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Sean Riley & The Slowriders

por José Maria Gui Pimentel, em 23.10.16

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Estive esta semana em Leiria, no Teatro José Lúcio da Silva -- o 'Zé Lúcio' , como é conhecido na cidade --, a assistir ao regresso a casa dos Sean Riley & The Slowriders. Esta banda portuguesa, formada em Coimbra, tem já alguns álbuns editados. Há alguns anos que fazem parte da minha playlist  e tinha alguma curiosidade de os ver ao vivo.

 

O concerto decorreu em ambiente familiar, mas nem por isso deixou de ressaltar o entrosamento dos elementos da banda. Foi especialmente interessante comprovar ao vivo a fantástica voz do vocalista, Afonso Rodrigues. Não se trata apenas de uma boa voz -- algo que o sem-número de programas de talentos veio banalizar -- mas sobretudo de uma sonoridade e timbre incomuns, aos quais é difícil ficar indiferente.

 

Já se sabe que o sucesso musical não segue uma equação clara, e muito menos linear, mas, na minha opinião, os Sean Riley & The Slowriders já mereciam maior reconhecimento no panorama nacional, onde muitas e boas bandas têm despontado na última década. Valeu a pena ir a Leiria.

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Do "Imposto Mariana Mortágua"

por José Maria Gui Pimentel, em 20.09.16

A discussão política em Portugal exaspera-me. Constantemente, trata-se variáveis contínuas como discretas, discute-se decisões necessariamente relativas em termos absolutos, mistura-se a avaliação da justiça de determinada medida com a aferição da sua eficácia.

 

O caso recente do já denominado Imposto Mariana Mortágua (IMM) é exemplo disto mesmo. A extrema-esquerda deseja-o porque o considera justo, defendendo-o por esse motivo, não se importando se – já agora – for também eficaz. Já a direita considera-o injusto, mas percebe que é melhor refutá-lo na base da sua alegada ineficácia.

 

Ora seria justo o IMM? Certamente não pelos motivos invocados pela esquerda, sintomáticos da habitual sanha aos “ricos”. Mas poderá sê-lo noutro prisma, enquanto meio para reequilibrar o saldo das medidas de austeridade tomadas ao longo dos últimos anos, na medida em que tem sido tributado sobretudo o rendimento, deixando a riqueza de parte. Ora, sendo a riqueza nada mais do que rendimento acumulado, tributar somente o rendimento actual protege necessariamente aqueles cujo rendimento foi mais elevado nos tempos de bonança.

 

Já em relação à eficácia do imposto há inegavelmente dúvidas legítimas. Por um lado, o rendimento acumulado não foi todo convertido em imobiliário. Por outro lado, é sempre mais fácil fugir a impostos sobre a riqueza do que sobre rendimento. Finalmente – e, porventura, principalmente – analisando a sua eficácia no sentido lato, a criação deste imposto representaria mais uma machadada na estabilidade fiscal que tanto afasta investidores estrangeiros. Com efeito, alterações fiscais são, muitas vezes, um jogo de soma negativa.

 

Seja como for, importa sobretudo ter presente que sem um debate rigoroso – que separe as várias vertentes de análise – é impossível o esclarecimento daqueles que não têm já um pré-conceito em relação ao tema em causa.

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Blogue da Semana

por José Maria Gui Pimentel, em 11.09.16

The Economist* é a minha revista preferida. A única publicação em que me é difícil descartar os artigos que não quero ler. Como se isso não bastasse, existem ainda os blogues, alimentados regularmente. Um deles, pela capacidade de extrair o sumo de temas essenciais, é o The Economist ExplainsRecomendo.

(*) Na verdade, a revista continua teimosamente a apresentar-se como <newspaper>, herança do formato original.

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Food for thought (2)

por José Maria Gui Pimentel, em 02.09.16

Partilhei aqui, recentemente, um retrato dos EUA enquanto "post-genocidal society", uma análise muito útil à compreensão da reemergência do racismo na América contemporânea.

 

Mas há outro tema, tangencial a essa questão, que me tem invadido cada vez mais o espírito: as novas ameaças à liberdade de expressão. Se, historicamente, o inimigo por excelência da liberdade de expressão era a censura activa imposta pela minoria no poder, actualmente a manifestação livre das opiniões encontra-se ameaçada por um fenómeno mais suave, mas crescente: uma maioria - ou minoria ruidosa - politicamente correcta, cada vez mais vocal, sobretudo, nas redes sociais. Têm sido recorrentes episódios, mais ou menos triviais, de comentários que suscitam a indignação geral, desde a piada de Jose Cid* sobre os transmontanos, ao comentário de Quintino Aires sobre os ciganos, passando pelas inenarráveis diatribes de Pedro Arroja, entre outros.

 

É uma questão que tem gerado mais debate no mundo anglo-saxónico, mas que reencontrei a propósito de um debate que juntou Fernanda Câncio, Daniel Oliveira (o que não ouve olhos) e Ricardo Araújo Pereira, a propósito do livro Trigger Warning: Is the Fear of Being Offensive Killing Free Speech?, de Mick Hume. Um debate tão acalorado – o que é particularmente interessante dada a presença de três incontestáveis esquerdistas – que de uma primeira versão na Feira do Livro gerou um encore na Antena 3

 

Ricardo Araújo Pereira defendia (apaixonadamente, diga-se) a posição do autor, jornalista britânico, que vem insurgir-se nesta polémica essencialmente contra a percepção crescente da existência de um direito à indignação maciça contra afirmações consideradas "ofensivas" proferidas por um indivíduo. Argumenta Hume que esse direito à ofensa extravasa aquilo que a legislação que protege a liberdade de expressão prevê, podendo, por conseguinte, ao mesmo tempo que impede a disseminação dos 9 em cada 10 comentários imbecis e ofensivos, coarctar o debate livre de problemas e ideias, bem como a própria criatividade.

 

O efeito da mordaça identificada por Mick Hume não é, evidentemente, comparável com a situação da liberdade de expressão noutros tempos e, mesmo actualmente, noutras geografias. No entanto, o autor identifica uma tendência - agudizada pela conspicuidade das redes sociais - que não deixa de dar que pensar.

 

Finalmente, vejo nesta questão uma ramificação mais premente: a emergência de políticos radicais, como Donald Trump nos EUA (daí a tangente deste tema ao primeiro). Com efeito, a ditadura do politicamente correcto vinha forçando, nos últimos anos, os candidatos a um discurso artificial e redondo. Trump veio contrariar abertamente esse discurso, com uma retórica sem freio mas que é vista por muitos apoiantes como genuína.

 

* Cid tem, ironicamente, pouco de que se queixar; há anos que diz as maiores enormidades à frente de microfones (lembro-me de um comentário semelhante sobre os chineses, povo felizmente menos dado a protestos). 

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Food for thought (1)

por José Maria Gui Pimentel, em 25.08.16

Fareed Zakaria entrevistou recentemente na CNN Bryan Stevenson, um advogado, professor e activista americano que pôs o dedo na ferida ao classificar os EUA como uma "post-genocidal society". A questão racial na América está, de facto, muito longe de estar resolvida. À superfície, na opinião publicada e politicamente correcta, existe há muito um consenso que vê o tema como tabu, e que faria o leitor distante supor o fim do racismo. Nos últimos anos, noutras frentes, como no entretenimento, e sobretudo em meios urbanos, a questão racial parecia ter praticamente desaparecido. Como se isso não fosse suficiente, um presidente negro foi eleito - e reeleito - em 2008 e 2012. 

 

Apesar destes passos, é hoje evidente que subsiste um largo substracto da população que manteve as suas convicções e foi acumulando, escondido dos media, ódio e ressentimento. Isto mesmo foi visível nos recentes confrontos entre a polícia e a população negra, e não foi também irrelevante para a absolutamente imprevista candidatura de Donald Trump.

 

Os eventos recentes mostram, com efeito, que a questão racial nunca foi bem sarada. Stevenson alega que parte do problema reside no facto de esse trauma nunca ter sido discutido abertamente, como noutras geografias com problemas semelhantes (e.g. Apartheid). Terá, pelo menos, razão parcial. Dá que pensar.

 

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Fora de série (21)

por José Maria Gui Pimentel, em 11.06.16

Seinfeld – a série sobre nada, sobre tudo

 

Servindo esta rubrica para invocar uma série que nos tenha marcado durante a infância ou juventude, o normal seria escolher uma série de que fosse contemporâneo. Não é, porém, esse o caso de Seinfeld, cujo primeiro episódio foi para o ar vinte bons anos antes de eu descobrir que existia um café chamado Monk’s. Foi por isso quando o hype da série já há muito se tinha extinguido, mesmo em Portugal, que eu descobri Jerry Seinfeld – alter-ego do humorista homónimo –, George Constanza – alegadamente uma espécie de superego de Larry David, o outro criador –, Kramer – a personagem mais plana da série, mas genialmente conseguida – e Elaine, uma personagem feminina tão distante do típico cérebro feminino que só poderia mesmo ter sido criada por dois homens.

