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Com a noite

por António Manuel Venda, em 09.03.17

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Estava a cair. Era o que sentia. De repente, como se o chão estivesse muito longe e não a suportar-lhe os pés. Como na verdade estava. Sim, sentia o chão muito longe, a quilómetros e quilómetros. E ele caía, para lá, para onde tinha os pés bem firmes. Quanto tempo demoraria a ir esborrachar-se precisamente no sítio onde estava? Não conseguia perceber. Achava até que não havia tempo para perceber fosse o que fosse. Caía tão depressa!... Era de noite. Tão, tão de noite!... Parecia-lhe. Só isso. Quase um palpite. Como se estivesse em condições de dar palpites… Quando seria o terrível embate com o chão que pisava? Daí a dois segundos? Não. Dois segundos desapareciam-lhe sem mais nem menos da vida. Resolveu pôr a coisa em dez minutos. Pensou um pouco… Dez minutos era um tempo razoável. Isso demorava a passar. Dez minutos a cair sem bater onde tinha os pés. Decidiu ficar com esses dez minutos. E foi-se habituando. Caía, mas tinha algum poder de decisão. Arriscou brincar um pouco. Duas horas… Qualquer entidade que estivesse a mandar naquela queda poderia não gostar da brincadeira. Ou poderia não ligar. Ter outras quedas com que se preocupar. De gente mais importante. A noite ainda ia curta. Nela cabia bem um período de duas horas. Até de mais horas. Bem mais. Umas cinco ou seis. Passou para sete. Depois veria. Quando chegasse o dia. Divertiu-se com a rima. Quase que conseguiu suspender um pouco a queda. Talvez até conseguisse. Se arranjasse forças. Ali na noite a caminho do chão onde estava com os pés bem firmes. Duas rochas. Os seus pés feitos duas rochas. Como se ele próprio os tivesse plantado. Duas árvores, então. Ficava melhor do que rochas. A noite era assim. Dava para jogar com as palavras. Mesmo em queda. Aquilo tinha alguma piada. Mesmo que no fim ficasse todo esborrachado. Um cão que passasse nem lhe aproveitaria os bocados. Nem uma gineta. Se calhar nem um bando de corvos. Nunca tinha visto corvos por ali. Só cães. E uma vez uma gineta. Linda, com uma cauda esplendorosa. Fuças meio esquisitas, mas a beleza da cauda compensava. Parecia o cabelo de um jogador do Paços de Ferreira, só que de outra cor e meio ao contrário. Àquela hora da noite, enquanto caía, lembrava-se dos animais que poderiam comer os seus restos e do cabelo estranho de um jogador do Paços de Ferreira. De um jogador não: de um futebolista. Convinha identificar a modalidade. Futebol, a sua preferida. Futebol de onze. Campeonato profissional. Tinha sido tão mau o último jogo. Um a um em casa, contra uma equipa um tudo nada melhor do que a do Paços de Ferreira. E ele estava lá. Como diria um amigo de todas as horas, até das más: ele estava lá no seu lugar de sofredor. A maneira como via o jogo era tão mais inteligente do que a maneira como o treinador parecia ver. Quanto ao presidente, não se pronunciava. Era deixá-lo andar às voltas e mais nada. As coisas haveriam de melhorar. Não podia ser tudo uma cambada (vá lá, um grupinho) de estúpidos e só ele ver o que havia para fazer. Na sua equipa. Muito superior, claro, à do Paços de Ferreira. De repente pareceu-lhe cair mais depressa. Talvez o peso da desilusão do empate. Ou a incapacidade do treinador. Ou na volta do presidente. Bom, em relação a este não queria pronunciar-se. Retirou a frase com «na volta». Podia retirar. Ele próprio, só ele é que decidia. Em determinados assuntos. Decidiu nesse momento não cair. Continuava a noite. Um frio de rachar. Pensou um pouco… Mudou «de rachar» para «do caraças». Um frio do caraças o daquela noite. Fez força nos pés, puxou-os do chão. Primeiro o direito. Depois o esquerdo. Sentia que começava a andar. O chão ali a pouco mais de um metro e oitenta dos seus olhos. Podia até, se quisesse, apressar o passo. Sentiu um odor estranho no ar. Odor? Não. Um aroma. Achou melhor mudar para aroma. Um inexplicável aroma que decidiu classificar como de felicidade. Tinha a noite escura por companhia. Por companheira, aliás. Decidiu, com ela, pôr-se mesmo a caminho.

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A altura mais inalcançável

por António Manuel Venda, em 12.02.17

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Era a esta altura que eu via tudo na infância. Pelos mesmos canteiros e montados de agora. Lembro-me disso quando uso a máquina fotográfica do telemóvel para guardar momentos de expectativa como estes. Os dois parados. O sóbrio e leal Alfa (nome dado pelo mais velho dos meus quatro filhos), o cão do karaté, como lhe chamo às vezes, pelas nossas lutas a patadas e pontapé, sem magoar, procurando apenas um toque que dê um ponto, e depois outro, tipo uma dança de um cão com um homem que não acredita, em cada um desses momentos, mas só mesmo em cada um desses momentos, que possa ser mais do que um miúdo. O Alfa… E a doce e divertida Lua (nome dado pela minha filha mais velha), a cadela que vê sempre tudo bem mesmo que o mundo tenha aparecido nesse dia com ares de ir desabar de repente nem se imagina para aonde. Aqui, os dois expectantes, sabem que eu preciso de me levantar e de guardar o telemóvel numa das algibeiras das calças de ganga para desatar a correr junto com eles. Sem isso nada feito. Mas sem o meu olhar a esta altura, precisamente a esta, não é possível apanhá-los para a posterioridade (uma qualquer posterioridade) como eles realmente são. Queria conseguir, tantos anos depois, correr na velha e pequenina altura da minha infância. Sempre. Correr sempre. Pelos canteiros e pelos montados. A altura tão distante. Tão inalcançável. A mais inalcançável de todas, ainda que não passe de uns setenta centímetros, nem sei…

 

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«Até tu, Bob!...»

por António Manuel Venda, em 13.10.16

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O livro «proibido» do arquitecto Saraiva

por António Manuel Venda, em 21.09.16

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Comprei o livro num supermercado e já o li. O autor tem vários deste tipo mas aqui, como já sobejamente se falou, foi mais longe. Tenho-os todos. E também tenho os romances. O primeiro é muito bom e eu por um acaso escrevi sobre ele (as peripécias disso davam uma história no mínimo estúpida, no máximo escabrosa, mas bem ilustrativa do que é o nosso meio jornalístico misturado com o meio literário). O segundo romance, já depois de o autor ter falado no famoso objectivo do Nobel, desce um bocado mas não envergonha. Com os outros dois já é um pouco diferente. Neste link, o meu amigo Rodolfo sabe o que diz, como sempre. Não há ninguém no mundo editorial acima dele; pode haver igual, mas acima tenho a certeza de que não há.

