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Se eu votasse nas eleições holandesas

por João André, em 14.03.17

Vivo na Holanda, directa (registado como tal) ou indirectamente (registado noutro país mas tendo o domicílio familiar no país) desde Dezembro de 2003. Isto dá-me a possibilidade de conhecer o país um pouco mais que a generalidade dos portugueses e compreender aceitavelmente a sociedade do país. Não me arvoro em especialista. Há coisas nos holandeses que nunca entenderei. Há particularidades de que desgosto profundamente e, confesso, só não estou fora do país porque circunstâncias familiares têm conspirado para que isso não suceda.

 

Isto não quer dizer que a Holanda seja um país mau. Pelo contrário. É ordeiro, com baixos índices de criminalidade, ruas limpas, pessoas essencialmente educadas, muito pouca pobreza, bons sistemas sociais, etc. Se uma pessoa aceita os preceitos sociais (e o clima), o país é excelente para viver e será mesmo dos melhores possíveis. Só acontece que não se coaduna com a minha personalidade.

 

É por isso que nunca pedi a nacionalidade holandesa, apesar de ser capaz de preencher todos os requisitos para tal. Por isso e porque para o fazer teria que perder a nacionalidade portuguesa, algo que não contemplo em favor da holandesa. Se tivesse a nacionalidade, teria amanhã a possibilidade de votar nas eleições holandesas.

 

 

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Ground control to David Jones

por João André, em 09.02.17

Mais de um ano depois da sua morte, descubro-me de vez em quando a ouvir Blackstar e a imaginar Bowie a escapar a um ecrã de televisão e a anunciar que quem morreu foi Lazarus, não ele.

 

Noutros imagino Iman com um sorriso matreiro, num qualquer terraço ao sol, a sussurrar «Já era tempo de te livrares do Bowie, querido Mr. Jones».

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Retratos da minha viagem ao Egipto

por João André, em 28.01.17

Depois de todos estes apontamentos da viagem do Luís, decidi ir ao meu baú e ir procurar as minhas fotografias preferidas das que tirei quando estive no Egipto, em 2011. Nessa viagem comecei em Luxor, desci até Ashwan e depois fui de comboio para o Cairo. Não deixo notas sobre os locais, que o Luís já deixou bastantes e melhores que as minhas (aproveito e deixo links apenas para os posts dele). Apenas as ditas fotografias e os locais onde foram tiradas (esperando não fazer asneiras). Quem tenha curiosidade, pode sempre perguntar alguma coisa mais sobre elas.

 

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Vista a partir da entrada do templo de Edfu (creio).

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Voltando do templo de Hatchepsut (estaria nas costas).

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Nilo.

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Nilo.

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Nilo.

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Nilo.

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Crianças a brincar num ramo do Nilo.

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A caminho da ilha de Philae.

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No templo de Ísis, ilha de Philae.

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Templo de Karnak.

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Cairo, visto da mesquita de Mohammed Ali.

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 Pirâmides de Gizé, Cairo.

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Templo de Kom Ombo.

 

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Trump - dia 5

por João André, em 24.01.17

Nestes dias Trump conseguiu:

E ainda vamos só com 5 dias. Isto não vai acabar mesmo nada bem.

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A árvore e a floresta

por João André, em 20.01.17

Vou a caminhar pelo Pinhal de Leiria e a certa altura, ao passar por uma clareira, dou de caras com uma sequência de eucaliptos. Sigo através deles por mais uns 10 ou 200 metros e regresso aos eucaliptos. Dou um suspiro. O Pinhal de Leiria não se transformou num Eucaliptal de Leiria.

 

Muita gente que fala da neve no Algarve no âmbito das alterações climáticas teria a visão oposta.

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Lysenko-Trumpismo energético

por João André, em 19.01.17

Lysenko

No final dos anos 1920, um homem chamado Trofim Lysenko (deveria escrever-se Lissenko mas manterei a grafia inglesa) ascendeu a posições de poder na União Soviética. Lysenko era supostamente um agrobiólogo que rejeitava as teorias genéticas de Mendel e preferia uma visão ideologicamente mais em linha com a ortodoxia política.

 

Nesta visão, a evolução acontecia não por aleatoriedade e selecção natural, mas como resultado das experiências de vida dos progenitores. Na sua visão original, postulada por Lamarck, o exemplo era o do pescoço da girafa, que tinha vindo a alongar-se porque ao ser esticado para chegar aos ramos mais altos, as girafas promoviam a sua extensão, característica que passavam aos filhos.

 

Lysenko usou estas teorias, tão do agrado de quem se propunha a desenvolver um novo tipo de homem e de sociedade, para avançar a sua posição e implementar acções que terão sido tão responsáveis pela fome nos anos 30 (que recebeu o nome de Holodomor na Ucrânia) como as políticas económicas implementadas. Entre outras fantasias os cientistas "lysenkistas" (os outros eram aprisionados - se tivessem sorte) afirmavam ser capazes de converter centeio em trigo e trigo em cevada. Ou que poderiam converter trigo de Verão em trigo de Inverno (apesar da sua diferença genética), tudo isto numa única geração. O resultado destas políticas foi não só fome mas também um enorme atraso científico nas áreas da biologia, bioquímica e genética que ainda não terá sido devidamente compensado.

 

Trump

A partir de amanhã, Donaldo Trump terá o poder de começar a cumprir a sua promessa de mudar a orientação energética dos EUA para os combustíveis fósseis. É obviamente difícil de prever qual o resultado final, mas a vontade aparente de Trump em promover as indústrias do carvão e petróleo em prejuízo das energias renováveis (ou mesmo do gás natural, fóssil mas mais limpo) terá essencialmente dois resultados:

1. Os EUA passarão a poluir muito mais que até agora. Isso terá consequências de muito longo prazo na qualidade do ar e água, e no clima a nível mundial.

2. Os EUA ficarão para trás no desenvolvimento tecnológico das energias renováveis, o que terá consequências também em outras áreas tecnológicas e afastará muitos talentos do país.

 

Esta inclinação de Trump parece vir da sua incapacidade de compreender as novas tecnologias (o uso de Twitter não conta) e da sua tendência para um populismo com pouco contacto com a realidade. Tal como li noutro lado, a indústria do carvão já atingiu um tal nível de automatização que qualquer reactivação da mesmo nos EUA, mesmo no alcance que Trump prometeu, não traria mais que uma fracção dos empregos do passado. Pior que isso, no entanto, é o facto de as energias renováveis e adjacentes estarem, finalmente, maduras o suficiente para poderem substituir os combustíveis fósseis.

 

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Fonte 

 

Não vou aqui alongar-me com as questões dos custos da energia renovável (fica para outro post) e deixo apenas um gráfico (acima). O essencial da minha reflexão prende-se com a influência que uma visão ideológica e retrógrada sobre um aspecto de ciência e tecnologia terá nos restantes e no país em geral. Não se trata apenas da vontade de desinvestir na geração de conhecimento na área das energias renováveis. Trump promete também cortar os fundos que a NASA dedica ao estudo das alterações climáticas, o que ultimamente resultará num enorme défice de conhecimento que terá repercussões também no desenvolvimento das tecnologias do espaço.

 

Outras áreas que sofrerão serão a ciência dos materiais, diversas áreas de engenharia (civil, mecânica, naval, etc), os estudos do clima e metereologia, a área de big data e computer learning (ambos fundamentais para prever padrões de vento e exposição solar e optimizar os sistemas), acabando nas ciências fundamentais, uma vez que química, física e matemática beneficiam colateralmente dos fundos gastos no desenvolvimento das tecnologias renováveis.

 

O futuro poderá ser um em que o centro do conhecimento das energias do futuro não estará nos EUA mas sim na Europa, China, Japão, Brasil e/ou outros países ou regiões. Uma vez que o principal recurso do planeta é a energia, com a sua obsessão pelo carvão, Trump poderá fazer mais para comprometer os EUA com estas suas opções puramente ideológicas do que com qualquer outra escolha política ou ideológica.

 

Basta perguntar aos russos órfãos de Lysenko.

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Não, isto não pode ser o jornalismo em 2017

por João André, em 13.01.17

Nos últimos dias explodiu uma bomba de Carnaval adiantada nos EUA. O site de notícias Buzzfeed decidiu publicar um relatório, não confirmado, de um espião britânico especialista sobre a Rússia, onde estaria indicado que a Rússia teria material incriminatório sobre Donald Trump e que o poderia usar para influenciar o futuro presidente dos EUA.

 

A razão para o relatório dar este barulho todo está ligada a próprio Trump. É de facto possível vê-lo a cair na "honey trap". E possível imaginá-lo a compremeter outros para aassegurar algumas promessas que fossem para si vantajosas. É possível imaginá-lo como cedendo aos jogos de Putin ou sua entourage. É, portanto, credível nas conclusões.

 

Só que isso por si só não pode ser razão para justificar a publicação do relatório por parte de um meio de comunicação social que quer ser credível. É uma das regras de ouro do jornalismo: verificação independente. Tudo o que seja menos que isso é perseguição, especulação e falta de ética. Mesmo nas páginas de opinião tal documento estaria mal.

 

A primeira emenda da constituição dos EUA protege enormemente a liberdade de imprensa. Por vezes dá a sensação de ser demais, mas no geral os benefícios compensam enormemente os problemas. Isso significa que o site Buzzfeed consegue estar relativamente a salvo, especialmente com a sua indicação que o relatório não tinha confirmação. Só que isso não os deve deixar a alvo da condenação pública. A publicação de tal relatório pode de imediato ser usada para atacar Trump com informação, na melhor das hipóteses incerta, e na pior falsa. Isso não é estratégia de um bom meio de comunicação social. É a estratégia de lixo como o Breitbart "News".

 

O pior foi no entanto a justificação do editor chefe do Buzzfeed, escrevendo aos seus trabalhadores, que é «assim que vemos a função dos jornalistas em 2017». Ou seja, publicação de relatórios não verificados, escrevendo que os americanos podem decidir por si próprios. e sem fazer uma avaliação crítica ou proceder a uma investigação independente. Por outras palavras, o site Buzzfeed está a resumir o trabalho dos repórteres à função de multiplicadores de boatos com um mínimo de comentário paralelo, pouco menos que aquilo que bloggers fazem.

 

É indiferente qual o alvo de tal acção ou quem a comete. O jornalismo não é isto. Isto é o que fazem os sites de clickbait e notícias falsas. Do jornalismo espera-se mais, é por isso que está, sob uma forma ou outra, protegido pela constituição de qualquer estado de direito onde exista liberdade. A minha opinião sobre Trump não se modificou (talvez tenha piorado), mas qualquer pessoa merece um jornalismo correcto. Ao negar tal ao próximo presidente dos EUA, o site Buzzfeed não só se nega a fazê-lo como presta um péssimo serviço ao jornalismo em 2017.

 

PS - como é óbvio não deixarei qualquer link para o relatório.

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Delito à mesa (7)

por João André, em 03.01.17

Confesso que há muito que não tenho o hábito de ir a restaurantes. Sempre gostei de o fazer com amigos mas afazeres profissionais, ter saído de Portugal e ter por perto menos dos amigos com quem gosto de partilhar estes momentos, além da vida familiar que por vezes torna difícil a ida a restaurantes, tudo isto tem conspirado para que eu não tenha renovado os meus hábitos comensais públicos. Na falta dos mesmos, recorro a um hábito já antigo a que volto sempre que posso (ou por lá passo).

 

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O Zé Manel dos Ossos é uma instituição de Coimbra onde não há café no final da refeição, o vinho vem à escolha de branco ou tinto, copo ou jarro (garrafa também pode ser), as paredes estão escarrapachadas de papéis de toalha de mesa escrevinhados com saudações, poemas ou outras inspirações de rotundas barrigas, a fila à entrada pode ir dos 20 minutos à hora e meia para quem chega depois das 7 da noite e o espaço dá para uma meia dúzia de mesas e pouco mais. Quem quiser sofisticação e estilo bem pode ir a outro lado.

 

Conta a lenda que tudo começou quando o Sr. Zé Manel começou a recolher os ossos de um talho ao lado e a cozinhá-los com umas ervas, sal e outros truques que só serão transmissíveis em quintas-feiras de lua cheia depois de sacrificar um gato, um lagarto e um javali aos diversos deuses da gula nos intermináveis panteões da história universal. Facto é que os ossos, além do nome, dão o carácter ao restaurante. A maioria dos pratos incluem ossos de uma forma ou outra, mas os ossos a sério, aqueles que se pedem sem dizer nada mais além do número de convivas, esses são motivo só por si para uma espera de uma hora num beco de Coimbra aos 35 °C de uma noite de Verão.

 

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Os preços (além da qualidade) tornam o restaurante obrigatório entre estudantes, mas não se pense que enchem o espaço e o tornam impossivelmente "académico". Os simples factos de ser necessário enfrentar filas para entrar depois das 7 e meia da noite (ou tarde, depende da altura do ano), de se situar na Baixa (e fora dos circuitos habituais da Universidade) conspiram para controlar o fluxo de clientela e permitir que qualquer pessoa se sinta em casa. Uma vez dentro, há sempre o risco de o calor ser altíssimo e o espaço exíguo. Mas vale a pena aguentar tudo.

 

A melhor escolha inicial é dizer que se quer ossos. O empregado decide quanto vai trazer em função dos convivas à mesa (esqueçam as noções de doses se ali entram) e é possível ter tempo para decidir o que se vai comer. Mais uma vez, o ideal é escolher uma selecção de pratos e deixar que as quantidades fiquem à escolha da casa. Pessoalmente vou sempre pelas barriguinhas ou costeletas com arroz de feijão ou pela feijoada de javali. O vinho é despretensioso mas costuma ir muito bem com a comida e o ambiente.

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Não há pressão para se sair da mesa, apesar da fila que existe à porta. Há sempre contudo a oferta de mais bebidas, como que a lembrar-nos para consumirmos um pouco mais. Mas sem verdadeira pressão: a simpatia esteve sempre presente. No final não há café. A máquina ocupa espaço e, na realidade, ninguém lá vai para isso. E beber um café poderia ter o mesmo efeito que a folhinha de menta em The Meaning of Life.

 

A melhor demonstração do restaurante ocorreu quando um dia tive um jantar com os elementos de uma banda americana (que tinham dado um concerto organizado pela Ru( na noite anterior). Nesse dia alguns dos elementos da banda dormiram tarde e almoçaram já perto das seis da tarde. Vontade de jantar: perto de zero. Umas horas mais tarde tinham-se deliciado com a comida e iam rebolando alegremente para o hotel. Passados uns anos um amigo reencontrou um deles e foi imediatamente reconhecido com as palavras: «os ossos!».

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Resumindo: a visita ao Zé Manel dos Ossos vale sempre a pena. Sem pressas e com espaço no estômago. E escritas estas linhas, estou com vontade de marcar uma viagem a Coimbra para breve.

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Prevendo uma Presidência Trump

por João André, em 10.11.16

E passaremos a escrever Presidente Trump. Não sei se o farei, custa-me. Para explicar o que aconteceu, que se leiam os especialistas, coisa que não sou. Pelo que leio na imprensa internacional que respeito, alguma da tal em decadência, Trump terá vencido ao concentrar o voto do eleitorado branco sem educação superior mas não necessariamente de rendimentos mais baixos. De certa forma parece que Trump soube ir capturar os ressentimentos de todos os Archie Bunkers americanos para quem os candidatos nunca ou raramente falaram (não eram um verdadeiro grupo demográfico para as sondagens) e que queriam ser ouvidos.

 

Por isso Trump atacou muçulmanos, latinos, asiáticos, negros e todo o establishment que permitiu a ascenção de tais grupos. Por isso atacou também o comércio livre que permitiu aos EUA tornarem-se na nação mais rica - de longe - do planeta. Por isso admirou ditadores e autocratas que lembrassem a este grupo a força que perderam mas que ainda poderia ser deles.

 

Não invoco isto para explicar a vitória de Trump. Invoco isto para falar do que poderá vir a ser a sua presidência. É que Trump foi eleito por estas pessoas e sabe que não conseguirá reconquistar aqueles que antagonizou sem virar o seu eleitorado base contra si. Por isso é provável que não abrande a mensagem mas que a reforce. Por isso é provável que, uma vez na Casa Branca, não passe a ser mais moderado e centrista. Não poderá fazer tudo quanto gostaria, devido ao balanço de poder dos EUA e das leis que estão em vigor, mas não será certamente por falta de vontade.

