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Blogue da semana

por João Campos, em 19.02.17

Numa época em que os blogues caíram em desuso e foram ultrapassados pela irrelevância acelerada das redes sociais, é sempre interessante notar que ainda existem alguns fenómenos de longevidade - blogues criados durante a época de maior dinamismo da blogosfera que durante o seu ocaso têm mantido tanto a actividade regular como a pertinência. É o caso do Rascunhos, que desde 2006 tem vindo a deixar óptimas sugestões de leitura e reflexões interessantes sobre os livros e as bandas desenhadas que a Cristina Alves, com quem já tive o privilégio de partilhar algumas mesas redondas no Fórum Fantástico, vai lendo (e lê muitos). Pela longevidade e pela qualidade, será o blogue desta semana.

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John Hurt (1940 - 2017)

por João Campos, em 28.01.17

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Conta a lenda de que a célebre chestburster scene foi filmada sem que o elenco soubesse de que a criatura alienígena iria explodir em sangue e entranhas do peito de John Hurt - ideia de Ridley Scott para obter do elenco de Alien uma reacção mais genuína. O resultado foi uma das mais icónicas cenas do cinema tanto de horror como de ficção científica - e uma que o próprio John Hurt parodiaria oito anos depois no Spaceballs do lendário Mel Brooks. Hurt foi o oprimido Winston em 1984, o revolucionário Gilliam em Snowpiercer e o tirano Sutler em V for Vendetta; foi o Elephant Man de David Lynch e o Professor Broom dos dois Hellboy de Guillermo Del Toro (duas adaptações de banda desenhada tristemente subvalorizadas e esquecidas). Entrou, entre muitos outros filmes e inúmeras séries televisivas, em Only Lovers Left AliveTinker Taylor Soldier SpyMelancholiaJackie (a estrear em breve), Dr. Who, Merlin e The Storyteller. Emprestou também a sua voz inconfundível à animação - foi, por exemplo, o Aragorn da adaptação animada de The Lord of the Rings realizada por Ralph Bakshi em 1978. Não havia - não há - muitos actores com o seu carisma. John Hurt morreu hoje, aos 77 anos. 

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Os maus exemplos

por João Campos, em 19.01.17

Imagine que vai a um restaurante jantar com amigos. Senta-se à mesa, escolhe do menu a refeição, engana a fome com pão e manteiga, delicia-se com o prato escolhido e o vinho que o acompanha, e atreve-se ainda a uma sobremesa. No final, quando o empregado de mesa lhe traz a conta, paga e pede uma factura. "Dá jeito para o IRS", comenta de passagem. Ao que o empregado lhe responde que tem todo o direito à factura mas que não lha pode dar ali, no acto do pagamento. Pode, sim, dar-lhe um formulário postal que deverá preencher e enviar pelo correio, solicitando a dita factura. Ou, em alternativa, poderá, "a partir do conforto de sua casa" (diz isto como se estivesse a sugerir o prato do dia), aceder à página Web do restaurante e, após facultar alguns dados e seguir um formulário de sete etapas, e enfim obter a factura. Mas atenção: só poderá fazê-lo uma vez volvidas 48 horas sobre o pagamento, e apenas durante os cinco dias que se seguirem a essas 48 horas. 

"Mas não é obrigatório emitir uma factura se o cliente o solicitar?", pergunta, incrédulo. "É", responde o empregado, sempre a sorrir. "E emitimos. Basta enviar este formulário, ou aceder ao site."

. . .

 

Imagine que se dirige a uma loja de equipamentos electrónicos para comprar um telemóvel. Compara a oferta dos vários fabricantes dentro dos preços que estão ao seu alcance, pondera nas vantagens e desvantagens de uma mão-cheia de modelos, conversa um pouco com a técnica de serviço para esclarecer alguma dúvida, e por fim decide-se pelo aparelho que vai comprar. Dirige-se à caixa para pagar, e ao efectuar o pagamento solicita a factura. Enquanto lhe entrega o talão de pagamento e o recibo da garantia, a empregada diz-lhe que não é possível dar-lhe a factura ali, mas que poderá preencher o formulário que pode encontrar ali ao balcão para solicitar a factura pelo correio ou, em alternativa, poderá aceder à Internet, preencher o formulário de sete etapas que se encontra no site da loja, e descarregar a factura. "Até pode fazê-lo a partir deste telemóvel", graceja, sem no entanto deixar de o alertar que só poderá obter a factura por esta via 48 horas após o pagamento (nunca antes), e apenas durante os cinco dias que se seguem a essas 48 horas. 

"Mas se eu estou a pagar agora, por que motivo não posso ter já a factura?" pergunta, já sem conseguir disfarçar a irritação. 

"Porque o nosso sistema informático não permite a emissão de facturas imediatamente após o pagamento", esclarece a empregada, no tom exacto de quem está a repetir um matra pela enésima vez nos últimos dias. "Por isso poderá fazê-lo pelo correio, ou a partir do conforto de sua casa".

. . .

 

Será perfeitamente normal que o leitor ou a leitora considere qualquer uma das situações acima descritas como absurda. Nestes dias de voragem fiscal da Autoridade Tributária (o nome já é todo um programa), qualquer estabelecimento comercial privado legal que não tenha em funcionamento um sistema de emissão de facturas e que as emita a pedido do cliente teria o Fisco, a ASAE e sabe-se lá que mais Autoridades à perna para o habitual bullying tributário. Nestes tempos em que o Estado incentiva os contribuintes a solicitarem factura por tudo e mais alguma coisa (até podem ganhar prémios, veja-se bem), qualquer estabelecimento que se recuse à emissão da facturinha será decerto falado nas redes sociais pelos piores motivos. No entanto, e como não podia deixar de ser, o mau exemplo vem de cima: se o leitor ou a leitora for utente dos Transportes de Lisboa, que tanto quanto sei ainda é uma empresa pública, não poderá obter uma factura no acto do pagamento, seja este feito nas máquinas automáticas que encontramos nas estações do Metro ou nos balcões de atendimento do Metro ou da Carris: terá de preencher um formulário para solicitar a factura pelo correio, ou aceder a uma página Web, seguir um formulário de sete etapas e descarregar enfim a dita factura (mas só poderá fazê-lo 48 horas após o pagamento, e apenas durante os cinco dias que se seguirem). O motivo, conforme me explicou hoje um funcionário do Metro, é simples: em pleno 2017, ano em que todos transportamos no bolso aparelhos com maior capacidade de processamento do que a nave espacial que levou três astronautas à Lua em 1969, o software das máquinas automáticas e dos balcões de atendimento não está preparado para algo tão básico como... a emissão de facturas.

 

Que o Estado continue a permitir às empresas públicas aquilo que não permite às privadas dificilmente irá surpreender alguém nos dias que correm. O que espanta é que se ache isto normal

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Do descaramento

por João Campos, em 09.01.17

des·ca·ra·men·to 

substantivo masculino

  • 1. Falta de vergonha; desfaçatez.
  • 2. Impudência; desaforo.

"descaramento", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

"descaramento", por Ricardo Salgado in Jornal de Negócios [em linha], 09-01-2017

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"Arrival", ou os novos encontros imediatos

por João Campos, em 17.11.16

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Numa época de aridez criativa mal disfarçada pelo frenesim narrativo, pela pirotecnia computorizada, e pela insistência na franchise que tomou conta das grandes produções de Hollywood, um filme como Arrival é mais do que refrescante - é insólido quase ao ponto do absurdo. Não encontramos, neste blockbuster do canadiano Denis Villeneuve (Sicario) que adapta para o cinema o magnífico conto Story of Your Life do norte-americano Ted Chiang, qualquer vestígio dos elementos que as produções deste tipo têm banalizado com insistência. Toda a acção do filme consiste, justamente, em evitar a acção (ao estilo de Hollywood, entenda-se); ao longo das suas quase duas horas não temos uma única perseguição, o único tiroteio que tem lugar decorre fora da tela, e ao invés de procurarem vencer a guerra pelo combate, os protagonistas esforçam-se por não travar de todo essa guerra.