 

 

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Para sul

por António Manuel Venda, em 17.09.16

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Na era dos carros inteligentes as possibilidades são mais do que muitas. Isso é óptimo, sobretudo para quem sabe que está a perder as suas faculdades a olhos vistos. O carro que me leva avisa-me com frequência: António, javalis na estrada! (ANT.JAV) António, árvore caída! (ANT.ARV) António, políticos em circulação! (ANT.FDP) António, uma gineta, das de olhos vermelhos, prepara-se para atravessar à maluca! (ANT.GNT) António, os caçadores mais a sua crueldade! (ANT.PUM) Às vezes, sem nada de relevante para assinalar, e sabendo da minha incurável desorientação, avisa-me simplesmente de que seguimos para sul. Quem sabe se de nenhum norte...

 

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Na verdadeira montanha

por António Manuel Venda, em 16.09.16

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Tarde na noite. Uma subida à verdadeira montanha da serra da minha imaginação. Três javalis e depois uma raposa passam apressados na parte alta que entra no nevoeiro. Ou nalguma nuvem contratada para meados de Setembro por ajuste directo pela Direcção Geral de Meteorologia e Desperdícios Tropicais. O dia dos javalis e da raposa, dia entre aspas, ainda é uma criança. Mais abaixo não há nada daquela direcção geral. Apenas um cão, de coleira e ar amigável. Aproxima-se do carro. Junto à minha porta, de vidro aberto, afago-lhe a cabeça. Já não vai para novo. Observa-me com um olhar de sabedoria. Depois afasta-se, sai da estrada e perde-se na vegetação junto de um sobreiro. Podia continuar... Eu. Refiro-me a mim. E ao texto. Escreveria um conto. Ou um pequeno romance. Mas não. Não quero parecer estúpido a esse ponto. Nem pretensioso.

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Protegido pelas flores

por António Manuel Venda, em 21.08.16

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Encontrei-o numa praia deserta, um gato pequenino mas de cabeça grande. Segurava uma amostra de rato na boca, sem grandes ideias de largá-la. Como agora. Lembro-me de na praia ter olhado de uma ponta à outra, em busca de alguma família com crianças que pudessem tê-lo perdido. Uma tentativa um bocado parva numa praia deserta, contudo uma tentativa. Lembro-me até de ter olhado em frente, para o mar que a partir daquela praia esconde todas as áfricas do mundo. E para trás, para a figura majestosa da serra dos dois dinossauros adormecidos. Nada. Nem sombra de pessoas.

Acabei por trazer o gato num pequeno saco de plástico, entre conchas, pequenos búzios e caracóis cor-de-rosa. Nunca largou a amostra de rato, nem no saco, nem em casa atrás de um livro da minha infância, primeiro, e depois junto de construções em barro feitas pelos meus filhos. Mudei-o depois para um recanto do jardim onde os cães dificilmente o descobrirão. E protegido por flores verdes, sempre as de melhor cor. Por causa do sol, e talvez da chuva daqui a um tempo, e das águias, e das rolas que são cada vez mais. Quem sabe até protegido das ventanias do começo da noite.

 

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Íamos ver passar o comboio

por António Manuel Venda, em 18.07.16

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Fez ontem seis anos a minha filha Francisca. Está praticamente a seis do irmão mais velho, a três da irmã e com três de avanço sobre o irmão pequenino. Por incrível que me pareça (só a mim), somadas as idades dos quatro o número nem se aproxima da minha idade. Nem sei, agora, o que isso quererá dizer. O que é a idade? Quantos anos tenho? O que passou por mim? Lembro-me de um tempo ainda recente em que a Francisca, enquanto adormecia comigo para a sesta, mostrava uma enorme curiosidade na história de um comboio como o que íamos ver passar na estação de Torre da Gadanha (quanto tempo, tantas vezes, esperámos que passasse, tão comprido, tão rápido, só para vê-lo, os dois sozinhos na plataforma da estação abandonada?). O comboio, na história, era amigo de um gato chamado Sabu e os dois uniam-se na luta contra um monstro de origem francesa conhecido por Basou (lê-se Bazu). Ela acreditava em todas as aventuras do comboio e do gato com o monstro. Agora já não. Só eu, imagine-se, acredito. Porque me lembro de tudo e consigo ver as histórias, como num filme. Se fechar os olhos.

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Blogue da semana

por António Manuel Venda, em 17.07.16

Um dos meus escritores preferidos (poderia facilmente juntá-lo a Santiago Gamboa e a Roberto Ampuero): textos de Javier Cercas recolhidos num blogue que fica como o desta semana. Aqui.

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A melhor solidão

por António Manuel Venda, em 09.07.16

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Duas das quinhentas ou seiscentas perguntas que me faziam em miúdo quando estudava em Portimão, ido todos os dias de Monchique, a minha terra, eram as seguintes: «Quando é que o comboio chega a Monchique?» e «Quando é que fazem uma praia na Fóia?» Sobre a primeira pergunta, a do comboio, dei há poucos anos uma longa explicação na Biblioteca Municipal de Portimão, quando me convidaram para lá falar de um livro meu (é uma história deliciosa). Já sobre a segunda, deixo esta foto, a da praia da Serra de Monchique, dominada pelo alto da Fóia e pelo alto da sua irmã um bocadinho mais baixa, a Picota, a praia que sempre existiu e onde é possível, mesmo no invadido Algarve dos verões, encontrar a melhor solidão de cada um de nós. Olhando, se se quiser, para a serra dos dois dinossauros adormecidos, a que o escritor Manuel do Nascimento, meu conterrâneo, chamava simplesmente a serra azul.