 

Vejamos algo que poderá ser o caso mais desastroso: o golpe duplo de rasgar o NAFTA e erigir um muro na fronteira com o México. Se rasgar o acordo NAFTA acabará a, senão destruir, pelo menos a dar um golpe enorme na economia mexicana, que envia 80% das suas exportações através da fronteira. Se ao mesmo tempo colocar um muro na fronteira, teoricamente impede mexicano de entrar. Só que há aqui um problema: pessoas desesperadas - como os mexicanos ficariam numa economia a colapsar - correm os riscos que forem necessários. Os mexicanos acabariam a destruir a fronteira pelos meios que pudessem a menos que os EUA colocassem o exército ao longo da sua fronteira de 3.200 quilómetros. Isto destruiria a economia do país vizinho e criaria uma situação de guerra nas fronteiras do peóprio país. A piorar o cenário estaria o simples facto que os produtos que não chegassem do México teriam de ser produzidos internamente, a custos mais elevados (e assumindo que existiria mão de obra para tal). Isto levaria a um aumento da inflação, que levaria a aumentos de salários para manter a base satisfeita e acabaria numa economia completamente fora de controlo.

 

E esse é apenas um aspecto. Vejamos agora a política externa. É de crer que ou Trump terá um encontro com Putin nas primeiras semanas da sua presidência ou que Putin colocará o exército em exercícios extensivos nas fronteiras dos países bálticos, só para ver como Trump reage. Uma cimeira é mais provável e é altamente crível que Putin acabe a conseguir de Trump tudo o que quer. Não seria de espantar se Trump aceitasse uma intervenção russa na Síria ainda mais alargada que agora em troca de ficar com algum território (ou recursos) para si. Imagino facilmente Trump e Putin a dividir o território no Médio Oriente. Para cúmulo, com Trump a cumprir a promessa de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e a aceitar a expansão dos colonatos - além de rasgar o acordo com o Irão - a região acabaria ainda mais a ferro e fogo, numa revolta dos árabes aos piores níveis do passado. Uma Europa sem a protecção americana, um Médio Oriente em chamas e um extremo oriente com Coreia do Sul, Japão e Coreia do Norte numa corrida nuclear. Soa bem, não é?

 

E quanto à sociedade americana? Bom, Trump prometeu rasgar o Obamacare, algo que não pode ser feito sem grandes custos financeiros, independentemente do resto das consequências. Trump não deu nenhum plano de saúde - quase de certeza porque nem pensou no assunto - mas as indicações que deu já foram consideradas por republicanos como um apanhado sem sentido de propostas do passado. Seja como for, para não antagonizar a sua base, Trump terá que acelerar o desmantelamento do Obamacare, o que custará (muito) dinheiro (nada que o incomode) e que terá de ir buscar a outros lados (já lá vamos). Além disto, poderá nomear o próximo juiz do Supremo Tribunal e fazer tender a balança para o lado conservador. Como dois dos juízes liberais e um dos conservadores já estão com 78 ou mais anos de idade, poderá até escolher outros três. No final de um primeiro mandato poderia escolher 4 juízes, passando o equilíbrio de 4-4 (ou 5-4 a favor de conservadores) agora para 7-2 a favor de conservadores, os quais o seriam provavelmente ainda mais que o tradicional, dado que não enfrentariam oposição de monta no Congresso.

 

Estas mudanças na sociedade iriam embater em vários avanços ou situações presentes. As leis que sustentam Roe vs Wade seriam provavelmente alteradas e Trump chegou mesmo a prometer uma forma de punição para as mulheres que abortem. O casamento homossexual estará em risco se ele o puder conseguir e a NRA poderá obter concessões verdadeiramente escabrosas, como a possibilidade de licenças de porte de arma serem transportáveis entre estados (permitindo que criminosos possam adquirir armas noutros estados e levá-las para o seu). Além disto prometeu uma polícia mais musculada e com menos controlos externos. Mortes a tiro de suspeitos poderão tornar-se depressivamente mais comuns.

 

Tudo isto sem falar no próprio comportamento de Trump, que demonstrou já o seu desprezo por quase toda a gente que não seja família e a sua falta de respeito por qualquer pessoa que não seja Donald Trump. Mulheres estarão particularmente ameaçadas. Se não directamente pelo próprio Trump, então por outros que se revejam no seu (execrável) exemplo. A título muito pessoal, não me admirarei se acabarmos um dia com a notícia de Trump ter violado alguma estagiária em plena Casa Branca.

 

Os imigrantes nos EUA, por seu lado, poderão estar a tremer, sejam legais ou não. Há quem diga que deportar 11 milhões de pessoas é impraticável, mas os EUA têm um hábito de conseguir o impraticável. Se o fizerem haverá certamente muitas crianças atiradas fora com a água do banho. As consequências numa economia que em muitos sectores está dependente destas pessoas é essencialmente imprevisível. Já impedir a entrada de muçulmanos, mesmo que isto seja inconstitucional, pode ser conseguindo contornando o problema (como Trump já o fez), dizendo que será apenas com aumento do controlo (já de si extremamente exigente) de imigrantes vindos de "países com terrorismo islâmico". Isto na prática permitiria impedir a entrada de qualquer muçulmano mas também colocaria obstáculos à entrada de, por exemplo, franceses, ingleses ou belgas. O país de imigrantes (Trump é neto de um alemão e casado com uma eslovena) fecharia as portas como talvez nunca antes na sua história.

 

Financeiramente a situação é ainda mais preocupante. Trump prometeu acabar com as cláusulas que permitem a directores de hedge funds pagarem impostos mais baixos. Isto seria (pelo menos parcialmente) promissor se não fossem outras promessas, como cancelar a lei Dodd-Frank que mantém algumas medidas de controlo sobre a especulação financeira. Os financeiros poderiam não mais ter certas cláusulas para explorar, mas pdoeriam provavelmente explorar outras. E sendo Trump quem é, também é muito possível que passe leis que se destinem a beneficiar (ou às suas empresas) directamente. Os cálculos aos custos dos planos económicos e financeiros de Trump indicam uma explosão da dívida de quase 50% em 10 anos. Isto sem que os gastos viessem beneficiar muito a população em si. Adicionando a isto a sua tendência isolacionista que pode perfeitamente causar uma guerra comercial (os chineses, para salvar a face, estariam culturalmente e em princípio muito mais dispostos a sofrer tais consequências que os americanos). Mesmo não percebendo muito de economia, imagino que o valor do dólar teria tudo para cair, os preços internamente para subir e a inflacção para disparar. E se quando a economia americana tem uma constipação a economia mundial apanha uma pneumonia, imaginem-se as consequências da pneumonia americana.

 

Claro que é possível que Trump não faça tudo isto (é inclusivamente provável) e até é possível que faça só algumas destas coisas. É possível que o Congresso, o Partido Republicano, ou os lobbies lhe façam frente. É possível que ignore tudo isto e deixe Mike Pence fazer tudo (seria de si mau, mas não tanto quanto a alternativa). É possível que Trump seja capturado pelo establishment (uma Casa Branca a cumprir os seus caprichos é algo que mesmo a sua - suposta- fortuna não pode comprar). Mas o risco está aí. Acima está apenas uma análise a algumas das promessas de Trump. É simplista, mas menos que os planos em si. Se há alguma coisa que desejo, é que me venham dizer, daqui a 4 anos, que eu estava completamente errado.

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Hoje milhões de americanos (correcção: noter-americanos; nova correcção: estado-unidenses) irão às urnas. Cerca de 40 milhões já o terão feito por recurso ao voto antecipado. Se há democracias maiores, esta é a mais importante do mundo e mesmo quem não gosta do país terá dificuldades em o negar.

 

Na escolha do próximo presidente há 6 candidatos possíveis, 4 com visibilidade nacional mas só 2 têm reais possibilidades de vencer. Pessoalmente não subscrevo a tese do voto útil, especialmente num país como os EUA. Mesmo que um voto mais de acordo com a consciência e ideologia de cada um (em Gary Johnson para os Libertários ou Jill Stein para os Verdes, por exemplo) leve à eleição de alguém de quem não se goste, o país tem fundações democráticas sólidas que evitariam que uma presidência, independentemente da figura, acabasse num desastre consumado. Se o voto útil acontecer, deve ser porque o medo da eleição de alguém não desejado se sobrepõe às preferências individuais.

 

Não vou escrever muito sobre Donald Trump. A sua personalidade pública (aquela que podemos ver) é a de um ignorante, misógeno, xenófobo, racista, brutamontes, mitómano, egomaníaco e narcisista (estas duas também parecem fazer parte da sua faceta privada). Isso, por si só, é suficiente para o desqualificar de qualquer presidência.

 

Falar em Hillary Rodham Clinton é questionar a razão para o ódio que lhe é dirigido. Parece em parte provir da sua ambição, mas faz sentido perguntar se a de outros homens teria sido questionada. A sua parte na reforma (falhada) do sistema de saúde aquando da presidência de Bill Clinton também parece contribuir. Igualmente o seu muito criticável hábito de secretismo (que levou ao caso dos e-mails em servidores privados) a torna alvo de desconfiança. Não ajuda que seja uma mulher que não gere empatia, sendo mais cerebral e fria que aquilo que se esperaria. Contudo, nada que não se veja noutros políticos.

 

Este ódio que ela gera à direita é ainda mais estranho pelo simples facto de ela ser, mesmo dentro do panorama político americano, tudo menos uma esquerdista (os americanos preferem o irónico “liberal”). Na política americana ela deveria ser colocada no centro, com alguns pontos mais à esquerda mas nunca por muito. Na Europa ela seria colocada firmemente no território da democracia-cristã, num centro-direita claro.

 

Como seria a sua política como presidente? Provavelmente aborrecidamente sólida. O seu currículo como secretária de estado ou senadora indica que é conhecedora dos dossiers mas prefere avanços feitos por pequenos passos, sólidos mas sem aventuras. Também tem hábito de conseguir obter colaborações com republicanos, mesmo alguns que eram visceralmente contra ela. Não parece guardar (muitos) rancores e engole por vezes o orgulho para atingir os seus objectivos.

 

É vista pela esquerda como demasiado próxima aos grandes grupos empresariais. Isto é um facto. As suas presenças no circuito de discursos nos EUA trouxe-lhe uma fortuna agradável e forte proximidade a CEOs e outras figuras do mundo empresarial e financeiro dos EUA. No entanto isso deveria ser uma vantagem. Tais personalidades conseguem ter sempre acesso a qualquer presidente: os montantes que controlam ou influenciam, directa ou indirectamente, garante-o. Ter na presidência alguém que conhecem e com quem conversaram no passado garante um diálogo mais certo que aquele que Bernie Sanders (por exemplo) conseguiria. Isso poderá permitir mudanças a leis ou reformas que de outra forma veriam a oposição dessas pessoas.

 

A forma como Clinton aceitou incorporar propostas de Sanders também poderá jogar a seu favor na presidência. Pode lançar para a arena propostas mais à esquerda do que desejaria para, após a sua rejeição, propôr alternativas que incialmente preferiria. Sendo Clinton uma política orientada para procurar consenso, isso ajudá-la-ia imenso.

 

O principal obstáculo será sempre um congresso (e talvez um senado) controlado pelos republicanos. Isso em si não é mau. O sistema de checks and balances dos EUA procura precisamente esses equilíbrios entre os vários órgãos executivos (se bem que ter ambas as câmaras a operem-se-lhe pode ser demais). O obstáculo é que muitos republicanos começam a ver o valor de optar por uma política de terra queimada e de ataque ao sistema político de Washington, sem permitir a mais simples sombra de compromisso. Isso poderá levá-los a rejeitar toda e qualquer proposta de uma presidente Clinton, mesmo que vá de encontro aos seus interesses e ideias. No entanto, mais uma vez, a alternativa seria pior.

 

Do lado democrata, a alternativa era Bernie Sanders, alguém de quem eu estaria mais próximo ideologicamente. Num cenário europeu Sanders estaria talvez no centro esquerda (depende do país: nos países escandinavos até poderia assemelhar-se por vezes a um centrista). Só que nos EUA ele está tão à esquerda que teria oposição não apenas dos republicanos (mesmos em recorrerem a intransigências) mas também de muitos democratas. Tivesse ele sido escolhido como candidato democrata contra Trump e o cenário seria o de um frente a frente entre um futuro de parálise e outro de incompetência.

 

Penso que os americanos/norte-americanos/estado-unidenses acabarão por escolher Clinton. Escolher Trump será um desastre não por si mesmo (os checks and balances manter-se-iam) mas porque muitos representantes republicanos sentiriam a necessidade de o apoiar, quanto mais não seja para aproveitarem a onda. A escolha de Clinton é pouco apelativa pelo que promete, mas é sólida e basta em si mesma pelo aspecto transformativo que possui (a eleição da primeira mulher presidente após a eleição do primeiro presidente negro). É aborrecida mas isso não é necessariamente mau. No entanto, se finda a contagem Trump acabar na Casa Branca (e deitar fora os outros retratos presidenciais para os substituir pelo seu próprio), a culpa será em grande parte do próprio Partido Democrata.

 

PS: sobre a rejeição da esquerda a Hillary Clinton e os comentários de Slavoj Žižek, basta ler este comentário de Alexandra Lucas Coelho. Não subscrevo a sua visão de Clinton (embora não tenha o seu conhecimento específico), mas a sua análise é claríssima.

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O estado da arte da Ciência

por João André, em 31.10.16

No seu melhor a ciência deve procurar dar respostas a perguntas e, idealmente, descobrir novas perguntas que nos direccionem para novas áreas de conhecimento. A melhor forma de o conseguir é seguir o método científico. Analisar a pergunta, formular uma hipótese, testar a mesma e analisar os resultados. Tirar conclusões e repetir o processo. Nunca chegamos ao fim porque mesmo que os resultados confirmem perfeitamente a hipótese e respondam perfeitamente à questão, haverá sempre novas perguntas a responder.

 

Seguir simplesmente este processo é essencialmente inútil, há que disseminar a informação. De tempos a tempos são descobertos documentos de cientistas do passado que não se deram ao trabalho de publicar ideias ou resultados e que, se o tivessem feito, poderiam ter avançado o conhecimento numa determinada área por décadas. A forma ideal de disseminação de conhecimento é a revisão por pares, ou peer review no termo inglês mais em uso. Este método habitualmente funciona bem porque os revisores têm interesse em permitir apenas que a boa ciência seja publicada, dado que ajuda também os seus trabalhos.

 

No seu estado mais perfeito a revisão pelos pares é simples: um cientista (ou grupo) submete um manuscrito a um jornal, este pede a outros cientistas, com outras publicações no currículo, que examinem o mesmo e ofereçam as suas opiniões. Estas podem ser simples aprovações ou rejeições do trabalho na presente forma ou sugestões de correcções ou pedidos de esclarecimento. No final do processo, a palavra final é do editor do jornal, que habitualmente segue a opinião consensual e decide em que número o trabalho será publicado.

 

 

 

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O Nobel tem a importância que lhe quisermos dar

por João André, em 14.10.16

Uma outra nota sobre os que não receberam o prémio. É verdade que a lista de autores não contemplados é longa, distinta e, de certa forma, infâme. O prémio Nobel, qualquer ele seja, é uma reflexão do seu tempo e resultado da reflexão de pessoas, no caso sempre um grupo relativamente pequeno de pessoas. Irão cometer erros e injustiças. Todos teremos a nossa opinião sobre o merecimento e falta dele na atribuição do prémio.

 

Mas deixo uma questão: quantos de nós (e sim, incluo-me na lista) que criticamos a atribuição de qualquer dos prémios conhecíamos antes da mesma a obra do/a contenplado/a? Ainda hoje não li nada de Svetlana Alexievitch. Mo Yan, Tomas Tranströmer, Herta Müller ou J. M. G. Le Clézio ainda me são essencialmente desconhecidos. Li Modiano, mas não sei dizer se é mais ou menos merecedor que De Lillo, Lobo Antunes ou seja lá quem for que continue a ser esquecido.

 

Já levantei esta questão algures no passado: quantas pessoas são capazes de dizer as omissões flagrantes nos prémios Nobel da Física, Química ou Medicina? Ou os erros (entre os quais ou outro Nobel português, Egas Moniz, provavelmente se encontra)? O prémio da Literatura é contestável porque é mais facilmente acessível e porque os seus potenciais laureados existem em enormes números.

 

Quando um prémio é atribuído à porta fechada por uma dúzia ou dúzia e meia de pessoas que não podem, num único ano, ler tudo e mais alguma coisa, temos que aceitar o que o dito prémio é: uma reflexão da opinião dessas pessoas. Mudássemos uma única pessoa do grupo e o resultado seria outro. Mudássemos o grupo para outro país e o panorama seria consideravelmente diferente. Não se trata de um prémiod e popularidade nem devemos tratá-lo com tal. Para tal existem as vendas.

 

Não sou tão ácido como o Luís, mas partilho em parte a sua opinião. O prémio não tem muita importância. Como todos, tem a importância que lhe quisermos dar. Mas o simples facto de, todos os anos, continuarmos a discutir os seus resultados demonstra que ainda lhe damos muita importância. E isso já basta para lhe dar uma certa patina de credibilidade que vai além do valor monetário.