 

O que, convenhamos, é raro num filme cuja premissa assenta na noção de "primeiro contacto", quando doze naves alienígenas monolíticas aterram no nosso planeta e fazem o mundo mergulhar no caos apenas e só pela sua presença. 

 

Ao invés de resolver a questão pela habitual via bélica, as autoridades dos vários países "visitados" optam, num primeiro momento, por tentar estabelecer contacto por outras vias. É aqui que surge a protagonista, num desempenho notável de Amy Adams: Louise Banks, linguista de renome, a quem o Exército norte-americano confia a liderança de uma equipa que consiga encontrar uma forma de comunicar com os alienígenas para compreender as suas intenções. A partir daqui, Arrival desenrola-se em simultâneo pelo drama pessoal de Louise e a tragédia que marca a sua vida, e pelo drama linguístico que os alienígenas colocam. Longe estão os territórios simplistas e batidos dos Star Wars a que nos acostumámos no cinema, em que o inglês se tornou na língua franca da galáxia: Arrival renuncia a esse legado para demonstrar não a impossibilidade mas a improbabilidade da comunicação com uma civilização extra-terrestre. Nesse sentido, estamos mais perto de um Close Encounters of the Third Kind de Spielberg ou mesmo de um Solaris de Tarkovsky; e, tal como nestes dois filmes (e em boa parte da ficção científica deste género), em Arrival aquilo que está verdadeiramente em causa não é tanto a chegada dos alienígenas como o impacto que essa chegada tem na vida das personagens que estamos a acompanhar. O resultado, esse, dificilmente poderia ser melhor.

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Do sentido de oportunidade

por João Campos, em 09.11.16

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Não sei se sabem, mas a Cinemateca vai repor às 21:30 de hoje o clássico Dr. Strangelove or: How I Stopped Worrying and Love the Bomb, de Stanley Kubrick. Dadas as circunstâncias, seria mesmo muito difícil encontrar programa mais apropriado para a noite de hoje. Até mais logo. 

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O arranjo floral

por João Campos, em 05.10.16
 

Se a memória não me falha, só na ficção científica vi o Secretário Geral das Nações Unidas ter alguma importância prática: foi em Childhood's End, romance de 1953 de Arthur C. Clarke. Logo na primeira parte do livro, a Terra recebe a inesperada visita de uma civilização alienígena que estaciona sobre as principais cidades do planeta naves colossais; o líder aparente dos Overlords escolhe o Secretário Geral da ONU como porta-voz da Humanidade, e é através dele que os extraterrestres comunicam à Humanidade o seu propósito, assim como a intenção de só após 50 anos ser revelada ao mundo a forma física dos visitantes. Fora do livro e da ficção científica, sempre tive a sensação de que o cargo é mais ou menos equivalente a uma jarra sobre um naperon, ou, se quisermos ser um bocadinho menos kitsch, a um arranjo floral no centro da mesa dessa relíquia da ordem emergente do pós-Segunda Guerra Mundial que é o Conselho de Segurança (que, por obsoleta que possa ser, é onde está de facto o poder). Sim, seria porventura simpático que Guterres se tornasse nesse arranjo floral, mas dado o cargo e dada a personagem, não há nesta eleição peculiar nada que mereça grande exaltação patriótica. 

 

(de qualquer forma, podemos ficar sempre com a imagem mirabolante que seria uma civilização alienígena não hostil a fazer o mítico "primeiro contacto" com Guterres)

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Dentes-de-leão

por João Campos, em 05.10.16

No more kings. Vimes had difficulty in articulating why this should be so, why the concept revolted in his very bones. After all, a good many of the patricians had been as bad as any king. But they were... sort of... bad on equal terms. What set Vimes's teeth on edge was the idea that kings were a different kind of human being. A higher lifeform. Somehow magical. But, huh, there was some magic, at that. Ankh-Morpork still seem to be littered with Royal this and Royal that, little old men who got paid a few pence a week to do a few meaningless chores, like the Master of the King's Keys or the Keeper of the Crown Jewels, even though there were no keys and certainly no jewels. 

Royalty was like dandelions. No matter how many heads you chopped off, the roots were still there underground, waiting to spring up again.

It seemed to be a chronic disease. It was as if even the most intelligent person had this little blank spot in their heads where someone had written: "Kings. What a good idea." Whoever had created humanity had left in a major design flaw. It was its tendecy to bend at the knees. 

Terry PratchettFeet of Clay (1996)

 

Neste 5 de Outubro em que se volta a assinalar com um feriado a Implantação da República (independentemente de poder ser essa ou outra efeméride a merecer o dia de descanso), parece-me apropriado regressar a um autor muito cá de casa: Terry Pratchett. Dizer que as suas sátiras são incomparáveis no género onde situou o mundo secundário de Discworld  - a fantasia literária - seria dizer mesmo muito pouco: é muito provável que no seu auge as sátiras de Pratchett tenham sido incomparáveis, ponto (leia-se Small Gods). Poucos temas dentro e fora do género escaparam ao seu olhar atento e à sua prosa aguçada; sendo britânico, e cultor de um género literário rico em reis e rainhas, seria talvez inevitável que também a monarquia servisse de mote para alguns jogos de palavras, para umas poucas gargalhadas e para uma ou outra reflexão. Como se pode ver por este trecho retirado do décimo-nono livro da série Discworld, no qual o Comandante da Guarda de Ankh-Morpork, Samuel Vimes, se vê a braços com uma série de homicídios e com a possibilidade de a monarquia regressar àquela cidade-estado histórica (ainda não terminei a leitura e tenho evitado spoilers, pelo que para já desconheço se Lorde Vetinari, governador absoluto de Ankh-Morpork, será substituído). E na obra completa podemos encontrar outras passagens sobre o tema, como esta outra, retirada de uma nota de rodapé (as notas de rodapé de Pratchett são famosas) do quarto livro da série, Mort, publicado em 1987, e que talvez ajude a explicar a ciência subjacente ao fenómeno da sucessão: 

 

The only thing known to go faster than ordinary light is monarchy, according to the philosopher Ly Tin Wheedle. He reasoned like this: you can't have more than one king, and tradition demands that there is no gap between kings, so when a king dies the succession must therefore pass to the heir instantaneously. Presumably, he said, there must be some elementary particles – kingons, or possibly queons – that do this job, but of course succession sometimes fails if, in mid-flight, they strike an anti-particle, or republicon. His ambitious plans to use his discovery to send messages, involving the careful torturing of a small king in order to modulate the signal, were never fully expanded because, at that point, the bar closed.

 

Aos leitores, votos de um bom feriado. 