 

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Fora de Série (20)

por António Manuel Venda, em 04.06.16

 Há uma imagem de um campo de futebol cheio de papelinhos na minha cabeça, uma imagem difusa de 1978, mostrada numa televisão a preto e branco. A final do campeonato do mundo, entre a Argentina e a Holanda, em Buenos Aires. Não se pode dizer que foi o meu primeiro desses campeonatos, pois na altura nem percebi quem ganhou, nem que havia uma selecção apelidada de «laranja mecânica» que jogava um futebol de sonho, nem que o país organizador da competição passava por uma ditadura. O meu primeiro campeonato do mundo foi o de quatro anos depois, em Espanha, logo a seguir a acabar o meu primeiro campeonato em Portugal para o grande, grande, enorme Sporting, com a inesquecível equipa de Malcolm Allison. Eu preparava-me para ver os jogos com muito interesse, porque era o primeiro, porque já tinha arranjado os jogadores todos na primeira colecção de cromos que fazia para um mundial, porque ia juntando e lendo os fascículos que contavam as histórias dos mundiais desde 1930, no Uruguai. O interesse até poderia ser maior, se a selecção portuguesa participasse, o problema é que não tinha sido apurada. «Mas temos o Brasil para torcer!», dizia o jornalista Gabriel Alves sem eu perceber qualquer lógica naquilo. Eu queria lá saber da selecção do Brasil...

Foi em 1982, antes de a bola começar a rolar nos estádios espanhóis, que vi as imagens filmadas dos campeonatos do mundo, onde só tínhamos estado uma vez, ainda eu não era nascido. Foram 26 episódios de 20 minutos cada com a mascote do campeonato, o Naranjito, a namorada, um amigo com cabeça de limão e um robot a viverem aventuras inesquecíveis sempre às turras com dois malvados que queriam destruir as únicas cópias que existiam dos 11 campeonatos jogados até aí («las películas», como gritava um dos malvados). Foi o grupo do Naranjito que me levou a ver pela primeira vez os filmes dos mundiais de futebol. Pelo meio de desenhos animados de aventuras mirabolantes, com o campeonato do mundo de Espanha mesmo a começar.

Eu, pequenino, costumava ir ajudar a minha tia a regar um pomar, logo a partir da Primavera. Lembro-me da rega à pressa e dos avisos dela para não me atrasar por causa da hora de ver o Naranjito. A série chama-se «Futebol em Acção» e foi produzida pela Radiotelevisão Espanhola. Desenhos animados, alguns anos depois dos primeiros que vi (do Vickie, o viking), e no fim os filmes dos golos que os malvados não conseguiam nunca destruir. A minha tia tem noventa anos. Escrevo o texto a correr, antes de ir vê-la ao hospital. Acredito que voltará daqui a uns dias.

 

 

 

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Leaving home

por António Manuel Venda, em 03.06.16

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O grito

por António Manuel Venda, em 01.06.16

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Amarela

por António Manuel Venda, em 25.05.16

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Não sabia que era amarela. Uma das sobreviventes. Das dezenas e dezenas de sobreviventes de todas as mudanças que fiz por aqui. Houve quem me dissesse que haveriam de morrer em menos de nada, mas eu acreditei que não. Dia após dia. E nenhuma morreu. Algumas, mais batalhadoras, fartaram-se de amandar picadas. Como se eu estivesse a fazer uma mudança de sítio não de roseiras mas sim de alclaras - ou escorpiões, para quem é de fora destas terras que sempre se mantiveram no topo do sul de Portugal. Picaram-me como alclaras, com algumas diferenças (não mandavam veneno, faziam sangue e a dor em vez de durar vinte e quatro horas durava, nem sei, uns vinte e quatro segundos). Ainda continuam a picar, mas menos. Já as alclaras, essas andam na mesma e é preciso um certo cuidado.

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Selfies (ou o que for)

por António Manuel Venda, em 13.05.16

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Na assembleia da nossa república é preciso cuidado com as selfies nas estátuas. (foto palmada ao deputado João Soares, no «Facebook»)

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A minha avenida da liberdade

por António Manuel Venda, em 12.05.16

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Ilusão (ou o que quiserem)

por António Manuel Venda, em 10.05.16

Vendo as imagens, por vezes parece que José Mourinho canta no título de Claudio Ranieri e do Leicester.

 

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Blogue da semana

por António Manuel Venda, em 24.01.16

Está a comemorar quatro anos e tem alguns elementos do «Delito de Opinião» (outros, compreensivelmente, não se atreveriam a entrar). A escolha para esta semana é verde, o blogue «És a Nossa Fé».

 

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Em busca

por António Manuel Venda, em 18.01.16

Quase toda a manhã. Um dos bosques da família. Em busca da sebe maior da casa. Duas pequenas centopeias agarram-se às raízes do folhadeiro, parecendo não querer deixá-lo sair do bosque. Como se não tivessem folhadeiro suficiente por lá... Não largam. Vêm comigo, e nem as mãos me cobiçam para umas picadas quase de cócegas. As duas, rainhas das raízes. Imagino que ficarão a conhecer a sebe. Passado um tempo. A sebe enorme. Elas também enormes. Terei de contar com elas nessa altura.

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Tudo o que trouxe

por António Manuel Venda, em 10.01.16

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Tudo o que trouxe dali da montanha. A folhagem. Há raposas, e javalis, e escalavardos. Mas a raposa vermelha não veio dali. Em tempos o meu filho mais velho deu-lhe forma na escola para a oferecer. A mim. O dia do pai. Um tempo tão longínquo... Quantos anos terá a pequena raposa?

 

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Uma manhã do mundo

por António Manuel Venda, em 09.01.16

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Uma infinita paciência

por António Manuel Venda, em 08.01.16

Chove mansamente e sem parar, chove sem vontade mas com uma infinita paciência, como toda a vida, chove sobre a terra que é da mesma cor que o céu, entre verde suave e cinzento suave, e a linha do monte já há muito se apagou.

– Há muitas horas?

– Não; há muitos anos. (...)

O início do inesquecível romance «Mazurca para Dois Mortos», de Camilo José Cela, o grande escritor galego. Coloco aqui de cabeça, sujeito a alguma imprecisão. O início do romance. O dia de hoje. Parece que todos os dias.