 

Desde que vi o último episódio, e ao contrário do que tende a suceder, a minha relação com a série tem vindo a estreitar-se, em lugar de se esbater. E é por isso que julgo ser uma boa candidata a figurar nesta rubrica. Com efeito, são inúmeras as situações do dia-a-dia em que dou por mim a lembrar-me de determinado episódio em que aquela mesma situação – por norma, insignificante, corriqueira até, mas recorrente – acontecia, colocando-se sobre essa mundanidade um tipo de análise minuciosa que o sentido do ridículo normalmente nos retrai de ensaiar.

 

À distância de alguns anos, houve em Seinfeld alguns elementos distintivos que desde logo me atraíram e que continuo a admirar – se é que se pode usar palavra tão carregada para uma série de espírito tão assumidamente leviano.

 

Um deles é justamente essa ligeireza, que se traduz num despretensiosismo desarmante. Pode haver série mais despretensiosa do que uma cujos criadores definem famosamente como sendo “um programa sobre nada”? É certo que uma comédia de situação (sitcom) dificilmente terá as pretensões de um Sopranos – para nos mantermos no domínio do entretenimento –, mas é muito típico tentar comprar alguma dignidade perene recorrendo a alguma dose de pedagogia. Além do mais, as séries, mesmo de comédia, têm (ou tinham, até ali) uma forte componente de “lamechice”, explorando a identificação do público com os sentimentos e as dores das personagens.

 

Nada disto acontecia em Seinfeld, cujos criadores preconizavam abertamente: “no hugging, no learning”. Seinfeld era, por isso, assumidamente leviano e anti-sentimental. Ao mesmo tempo, defini-lo como um programa sobre nada preparava o espectador para se poder falar “sobre tudo” – tudo aqui significando <aquilo que normalmente ficaria abaixo do limiar de sofisticação (já reduzido) da televisão>. Seinfeld troca, assim, o enfoque típico no relacionamento entre as personagens e na exposição dos seus sentimentos pela exploração das inconsciências das normas sociais, sobre todo o tipo de tópicos – mesmo os mais íntimos –, pela análise detalhada dos pequenos e prosaicos pormenores da rotina diária e pela exposição da interacção entre os ímpetos egoístas e futilidades das personagens, menos nobres do que outros sentimentos, mas irresistivelmente reais.  

 

Todo o tipo de situação mundana, mais ou menos íntima, era, assim, passível de ser analisada e dissecada, e de sobre ela se teorizar. Como alguém notou, é a “construção do dia-a-dia como algo antropologicamente estranho”. É a estranheza dessa análise que gera a comicidade. Até porque essa análise é assumidamente leviana e imatura e, por isso, desprovida de qualquer auto-censura.

 

Assim, às personagens é permitido proferir, à vez, as maiores enormidades ao mesmo tempo que testam os limites do aceite socialmente. Essa racionalidade, aliada à leviandade da abordagem, produz nas quatro personagens principais comportamentos imaturos, declaradamente pouco sofisticados, e com um substrato de amoralidade, cujo único freio é a noção flexível da fronteira do que é socialmente aceite.

 

Uma dimensão constantemente presente é a dificuldade das personagens em lidar com as regras que a sociedade impõe. Particularmente interessante neste aspecto é a interacção das personagens com o politicamente correcto e a sua entrada inexorável - que veio para ficar - na esfera da intimidade. Ficou-me marcada, pela sua presciência, a dificuldade inesperada de Jerry e George em convencerem o mundo de que não eram um casal gay, limitados na argumentação pela necessidade em que – eles mesmos, personagens com um toque de amoralidade –  se viam de terminar cada frase com “not that there’s anything wrong with that”. Paradoxalmente, deste modo, uma série que os criadores alardeavam como de “no learning” acaba por, socraticamente, por provocar e questionar a audiência.

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Das teorias de conspiração e narrativas afins

por José Maria Gui Pimentel, em 06.11.15

Sempre fui, estruturalmente, avesso a teorias de conspiração.

 

Este tipo de teoria é, como se sabe, omnipresente nas sociedades ocidentais, particularmente desde o Iluminismo. Ainda assim, noto, enquanto português, algumas nuances culturais, interessantes neste fenómeno. De sociedades mais individualistas e com grandes aglomerados urbanos, como a americana, brotam normalmente teses grandiosas, assentes num plano elaborado da cúpula do poder para subjugar o mundo, passando por cima dos cidadãos indefesos. Em sociedades mais pequenas e coesas, mas ao mesmo tempo com uma distância ao poder maior, embora se ouça também estas teorias importadas, as teorias elaboradas e sistemáticas são substituídas por uma explicação mais genérica para os acontecimentos, ligada à teia de interesses “desses”, os que estão no “poleiro” e que se “favorecem uns aos outros”, “para viverem à grande”.

 

De uma forma ou de outra – dizia eu – houve sempre algo subjacente a essas teses que me retraiu e afastou, de um modo quase visceral. Com o passar dos anos, fui racionalizando essa desconfiança e percebendo que residia naquilo que é o substrato deste tipo de narrativa.

 

A popularidade destas teorias de conspiração resulta, na minha opinião, da conjugação entre duas características antitéticas: simplicidade na formulação e complexidade na implementação do plano em que assentam. A primeira cativa a atenção do ouvinte e a segunda deslumbra-o.

 

Relativamente a esse primeiro ingrediente – o simplismo da forma – os proponentes deste tipo de narrativa explicam, tipicamente, factos políticos, económicos ou sociais como tendo por com base a acção concertada e pronta de um pequeno número de poderosos. Sucede – e aqui entra a segunda característica – que por trás desta mensagem simples está uma complexidade operacional dificilmente verosímil. Com efeito, explicações deste tipo ignoram, na maioria dos casos, a complexidade inerente aos processos sociais. Por um lado, desconsideram os interesses inevitavelmente conflituantes entre indivíduos e entidades opostas, por maior que seja a diferença relativa de forças. Por outro lado, assumem o funcionamento harmonioso de uma teia de interesses intrincada e que passa por um sem número de intervenientes sem nunca se quebrar ou – particularmente duvidoso – gerar fugas de informação (porque, para uma teoria destas, não basta o sucesso na implementação do plano; é também necessária a sua ocultação do público). Ora, a experiência ensina-nos, muitas vezes de forma dura, que dificilmente os sistemas humanos funcionam desta forma. Só, lá está, nos filmes. De resto, este tipo de linearidade, a verificar-se, colocaria num plano particularmente delicado, o sem-número de historiadores e jornalistas que dedicam anos de vida à recolha de informação sobre determinado facto.

 

A um nível mais subliminar, um outro ingrediente característico deste tipo de tese que me causa particular aversão é o facto de no discurso do seu proponente estar, por norma, implícita uma visão da vida e da sociedade – uma abordagem perante o mundo –, que explica os insucessos, próprios ou do grupo em que se está inserido, em função de factores exógenos. É uma perspectiva que conduz facilmente à inércia e à desculpabilização, porque assume o mundo como algo pré-determinado – ou, mais precisamente, hétero-determinado –, no qual se está condenado e, por conseguinte, se é também inimputável das próprias acções.

 

É, ao mesmo tempo, particularmente inglório o esforço de refutar este tipo de conjectura. Por um lado, sendo uma conspiração, inevitavelmente, secreta, a impossibilidade de comprovar a teoria, em lugar de enfraquecer a posição de quem a defende, neste caso fortalece-a, ao mesmo tempo que torna impossível qualquer tipo de contra-argumentação. Por outro lado, quem ousa rejeitar a validade de uma explicação cínica, valendo-se de factos comprováveis, é inevitavelmente catalogado como ingénuo ou, pior, ‘feito’ com o sistema.

 

Não pretendo neste relato presumir a inexistência de processos de decisão e de acção que escapam aos comuns-mortais. Qualquer pessoa que não viva isolada num bunker sabe que existem e já viu alguns serem desvendados. No entanto, rejeito suportar-me nesse tipo de visão para explicar a maioria dos acontecimentos com que me deparo. Querer tornar essa fórmula norma é acreditar que vivemos num mundo que não podemos influenciar, uma visão porventura confortável mas que me parece conduzir sobretudo à apatia

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Yanis Varoufakis esteve em Portugal no fim-de-semana passado, para a 'Aula Inaugural' dos Programas de Doutoramento do Centro de Estudos Sociais (CES) - Universidade de Coimbra. Durante a exposição, num aparte que não terá sido dos mais recordados, insurgiu-se contra a tendência de 'mercantilização' das Universidades:

 

<A certo ponto, nas nossas grandes Universidades, foi-nos dito que deveríamos tratar os alunos como clientes. Ora, isso representa o fim da Universidade, uma vez que o cliente, como se sabe, “tem sempre razão", sabe o que quer e tem direito a isso. Mas, quando se vem para a Universidade, por definição, não se sabe o que quer. Caso contrário não precisaríamos de vir para a Universidade. A missão do professor, por isso, não é satisfazer o cliente, é confrontar os alunos, pedir-lhes que leiam o que não querem ler, examiná-los em tópicos em que não querem ser examinados.>

(tradução minha, livre)

 

Embora não seja um tema mainstream, é um ponto-de-vista que já tenho visto defendido noutros fóruns. E, curiosamente, é uma crítica capaz de granjear apoios tanto à esquerda como entre a direita - chamemos-lhe - ‘tradicional’.

