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Quem perde, ganha?

por José Gomes André, em 08.10.15

Um Governo PS-CDU-BE tem toda a legitimidade constitucional. Se os partidos encontrarem pontos comuns fundamentais e estabelecerem um acordo podem construir uma solução estável, formando um Governo apoiado por uma maioria absoluta no Parlamento.
Não é a questão legal que me atormenta. É a questão política, moral até, se quiserem. Se o PS tivesse ganho as eleições, acharia natural, até desejável. Mas não ganhou. A solução acima descrita seria encabeçada por um candidato que PERDEU as eleições. É uma perversão do espírito democrático. Num país com elevada abstenção e um crescente divórcio entre as pessoas e a política, a violação de um princípio tão básico (quem ganha governa) tem uma aparência tão errada, tão injusta, que não poderá deixar de provocar consequências graves na percepção democrática, política, social e moral dos cidadãos comuns.

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Eleições - 5 notas

por José Gomes André, em 05.10.15

1. A Coligação perde votos e mandatos, mas obtém uma vitória impensável há alguns meses atrás. Depois de 4 anos de cortes drásticos e sacrifícios violentes, é pouco menos que um milagre eleitoral.

2. O PS tem uma derrota histórica. Não capitalizou o voto de protesto e perdeu nos grandes centros urbanos. Revelou uma estratégica errática (ora virava à Esquerda, ora apelava à “estabilidade”), fez uma campanha amadora, está tomado por um sector radical (que chegou ao poder através de um “golpe de Estado” interno) e tem como líder um nado-morto político.

3. O BE é um vencedor inequívoco. Beneficiou da renovação do partido, do fim da excêntrica “liderança bicéfala”, do bom trabalho parlamentar, do efeito Mortágua e dos disparates do PS.

4. Livre, Agir e PDR são coqueluches dos media mas não valem um chavo eleitoral. Ficaram atrás do PAN, que mostra como um movimento social, implantado no terreno e bem organizado (mesmo se ignorado pela comunicação social), pode conquistar efectivamente votos.

5. Embora em linha com a maioria das democracias ocidentais (não entremos em pânico), a abstenção é muito elevada. As pessoas parecem não perceber que a democracia não é um dado adquirido nem definitivo, mas uma frágil conquista que importa alimentar e preservar.

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Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?

por José Gomes André, em 02.04.15

 

Não me interessa o folclore do Natal. Esta é a noite mais solene do cristianismo, talvez mesmo a mais solene da história. Quando Cristo, sabendo do seu destino fatal, exprime a sua dor humana, demasiado humana, em revolta contra o trágico evento que o espera. Há muitas coisas admiráveis sobre a Última Ceia, a lavagem dos pés, a instituição da Eucaristia e o beijo de Judas, mas nenhuma me parece tão importante quanto a dúvida que assola Jesus (“Pai, afasta de mim esse cálice!”), Deus feito homem – e portanto apaixonado pela vida dos homens e pelos homens. Sob a aparente serenidade do que se seguirá, habita em Cristo um desejo de resistência contra o absurdo da morte, que culminará, horas mais tarde, na mais desesperada e brutal das frases bíblicas: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Citando um salmo do Antigo Testamento, opera-se a ligação entre o antigo e o novo, mas é de um homem dilacerado que se trata ainda, face a uma morte que não quer aceitar, mas da qual não pode fugir, em nome da causa que defende. Em todas as Páscoas penso na luta desse homem – e do que ela tem para nos ensinar sobre as nossas próprias lutas. 

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O homem que sonhava ser pássaro

por José Gomes André, em 10.02.15

Um dia, Chuang Tzu sonhou ser uma borboleta, voando alegremente entre as flores do jardim, sem saber que era Tzu. Quando acordou subitamente, na pessoa que sempre imaginara ser, já não podia dizer com certeza se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta sonhando que era um homem. Lembrei-me desta história famosa ao ver “Birdman”, um filme que retoma este paradoxo a partir de uma impressionante rede de referências: a “peça dentro da peça” de Hamlet, o “quadro dentro do quadro” de Malevich, o “filme dentro do filme” de “Fala com Ela”, questionando o sentido da representação ("ser si mesmo noutro"? ou “ser outro em si mesmo”?) e, em última instância, levantando o maior mistério de todos: o que diabo é a realidade?

Senão, vejamos: o filme conta a história de uma peça cujo personagem principal vive uma crise de identidade, pois perdeu o amor e o reconhecimento que antes usufruíra; tal é o drama vivido pela personagem do próprio filme, um actor anteriormente famoso e agora velho e esquecido, representado por Michael Keaton, um actor anteriormente famoso e agora velho e esquecido, num filme sobre o teatro, uma arte anteriormente famosa e agora velha e esquecida, que usa uma técnica ilusória (um falso plano-sequência) para nos questionar sobre a linha ténue que separa o real e o irreal, a fama e o esquecimento, a glória e o fracasso.

E afinal de contas, que linha é essa? Como saber, recordando Descartes e Philip Dick, se não estou preso num sonho que julgo ser real? Como posso efectivamente saber que este mundo não é uma ilusão de alguém, que este eu que julgo real não é afinal um sonho de mim próprio num outro mundo, numa outra época?

Aprendemos, desde cedo, a separar o mundo do “faz-de-conta” da “realidade”. Mas neste mundo de simulacros, de realidades virtuais, redes sociais, ídolos com pés de barro, o que é ilusão ou realidade? Não são poucos os dias em que olho pela janela e desejo, ansiosamente, que talvez eu seja afinal apenas um pássaro, esvoaçando alegremente sobre Central Park, que sonha ser este homem que vos escreve.

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Deus e a América

por José Gomes André, em 02.02.15

Trata-se de um tema muitíssimo estudado, sobre o qual existem milhares de livros e artigos, com análises sobre o peso social, político e cultural que a religião desempenha nos EUA, e comentários acerca da natureza religiosa ou irreligiosa da Constituição americana. Neste complexo aglomerado, sobressai contudo um pequeno episódio, que dá conta como poucos do que realmente esteve em causa quando os Pais Fundadores criaram a República americana: a ideia que a ordem constitucional deve remeter-se ao silêncio no domínio da religião, a qual cabe apenas à consciência dos indivíduos. Conta a lenda que, pouco depois de deixar a Convenção de Filadélfia, Alexander Hamilton (participante na elaboração da Constituição) foi abordado por um pastor protestante em Nova Iorque, que lhe perguntou por que motivo a Constituição não aludia à existência de Deus. A resposta de Hamilton vale por todos os tratados deste mundo: “Indeed, sir, we forgot it”.

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Como proscritos

por José Gomes André, em 12.12.14

A maioria das pessoas gosta do Natal porque pertence a dois grupos plenamente reconciliados com a época: os crentes (que o festejam com maior ou menor religiosidade) e os secularistas (que se apropriaram do evento religioso, conferindo-lhe contornos puramente laicos e transformando-o numa grande celebração do real, da matéria e – curiosamente – da família). Os primeiros constroem presépios, vão à Missa do Galo e recolhem-se em oração. Os segundos invadem os centros comerciais, embrulham e etiquetam presentes, ornamentam árvores e enviam MMS com renas e céus estrelados.