 

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Despertares

por António Manuel Venda, em 23.12.15

Um velho monstro sonolento pode finalmente despertar, agora rejuvenescido. A minha prenda de Natal para ele, por estes dias. Não foi, é claro, o único contemplado aqui na amazónia portuguesa.

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Um dia destes

por António Manuel Venda, em 06.12.15

Na cidade com os meus quatro filhos. O pequenino Rodrigo ao colo. Pela mão a pequena Francisca. E junto de mim a Madalena e o Bernardo. Todos tão bonitos, contrastando comigo. Um casal já idoso não deixava de olhar para nós. «Grande trabalho!», acabou por dizer-me o homem, como se me conhecesse desde sempre. Mas eu nunca o tinha visto. Almoçámos no restaurante de um pequeno hotel. Mais um casal, desta vez os empregados, por sinal um bocado estranhos. Cada um à sua maneira. A mulher estranha numa simpatia a disfarçar uma natural antipatia. O homem estranho nem vou agora dizer por quê. Os dois capricharam em tratar-nos com desprezo, quando numa mesa ao lado um casal espanhol tinha a mais pequena das duas filhas sempre aos berros e a chorar. E a empregada, enquanto nós íamos esperando, atarefava-se a levar brinquedos para a mesa, enquanto dizia «não ai próblema». Cheguei a propor aos meus filhos que não voltássemos lá, mas o mais velho disse que devíamos voltar, pois a comida era boa. Ficámos de voltar, claro, até porque a antipatia não tira pedaço nenhum e nós podemos bem com a antipatia daqueles dois e sabemos como almoçar descansados.

Mais tarde, já nas bombas de gasolina, no café, outro casal. Não a meter-se mas a ser tema de conversa numa mesa próxima. Nem imagino os pormenores da conversa. Mas era de um casal que se falava. A voz de uma das pessoas entrava-me estridente pelos ouvidos. Falava-se de um casal. Só que havia dúvidas. Lá nessa mesa. Dúvidas sobre a mulher. Até que bem em frente de mim um tipo com ar de desgraçado se meteu a dar palpites. Não, essa não. Essa é a mulher do Stalin, desse aí é mas é a irmã. Não percebi a reacção dos outros. O desgraçado insistiu que era a mulher do Stalin, que afinal do outro era, precisamente, a irmã, tia dos filhos dele. Dei comigo a pensar que na capital religiosa da pátria do nosso comunismo aquilo só podia fazer sentido. Costuma inclusive passar por mim um Lenine, já na zona rural. Tipo de fixações, parece-me. Sempre a mesma roupa, sempre o mesmo pó na bicicleta a motor, sempre o mesmo cão calado na caixa de madeira atada na parte de trás – da bicicleta, não a dele. Sempre a mesma caixa, claro.

 

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Punkinho (2004-2015)

por António Manuel Venda, em 05.12.15

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O gato branco dos milagres, o Punkinho, capaz de gastar muito mais do que sete vidas. Até à última de tantas e tantas que teve. Levei-o numa noite destas para junto de um limoeiro, enquanto o meu pai, num canteiro acima, segurava numa lanterna (para eu ver a cavar). Parecia dormir nas minhas mãos, imperturbável, sem uma ferida, sem um sinal que fosse da pancada de um carro descontrolado. Há uma passadeira de peões na estrada perto dali, mas é raro algum condutor parar. Já fiz a experiência e até numa carrinha do transporte escolar senti uma ligeira aceleração. Eu andava a carregar lenha e ameaçava aos condutores ir para a passadeira, mas tinha de recuar. A certa altura, com uns troncos dos maiores bem seguros, estendi os braços e uma carrinha da Meo, daquelas com escada em cima e tudo, bateu num deles com um certo estrondo (não deve ter partido o vidro, porque o condutor dispensou-se de protestar, nem que fosse com uma buzinadela). Percebi essa pancada no tronco quase como percebi a que apanhou o Punkinho, pois estava por perto quando ele se aventurou na estrada. A pancada fatal. Mas nem sinal de sangue. O Punkinho parecia mesmo dormir. Deixou a derradeira vida sereno, intacto, perfeito. Como sempre. Mesmo depois da brutalidade do acidente. O seu último milagre. Quase de certeza.

 

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Novembro

por António Manuel Venda, em 03.12.15

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Com uma nova edição a chegar às bancas, fica disponível on-line a revista de Novembro. Aqui.

 

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Dia 14

por António Manuel Venda, em 14.11.15

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Quase a bater a meia-noite. Quase duzentos quilómetros batidos. Pelo dono. O gato branco dos milagres esperava-o mais os livros. Um pouco indiferentes, gato e livros. Não foi a pior indiferença do dia. Sexta-feira, 13. Já passou.

 

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Abrindo a porta

por António Manuel Venda, em 18.06.15

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Blogue da semana

por António Manuel Venda, em 15.06.15

«Casa de Cacela», o blogue de José Carlos Barros. Poemas, pequenos textos, alguns desenhos. Sempre uma maravilha. Vale a pena passar por lá.

 

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Pela tarde fora

por António Manuel Venda, em 13.06.15

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Vai pela minha mão, e é pela tarde fora. O mais pequenino dos meus quatro filhos, de dois anos. Foto inventada pelo mais velho, de dez. Somando as quatro idades dá um número ainda assim inferior a todo o percurso que tenho vindo a fazer, mesmo que sorrateiramente me meta a subtrair alguma coisa do que já vivi. O tempo passa.

 

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Um sinal

por António Manuel Venda, em 01.06.15

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Este Domingo ao princípio da tarde, junto ao verde tão verde do pequeno ribeiro, ali adiante depois dos canteiros, dei com um sinal de que tudo ia correr pelo melhor. O resultado cor-de-rosa depois dos penalties que nos deram a glória no Jamor. Fantástico Sporting!

 

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Por aqui

por António Manuel Venda, em 30.05.15

Algumas flores um bocado extraterrestres.

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Pela manhã

por António Manuel Venda, em 28.05.15

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Sobre a meta

por António Manuel Venda, em 24.05.15

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Sobre a meta, a tempo da abertura da Feira do Livro, um último olhar para as provas de um livro que percorre 33 anos, desde os tempos em que um miúdo, sozinho, desceu da serra dos dois dinossauros adormecidos para ir ver pela primeira vez um jogo da sua equipa.