 

Não sendo -- dizia -- a primeira vez que ouvi este lamento, a verdade é que me deixou a cogitar, até porque está, em alguma medida, em sintonia com a minha experiência enquanto estudante. Digo em alguma medida porque existem inegavelmente méritos na profissionalização do ensino universitário. Mas as desvantagens a que Varoufakis se refere são também manifestas para qualquer pessoa que tenha estado numa sala de aula no século XXI. 

 

O que está em causa, então, é a profissionalização da actividade pedagógica. A docência já era, claro está, uma categoria profissional, mas o enfoque era até aqui colocado sobretudo nos méritos académicos do docente, mais do que na sua capacidade pedagógica. Há, quanto a mim, claras vantagens em avaliar criteriosamente a capacidade de ensinar, a disponibilidade, a metodologia de ensino – entre outros factores – de cada professor. Não obstante, embora parte dessa avaliação tenha que se centrar na satisfação do beneficiário-último do ensino, o aluno, depender exclusivamente dessa aprovação acarreta, inegavelmente, riscos.

 

Enquanto estudante, frequentei durante a licenciatura uma instituição que era – à época, algo anacronicamente – em grande medida ainda imune à ‘mercantilização’ do ensino universitário. Posteriormente, dentro e fora de Portugal, tive contacto com instituições já claramente integradas na onda de mercado. Entre esta e aquela experiência, identifiquei rapidamente uma melhoria clara num aspecto: a probabilidade de encontrar um professor realmente fraco caiu drasticamente. A profissionalização da pedagogia tem, inegavelmente, esse mérito: deixa de ser possível a eternização no lugar de professores cuja falta de capacidade pedagógica é tão flagrante que, com o passar dos anos, chega a conferir-lhes, paradoxalmente, um estatuto de lenda-viva. Do outro lado do espectro, fui-me apercebendo de que a profissionalização trazia acoplada uma certa ‘estandardização’ do modelo de professor, coarctando a liberdade necessária à actuação daqueles professores que, sendo menos convencionais, são também muitas vezes os mais geniais e, na minha experiência, os que mais nos marcam para a vida. Por um lado, o estabelecimento, ex ante, de um modelo de aula cria entraves à adopção de um estilo mais idiossincrático, restringindo apartes que fujam à agenda pré-definida e métodos alternativos. Por outro lado, como nota Varoufakis, o peso dado à avaliação do professor coloca o aluno no lugar de cliente, um esquema que, trazendo vantagens, tem também o claro custo de incentivar o professor a abster-se de tudo aquilo que não tenha um benefício visível, imediato e relativamente indolor para o aluno. Com efeito, várias vezes reparei no desagrado de colegas com tarefas vistas como demasiado difíceis ou trabalhosas, quando estas, analisadas com a devida distância, eram claramente justificadas (outras vezes, certamente, terei sido eu próprio a lamentar-me erradamente do mesmo).

 

Em suma, parece-me necessário encontrar um meio-termo entre o ensino autoritário de antigamente e a via, de inspiração ango-saxónica, do ‘curso-enquanto-produto’.

 

Termino com um episódio que julgo exemplificativo. Recentemente, em conversa com um amigo que leccionou durante uns anos no ensino universitário, ele relatava-me uma experiência reveladora. No primeiro ano, com o entusiasmo típico do estreante, deu-se ao trabalho de programar as aulas à minúcia, de modo a torna-las tão interessantes e desafiantes quanto possível. No final do ano, a Universidade deu-lhe conta de que a reacção dos alunos tinha sido claramente negativa, dela sobressaindo desagrado com o excesso de trabalho e a exigência desmesurada. Conformado com a realidade, este meu amigo decidiu arrepiar caminho, e refez a cadeira no ano seguinte, abrandando o ritmo e estandardizando-a. O resultado? Avaliações transversalmente positivas, evidentemente.

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Nem mais

por José Maria Gui Pimentel, em 13.10.15

"(...) uma coisa é denunciar a estupidez política dessa opção – outra coisa, bem diferente, é pôr em causa a sua legitimidade democrática."

João Miguel Tavares, Público

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Da legitimidade de António Costa

por José Maria Gui Pimentel, em 11.10.15

Está António Costa a fazer bluff ao negociar um governo à esquerda? Provavelmente.

 

Ou estará antes a alimentar essa hipótese com o objectivo principal de adiar a sua iminente morte política? Possivelmente.

 

Do outro lado, estão o PCP e o Bloco a simular uma negociação com o PS que só perante grandes cedências deste aceitariam? Certamente

 

Por outro lado, é grande parte do eleitorado do PS, que em 40 anos sempre governou perto do centro, avesso a uma coligação à esquerda? A minha intuição é que sim.

 

Mas não constitui mais que isso mesmo: intuição. Dificilmente é possível afirmar esta última conclusão com certeza perante o resultado da votação de 4 de Outubro. A presunção de saber interpretar a vontade do eleitorado é um erro no qual estas eleições mostraram ser demasiadamente fácil incorrer. E, se já conhecemos alguma opinião publicada do PS com influência, a verdade é que não podemos afirmar saber para onde pende a opinião pública. A natureza das eleições é apenas, como o nome indica, eleger, não constituindo, na sua configuração actual, um referendo a opções deste tipo. Ora, o PS teve 1.74 milhões de votos que transmitem, tecnicamente, a mesma mensagem: um voto para representação parlamentar, um voto no que propõe, de forma agregada, o seu programa. Retirar mais do que esta ilação da votação num determinado partido é um exercício de base altamente precária, por muito que eu tenda a concordar com as conclusões que têm sido tiradas.

 

Sendo assim, será legítimo António Costa tentar negociar um acordo à esquerda em que esta ceda apenas em alguns pontos específicos, na justa medida da diferença de votação no PS face ao Bloco ou PCP? Não me parece possível negá-lo se desconhecemos a vontade dos eleitores para além do que diz o seu voto.

 

A outra face da questão da legitimidade prende-se com o facto de o PS não ter sido o partido mais votado. A este respeito também não consigo catalogar como ilegítima a negociação com outros partidos (que não a coligação). Sendo certo que a tradição dita que ser a força política minoritária com maior votação a formar governo, não me parece, na teoria, ilegítimo que outras forças se coliguem para formar governo.

 

Por tudo isto, não entendo à partida como ilegítima a conduta de António Costa. Se antevejo que não vá dar em nada? Provavelmente. Se entendo que esse acordo, a concretizar-se, obrigaria o PS a desviar-se perigosamente da sua matriz ligada à democracia liberal e ao euro? E que o apoio da 'esquerda' se revelaria rapidamente instável? Infelizmente, parece-me bem que sim. Mas a isso só poderei reagir uma vez divulgados os termos desse (improvável) acordo.

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The Seekers’ é o último livro da ‘trilogia do conhecimento’, da autoria do historiador americano Daniel J. Boorstin. Cheguei a esta obra cativado pela descrição feita pelo jornalista Martim Silva, numa edição do Expresso Curto (newsletter diária do jornal), que classificou a trilogia como “os livros que mais o marcaram”. Nesta trilogia – que se completa com as restantes obras, ‘The Creators’ e ‘The Discoverers’ – o autor procura inventariar e, sobretudo, interligar as distintas manifestações do pensamento humano ao longo da história, seja nas ciências, nas artes ou na filosofia.

 

O mote é suficiente para cativar qualquer curioso inveterado, assim como o são as credenciais de Boorstin: para além de vasta obra historiográfica publicada, foi ‘Librarian of Congress’ durante cerca de 12 anos. A obra trata sobretudo da busca do ser humano pelo ‘porquê’, independentemente do ‘como’. O autor procura destacar aqueles que, ao longo da história, mais procuraram perceber o caminho da humanidade, em várias dimensões, sobretudo aqueles que influenciaram de forma permanente a cultura ocidental. Isto, independentemente da validade (muitas vezes diminuta) das conclusões a que foram chegando, privilegiando-se a pertinência das questões levantadas. O título ‘The Seekers’ é, como se vê, algo elusivo, o que estará provavelmente por trás da opção por um mais prosaico ‘Os Pensadores’ na edição portuguesa.