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Blogue da semana

por João Campos, em 02.10.16

Escolher hoje um blogue para destacar como blogue da semana é-me bem mais difícil do que era em 2011 (e já nessa altura a coisa não era tão simples quanto isso). Por mais que por cá continuemos a blogar alegremente, a verdade é que a blogosfera institucionalizou-se e perdeu relevância. Os blogues de sugestões passaram a blogues de marcas, num formato publicitário um tanto ou quanto manhoso. Bloggers de qualidade deram origem a comentadores de imprensa medíocres; outros foram abandonando o formato, tanto com despedidas anunciadas como pela publicação cada vez mais irregular, até se tornar inexistente. As discussões efervescentes que acompanhávamos na blogosfera política de 2003 e 2004 transferiram-se, com prejuízo evidente, para redes sociais como o facebook e o twitter, menos palavrosas e mais amigas do soundbyte, da irrelevância, da tagarelice desmiolada, e do domínio muito limitado da língua portuguesa que os nossos (ir)responsáveis políticos exibem sem pudor ou vergonha. E a maioria da blogosfera política que resta seguiu a tendência do debate contaminado das redes sociais: entrincheirou-se, radicalizou-se, e deixou-se levar pelo ruído.

 

Enfim, nestes dias do declínio dos blogues são cada vez menos aqueles que acompanho e recomendo (acompanho algumas coisas muito pouco recomendáveis, admito). Uma vez que já escrevo no Delito de Opinião há alguns anos, esta tarefa já me calhou algumas vezes; e uma vez que o Pedro Mexia não voltou a regressar à blogosfera (que eu saiba; alguém me avise se estiver enganado), encontro-me sem outra alternativa que não optar pela repetição de sugestões que já dei em outras circunstâncias. O que, bem vistas as coisas, não é necessariamente mau: por um lado, repetir uma sugestão já antiga significa que o blogue resistiu ao tuíte (é assim que se traduz?) da sereia; por outro, essa repetição quer dizer que o blogue não só se mantém como se mantém com a mesma qualidade e quiçá com a mesma regularidade que lhe reconhecia quando o recomendei pela primeira vez. Ora o  blogue que hoje volto a destacar no Delito de Opinião não só preenche todos estes critérios (mantém qualidade, mantém regularidade, etc.) como é - continua a ser - mantido por um bom amigo e companheiro das andanças da ficção científica - e, após estes anos, continuamos amigos e continuamos (mais ele do que eu, reconheça-se) nas mesmas andanças. Mas o Intergalactic Robot, do Artur Coelho, não se resume à ficção científica que muito apreciamos: banda desenhada, cibercultura, e novas tecnologias são também recorrentes. Fica então a sugestão reiterada. 

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Do princípio ao fim (3)

por João Campos, em 25.09.16

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Permitam-me a batota de começar pelo fim, e aos quadradinhos.

 

É bem possível que o fim definitivo de Calvin & Hobbes, a tira cómica que Bill Watterson escreveu e ilustrou entre 1985 (o ano em que nasci) e 1995, marque o fim de uma época. De um tempo em que a banda desenhada ainda ocupava um lugar privilegiado nos jornais, e de um tempo em que estes ainda eram relevantes enquanto veículo de informação privilegiada. É provável que o próprio Watterson tenha adivinhado a segunda tendência - Calvin & Hobbes, afinal, foram uma tira de jornal especialmente sintonizada com o seu tempo, repleta de uma crítica cuja subtileza em nada lhe retirava mordacidade, e que, volvidas duas décadas, se revela tão persciente como pertinente. Basta recordarmos a importância das suas observações sobre a televisão e a cultura televisiva, mais actuais do que nunca tanto para o pequeno ecrã como para os múltiplos pequenos ecrãs que Watterson não adivinhou, mas que elevaram ainda mais a cultura do efémero contra a qual o pai de Calvin já se insurgia. Quanto à primeira, enfim, ficou famosa a recusa absoluta de compromisso na sua arte, algo que o levou ao isolamento após 1995 e que faz com que ainda hoje, quando a comercialização reina de forma absoluta, não exista merchandising oficial de Calvin & Hobbes. Só as tiras que Watterson escreveu e ilustrou, e que continuam a ser publicadas em inúmeros jornais em todo o mundo, e reeditadas em álbuns intemporais. Mas mais importante do que isso: no que à tira de jornal diz respeito, talvez Watterson tenha também elevado o formato ao seu expoente máximo. 

 

Convenhamos: não há nas tiras de jornal nada que se compare a Calvin & Hobbes. Não, nem Schulz - desculpem. Sem querer tirar mérito aos PeanutsCalvin & Hobbes não chega sequer a ser uma daquelas obras que eleva a fasquia - Watterson simplesmente jogava noutro campeonato, como nos comics norte-americanos de super-heróis jogaram Alan Moore e Neil Gaiman quando escreveram WatchmenThe Sandman, respectivamente. Se o seu olhar sobre a sociedade era especialmente arguto, já a sua perspectiva sobre a imaginação é inigualável: ninguém capturou como Watterson o absoluto prodígio da imaginação infantil. E fê-lo através de algo tão simples como a interação daquele miúdo vivaço de seis anos e do seu amigo imaginário, que para todas as outras personagens era apenas um tigre de peluche. Nos territórios férteis da imaginação de de Calvin jogámos calvinbola, demos vida a bonecos de neve (que se tornaram monstruosos), deixámos mensagens para extra-terrestres gravadas na neve, fizemos todo o tipo de travessuras em casa, na vizinhança ou na escola, discutimos filosofia num trenó. Fomos a Marte num reboque de bicicleta, viajámos no tempo numa caixa de cartão, vivemos aventuras noir com Tracer Bullet, tornámo-nos super-heróis com o Homem Estupendo, fomos aos confins do espaço com o Astronauta Spiff. Let's go exploring! foram as últimas palavras que lemos de Calvin e de Hobbes, como que um convite para que cada um de nós continuasse a descobrir aquelas aventuras - tanto as que Watterson nos deixou e que tão intransigentemente recusou continuar (um acto que só pode merecer aplauso), como todas aquelas que nunca escreveu, e que podemos imaginar livremente. Como só Calvin e Hobbes faziam. 

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Mariana "Mouch" Mortágua

por João Campos, em 18.09.16

"(...) do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro."

 

Lendo esta frase fora de contexto, diria que talvez se tratasse de um trecho de uma hipotética tradução portuguesa de Atlas Shrugged - as palavras e a ideia que elas sugerem seriam facilmente proferidas por um dos vilões-caricatura que Ayn Rand usava para zurzir naquilo que percebia como "socialismo". Como se sabe, porém, a realidade tende a superar a ficção, e eis que afinal não foi um fictício Wesley Mouch mas sim a muito real Mariana Mortágua quem proferiu estas palavras, num comício (ou algo que lhe valha) do Partido Socialista. O que não deixa de ser um tanto ou quanto perturbador: qualquer pessoa que tenha lido Rand com um mínimo de atenção repara na inverosimilhança dos seus heróis, mas pelos vistos os vilões do Objectivismo não só não são implausíveis como ocupam posições de poder entre nós. Estamos bem arranjados.

(via O Insurgente)

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Os bois, os nomes, e os géneros

por João Campos, em 09.09.16

O destaque do Eduardo Pitta é interessante, mas merece um reparo. Apesar de os romances que o celebrizaram (Do Androids Dream of Electric Sheep?A Scanner Darkly e este The Man in the High Castle) poderem ser considerados distopias, será um tanto ou quanto redutor dizer que Philip K. Dick foi um dos guru da ficção distópica - e logo ele, figura maior da literatura de ficção científica, género que desenvolveu de forma ímpar em inúmeros contos a partir dos anos 50 (é ler RoogPaycheckSecond Variety, entre tantos outros) e em vários romances (aos que citei poderia juntar Ubik ou The Martian Time-Slip) que escreveu até à sua morte prematura em 1982. É sempre simpático ver a "elite" literária a olhar para o lado uma vez por acaso e a dar atenção a textos de géneros que regra geral considera menores, mesmo quando continua a ser incapaz de ver para lá das referências que toda a gente já conhece (The Man in the High Castle, estando muito longe de ser o melhor texto de PKD, até teve por cá uma outra edição há poucos anos, e uma adaptação televisiva recente); mas não lhe cairiam os parentes na lama por tratar os bois pelos nomes. 