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Zimmermann: músico para ser poeta

por João André, em 14.10.16

Não tenho conhecimentos suficientes sobre poesia (ou literatura em geral) para avaliar se um prémio Nobel da Literatura é bem ou mal atribuído. Sei ler e dizer se, na minha opinião, o que li é bom ou mau. O mesmo vale para a música ou cinema ou teatro ou pintura ou...

 

No caso de Bob Dylan, gosto de algumas músicas e de outras nem tanto. De algumas de que não gosto, consigo no entanto apreciar as letras, a sua poesia. Noto isso ainda mais noutros grandes autores, Leonard Cohen ou no herdeiro de Dylan Bruce Springsteen. Ouço as músicas, não me agarram, mas sendo quem são acabo por pegar nas letras e gostar mais delas lidas, em silêncio.

 

Por isso penso que se podem ler as letras das músicas sem rpestar atenção à música, porque são letras que se sustentam a si mesmas. Noutros casos é necessária a música, as letras seriam ridículas se não incorporadas na melodia e estruturadas por esta. Com Dylan raramente se vê isso.

 

Por isso tenho uma posição diferente da Francisca: penso que as letras, mesmo que escritas para serem inicialmente acompanhadas por música, podem ser lidas separadamente (tal como já li peças de teatro sem as ver em palco). Compreendo no entanto a posição dela e, na maior parte dos casos, estaria de acordo. Há apenas alguns, como os que nomeei acima, onde penso que a música é desnecessária, mesmo quando complementa o conjunto.

 

Robert Zimmermann escolheu o apelido Dylan em homenagem a Dylan Thomas. Aquilo que primeiro chamou a atenção foram as suas letras, mas isso aconteceu porque as cantava. Numa comparação canhestra, lembro-me de algo que li em tempos sobre Puff Daddy e Jay Z: o primeiro era empresário para poder ser rapper, o segundo era rapper para ser empresário. Na minha comparação canhestra, tenho vontade de escrever que Zimmermann se tornou um músico para poder ser poeta, para que o ouvissem e lessem. Para tal se tornou Dylan. E devemos, tanto os leitores como os ouvintes, ficar felizes por isso.

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Do princípio ao fim (20)

por João André, em 12.10.16

Para variar, e para ser comme d'habitude diferente dos meus colegas de blogue, decidi abordar a ciência. Não dá para este tópico? Vejamos abaixo.

 

«Welcome. And congratulations. I am delighted that you could make it. Getting here wasn't easy, I know. In fact, I suspect it was a little tougher than you realize.

To begin with, for you to be here now trillions of drifting atoms had somehow to assemble in an intricate and intriguingly obliging manner to create you. It's an arrangement so specialized and particular that it has never been tried before and will only exist this once. For the next many years (we hope) these tiny particles will uncomplainingly engage in all the billions of deft, cooperative efforts necessary to keep you intact and let you experience the supremely agreeable but generally underappreciated state known as existence.

Why atoms take this trouble is a bit of a puzzle. Being you is not a gratifying experience at the atomic level. For all their devoted attention, your atoms don't actually care about you - indeed, don't even know that you are there. They don't even know that they are there. They are mindless particles, after all, and not even themselves alive. (It is a slightly arresting notion that if you were to pick yourself apart with tweezers, one atom at a time, you would produce a mound of fine atomic dust, none of which had ever been alive but all of which had once been you.) Yet somehow for the period of your existence they will answer to a single overarching impulse: to keep you you.»

 

É este o início do mais delicioso de livro de divulgação de ciência (não usei o habitual "divulgação científica" de propósito) que alguma vez li: A Short History of Nearly Everything, por Bill Bryson. O início é excelente porque começa de imediato por nos introduzir ao sentido do irreal em que a ciência se move para descrever a realidade. O livro está cheio de excelentes citações de cientistas e uma delas é perfeita para complementar estes parágrafos iniciais: a de B.S. Haldane «The universe is not only queerer than we suppose; it is queerer than we can suppose».

 

O livro é em si mesmo algo menos improvável que a nossa própria existência. Bill Bryson é um jornalista por profissão, um escritor por escolha e não tinha qualquer vocação para as ciências e era completamente ignorante sobre as mesmas. Tem no entanto uma característica irremediavelmente científica: é incessantemente curioso e não pára de fazer perguntas quando essa curiosidade aparece.

 

Foi assim que escreveu este livro. Questionou livros, jornais, revistas. Questionou cientistas e historiadores da ciência. Questionou outros jornalistas e pastores. Questionou toda a gente e todos os meios que conseguiu para conseguir compilar a sua pequena história de quase tudo. E depois questionou quem pôde sobre a sua exactidão, o que resultou num trabalho com incrivelmente poucos erros, os quais foi corrigindo a cada nova edição. O resultado foi um trabalho que recebeu diversos prémios e é elogiado por cientistas de todas as áreas e que resultou no convite para editar Seeing Further, a história da Royal Society.

 

A atracção do livro é a escrita, acessível a qualquer pessoa e com suficientes dados para se perceberem os conceitos mais complicados. A notação matemática mais complicada é evitada tanto quanto possível em favor de termos como "triliões", "milhões de milhões" e outros ou, ainda com mais sucesso, de comparações visuais, como quando, para ilustrar a quantidade de galáxias existentes, as equivale a ervilhas congeladas e explica que poderiam encher o grande auditório. Além de procurar dados correctos, representativos e não chatos, Bryson tem ainda o cuidado de polvilhar o livro com pequenas anedotas e episódios que não só entretêm mas servem para humanizar os cientistas.

 

O livro é bastante completo nos seus objectivos e passa pela física da (cosmologia à sub-atómica), pela química, pela biologia (microbiologia, zoologia e até botânica), pela ecologia e bio-diversidade, tem uns passos divertidos pela geologia e geografia, anda pela metereologia, climatologia e paleontologia e acaba na antropologia (até social). Se há aspecto que escapa um pouco é o próprio estudo da ciência em si. Pouco ou nenhum espaço é dedicado ao método científico a não ser de passagem e no contexto de outros temas. É uma falha que se nota, mas pouco, tal é o deleite que a escrita em si deixa.

 

Quando termina, Bryson despede-se com as suas lições

 

«If this book has a lesson, it is that we are awfully lucky to be here—and by “we” I mean every living thing. To attain any kind of life in this universe of ours appears to be quite an achievement. As humans we are doubly lucky, of course: We enjoy not only the privilege of existence but also the singular ability to appreciate it and even, in a multitude of ways, to make it better. It is a talent we have only barely begun to grasp.


We have arrived at this position of eminence in a stunningly short time. Behaviorally modern human beings—that is, people who can speak and make art and organize complex activities—have existed for only about 0.0001 percent of Earth’s history. But surviving for even that little while has required a nearly endless string of good fortune.


We really are at the beginning of it all. The trick, of course, is to make sure we never find the end. And that, almost certainly, will require a good deal more than lucky breaks.»

 

Este post não tenta oferecer o fim de um livro também usado para o princípio, de acordo com o espírito da série. É no entanto difícil evitar o fechar de círculo que Bryson tenta, terminando fazendo eco das suas palavras iniciais. Também isso reflecte um princípio científico: QED.

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Deve ser do período

por João André, em 26.09.16

Tenho dificuldade em compreender este post da Francisca.

 

Em primeiro lugar é o título. Porquê "as raparigas"? É por serem mulheres? Também se escreve "os rapazes do PS", "os marmanjos do PCP", "os tipos do PSD" ou "os cahopos do CDS"? O sexo faz diferença? Se calhar faz - para muita gente. Não devia. É por serem várias delas mais jovens? Também escrevemos "os velhotes do PS", "os cotas do PSD", "as carcaças do PCP" ou "os idosos do CDS"? A idade faz diferença desde que tenham o suficiente para serem julgadas pelas suas palavras, ideias ou acções?

 

Não, essas são apenas palavras destinadas a distrair das políticas. Já escrevi o meu post sobre o assunto. A ideia de ir às poupanças, coisa que não parece ter sido avançada em lado nenhum, nem é exclusivo do Bloco nem teria nada de especial. Seria uma política tal como aquelas que os governos anteriores praticaram, aqui e em todo o lado. "Ir buscar o dinheiro" não é "roubar", como a Francisca escreve, caso contrário teria que se aceitar que toda e qualquer cobrança de impostos seria roubar. A frase é infeliz? Talvez do ponto de vista da Francisca ou de tantos outros, mas do ponto de vista do Bloco de Esquerda é provavelmente o que queriam expressar. Se já se "foi buscar" dinheiro a tanta gente, porque não "ir buscar" dinheiro aos ricos?

 

A Francisca falou ainda dos "assuntos fracturantes" mas referiu apenas o disparate do "cartão da cidadã" e depois invcou o velho fantasma da "queima dos soutiãs". Haveria ainda o outro disparate da criminalização dos piropos, mas estão-me a faltar mais assuntos que seriam assim tão merecedores «[d]o fim da lista na agenda parlamentar». O resto é essencialmente o ataque à ideia nebulosa de "ir buscar o dinheiro aos ricos". Muitas das pessoas que ela referiu são também aquelas que sofreram (e sofrem ainda) no passado. São também pessoas que pagaram várias vezes (a Francisca esqueceu os impostos indirectos, mas estes normalmente não recaem sobre as empresas, que os passam ao consumidor) e que, depois de tudo isso, ainda levam com mais taxas e retaxas.

 

No fim fica tudo explicado: há que recompensar "essa gente", suponho que se trate dos empresários. Ou talvez os que são ricos (no post da Francisca está subentendido que só os empresários o podem ser). Isto porque são pessoas que «através do seu talento e do seu esforço, contribuiu para o crescimento económico do país», dado que mais ninguém o fez. Como os empresários são como os outros, também existem os incompetentes, abusadores e tacanhos que fizeram o oposto e são largamente responsáveis pelo ridículo estado do tecido empresarial do país.

 

Não: recompensemos os empresários tout court porque são eles que nos vão retirar do nosso buraco. Os outros não trabalham, não são talentosos. Os empresários merecem tudo, talvez até que se acabe com as taxas para eles, pobrezinhos.

 

Mas vou fechar o círculo, indo aos empresários que, entre tudo o que são, bem ou mal sucedidos, talentosos ou incompetentes e que, no seu dia a dia, tratam as mulheres ao seu redor como secretárias, empregadas de limpeza ou "aquela cachopa jeitosa que traz o café". Nalguns casos até as tratam por "raparigas" até terem idade de serem candidatas a Presidente da República ou vão buscar o epíteto de "esganiçadas" atrás de títulos de professor. Eles não são machistas, não confundamos coisas, só que às vezes aquelas raparigas começam a maçar. Deve ser do período.

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O mundo ao contrário

por João André, em 19.09.16

Só uma perspectiva rápida ao conceito de «ir buscar dinheiro a quem o está a acumular» e fazendo a ressalva inicial (que vai ser ignorada) que estou contra isso: um dos países que os liberais da nossa praça mais admiram, a Holanda já o faz.

 

Na Holanda, o Estado taxa as poupanças dos seus contribuintes privados. Na declaração de impostos, feita online através do sistema de DigiD. Quando a declaração é preenchida online, os montantes existentes em todas as contas na Holanda já estão previamente preenchidos e apenas é necessário confirmá-los.

 

Em relação a taxar as poupanças, o valor a taxar é o montante total que existe nas diversas contas acima de um determinado patamar (que anda por volta dos 21.000 €). Abaixo desse valor o valor não é taxável. Acima dele, o montante extra é passível de ser taxado (por exemplo, quem tenha 25.000 € pagaria imposto sobre 4.000 €). O imposto parte do princípio que o valor tem um retorno anual de 4% e esse retorno fictício é taxável a 30%. Ou seja, se o retorno for inferior (e habitualmente é-o em contas poupança simples), o contribuinte pode pagar mais do que recebe de juros. Aliás, sei por experiência própria que é possível receber de juros apenas uns 30-40% do valor a pagar.

 

Este caso é apenas aplicável aos montantes em investimentos financeiros e, no caso do imobiliário, apenas a segundas habitações. Também se aplica a valores a partir dos 21.000 € (ou o dobro no caso de casais), valor que parece elevado. No entanto, se um indivíduo (ou casal) da classe média não quiser (ou tiver oportunidade) de comprar casa, é relativamente simples atingir tais níveis de poupanças na Holanda.

 

O caso português é diferente, claro está, mas quando alguma direita aponta o dedo a alguma esquerda em questões de sigilo bancário ou de taxar as contas bancárias, talvez fosse bom colocar os olhos num país que, em certos aspectos, foi mais longe no seu socialismo que se poderia esperar. E depois é elogiado pelo seu liberalismo.

 

Conclusão: não gosto de taxas às poupanças (outra coisa é taxar os juros ou retornos de investimento) e considero-o um ataque ao direito de cada um em fazer o que quiser com o dinheiro que ganhou e sobre o qual já pagou impostos. Por outro lado, é irónico ver que alguma esquerda portuguesa parece estar com vontade de seguir as melhores práticas de países ditos "liberais". É o mundo ao contrário.

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Blogue da semana

por João André, em 18.09.16

Nos meus tempos de Coimbra andei envolvido na Ru( (sim, escrito assim), a Rádio Universidade de Coimbra. Bastantes nomes mais ou menos conhecidos do panorama radiofónico nacional começaram por ali e aind ahoje é das melhores escolas de rádio do país.

 

Um dos programas mais antigos (senão o mais antigo) da Rádio é o Santos da Casa, onde se dá espaço a músicos e bandas portuguesas. Algumas tornam-se conhecidas, outras nem por isso. A qualidade varia, mas o entusiasmo, especialmente do Nuno Ávila e Fausto da Silva é incomparável. A apoiar o programa têm obviamente um blogue, onde as novidades musicais portuguesas e os concertos a que assistem merecem destaque.

 

Por haver ainda quem ande nisto por "amor à camisola", por serem amigos e porque vale a pena seguir, o Santos da Casa é o meu blogue da semana.

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Memórias subjectivas (3)

por João André, em 16.09.16

Distâncias e viagens

Enquanto cresci, a única auto-estrada existente era a que ligava Lisboa a Aveiras. Num bom carro e respeitando apenas o espírito da lei no que respeita a limites de velocidade (isto é, acreditar na sua existência mas não os praticar, como a maioria dos católicos portugueses), era possível ir de Aveiras ao Aeroporto em 20-24 minutos. Isto era um eternidade, mas a bem dizer viajar em Portugal até meados da década de 90 demorava eternidades.

 

Quando pequeno, eu passava bastantes fins de semana em casa da minha tia. A distância eram uns 10-15 km, mas no Citroën Diane (a "diane") ou no Renault 5 (o "renôssinco") que o substituiu, a viagem era um tédio. Visitar a minha avó implicava uma viagem de 20 km por estradas regionais, com passagens de nível e demorava pelos meus cálculos cerca de 3 episódios do Roy Rodgers ou pelo menos a primeira parte do Benfica Belenenses (que não valia a pena ver a preto e branco na televisão porque as camisolas vermelhas e azuis eram indistinguíveis). Uma ida à Nazaré exigia mantimentos equivalentes ao um Paris-(Argel)-Dakar e se fôssemos a Lisboa o carro passava metade do dia anterior em revisões, mudando o óleo, acertando a pressão dos pneus, atestando o depósito e os tanques de água, enchendo a bagageira de equipamento de emergência incluindo tendas, fornos a gás e rádios portáteis (talvez a minha memória me faça exagerar).

 

 

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Memórias subjectivas (2)

por João André, em 14.09.16

O cinema

Os filmes fizeram desde cedo parte da minha vida. Não passava sem os clássicos que iam passando na RTP2 nas tardes de sábado, enquanto os meus pais dormiam e me deixavam em paz, especialmente durante o Verão quando o calor era muito e eles ficavam agradecidos de me ver sossegadinho, com as persianas em baixo, numa semi-penumbra e a ver televisão. Era um daqueles casos em que os interesses deles se cruzavam com os meus e me permitiam uma boa dose de clássicos de alta ou baixa qualidade numa altura em que os meus filtros eram de passe baixo e eu me alimentava de tudo. Descobri mais tarde que tinha andado a ver obras-primas (Heaven Can WaitTo Have and Have NotA Matter of Life and DeathThe Way Ahead) e outras menos primorosas (Crack in the WorldThe Beast from 20,000 Fathoms, qualquer filme com Vincent Price, ou mesmo qualquer filme de terror ou ficção científica, o que na altura era quase o mesmo).