 

Sucede que o livro, na minha opinião, não é totalmente bem conseguido. A tarefa de organizar numa só monografia seekers com objectos de reflexão tão variáveis – não apenas consoante a época histórica, mas também com a área do saber em que habitavam – requer uma elasticidade narrativa considerável, e Boorstin acaba por ser vítima justamente da dificuldade dessa empresa. Daí que falte à obra, na minha opinião, uma organização clara e, sobretudo, um fio narrativo empolgante, capaz de manter as várias temáticas interligadas. Por outro lado, o autor não é completamente bem-sucedido em escapar ao principal risco deste tipo de obra, que é tornar-se uma simples inventariação de personalidades: da sua biografia e da sua vida, numa análise inevitavelmente superficial e de interligação difícil.

 

Apesar destas limitações, Boorstin não deixa de conseguir resumir a essência da obra dos principais pensadores da cultura ocidental, logrando com isso passar a noção de uma perspectiva mais integrada da procura do ser humano por respostas, desde a antiguidade clássica à contemporaneidade. Algo que, na pior das hipóteses, nos cativa a explorar melhor a vida e obra de algumas das personalidades referidas.

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O grande mistério destas eleições…

por José Maria Gui Pimentel, em 05.10.15

…não foi a vitória da coligação, mas antes o resultado estrondoso do Bloco de Esquerda (BE).

 

Vejamos bem: o resultado de ontem – a escala da subida de votação – é muito difícil de explicar à luz do que se sabe e do que tem sido discutido. 

 

Sabe-se que a conjuntura dos últimos anos favorece partidos de protesto, mas isso já acontecia – e em maior grau – nas eleições europeias. E, sim, é verdade que Catarina Martins se revelou durante a campanha – num misto de firmeza, empatia e frescura idêntico ao que Jerónimo de Sousa trouxe ao PCP em 2004 – e é também verdade que a presença de Mariana Mortágua permitiu chamar ao Bloco os louros da prestação da deputada na comissão de inquérito ao caso BES/GES. Acresce a tudo isto que o PS fez uma campanha reconhecidamente fraca.

 

Mas estas explicações, conquanto relevantes, são insuficientes para explicar o resultado de ontem. Seriam provavelmente suficientes para explicar uma melhoria moderada do resultado eleitoral do Bloco, mas acho francamente pouco como causa para aquilo a que assistimos ontem: um crescimento de virtualmente 100% (10.2% vs 5.2% em 2011), levando o BE ao melhor resultado de sempre.

O Bloco era, relembre-se, um partido acossado no início da (pré-)campanha, com sondagens repetidamente desfavoráveis a sobreporem-se a resultados francamente maus nas eleições Europeias de 2014 e nas Legislativas de 2011. A isto somava-se uma liderança com dificuldade em afirmar-se. Saíra enfraquecido das eleições de 2011, num efeito que parecia dever-se, por um lado, à desatenção aos eleitores de esquerda não-marxista e, por outro, ao esgotamento das causas fracturantes capazes de cativar o seu eleitorado tipicamente urbano e jovem. Sofrera em 2012, como o Pedro lembra, a saída do líder carismático – que tinha sido capaz de lançar o único partido verdadeiramente novo desde o pós-25 de abril –, seguida da sua substituição por uma peregrina liderança bicéfala mal-sucedida. Como se isso não bastasse, alguns dos seus mais mediáticos membros – que, tudo indicava, eram bem queridos pelos eleitores – tinham não só deixado o partido, como também tomado a iniciativa de formar novas forças políticas, potenciais ‘canibalizadoras’ do voto no Bloco. Paralelamente, o PCP tivera 12.7% nas eleições europeias e parecia capitalizar o grosso do descontentamento da ‘esquerda-esquerda’.

 

Ainda há pouco mais de um ano, jornais e articulistas entretinham-se a analisar ‘crise do Bloco de Esquerda’, prevendo o seu declínio inevitável.

 

Em julho do ano passado, num Observador a querer ganhar espaço, João Marques de Almeida sentenciava:

<Para todos os efeitos, o projecto político do Bloco de Esquerda acabou. O partido ainda existe, não desaparecerá de um dia para o outro, mas o fim será penoso, e os ódios tribais causarão certamente vítimas.>

 

E prosseguia para explicar a origem da doença:

<O Bloco foi um fenómeno político de tempos de prosperidade. O seu eleitorado foi a burguesia urbana, intelectual e liberal nos costumes, que estava disposta a apoiar causas sociais quando tudo lhes corria bem. Os salários cresciam, as pensões e, para muitos, os subsídios do Estado estavam garantidos, e a vida corria sem sobressaltos de maior. Estavam disponíveis para umas campanhas a favor de causas fracturantes, o que de resto fazia muito bem ao ego de quem de identifica como moderno e progressista. Mas a última coisa que desejavam era grandes mudanças e muito menos revoluções. Um partido de líderes revolucionários tinha no essencial um eleitorado satisfeito com a sua vida. Tal como no caso do PSD, também o Bloco de Esquerda tem membros à direita dos líderes, e eleitores à direita do partido.>

Foi neste cenário que, mais recentemente, caiu sobre o Bloco aquela que aparentava ser a estucada final: o Syriza – partido ‘irmão’ e com um percurso semelhante – mostrou ao Mundo o que significa para um partido de extrema-esquerda ter de governar num ambiente fortemente condicionado e enfrentar a necessidade de fazer compromissos.

 

Partindo para estas eleições sob o espectro de uma profecia auto/realizável, com sondagens persistentemente desfavoráveis, o Bloco decidiu reincidir na estratégia que parecia condenada ao fracasso: colar-se à extrema-esquerda. À luz das sondagens e das eleições mais recentes, o resultado parecia certo: o Bloco, de uma assentada, entregava o centro ao PS e a esquerda ao PCP (entre o original e a cópia, qual tendemos a escolher?).

 

E, no entanto, o Bloco obteve os referidos 10% de votos.

 

Perante isto, sobram-me muitas questões contraditórias:

 

(i) Como conseguiu o Bloco, o partido que mais cavalgou a ‘onda Syriza’, imunizar-se face ao embate com a realidade do partido grego, profusamente utilizado pela direita durante a campanha? Como conseguiu segurar – ou até atrair – parte do centro?

(ii) Será que, ao contrário do que muito boa gente – eu incluído – pensava, o potencial do Bloco não gerar a ‘auto-determinação’ da ala esquerda do PS, mas antes sedimentar-se como partido de protesto? Esta é uma das conclusões possíveis da votação de ontem, em que o promissor Livre ficou aquém da eleição e o PTP-MAS com escassos 20 mil votos.

(iii) Será possível o Bloco ter atraído votantes do PS através de uma postura marcadamente de esquerda, quando um discurso demasiadamente longe do centro é precisamente um dos factores apontados como causa da derrota socialista?

(iv) Terá o Bloco efectivamente conseguido diferenciar-se do PCP, partido cujo discurso por vezes parece quase mimetizar? Por que não foi o PCP o escolhido por quem rejeita a austeridade?

(v) Ou terá antes, como indica a análise possível dos números, parte significativa da votação de ontem provindo da própria coligação (ie, de quem em 2011 votou PSD ou CDS)? E o que significa isso em termos da base eleitoral dos partidos?

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Um mau serviço ao feminismo

por José Maria Gui Pimentel, em 10.06.15

O programa Barca do Inferno surgiu no outono  passado com o objectivo louvável de interromper a monotonia machista no comentário político em Portugal. Infelizmente, acabou por ter o efeito inverso, num equilíbrio progressivamente cada vez mais insustentável, que culminou com a saída de Manuela Moura Guedes, esta semana. 

O primeiro episódio foi -- perdoem-me  a franqueza -- dos melhores momentos de humor em televisão nos últimos anos. Três das quatro participantes no painel sentiam visivelmente o peso do desafio, e nem por um momento deixavam penetrar um grama de trivialidade nas respectivas declarações. Completamente descompassada, Marta Gautier -- cuja presença no programa é incompreensível -- surgia ao seu estilo, com comentários non-sense do ponto de vista das companheiras de painel e absolutamente desfasada da actualidade política da semana. A interacção era absolutamente hilariante e, numa primeira emissão, teve a virtude de disfarçar parcialmente a acrimónia visceral existente entre as participantes, que se uniram para zurzir numa desprevenida Marta Gautier. Esta última não viu alternativa senão deixar um programa em que nunca deveria ter entrado. 

O painel foi, então, completado com Sofia Vala Rocha, que se juntou a Manuela Moura Guedes à direita, para fazer frente a Isabel Moreira e Raquel Varela, às quais competia representar a esquerda no painel. E, aqui, o programa transitou -- sem passar pela casa de partida -- para um espectáculo crescentemente desconfortável para o espectador, com um destilar progressivo de animosidades mútuas e insultos muito para além da esfera política.