 

(Também será muito discutível a afirmação de que [p]ara muita gente, Dick é o homem por trás de Blade Runner, o filme que Ridley Scott fez a partir do romance Do Androids Dream of Electric Sheep?; na história da literatura de ficção científica, e no contexto dos anos 50 e 60, PKD é tão incontornável como Heinlein, Asimov e Clarke; os seus romances e as suas colectâneas de contos continuam a ser reeditadas com regularidade no mercado de língua inglesa; e muitos outros textos seus têm sido adaptados para cinema e televisão. Dito de outra forma: é bem possível que PKD seja muita coisa para muita gente. Mas talvez não valha a pena entrar por aí.)

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A ladeira

por João Campos, em 05.08.16

Pode dizer-se muita coisa sobre o caso Rocha Andrade  - Galpgate? -, mas não se poderá dizer que todo o episódio não tem sido educativo no que à vetusta "ética republicana" diz respeito. Como os exemplos vêm, deviam vir, de cima, doravante os portugueses passam a estar mais preparados para lidar com a Autoridade Tributária (não se arranjava designação menos fascista?). Falhou o pagamento do imposto e recebeu a cartinha de multa com o jurozinho respectivo? Peço desculpa, Dona Autoridade, não sabia que isto devia ter sido pago há cinco anos; vou já ali regularizar a coisa e deixe lá isso dos juros, pode ser? Naturalmente, uma vez começada a descida da ladeira, o fundo da encosta é o limite - que é como quem diz, a lição bem pode ser aplicada às outras cabeças da hidra que é o Estado. Pois, Senhora EMEL, não sabia que não podia estacionar em cima da passadeira, mas guarde lá o bloquinho e esse tanganho para as rodas que eu tiro já o carro e fica tudo bem, não é? E como após falhar na curva já só resta mesmo o silvado, Ah, Menina ASAE, não sabia que tinha moscas na sopa, mas deixe-me ir ali ao tacho tirar as outras e a coisa passa.

 

É frequente comentar-se que em Portugal temos os políticos que merecemos; mas após anos e anos de chicos-espertos iletrados a chegarem a deputados e a ministros (a lista seria exaustiva, já que abrange todo o espectro partidário), começo a duvidar desse dizer popular. Que diabo: podemos até ter muitos defeitos, mas no fundo não fizemos mal a ninguém ao ponto de merecer isto. 

 

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Miyazaki em Agosto

por João Campos, em 31.07.16

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Não será só Kubrick a regressar às salas de cinema lisboetas em Agosto: numa excelente iniciativa do Museu do Oriente, a cada domingo do mês serão exibidas obras dos Estúdios Ghibli, a grande casa da animação japonesa, tornada numa referência de culto pelo talento do realizador Hayao Miyazaki. Do mestre poderemos assistir ao seu último filme, The Wind Rises (que estreou há não muito tempo), e aqueles que serão talvez os seus dois filmes maiores: Spirited Away, que lhe valeu um Óscar, e (o meu preferido) Princess Mononoke, que envergonha qualquer filme feito em qualquer parte do mundo sobre o eterno conflito entre o mundo natural e o mundo tecnológico. Que se desengane quem (ainda) pensar que a animação é coisa de miúdos: por detrás da animação vibrante e colorida de Miyazaki em Mononoke está uma história adulta, ambígua e multifacetada, cujas questões que suscita não têm respostas fáceis, cuja violência em momento algum surge de forma gratuita, e cujo desfecho memorável não podia estar mais longe dos desenlaces delicodoces que fizeram escola no Ocidente com a Disney. Para quem, como eu, só teve a oportunidade de ver este filme num ecrã de televisão ou de computador, esta será uma oportunidade rara para poder apreciar a melhor animação japonesa no grande ecrã; quem nunca viu, ou quem desconheça a obra de Miyazaki, terá aqui a possibilidade de descobrir um dos grandes realizadores do nosso tempo. Garanto que valerá a pena. 

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O regresso de Kubrick

por João Campos, em 26.07.16

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Na falta de um ciclo mais completo que permita às gerações mais novas (e velhas) ver no grande ecrã os clássicos de um dos maiores realizadores que o cinema já conheceu, temos de nos contentar com as migalhas que vão caindo aqui e ali. Há três anos - parece que foi ontem - caiu uma, quando Kubrick regressou finalmente a algumas salas de cinema portuguesas com o assombroso 2001: A Space Odyssey (ver a sequência da Stargate na segunda fila daquela sala enorme no El Corte Inglés será sempre uma das memórias mais marcantes que o cinema me deu). E a partir da próxima Quinta-feira cairá outra, quando o Cinema Ideal começar a passar, até meados de Agosto, a mais recente versão digital restaurada de Barry Lyndon, assinalando as quatro décadas do clássico de época que terá talvez ficado mais famoso pelo virtuosismo técnico de Kubrick (a célebre história das lentes equivalentes às usadas pela NASA). Sim, o virtuosismo é evidente em cada fotograma, autênticos quadros que Kubrick pintou na película - mas a história da ascensão e da queda do Redmond Barry que imortalizou Ryan O'Neal não lhe fica atrás. É uma oportunidade única para ver ou rever. 

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A França rende-se

por João Campos, em 10.07.16

... ao Éder. E pronto, é isto.

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O Europeu dos pequeninos

por João Campos, em 01.07.16

Ouvi muita gente dizer que um Europeu de Futebol alargado a mais equipas - com a qualificação a abrir portas a selecções que em circunstâncias normais (o que quer que isso signifique) não chegariam à fase final - iria tornar o torneio num "passeio" para as equipas maiores, que teriam pela frente adversários teoricamente mais fracos. Entretanto, desde que o Europeu começou vimos a Croácia a classificar-se em primeiro num grupo com a Espanha e a República Checa; Gales a ultrapassar a Espanha e a Rússia; a Islândia e a Hungria a empurrarem Portugal para o terceiro lugar do grupo que todos diziam ser o mais fácil. E a coisa não acabou aí: nos oitavos de final vimos a Islândia a eliminar a Inglaterra e - hoje mesmo - Gales a mandar a favorita Bélgica para casa (e, enfim, temos visto Portugal a tropeçar até à meia-final, uma proeza que parece desafiar vários princípios da física, da biologia e, enfim, da sorte em geral). Não sei o que pensam agora aqueles que diziam que as equipas pequenas enfraqueciam a competição; sei, sim, que tenho gostado mesmo muito de ver as equipas pequenas a fazerem jogos espantosos e a alcançarem resultados inimagináveis há um mês. 

 

(agora é torcer para que a Islândia, certamente a jogar contra duas equipas, consiga a proeza de eliminar a França.)

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Bud Spencer (1929 - 2016)

por João Campos, em 27.06.16

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Na memória televisiva da minha infância ficarão sempre os filmes de Bud Spencer e Terence Hill - divertidíssimos no seu exagero e na química entre a dupla de italianos com nome artístico "à Hollywood". Carlo Pedersoli, imortalizado como Bud Spencer, morreu hoje aos 86 anos. A pouco e pouco, o mundo fica mesmo menos divertido.