 

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Na ribanceira

por António Manuel Venda, em 19.05.15

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O cão super-herói que até tem uma experiência relevante de frequência da Universidade de Évora (foto das cadeiras azuis) deixou-se ontem ludibriar por uma armadilha para os javalis. A noite já chegada e eu pelo caminho com a cadela sua companheira bem segura numa trela comprida (para ela não fugir, o que levaria a que andasse umas horas desaparecida). Ouvi o cão ganir por perto, quando o normal é ouvi-lo ladrar enquanto segue os cheiros dos escalavardos e dos javalis. Corri para o som dos ganidos com a cadela bem segura. Uma ribanceira, e o cão pendurado por uma das patas traseiras. Subi a custo – seria fácil sozinho, mas com a cadela tive de ter mais cuidado. Fomos os dois, porque não estive para perder tempo a procurar uma árvore em que conseguisse prendê-la. Era difícil estar na ribanceira a segurar o cão, que é bem pesado. Para conseguir usar as duas mãos, prendi a cadela a uma perna. Tentei libertar o cão do laço, mas os esforços para se libertar tinham feito apertar o nó de uma forma que me fazia ter dificuldade até para olhar. Mas ele estava calmo, por isso não devia ter a pata partida. Foi o que pensei, enquanto tentava desfazer o nó mesmo na ponta da pata, a uns dois centímetros das unhas. Só desfiz um bocado, a maior parte ficou. Eu costumo levar um pequeno machado, precisamente por causa dos javalis. Mas ontem não levei. Tinha no entanto o telemóvel. Ao fim de meia hora na ribanceira – eu, o cão calmo a perceber que não se devia mexer e a cadela meio agitada –, chegou o machado, e mais uma foice roçadeira, e uma tesoura de podar. A tesoura foi o melhor para cortar a armadilha, feita com um cabo de plástico bem duro e com metal lá dentro. Depois de cortar o cabo – coisa que não foi fácil –, deslizámos os três pela ribanceira. Já no caminho, cortei o resto de cabo que ainda apertava a ponta da pata do cão. Vi-o em menos de nada correr sem coxear. Uma corrida longa até perdê-lo dos meus olhos. Depois voltou, reapareceu do escuro, e tentou abraçar-me com um salto e as duas patas compridas, as da frente. Pareceu-me que quis primeiro ir ver se conseguia correr como antes. Vinha feliz.

 

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Logo pela manhã

por António Manuel Venda, em 20.04.15

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Sexta-feira, dia 27, em Lisboa

por António Manuel Venda, em 23.03.15

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Passando a curva

por António Manuel Venda, em 15.02.15

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Metade da vida. Eu tinha 23 anos e mais um bocadinho em Outubro de 1991 quando me apanharam assim numa foto junto ao que restava (ainda era bastante na altura) do muro de Berlim. Esse tempo tinha passado devagar. Eu tinha vivido tantas coisas... E julgava-me praticamente imortal. A vida, olhando para a frente, era uma estrada que terminava num lugar longínquo, a uma imensidão de tempo de onde eu existia. E eu nem fazia ideia dos territórios que atravessava. Agora, 23 anos e mais um bocadinho depois, já conheci tanto dessa estrada, muitos desses territórios. E já não me parece que seja uma estrada tão longa assim. Que tenha no fim um lugar longínquo. Olho em frente e vejo-a a direito, uma recta que se perde para lá da linha do horizonte. Em Berlim, há 23 anos, a estrada fazia uma curva nem vinte metros adiante de onde eu estava. E não se via mais nada. Tudo seria, pensava eu então, uma descoberta. Passando a curva.

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Blogue da semana

por António Manuel Venda, em 19.01.15

O blogue de um histórico editor de Portugal e do Brasil, Mário de Moura. Recomendo os seus textos, e mais, sugiro que se comece por um disponibilizado a 30 de Dezembro: «Maria Azeitona». «Encantos e Desencantos de um Editor», aqui.

 

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Os primeiros autógrafos

por António Manuel Venda, em 09.01.15

Um amigo oferece-me o jantar. Tem também três livros para que eu assine, dois de contos e um romance. São dos antigos, dois ainda dos tempos do escudo (um de mil e seiscentos e tal escudos, do Continente acho que da Amadora). Comprou-os em alfarrabistas. Livros escritos por mim no tempo em que ainda me aguentava a escrever. Ele desculpa-se por estar a pedir-me os autógrafos, assim, logo três. Eu digo que não tem problema. Não é nenhuma chatice. Basta colocar «para», depois o nome dele, e a seguir colocar «o primeiro autógrafo de 2015». Isto num livro. Noutro «o segundo autógrafo de 2015». E ainda noutro «o terceiro autógrafo de 2015». Além, é claro, da assinatura, da data e do local (Paris, Bamako, Lisboa, São Jorge dos Ilhéus, sei lá, posso muito bem inventar). Estou mesmo para fazer isso. Mas lá acabo por colocar o local certo e inventar umas coisas diferentes daquilo de primeiro, segundo e terceiro. Tentarei fazer o mesmo noutro livro que me venham a apresentar em busca da minha assinatura cada vez mais irreconhecível. Mas se não der, enfim, lá terá de ser algo apenas com «o quarto autógrafo». E depois «o quinto». E «o sexto». Há-de chegar o momento em que não conseguirei nada diferente desta lógica. Isto se me pedirem, o que nem é nada garantido que aconteça. E se pedirem, e se eu não souber o que escrever fora de tão imediata contabilidade, o mais certo será acabar por me confundir com as contas. Tipo o BES ou o Orçamento do Estado. É o mais certo, aliás. E fazer um registo no bloco de apontamentos, isso não farei. Nem pensar. Mesmo correndo o risco de me perder a partir do número cinco. Como quando tinha dois ou três anos. Já nem sei quando é que isso foi.