É difícil dizer em quem começou o azedume, se bem que logo no primeiro programa Isabel Moreira e Manuela Moura Guedes tenham surgido com uma agressividade inesperada (esforço-me aqui para resistir a uma familiar metáfora mais machista), sobretudo tratando-se da primeira emissão. O estilo de ambas faria adivinhar um confronto difícil, mas o resultado esteve muito para lá de um combate meramente duro. Rapidamente, o painel ficou dividido entre esquerda e direita, com o debate a dar lugar a uma tentativa permanente de rebaixamento do adversário.

Em suma, o resultado do programa dá muito que pensar em relação ao caminho para o necessário reequilíbrio do debate político. Afastando-nos -- embora partindo -- deste caso em concreto, preocupa que uma mulher possa entender que a agressividade e a sisudez sejam condições essenciais para ser levada a sério no debate político. Não devia ser, nem (julgo) o é. É muito curioso, de resto, o contraste com outros programas do género, que se desenrolam muitas vezes durante largos minutos sem os intervenientes levantarem a voz.

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Crise de liquidez na banca angolana

por José Maria Gui Pimentel, em 25.04.15

Tem sido pouco noticiada a restrição à transferência de capitais para fora de Angola. Não se trata de uma restrição oficial, mas é o que acaba por acontecer efectivamente: é hoje virtualmente impossível para um particular transferir dinheiro para fora de Angola pelas vias oficiais.

Tudo começou com a recente crise económica, provocada pela queda do preço do petróleo, e que se repercutiu na taxa de câmbio do kwanza, que já está perto dos 110 kwanzas/dólar. Sucede que esta é apenas a taxa oficial, fixada pelo banco central. No mercado paralelo, o dólar é vendido a 170-180 kwanzas, um valor muito superior. Ora, os bancos comerciais são obrigados a converter kwanzas em dólar a uma taxa em torno da oficial, e porventura será este o motivo para recusarem a transferência aos clientes: estariam a perder dinheiro. Por outro lado, a própria liquidez deverá estar bastante apertada, numa altura em que os mercados internacionais se fecham e o banco central deverá dosear a cedência de reservas, elas próprias depauperadas pela crise do petróleo.

Os próximos tempos serão, tudo indica, difíceis para quem confiou no 'sonho angolano'.

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Uma boa notícia

por José Maria Gui Pimentel, em 23.04.15

A divulgação do trabalho da equipa de ‘peritos’ do PS, Uma década para Portugal, é uma boa notícia. Por vários motivos.

Em termos de impacto nas contas públicas, é um trabalho inegavelmente optimista, mas, no limite, defensável, uma vez que inclui sobretudo medidas macroeconómicas de política orçamental cujos efeitos são difíceis de prever. De notar que o mero facto de o PS conseguir publicar um trabalho que é simultaneamente credível e se propõe cumprir as regras europeias atesta o caminho percorrido nos últimos anos em termos de consolidação orçamental. Caminho insuficiente, dir-me-ão, mas o facto é que, fossem estas eleições dois anos antes, o PS não conseguiria traçar semelhante cenário sem se mascarar de Syriza. Esta é uma primeira virtude do plano do PS.

A segunda virtude – relacionada – tem que ver com o facto de este plano oferecer inquestionavelmente uma alternativa, permitindo, assim, criar uma divisão clara entre os dois principais partidos, depois de anos em que o PS esteve perdido, condenado a fazer propostas pouco credíveis (sempre contingentes à reacção da troika). Ao dar uma voz distinta ao PS, este plano possibilitará recentrar (literalmente: em torno do centro) o debate durante os próximos meses, discutindo-se e dissecando-se as visões alternativas para o país de PS e PSD (+CDS). Será inevitavelmente uma discussão com poucos dados e muita especulação – sim, bem-vindos à democracia.

Claro que o trabalho do PS está longe de ser sumarento em termos de medidas concretas. O maior problema das sugestões do plano é dizerem, na maioria, respeito a política orçamental – por oposição a medidas de reforma estrutural da economia, essas sim, necessárias. Trata-se de medidas de estímulo, cujo efeito é muito difícil de prever e – pior – soa demasiadamente a um regresso às políticas antigas do PS que geraram descontrolo da despesa. Este tipo de medida tem efeitos (é esse, de resto, o seu propósito original) sobretudo conjunturais – e não estruturais, como se pretende.

As próximas semanas servirão para clarificar, por um lado, se António Costa abraça este plano por inteiro e, por outro, como planeia o PS atingir os objectivos traçados de um modo mais concreto. Como sou um optimista, acredito que este plano do PS – e o contraste que permite fazer com a visão oposta do Governo, espelhada no PEC – traz para a discussão política as diferenças necessárias que têm faltado nos últimos 4 anos. Ao mesmo tempo – embora aqui tenha menos esperança – espero que essa discussão se desenrole com o desassombro suficiente para que o debate seja profícuo.

 

Nota: Entre as referidas medidas concentradas na política orçamental, merecem, em todo o caso, destaque as propostas do plano para a reforma do mercado de trabalho. A disfuncionalidade laboral em Portugal é, nos últimos anos, absolutamente gritante, com diferenças injustificáveis entre trabalhadores efectivos e aqueles que ‘chegaram no fim da festa’. Mário Centeno tem pensamento próprio nesta matéria e fez bem em vertê-lo neste trabalho. Se é verdade que o despedimento deve ser facilitado, nem o mais inveterado libertário pode concordar com o uso abusivo de contratos a prazo (e de estágios), tal como sucede actualmente.

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A utilidade das filas

por José Maria Gui Pimentel, em 04.03.15

Volto a um tema que já aqui abordei: a estranha teimosia das filas. No caso, referia-me a filas em restaurantes, mas o mesmo fenómeno estende-se a outros estabelecimentos comerciais e parece (-me), pelo menos em Lisboa, estar mesmo a aumentar.

Voltei a 'tropeçar' neste tema ao ler um texto recentemente publicado no New York Times, da autoria de Tyler Cowen, um dos autores do blog de economia Marginal Revolution. Neste artigo, Cowen tenta reabilitar o estatuto da espera em filas, argumentando que estas são, em última análise, vantajosas para os consumidores (como um todo). 

Especificamente, o autor sugere que, em muitos casos, os retalhistas usam as filas para segmentar os consumidores, entre aqueles que não se importam de pagar mais (e saltar a fila) e aqueles com menos poder de compra, mas muitas vezes também com um menor custo de oportunidade do tempo, que não se importam de esperar. Em concreto, a existência de filas dispensa investimento no alargamento do espaço, o que por seu lado permite não aumentar os preços. Mesmo que esta segmentação seja pouco exequível em muitos casos (não me lembro de ver um restaurante com 'primeira classe', por exemplo), a existência de filas poderá continuar a ser vantajosa, uma vez que os clientes mais predispostos a esperar tenderão a ser aqueles com mais actividade nas redes sociais, sendo, portanto, muito valiosos para os retalhistas. Ora, sem a possibilidade do recurso a filas, estes consumidores ficariam fora do mercado.

Mas não é tudo. Partindo desta linha de raciocínio, Cowen aproxima-se das hipóteses já exploradas Gary Becker num paper antigo. Por um lado, a possibilidade de a existência de filas ter, em si mesma, valor para os retalhistas, por se traduzir publicidade gratuita. Por outro lado, a possibilidade de as mesmas filas conferirem também utilidade aos consumidores, a quem o serviço parecerá mais valioso e exclusivo. 

Finalmente, Cowen destaca ainda dois factos que importa ter em conta no fenómeno do (aparente) aumento do recurso a filas no mundo capitalista. Por um lado, a espera é cada vez mais tolerável, dada a profusão de smartphones e outras distracções. Por outro lado, e pelo menos por enquanto, é muito raro ver filas no acesso a bens ou serviços essenciais.

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A virtude da coerência

por José Maria Gui Pimentel, em 20.02.15

 Um amigo meu conta um episódio caricato ocorrido no primeiro dia de trabalho num fundo de investimento. À chegada, o novo chefe deu-lhe um conselho invulgar: “neste negócio, tu ou és vendedor ou comprador; quando optares por uma postura, mantém-te sempre nessa linha”.

Este adágio improvisado adapta-se a vários campos da vida e é especialmente válido numa sociedade que dá extremo valor à ‘coerência’, como um fim em si mesmo. No fundo, a receita é esta: é preferível defender um erro disfarçável do que rever uma posição assumida. Lembro-me, inevitavelmente, dos profusos elogios à coerência de Álvaro Cunhal, aquando da sua morte.

Ora, o Governo português parece ter incorporado integralmente esta táctica. Tendo abraçado, logo de início, e de corpo e alma, a narrativa germânica para explicar (e solucionar) a crise do euro, não mais a largou, mesmo quando a realidade justificava uma postura mais proactiva. E é essa mesma táctica – creio – que explica a postura exageradamente belicosa assumida pelo Governo em relação ao novo governo grego. Já era, de facto, tarde para voltar atrás, pelo que mais vale escolher uma equipa e esperar que esta ganhe – pensarão. E assim sucedem-se declarações: contra o Governo grego, a favor da posição alemã e – é aqui que a coerência começa a dar de si – até enjeitando a inesperada solidariedade do anterior presidente do Eurogrupo e actual presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker.