 

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Sair da casca

por João Campos, em 26.06.16

Na RTP, promove-se a partida entre a Inglaterra e a Islândia a dizer algo do género (cito de memória): "afinal, a Inglaterra não quer sair do Euro, mas a Islândia é a favor do Brexit." Há dias, durante o jogo que opôs as selecções da Rússia e de Gales, um dos comentadores contou a história de uma actriz pornográfica que teria oferecido a um dos jogadores russos 16 horas de sexo se ele marcasse aos galeses (não marcou, evidentemente, o que só torna a cuscovilhice mais divertida). No mesmo jogo, perante a imagem de um adepto de Gales a chorar, comentou-se que ele (o adepto) ou estaria emocionado pela prestação da equipa, ou talvez tivesse apenas constatado que já não tinha trocos para a cerveja. E estes nem foram casos isolados: nos trechos promocionais dos jogos que transmite têm imperado os trocadilhos (muito secos, admita-se, mas ainda assim), as alusões humorísticas a algum contexto da actualidade, e os comentários durante as partidas têm sido marcados por inúmeras piadas e referências no mínimo invulgares às equipas, aos jogadores, aos treinadores, aos adeptos ou a outra coisa qualquer que passe pela cabeça dos comentadores de serviço.

 

É impressão minha, ou isto do europeu de futebol deu a volta ao miolo da emissora pública? Enfim, se deu, então já não era sem tempo, como se costuma dizer. Nestes dias tão sisudos é salutar ver a RTP a sair da casca e a adquirir sentido de humor. Esperemos que seja para manter, e que não se resuma a um epifenómeno suscitado por um torneio de futebol. 

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Charlie à água

por João Campos, em 22.06.16

Contaram-me o episódio cedo, mas só há pouco vi as imagens de Cristiano Ronaldo a tirar o microfone da mão do jornalista da Correio da Manhã TV e a atirá-lo para um lago (ao microfone, não ao jornalista). Ligo o computador e, nas poucas redes sociais que frequento, vejo gente a delirar com o acto do capitão da selecção portuguesa. Que foi bem feito (perante tão atrevida pergunta: Ronaldo, preparado para este jogo hoje?). Que a CMTV merece isso e pior. Que mesmo bom seria ver Ronaldo a atirar todos os microfones da CMTV para a água. Que o Correio da Manhã "comete crimes todos os dias" (a sério). E o meu facebook é muito restrito; nem faço ideia do que se andará a dizer nos twitters, nos comentários do youtube ou das notícias dos jornais online. 

 

Lembra-me aquela ocasião em que tanta gente aplaudiu de pé Marinho e Pinto pela "repreensão" a Manuela Moura Guedes há uns anos na TVI. Porque a emissora de Queluz praticava um mau jornalismo, porque Moura Guedes era agressiva, porque - pecado capital! - tinha "opiniões" (só os mais distraídos terão ficado surpreendidos quando o herói de tanta gente naquela noite acabou por se revelar num demagogo de primeira ordem, felizmente reduzido à sua irrelevância numa eleição recente).

 

Seria decerto interessante saber quantos destes maduros que hoje aplaudem Cristiano Ronaldo pelo arremesso do microfone também aplaudiram Marinho e Pinto naquela ocasião. Mas mais interessante ainda seria saber quantos dos que hoje verberam um jornal e um canal de televisão nas redes sociais foram "Charlie" nas mesmas redes sociais, manifestando-se pela liberdade de imprensa e de expressão perante um ataque atroz a ambas. É que são justamente estas liberdades que, afinal, defendem de forma tão cínica como selectiva: se for aquilo que consideram ser "bom jornalismo" (e isto é tão subjectivo!), deve ser protegido de tudo e de todos; já se for mau jornalismo, merece ser silenciado por demagogos e futebolistas, merece escárnio na irrelevância dos púlpitos virtuais, merece uma extinção que só peca por tardia. Sem perceberem que a liberdade de imprensa abrange tanto tablóides como os ditos "jornais de referência", ou que a liberdade de expressão não é compatível com os humores variáveis das trincheiras onde toda a gente se enfia em fúria hoje em dia: é aceitarmos ouvir palavras com que concordamos e palavras das quais discordamos. 

 

No fundo, sem perceberem que só dão força àqueles que mais desprezam estas e outras liberdades.

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Chamem os madeireiros

por João Campos, em 19.06.16

Diziam as más-línguas que a equipa enviada por Portugal ao Euro 2016 era a selecção do empresário Jorge Mendes. Nada mais falso. Como se viu por estes dois jogos, esta é antes a selecção da Portucel.

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Fartinho, fartinho

por João Campos, em 14.06.16

À hora a que escrevo estamos a pouco mais de cinco horas do jogo de Portugal contra a Islândia no Euro 2016, e eu já estou fartinho, fartinho de ouvir falar na selecção.

Pergunto-me se nos outros países (na Islândia, por exemplo) também é assim: o patriotismo alarve, tão ruidoso como inconsequente; os directos televisivos inanes, mal preparados (há pouco, enquanto almoçava, ouvi uma jornalista dizer que a selecção islandesa "estreava-se pela primeira vez num Europeu"), a entrar em restaurantes e talhos e salões de cabeleireiras para mostrar coisa nenhuma, a "entrevistar" quem nada tem para dizer (porque não há nada para dizer!), a ocupar tempo de antena com barulho que disfarça o vazio absoluto. A comunicação social a embandeirar em arco quem, afinal, nunca ganhou coisa alguma. Que comece rápido, e que acabe depressa. 

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O provincianismo chegou à província

por João Campos, em 10.06.16

santa clara.jpg

Durante muitos anos, a Pousada de Santa Clara terá talvez sido o único bastião do escasso turismo que se aventurava para o interior de Odemira (entenda-se aqui por interior tudo o que fica para lá do parque natural do sudoeste alentejano, que chega quase à própria vila). Eram outros tempos: o turismo rural ainda não tinha virado moda, e a ASAE ainda não tinha aniquilado a restauração local ao inviabilizar a gastronomia assente na caça e na pesca da região - se hoje não temos um restaurante digno desse nome em todo o interior do concelho, tempos houve em que as caldeiradas de achigã tinham fama suficiente para levar lá gente de bastante longe. Enfim, os preços proibitivos para os habitantes locais, o declínio das Pousadas de Portugal e a progressiva desertificação da região - a aldeia de Santa Clara é hoje uma sombra daquilo que era há vinte anos - acabaram por levar ao abandono da Pousada. Ficou apenas a sua vista espantosa para a barragem e para a serrania envolvente (a foto não é minha, note-se), e a interrogação permanente sobre aquilo que seria necessário para que uma terra com tanto para dar pudesse aproveitar o turismo da moda. 

 

Não sei se alguém já encontrou resposta para esta pergunta, mas a verdade é que após vários anos abandonada, parece que a Pousada de Santa Clara vai finalmente reabrir. Não sei se por iniciativa pública, privada, ou um misto das duas. Não sei se com gerência local ou com forasteiros (não é relevante). Não sei se com os preços exorbitantes de outrora ou se com uma oferta mais convidativa para quem quiser simplesmente subir a colina, tomar um café e apreciar a beleza daquele interior alentejano, ao mesmo tempo tão próximo e tão distante da costa. Mas, a fazer fé nas ofertas de emprego da zona, sei que a parvidade de Lisboa e do Al(l)garve já chegou aos montes que anunciam a norte o início da Serra de Monchique. Não podendo por algum motivo manter a designação de "pousada", a nova gerência podia ter optado por um dos vários sinónimos que a língua portuguesa oferece: estalagem, albergue, hospedaria. Mas não: como não podia deixar de ser, parece que a antiga Pousada de Santa Clara irá abrir com o mui lusitano nome de Santa Clara Country Hotel. O progresso até pode não chegar à minha Sabóia, à vizinha Santa Clara, e às outras aldeias da região; mas o provincianismo de importação lesboeta, esse, não falha. 