Resta um pequeno grupo, de quem Dante parecia falar quando escreveu “os lugares mais quentes do Inferno estão reservados para aqueles que, numa época de grandes desafios, mantenham a sua neutralidade”. Falta-lhes a crença para celebrarem o nascimento de Jesus e o entusiasmo materialista para festejarem o mito da modernidade. Sobra-lhes, pois, o Inferno – não a punição numa vida futura a que aludia o mestre florentino, mas o castigo de viver todos os dias de Dezembro como proscritos.

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Perpétuo Movimento

por José Gomes André, em 04.12.14

Nas últimas semanas tenho estado a escrever um artigo particularmente espinhoso. Tarefa entusiasmante, mas por vezes monótona e fatigante. Várias vezes pensei como seria quando terminasse: como festejaria a última frase, a última correcção, o envio do texto. Imaginei desde um cenário de euforia contida (que envolveria um copo de Martini e o último quarteto de cordas de Beethoven) até um festejo desmedido (que podia passar por uma noite bem regada).
Terminei hoje. Escrevi a última frase, fiz a última correcção, enviei o texto. Não senti nada. Talvez um bocadinho de sono. E fome. Dois problemas que se resolveram facilmente. Onde estava o desejo de festejar o feito? Onde estava o Martini, o quarteto de cordas? Nem sequer uma sensação de alívio. Nenhuma vontade, nenhum alento especial.
Estranha, esta forma que a vida tem de nos roubar o entusiasmo, e, ao mesmo tempo, de nos impelir a prosseguirmos.

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Proibido comer

por José Gomes André, em 21.11.14

O nutricionismo é uma notável invenção do século XX, mas corre o risco de ser uma praga do século XXI. À força de sermos todos muito saudáveis, e de dosearmos e seleccionarmos os produtos ideais para a nossa dieta quotidiana,tomámos a via sacra do niilismo alimentício. Não há um santo dia em que não apareça um programa televisivo, um debate na rádio, ou uma reportagem no jornal sobre os “malefícios” de uma dieta “inadequada”, inevitavelmente acompanhados de uma lista de “produtos a evitar”. E é aqui que reside o busílis da questão.
Os doces têm muito açúcar. O pão engorda. O azeite e a manteiga aumentam o colesterol. O leite pode causar pedras nos rins. Os iogurtes e as natas também. Os frutos secos têm valores calóricos excessivos. Os legumes provocam soltura e, em alguns casos, diarreia. Os ovos podem estar contaminados por salmonelas. Enchidos e salgados, é melhor nem falar. Pastelaria diversa? Voltamos ao início. As carnes vermelhas têm demasiada gordura. A das vacas pode estar louca. Mas, pelo sim, pelo não, é melhor evitar frango e peru, por causa da gripe das aves. Fruta verde faz mal aos intestinos. Grão, feijão, ervilhas e castanhas são de difícil digestão: abstenha-se. Azeitonas e ameixas? Hemorróidas. A comida japonesa – aparentemente uma boa alternativa – tem níveis excessivos de mercúrio (e isso não pode ser bom). O arroz branco tem falta de nutrientes. E por causa da concentração de gordura, os fritos são um horror; os assados fazem crescer a conta do gás e os grelhados enchem a casa de fumo.
A continuar assim, ainda acabamos todos a comer raízes.

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Recordar Constant

por José Gomes André, em 17.11.14

Um dos factos perturbantes do nosso tempo é a cisão entre a liberdade privada e a liberdade pública. A primeira esmaga completamente a segunda. Entre tanta tecnologia, afazeres profissionais, relações amorosas, amizades e "eventos", entre tantas actividades promotoras do "meu" espaço, que tempo sobra para acções verdadeiramente públicas? Que energia resta para um exercício cívico, na qual eu realize a minha individualidade como cidadão-do-mundo? Que espaço sobra para a política, para acções sociais, para o debate colectivo, para discutir as nossas prioridades como comunidade?

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Fury

por José Gomes André, em 11.11.14

Um dos mais preciosos - e simultaneamente mais trágicos - factos do nosso tempo é o de vivermos numa Europa onde (quase) ninguém teve a experiência da guerra. Por isso ela é tantas vezes invocada em vão, pois desconhecemos os seus horrores, a sua miséria, a forma como conduz a uma absoluta desumanização. Nunca como hoje fomos tão indiferentes à nossa própria memória. E como diz o célebre poema de Santayana, aqueles que não conhecem a história estão condenados a repeti-la.

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Interstellar

por José Gomes André, em 10.11.14

Dizia Kant que todos os organismos estão destinados a desenvolver as suas disposições originais até à sua máxima potencialidade. No caso do homem, esse desenvolvimento ocorrerá, contudo, apenas na figura do género humano, e não no indivíduo humano. Pela nossa insuperável finitude, não é possível nem realizar em cada homem a potencialidade da humanidade, nem tão-pouco vislumbrar a totalidade desse progresso. Somos apenas uma ínfima parte do todo em movimento, uma peça de um puzzle de milhões de peças. Não o podemos apreciar, nem compreender, mas na nossa ausência o puzzle ficaria incompleto. A história do homem é o processo gradual de construção desse puzzle, repleto de avanços e recuos, de falhas, de tragédias e de miséria, mas sempre em realização, sempre em busca de uma completude por vir.

Cada homem sente-se perdido na sua pequenez, na sua insignificância, incapaz de vislumbrar o processo, inábil para justificar a sua própria razão de ser. E no entanto, ele é indispensável ao todo. Cada sacrifício, cada decisão, cada acto conta. Cada ser humano é imprescindível ao cumprimento do género humano. Pois não é no indivíduo que a humanidade se realiza, mas é através dele que ela genuinamente se cumpre. 

No final da “Guerra dos Mundos”, ouvíamos Morgan Freeman dizer “nenhuma morte foi em vão”. "Interstellar" completa essa frase, dizendo-nos “nenhuma vida é em vão”. Tudo o que fazemos importa. Todos os homens importam. "Interstellar" é um grito de fé na humanidade, um grito em defesa da dignidade humana. Que ecoe bem alto – é o meu desejo.

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Eleições Intercalares nos EUA - cinco notas

por José Gomes André, em 05.11.14

1. Foram ontem escolhidos os 435 membros da Câmara dos Representantes, 36 lugares no Senado e vários Governadores. Os Republicanos venceram em toda a linha, conquistando o Senado e uma claríssima maioria na câmara baixa. Não podemos falar em surpresa. As intercalares são habitualmente “eleições de protesto”, que penalizam o Partido afecto à Presidência, e estas não foram excepção. Acresce que a maioria das disputas mais renhidas decorreu em Estados conservadores e que muitos dos Democratas agora em risco beneficiaram do “efeito Obama” em 2008 para conseguirem uma então improvável vitória.