Sucede que a partida pode ser decisiva e, no caso de a equipa defendida pelo Governo se ver forçada a ceder de alguma forma, Passos Coelho terá bastante dificuldade durante a campanha eleitoral em explicar a postura assumida. Seja como for, a táctica não é, de facto, despropositada: dificilmente o Governo ganharia alguma coisa – qualquer que fosse o desfecho – se tivesse revisto a sua posição no início da telenovela grega ou se, num meio termo, tivesse optado por uma posição neutra. Esperemos pelo final do jogo.

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Blogue da Semana

por José Maria Gui Pimentel, em 07.09.14

My China Kanfa é um blogue em que Francis Fontenot partilha informalmente as suas vivências diárias de uma experiência incomum: viver na China continental, casado com uma mulher local. Esta particularidade dá-lhe acesso diário ao lado mais exclusivo de qualquer sociedade: a vida familiar. E são muitos os episódios relatados, que oscilam entre o lado caricatural das práticas entre-portas e do papel dos sogros, e a sua experiência in loco da sociedade civil do país. Vale bem a visita. Entre os melhores posts, destacaria este e também este.

 

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (21)

por José Maria Gui Pimentel, em 23.07.14

TSF - Tubo de Ensaio

 

 

Programa já com sete anos de emissões diárias na TSF (com interrupção para férias), contando com voz de Bruno Nogueira e textos deste e de João Quadros. É neste programa que os autores têm mostrado todo o seu espírito cáustico, o que por vezes lhes tem custado algumas críticas. Entre momentos geniais, meramente banais, ou polémicos, o Tubo de Ensaio é um programa original e corajoso que se torna difícil de definir. Leve na forma, é por vezes mais profundo no conteúdo do que aparenta . 

 

E assim termina esta série, com 21 sugestões de podcasts, dos mais diversos tipos e feitios. Outros há por aí. Alguns que também conheço mas que ouço menos vezes e que por isso não incluí aqui. Outros -- muitos mais -- com que ainda não me cruzei. Ficam as sugestões, espero que tenham gostado.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (20)

por José Maria Gui Pimentel, em 22.07.14

TSF - Bloco Central

 

 

Painel semanal de comentário político na TSF – na esteira do Contraditório da Antena 1, do Governo Sombra da mesma TSF ou da Quadratura do Círculo na SIC Notícias – com Pedro Adão e Silva à esquerda e Pedro Marques Lopes à direita. É um programa interessante, embora tenha algumas pechas. Sobretudo, e como normalmente acontece neste tipo de programa, o elemento à direita é mais envergonhado do posicionamento que lhe foi atribuído, pelo que a substância do comentário tende a ser demasiadamente convergente entre os dois. Esta diminuição do contraditório tem a consequência inevitável de diminuir o interesse da discussão para o ouvinte – pelo menos para este que escreve. 

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (19)

por José Maria Gui Pimentel, em 21.07.14

O Homem que Mordeu o Cão

 

É o regresso da rubrica que projectou Nuno Markl, na Rádio Comercial, centrando-se sobretudo no relato de histórias – como sugere o nome – inusitadas. Tal como a Linha Avançada, na Antena 3, é um programa leve, ideal para ouvir enquanto se faz uma tarefa que não nos ocupe o cérebro todo.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (18)

por José Maria Gui Pimentel, em 20.07.14

TSF – Pessoal e Transmissível

 

 

Antes – muito antes – de moderar o Governo Sombra, já Carlos Vaz Marques torturava quinzenalmente os ouvintes com o tema de abertura do Pessoal e Transmissível*, para rapidamente se redimir com conversas muito bem conduzidas e com convidados escolhidos a dedo. O cuidado na escolha dos convidados é, de resto, uma marca deste programa, sendo na sua maioria ligados às artes e à cultura em geral, com a clara intenção de procurar talentos emergentes ou desconhecidos. Há também cientistas e políticos estrangeiros. 

 

* Confesso que, durante anos, adiei a subscrição deste podcast precisamente devido à urticária que a música de abertura me provocava (quase maior do que quando apanhava um rádio a cantar “Oceano Pacífico” naquele tom indescritível). Entretanto, já estou habituado, e até não sei se já não gosto. Será da idade?

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (17)

por José Maria Gui Pimentel, em 19.07.14

Fareed Zakaria GPS

 

É o espaço semanal de Fareed Zakaria na CNN, desde 2008, quando ainda era colunista da Newsweek e antes de protagonizar uma transferência que deu que falar – em 2010 – para a Time. O programa centra-se em temas internacionais – o que não é o mesmo que dizer estrangeiros, uma vez que os temas norte-americanos têm uma inevitável exposição proeminente, dada a importância internacional do país. Dificilmente haverá outro apresentador – nem mesmo John Stewart e o seu Daily Show – que tenha tanta facilidade em reunir convidados tão difíceis de conseguir como Fareed Zakaria, desde políticos americanos, a políticos dos mais variados países, passando por líderes empresariais, académicos e pundits dos mais variados tipos. Zakaria, é preciso dizê-lo, é um grande jornalista (nem o escândalo de plágio lhe abalou a carreira) e conduz o programa com mestria. Desvantagem: o podcast gratuito apenas dá acesso à versão áudio.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (16)

por José Maria Gui Pimentel, em 18.07.14

Rádio Comercial – Primo

 

Nuno Markl e Vasco Palmeirim partilham um programa muito idêntico à Prova Oral, de Fernando Alvim na 3, mas, na minha opinião, menos bem conseguido. A vontade de criar empatia com os entrevistados é tanta que a tentativa transparece, muitas vezes, forçada, com elogios  exagerados. Acresce que as piadas são, demasiadas vezes, infantis. Dito isto, tem o mérito de ser um programa relaxado e, quando os entrevistados ajudam, vale a pena. 

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (15)

por José Maria Gui Pimentel, em 16.07.14

HBR Ideacast

 

É o podcast semanal da Harvard Business Review, apresentando tanto conteúdos da edição mensal da revista, como entrevistas a gestores ou académicos ligados à gestão. É, sem dúvida, uma fonte de excelência de conteúdo do género, embora seja, naturalmente, um tipo de conteúdo muito específico.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (14)

por José Maria Gui Pimentel, em 15.07.14

TSF – Sinais

 

Programa notável e singular de Fernando Alves, que se distingue de tal modo dos demais que se torna impossível de definir. Tive, por isso, de me socorrer do site da TSF, que o resume assim: “anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades”. Eu diria antes que é um programa sobre nada e sobre tudo, ao mesmo tempo, e, aí concordo, com um toque muito pessoal de Fernando Alves, que toca os temas da actualidade, para uma vezes se debruçar sobre eles e outras partir para um tema distante, a propósito de uma palavra, nome ou metáfora usada e que lhe desperta pensamentos colaterais.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (13)

por José Maria Gui Pimentel, em 14.07.14

The Monocle Weekly

 

 

 

A revista de culto da cultura hispter não podia deixar de ter o seu próprio podcast, ou, na verdade, podcasts, uma vez que são já 16 programas distintos aqueles que estão disponíveis no site. Devo dizer que ainda conheço mal este podcast, e por isso não posso opinar sobre a qualidade dos conteúdos. É um programa sobretudo sobre a actualidade, no sentido lato, abordando temas desde a política internacional até livros lançados e eventos artísticos.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (12)

por José Maria Gui Pimentel, em 13.07.14

BBC – The History Hour

 

O The History Hour é um dos muitos podcasts gratuitos oferecidos pela estação britânica e não foge à qualidade a que a BBC nos habituou, beneficiando ainda do vasto arquivo de que esta dispõe. Este não é um simples programa sobre História, pois baseia-se em episódios da História mundial contados na primeira pessoa. E isto, claro, é simultaneamente uma vantagem e uma limitação, pois se torna os relatos mais vívidos e a discussão mais interessantes, também é verdade que condiciona os temas cobertos grosso modo ao pós-IIGM. Há três meses, discretamente no fim de uma emissão de quase uma hora, lá surgiu uma reportagem sobre os 40 anos do 25 de abril, que contou com um interessante relato de Adelino Gomes, num inglês, diga-se, espantosamente escorreito para alguém da geração francófona.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (11)

por José Maria Gui Pimentel, em 12.07.14

Antena 3 – Linha Avançada

 

José Nunes, já conhecido como “Carneiro Amigo”, comentador desportivo da Antena 1, tem já há vários anos esta rubrica diária na irmã mais nova das rádios públicas. É basicamente um resumo diário das notícias e – muitos – faits divers que rodeiam o mundo do futebol. É um programa leve, ideal para ouvir enquanto se faz uma tarefa que não nos ocupe o cérebro todo (e.g. guiar). 