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Fora de série (12)

por João Campos, em 27.05.16

É muito provável que os nossos filhos e netos olhem um dia para os filmes e para as séries dos anos 80 e pensem: aquela gente era louca. Olhando nós para trás, não admira: perante o mundo cada vez mais entricheirado, mais intolerante, mais politicamente correcto e mais mal humorado, o atrevimento e a irreverência daquela década não tão distante quanto isso parece quase remetê-la para os confins longínquos da História. Não tenhamos ilusões: muitas produções dos eighties não chegariam hoje à pré-produção, pela certeza de que iriam ferir susceptibilidades num mundo onde o humor mais atrevido se tornou numa espécie em vias de extinção.

 

A série que vos trago hoje não teria qualquer hipótese de passar pelo politicamente correcto deste ano da graça, mas com muito pouca graça, de 2016: Sledge Hammer!. Numa época em um espirro vai ofender um ou outro grupo, as tropelias do polícia violento, misógino, e machista interpretado de forma inspirada por David Rasche iriam fazer a Internet - o palco de todas as indignações contemporâneas - esgotar o stock de forquilhas e archotes virtuais. Pouco importaria que a série fosse uma sátira especialmente bem conseguida ao Dirty Harry de Clint Eastwood e à tradição de bad cop dos anos 70. Pouco importaria que o registo propositadamente exagerado dos episósios em momento algum permitisse dar alguma seriedade às tiradas do inspector Sledge Hammer. Para as brigadas da indignação selectiva, nada daquilo seria admissível.

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Para mim e para o meu melhor amigo de infância, Sledge Hammer! não só era admissível como era uma delícia. É claro que não compreendíamos a sátira da série (nem teríamos as referências para tal), mas nem por isso deixávamos de nos divertir imenso com aquele humor deadpan, a ver Sledge Hammer desenrascar-se apesar da sua inusitada incompetência, a causar enxaquecas ao inesquecível Capitão Trunk e a safar-se de sarilhos diversos graças à determinação da sua segunda parceira Dori Doreau (a primeira, como se sabe, era a Magnum de calibre .44 pela qual Sledge Hammer seria capaz de colocar as mãos no fogo).

 

À distância destes anos, já não me consigo recordar qual era a minha idade exacta quando descobri Sledge Hammer!, ou em que canal a série passou (provavelmente na RTP, mas talvez já tenha sido na SIC daqueles primeiros e revolucionários anos). Mas lembro-me de vê-la, e da marca indelével que deixou: as imagens perduraram na minha memória, mesmo quando durante anos tentei, sem sucesso, recordar-me do título daquela série com o polícia maluco que falava com a Magnum. Enfim, maravilhas da Internet: o título foi recuperado e a série foi revista. Continua exagerada, atrevida e muito, muito divertida. E, ironia das ironias: ainda que seja profundamente filha do seu tempo e impossível de ser concebida noutra época que não nos anos 80, talvez a sua sátira seja mais actual e pertinente hoje, trinta anos volvidos, neste novo e estranho milénio.

 

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Very small indeed

por João Campos, em 25.04.16

A ideia de se criar um museu dedicado às notícias e à comunicação social é muito interessante e oportuna. A escolha de Sintra para instalar o museu é acertadíssima. A decisão de dar ao dito o nome de "News Museum" é tão infeliz e tão imbecil como as ideias peregrinas do Allgarve e da Lisbon South Bay. Não há globalização, viagens low cost, internet de banda larga, televisão por cabo com centenas de canais estrangeiros e livrarias online que nos valham: continuamos tão pequeninos e tão provincianos.

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Aos papéis

por João Campos, em 15.04.16

A história dos Panama Papers promete ser longa (até porque por cá o Expresso e a TVI parecem querer fazer render o peixe enquanto a montanha dá à luz uma ninhada de ratos), sinuosa e particularmente dada à demagogia - o assunto será decerto mais complexo para as perspectivas a preto e branco da maioria dos paineleirostudólogos da televisão portuguesa. Claro que noções de complexidade e de nuance são coisas que pelos vistos escapam à TVI, aparentemente determinada em falar do caso nos mesmos moldes, mas com linguagem menos refinada, dos programas de comentário futebolístico que infestam os três canais de notícias do cabo. Faz lembrar aquela bela expressão inglesa: if you can't dazzle them with brilliance, baffle them with bullshit. É mesmo a única explicação que encontro para a emissora de Queluz se ter lembrado, para comentar o caso em horário nobre, de Marinho Pinto e Raquel Varela. 

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O senhor Salcede

por João Campos, em 09.04.16

Depois do momento "agarrem-me se não eu vou-me a eles" no Facebook (a internet é mesmo o palco de todos os trolls) e do pedido de desculpas tão desastrado como fanfarrão, só restava mesmo a João Soares sair do governo pela porta pequena. De resto, nem passaria por outra. Não tendo a educação de um Carlos da Maia ou o génio de um João da Ega, só lhe restaria mesmo ser o Dâmaso Salcede destes tempos curiosos em que vivemos. Um papel que, diga-se de passagem, serve muito melhor as suas competências do que o de ministro da cultura. 

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Já li o livro e vi o filme (extra*)

por João Campos, em 09.03.16

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STALKER (1979)

Autores: Arkady e Boris Strugatsky (1972)

Realizador: Andrei Tarkovsky (1979)

 

Foram os próprios irmãos Strugatsky os autores do guião para a adaptação do seu romance de 1972, que estaria na base de mais uma obra-prima do mestre russo. Um primeiro contacto conturbado, Zonas de exclusão onde as leis da Física não se aplicam e que só os stalkers sabem percorrer com um mínimo de segurança, um lugar lendário onde os mais íntimos desejos se podem tornar realidade - como se os Strugatsky e Tarkovsky quisessem demonstrar ser possível escrever duas histórias diametralmente opostas a partir da mesma premissa e dos mesmos elementos. Entre a aventura trágica do romance e a expedição filosófica do filme, é-me difícil escolher a melhor. 

 

*conforme prometido

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Tarkovsky no grande ecrã

por João Campos, em 03.03.16

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Andrei Tarkovsky tem estado em retrospectiva desde Fevereiro no Cinema Nimas, em Lisboa. O que significou hoje uma oportunidade única de rever no grande ecrã um dos clássicos maiores do cinema de ficção científica: Solaris, de 1972, adaptado do romance homónimo do polaco Stanislaw Lem. Que, numa meditação sobre a memória, a experiência de vida e o arrependimento, toca num tema fascinante: a improbabilidade da comunicação, no caso entre seres humanos e alguma forma de inteligência alienígena que, não sendo humanóide, poderá bem ser incompreensível (a ficção científica, e sobretudo o cinema, está repleta de alienígenas em forma humana; quando o primeiro contacto finalmente acontecer, é muito provável que venhamos todos a constatar que Lem esteve mais perto da realidade do que a maior parte dos seus pares).

 

Tivesse eu já lido o livro - está na lista de próximos a comprar há anos - e aventurava-me num breve spin-off da excelente série que o Pedro tem mantido aqui no Delito (bem sei como estou a precisar de algo que me faça voltar a escrever com regularidade). Talvez me atreva para a semana, ainda a propósito de Tarkovsky, se conseguir finalmente ver o outro filme de ficção científica do mestre russo: Stalker, de 1979, que adaptou para o grande ecrã um romance notável dos irmãos Boris e Arkady Strugatsky, Roadside Picnic

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Alan Rickman (1946 - 2016)

por João Campos, em 14.01.16

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Hans Grubber. Xerife de Nottingham. Alexander Dane/Dr. Lazarus. Severus Snape. E outros, tantos outros. 