 

2. Porém, a amplitude da vitória Republicana foi assinalável, implicando um reforço na Câmara dos Representantes (o mais elevado desde a 2ª Guerra Mundial) e triunfos em Estados tendencialmente Democratas (Governadores em Maryland, Massachusetts, Illinois; Senadores no Colorado), que mostram não apenas uma renovada confiança do eleitorado no GOP, como a manifestação de claro repúdio pelos Democratas, que dominam a Casa Branca desde 2008 e o Congresso desde 2006. Com efeito, apesar dos dados económicos mais recentes serem animadores, o eleitorado norte-americano confessa-se globalmente desiludido com o Presidente Obama e não hesitou em “puni-lo”, mesmo que indirectamente.

  

 

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Praxes - "miséria humana"

por José Gomes André, em 06.10.14

Claro que a tontinha da Clara Ferreira Alves tinha que dizer disparate. O que está antes é, todavia, brilhante...

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O Ouro do Reno

por José Gomes André, em 03.10.14

A minha cidade alemã preferida? O Reno. Se há ainda na Europa um lugar que seja o espelho da civitas romana – o espaço onde os cidadãos se encontravam e praticavam a sua condição de habitantes do Império – esse lugar é o Reno, onde conflui todo o complexo tecido histórico, cultural e social que caracteriza a Alemanha. 

É o Reno que contorna a Floresta Negra e assinala a fronteira com a Suíça e a França, na solarenga e primaveril região de Baden-Württemberg, onde o céu azul, as casas brancas e o azeite são o orgulho das gentes. É o Reno que atravessa os palcos das grandes lutas religiosas – a partir das quais nasceu verdadeiramente a Alemanha como nação – banhando Speyer e Worms, onde o Protestantismo deu os primeiros passos institucionais. É ainda o Reno que irrompe orgulhosamente no Palatinado, onde os romanos encontraram solos ricos, margens firmes e um rio navegável pelo qual fluiria o seu comércio – assim nascendo Mogúncia (Mainz) e Koblenz. E por fim, é o Reno que dá vida aos grandes centros políticos, culturais, intelectuais e financeiros do Oeste alemão, iluminando as de outro modo cinzentas cidades de Bona, Colónia e Düsseldorf.

Nos entretantos, este é o rio de todos os mitos, onde cada monte escarpado conta uma história, onde cada curva acentuada esconde uma tragédia, onde cada pequena vila – orgulhosamente beijando o rio – alberga um herói que Wagner haveria de celebrar. Os castelos que se erguem nas suas margens transportam-nos para antigos romances de cavalaria, com nobres príncipes, belas duquesas e perigosos dragões. Sabemos que Lohengrin nos aguarda, que Rolando chorou aqui, e receamos ainda o poder sedutor do Lorelei. E somos encantados pelas suas assombrosas encostas, o verde das suas margens, o ocre dos telhados que distinguem as incontáveis aldeias por ele banhadas, as centenas de pontes que homens esforçados erigiram ao longo dos séculos – tentando domar um rio que, na verdade, sempre foi insubmisso e rebelde. Como é ainda hoje.

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Perdidos no labirinto

por José Gomes André, em 20.06.14

O Partido Popular Europeu reuniu-se no Algarve para discutir “crescimento e emprego”, procurando anunciar um novo ciclo na política europeia. Após anos de austeridade, é altura de enviar uma mensagem de esperança aos deprimidos povos europeus, ainda que ninguém saiba qual a receita milagrosa capaz de reactivar o mercado europeu e dinamizar as débeis economias da periferia, já para não falar de problemas crónicos como a crise demográfica, a imigração ilegal ou o futuro da Segurança Social.

A verdadeira agenda dos conservadores deverá pois concentrar-se em desafios mais prementes. Um deles é saber como lidar com o novo mapa político da União Europeia, mais fragmentado do que nunca e habitado por um número crescente de nacionalistas xenófobos, eurocépticos tradicionais e esquerdistas radicais, cujas intenções são bem conhecidas: enfraquecer (ainda mais) o que resta do projecto europeu.

A eleição do próximo Presidente da Comissão Europeia adquire por isso grande preponderância. O PPE encontra-se porém num complexo labirinto, em parte por si gerado: prometeu que Juncker seria o escolhido caso vencesse as eleições, mas uma vez conhecido o resultado, regressou ao velho jogo de bastidores da política europeia, onde dominam os egos, os números de circo e a estrita defesa dos “interesses nacionais”. Como acaba esta história? Em mês de Mundial, provavelmente ao jeito do famoso ditado futebolístico dos anos 90: são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha – ou seja, a escolha de Merkel...

[publicado no Diário Económico]

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A noite em que todos perderam

por José Gomes André, em 27.05.14

Com excepção da CDU e de Marinho Pinto, todos perderam. O PS obtém uma vitória curta, face às expectativas de congregar o voto de protesto contra a coligação PSD/CDS. A Direita sofre uma derrota histórica, que poderá abalar os alicerces do Governo (vem a caminho uma remodelação ministerial?). O Bloco continua a via da implosão. Perdeu as causas fracturantes para o PS e ao rejeitar ser hipotético parceiro dos socialistas tornou-se politicamente irrelevante. A abstenção atingiu valores elevadíssimos, resultado de um crescente (e preocupante) desânimo popular com a política (e com a Europa!) e do desgaste dos partidos tradicionais. O Governo sai fragilizado, mas a oposição não recolheu combustível suficiente para apelar de forma convincente a eleições antecipadas. A “força da rua” mostra-se nos “media” e nas redes sociais, mas o país real parece sobretudo amorfo e indiferente.

A CDU obtém um resultado notável, mas o seu discurso ideológico continua demasiado radicalizado para poder figurar como eventual parceiro de governação para o PS (e o facto de os comunistas terem feito campanha agressivamente contra os socialistas só adensou o abismo entre ambos). Marinho Pinto consegue a proeza de ser eleito para o Parlamento Europeu sem que se lhe conheça uma ideia sobre a Europa. Os eurocépticos ainda são irrelevantes em Portugal, mas o poder mediático do populismo já se faz sentir. 

[publicado ontem no Diário Económico].

 

P.S. A euforia de Seguro e Assis não passou de uma encenação para tentar vender a imagem de uma Direcção ganhadora. Correspondeu na verdade a um autêntico "canto do cisne". A vitória foi curta (como qualquer pessoa notou desde logo). Segue-se pois uma guerra civil no PS...

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Diário de campanha

por José Gomes André, em 21.05.14

Selfies (ainda por cima falsas, num cartaz que apela a uma "nova confiança"). Os outros que são um vírus. Outros ainda que são nazis. Sócrates, três, quatro, cinco vezes. Os temas que deviam ser europeus e por isso fala-se das pensões e do Governo. E eu que vou acabar com a pobreza. E nós que salvámos o país do apocalipse. E o outro que nunca mais sobe impostos, nem que a vaca tussa. E o surf no Secundário. E umas arruadas sem gente. E umas piadas sem graça. E uns que são muito democráticos e patrióticos, e os outros que são ainda mais democráticos e ainda mais patrióticos. E as sementes, nos tempos de antena, ao lado do tribunal europeu dos direitos dos animais, uma urgência planetária. E uns figurões que dantes eram do Partido X e agora apoiam o Partido Z, e que no futuro serão independentes, ou dependentes, desde que a coisa dê tacho. E uns relógios em contagem decrescente. E o escudo que salvava a malta num ápice. E o protectorado que agora é soberano outra vez (numa campanha para a União Europeia!).