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (10)

por José Maria Gui Pimentel, em 11.07.14

Antena 3 - Prova Oral

 

São já, creio, uma dezena de anos, os últimos com Xana Alves ao lado, que Fernando Alvim leva ao microfone deste programa difícil de definir: um híbrido, metade talk show radiofónico, metade opinião pública, metade (como diria o Outro) programa de comédia. É um formato pouco ortodoxo, com poucas regras e pouco planeamento, o que gera resultados mistos. Muitas vezes, a desenvergonhada falta de preparação do locutor que cria angústia no ouvinte por não serem colocadas questões que conduzissem a entrevista num sentido muito mais interessante (pelo contrário, a entrevista tende a fluir livremente, perdendo-se muitas vezes em pormenores desnecessários). Noutras vezes, todavia, essa espontaneidade tem o mérito de, por um lado, não condicionar o entrevistado e, por outro, dar lugar a momentos improváveis e hilariantes, que seriam completamente impossíveis num programa mais sério. E mais: é essa espontaneidade que permite que um programa com estas características, quase diário, continue fresco e imprevisível.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (9)

por José Maria Gui Pimentel, em 10.07.14

Freakonomics Radio

 

 

 

Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner continuam – com a moderação deste último e depoimentos vários – a explorar “the hidden side of everything”. É a ciência económica aplicada à prática, não poucas vezes pondo mãos-à-obra em temas inusitados e surgindo com respostas desconcertantes, tal como em “Is College Really Worth It?”ou em “The Perfect Crime”.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (8)

por José Maria Gui Pimentel, em 09.07.14

Antena 1 - À Volta dos Livros

 

 

Programa diário, de conversas rápidas -- demasiadamente rápidas, na minha opinião -- com autores portugueses sobre as suas mais recentes obras. Conduzido por Ana Daniela Soares.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (7)

por José Maria Gui Pimentel, em 08.07.14

TED talks

 

 

Mais um videocast, isto é, um podcast em vídeo. Trata-se do feed das palestras que a TED vai compilando, entre as oficiais e aquelas realizadas com autorização. Embora nem todos os 18 minutos canónicos (por vezes menos) de fita valham o tempo empregue, habilitamo-nos, com alguma sorte, a assistir a uma talk como esta, de Ken Robinson, à qual é difícil ficar indiferente. 

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (6)

por José Maria Gui Pimentel, em 07.07.14

Antena 1 - Cinemax

 

 

Programa semanal sobre cinema, cujo grande atractivo é o comentador residente, João Lopes, um dos poucos críticos de cinema em Portugal que conseguem instruir o ouvinte sem lhe provocar sensações que oscilam entre a vergonha e a repulsa. Fazer um programa de rádio sobre cinema não é fácil (daí, depreende-se, existir um programa gémeo na RTP), mas o Cinemax consegue fazer um bom trabalho, abordando tanto as estreias da semana, como edições em DVD e outros filmes menos recentes que venham a propósito.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (5)

por José Maria Gui Pimentel, em 06.07.14

Radar – discos voadores

 

 

Duas horas música intercalada com História, numa emissão de rádio dedicada a explorar álbuns e concertos, e o contexto em que surgem.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (4)

por José Maria Gui Pimentel, em 05.07.14

Antena 1 - Maria Flor Pedroso

 

 

É o programa semanal de entrevistas de Maria Flor Pedroso. O critério de escolha dos entrevistados varia, muitas vezes ao sabor de comemorações relevantes (e.g. 40 anos do 25 de abril, Centenário da República), mas tende a centrar-se em personalidades políticas no activo om ou com ligações muito fortes a algum partido. E isso é, simultaneamente, a sua vantagem e desvantagem. Vantagem pois são pessoas cuja opinião conta. Desvantagem porque são tipicamente políticos com uma agenda condicionadora, o que torna as entrevistas, por vezes, maçadoramente previsíveis. Destaca-se a qualidade reconhecida de Maria Flor Pedroso, que, com o entrevistado certo, tem ajudado nos últimos anos a criar notícias. 

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (3)

por José Maria Gui Pimentel, em 04.07.14

Comedy Central Stand Up

 

 

Aqui e aqui. Este é um videocast, isto é, um podcast em vídeo. Como o nome indica, são clips (curtos) de espectáculos stand-up de comediantes associados à Comedy Central. O joio não está muito bem separado do trigo, para além de que é um tipo de comédia muito específico, mas foi através deste podcast que descobri, por exemplo, John Oliver, que recentemente teve este momento brilhante a propósito do Mundial 2014.

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (2)

por José Maria Gui Pimentel, em 03.07.14

History Extra

 

 

Associado à BBC History Magazine, o History Extra dedica-se sobretudo a entrevistar historiadores de relevo, normalmente por ocasião do lançamento de obras que abordem um período ou uma personagem histórica relevante. Tem algum enviesamento anglo-saxónico nos temas escolhidos, mas não exagerado, comparativamente ao grosso da oferta em termos de programas de História. Por outro lado, o espectro de temas é tão largo que inevitavelmente não interessarão todos o mesmo ao ouvinte. Finalmente, o History Extra tem a enorme vantagem de abordar não apenas o estado-da-arte mas também os progressos mais recentes da historiografia, o que o torna estimulante independentemente do conhecimento que o ouvinte tem de antemão sobre o tema em análise. 

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Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia (1)

por José Maria Gui Pimentel, em 02.07.14

TSF – Governo Sombra (1)

 

 

Começo pelo programa que ouço mais religiosamente. O Governo Sombra – que começou na rádio em 2008 e entretanto se estendeu à televisão – tem vários méritos. É um programa despretensioso e bem-humorado, que, sendo embora mais leviano do que projectos alternativos, tem a enorme qualidade de dar a conhecer pontos-de-vista que normalmente ficavam de fora dos programas de comentário político tradicional (já tinham tido alguns espaços, lembrarão os leitores mais velhos do que eu, mas estavam na sombra – justamente – nos últimos anos). Para além disso, e de novo ao contrário da maioria dos programas do género, o Governo Sombra consegue manter-se fresco. Os comentadores são – foram escolhidos por isso – completamente independentes daquilo que comentam e isso contribui para que não fiquem rapidamente acantonados em posições repetidas semanalmente, para tédio dos ouvintes, como sucede com programas como O Contraditório da Antena 1.

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Série: Um podcast por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

por José Maria Gui Pimentel, em 02.07.14

 

Já há 7 ou 8 anos que sou um ávido consumidor de programas de rádio, na conveniente forma de podcasts. Este hábito tem essencialmente duas razões. Por um lado, os podcasts permitem-me escolher o que oiço, à semelhança do que faço também com a televisão. Por outro lado, uma das coisas que mais gozo me dão é conseguir momentos “dois-em-um” – ou, como prefiro pomposamente chamar-lhes, os meus Óptimos de Pareto (sim, no sentido lato) –, em que junto a uma tarefa necessária (deslocações rotineiras, tarefas domésticas, etc) outra útil ou agradável.

 

À custa das largas centenas de horas de auricular nos ouvidos que já acumulei, fui durante estes últimos anos descobrindo que se faz boa rádio, tanto cá como lá fora (com algumas excepções: Espanha, por exemplo, se faz, disfarça muito bem).

 

Durante as próximas três semanas, diariamente, partilharei um podcast que costumo ouvir – mais ou menos regularmente –, juntamente com um curto comentário.

 

Espero que gostem.

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Blogue da Semana

por José Maria Gui Pimentel, em 06.04.14

Num período em que a evolução estrutural da sociedade e a conjuntura económica se juntam para fazer as pessoas trabalhar cada vez mais, aumentar os níveis de stress e criar distracções nocturnas, a privação de sono torna-se cada vez mais comum*. No blogue Em busca do sono perdido, Teresa Paiva e colegas ajudam a pesar as causas e encontrar possíveis soluções.

 

* veja-se, aliás, a notícia citada pelo Luís Menezes Leitão a propósito da privação de sono provocada pela mudança de hora

 

 

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Todos conhecemos restaurantes que têm, de uma forma persistente, longas filas (às vezes todos os dias da semana). Esse fenómeno traduz um excesso de procura face à oferta e implica, à partida, que o restaurante esteja a perder lucro, pois poderia servir o mesmo número de clientes a um preço mais alto, ou, alternativamente, servir um maior número de clientes (sem alterar o preço) se optasse por expandir. Há, no entanto, alguns restaurantes que claramente escolheram não pôr em prática nenhuma dessas opções, e que têm há vários anos longas filas. Trata-se de uma peculiaridade curiosa deste tipo de negócio. Repare-se que seria o mesmo do que termos persistentemente dificuldade em comprar um determinado bem de consumo, sem que a empresa que o produz optasse por aumentar o preço ou a quantidade produzida.

 

Mas poderá este comportamento ser racional? Talvez, se o restaurante retirar algum benefício deste excesso de procura ou, alternativamente, se o aumento do preço ou a expansão do espaço puderem provocar uma queda abrupta na procura.