 

A qualidade era menos importante que o fascínio. No caso de bons filmes, eram a qualidade e os elementos mais visuais que me prendiam. Lubitsch, Powell e Pressburger, Cukor, Sirk, Minnelli (excepto musicais, de que só comecei a gostar mais tarde) estavam, descobri depois de alguns anos, entre os meus preferidos. Nomes de realizadores conhecidos eram poucos: John Ford pelas coboiadas  e Hitchcock pelo suspense, palavra que eu repetia aterrado sem compreender do que se tratava (poderia ser essa ou otorrinolaringologista e iria dar ao mesmo) seriam os únicos reconhecíveis para mim. Havia um ou outro filme que tinha que ser visto se me aparecessem à frente certos actores: John Wayne (obviamente), Gene Kelly (desde que não dançasse) e Errol Flynn eram obrigatórios. Actrizes menos. O meu pai tinha um estranho fascínio por Sophia Loren que eu não comprendia, mas esforçava-me por tal.

 

 

 

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Memórias subjectivas (1)

por João André, em 09.09.16

Manhãs de fim de semana

Nesses tempos os sábados eram o momento de libertação. Sem escola às 8 da manhã (ou seria às 8:30?), a televisão era para mim. Ainda sem cor, essa só viria numa manhã de Natal após uma visita ao primeiro Continente do país, num aparelho (NEC, ainda existe) que me fascinou mais pelo controlo remoto que pela cor que já conhecia. Levantava-me, pegava nos livros de banda desenhada, com preferência para os Lucky Luke e Astérix do cimo da prateleira, passava pela cozinha para pegar na lata dos biscoitos (redonda, de metal, branca e com alguns motivos castanhos e que mais tarde acabou a guardar os meus bonecos) e dirigia-me para a sala.

 

Entre os livros a preferência seguia para os que tinham Goscinny como autor da história. Verdade, no início ainda não sabia ler os autores das histórias, mas sabia pelos meus pais quais eram os livros com narrativa desse génio. No caso de Lucky Luke era algo complicado: o desenho era diferente nos períodos iniciais, mas nos outros havia ainda dificuldade em escolher. Com Astérix era ainda mais simples: só tinha um ou dois títulos com Uderzo como autor da história. Claro que antes de saber ler fazia pouca diferença, mas como as histórias estavam (estão) decoradas, a recomendação filial era importante.

 

O ritual passava por sentar no sofá, ler e comer biscoitos até a minha mãe acordar, tomar o pequeno-almoço a correr (não fosse a emissão começar mais cedo de repente) e voltar para a sala. Cerca de meia-hora a uma hora antes do início da emissão ligava o aparelho. Ficava a ver a mira técnica (não recordo se me dava ao trabalho de ouvir a música) e a ler. Havia que ficar atento à possibilidade de os planos da RTP mudarem e começarem os desenhos animados mais cedo. À hora da emissão o hipnotismo comçava.

 

Ao meu redor suponho que existia um completo remoinho de actividade. Tinha uma noção vaga de pessoas a andar de um lado para o outro, de um aspirador a funcionar e que me forçava a sentar-me noutra posição na sala enquanto o sofá era movido, de a minha mãe avisar o meu pai que ia fazer compras, de pedir ajuda para as arrumar, de o barulho na cozinha se intensificar quando o programa infantil se tornava algo mais juvenil e começavam as séries menos "animadas". A certa altura lá era chamado para a mesa da cozinha para o almoço e rogava por uns minutos mais para poder acabar de ver o episódio de fosse o que fosse que estava a ser transmitido no momento.

 

Uns anos mais tarde comecei a ter de acompanhar a minha mãe nas suas visitas ao mercado, para comprar mercearias ou peixe, e comecei a odiar essas visitas, por volta das onze horas, que me impediam de ver o meu programa preferido (por regra, qualquer programa que eu não pudesse ver, fosse porque razão fosse, era invariavelmente o meu preferido). Nesse período eu acelerava sempre a minha mãe para poder voltar o mais depressa possível para ver alguma coisa antes daquelas notícias da hora de almoço que os meus pais não queriam nunca perder. Mais tarde, quando fiquei mais velho e poderia ficar em casa sozinho, sofri pelo infortúnio de ser já mais alto e mais forte que a minha mãe e não pude ficar em casa porque estava encarregue de ajudar a trazer os sacos das compras.

 

Já os domingos eram outra coisa. Com a missa dominical, o 80x7 e o Telerural, o primeiro canal era para mim algo sem qualquer pinta de interesse. Infelizmente o segundo canal começava mais tarde, mas isso não me impedia de me sentar a ver a sua mira técnica, inifinitamente mais interessante que aquele senhor com roupas esquisitas que levantava uns copos dourados enquanto vozes femininas cantavam uma músicas chatas. Como o segundo canal não era prolífico em desenhos animados, acabei por ir vendo os programas de vida selvagem e sobre o corpo humano (inclusivamente um, alemão, que me ensinou mais que vários anos de aulas de Ciências da Natureza). Talvez possa mesmo traçar o meu interesse por ciência àqueles domingos sem desenhos animados que me faziam agarrar a qualquer farrapo de entretenimento.

 

A maior variação a estas rotinas eram as visitas à minha tia, na aldeia. Os domingos eram especialmente dolorosos, dado que nessa altura a electricidade era racionada e não era ligada na aldeia antes do meio-dia. Eram períodos em que lia e relia (ou "lia e relia" no período pré-primário) os livros que tinha trazido comigo, vasculhava a casa da minha tia em busca de qualquer coisa com o mínimo de interesse (acabei a ler a Nova Gente, confesso hoje) e lá aceitava a certa altura ir passar pela Igreja e até espreitava a missa, algo que apesar de desinteressante me fascinava um pouco. É curioso que eu nunca tenha conseguido, até hoje, equiparar a missa televisiva com a missa "real". A primeira era como um programa sem qualquer interesse, um desperdício de tempo televisivo. A segunda era chata, como uma visita a uma tia-avó muito velha e mal-cheirosa mas que tinha aspectos de curiosidade. Até hoje sou da opinião que a missa é desporto presencial, nunca televisivo.

 

Ainda hoje os meus sábados livres são tentativas fúteis de emular esses períodos despreocupados. "Vegetar" é aspiração não compreendida por muitos adultos, mas uma que eu persigo ardentemente quando tenho essa oportunidade (uma vez por ano se o sol estiver azul e o galo dormir de pijamas). Não regressa, mas recordo-a. Idealmente com uma lata de biscoitos à frente.

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Memórias subjectivas (0)

por João André, em 09.09.16

"Memórias subjectivas" é um termo algo pleonástico. Uma memória existe não como um registo exacto de um momento mas como um registo parcial desse mesmo momento e apenas da forma como o registamos. Uma camisa às riscas brancas e pretas pode não ter sido vista mas, por omissão de informação, recordada pelo nosso cérebro como sendo de um vermelho escuro, quase de sangue. Uma pessoa pode nunca ter passado pela nossa vida senão, sem ser notada, na rua, mas devido a uma descrição poderemos recordá-la vivamente como sendo parte integral de um episódio. Entre duas situações, a mais recente por dez anos pdoerá ser pior recordada que a mais antiga, mesmo sem qualquer razão lógica para isso.

 

Por isso qualquer memória é subjectiva. É-o na forma como o fragmento de história é observado, na forma como é registado, na forma como é relembrado. E quando se conta, adicionam-se os pormenores extra que poderão não fazer parte da memória ou que são alterados em função da narrativa. Por isso mantenho o pleonasmo nestas minhas crónicas em que irei recordar episódios sem linha cronológica e sem qualquer vontade de fazer mais que deixar um registo a que voltarei em tempos.

 

Ou como escreveu García Márquez: «La vida no es la que uno vivió, sino la que uno recuerda y cómo la recuerda para contarla».

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Estágios não pagos

por João André, em 23.08.16

Nos EUA tenho notado que existe um debate constante acerca do pagamento a estagiários. Numa das perspectivas, os estagiários trabalhariam de graça, recebendo em troca a possibilidade de obterem experiência, conseguirem contactos e poder observar "como o mundo real funciona". Na outra perspectiva... bom, é tudo o mesmo mas os estagiários recebem um vencimento.

 

Ninguém duvida que um estagiário não oferece o mesmo valor a uma empresa que um profissional mais experiente (mesmo que apenas um tudo nada). Os estagiários recebem habitualmente as funções de base e mesmo quando são empregados em funções teoricamente em linha com as suas qualificações, acabam por fazer fotocópias, ir buscar café, transportar equipamento e observar. Observar muito.

 

Por outro lado um estagiário é um ser humano cujo tempo vale alguma coisa. Se a empresa contrata um estagiário, é porque coloca um valor, por pequeno que seja, nas funções do mesmo. Caso não o fizesse não precisaria dele, uma vez que apenas estariam a ocupar espaço e o tempo dos outros profissionais. Nesta lógica faz sentido que recebam um salário. Além disso, antes do início das funções não é certo que um estagiário vá de facto receber essa experiência valiosa que tanto é prometida. Se ficar encafuado num cubículo sem janelas a tirar fotocópias, certamente que isso não o enriquecerá. Para cúmulo, contratar um estagiário sem lhe pagar é um mau passo pela empresa: estão a investir (o tempo dos outros empregados) numa pessoa a quem não dão incentivos para se ligar à empresa nem para se valorizar (além de ter uma entrada extra no currículo).

 

Há no entanto um outro argumento contra os estágios não pagos: estão abertos essencialmente a quem tenha outras formas de rendimento. Ou os pais pagam, ou há outro trabalho com o qual se pode viver (neste caso ambos os trabalhos sofrem devido ao excesso de tempo neles). O primeiro caso será o mais comum e o pior, porque perpetua o ciclo dos conhecimentos. Quem tem conhecimentos consegue o tão desejado estágio para o filho e pode pagar esse custo e o filho, beneficiando disso, poderá fazer o mesmo para os seus filhos. É um ciclo vicioso que fecha portas a quem não tenha alternativas a trabalhar para poder sobreviver.

 

Claro que há quem quebre o ciclo. Normalmente são pessoas que trabalham 20 horas por dia e que depois vendem a sua história como um sucesso e um exemplo do que pode ser alcançado com trabalho duro. É verdade, mas pelo caminho provavelmente ficará a grande maioria que não aguentará tais exigências.

 

Não posso falar do caso português porque o conheço mal, mas por vezes tenho a sensação que está a piorar. Há quem se insurja contra os estágios não pagos, mas não é o meu caso. Eu revolto-me simplesmente com trabalho não pago. Os estágios são casos específicos que podem estar abrangidos por regulamentação especial (isentos de segurança social, menos impostos ou outros), mas que devem ser pagos como trabalho que são. Permitir que os jovens (a maioria destes estagiários) sejam usados desta forma não passa de um abuso do direito ao trabalho.

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E o tempo de Jogos Olímpicos e já tenho andado a ver nas redes sociais e nos jornais os comentários habituais às prestações de atletas portugueses. Em resumo, que é uma vergonha, que andamos a pagar para eles fazerem isto (seja lá o que "isto" for), que não trazem medalhas, que se é para baterem recordes nacionais também o podem fazer em casa (li em tempos um comentário do género salvo erro a Eduardo Pitta), etc e tal. Alguns dos comentários mais recentes debruçaram-se sobre o quinto lugar de João Pereira que não chegou a ser uma medalha, nos resultados dos canoístas que não chegaram lá e nos nossos triplistas em que pelo menos Nélson Évora é desculpado porque no passado já foi ouro.

 

Uma das respostas padrão passa por perguntar quem mais pode dizer que é dos oito melhores do mundo ou sequer o melhor português naquilo que faz. Outra passa por dizer que quem questiona não sabe do que fala (que será verdade na maioria das situações). Eu prefiro uma outra opção: respeite-se antes de mais o esforço de quem chegou àquele nível (passando por muitos sacrifícios pessoais ou não) e de quem estava a cumprir a sua função. É o mesmo respeito que é devido a um empregado de balcão, a um médico, a um varredor de ruas, a um padre, a um operário, a um ministro ou a um polícia. É o respeito devido a quem faz o seu trabalho.

 

Há no entanto a necessidade de dissecarmos as prestações por duas perspectivas: a) em comparação com as expectativas e, b) como resultado de um investimento no atleta. Farei isso abaixo.

 

 

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Tempo, amigos e família

por João André, em 09.08.16

Foi na universidade que terei feito mais amizades para a vida. No sentido de amizades que durarão a vida inteira e em que, independentemente do tempo de separação, cada reencontro é vivido como com o calor associado ao retomar da conversa do dia anterior. No final dos estudos cada pessoa segue para seu lado, como é evidente. Nalguns casos as escolhas profissionais serão parcialmente influenciadas pela proximidade geografica a amigos, mas nem sempre isto é possível. Com a vida, os horários de trabalho e desfasamento na escolha de períodos de férias, a chegada de filhos e mil outros afazeres, o contacto reduz-se a uns telefonemas, um fim de semana ou outro e ocasiões não planeadas. Quanto maior a distância entre amigos, maior será a oportunidade para o reencontro.

 

No meu caso, que saí de Portugal há quase 13 anos, as oportunidades são bastante reduzidas. As minhas escolhas profissionais e pessoais reduzem-me a frequência de viagens a Portugal e a diferença de rendimentos entre Portugal e o centro da Europa também conspira para limitar a possibilidade de visitas de amigos - quando há menos dinheiro, é-se mais criterioso na selecção de destinos de férias e um amigo numa pequena cidade holandesa mais conhecida por um tratado que pelas vistas não figura muito alto na lista.

 

Instrumentos como o Facebook, Instagram, blogues e afins ajudam a ir mitigando a saudade. Acompanhamos melhor ou pior as aventuras e desenvolvimentos, vemos as crianças crescer - que grandes que estão!, deixa-me estar calado que detestava quando os amigos dos meus pais me diziam isso! estou igual a eles! - lemos sobre as opiniões, ideias, viagens e outras coisas do género. Comentamos, gostamos, reagimos, retweetamos, partilhamos, reencaminhamos. E no final deixamos sempre a mesma promessa: da próxima vez digo qualquer coisa a ver se vamos beber um café/jantar/sair.

 

A maior dificuldade surge quando temos que equilibrar as pessoas que mais estimamos com aquelas que mais nos estimam. Há pessoas que gostaríamos imenso de rever, mas que não têm exactamente o mesmo apreço por nós e outras haverá que têm saudades mortais nossas mas que nós colocaríamos num segundo patamar. Quando recentemente escrevi a um destes amigos «temos que nos encontrar», dei por mim a pensar que isso será improvável. Não que não tivesse prazer em fazê-lo, mas darei sempre prioridade, no meu tempo limitado, ao encontro com outras pessoas, sejam família ou amigos.

 

Foi uma sensação profundamente inquietante pensar que provavelmente já vi pela última vez com vida certas pessoas e que, se acaso lhes sobreviver, possivelmente não os voltarei a ver ou só lhes verei uma campa, no meio do cemitério, e a conversa será apenas um monólogo onde as respostas serão perfeitas porque imaginadas. Mais inquietante ainda quando este pensamente surge não no final da vida, quando começamos a ver amigos e conhecidos a ficar pelo caminho, mas no meio dela, quando ainda guiamos os nossos filhos e temos legítimas aspirações a ver muito do mundo (geografica e sensorialmente).

 

É nestes momentos que recordo uma frase de um dos meus mais velhos (em idade) amigos: não tenho tempo para ter amizades, só família. Não o compreendi verdadeiramente, quando lhe ouvi essa frase há tanto tempo. Hoje compreendo-a melhor. Tanto melhor porque não mais a ouvirei da sua voz e sem saber que assim o era até 5 segundos antes do telefonema que de tal me informou. Agora, com tal conhecimento - que estará sempre aquém do dele - tento orientar a minha vida nesse sentido. Guardo o meu tempo para a minha família, de sangue e de vida. E espero, desejo, que um dia a mesma vida me atire um rebuçado pelo caminho e eu o possa comer, juntamente com uns camarões e uma cerveja, com esses amigos que eu, cinicamente, vou descartando.

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O futebol de Trichet e Da Vinci

por João André, em 14.07.16

O Pedro Correia escreveu dois posts sobre o europeu e Portugal e zurziu nas carpideiras portuguesas que se queixaram da qualidade ou beleza do jogo da selecção nacional. Como eu pertenço a este grupo, gostaria de deixar umas linhas sobre o assunto.

 

 

Os meus posts de análise ao jogo da final, ao europeu de Portugal e ao torneio em si.

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E é isto

por João André, em 10.07.16

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Comentários a quente: Portugal - França

por João André, em 10.07.16

8' - Porrada no Ronaldo. Era falta clara, mas enfim.

10' - Alguém precisa de mudar a roupa interior do Pepe.

14' - Portugal quer embalar mas parece adormecido. Os franceses estão a jogar a outra velocidade.

16' - Acabou o europeu do Ronaldo. Lá se fez o jeito aos franceses.