 

Já sabemos que as campanhas eleitorais são poços sem fundo de demagogia e fait-divers. Mas desta vez estão a abusar. Na noite de 25 de Maio, os agentes políticos irão manifestar o seu "enorme pesar pela elevada abstenção". Pena que não estejam a fazer nada para a evitar.

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Blogue da semana

por José Gomes André, em 30.03.14

N'O Diplomata, Alexandre Guerra continua a fazer um trabalho notável de análise das grandes questões na área das Relações Internacionais. Deixo como exemplo um notável texto sobre a Rússia, a partir de uma comparação entre Ivan "O Grande" e Vladimir Putin. É o blogue da semana.

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A praxe não tem lugar num mundo civilizado

por José Gomes André, em 25.01.14

A defesa da praxe recorre aos habituais argumentos: serve para “integrar” e “facilitar o entrosamento”, e em caso de excessos torna-se reprovável e os seus autores devem ser punidos. Nada mais falso. O equívoco reside nesta dicotomia, que define os contornos de uma praxe “boa” e de uma praxe “má”. A primeira procuraria familiarizar os indivíduos com a instituição a que agora pertence; a segunda utilizaria meios violentos para o atingir.

 

Trata-se de uma mistificação. A essência da praxe não é a “integração”, mas sim a humilhação. A praxe não existe para introduzir um indivíduo num contexto social harmónico ao qual ele aspira pertencer, mas sim para clarificar desde logo a relação de forças que existe nesse mesmo contexto, ou seja, para tornar evidente que o noviço se encontra na base da estrutura hierárquica da instituição, devendo submeter-se às condições impostas pelo topo da pirâmide. Evitando uma longa e penosa explicação teórica destas circunstâncias, a praxe manifesta, num instante físico conciso e intenso, os contornos exactos dessas regras, instaurando uma relação imediata entre o senhor e o servo, o dominador e o submisso.

Não se trata de um ritual iniciático, cujo móbil é o desejo de inscrever e assimilar. A praxe é uma cerimónia puramente exclusiva, que define os espaços interditos ao aspirante, confinando-o às rígidas fronteiras da hierarquia imutável da instituição. Na verdade, só o tempo permitirá a ascensão na pirâmide, embora apenas com o intuito de cristalizar a ordem pré-definida. Em rigor, a praxe é o mais acabado exercício de mumificação que as sociedades modernas engendraram. Uma sociedade civilizada devia erradicar este fenómeno puro de exclusão, esta coacção psicológica necessariamente violenta, esta forma de opressão perpétua. Num mundo esclarecido, não há lugar para a praxe. Sem excepções.

[Escrevi este texto em 2007 e já o republiquei duas vezes. O "Dux" não lhe ligou nenhuma. Talvez tenha melhor sorte desta vez]

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Nas últimas duas décadas, a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), entidade pública financiada pelo Governo português e por fundos europeus, tem feito um esforço notável de promoção da investigação em Portugal, através da concessão de bolsas individuais, projectos de investigação, centros científicos, etc. O número de Doutorados em Portugal cresceu exponencialmente, aproximando-se dos números europeus. Nos últimos dois anos, a contenção orçamental obrigou a uma compreensível estagnação nos fundos alocados, mas permitindo ainda assim a continuação de uma aposta clara na ciência num país quase analfabeto. 

 

Tudo isto desabou nos últimos dias. A atribuição de bolsas individuais levou a cortes escandalosos e inexplicáveis. Bolsas de Doutoramento, durante anos atribuídas a mais de 1500 investigadores, desceram para 729 este ano (já incluindo os novos "Doutoramentos FCT"). E as bolsas de pós-doutoramento, estabilizadas em 700 por ano desde 2007, desceram para 238 este ano. O que projectam estes números? Que estratégia encerram? Que futuro permitem adivinhar?

 

Pires de Lima explica: "não é possível alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real"Estas declarações são todo um programa. Visam estabelecer uma dicotomia entre "fazer" e "pensar", dividir o mundo entre quem "produz" e quem "reflecte", quem "faz avançar" e quem "assiste", quem "empreende" e quem "se resigna", quem "cria" e quem "observa". Ficou por dizer que os investigadores não-produtivos (ou seja, todos os que trabalham nas ciências humanas e sociais e boa parte das ciências exactas teóricas) são uns preguiçosos, apreciadores do sofá. Mas lá chegaremos. 

 

Em 1822, há quase duzentos anos, escreveu James Madison, 4º Presidente dos EUA: "Um governo popular, sem informação popular, ou os meios para adquiri-la, não é senão um prólogo a uma farsa ou uma tragédia, ou talvez a ambas. O conhecimento governará para sempre a ignorância; um povo que deseje ser o seu próprio governante terá que se dotar do poder que o conhecimento oferece". Há dois séculos que os EUA têm sido campeões na promoção da ciência, com os resultados que se conhece. Neste cantinho à beira-mar plantado, regressámos à separação entre "ciência" e "vida real", a uma distorcida e divisão entre o "conforto" do mundo da investigação por contraste com a "dureza" do mundo empresarial. Eis um modelo do agir e do pensar nos antípodas dos ganhos civilizacionais, culturais e científicos conquistados nos últimos três séculos. Como é que chegámos a isto, a este triunfo da ignorância, à celebração do mais rastejante e pestilento grunhido disfarçado de pensamento político?

 

Disclaimer: não fui afectado por nenhum destes concursos; usufruo de uma bolsa de pós-doutoramento desde 2010, cuja continuidade nada tem que ver com estes concursos.

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O programa do PS

por José Gomes André, em 13.01.14

Lamento que tenha passado despercebida a iniciativa do PS para lançar uma alternativa política no país. Chamar-se-á Convenção "Novo Rumo" (em jeito de "Novas Fronteiras" e "Estados Gerais"), tem declaração de princípios com 13 páginas e atreve-se finalmente a avançar com propostas para resgatar Portugal da crise. Segue-se um "best of" desta declaração, assinada por António José Seguro e Carlos Zorrinho, entre outros:

 

- "A Convenção tem apenas duas regras: liberdade e conhecimento, liberdade com conhecimento." [momento "Prós e Contras", 1]

- "As sociedades atuais são complexas e diversas. As pessoas têm um nível de educação e de cultura, e um acesso ao conhecimento, como nunca tiveram no passado." [Momento "Prós e Contras", 2]

- "A Convenção dará corpo, com clareza e rigor, à existência de uma alternativa construída com base numa aliança das forças progressistas, comprometidas com uma nova política de criação de riqueza e de recuperação da dignidade dos portugueses." [embora não façamos ideia de como o alcançar]

- "propomos um ‘pacto para o emprego’ a todas as forças políticas e a todos os parceiros sociais. Um pacto que concretize um novo acordo de concertação social de médio prazo, em torno de políticas orientadas para o emprego e de medidas concretas de combate à precariedade e à pobreza." [Queremos gastar dinheiro que não temos]

- "O mar e o nosso posicionamento em redes globais são alavancas estratégicas para a criação de riqueza que inspiram a nossa visão e a nossa ação." [O Mar! O Mar!]

