespero do regime”. Está a tornar-se um hábito: aquilo que a esquerda tanto criticou nos tempos do fascismo, os famosos três F (de fado, futebol e Fátima) são agora uma banalidade praticada pelos mandarins da nova ordem.

 

Terça-feira, 12 de Julho

Portugal ficou sob ameaça de sanções da União Europeia. Negando o óbvio, entre nós prossegue a operação de mistificação da opinião pública. O actual Governo tenta culpar o anterior por não ter cumprido o défice de 2015 e afirma que não fará alterações de política, mas as autoridades europeias exigem medidas. A coligação PSD-CDS desbaratou a oportunidade de sairmos do procedimento por défice excessivo, onde nos encontramos por nunca termos atingido o objectivo de 3% do PIB no défice orçamental, no entanto as sanções não resultam de duas décimas de PIB (o que seria pouco mais de 300 milhões de euros), mas do afastamento continuado da trajectória de redução. O Governo de António Costa adiou pagamentos, subestimou o abrandamento económico e aumentou a despesa. Portugal financia-se nos mercados e estes estão a reagir com crescente desconfiança à reversão das reformas. Perante a ameaça de sanções, o primeiro-ministro terá de escolher entre austeridade e risco de bancarrota; os partidos que o apoiam podem aceitar medidas duras ou avançar para uma ruptura que cortará o PS em pedaços. Isto seria o dilema racional, mas há sempre a hipótese de querer bater o pé à Europa, estratégia que deu tão bons resultados na Grécia.

 

 

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Anti-europeísmo primário

por Luís Naves, em 14.07.16

Em bombardeamento diário, está a ser criado um clima anti-europeu, com ajuda preciosa do Bloco de Esquerda. Ontem, na TVI 24, a líder do BE, Catarina Martins, voltou a falar em referendo, mas o texto bem estudado patinou quando lhe perguntaram o que aconteceria se a resposta dos eleitores fosse ‘sim‘. Catarina Martins chutou para canto. Na realidade, a resposta seria simples: se Portugal decidisse abandonar a moeda única, as poupanças eram destruídas em poucos dias, os bancos rebentavam, haveria inflação e as dívidas passavam a ser incobráveis, incluindo as hipotecas das nossas habitações. Se Portugal saísse da UE, perdia acesso ao mercado único ou deixava de participar na legislação, perdia os fundos comunitários e tornava-se um país subdesenvolvido.

O referendo é um tigre de papel, mas o BE ganha com esta táctica e sonha com um cenário de vitória do PS e de maioria de esquerda que dispense os comunistas na futura coligação de poder.

Esta entrevista da deputada Mariana Mortágua à revista Sábado pisa na mesma tecla de anti-europeísmo primário: “A União Europeia está a passos da desintegração, está em degradação profunda. Quase em putrefacção”. Será isto apenas desejo confessado, entusiasmo juvenil ou os bloquistas começam a delirar com a própria retórica? As palavras soam bonito, mas a imagem transmitida é falsa. A UE não está em putrefacção nem vai desaparecer na próxima esquina. Um voto em referendo contra o Tratado Orçamental obrigava o País a sair da união. Os Tratados ratificados não se negoceiam em posições de fraqueza, dizer o contrário é ingenuidade ou, então, a intenção desta conversa é outra.

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O que pensam os alemães

por Luís Naves, em 08.07.16

Descontando a inaturável condescendência no tom, este artigo da revista Der Spiegel (em inglês) permite compreender a visão dos governantes alemães em relação ao futuro da Europa depois do Brexit. O autor do texto, Christoph Schult, considera que a saída do Reino Unido apresenta oportunidades para os restantes parceiros e também acredita que haverá “más notícias vindas do Reino Unido”, permitindo acabar com qualquer possível efeito dominó de saídas. Em resumo: não se espere benevolência no divórcio.

Segundo esta visão alemã, o Reino Unido deixa de poder bloquear avanços de integração económica, o que levará a zona euro a um “governo económico”, com um “ministro das Finanças” capaz de controlar “um orçamento independente”. Não percebo a que se refere o autor nesta palavra ‘independente’, mas a ideia de haver cada vez maior controlo sobre os orçamentos nacionais explica a mudança que ocorreu nas últimas semanas em relação às sanções. É provável que os dirigentes europeus decidam agora aplicar os Tratados em todo o seu esplendor, sendo esta uma possível consequência imediata do Brexit. Portugal e Espanha são os países em procedimento por défice excessivo que não conseguiram corrigir os desvios orçamentais, são também os primeiros a cair sob a alçada do maior rigor. A ideia está explícita neste artigo de El País (repare-se na citação entre aspas do comissário português Carlos Moedas, que não encontrei na nossa imprensa; e complete-se a leitura com este texto, que também explica o mecanismo e actualiza a informação).