21' - Ainda está em campo. Se aguentar até ao intervalo talvez venha a agulha. E os primeiros 3 meses da próxima época vão ao lixo. Se se aguentar e contribuir, creio que o Ronaldo se esteja marimbando.

23' - Não aguentou. Há Schadenfreude por esse mundo fora.

28' - Quaresma na teoria faz sentido. Mas para quem vai ele cruzar? Para o João Mário?

33' - O nosso Ronaldo para o resto do jogo terá de ser o Rui Patrício.

34' - Era de facto amarelo para o Cédric. Mas onde está o do Payet?

36' - José Fonte é o nosso Iniesta. Numa frase explicado Portugal neste Europeu.

41' - Tacticamente a equipa está mais equilibrada. Quaresma e Nani estão a esticar a defesa francesa no contra-ataque. O reverso da medalha é que os franceses estão menos cautelosos.

45' - Cabeçada mútua entre Evra e Quaresma. Já vi piadas étnicas começadas por menos.

 

Intervalo: tempo para comer qualquer coisa.

 

51' - Nani: «Toma! Também me pisaram a mim!»

53' - Está na hora da táctica 3x2. Dois jogadores lesionam adversários em sucessão. Primeira falta: deixa passar. Segunda: amarelo. Terceira: vermelho. Isto duas vezes e o jogo passa a ser jogado 9 contra 8. No secundário funcionava.

55' - Umtiti cortou com o nariz... Hmm, isto soa ao início de um livro infantil.

57' - William Carvalho queria ser polícia sinaleiro quando era pequenino.

58' - Só não consigo imaginar William Carvalho em pequeno. O Robin Hood tinha um problema semelhante.

60' - Kingsley Coman entrou. É bom jogador. E tem nome de realizador porno. Esperemos que não nos f...

65 - Quase realizou um. Faltou Viagra ao Griezmann. Felizmente.

68' - Alguém diga ao Quaresma para olhar antes de centrar.

70' - Confesso que tenho já uma entrada pré-escrita com vários palavrões. Deixo que adivinhem que tipo de entrada.

74' - Este Portugal sem Ronaldo é um tigre velho. Grande, ainda bonito, às vezes com mau feitio e capaz de se defender, mas essencialmente sem dentes ou garras...

77' - Há duas versões de Giroud. O Giroud bom e o Giroud mau (isto ainda dá telenovela). Hoje tivemos o Giroud mau. O Deschamps, infelizmente, percebeu isso.

78' - Éder?????? Nãããããããããããããõoooooooooo!!!!!!!!!!

78,5' - Estamos sem ataque que se veja... Porque raio manda o Fernando Santos mais um central francês para o jogo?

80' - Lado bom da lesão do Ronaldo: o João Mário finalmente pode ser visto.

82' - Tacticamente a decisão percebe-se: mandou o Nani para a ala para apoiar o Cédric contra Coman, que Quaresma não andava a ajudar muito. Mas Éder? A senhora da lavandaria aleijou-se?

84' - Bruno Carvalho está a ver este jogo ao som de "Money" dos Pink Floyd.

87' - Éder anda a atrapalhar os franceses. Com a transferência para o Lille, o Fernando Santos deve tê-lo convencido que se naturalizou.

89' - Quaresma demonstra o poder de futebol de rua: estrangula Koscielny e esfrega-lhe a cabeça: «Está tudo bem miúdo, está tudo bem... Mas não digas à tua mãe senão conversamos no fim das aulas.»

91' - Que santo português é São Denis?

93' - Fim do tempo regulamentar. Não sei como, mas os franceses ainda não ganharam.

 

Re-intervalo: E vamos a prolongamento. Porque dois jogos seguidos só com 90 minutos não tem piada.

Para quem tenha curiosidade porque razão me dou ao trabalho (sim, vocês três aí atrás!), isto é porque estou a ver o jogo sozinho. Sem companhia para os comentários da praxe, sofrem os leitores.

 

91' - Eu devia era ir-me deitar. Como se conseguisse adormecer.

93' - Fernando Santos é homem de Fé. Num estádio com nome de santo está a fiar-se nele e nos seus apelidos e em que Éder tenha uma veia de Charisteas.

96' - Estou a ficar tão esgotado como os jogadores. Os comentários tornar-se-ão mais esporádicos. Penso.

104' - O Éder quase marcava. Estou a delirar por causa da ansiedade, só pode ser.

 

Intervalo do prolongamento: É difícil perceber este jogo. A França deveria estar a vencer por uns 4 ou 5 mas Portugal ainda se está a aguentar. Ou os deuses estão connosco ou estão numa de ser mesmo cruéis. Eu inclino-me para o último, depois da lesão do Ronaldo.

Nota extra: depois de revisto, retiro parte do comentário do minuto 8. Não foi realmente falta, penso. Ou poderia ser, mas soft. O que houve, e muito, foi azar.

 

109' - O ÉDER?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!?

 

110' - A sério. O Éder? Vou telefonar ao médico que estou mal. Muito mas mesmo muito mal. Mas só depois do fim da alucinação.

112' - Esqueci-me de comentar: o Raphäel Guerreiro demonstrou porque razão era parvoíce ter o Ronaldo a marcar livres.

114' - O William Carvalho fez um pacto com o diabo. É impossível que tanto centro lhe vá parar direitinho.

116' - O Raphäel Guerreiro não tem autorização para estar lesionado. Que vá para ponta-quieta, mas tem de ficar em campo.

119' - Dói-me.

 

122' - EU NÃO ACREDITO!!!!!

 

Fim do jogo. Morri. Até amanhã quando acordar no hospital e me disserem que imaginei.

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Queimando os últimos cautchus*

por João André, em 08.07.16

Analisando o jogo de ontem, aqui.

Prevendo o jogo de domingo, ali.

 

Vendo as asneiras acumuladas, e são muitas, certamente.

 

* - há quem saiba...

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O mundo às avessas

por João André, em 07.07.16

Não houve empate? Como? Como é possível? Vão lá colocar o microfone outra vez no lago, isso deu galo. Onde á que já se viu, ganhar um jogo (um jogo ganho no prolongamento conta como empate, não me lixem, eu marco isto à totobola) neste torneio. Marcar golos e não os sofrer? Não sofrer sequer nos minutos finais no caso de uma vitória? O habitual seria sofrer o 2-1 aos 85 minutos e depois rezar aos santinhos todos para nos aguentarmos. Não dá, este coração não aguenta esta falta de sofrimento. Mais um pouco e deixamos de tocar fado e tornamo-nos todos baptistas, não querem lá ver? Da forma como isto vai ainda ganhamos no domingo, com 3-0 sem espinhas, o défice estrutural desaparece, Sousa Tavares, Rita Ferro ou Rodrigues dos Santos ganha o Nobel da Literatura, Durão Barroso é escolhido para secretário geral da ONU e José Sócrates é canonizado pelo Patriarca de Lisboa que passa a ser o novo Papa sem ter de se tornar o bispo de Roma.

 

Ou então perdemos e fica tudo na mesma.

 

Análise mais a sério aqui.

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Continuando com a série, explicarei agora quais os tipos de membranas existentes. Primeiro falando da técnica em uso e depois, noutro post, do material em si.

 

2.1. Tipos de membranas - Técnica

As membranas podem ser divididas em membranas para aplicações com líquidos e membranas para aplicações com gases. As aplicações com líquidos são as mais comuns e é o campo onde se encontra o tratamento de água. De forma geral, com líquidos, pode-se falar em 4 tipos de membranas, dependendo do tipo de componentes a que são permeáveis. Esta separação está apresentada graficamente na imagem abaixo. Nota para quem queira ler o resto do texto, as explicações vão-se tornando algo técnicas, mesmo que eu tente deixá-las o mais simples possível.

 

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 Tipos de separação possíveis com cada tipo de membrana, baseados no tamanho dos componentes a separar.

 

Já acerca de membranas de outros tipos (separação de gases, usando electricidade ou outras), escreverei noutra altura.

 

 

Foi há já muito tempo que publiquei o primeiro post. Agora, finalmente tive o tempo, a disponibilidade e a motivação para completar o segundo post. Apenas posso desejar que o próximo não dure tanto tempo.

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CLYxWhF.jpg

 A fotografia acima foi retirada de um post no LinkedIn. A legenda conta a história:

«Wolf pack & strategy: The first 3 are the older or sick & they set the pace of the group. If it was on the contrary, they would be left behind and lost contact with the pack. In ambush case they would be sacrificed. The following are the 5 strongest. In the center follow the remaining members of the pack, & at the end of the group the other 5 stronger. Last, alone, follows the alpha wolf. It controls everything from the rear. That position can control the whole group, decide the direction to follow & anticipate the attacks of opponents. The pack follows the rhythm of the elders & the head of command that imposes the spirit of mutual help not leaving anyone behind.»

 

Infelizmente a história é falsa e completamente inventada. A fotografia foi tirada por outro fotógrafo (Chadden Hunter) que não o citado (Cesare Brai) e faz parte da série de David Attenborough Frozen Planet. Não vou explicar muito sobre a foto e a história em si. Para tal, mais detalhes aqui.

 

A foto pareceu-me desde o início excessivamente limpa, clara e perfeita para a explicação. Por isso investiguei se seria verdadeira. Depois de explicar a realidade no post, fui atacado por não perceber o valor simbólico da metáfora e foi-me dito, incrivelmente, que a exactidão da história não era importante.

 

Isto é para mim difícil de entender: como é possível que a exactidão, a veracidade de um relato não seja importante? Se queremos histórias inspiradoras e didácticas podemos refugiar-nos em parábolas ou fábulas. São criadas para tal e, apesar da falta de fotografias que se partlhem na net, estão habitualmente muito melhor escritas.

 

A minha dificuldade é que, perante a falta de compreensão da fotografia, e mesmo aceitando a descrição como real, eu poderia virar a história ao contrário: os mais velhos existem para ser sacrificados, o/a alfa (figura que na realidade não existe) merece que se morra por ele/a e pode e deve controlar tudo. Interpretando a história falsa de outra forma pintamos uma imagem bastante desagradável. Especialmente quando a realidade basta: o líder segue na frente, usando a sua força para abrir um caminho que os restantes - que não são subordinados - seguem.

 

A net é uma fonte de informação mas a maioria usa-a como fonte de desinformação. Uma forte parte do problema é a incapacidade de usar alguma medida de espírito crítico que permita questionar o que nos chega às mãos (ou olhos). Não é, na minha experiência, exclusivo de nenhuma sociedade ou cultura, mas tende a ser tanto mais pronunciada (de novo, de acordo com a minha experiência) quanto menor for a formação científica.

 

O método científico, com todas as suas falhas, ensina antes de mais a questionar observações e a formular hipóteses que devem ser testadas. Isto é válido para um laboratório e para o cientista que faz as suas culturas num disco de Petri, mas também para o leitor genérico que vê um post no Reddit ou LinkedIn ou Facebook. A ignorância nunca é um pecado nem um defeito (todos somos vastamente mais ignorantes que conhecedores), mas a falta de espírito crítico ou de vontade de pensar é um dos maiores males modernos.

 

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Só esta citação para terminar. Lincoln sabia da poda.

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Porquê referendos?

por João André, em 28.06.16

Sei que vou ser atacado pelas minhas linhas seguintes. Em parte pela minha opinião e em parte por não ter talento suficiente para a explicar. Seja como fora, aqui segue.

 

Muitas respostas houve ao Brexit. Uma delas foi uma rejeição de referendos semelhantes por parte dos principais partidos de governo pela Europa fora. Muitas justificações foram sendo dadas para isso - conveniência, falta de necessidade, oportunidade, assunto já "referendado" por eleições gerais, etc - mas a figura do referendo, em si mesma, nunca foi contestada.

 

Não é essa em si a função do meu post, mas posso questionar de certa forma o referendo, pelo menos enquanto instrumento da democracia. Há países como a Suíça onde o referendo está tão institucionalizado que é parte da rotina. Outros há onde é tão excepcional que é feito apenas para questões socialmente fracturantes (como em Portugal). Vale a pena no entanto perguntar qual o objectivo de referendos.

 

O referendo em si tem uma vantagem que é também um problema: pede uma resposta (habitualmente) binária - sim ou não - a uma pergunta que é quase certamente extremamente complexa. O voto da passada quinta-feira no Reino Unido não era um voto por permanecer na, ou sair da, União Europeia. Era um voto que decidia a liberdade de movimentos de pessoas e bens, decidia a contribuição ou não para um orçamento comunitário, decidia o destino de milhares de pequenos regulamentos desde embalagens de ovos às etiquetas em garrafas de água. Foi no entanto um momento em que o voto foi simplificado pelos proponentes dos dois lados. Ficar ou sair. Partilhar ou ser independente. Aceeitar fluxos migratórios ou rejeitar imigração. Ser europeu ou britânico.

 

Importa que a discussão tenha sido feita da forma mais básica possível e que do lado do Leave as opiniões dos especialistas tenha sido não só ignorada como completamente desdenhada. É um efeito curioso da acessibilidade da informação que as pessoas queiram cada vez menos da mesma. Os votantes Leave que hoje se arrependem do seu voto são aqueles que não quiseram ouvir opiniões e votaram com as suas entranhas (guts no original). Não estão sós nisso. Em Portugal ouvi muitos votantes contra o casamento homossexual ou aborto dizer que nada tinham contra as pessoas em si, mas não gostavam dos mesmos e por isso votavam contra. Era uma reacção visceral e pouco pensada e/ou informada.

 

Uma questão semelhante poderia ser levantada em relação a alguns dos principais progressos do passado. Teriam os homens votado a favor do voto feminino se chamados a pronunciar-se? Teríamos acabado com a escravatura (os países que o fizeram) se esta tivesse ido a referendo? Teriam os estados do sul aceite uma imposição referendária federal nos EUA para acabar com as leis Jim Crow?

 

Poucas pessoas conseguirão argumentar de forma minimamente convincente que a UE (ou os seus antecessores) não é responsável pelo mais longo período de paz na Europa. Teria esta organização saído sequer do papel se a CECA fosse a referendo em França? Teria o Tratado de Roma sido aceite? Creio que não: o ressentimento popular contra a Alemanha seria ainda demasiado forte para França ou Holanda aceitarem tais compromissos. Muitos outros exemplos poderiam ser dados ainda sem chegar a 1992.

 

Poderia mesmo perguntar-se se a resposta não seria um rotundo "Não!" no caso de a pergunta ser feita hoje, décadas depois dos benefícios desses tratados e alianças serem sentidos. Há um hábito de falar no "eleitorado" como se fosse um corpo orgânico, capaz de uma mente colectiva de onde os resultados chegam como mensagens. No entanto cada eleitor vota sozinho, na solidão da sua cabine e pode mudar o sentido de voto decidido desde há semanas com base numa pulsão do momento. Não serão muitos a fazê-lo, mas num voto apertado, podem ser suficientes.

 

Vale então a pena perguntar: queremos mesmo fazer perguntas tão decisivas sobre o sistema político ou sobre direitos sociais num referendo? Não será melhor entregar essas decisões aos nossos representates, os quais discutem os assuntos, auscultam (ou deveriam fazê-lo) os seus eleitores, trazem o debate de forma progressiva para a arena pública e evitam que argumentos simplistas contaminem a discussão? Em alternativa, se preferirmos o referendo, não seria melhor banalizar de tal forma o referendo que este se tornasse quase incontaminável? Se perguntarmos tudo, desde a cor das matrículas ao teor de sal nos pães, os eleitores acabarão por se tornar mais impermeáveis a argumentos populistas.

 

Gostaria que assim fosse, mas o exemplo suíço, com os seus votos contra a construção de minaretes (quando o país tinha apenas meia-dúzia) ou para limitar a liberdade de movimentos de cidadãos estrangeiros (directamente afectando as relações económicas com a UE) apontam para o quanto é fácil influenciar certos referendos usando simples argumentos que apelam aos medos dos eleitores. Não quero com isto dizer que esses medos não devem ser considerados, apenas que não devem dominar uma decisão como provavelmente o fizeram.

 

Quem defende o referendo fá-lo de forma sincera argumentando, com bastante lógica, que será a forma mais pura de democracia. Infelizmente, quando a resposta é para aceitar ou rejeitar, deixam de existir zonas intermédias. A política é a arte do possível, não uma ciência exacta. Uma mudança política ou social é um acto eminentemente político, mesmo que tomado pela população em geral. Como tal não deve ser tomada usando linhas vermelhas e fronteiras inamovíveis. É no entanto este o território dos referendos.

 

Pode sempre argumentar-se que o resultado de um referendo pode sempre ser colocado em causa por outro, mas para tal entramos novamente no território da política, da arte do possível. O referendo deixa de ser um instrumento de democracia, por falho que seja, para ser um instrumento de manipulação por parte dos políticos. Um referendo é então repetido as vezes que forem necessárias até se obter o resultado desejado. Na melhor das hipóteses torna-se uma consulta, onde os resultados levam a uma mudança na pergunta ou nas condições oferecidas. Na pior torna-se uma farsa.