- "Um novo desenvolvimento é aquele que olha para as universidades e para os centros de investigação e os entende como centros de saber mas também como alavancas do conhecimento aplicado." [momento "Prós e Contras", 3]

- "Um novo desenvolvimento que tem na sua matriz a valorização e afirmação da Língua portuguesa no Mundo. Uma política ousada de promoção da Língua portuguesa e que transporte consigo a criação cultural dos portugueses." [A Lusofonia! A Lusofonia!]

- "Um novo desenvolvimento é condição para garantir o equilíbrio saudável das contas públicas e a sustentabilidade das funções sociais do Estado." [good luck with that!]

- "Um Estado forte tem consciência dos seus limites e da necessidade de respeitar e promover a participação das pessoas, a iniciativa e liberdade das empresas e uma organização mais autónoma das instituições." [... e isto é precisamente o que o PS nunca porá em prática]

- "O Estado não pode assumir compromissos futuros que não tenha a certeza de poder cumprir. O Estado deve honrar os seus compromissos." [vai contar essa ao Governo Sócrates]

- "Contrariando o discurso neoliberal, temos de inscrever na nossa consciência a ideia de que uma sociedade inclusiva, da igualdade e da diversidade, é melhor para o bem-estar de todos." [momento "Prós e Contras", 4]

- "É este o desafio que o novo rumo assume para a Europa: uma Europa de cidadãs e de cidadãos" [Hã????]

 

Eu estou cada vez mais descansado com a alternativa socialista.

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Um gordo

por José Gomes André, em 06.01.14

Num mar de declarações sentidas pela perda de um dos mais marcantes e famosos portugueses do séc. XX, sobressaiu o desastre proferido por Mário Soares, que destacou Eusébio como um "homem de pouca cultura", "que só percebia de futebol" e sobre o qual "não sabia estar doente", embora "soubesse que ele bebia whiskey todos os dias, de manhã e à tarde". (para quem não acredita, vejam vídeo)

 

Apetece perguntar o que se dirá quando Soares falecer. Eu proponho: "Morreu um gordo, com pretensões de intelectual, conhecido pela sua incontinência verbal".

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Livros de cabeceira (13)

por José Gomes André, em 01.11.13

 

Três paixões: clássicos russos, biografias e história alternativa. Dostoievski é provavelmente o maior escritor de todos os tempos. "Os Irmãos Karamazov" e "Crime e Castigo" são livros que releio com frequência. Nunca encontrei melhor descrição do abismo que habita a natureza humana. Lutero é uma figura decisiva da história europeia, mas do qual na verdade pouco se sabe. Esta biografia descreve-o como um fanático com pretensões políticas e sugere que, sem figuras alternativas (como Calvino), o protestantismo não teria certamente resgatado a Europa do seu sono dogmático. Harry Turtledove é um mestre da ficção científica e este livro não escapa à regra: e se o Sul tivesse acesso a milhares de Ak-47 e derrotasse o Norte em 1864? Decorrendo em torno da notável figura de Robert E. Lee (de longe o maior general da Guerra Civil, um grande cavalheiro que se juntou ao Sul por amor à sua Virgínia natal), imagina uma América dividida e a continuação do grande debate sobre a escravatura no Novo Mundo.

Nada disto tem qualquer relação entre si? Há 32 anos - quase 33 - que vivo imerso em contradições e não vejo jeito nenhum de a coisa melhorar.

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Tanta ilusão, tanta mentira, tanta ignorância (1)

por José Gomes André, em 21.10.13

"o PEC4, o programa que evitava a intervenção da troika em Portugal"

"Consumada a infâmia, a campanha contra José Sócrates continuou dentro de momentos"

"na semana de demissão de José Sócrates os juros do nosso financiamento externo passaram de 7% para 14%"

"José Sócrates foi estudar. Escreveu uma tese, agora em livro, que o honra porque tem um ponto de vista bem argumentado"

"não podem culpá-lo (Sócrates) de uma infâmia que levou o país ao colapso político, financeiro, cívico e moral".

 

Clara Ferreira Alves, no Expresso, em artigo de opinião (!)

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Cenas favoritas de filmes (15)

por José Gomes André, em 05.08.13

Magnólia, de Paul T. Anderson (1999)

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Num ecrã perto de si

por José Gomes André, em 28.07.13

A televisão é um espantoso agente de estupidificação de massas. 2500 anos de civilização depois, há pessoas que se voluntariam para cantar enquanto pisam descalças tripas de peixe e larvas. Com câmaras a gravar, público a assistir e espectadores atentos nas suas casas. Deve ser isto a definição de "decadência".

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Cenas favoritas de filmes (14)

por José Gomes André, em 25.07.13

A Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), de Stanley Kubrick (1971)

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Só não ganho o Euromilhões

por José Gomes André, em 21.07.13

onze dias, escrevi: «Assistimos apenas a mais uma "jogada" no lamentável jogo de xadrez em que se transformou a política portuguesa. Sabendo à partida que o PS rejeitaria obviamente esta "solução a 3", Cavaco avançou em todo o caso, para entalar Seguro e proteger PSD e CDS. Nos próximos dias, queixando-se da "irresponsabilidade" do PS, empossará a solução governativa negociada por Passos e Portas, em nome da "estabilidade política".».

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Cenas favoritas de filmes (10)

por José Gomes André, em 13.07.13

Good Bye Lenin, de Wolfgang Becker (2003)

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Um fascista não diria melhor

por José Gomes André, em 11.07.13

"Podem fechar a Assembleia da República. Não faz falta nenhuma."

 

Ana Avoila, esta tarde.

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Business as usual

por José Gomes André, em 10.07.13

Assistimos apenas a mais uma "jogada" no lamentável jogo de xadrez em que se transformou a política portuguesa. Sabendo à partida que o PS rejeitaria obviamente esta "solução a 3", Cavaco avançou em todo o caso, para entalar Seguro e proteger PSD e CDS. Nos próximos dias, queixando-se da "irresponsabilidade" do PS, empossará a solução governativa negociada por Passos e Portas, em nome da "estabilidade política". Até quando, ninguém sabe. O país, esse, continua a definhar às mãos de excelentes estrategas, mas péssimos servidores do bem comum.

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Banda sonora para Paulo Portas

por José Gomes André, em 04.07.13

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Cenas favoritas de filmes (6)

por José Gomes André, em 04.07.13

Blade Runner (1982), de Ridley Scott

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Um país à deriva

por José Gomes André, em 02.07.13

A política portuguesa é anedótica. Até os supostos "homens de Estado" não têm sentido de Estado. A irresponsabilidade grassa como fogo ao vento. Portas limita-se a fazer jogada política, saindo de governo impopular para ingressar no próximo governo de coligação com o PS. O CDS, aliás, fica muito mal na fotografia. Sempre fez jogo duplo: ora era o baluarte da coligação, ora o maior crítico do Governo. A saída de Portas é meramente o corolário desta estratégia. Passos Coelho acaba punido pela sua manifesta impreparação, pois não definiu um claro rumo político, não reconheceu erros próprios e nunca se preocupou em manter o Governo coeso.