Regressando a Der Spiegel, é curioso o que se escreve sobre os avanços da integração em política externa e de segurança: quartel-general unificado para missões militares da UE, decisões por maioria na política externa, uma verdadeira força de controlo das fronteiras, além de política comum de asilo, insinua-se também a possibilidade de criar mais sistemas de cooperação reforçada.

Sem o Reino Unido, o equilíbrio de poder muda na União Europeia. A Alemanha vive obcecada com o medo do seu isolamento e tudo fará para reforçar a ligação a França, Itália e Polónia, as três potências com quem tem maior proximidade geográfica e ligações económicas. Não será tarefa fácil: é preciso que Marine Le Pen não vença as presidenciais francesas da Primavera, que o sistema financeiro italiano não entre em colapso e que o grupo de Visegrad liderado pela Polónia modere a sua rebelião em relação ao que fazer na crise migratória. O próximo ano será frenético: Berlim tentará juntar as alianças de que não prescinde, será dura no divórcio com os ingleses e vai acelerar a reparação da zona euro, onde perdem o lugar todos os países que se recusem a cumprir as regras do clube.

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Crónica demasiado pessoal sobre o velho Tempo

por Luís Naves, em 06.07.16

A morte de um jornal não tem a gravidade de uma morte humana, mas é à sua maneira um grande abalo na vida das pessoas e na memória das sociedades. Lembro-me daquelas semanas sombrias, quando O Tempo fechou. Talvez fosse inevitável, mas nunca soube a verdadeira razão do declínio a que assisti. É daquelas coisas que não se esquecem: só se falava do outro jornal que também fechara portas por esses dias, o Diário de Lisboa, e o encerramento de O Tempo era um notícia envergonhada e minúscula, como se tivesse falecido aquele familiar embaraçoso cujo nome não devia ser mencionado. Era ainda um jovem irreflectido, mas julgo que recebi a minha primeira grande lição sobre os dois pesos e duas medidas que regem a política.

Quando entrei em O Tempo, dois anos antes, em 1987, já na rampa inclinada, a redacção era um lugar estranho, juntando jornalistas com ideias diversas, de várias gerações e diferentes pancadas. Não havia facções definidas, nem rivalidades, nem me recordo que houvesse as maldades que depois encontrei em outros ambientes, pelo contrário, existia uma espécie de alegria ingénua e contagiosa. O director e proprietário, Nuno Rocha, era um homem elegante e alto, de sorriso fácil, charmoso e simpático, que tratava toda a gente da mesma maneira. Acho que gostou de uns textos que escrevi à experiência (obrigado, Fernando Sousa, pela oportunidade) e decidiu contratar-me. Entrei na mesma semana em que começou a sua brilhante carreira de jornalista o Pedro Camacho, mas ao contrário desse meu outro amigo, julgo que fui um erro de avaliação de Nuno Rocha, que viu em mim um talento inexistente.

 

A minha vida teria sido diferente

Se não tivesse entrado naquela altura na redacção de O Tempo, tudo para mim teria sido diferente. Em reportagem para o jornal conheci o amor da minha vida, pode parecer pedante ou piroso, mas é a pura verdade: sou um caso raro desse género de acontecimento e tratou-se de circunstância pouco profissional, pois o jornalista não se deve envolver demasiado no assunto que observa, embora não acredite no distanciamento ou no jornalismo que se demite de também sentir o mundo. Como já disse, fui um erro de casting.

Os outros jornalistas daquela redacção anacrónica ensinaram-me quase tudo o que aprendi na profissão que pratiquei durante 25 anos e certamente tentaram transmitir-me muito do que nunca cheguei a entender dela. Eram repórteres experientes e sabiam da minha falta de jeito, mas o Nuno Rocha talvez não se tenha dado conta: na praxe do caloiro (juro, isto é verdade) enviaram-me em reportagem à sede da NATO, em Bruxelas, e escrevi duas páginas de banalidades que encantaram o director. Nessa viagem, só havia craques enviados por outros jornais (lembro-me do Afonso Camões e do Miguel Gaspar); o Fragoso Mendes, do DN, perguntou-me há quanto tempo era jornalista e eu, parvo, disse a verdade, desde a semana passada, e o Fragoso, filosófico: ‘Está tudo doido’. Talvez a loucura possa ser explicada; como a redacção era pequena, escrevíamos sobre tudo e mais alguma coisa. Que melhor escola podia existir?

 

Vítima do Cavaquismo que defendera

Pedro Correia conta nesta belíssima crónica como era a redacção de O Tempo no início dos anos 80 e escreve um belo texto de memória sobre Nuno Rocha, que faleceu ontem, aos 83 anos. Também é muito justa esta evocação assinada por João Cândido da Silva: reconheço imediatamente o retrato de um jornalista que marcou toda uma época. Mas eu tive menos sorte; assisti aos dois últimos anos, de declínio e morte de O Tempo.

 

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