 

O referendo britânico de quinta-feira não era vinculativo, mas David Cameron, o primeiro-ministro demissionário disse desde o início que o aceitaria, independentemente do resultado. Há no entanto já quem defenda que, na ausência de uma constituição que consolide o resultado, uma eleição geral que desse a vitória a um partido eleito numa plataforma clara de permanência na UE seria o suficiente para anular o resultado.

 

Pessoalmente não gosto da figura de referendos enquanto instrumentos vinculativos. Poderão ser usados como consultas populares, mas mesmo nesse caso seria difícil a um governo (ou parlamento) seguir em direcção oposta à do resultado de tal consulta. Prefiro claramente uma evolução lenta, onde após cada pequena alteração o sentimento público seja auscultado e potenciais passos seguintes acelerados ou atrasados. A maior parte dos grandes avanços políticos e sociais foram resultado de tais acções e raramente de verdadeiras revoluções. Mesmo o principal avanço político moderno, na forma do governo dos EUA, foi proposto por um grupo de homens sem qualquer vontade de pedir a opinião da população que seria afectada pelas suas decisões.

 

Claro que cada povo deve ter liberdade de seguir o caminho que entender, mesmo que isso implique um retrocesso (cada pessoa que veja um retrocesso como entenda). Só que um referendo tem frequentemente o efeito de dar um peso extra a uma decisão. Esta fica escrita em pedra mais facilmente num referendo, o resultado do qual não pode ser facilmente alterado, do que numa eleição geral, onde os representantes por vezes acabam por tomar decisões em direcções opostas àquelas das plataformas em que foram eleitos.

 

Escrevi que não pretendo contestar em si o instrumento do referendo, antes questionar o seu objectivo. Torna-se claro que o considero pouco útil, mas o meu post não é um apelo à sua rejeição, antes a que ele seja por outros questionado de forma real, mesmo que cheguem à conclusão oposta à minha. Haverá quem me acuse de propôr elitismo e não querer ouvir a população (já sei o que alguns me acusarão de ser...) mas não é essa a minha intenção. Existem mecanismos de auscultação das opiniões dos eleitores. Chamam-se eleições e temos diversas à escolha. Se queremos mais democracia, talvez devêssemos reformar o sistema político. Pedir referendos, a meu ver, não é entregar decisões aos eleitores: é um lavar de mãos dos políticos e permitir que os "argumentos" mais estridentes ganhem peso. A solução não é uma democracia binária. É uma democracia melhor.

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Análise: Portugal - Croácia

por João André, em 27.06.16

Antes de mais: esta é uma semi-análise dado que não consegui ver a primeira parte. Da mesma forma não fiz qualquer análise do Portugal - Hungria onde só vi os últimos minutos.

 

Quero começar com uma confissão: quando a Croácia beneficiou de um pontapé de canto perto do fim dos 90 minutos, dei por mima  pensar: «marquem pel'amor de tudo o que vos é sagrado». E não era necessariamente um pensamento dirigido a um eventual contra-ataque português.

 

O jogo será definitivamente arquivado com a etiqueta "jogo muito táctico" mas deveria levar coma bolinha vermelha de "aconselhável apenas a pessoas com insónias". Analisar a táctica é simples e complicado. Simples porque pouco houve a analisar. Complicado porque é difícil explicar táctica quando as duas equipas se anularam.

  

 

 

 

Também aqui.

Leitura complementar: um problema chamado Ronaldo.

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Análise: Portugal - Áustria

por João André, em 20.06.16

Também aqui.

 

Mais um jogo, mais uma oportunidade perdida de vencer. Portugal jogou melhor que contra a Islândia (parcialmente porque os austríacos jogaram mais abertos) e criou suficientes oportunidades, mas continuou a não conseguir concretizar. Cristiano Ronaldo perdeu diversas oportunidades mas, mais que aquelas que falhou, notou-se que não está ao seu melhor do ponto de vista físico. As mudanças de jogadores tiveram alguns pontos positivos mas talvez pudessem ter sido outras. Portugal acaba por ficar quase obrigado a vencer contra a Hungria (líder do grupo) para poder garantir o apuramento.

 

 

 

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Não me foi possível fazero comentário em directo ao jogo aqui. Deixo os comentários (bocas) que ia fazendo no meu Facebook (só a partir do intervalo), com o momento aproximado.

 

Intervalo: Digam à embaixada em Madrid que o cidadão Cristiano Ronaldo está desaparecido. Aquele em França é um impostor.
Ou então é da loja dos 300. Se virmos a etiqueta diz "Crostiano Ranoldo" ao lado de "Neki".

 

50' - Era para isto que se insistia no Quaresma?

70' - Estatisticamente o Ronaldo já devia ter mais golos de livres directos.

77' - Se o Ronaldo tivesse outro neurónio seria o melhor jogador de todos os tempos.

80' - Case in point...

81' - Acho que até o que tem meteu férias.

83' - Jogo fabuloso: André Gomes.
Jogo excelente: William Carvalho.
Jogo muito bom: Raphaël Guerreiro, Ricardo Carvalho.
Jogo bom: Rui Patrício e Nani.

Os outros... Enfim, de sofrível a mau.

88' - Rafa Silva a 2 minutos do final? Deve ser para queimar tempo.

89' - Olha o Éder. Os austríacos estavam de facto a precisar de mais um central.

94' - O João Moutinho deve ter feito um time share daquele espaço no meio campo. E o Fernando Santos é o agente.

 

Fim do jogo - Isto é tudo estratégia. Ganhar o grupo dá Bélgica. Segundo dá Gales ou Eslováquia. "Tou-te a topar..."

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Migration Remix (DJ Costa)

por João André, em 15.06.16

Quando o governo anterior aconselhou os portugueses a emgrar, insurgi-me. Não é por este governo ser de esquerda ou ter apoio da esquerda que mudo de agulha. Um governo tem como primeira prioridade ajudar os portugueses a viver em Portugal, idealmente criando condições para ter emprego digno no país (que não é o mesmo que "dar" emprego). Quando um governo apela aos cidadãos (mesmo que uma pequena parte deles) que mudem de país está a dar uma imagem de desistência, que não vale a pena tentarem manter-se no país, que nada ali haverá para eles.

 

Escrevi algo nestas linhas no passado. Repito-o agora. Os apelos devem sempre ser à imigração e nunca â emigração. Gostaria de pensar que Costa queria apenas indicar que este governo apoia o contacto com a população emigrante, mas não sou assim tão ingénuo. Este tipo de declarações é sempre inaceitável num governante, seja lá qual for a sua cor política.

 

Os meus pais diriam: muda o disco e toca o mesmo. Hoje em dia falamos de remixes.

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Análise: Portugal - Islândia

por João André, em 15.06.16

Mais comentários ao Europeu aqui.

 

O jogo de ontem fez-me lembrar frequentemente o único outro que vi até agora de princípio ao fim: o Bélgica-Itália.

 

Uma selecção apresentou-se como equipa, com o seu melhor jogador a não ser mais que uma peça extra e apenas mais um homem no sistema. A outra apresentou-se como uma colecção de indivíduos em que um deles é visto como superior aos outros. A diferença em relação ao outro jogo é que as peças individuais do onze que se apresentou como equipa não têm a mesma qualidade. Por isso o jogo terminou com um empate em vez de uma vitória da equipa em vez da colecção de indivíduos.

 

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Tácticas à direita

por João André, em 10.06.16

Quem me lê sabe perfeitamente que eu sou de esquerda. Devido às minhas posições e ao contraste com os da maioria dos autores do blogue, muitos confundem o meu posicionamento político. Tento esclarecer o máximo possível as minhas posições, mas na realidade não me incomoda muito quando alguém confunde as minhas coordenadas.

 

Esta introdução, apesar de eu a considerar vã, é feita para poder esclarecer que, qualquer que seja a minha posição política, tenho sempre respeito por quem tem opiniões diferentes das minhas. Estou há muito afastado da política e não tenho interesse em a ela regressar, pelo que as minhas opiniões são minhas e, se coincidem ou não com as de outros, isso é sempre bem-vindo, desde que isso suceda por reflexões reais.

 

Comentários como o do Diogo Noivo aqui abaixo não mais é que uma "boca" gratuita, sem reflexão e com a intenção de difamar um partido. Nesses intuitos falha por várias razões. O primeiro é simples: sem definir o que é ser-se "esquerda radical", Diogo Noivo apenas pretende que se associe o Bloco de Esquerda ao epíteto de "radical" para desacreditar o partido. Se fizesse um exercício de reflexão honesto sobre o assunto, chegaria à conclusão que por muito que as posições sejam diferentes, "radical" não é algo que possa atribuir-se ao BE, a não ser que se tenha uma visão muito restrita do termo.

 

Por outro lado, tenta difamar ao associar o BE ao PCP. Dado que se trata de dois partidos com representação parlamentar e que seguem as regras da democracia portuguesa, a associação pode querer confundir os dois partidos mas para qualquer pessoa objectiva acaba por falhar o alvo - por muito que se copiassem, PCP e BE não seriam "radicais".

 

Por último, falha quando associa os dois partidos por causa de um comentário. Suponho que pela mesma lógica também associasse Donald Trump ao PCP, já que tem andado a atacar os grandes interesses económicos nos seus comentários populistas e, esses sim, violentamente radicais (sim, violentamente, é intencional e literal).

 

É um comportamento típico de todos os partidos, à esquerda e à direita, de se tornarem curiosamente míopes em relação às falhas dos próprios partidos (ou partidos próximos) quando no governo e de atacarem os outros partidos de forma cada vez mais forte e gratuita quando na oposição. No entanto, se a esquerda tem a tendência de ignorar os dados e se cingir cegamente à sua ideologia quando ataca um governo à direita, a direita opta por usar ataques cujo único propósito é conotar os governos de esquerda com algo de negativo.

 

Neste caso, o Diogo Noivo tenta meter dois partidos num único saco e dizer que são radicais, tentando assim, de uma única penada despachar os dois sem ter uma argumentação que se veja. O mesmo quando se fala na "geringonça", um termo que pegou e que é um disparate pegado, como qualquer democrata o perceberá (mas que escapará para sempre à cabecinha de Passos Coelho).

 

Mais abaixo o Luís, noutro tom, parece escolher os meios que lê ao escrever este post. Eu, que leio menos jornais que ele, já tinha percebido que a palavra "crise" andava a desaparecer dos jornais há um ano. Discordo em muito com o Luís sobre as razões e os supostos méritos do govrno de Passos Coelho, mas é um facto que o governo PS herdou um situação mais desafogada que a de há quatro anos. É por isso natural que o tom mude. E mesmo que não mudasse, que a crise estivesse apenas como antes, a simples fatiga leva os jornais a dar menos atenção. É algo que ele, como jornalista, saberá perfeitamente, mas terá esquecido no post. Por outro lado, não deixo de ler criticas constantes ao governo do PS, inclusivamente vindas da esquerda. Talvez eu tenha apenas sorte.

 

Seja como for, e seja lá quem for que esteja envolvido, irrita-me imenso quando a direita tenta lençar nuvens de poeira sobre o desempenho de um governo, olimpicamente ignorando factos quando lhe convém (hábito à esquerda e à direita) e, pior, tentando difamação por associação. Melhor seria ler posts como este da Ana, altamente justificado e fundamentado e o qual subscrevo.

 

Há muito por onde se pegar para qualquer ataque aos governos, é escusado andar a inventar nuvens negras.

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Uma Mesquita em Lisboa

por João André, em 31.05.16

Não acompanhei o assunto no início e cheguei a ele pelo post do Luís. Depois vi uma partilha do texto de João Miguel Tavares (um comentador de quem não gosto por diversas razões - que pouco têm a ver com as suas opiniões) no Facebook.

 

Deixo apenas o texto que um amigo, o Paulo Granja, colocou na sua página do Facebook e que me pareceu bastante melhor - independentemente das opiniões - que o de JMT.

 

JMT não sabe do que fala

Antes de mais, a intervenção urbana que tem sido reduzida à construção de uma mesquita insere-se numa operação de maior dimensão de requalificação urbana “entre o Martim Moniz e o Intendente, com o nome Praça-Mouraria”, e prevê a criação de um jardim, uma sala polivalente, de uma praça coberta e de uma ligação entre a Rua da Palma e a Rua do Benformoso, para além da referida mesquita (creio que também se prevê a requalificação/integração do Arquivo fotográfico municipal, já existente num edifício contíguo, mas não me recordo agora se o Arquivo será ou não formalmente integrado no projeto), sendo que o interior da mesquita ficará a cargo da comunidade muçulmana (creio que mais precisamente a cargo do Centro Islâmico do Bengladesh). A construção da mesquita neste bairro, e neste local em particular, justifica-se pela forte comunidade muçulmana do Bangladesh aí existente. De facto, já existiram 3 mesquitas em edifícios próximos, estando a última, frequentada por cerca de 600 pessoas, localizada num edifício para habitação, se não estou em erro, no Beco de S. Marçal, compreensivelmente com grande incomodo para moradores e para a vizinhança.

Segundo, o projeto de intervenção insere-se no Plano de Urbanização do Núcleo Histórico da Mouraria (o único ponto em que admito que JMT possa ter alguma razão é na aparente contradição entre a exigência feita ao proprietário/PUNH e a intervenção projetada, mas a legislação prevê que os poderes possam estabelecer exceções às regras e planos que os próprios fizeram aprovar, em nome do interesse público – como creio que foi feito com o PDM para a construção do novo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia -, mas se isso é bom ou mau é já outra discussão), e está a ser pensado desde 2009, altura em que mereceu apoios do FEDER/QREN. O projeto final de arquitetura foi apresentado a discussão pública e votado favoravelmente por todas as forças partidárias com representação na Assembleia Municipal de Lisboa em 2012.

Em terceiro lugar, sim, a CML também patrocina igrejas, sinagogas e templos de Shiva (se o deveria fazer ou não é outra questão…). Que me lembre, a CML já apoiou o Centro Ismaili, O Centro Hindu, O Museu Judaico e a (re)construção de várias igrejas católicas – estou a lembrar-me da Nova Catedral de Lisboa, a construir perto da Parque Expo. Nalguns casos (Museu Judaico e Igreja Católica), os apoios financeiros chegam também aos vários milhões de euros, já para não falar nas operações urbanísticas envolvidas (creio que no caso do Museu Judaico está prevista a intervenção/requalificação de vários edifícios no centro histórico de Alfama, mesmo ao lado da Igreja de S. Miguel).

Resumindo, não se trata apenas de pagar uma mesquita.
Não houve falta de discussão pública, nem atropelos à legislação e regulamentos camarários – se houve, serão dirimidos em local próprio, os tribunais.
Não foi uma proposta socialista ou sequer de esquerda feita a revelia dos partidos de direita, a direita também votou favoravelmente o projeto.
E sim, a CML, e não o Partido Socialista, apoia financeira e logisticamente, várias outras confissões religiosas.

JMT pode contentar-se em comentar artigos publicados no jornal onde escreve sem se dar ao trabalho de se informar. Isso também eu posso fazer, a diferença é que não sou jornalista e não me pagam para isso.

 

Leitura complementar: A mesquita da Mouraria, o Google e o Facebook.

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Jogadores preferidos

por João André, em 24.05.16

Um intróito a despropósito: no outro estaminé tenho nova série (como sempre infrequente): jogadores preferidos.

Também devo ter adicionado algo mais à outra série que vou escrevendo quando dá: equipas de sonho.

 

Publicidade terminada, siga a leitura.

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Fora de série (7)

por João André, em 21.05.16

 

«I have a cunning plan».

 

Para quem conhece a referência, poucas outras palavras conseguirão provocar riso tão facilmente sem qualquer outra referência ou contexto. Referências a criados semi-escravos e só tangencialmente humanos, líderes tão incompetentes que não conseguem vestir calças, pares cujo ódio está tão repleto de bonomia que o veneno que pinga de todas as sílabas pode ser dispensado e recebido com sorrisos sinceros. Tudo isto preenche o universo Blackadder, a série de comédia que conseguiu um segundo lugar na votação da BBC sobre as melhores britcoms (o vencedor foi uma série pouco conhecida em Portugal - Only Fools and Horses - brilhante mas com referências muito específicas temporal e geograficamente).

 

 

Em Portugal passava na RTP2 à hora do telejornal, para meu azar. Com apenas uma televisão em casa - e já tinha sorte - eu tinha de esperar que o meu pai não estivesse em casa para poder mudar de canal e poder rir-me um bocado (a minha mãe aceitava mais facilmente perder as notícias da noite). Havia no entanto um pequeno obstáculo: o humor dependia de tal forma do conhecimento de inglês (muitas piadas eram intraduzíveis) e de história, preconceitos ingleses, tradições, etc, que só consegui começar a apreciar convenientemente a série alguns anos mais tarde, quando a redescobri. Ainda hoje, quando tenho todas as séries, os episódios especiais e até as raridades, vou descobrindo pequenas pérolas que me escaparam no passado, mesmo enquanto me rio perdidamente das piadas que sei virem a seguir.