E o país? O país continua a ser um joguete nas mãos de políticos incompetentes, arrogantes e mesquinhos.

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Cenas favoritas de filmes (3)

por José Gomes André, em 27.06.13

American Beauty ("Beleza Americana"), de Sam Mendes (1999)

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Parte do problema

por José Gomes André, em 27.06.13

Enquanto largos sectores do Partido Socialista continuarem a achar que "o PEC IV teria evitado o resgate", o PS faz parte do problema, e não da solução.

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Cenas favoritas de filmes (1)

por José Gomes André, em 23.06.13

Uma parceria entre a minha pessoa e a Leonor Barros, ao serviço dos nossos leitores. Não estamos a tentar elaborar uma lista das "grandes cenas do cinema mundial e arredores", mas apenas a mostrar algumas das nossas escolhas pessoais (embora transmissíveis). Enjoy!

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Tó Zero

por José Gomes André, em 16.06.13

"Proponho que a UE estabeleça como objetivo para o ano 2020 que nenhum país possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia", António José Seguro, numa intervenção em Paris.


Das três, uma:

1) Seguro quer efectivamente que nenhum país da UE possa ter uma taxa de desemprego superior à média europeia. Ou seja, quer que a UE garanta que todos os países-membros tenham exactamente a mesma taxa de desemprego. Seria interessante saber como se chegaria a tal feito, sem intervenção divina ou manipulação grosseira de dados estatísticos.

2) Seguro não sabe o que quer dizer o termo "média".

3) Seguro não faz a menor ideia sobre o que está a falar, e portanto lançou uma posta de pescada que lhe pareceu soar bem, ou que um assessor formado nas "Novas Oportunidades" lhe soprou ao ouvido na noite anterior.

 

Em qualquer dos casos, tremo de medo ao pensar que este homem será provavelmente o próximo primeiro-ministro de Portugal.

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O que estou a ler (2): "Fatherland", de Robert Harris

por José Gomes André, em 12.06.13

Esta série começou com um adepto de ficção científica e prossegue com um adepto de ficção científica. Sim, confesso que boa parte do meu tempo livre é passado junto de títulos sugestivos como "Um Túnel no Céu" ou "A Máquina do Tempo Acidental".

O livro que estou a ler (fiz batota porque já acabei, perdoem-me) chama-se "Fatherland" e é um dos mais notáveis exemplos de um sub-ramo da ficção científica: a "história alternativa". A premissa necessária deste género ("e se?") é na verdade um clássico - "e se os alemães tivessem ganho a 2ª Guerra Mundial?" - mas o autor, Robert Harris (um antigo jornalista, que escreve muito sobre os nazis e a Roma Antiga), aborda-a de uma forma particularmente feliz, tornando o livro num misto de policial, aventura e investigação histórica.

Por que gosto de ficção científica, especialmente de "história alternativa"? Ao contrário do que se pense, não por ter um qualquer fetiche com mundos imaginários ou uma tremenda saturação com a realidade, mas porque este género traz a derradeira compreensão sobre o que realmente aconteceu. Quase paradoxalmente, é ao considerarmos o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, que melhor percebemos a singularidade do que aconteceu realmente, nos seus aspectos mais peculiares e extraordinários. Não só mergulhamos num "mundo paralelo", como acabamos por viajar "no nosso próprio mundo", que assim nos parece tão miraculoso, quanto fruto de milhares de pequenos acasos.

O livro de Harris pega neste paradoxo num ponto de grande importância - e que tantas vezes passa despercebida na nossa consciência histórica: o Holocausto. Com efeito, esquecemo-nos que só no fim da Guerra o mundo percebeu o horror levado a cabo pelos nazis, após a mais incrível operação de encobrimento da história, com a conivência da população alemã, da imprensa nacional e estrangeira e dos milhares de soldados do exército germânico. Em "Fatherland", os judeus desapareceram sem que se perceba bem porquê, mas o mundo vive tranquilamente com a ideia. Corre o ano de 1964. Ao investigar um homicídio suspeito, Xavier March, um detective das SS (mas pouco fiel à ideologia nazi), acabará por deter-se com uma série de estranhas descobertas sobre antigos oficiais nazis envolvidos num qualquer esquema ocorrido no Leste europeu, há mais de 20 anos.

Como já revelei (desculpem outra vez!), esse esquema foi na verdade a execução de milhões de judeus em campos de concentração. O mais curioso do livro é que March, tal como a humanidade no "mundo real", mesmo quando confrontado com provas evidentes do que sucedera, continua a recusar-se a acreditar nessa horrível hipótese, embora já saiba da sua existência. Pois admiti-la abertamente seria reconhecer a sua própria culpa - a nossa culpa - por ter permitido que tal tragédia se desenrolasse debaixo do seu nariz. Não é por acaso que ainda hoje muitos preferem esquecer o que aconteceu.

 

Siga a série, com o José Maria Gui Pimentel.

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O estado do comentário político em Portugal

por José Gomes André, em 28.04.13

"Eu acho que..."

 

Como bem dizia o saudoso Gore Vidal, "the major problem of our time, is that everyone has an opinion, but nobody has a thought".

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O vazio tem a mania das grandezas

por José Gomes André, em 02.04.13

Nasceu uma nova estrela. Um tal de Miguel Gonçalves, que Miguel Relvas (e quem mais?!) viu no Youtube e convidou para "embaixador" do "Impulso Jovem" (só esta frase já provoca um asco de morte). À semelhança de outros fenómenos da nossa praça, distingue-se pela "irreverência", pelo discurso "positivo" e por outras coisas que vêm sempre juntas neste tipo de pacote ("dinâmico", "criativo", "pró-activo", etc. - é ouvir o dito cujo). 

O problema de Miguel Gonçalves não é a referida "personagem", mas o facto de os seus dislates reproduzirem um discurso público cada vez mais difundido e aceite acriticamente pelos media, pelos governantes, pelas elites e pela população em geral. Discurso esse que mistura o pior do "darwinismo social" (o elogio do conflito social e a glorificação da lei do mais forte), um moralismo pseudo-científico de pacotilha (que condena os que sucumbem, imputando-lhes a culpa do seu "insucesso") e os elementos mais abjectos do novo totalitarismo linguístico "made in Wall Street" (que apela ao "empreendedorismo", à "reinvenção pessoal", ao "acreditar em si próprio" e ao "tornar-se senhor do seu destino").

Em suma, estamos perante um discurso político, social e económico que combina as inanidades de livros como "O Segredo" ("tu podes ser quem quiseres") com a profundidade da reflexão filosófica de um Zézé Camarinha. O pior de tudo isto? É que este discurso tem tanto de disparatado quanto de perigoso. Denunciá-lo já não é uma simples questão de bom-senso; é um dever de todos os homens civilizados.