 

Dias depois de David Bowie nos deixar, parte também o grande Alan Rickman. Se me permitem, 2016 está a ser uma bela treta. 

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Blogue da semana

por João Campos, em 01.11.15

Nos dias que correm é-me um tanto ou quanto difícil escolher um blogue para esta rubrica - não por ler muitos, como fiz em tempos, mas por ler poucos, quase sempre os mesmos, e quase todos já aqui recomendados (por mais que mereçam a insistência). Enfim, faz-se uma pequena batota e deixa-se como sugestão um passeio pelos webcomics. Não deixa de ser curioso que numa época em que a banda desenhada portuguesa está em franco ressurgimento não sejam conhecidos mais webcomics de autores nacionais. Talvez isto mude. Entretanto, as duas sugestões remetem os leitores para o outro lado do Atlântico. A primeira, também já aqui recomendada há algum tempo, é o muito geek e muito divertido Bug Martini, de Adam Huber - a minha tira diária preferida há já alguns anos. O segundo é o Pearls Before Swine, de Stephan Pastis - que em meados do ano passado teve o privilégio único de ter três tiras desenhadas pelo maior e mais recluso mestre que o formato já conheceu, Bill Watterson (aqui, aqui e aqui - como se viu, o homem não perdeu o jeito nestes vinte anos). Recomendo a visita e um passeio pelos arquivos, onde decerto se poderão encontrar algumas boas gargalhadas para animar este Outono chuvoso. 

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Ortopedix tinha razão

por João Campos, em 10.10.15

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As épocas de eleições fazem-me sempre regressar às páginas de Astérix e o Presente de César, quando o vetusto Abraracourcix (continuo a usar os nomes que conheci nas traduções da Meribérica) e o recém-chegado Ortopedix se enfrentam em campanha eleitoral pela liderança dos irredutíveis gauleses. E esse regresso chega sempre a estas três vinhetas, e ao cinismo tão certeiro de Ortopedix: os números dizem o que quisermos. Como, aliás, a esquerda cá da paróquia tanto se tem esforçado por demonstrar desde Domingo último, quando se confirmaram os resultados eleitorais que as sondagens vinham anunciando.

 

A interpretação é lógica - retorcida, mas lógica. Como a coligação PSD-CDS perdeu a maioria absoluta e o Parlamento tem agora uma maioria de esquerda (de várias esquerdas, mas tais diferenças foram reduzidas à condição de pormenores, pelos vistos), deve ser essa maioria de esquerda a formar Governo - apesar de nenhum desses partidos, por si (já que não se apresentaram a eleições coligados - outro pormenor), ter ganho as eleições. Ainda que a Constituição possa dar legitimidade ao caldo, dificilmente os portugueses o dariam (mais um pormenor). Já o argumento, esse, é hilariante: 61,4% dos eleitores rejeitou um Governo da coligação, pelo que deve ser a Esquerda unida - derrotada em separado - que deve governar.

 

É uma lógica interessante, e que permite algumas interpretações não menos interessantes. Como, por exemplo:

 

  • 67,6% dos eleitores portugueses não quis que o PS fosse Governo;
  • 89,8% dos eleitores portugueses não quis o Bloco de Esquerda no Governo;
  • 91.7% dos eleitores portugueses não quis a CDU no Governo
  • 81.5% dos eleitores portugueses não quis o Bloco de Esquerda e a CDU no Governo.

 

Dito de outra forma: a mesma lógica que os partidos da esquerda utilizam para dar a coligação de direita como derrotada nas eleições pode muito bem servir para rejeitar a solução por eles proposta. É caso para regressarmos a Ortopedix: os números dizem mesmo o que quisermos. 

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O fim da romaria

por João Campos, em 04.10.15

Durante anos, Domingo de eleições foi sinónimo de fim-de-semana de viagem até à terra-natal. Para visitar a família, para rever os amigos, para voltar a caminhar pelas ruas da aldeia que sempre conhecerei tão bem. E, claro, para votar. Não por me sentir na obrigação de o fazer (o discurso moralista que trata quem se abstém - seja por que motivo for - como se fossem idiotas irresponsáveis irrita-me como poucos), mas por querer simplesmente fazê-lo. Por considerar importante fazê-lo. E por tudo isso, ao longo de doze anos fiz os quatrocentos quilómetros (mais coisa, menos coisa) para ir à terra, botar a cruz no boletim, e voltar (carregado de batatas e de vitualhas diversas, claro). Julgo que falhei umas Europeias, por qualquer motivo. Mas não perdi Legislativas, não faltei a Presidenciais, e, claro, nunca me passou pela cabeça não contribuir para a escolhas da Junta de Freguesia e da Câmara Municipal nas Autárquicas (mesmo que no Alentejo o meu voto pouco pudesse fazer). 

 

Este ano foi diferente. Os trinta anos pareceram-me uma boa idade para finalmente mudar a minha área de residência oficial (leia-se: no cartão do cidadão) para Lisboa, onde tenho vivido nos últimos doze. E por isso já não apanhei o último Intercidades de Sexta-feira; neste Domingo chuvoso já não subi a avenida da aldeia, já não entrei no recinto da minha velha escola primária, e já não entrei naquela sala colorida de papel de lustro e aguarelas (os miúdos da primária ainda fazem trabalhos manuais?) para escolher aquele que julgo ser o mal menor para o país nos quatro anos que se seguem. Já não volto ao fim do dia de hoje carregado de vitualhas. Este ano o voto foi numa escola em Benfica, maior do que todas as escolas do meu concelho juntas. O ambiente, esse, era de feira - carrinho de castanhas de um lado do portão, banca de bolos sortidos do outro, barraca de churros e farturas do outro lado da rua parcialmente bloqueada por carros estacionados em segunda fila (ah, o lisboeta, sempre artista na hora de encostar o carro). Muita gente a entrar, a sair, a ficar por ali - gente mais do que suficiente para encher a minha aldeia duas ou três vezes.

 

É mais simples, mais prático, muitíssimo mais conveniente - cinco minutos de autocarro para lá, e para cá até se pode voltar a pé se não chover demasiado. Mas não consegui evitar a sensação de que me faltou qualquer coisa hoje. Como se antes o dia de eleições fosse pretexto para uma romaria, doravante reduzida a um passeio pelo bairro.

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Chegam os três estarolas presidentes das câmaras de Almada, Barreiro e Seixal com mais um contributo precioso para o anedotário nacional: "Almada, Seixal e Barreiro transformam-se em Lisbon South Bay." No Público (e não, não é no Inimigo):

Lisbon South Bay é o novo nome adoptado para os territórios da margem sul do Tejo, geridos pela Baía do Tejo, empresa pública do universo Parpública, e integrados no Arco Ribeirinho Sul.

O nome, apresentado esta quinta-feira pela administração da empresa e pelos presidentes das três câmaras municipais (CDU), resulta de um estudo de marketing em que foram realizadas mais de mil entrevistas, a entidades e pessoas da região, e tem como objectivo, segundo o presidente da Baía do Tejo, facilitar a promoção internacional dos parques industriais do Barreiro e Seixal, e a Cidade da Água projectada para os terrenos da antiga Margueira, em Almada.

 

A sorte desta gente é que o ridículo não mata. 