 

Uma possibilidade é que os clientes “fixem” a sua noção de preço-justo ao preço inicial que lhes é apresentado, o que poderia gerar um êxodo de clientes se os preços fossem aumentados, mesmo que gradualmente.

 

Outra hipótese é que o nível de procura esteja dependente do nível original de oferta, isto é, da dimensão inicial do restaurante. Este fenómeno pode ocorrer por vários motivos, seja porque um restaurante que opte por aumentar a lotação pode perder a sua aura de autenticidade, e até qualidade (criando a percepção de um serviço indiferenciado), seja porque a frequência de um restaurante pequeno, e portanto de serventia limitada, confere uma sensação de exclusividade a clientes preocupados com a diferenciação face aos demais.

 

Um outro conjunto de soluções é aventado por Gary Becker (prémio o Nobel em Economia em 1992), que põe a hipótese de que “a procura individual seja positivamente relacionada com a procura de outros consumidores”, uma vez que a subida desta faz aumentar a percepção do valor do restaurante em questão, seja por torná-lo popular, seja por atestar a sua qualidade (ou ainda, acrescentaria, por fazer aumentar a probabilidade de os alimentos serem frescos). Becker vai mais longe e sugere uma hipótese ainda mais heterodoxa: que a procura possa estar positivamente relacionada com o próprio excesso de procura (neste caso: a dimensão da fila), designadamente com a utilidade que a permanência na fila possa conferir. Por um lado, a espera em fila pode ser útil por aumentar o benefício da exclusividade, seja pela possibilidade extra para os clientes de se mostrarem em determinado restaurante, seja pelo facto de a necessidade de esperar ajudar a conferir uma aura de exclusividade que está normalmente associada a preços elevados. Por outro lado, a mesma espera em fila possibilita a camaradagem entre quem espera, o que pode ser agradável, por exemplo, para clientes do mesmo extracto social ou com outro tipo de afinidades pré-definidas. Uma outra possibilidade ainda é que o excesso de procura seja directamente benéfica para o restaurante, na medida em que ajuda a alimentar a publicidade (“boca-a-boca”) e, consequentemente, a aumentar a procura agregada.

 

Qualquer destas explicações – ou mesmo o conjunto delas – é provavelmente curta. Mas isso, acho, só torna o fenómeno mais curioso.

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Incentivos

por José Maria Gui Pimentel, em 29.01.14

Costumo comentar que a economia, mais do que a ciência que estuda a "alocação eficiente dos recursos escassos", é a ciência que estuda os impacto dos incentivos. É esse o seu maior contributo para o conhecimento. E o texto abaixo ilustra não só um belo exemplo disso mesmo, como um que vemos aplicado inúmeras vezes no dia-a-dia:

 

Adam Smith's celebrated theory of the invisible hand is the idea that individual pursuit of self-interest promotes the greatest good for all. When reward depends primarily on absolute performance - the standard presumption in economics - individual choice does indeed turn out to be remarkably efficient. But when reward depends primarily on relative performance, as in hockey, the invisible hand breaks down.

 

Because a "good" school is an inescapably relative concept, each family's quest to provide a better education for its children has much in common with the athlete's quest for advantage. Families try to buy houses in the best school districts they can afford, yet when all families spend more, the result is merely to bid up the prices of those houses. Half of all children will still attend bottom-half schools.

 

(...) individuals can often increase the odds of promotion by working longer hours, but when others follow suit, everyone's promotion prospects remain roughly as before. The result is often a rat race in which all must work until 8 o'clock each evening merely to avoid falling behind.

 

 

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mental note

por José Maria Gui Pimentel, em 11.11.13

Parar de ouvir quando alguém diz "sim, porque o homem é o único animal que (...)"

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Um biorritmo peculiar

por José Maria Gui Pimentel, em 30.10.13

Lembro-me de ter lido um artigo na Sábado – um raro bom artigo, hoje em dia – sobre as especificidades do sistema político português. Havia várias muito curiosas. Ficaram-me três na retina. A primeira o surgimento – e o rápido crescimento nos últimos anos – de ex-políticos (sendo que o prefixo “ex” é, naturalmente, questionável) como comentadores políticos, retirando protagonismo a jornalistas, politólogos, etc… A segunda dizia respeito à predisposição dos governantes portugueses para prestarem declarações sempre que fazem uma aparição pública, algo que não é normal no resto da Europa.

A terceira, e talvez mais curiosa, dessas particularidades portuguesas prendia-se com o peculiar biorritmo da nossa atividade política. Enquanto nos restantes países europeus – mesmo incluindo os chamados “países mediterrânicos” – os grandes anúncios políticos são feitos normalmente da parte da manhã, ficando o resto do dia para a análise dos comentadores, as reações dos vários intervenientes e até a reflexão dos cidadãos, em Portugal o prime time político ocorre já após o dia normal de trabalho, perto ou sobre a abertura dos telejornais. Lembro-me sempre desta peculiaridade do sistema quando surgem já ao fim do dia intervenções importantes do Primeiro-Ministro, da Ministra das Finanças, dos juízes do Tribunal Constitucional (da última vez que me lembro já passava das 20h30m), do Presidente da República ou, como foi o caso de hoje, do Vice-Primeiro-Ministro. Como se fosse às 20h que, qual coruja, o país tivesse o seu pico de actividade. É um sistema curioso, algo perverso, e que merecia um estudo sociológico Curiosamente, as únicas excepções a esta norma de que me recordo no passado recente são as avaliações da troikaet pour cause...

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Livros de cabeceira (4)

por José Maria Gui Pimentel, em 23.10.13

 

Com todas as vantagens que lhe saliento, uma mesa-de-cabeceira virtual tem inegavelmente muito menos que se lhe diga do que uma mesa física. Quase tenho vergonha de a colocar aqui. Mas, enfim, são os trade-offs, a que qualquer um com formação em Economia está habituado. Destes quatro volumes, o Asterix é um dos três ou quatro da série que re-re-reli recentemente. Sempre agradável, embora continue a preferir Tintin. O Great Gatsby e Dreams of Joy foram deixados a meio, nem sei bem por quê, mas serão certamente recuperados, até porque qualquer um dos dois vale a pena. O primeiro por motivos óbvios, o segundo por ser irresistível para quem andou pelo Oriente. La cultura - Todo lo que hay que saber, de Dietrich Schwanitz, polémico professor universitário alemão, é o livro que agora estou a ler. Tem, aliás, uma história engraçada nas minhas mãos, visto que o tentei ler pela primeira vez quando tinha 15 anos, com muita boa vontade mas pouco sucesso. Estamos agora a ajustar contas e, para já, recomendo.

 

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Adeus "Reforma do Estado"?

por José Maria Gui Pimentel, em 17.10.13

Começam a ser demasiados os indícios para ignorar o que se vai tornando evidente: o Governo não consegue cortar a despesa do Estado, nomeadamente no que diz respeito àquela poupança que não poderia ser obtida simetricamente através de aumentos de impostos.

Em março, o ainda Ministro das Finanças Vítor Gaspar anunciou o ajustamento orçamental planeado para 2014: 1.5% do PIB. Cinco meses volvidos, e mesmo perante uma conjuntura económica um pouco melhor, esse ajustamento aumentou para 2.3% (e pode não ficar por aqui), segundo os números divulgados ontem pela Ministra das Finanças. Deste incremento de 0.8 %, 0.3% resultam da derrapagem orçamental ocorrida em 2013 (o défice sem receitas extraordinárias vai ficar este ano acima dos 5.5% acordados com a troika) e 0.5% de uma rúbrica descrita sucintamente como “pressões em 2014”, que é parcialmente compensada pela referida melhoria do cenário macroeconómico. Note-se, também, que embora desta vez o grosso das medidas de austeridade esteja -- finalmente -- concentrado do lado da despesa, a verdade é que os cortes nos consumos intermédios correspondem apenas a 0.3% do PIB; ou seja, uma pequena parte dos 2.3% do ajustamento total. Isto, claro, admitindo que o Governo os consegue realizar, algo que, tendo em conta o passado recente, parece difícil. Por outras palavras, a dita Reforma do Estado, aquela para a qual se esperava que o Governo tivesse engenho, fica grandemente na gaveta, pois a maioria do ajustamento vem de “medidas de computador”:  despedimentos, cortes de salários e reduções de subsídios.

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Blogue da Semana

por José Maria Gui Pimentel, em 08.09.13

Mainly Macro é um dos melhores blogues sobre macroeconomia. Mesmo com um nome tão específico, o autor não deixa de tentar descansar os leitores, afirmando que se trata de um blogue também para "não economistas". A escrita é, de facto, clara. Já os temas abordados poderão interessar a uma minoria.

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E não é que surpreendeu?

por José Maria Gui Pimentel, em 10.07.13

Queres ver que o Cavaco...?

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