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Insanidade em Bruxelas

por José Gomes André, em 17.03.13

Pela calada, o Euro e a União Europeia sofreram hoje um abalo terrível. O resgate de Chipre levou o Eurogrupo a impôr condições muitíssimo severas, que não só lançaram os cipriotas em desespero como produzirão ondas de choque muito além do Mediterrâneo. Os dirigentes europeus demonstraram, mais uma vez, uma completa indiferença pelas regras do jogo democrático e pelos enquadramentos legais. Qual é a legitimidade da UE para levantar impostos sobre os depósitos bancários individuais? E como podem os responsáveis cipriotas enganar a população desta forma, negociando uma jogada de bastidores que constitui um autêntico assalto às poupanças dos cidadãos? E talvez pior ainda: que mensagem envia a UE aos restantes povos europeus? Que o (pouco) dinheiro que têm nos bancos não está a salvo em nenhumas circunstâncias? Quem achou uma boa ideia aterrorizar os depositantes, num momento de crise generalizada como este? Querem acabar com a pouca credibilidade que ainda resta no sistema bancário? A insanidade grassa em Bruxelas.

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Blogue da semana

por José Gomes André, em 17.03.13

Está com frequência em destaque e com todo o merecimento. O Estado Sentido é um blog excelente, sobretudo para quem gosta de temas políticos.  

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[Pub.]

por José Gomes André, em 10.03.13

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Ser feliz em Londres

por José Gomes André, em 04.03.13

 

Em 2007, quando preparava o meu doutoramento, tive a oportunidade de fazer investigação na British Library, junto à estação de King’s Cross. O edifício, construído em 1997, é extraordinário, devido à sua funcionalidade: oito salas de leitura distribuídas por dois andares, uma pequena sala de concertos, um andar para exposições, salas de conferências, uma loja, uma livraria, restaurante, bar e bengaleiro – dispostos em redor da magnífica biblioteca de Jorge III, protegida por um vidro especial, a qual pode ser contemplada onde quer que nos encontremos no edifício.
A decoração é simples, mas com bom gosto. Os pormenores são deliciosos: sofás espalhados ao longo dos corredores convidam a uma pausa tranquila, enquanto se lê o jornal. Existem pequenas mesas de trabalho espalhadas por todos os andares, permitindo que jovens e velhos, estudantes ou simples curiosos, possam frequentar o espaço e dele tirar proveito sem restrições: seja para preparar um teste, navegar na Internet ou concluir um Sudoku.
As salas de leitura contêm um espólio impressionante – 13 milhões de livros, um milhão de jornais, 3 milhões de registos sonoros. A consulta é livre – basta mostrar o cartão de leitor (gratuito). O horário é alargado (9.30h-20h) e a biblioteca está aberta ao sábado até às 17h. As salas de leituras estão apetrechadas de dezenas de espaçosas mesas individuais de trabalho. Existem mais de cem computadores em cada sala, a partir dos quais se podem fazer diversos pedidos, usualmente atendidos num curto período. Um óptimo conjunto de revistas em formato electrónico e uma impressionante colecção de microfilmes estão à disposição do estudioso que necessita de materiais de difícil acesso.
Os funcionários são prestáveis, eficientes e conhecedores da biblioteca. Nunca hesitei em pedir informações sobre as colecções, a forma de requisitar jornais antigos ou tão simplesmente de como fotocopiar um determinado livro. Responderam-me sempre com eficácia – às vezes mesmo com um sorriso.
Frequentam a biblioteca centenas de pessoas – o que perante estas condições não surpreende. Num dos dias em que me encontrava na sala de leitura de Humanidades – e para meu grande espanto – pude mesmo ouvir através dos altifalantes a seguinte informação: “Lamentamos comunicar que a sala de leitura está neste momento lotada. Pedimos às pessoas que desejam um lugar sentado que aguardem alguns momentos”. “É a hora de ponta”, explicou-me uma funcionária. Surpreso, vi formar-se uma fila no exterior. Uma vintena de pessoas esperavam que alguém saísse, para poderem ocupar um lugar na sala de leitura.
Filas para entrar numa biblioteca: ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias.

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A democracia e a liberdade de expressão

por José Gomes André, em 20.02.13

Não tenho apreço político por Miguel Relvas. Não lhe vislumbro qualidades assinaláveis e considero-o um elemento tóxico no Governo, pelas polémicas em que se viu (e vê) envolvido, às quais ainda não deu resposta esclarecedora. Todavia, o que aconteceu no Clube dos Pensadores, em Gaia, e no ISCTE, em Lisboa, não pode merecer elogios. Uma coisa é manifestar-se desagrado público pela governação, algo perfeitamente legítimo e até elogiável em várias circunstâncias. Outra coisa diferente é utilizar uma manifestação para intimidar fisicamente uma pessoa ou impedi-la de exercer a sua liberdade de expressão.

E se o primeiro exemplo não me incomoda especialmente (é um caso de polícia ou porventura dos tribunais), o segundo deixa-me muito incomodado. O orador pode ser um crápula, um imbecil, até mesmo um "fascista" (como lhe chamaram), mas aquilo que distingue uma democracia consolidada é a sua capacidade para proteger os valores democráticos em qualquer circunstância. Calar um homem porque se discorda dele, com o objectivo de "proteger a democracia", é tão idiota quanto pretender extinguir o oxigénio do planeta para acabar com os fogos.

Sim, estou a parafrasear James Madison. Ele sabia muito bem que a liberdade de expressão não existe para que os tiranos sejam silenciados. Existe para que os tiranos falem e nós lhes possamos responder, denunciando as suas falácias. Isso - e não a limitação de uns para benefício de outros - é que é a democracia.

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O Estado da União

por José Gomes André, em 12.02.13

Esta noite, às 21h (2h em Portugal), Barack Obama realizará perante uma sessão conjunta do Congresso o seu "Discurso sobre o Estado da União". Mais do que um mero requisito constitucional, esta é uma tradição fundamental da vida política americana, utilizada pelo Presidente para descrever o ambiente político actual e influenciar decisões futuras do Congresso, traçando as grandes metas e prioridades legislativas dos meses seguintes.

Derivado do precedente britânico (o monarca discursava na sessão de abertura do Parlamento), este procedimento foi seguido à risca desde a entrada em vigor da Constituição, cuja secção 3ª do Artigo 2º determina: "O Presidente deverá, de tempos a tempos ["from time to time"], prestar ao Congresso informações sobre o Estado da União e submeter à sua consideração as medidas que julgue necessárias e convenientes". O objectivo desta disposição era atribuir ao chefe do Executivo a possibilidade de condicionar a agenda legislativa do Congresso, entendendo os Pais Fundadores americanos que o Presidente tinha um papel muito limitado neste domínio (a história alteraria essa situação).

Curiosamente, como vemos, o articulado constitucional não se refere a uma comunicação "anual", mas meramente periódica. Como em tantas outras questões formais, a prática seguida pelo Presidente George Washington (um discurso anual) criou um sólido precedente, ainda hoje respeitado. Todavia, ao contrário do primeiro Presidente americano, muitos foram os chefes do executivo que optaram por transmitir ao Congresso uma declaração escrita e não um discurso oral (desde Jefferson a William H. Taft). Já no século XX, Woodrow Wilson reinstaurou esta última tradição, seguida (com raras excepções) por todos os Presidentes até aos nossos dias.