 

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Um livro de contos com aventuras que quase davam um romance

por António Manuel Venda, em 13.12.14

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Descobri há dias, por acaso, que este meu livro com as histórias de um menino do Alentejo não foi enviado para o «Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco da Associação Portuguesa de Escritores». Aconteceu por acaso, durante uma conversa. E eu não pude deixar de ficar surpreendido. Quase tanto como se no ano do prémio me tivessem vindo dizer que tinha sido precisamente esse livro o escolhido para a distinção (caso tivesse participado, já se vê). Da surpresa, é claro, passei a uma certa compreensão, simplesmente porque me lembrei de algumas peripécias do tempo em que foi preparada a edição.

Por exemplo – refiro-me às peripécias –, quando comecei a ver as provas descobri ao fim de poucos minutos que a versão paginada não era a definitiva, mas sim uma inicial, diferente, mandada ainda nem o livro tinha data marcada para publicação. Como me pareceu que não havia grande disponibilidade para repetir o trabalho de paginação, acabei por sobre aquela versão fazer juntamente com as correcções a transformação que tinha dado origem à versão definitiva. Horas e horas, comparando as folhas de papel e um ficheiro do computador, escrevendo alterações e mais alterações, e a verdade é que a coisa lá se arranjou. Depois, ao acabar, uma surpresa. Algo em que só por sorte reparei. Numa citação que abre o livro, e que antes não me tinha preocupado em verificar, dei com o nome do respectivo autor, um famoso poeta brasileiro que morreu há poucos dias, a aparecer com uma letra trocada: Manoel de Barros estava transformado, vá-se lá saber por quê, em Manuel de Barros. Fui ver ao meu documento do computador e lá estava o nome próprio Manoel, que na passagem para as provas do livro mão «amiga» tinha descorrigido para Manuel. Suspirei de alívio, porque a verdade é que eu poderia nem ter passado pela página da citação, por não ser muito normal ter aí algum erro. Mas tinha, e logo um dos grandes, arranjado não sei em que altura do trabalho de preparação das provas. Com isto acabei por ir também ver com cuidado redobrado o texto da contracapa e a minha nota biográfica. Estava tudo bem. O pior aconteceu quando o livro ficou pronto.

Claro que eu fui logo bater lá com os olhos. A minha nota biográfica, numa das badanas. Estava exactamente como eu tinha visto, só que no final mão «amiga» tinha acrescentado, já depois da revisão feita por mim, que se tratava do «segundo romance do autor» na editora. Fiquei a olhar para aquilo sem saber o que dizer; pior, sem saber o que pensar. Perguntei o que é que se tinha passado, mas pela forma como fui olhado acho que passei por estúpido, para estar com uma pergunta daquelas. Por isso desisti. Não valia a pena insistir na pergunta. Estava lá que era o segundo romance e pronto, não havia nada a fazer. Mas não era. Era o segundo livro na editora, só que era um livro de contos, depois da publicação, aí, de um romance. Chama-se a isto, em termos de edição, encher chouriços.

Há dias, quando descobri a falta de comparência no prémio da Associação Portuguesa de Escritores para contos, lembrei-me do erro da badana. Talvez o livro não tivesse sido mandado por causa de estar lá a referência a tratar-se de um romance, pensei. Poderiam até tê-lo mandado para o prémio relativo aos romances, sabia lá eu. Mas não. A pessoa que pouco antes me tinha falado da falta do livro no prémio para contos disse-me que isso não teria sido possível. Perguntei por quê e a explicação veio de imediato: se tivesse sido enviado para o prémio dos romances, na triagem que sempre fazem o livro seria passado imediatamente para o prémio dos contos.

Ou seja, o livro com as histórias do menino do Alentejo ficou de fora. O assunto parecia esgotado, a conversa mudava para outras coisas, mas de repente chegou-me uma curiosidade. Nesse ano, o prémio dos contos, que livro o teria merecido? A pessoa que falava comigo disse-me sem deixar passar nem três segundos: «O Porco de Erimanto». E eu fiquei de novo surpreendido, ainda mais do que um pouco antes, na altura em que tinha sabido da falta de comparência. «É quase o meu livro», foi o que acabei por dizer. A pessoa olhou-me com alguma estranheza, mas a seguir percebeu. Os títulos. No livro premiado, um porco, o de Erimanto. No meu, esquecido, um javali, e de sorriso enigmático. A pessoa, uns instantes depois, disse o nome do autor. A. M. Pires Cabral. Eu, é claro, sabia quem era. A. M. de António Manuel, como eu, foi o que pensei. Mais uma coincidência. Mas era a última. No resto, tudo tão diferente. Idades tão diferentes. Um autor bem do norte, outro bem do sul. Escritas tão diferentes. Vidas até, quem sabe, tão diferentes. Editoras tão diferentes.

 

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A estrada para o Sol

por António Manuel Venda, em 08.12.14

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Alentejo, este sábado.

 

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Nos tempos de faculdade, como eu já escrevia e as coisas até se aguentavam para o «DN Jovem», havia quem me qualificasse (uma pessoa, não se tratava de um grupo, não vamos a tanto, e o mais certo era ser a gozar) como «escritor das bruxas de inspiração regionalista» (presumo que por causa da inigualável Serra de Monchique, onde eu as ia buscar). E numa das fitas do final do curso (1991) um colega escreveu que no distante ano de 2009 eu receberia o Prémio Nobel da Literatura. E falava das bruxas, até de um título de um livro que eu não tinha ainda escrito nem cheguei a escrever (um bom título, aliás). Enganou-se na cidade onde eu iria «receber» o prémio, escreveu Oslo, mas eu não liguei. Mais fácil seria eu ganhar o Prémio Nobel da Paz, entregue nessa cidade, ou até um ligado às pequenas guerras, sei lá, do que o da Literatura, com entrega sempre em Estocolmo. Mais fácil seria até um camelo passar pelo governo, perdão, pelo buraco de uma agulha, como naquela história que depois mete o Reino dos Céus. Onde já vai o ano de 2009? E Prémio Nobel da Literatura nem vê-lo, nem uma «carreira» que desse para pelo menos dar uns passinhos fora de Portugal, nem que fosse até Huelva, a mítica cidade de minha infância, que não tem nada de mítico, afinal, como expliquei numa espécie de conferência que dei (por acaso com o ano de 2009 quase a chegar) na cidade de - tcham nam nam nam - Vila Real de Santo António. E agora, em 2014, com as bruxas em descanso até que eu volte a acordá-las (como fiz com a senhora Maria Cadela nos «Contos Municipais»), tenho de levar com o Halloween (acho que é assim que se escreve), como em tempos tive de levar com o Allgarve daquele tipo que na assembleia da nossa República confessou, exemplificando, que tinha um par de cornos. Allgarve lê-se ólgarve, já Halloween não sei bem como se lê. Puta que pariu o Halloween! Qualquer dia começamos a festejar os caças russos...