 

 

Dentro das 4 temporadas, a mais fraca é, excepcionalmente, a primeira. Blackadder é apresentado como uma versão de Mr. Bean (a personagem que mais é identificável com Rowan Atkinson). Um idiota fraco, sem ideias ou convicções, apenas ganância sem fim e escrúpulos inexistentes. Nesta série os seus acompanhantes (Baldrick à cabeça) são inteligentes e oferecem os melhores planos. O rei é já a personagem de autoridade brutal mas não idiota, apenas completamente desinteressado nos seus filhos - Edmund Blackadder é constantemente chamado de "Edna"). O texto era já excelente, mas o efeito cómico ainda algo diluído pelas diversas personagens e sem a secura que caracterizou as restantes temporadas.

 

A partir da segunda temporada, é quase impossível referenciar uma sem as outras. Os temas atravessam todas as temporadas e não existe uma linha temporal que obrigue a seguir os episódios por ordem. A principal excepção será sempre o episódio final (4ª temporada), que exclui toda e qualquer continuação (pelo menos com aquelas personagens). Esta é talvez a temporada que mais escapa ao tom genérico de sátira bem humorada das séries, referenciando a vida nas trincheiras (café de lama e rato estufado são o prato du jour) e acaba com um dos finais mais amargos que seria de esperar para uma série de comédia, com os principais protagonistas a correrem para as suas mortes. Todo o episódio aliás nos prepara para esse final, incluindo o momento em que, julgando ter escapado esse destino, três personagens interpretam o silêncio nas trincheiras como o armistício que assinalaria o fim da Grande Guerra de 1914-17 (um momento de grande comédia, hilariante e cruel ao mesmo tempo).

 

 

Pessoalmente não consigo apontar temporadas preferidas, tendo antes momentos preferidos. Como episódio é difícil fugir ao episódio, na 4ª temporada, em que o Capitão Flashheart irrompe pelos ecrãs (já tinha surgido noutra forma na segunda temporada). São no entanto os pequenos diálogos entre Blackadder e Baldrick que ficam mais presentes. Aliás, muitos dos diálogos de Blackadder acabam por ser essencialmente solilóquios em que este lamenta a sua sorte e condição («The path of my life is strewn with cowpats from the Devil's own satanic herd!»). Pérolas das séries, escolhidas sem critério:

 

 

Baldrick, get the door.

- Who's using the family brain cell at the moment?

Blackadder: Ah, Melchett! Greetings! I trust Christmas brings you its traditional mix of good food and violent stomach cramp. / Melchett: And compliments of the season to you, Blackadder. May the Yuletide log slip from your fire and burn your house down.

- I should've known not to trust a man with the mental agility of a rabbit dropping!

My head feels like there's a Frenchman living in it.

- They are so poor that they are forced to have children as a cheap alternative to turkey at Christmas.

She is famous for having the worst personality in Germany and, as you can imagine, that's up against some pretty stiff competition.

He's madder than Mad Jack McMad, the winner of last year's "Mr. Madman" competition.

A man may fight for many things: his country, his principles, his friends, the glistening tear on the cheek of a golden child. But personally I'd mud wrestle my own mother for a ton of cash, an amusing clock, and a sack of French porn. You're on.

The greatest work of fiction since vows of fidelity were included in the French marriage service.

Skirt? Ha! If only. When I joined up we were still fighting colonial wars. If you saw someone in a skirt you shot him and nicked his country.

In one short evening I've become the most successful impresario since the manager of the Roman Coliseum thought of putting the Christians and the Lions on the same bill.

Never, in all my years, have I encountered such cruel and foul-minded perversity! Have you ever considered a career in the church?

what we are talking about in privy terms is the latest in front wall fresh air orifices combined with a wide capacity gutter installation below.

Just because I can give multiple orgasms to the furniture just by sitting on it, doesn't mean that I'm not sick of this damn war: the blood, the noise, the endless poetry.

Captain Darling? Funny name for a guy isn't it? Last person I called darling was pregnant twenty seconds later.

The Teutonic reputation for brutality is well-founded. Their operas last three or four days. And they have no word for "fluffy".

 

O segredo da série passava então pela sua escrita mas também pela qualidade dos actores. Não é fácil fazer vezes sem conta o mesmo comentário, com pequenas variações de texto e de timing e conseguir sempre o efeito cómico pretendido. Rowan Atkinson conseguia o seu propósito porque estava tão longe da sua persona televisiva habitual. Tony Robinson consegui o milagre de aparecer como a pessoa mais estúpida da História. Stephen Fry dava corpo a personagens fortemente beligerentes e cúmulos do machismo. Hugh Laurie (hoje o mais conhecido do grupo graças a House) repetia o milagre de aparecer idiota com o cúmulo de o fazer com personagens distintas. Tim McInnerny, Miranda Richardson e Patsy Byrne empregavam o seu brilhantismo de palco às personagens e uma galeria de outros excelentes actores britânicos ia aparecendo de tempos a tempos (Robbie Coltrane, Jim Broadbent ou Miriam Margolyes são exemplos).

 

O episódio mais recente de exibição pública foi Blackadder: Back and Forth (link para o filme no YouTube), exibido na passagem de ano de 2000. De tempos a tempos repetem-se os rumores que uma nova série, um filme ou um novo episódio estarão em preparação. Os actores confirmam e depois negam os rumores. McInnerny terá dito que preferia que os espectadores mantivessem na memória as personagens como eram, não como os actores são hoje. Não me importo. Qualquer nova temporada que arriscasse estragar o brilhante trabalho do passado seria má ideia. O final da 4ª temporada foi o ponto final perfeito: um avançar resignado, mas sempre espirituoso, para o fim.

 

 

Quanto aos planos de retomar, que fiquem como todos os planos em Blackadder: cunning, mas no fim inconcretizáveis e falhados.

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Inverter Pessoa

por João André, em 06.05.16

Reflectindo sobre o post do Pedro, náo posso deixar de pensar que este acordo ortográfico é de facto a verdadeira geringonça do país. Não pela vertente técnica ou científica, sobre a qual não tenho competência para me pronunciar, mas pela vertente política.

 

À partida nada tenho contra uma reforma que elimine as vogais mudas da nossa ortografia. Qualquer reforma que torne a ortografia mais fonética simplificaria a língua sem que a tornasse menos subtil e rica. Não consigo pronunciar-me sobre as dificuldades ou objecções científicas de tal hipotética reforma (o Pedro avança algumas com os casos «Egito"/egípcio, "caráter"/característica ou "setor"/sectorial»), mas é difícil argumentar que uma completa opção pela simplificação da escrita não seria preferível. Pessoalmente teria dificuldade em a adoptar (tal como não adoto esta), pura e simplesmente porque aprendi a escrever a minha língua de uma determinada forma e demorará tempo até que pudesse escrever de forma natural de outra (da mesma forma que muita gente continuou a escrever pharmácia até ao fim da sua vida). As futuras gerações, no entanto, não teriam os mesmos problemas.

 

Só que essa seria uma reforma que teria de ter um aval científico. Na França, a língua é regulamentada por um organismo estatal (ou mandatado pelo Estado, como no passado a Académie Française). Na Alemanha é o Conselho para a Ortografia Alemã que assume o manto de guardiã da língua (ou, pelo menos, da sua ortografia). Em ambos os casos, as reformas promulgadas no passado foram contestadas e alvo de críticas (como provavelmente qualquer reforma o seria). No caso da reforma alemã de 1996, alguns dos aspectos mais polémicos foram retirados após oposição de vários agentes (nomeadamente o - deveria escrever a? - prestigiado Frankfurter Allgemeine Zeitung). Na França, as novas regras receberam oposição mas não foram, em geral, impostas e foi considerado que ambas as versões seriam correctas. A implementação das regras ficou a cargo de cada indivíduo ou organização, sendo as novas regras apenas recomendadas para funcionários públicos.

 

Já o Inglês segue o percurso oposto. É uma língua onde não há uma organização central que regule o seu uso e aplicação e que, como tal, se torna muito mais orgânica e fluida. Poderá dizer-se que neste caso a âncora da língua são as publicações mais veneradas, como o Diccionário da Língua Inglesa de Samuel Johnson, A História do Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon, as obras de William Shakespeare ou, fundamental, a Bíblia do Rei James (exemplos que já vi referidos no passado - outros poderiam ser citados). A partir daqui é possível encontrar variações na ortografia entre diversos países (o uso do "s" em Inglaterra e o "z" nos EUA, nomes terminados em "ough" em Inglaterra passam a terminar em "o" nos EUA, etc) mas também diferenças enormes na pronúncia de sons escritos da mesma forma em palavras diferentes ("ough", por exemplo em "tough" e "thorough", é o meu caso preferido).

 

Poderia argumentar-se que a penetração do Inglês demonstra a importância de não acorrentar a língua e a manter plástica, mas eu não subscrevo este ponto. Vejo o domínio do Inglês como o resultado das actuais situações geopolítica, geoestratégica e geoeconómica. No passado o Inglês já tinha demonstrava esta plasticidade e no entanto o domínio de línguas como o italiano, alemão ou françês demonstraram que a importância segue mais linhas sociais que normas (ou ausência delas) científicas.

 

Há ainda no Inglês um risco: ao permitir a sua evolução independente, não demorará a que o Inglês nos EUA seja ininteligível para os ingleses e vice versa (em muitos casos os norte-americanos já demonstram dificuldades em compreender os nativos do Reuno Unido). Mesmo dentro de um país tão vasto como os EUA, a evolução da língua poderá levar ao surgimento de não só dialectos como de línguas distintas.

 

Seja como for, isso estará no futuro. Para um estrangeiro, aprender uma língua como o Inglês é facilitado pela flexibilidade que eliminou elementos mais complexos. Já a normalização da língua como com o Alemão ou Francês, conforta quem a aprenda, por não se defrontar tão facilmente com múltiplas variações.

 

Em qualquer dos caso, há no entanto uma definição clara em favor da auscultação da audiência a quem a reforma (ou sua ausência) se destina. O Alemão e Francês surgiram de esforços escolásticos claros e permitiram ajustes e períodos de ajustamento. O Inglês nunca perdeu o seu carácter transiente e informal.

 

Impôr uma reforma administrativa sem grande lógica ou coerência científica (é o que percebo em relação a este acordo) e não admitir um período de nojo para a sua implementação e teste é o maior pecado que qualquer Estado pode cometer em relação à sua Língua. Pessoa escreveu que a sua pátria era a Língua Portuguesa: o Estado quer inverter a relação, tornando o Estado a pátria do portuguès. Isto, mais que a reforma em si, é o que me move contra o acordo.

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Observações ociosas sobre empresas

por João André, em 22.04.16

Só porque me apetece...

 

Trabalhar fora do nosso país e, além disso, andar a mudar de país e de empresa permite fazer considerações interessantes. Algumas delas:

  • Não existem muitas empresas verdadeiramente multinacionais. A maioria delas serão empresas de um país com presença internacional. Sem se saber razoavelmente (um)a língua desse país de origem, a progressão é difícil. A principal excepção são empresas resultantes de fusões e ainda assim o carácter das empresas originais acaba por se manter.
  • Quanto maior a empresa, maior a burocracia e esta cresce de forma exponencial em relação àquela. A partir de determinado tamanho, a máquina burocrática da empresa assemelha-se à da de um estado, por muito lean que seja a empresa.
  • Na maior parte dos casos, a nebulosa "cultura" da empresa pouco mias é que um branding para consumo externo. Nos casos em que funciona, é necessária uma política de endoutrinação a lembrar os sovietes.
  • Open office é interessante e promove informalidade e troca de ideias. No caso de profissões que exigem mais concentração, no entanto, este conceito pode ser um obstáculo ao desempenho de muitos profissionais.
  • É vantajoso tentarmos ser pessoas produtivas logo pela manhã e quanto mais cedo melhor. Se o nosso horário pessoal o permitir, estar cedo no escritório permite tratar de burocracias, responder a e-mails, escrever relatórios, etc, antes da confusão, barulho e reuniões chegarem. Também permite sair mais cedo.
  • Alemanha, Holanda e Bélgica são todas vizinhas. Há no entanto enormíssimas diferenças culturais e de hábitos entre si.
  • Ter um smartphone de serviço com ligação à internet e aos e-mails tem a vantagem de estarmos sempre disponíveis. Tem no entanto a desvantagem de estarmos sempre disponíveis.
  • Se gostamos do que fazemos, o conceito de work-life balance é inexistente. Se tivermos um smartphone de serviço com acesso à net também, independentemente do gosto pelo trabalho.
  • A partir de certo nível de experiência deixa de haver segredos para as empresas de recrutamento. Mesmo que não partilhemos detalhes nas redes sociais/profissionais.
  • Vida social-trabalho-descanso é um diagrama ternário. Sem binodais.
  • Os empregados de uma empresa vêem os serviços de IT como existindo para permitir o trabalho da empresa.
    Os funcionários de IT vêem a empresa como existindo para permitir o trabalho de IT.
  • Os Recursos Humanos são o departamento mais criativo e com maior capacidade de argumentação de qualquer grande empresa. Para justificarem a sua existência conseguem convencer a direcção agastar milhões a espaços regulares para promover novas reorganizações sem provas que a anterior tenha falhado.
  • A promoção agressiva da ambição e progressão de carreira é dos maiores erros que uma empresa pode promover. Se promove os seus melhores funcionários apenas acelera o avanço até ao nível de incompetência e remove da lista os seus melhores especialistas e guardiões de conhecimento.
  • Seja onde for, há sempre reuniões a mais.

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Equipas de Sonho - Dream Team 1992

por João André, em 14.04.16

Relembrando uma equipa de sonho. Fora do futebol

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Contra os terroristas, informar, informar(-nos)

por João André, em 27.03.16

Trabalho em na Bélgica, e vivo na Holanda. Isso significa que todos os dias atravesso a fronteira. Depois dos atentados da semana passada, comecei a ver que para entrar na Holanda havia engarrafamentos de 10 km a provocar attrasos de uma hora. Consequência dos controlos fronteiriços impostos pelas autoridades holandesas. Ao mesmo tempo as estações de Maastricht e Leuven estiveram fechadas por causa de embalagens abandonadas (talvez tenha havido outros casos nos dois países, mas estes conheço melhor). Também me chegou aos ouvidos que uma auto-estrada belga foi encerrada temporariamente porque estaria uma embalagem à beira da estrada.

 

Casa roubada, trancas à porta. É a natureza humana. Depois dos atentados, mesmo sendo inútil, tomam-se medidas excepcionais para tentar evitar que se repitam. Não adianta muito, claro. Os bombistas eram suicidas - não deixaram embalagens abandonadas, e eu nunca me atrasei porque o Google Maps me deu alternativas onde não existiam engarrafamentos - logo, sem controlos fronteiriços. Isso não impede que se tente, até porque é necessário para tentar transmitir a imagem de se estar a fazer qualquer coisa.

 

Por isso não concordo com uma linha que seja do Luís neste post. A polícia belga está a usar imensos recursos nas suas buscas por possíveis cúmplices dos terroristas. Está simultaneamente a procurar outras possíveis células. Não tem neste momento condições para deslocar forças que protejam os muitos milhares que certamente surgiriam numa manifestação permitida. Com os mil que surgiram já houve problemas. Imaginemos com uns 20, 30 ou 100 mil. Além disso há a simples questão de bom senso: se a polícia tem informações que ainda existirão terroristas não identificados, activos e livres, uma tal manifestação seria o mesmo que abrir um camião de mel numa zona de ursos.

 

Já quanto à referência a Alberto Gonçalves, fiquei de início de pé atrás. Confesso que não gosto de o ler. Normalmente prefiro as cartas da Maya, uma literatura infinitamente mais inteligente. Decidi dar o benefício da dúvida e agora, depois de dois lexotans, posso concluir que é o monte de esterco habitual. Desde a imbecilidade inicial sobre "terrorismo islâmico" ser um pleonasmo até ao facto de não perceber absolutamente nada sobre o que, por exemplo, serão medidas que recaem sobre a população afectada (mostrar solidariedade, o elogio pontual do trabalho das autoridades, etc) e aquilo que poderão ser medidas de combate aos terroristas. Alberto Gonçalves, o burro idiota (estes sim, pleonasmos), não percebe aquilo sobre que escreve (sic) e ainda aproveita para demonstrar a sua intolerância. Volto assim à minha dieta e não o lerei nos próximos anos, a bem da minha saúde mental.