Um dos acontecimentos políticos mais vistos e comentados nos EUA, este momento solene está também repleto de curiosidades. Uma das mais interessantes refere-se à necessidade de designar um membro da Administração para não estar presente na sessão (ficando em local desconhecido). Devido à (rara) aparição conjunta de várias figuras de topo da hierarquia federal, garante-se assim que, em caso de um atentado ou acidente, um dos membros do governo federal sobrevive a essa tragédia, impedindo que o país ficasse sem uma chefia legalmente reconhecida.

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Um país esquizofrénico

por José Gomes André, em 03.02.13

Portugal vive de ciclos mediáticos. País tacanho e medíocre, mobiliza-se com as vagas de fundo promovidas pela comunicação social e rapidamente perde o interesse assim que os focos de luz se apagam. Discute durante meses a fio o aborto e logo o esquece para sempre. Debate a Europa, mas cedo deixa cair o tema na obscuridade. Emociona-se com crianças "que passam fome" até mergulhar numa árida discussão sobre bancos ou violência suburbana, a qual tem também curta duração. Vive por blocos. Desperta, vocifera, entusiasma-se, e em seguida é vencido por uma súbita inércia. Até que novo tema mediático o arranque da sua letargia. Portugal existe algures no seio desta bipolaridade que o alimenta e simultaneamente o turva.

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Os desafios de Obama

por José Gomes André, em 22.01.13

 

São hercúleos os desafios que esperam Obama: crise económica, reforma da saúde, problemas ambientais, controlo de armas, imigração, nova política energética – a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão – a nível internacional. Nada de muito diferente em relação a 2009, quando tomou posse pela primeira vez.

Hoje Obama tem todavia uma grande vantagem: por esta altura, ninguém espera, como no passado, que ele possa resolver todos aqueles problemas de uma só assentada. Obama tem diante de si uma agenda monumental, mas livre do messianismo que o perseguiu há quatro anos, pode agir recorrendo à “arte da política”, sem que a avaliação do seu desempenho esteja sistematicamente sujeita a uma comparação com o Rei Midas.

A nível interno, o maior desafio de Obama será lidar com a enorme bipolarização da política americana. O sistema político dos EUA assenta num sistema de “freios e contrapesos”, concebido para exigir permanentes lógicas de diálogo e construções de consensos entre os diversos agentes políticos. Todavia, os Pais Fundadores não contaram com as particularidades da modernidade, nomeadamente a radicalização ideológica e partidária, que têm minado o sistema e servido como autênticos mecanismos de bloqueio, impedindo os referidos consensos e a tomada de decisões políticas céleres e resolutas. Desde 2004 que Obama defende uma agenda bipartidária e a “reconciliação da América”, mas raramente tem promovido ambas. Com os Republicanos a controlarem a Câmara dos Representantes, as suas capacidades de negociação serão severamente postas à prova neste segundo mandato.

O maior desafio de Obama é contudo um outro, que assola aliás em geral o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do “Estado Social”, num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados. Se a nível interno a resposta para esta autêntica quadratura do círculo não foi ainda encontrada, no que toca à política externa e à Defesa, as orientações estão definidas: reduzir os gastos nuns impressionantes 400 mil milhões de dólares, cortando na ajuda a países em desenvolvimento, reduzindo os efectivos militares em vários continentes, diminuindo as operações de vigilância, etc.

Estas orientações têm implicações severas em toda a organização externa norte-americana e por consequência nos alinhamentos estratégicos do poder mundial. Se em alguns casos elas são sobretudo simbólicas (a redução de bases militares na Europa, por exemplo), noutros significam uma efectiva retracção da influência norte-americana, que pode comprometer os seus interesses futuros em áreas estratégicas vitais (designadamente o Médio Oriente e a Ásia).

Obama tem insistido que o recurso ao “soft power” (diplomacia, fortalecimento das relações comerciais, cooperação com as instâncias internacionais), aliado a um posicionamento militar mais diminuto, mas cirúrgico, será suficiente para manter a influência americana intacta, mas só o tempo dirá se os EUA continuarão a ser “a nação indispensável”. Mais um desafio para o mais desafiado Presidente americano.

 

[publicado inicialmente no site da TVI24]

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O abismo humano

por José Gomes André, em 12.01.13

 

É conhecido o episódio que rodeia a publicação de A Interpretação dos Sonhos: apesar de impressa em finais de 1899, apresentaria na página inicial a data de 1900. Freud assim o impôs ao editor, pois considerava o seu trabalho científico uma descoberta fundamental, própria da revolução que o novo século anunciava. Nesse conjunto de folhas que chocava os salões vienenses encontrava-se uma terrível denúncia do âmago humano, que trazia consigo uma derradeira revelação. Na verdade, o universo fora desvelado – antes preso em esferas circulares finitas, depois inabarcável pelo limitado olhar humano. O homem fora desvelado – descendente de um peludo piteco. A alma, contudo, permanecia por desvelar. Freud deu esse passo, e com ele destruiu a supremacia antropológica.

Pulsões incontroláveis, libido, o inconsciente, a força reveladora do sonho, o trauma: conceitos que o Ocidente interiorizaria mais tarde mas que, nesses já tão longínquos dias, soavam a uma horrível afirmação do desconhecido. Triunfador na alegria de ter percorrido todo o mundo, o homem sentia-se, agora, diante de uma região inexplorada, onde a dúvida poderia dar lugar, de súbito, ao reconhecimento do mal e à penosa aceitação do tenebroso.

Joseph Conrad vivia já em Inglaterra, nesse sombrio período. Dois anos mais tarde, publicou a sua denúncia da alma humana, nesse extraordinário conto que é The Heart of Darkness (O Coração das Trevas, que mais tarde inspirará Apocalypse Now). Nele relata, pelos olhos de Marlow, a travessia de um rio em África, que se revelará intrinsecamente obscura. Essa viagem é mitológica – levando Marlow, como outros heróis, a enfrentar uma via sombria, e a lidar com a intensidade de uma escuridão que lentamente se descobre. O seu destino não é, porém, redentor. Ao invés, Kurtz, esse homem-lenda que Marlow enfim avistará, é apenas um outro nome para o doloroso encontro do abismo humano. “O horror, o horror!”, palavras que jamais se esquecem. A elas correspondem a travessia propriamente dita, povoada de fragmentos maléficos que se confundem com os homens que os procuram dominar.

É de um ser contaminado que se trata, ou de uma natureza demoniacamente tocada? Pergunta difícil, pois não há espelhos mágicos na obra de Conrad. Apenas a afirmação absoluta da obscura natureza do ser humano. A viagem de Marlow assemelha-se à travessia do Estige: do outro lado, apenas gritos, angústia. E por isso a Sibila gritou a Eneias: “Agora vais precisar de toda a tua coragem”. Assim declara Conrad: “o calmo caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio – dir-se-ia que a levar-nos ao coração de infinitas trevas”. Nesse percurso, em que o herói se descobre a si mesmo, desvela-se o humano. E traz-se à consciência, com mais clareza, o oceano turvo que, no seu recôndito, se revolve infinitamente.

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    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
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    115. O
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