 

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Bem acima dos relâmpagos

por António Manuel Venda, em 14.10.14

Aproximou-se da sua terra, já na estrada de uma das montanhas altas, e abrandou a marcha do carro ainda mais do que aquilo a que os quatro dias quase sem dormir o obrigavam. Uma noite de tempestade a tocar as 21 horas. Centenas de quilómetros nas pernas, no acelerador, no travão e na embraiagem. Milhares de palavras ditas e centenas de palavrões reprimidos. Duas mãos mágicas (no mau sentido) dentro do crânio a apertarem-lhe o cérebro. E um monstro que no pensamento recorrentemente o atormentava.

Ele tinha isso tudo e muito mais. Tinha com que se preocupar. Até com o tremor do corpo causado pelo sono, pelas mãos mágicas e pelo monstro. Mas contemplava os relâmpagos acendidos nas nuvens negras que pairavam sobre as luzes da cidade lá ao fundo, junto ao mar. Era bom, dali onde o céu estava com estrelas, ver o fogo dos relâmpagos, tentar adivinhar onde apareceria o próximo, e depois pensar na ilusão de óptica, uma maravilha incompreensível para ele, a ilusão de que estava mais acima dos que os próprios relâmpagos que ameaçavam incendiar a cidade.

Às tantas já nem levava o carro a quarenta à hora. O motor parecia estar para morrer, ou para dormir como ele próprio estava. Por isso foi fácil travar. Dois veados bem à frente na estrada, a fugirem das luzes do carro, ao contrário do que fazem as lebres, que sempre as procuram como se essas luzes fossem as luzes da ribalta das lebres. Ele tinha ouvido falar dos veados na serra, já os tinha visto inclusive, mas nunca assim a testarem a aderência do alcatrão. E imaginava que eram muitos, com tanta floresta, com a abundância de água da nova barragem e sem o incómodo dos leões e dos tigres das áfricas. Ali estavam dois, ligeiros a treparem a ribanceira que levava a um eucaliptal. Pensou num casal, já depois de terem desaparecido. Tinha acabado de jogar a selecção em Paris. Na volta os veados regressavam de algum sítio onde tivessem conseguido ouvir o relato, ou mesmo de onde tivesse sido possível assistir à transmissão televisiva.

Ao longe continuavam os relâmpagos. Sem o som da trovoada, por causa da distância ou dos comentários gritados que chegavam de Paris no rádio do carro. Ele continuava a marcha, lenta – pelo cansaço, pela visão do fogo sobre a cidade junto ao mar e pelos cuidados com os veados que podiam aparecer de repente, embora com elegância, sem as corridas todas trangalhadanças dos javalis. Pensou nessa elegância dos veados e lembrou-se de um jogador da selecção que corria com a bola muito controlado e sempre de cabeça levantada, ao contrário de outros que corriam parecendo a qualquer momento ir afocinhar, de tanto meterem os cornos no chão. Infelizmente esse jogador já não estava em actividade, de contrário talvez a selecção pudesse ter ganho em Paris e agora os comentadores não gritassem tanto. Talvez desse para ouvir os relâmpagos mesmo àquela distância da cidade que dali das montanhas parecia fácil de dominar.

Havia uma zona, mais à frente, onde costumava parar. Aí a estrada atravessava propriedades da família e ele gostava de olhar mesmo que fosse na escuridão da noite para os tempos que já tinha perdido da infância. Tantos deles passados ali. Parou e saiu do carro. Mesmo a tremer. Mesmo quase a dormir. Mesmo com a gritaria de Paris. Afastou-se um pouco do carro para olhar bem o fundo do vale onde costumava brincar. Tão escuro agora. Teve de imaginar o vale. E depois, já perdido na imaginação, viu que se aproximavam quatro luzes. Ficou confuso. A sua imaginação não tinha como bem pouco tempo antes a capacidade de fazer aparecerem luzes. Nem outras capacidades. Estava a perder tanta coisa… Até que percebeu. Logo. Nem um minuto depois. Essa parte não era imaginada. Enquanto se via uma criança a brincar no fundo do vale, com a avó a chamá-lo para o almoço, ao mesmo tempo aproximavam-se dois veados. Também ali na propriedade da família. Pareceu-lhe uma fêmea com uma cria. Pela diferença de tamanho e pelo cuidado do maior com o pequenino. Foi junto ao carro que se assustaram. Ele pensou nos comentadores de Paris. Na gritaria em que insistiam por causa da derrota da selecção. Na puta que os pariu (ou nas putas). Pensou nisso e até disse mesmo «puta que os pariu». Com exclamação e não seguindo o acordo ortográfico.

Como se escreveria «puta que os pariu» seguindo o acordo de 1990? Na volta era o mesmo. Ou então algo verdadeiramente capaz de surpreender. «Puta que pariu o acordo», pensou, até sem pontuação. Já não imaginava nada, nem a criança que ele tinha sido a brincar no fundo do vale iluminado pelo sol, livre da escuridão que agora o engolia. Os dois veados tinham desaparecido para uma zona de montado. Ele sorriu, com a ideia de ter veados na propriedade da família. Um sorriso a tremer, obviamente. Um sorriso que ele conseguia fazer mesmo tendo o cérebro espremido e apanhando com os tormentos do monstro. Voltou a entrar no carro, desligou o rádio e preparou-se para os últimos quilómetros do percurso. Não sabia se em breve iria morrer ou não. Como toda a gente.