 

Há por fim um aspecto que é essencial entender: há sempre razões para os terroristas decidirem um dia enfiar um cinto de explosivos e matarem tanta gente quanto possível enquanto se suicidam. Não é por serem muçulmanos, não é por serem árabes, não é por serem loucos e criminosos, não é por serem - nem que por uns momentos - absolutamente desumanos. É por isto tudo e por muito mais. No penúltimo parágrafo, Alberto Gonçalves parece ter um momento de lucidez (terá o editor escrito isso?) e contradiz tudo aquilo que escreveu atrás. Os terroristas são-no por diversas razões, incluindo o local onde cresceram, as mensagens a que foram expostos, a percepção dos eventos que vão tendo, etc. Ignorá-lo e ignorar as vozes que o apontam - mesmo que apontem a sua razão como sendo "a única" - é perpetuar o problema.

 

Não sei resolver a questão. Se o soubesse posso garantir que o escreveria aqui para que pudesse ser devidamente ignorado. Sei no entanto que as razões para esta explosão se encontram no nosso presente e no nosso passado. Encontram-se nos cruzados de há mil anos e nos modernos (ou pelo menos percebidos como tal) que estupidamente ignoraram o xadrez geopolítico da região. Estão na pobreza de quem sofre todos os dias e na riqueza de quem lhes dá os meios para se irem explodir. Estão em muitos mais pontos que muita gente bastante mais informada e inteligente que eu já apontou. Mas não estão nem no post do Luís nem no artigo de AG (à excepção do momento out of body do parágrafo atrás).

 

Há muito que se sabe que informação é necessária para vencer guerras. Muita gente julga que bastam bombas ou um estado policial. Enquanto estes últimos dominarem, a guerra continuará a ser vencida pelos terroristas.

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O visionário nos ombros de gigantes

por João André, em 25.03.16

Um comentário à vida de Johan Cruijff. Para ser lido aqui.

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Uma posição pessoal contra a deriva populista

por João André, em 22.03.16

Hoje de manhã, a caminho do trabalho, vi um carro da polícia a seguir em direcção a Bruxelas. Vinha a ouvir música e não ouvi notícias. Soube depois pelos meus colegas dos ataques. Telefonei de imediato a uma pessoa que é quase família e que trabalha no Parlamento Europeu. Tinha estado na estação de metro apenas 20 minutos antes e a filha deveria apanhar o avião mais tarde. Soube por ela que toda a gente estava bem, inclusive os amigos comuns que vivem em Bruxelas.

 

Apesar de ainda viver na Holanda, trabalho na Bélgica e considero mudar-me para Bruxelas em breve. Isto serve apenas para dizer que não estou emocionalmente descomprometido com a situação, que está também a afectar vários dos meus colegas.

 

Espero no entanto que estes ataques não levem os políticos a darem a vitória aos terroristas. Espero que não levem os britânicos a decidirem votar a favor da saída de UE; que não levem a uma viragem isolacionista e anti-asilo na Alemanha; que não empurrem Geert Wilders e outros populistas (xenófobos convictos ou de ocasião) aos governos dos seus países.

 

Espero que isso não aconteça porque sei que quem sofrerá com isso não serão os terroristas, mas antes aqueles que deles fogem e os próprios europeus, que verão as suas liberdades reduzidas e os pilares da sociedade cada vez mais erodidos. Os números de refugiados poderão até diminuir - o que é discutível: continuarão a vir, a morrer no caminho e a entrar, apenas terão mais dificuldades - mas os terroristas, que usam identidades falsas, viajam de avião ou são recrutados nos próprios países alvo, continuarão a agir como até agora.

 

Não tenho soluções para o problema, ao contrário da matilha de comentadores que irão agora ser ouvidos ou lidos em todos os meios de comunicação social. Tenho apenas um desejo, uma ilusão, se quiserem: que quaisquer que sejam as medidas que se irão seguir, as nossas liberdades e os nossos valores sejam mantidos corajosa e estoicamente, porque é nisto que assenta a nossa sociedade. Nesta discussão, que fique claro onde me posiciono.

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Casas no lugar de muros

por João André, em 17.02.16

A crise dos refugiados está a demonstrar a mentira da solidariedade europeia. Os austríacos acolheram enquanto foi politicamente vantajoso e A Fotografia circulava. Agora fecham as portas. Os alemães foram arrefecendo o entusiasmo e agora andam a tornar-se algo gélidos em relação ao tema, especialmente depois do Ano Novo, quando vários ilegais e requerentes de asilo roubaram e assediaram sexualmente diversas mulheres em Colónia. O pior é mesmo a atitude dos países de Visegrád, que numa tentativa de mostrar músculo (em alguns casos devido a eleições próximas), querem fechar fronteiras para impedir a entrada de pessoas que lá não querem ficar.

 

Sejamos honestos: fechar as fronteiras não resolverá o problema. Há centenas de milhar (senão milhões) de pessoas em trânsito pela chamada "rota dos Balcãs" que não deixarão de avançar mesmo que lhes fechem as portas. Se os muros forem construídos irão usar traficantes, destruir o muro onde puderem, saltá-lo, contorná-lo ou simplesmente subornar quem possam. Se necessário voltarão ao Mediterrâneo e procurarão um porto de entrada mais a leste. Ou irão simplesmente ficar por onde estão, indesejados, escorraçados e sem quaisquer perspectivas.

 

Só que, e é aqui que está o problema, eles arriscarão tudo, até mesmo viver nas ruas de Atenas, Skopje, Belgrado ou outras, porque a situação será sempre melhor que aquela que deixaram para trás. Viver nas ruas mas em paz é melhor que viver nas ruas de um país em guerra. Arriscar fome e maus tratos é melhor que arriscar a vida ou tortura. Estas são pessoas que deixaram tudo o que tinham para trás e arriscaram um percurso extremamente arriscado para procurar outra vida, qualquer que fosse. Por vezes fizeram-no sabendo que arriscavam também filhos pequenos.

 

Fechar as portas não ajuda e só destruirá a UE. Os refugiados acumular-se-ão por uns tempos na Grécia antes de começar a tentar outros pontos de entrada. A Grécia colapsará sob o peso da hipocrisia europeia e deixará a UE - no que será o primeiro passo para a sua desintegração. Os refugiados procurarão outros pontos - talvez entrem na Bulgária através da Turquia; talvez procurem caminhos pela Albânia (onde há imensas máfias prontas a lucrar) mesmo sendo muito mais arriscado; outros irão em barcos até à Itália, Croácia ou França. Barcos afundarão (ou serão afundados), pessoas morrerão em passagens traiçoeiras por montanhas e vales, outras serão assassinadas por criminosos ou simples gangues racistas.

 

À medida que este processo continua, os refugiados reduzir-se-ão. A Grécia terá deixado a UE - porquê ficar se só recebe ordens de todo o tipo e é deixada para se afogar sem ajuda? - e outros países (talvez a Croácia, talvez a Bulgária) começarão a ser questionados. Se a solidariedade quebra por um membro porque não quebrará por outro? O processo continuará e a UE começará a criar as famosas duas (ou mais velocidades) que deixarão inclusivamente os países de Visegrád para trás. Com o tempo voltaremos a uma CECA com mais um ou outro membro e o projecto europeu morrerá a sua morte lenta.

 

Este cenário não é inevitável nem que os muros sejam construídos, mas não consigo deixar de pensar que será muito provável. Os europeus têm sido sempre muito criativos com as suas fugas para a frente, mas têm-no feito esquecendo a pura natureza humana, aquela que não cabe numa folha de Excel ou slide de Powerpoint. Pessoas em sofrimento arriscarão tudo quanto podem para melhorar a sua condição, nem que seja um poucochinho que seja. Fechar-lhes a porta e não os integrar (o que faria até sentido economicamente) não é só desumano (sabendo que morrerão em largos números): é estúpido por arriscar o próprio futuro.

 

No fundo, é uma questão de construir casas em vez de muros. Os custos seriam semelhantes e os lucros muito superiores. Talvez isso venha a ser percebido.

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Guerra das estrelas - O ressuscitar da série

por João André, em 08.02.16

Vi há dias (finalmente) o mais novo Star Wars: The Force Awakens. O primeiro filme da série desde 1983 (a triologia jarjarbinksiana não conta, o filme da tinta a secar seria mais interessante) não é mau e cumpre a sua principal função: entretem. Há muita gente que se deixa enredar nos disparates metafísicos da saga e esquece que os filmes (mais uma vez, apenas a sequência 1977-83) nada são de especial do ponto de vista formal, mas cumprem fenomenalmente a sua função lúdica. Do ponto de vista cinematográfico o primeiro Star Wars introduziu uma nova forma de contar histórias e ajudou a fazer o cinema entrar numa nova era. Ainda assim, o filme não estava particularmente bem filmado, tinha diálogos atrozes (Alec Guiness arrependeu-se da sua participação o resto da sua vida) e baseava-se em princípios metafísicos que nem os cientologistas veriam como prováveis.

 

Só que tinha um valor fenomenal: conseguia, de uma forma que até hoje não entendi, criar essa etérea propriedade a que se costuma chamar de suspension of desbelief. Por duas horas suspendíamos o nosso cepticismo (a nossa descrença) e deleitávamos-nos com as personagens criadas para o filme e com as suas respectivas aventuras. Foi a falta dessa qualidade que destruiu qualquer prazer ao ver as sequências I a III, que melhor fariam em ser esquecidas. O novo filme retoma o sabor da triologia original. Fá-lo rejeitando o recurso sistemático ao digital e baseando-se numa linha narrativa simples e cheia de homenagens directas e descaradas aos filmes originais.

 

Estas homenagens são tão óbvias que nos admiramos que o piscar de olho a Obi-Wan Kenobi só surja no final. Temos o planeta deserto de onde surge o herói (ou heroína, neste caso), Han Solo e a Princesa Leia e Chewie reaparecem. Temos sequências em bares. Temos stormtroopers burros. Um robô simpático e fofinho. Existe uma base que destrói planetas (embora sujeita à fórmula bigger and badder). Há um mau muito mau. Há um chefe do mau muito mau que parece pior ainda. Há um general também mau cumáscobras (que acaba por ser tanto de pantomina que é quase um comic relief do filme). Há ainda outros contrabandistas, umas aventuras paralelas, oportunistas, escroques, uma ou outra alma bondosa e um grupo de rebeldes a tentar salvar a galáxia.

 

O filme é divertido porque vemos as personagens a salvarem-se por pura sorte em situações que poderíamos aceitar como eventualmente possíveis. Vemos personagens desastradas mas de bom coração. Temos todo o tipo de estereótipo que poderíamos desejar, uma narrativa limpa, amizades a serem criadas, química entre as personagens e um objectivo claro para o final de toda a história. A acção é por vezes excessiva e excessivamente longa (pecados do cinema actual) mas no resto o filme torna-se uma experiência bastante agradável, que nos faz esquecer o tempo que passámos no cinema e nos deixa bem dispostos.

 

As dificuldades com o filme surgem mais com pormenores que outra coisa. Na série incial, Skywalker aprendia a usar os seus poderes de forma gradual e só ao fim de algum tempo e treino conseguia usá-los de forma eficaz. A nossa heroína parece ser um prodígio de precocidade que ultrapassa as fronteiras da descrença dentro do próprio universo. Outro problema é que Rey parece ser uma mescla de Han Solo e Luke Skywalker numa só personagem. É jedi, piloto, prodígio técnico e herói, além de ter uns truquezinhos sujos na manga. Finn, o sidekick da história, parece ser o novo C3PO. Não é piloto, é um lutador mediano, não tem a Força e a sua função não parece passar a de um mcguffin de carne e osso. Também Poe Dameron ainda parece ser excessivamente superficial e a sensação é que Oscar Isaac se enganou no caminho para o pub, apareceu no set e decidiu filmar umas cenas porque o figurante escolhido estava com febre.

 

O último aspecto que me incomodou no filme é o do chefe do mau muito mau. No passado tivemos Darth Vader e o Imperador. Havia Bobba Fett, Jabba the Hutt, etc. Nomes esquisitos e por vezes engraçados. Até a triologia Star Trash - the Binks ruins it teve um Dart Maul, um Darth Sidious, um Count Dooku, etc. Neste temos um Kylo Ren - não muito impressionante mas tudo bem e o seu chefe: Snoke. Snoke. Vou escrever foneticamente: Snóuque. Disto a Snokie não vai muito. Nem a Snooke ou Snookie. É o nome que uma criança dá ao peluche com que dorme. Convenhamos que não serve para o tipo que ordena a destruição de dez planetas de uma só vez.

 

Já Kylo Ren é uma personagem esquisita. É mau e poderoso mas comicamente incapaz e frágil. Esperemos que não volte a remover aquele capacete. É o segredo do mito de Darth Vader e seria mau voltarmos a ter aquela cara de loser simpático de Adam Driver pela frente. Os próximos filmes só teriam a ganhar.

 

Conclusão: o filme serviu bem como reintrodução ao universo. Deu para esquecer os últimos três desperdícios de disco rígido que nunca deveriam ter saído da sanita de Lucas e entreteve. Espero agora que J.J. Abrams não faça deles o mesmo que fez com os Star Trek: depois de um bom filme de abertura acabou a fazer um filme completamente para esquecer. Deve manter-se fiel ao espírito original e não inventar mais. Sempre que o faz, o resultado é algo lamentável.

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O futebol e a fuga de cérebros

por João André, em 02.02.16

Ontem andava a tentar fazer o apanhado das notícias do dia e surgiram duas notícias em simultâneo e que de certa forma se fundiram (coisas de ouvir noticiários televisivos quando se lêem jornais online): a notícia sobre as transferências de futebol e sobre as fugas e movimentos de cérebros. Inicialmente não compreendi por que razão juntei os dois temas, mas após reflexão tive uma ideia meio louca. Passo a explicá-la.

 

No futebol, quando um jogador termina o contrato, pode transferir-se para outro clube sem que o clube que deixa tenha que ser compensado. Isto está de acordo com as regras de um mercado laboral livre e é perfeitamente correcto. Há algumas regras em certos países (por exemplo na Inglaterra) onde o clube que adquire o jogador tem que pagar uma compensação ao clube que o forma. Uma regra semelhante existe no caso de transferências durante contratos, em que 5% do valor da transferência é pago aos clubes envolvidos na formação do jogador até este ter 23 anos de idade. É a chamada "contribuição de solidariedade".

 

E foi aqui que comecei a pensar se um sistema destes não seria interessante para o mercado laboral em geral. Aviso desde já que não sei que consequências teria nem como poderia ser implementado. A ideia seria simples: quando um profissional fosse trabalhar para outro país que não o da sua formação profissional (não necessariamente o da sua nacionalidade), o país de acolhimento poderia pagar uma compensação ao país de formação. Esta deveria estar dependente do número de anos de escolaridade e do nível da mesma. Um doutorado em física levaria a uma compensação diferente da de um electricista. Essa compensação deveria ter lugar uma única vez - aquando da entrada do profissional no país de acolhimento - mas poderia ser repetida se este profissional voltasse a mudar de país. O pagamento deveria ser feito pelo empregador (o próprio no caso de empregados por conta própria) mas até um montante máximo. Os valores deveriam ser tais que pudessem levar a uma compensação real para o país formador mas não tão elevados que dificultassem a empregabilidade dos profissionais.

 

Sei que esta ideia apresenta desde logo a dificuldade de se configurar como mais uma taxa para empresas e ser desde logo um obstáculo à empregabilidade. É essa a minha maior dificuldade com ela. Parto apenas do princípio que uma empresa que recrute um profissional fora do seu país o faz por ter necessidade, por não lhe ser possível encontrar profissionais adequados dentro do mercado interno. É o que vemos, por exemplo, no mercado da saúde inglês ou mercado tecnológico alemão, onde as empresas têm que ir recrutar ao estrangeiro.

 

A medida seria uma forma de entregar alguma compensação aos países que formaram as pessoas e incentivar a educação. Desta forma os custos na educação não seriam vistos como completamente a fundo perdido e permitiria aos países reinvestirem esses fundos no seu país.

 

Os principais riscos para os países recrutadores seriam os obstáculos ao mercado de trabalho. Para o país de formação o maior risco seria ser transformado num exportador de mão de obra em prejuízo do desenvolvimento do próprio país. Em termos morais, ainda que pudesse potencialmente ajudar a corrigir assimetrias, seria o risco de transformar os profissionais num produto que possa ser comercializado.

 

Como escrevi acima, a ideia é meio louca e consigo imaginá-la atacada à esquerda, direita e centro. Nem faço ideia se alguém alguma vez a propôs no passado. Confesso no entanto que estaria muito interessado em ler alguma análise teórica à implementação da mesma. Haverá algum economista interessado? Basta um agradecimento no artigo final e um convite para a cerimónia em Estocolmo.

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