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Pela estrada

por António Manuel Venda, em 05.09.14

 

Metade da vida. Eu tinha 23 anos em Outubro de 1991 quando me apanharam assim numa foto junto ao que restava (ainda era bastante na altura) do muro de Berlim. Esses 23 anos tinham passado devagar. Eu tinha vivido tantas coisas... E julgava-me praticamente imortal. A vida, olhando parta a frente, era uma estrada que terminava num lugar longínquo, a uma imensidão de tempo de onde eu existia. E eu nem fazia ideia dos territórios que atravessava. Agora, 23 anos depois, já conheci tanto dessa estrada, muitos desses territórios. E já não me parece que seja uma estrada tão longa assim. Que tenha no fim um lugar longínquo. Olho em frente e vejo-a a direito, uma recta que se perde para lá da linha do horizonte. Em Berlim, há 23 anos, a estrada fazia uma curva nem vinte metros adiante de onde eu estava. E não se via mais nada. Tudo seria, pensava eu então, uma descoberta. Passando a curva.

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O homem das montanhas

por António Manuel Venda, em 30.08.14

 

Monchique, capital do Algarve, fim da tarde. Depois de falar de um livro às crianças na Junta de Freguesia, entrei no Intermarché para comprar algumas coisas para o meu filho mais novo. À saída, cheio de sede, comprei uma garrafa de água fresca no café e aproveitei para pedir também um pastel de nata (um euro e oito, ou seja, a vida é mais barata do que no resto deste país do sul e até do que na vizinha demo-kracia de Portugal). O meu lanche, quase à hora do jantar. Foi nessa altura que apareceu um tipo bem das montanhas. Mostrava uma nota de vinte euros na mão direita, mostrava-a ao empregado. E disse que precisava de cinco euros para ir fazer um pagamento creio que numa das caixas do hipermercado.O empregado deu-lhe uma nota de cinco euros em troca da de vinte e ele lá foi. Quando voltou, o empregado perguntou-lhe como queria os restantes quinze euros, se também notas de cinco, ou uma de dez e uma de cinco. O homem das montanhas disse que tanto fazia. Até podia ser em cervejas, desde que lhas fosse colocando frescas uma por uma em cima do balcão. Eu estava a ir-me embora nessa altura. Reparei que o homem das montanhas sorria a caminho de rir quase à gargalhada. Parecia feliz. Não sei se era a perspectiva de chegar a primeira cerveja. Ou os quinze euros em notas. Ou na volta em moedas. Para a próxima hei-de demorar mais um bocadinho.

 

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O ouriço

por António Manuel Venda, em 16.08.14

Provavelmente ainda andam por lá a falar do tipo que ontem à noite desatou a correr, naquilo a que poderemos chamar um destino turístico dos que enchem até a maior parte das pessoas se abalroarem umas às outras. Estava lá de passagem, não como turista, que ao que parece nunca foi na vida. Correu mesmo muito - mais um doido, deve montes de gente ter pensado -, e no fim da corrida conseguiu dominar com o pé direito um ouriço-cacheiro que atravessava uma rua de vivendas de alto custo mas baixo gosto. O ouriço, convenientemente, enrolou-se, para não complicar o domínio de bola. Mas logo a seguir meteu as patas de fora e dirigiu-se para uma cerca de rede. Não conseguiu passar. O tipo que tinha corrido para ele passou rapidamente de jogador de campo a guarda-redes. Apanhou-o com dez mil cuidados, o ouriço de novo uma bola, levantou-o a mais de um metro de altura fazendo figas para que ele não pesasse muito por causa dos picos a atacarem as palmas das mãos, e depois deixou-o cair para o outro lado da cerca. A boa acção da noite. O ouriço lá seguiu o caminho dele, olhando de vez em quando para trás, ou a agradecer ou então, o mais certo, a ver se se tinha livrado daquele tipo estranho, tão diferente dos que falavam inglês, alemão, francês, ispanhuele e até português de Lisboa e arredores. O tipo era eu. Já o ouriço não sei. Era um ouriço, na volta um ouriço de Verão contratado por algum vogal da direcção do Turismo de Portugal nem imagino com que objectivos. Só sei que não era o meu ouriço, o que teve a gentileza de entrar nos meus «Contos Municipais» e de abdicar dos direitos de imagem ao aparecer na capa do livro. Há ouriços porreiros entre os ouriços-cacheiros (a rima não foi forçada, apenas aconteceu). O meu é um ouriço porreiro. O de ontem à noite também deve ser. Na volta são todos porreiros. Os ouriços-cacheiros. Já os ouriços-humanos duvido. O mesmo vale para os humanos-cacheiros. Para os humanos até sem mais nada. Nem eu sei se sou porreiro. Provavelmente sou. Mas há uns filhos da puta que juram a pés juntos que não. Nem será bem a pés juntos. É mais a patas juntas. Juram mesmo. Puta que os pariu...

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Nobel aos 31

por António Manuel Venda, em 13.08.14

As coisas que eu escrevia em jovem poderiam facilmente ter dado para chegar ao Prémio Nobel da Literatura aos 31 anos, mas só se o meu pai tivesse sido então presidente da Comissão Europeia - que já existia quando eu tinha 31 anos - e o Comité Nobel funcionasse tipo Banco de Portugal e até dispusesse de um departamento de supervisão prudencial, fosse lá isso o que fosse em Estocolmo e inclusive tendo a denominação em sueco. Claro que para tal milagre nem eu, nem o meu pai, nem os decisores do Banco de Portugal, perdão, do Comité Nobel, nenhum de nós poderia ter coluna vertebral, como acontece a ilustres cidadãos portugueses, alguns com patente internacional ainda que da treta. Seria um escritor rico, mas ao mesmo também um escritor frustrado (aqui lembro-me do belíssimo pequeno romance do espanhol José Ángel Mañas, que se chama precisamente «Sou um Escritor Frustrado»). A vantagem é que teria de certeza evitado que o vírus dos palavrões atingisse os meus livros - a minha mãe, por exemplo, não precisaria de ter vergonha de certos parágrafos. Seria um escritor acima de tudo bem educado (não falta por aí). E teria feito estágios de Verão. E daria aulas numa universidade. E apareceria nos jornais como um inútil que sobe na vida toda gente sabe como. Além, é claro, de nunca ter abandonado o editor de barriga alongada e ares de seboso. Enfim, areia de mais para a pequena camioneta que mantenho desde os tempos de criança.

 

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Blogue da semana

por António Manuel Venda, em 28.07.14

O blogue está associado ao site do autor, o jornalista e escritor Joel Neto. «Regresso a Casa» assume a forma de diário, neste caso sobre a vida no campo, em pleno Atlântico. Aqui.

 

 

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