 

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Nuno Melo

por João Campos, em 09.06.15

Numa carreira muito preenchida, fez também um dos mais memoráveis e divertidos anúncios televisivos dos anos 90. Deixou-nos hoje, demasiado cedo. 

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Lotação esgotada

por João Campos, em 13.05.15

Cheguei há pouco do cinema - os bilhetes a dois euros e meio da Festa do Cinema (iniciativa dos dias 11, 12 e 13 de Maio) são convidativos, e aproveitei o pretexto para ir ver Ex-Machina, a estreia do argumentista Alex Garland como realizador (verdade seja dita, estaria disposto a pagar os cinco ou seis euros do costume para ver o filme, e não me sentiria defraudado: será provavelmente o melhor filme de ficção científica do ano). E não fui o único a aproveitar: a sala 4 do El Corte Inglés de Lisboa estava esgotada. Isto numa noite de Terça-feira, sem feriados à vista, para ver um filme relativamente pouco publicitado (na sua terceira semana de exibição) de um realizador desconhecido para quem não tenha algum conhecimento do género e com um elenco onde só talvez Oscar Isaac possa ser verdadeiramente famoso. Não se trata de um Avengers, de um Fast & Furious ou de outro qualquer blockbuster de acção feito para bater recordes de bilheteira nos mercados internacionais, mas de um filme alternativo. A encher uma sala 21 dias após a sua estreia. Há anos que ouço falar na crise dos cinemas, na falta de público, na fraca bilheteira para praticamente todos os filmes que não sejam as grandes produções norte-americanas, e nos mais variados bodes expiatórios (a pirataria costuma ser o mais frequente, e é com igual frequência um tiro ao lado). Vai na volta, e o preço dos bilhetes até tem alguma coisa que ver com o caso. 

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Blogue da semana

por João Campos, em 15.03.15

Nuno Galopim e João Lopes mantém há quase dez anos o Sound+Vision, o blogue que é também uma tertúlia mensal e que é mais completo e diversificado do que a maioria das secções de "Cultura" da imprensa nacional. Gosto especialmente de lê-los sobre cinema - falam com conhecimento e sem preconceito sobre a Sétima Arte nas suas diversas vertentes, dos filmes mais alternativos aos blockbusters de Verão; mas quem preferir a televisão, a música ou mesmo outras artes também encontrará no blogue artigos de interesse. Fica a sugestão como blogue da semana. 

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Deve ser isto a tal "ética republicana"

por João Campos, em 22.11.14

"Excepto por crime de sangue, em flagrante delito, não aceito a prisão (que "pudicamente" designam por detenção) de um ex-Primeiro Ministro como José Sócrates."

 

João Soares no facebook, esse megafone moderno do disparate (via Renascença; o resto do post é delírio em estado puro) 

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Durma sobre os impostos

por João Campos, em 11.11.14

O que assusta no adiar da "taxa de dormidas" de António Costa para 2016 é a possibilidade de nesse ano já ele ser primeiro-ministro - e, com a iluminação que se lhe conhece, de pretender levar a ideia um pouco mais longe. Para quê limitar a ideia às dormidas em hotéis, hostels, pensões e similares de Lisboa quando pode taxar todas as dormidas em todo o país - incluindo, como é bom de ver, as dos cidadãos do dito país nas suas respectivas camas? Contas feitas, são dez milhões de sonos por dia (por alto), algo entre cinco a oito horas diárias (idem), que ainda não pagam impostos. Basta para isso um aparelho, que por ora designaremos de hipnímetro -, e cuja construção até pode ser adjudicada sem concurso público a uma empresa amiga, só vantagens - de aquisição obrigatória por todos os portugueses, a colocar debaixo da almofada (por via das dúvidas até pode ser obrigatória a aquisição de um segundo, a colocar no encosto do sofá - importa evitar perda de receita fiscal caso se adormeça em frente à televisão). O dito aparelho contabilizará as horas de sono dormidas e a partir daí é só taxar com criatividade. Por duração de sono, por ciclo de sono, por volume do ronco, com tarifa agravada para quem estica o descanso pela manhã de Sábado - enfim, o céu é o limite, e imaginação fiscal é coisa que pelos vistos não falta ali para os lados do Largo do Rato. 

Já o mesmo não se pode dizer do bom senso, mas não se pode ter tudo. 

 

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Blogue da semana

por João Campos, em 12.10.14

Para esta semana fica uma sugestão internacional: o SF Signal, um dos melhores e mais populares blogues colectivo sobre ficção científica e fantasia (e horror, e todos os sub-géneros de ficção especulativa que possamos conceber) que se podem ser na Internet hoje em dia, e que conquistou em dois anos consecutivos o Prémio Hugo para "Melhor Fanzine" - ao ponto de os seus autores o retirarem de concurso em edições futuras. Boas críticas literárias e cinematográficas, excelentes entrevistas, um bom podcast (também premiado) a acompanhar, e notícias sempre frescas sobre tudo o que se passa no meio profissional e amador. Anglo-saxónico, é certo, que nestas coisas a língua inglesa é senhora e rainha. Ainda assim: para os fãs portugueses, ocorrem-me poucos locais onde possam consultar tanta e tão boa informação sobre o que se vai passando lá fora

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Derrota assegurada

por João Campos, em 28.09.14

 

Há uns anos, um amigo emprestou-me o DVD do filme Alien vs. Predator, uma combinação improvável entre os monstros icónicos do filme de Ridley Scott (e da sequela de James Cameron) com a criatura do filme de John McTiernan (com Arnold Schwarzenegger) que surgiu na banda desenhada no final dos anos 80 e que já nos anos 90 deu origem a um videojogo muito popular e muito divertido - essencialmente por poder dar-se ao luxo de abdicar de qualquer noção de narrativa para apostar na atmosfera e no combate. O filme não correu tão bem, como de resto não podia correr, e antes de chegar à meia hora já eu desligava o leitor de DVD entre bocejos - tenho um fraco por aqueles filmes tão impossivelmente maus que se tornam bons de uma maneira muito retorcida, mas Alien vs. Predator é apenas e só mau, sem qualquer hipótese de redenção.

 

É, portanto, um pouco como as primárias do PS, a decorrer hoje após não-sei-quantos dias de campanha, de debates televisivos (como se entre duas cabeças desprovidas de sinapes activas como as de Seguro e Costa pudesse haver qualquer coisa de remotamente interessante a debater) e de sabe-se lá mais o quê. Aliás, todo este processo - que acompanhei a uma distância algo forçada, mas nem por isso menos higiénica - traz-me à memória o péssimo filme de Paul W. S. Anderson. Não alguma cena em particular, entenda-se, mas sim a tagline promocional que se podia ler nos cartazes do filme, que ganha toda uma nova leitura perante a evidência de que, com toda a probabilidade, o próximo primeiro-ministro do país será Seguro ou Costa: "Whoever Wins, We Lose". Muito adequado, sem dúvida.

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A água e o capote

por João Campos, em 22.09.14

Quando foi inaugurada a rotunda dupla (ou a inceptunda) do Marquês, houve uma imagem passada em directo televisivo que me ficou na memória: a de António Costa, tão hábil na arte de dizer nada como na de sacudir a água do capote, a chutar para a bancada - leia-se: para o melhor bode expiatório que tinha à mão - a pergunta de um cidadão a propósito das sarjetas, ou da falta delas, e de como se faria o escoamento de água caso chovesse em força. Costa, entenda-se, tem mais que fazer hoje em dia (afinal, "muita gente" até votou nele nas autárquicas para lhe dar "força para assumir outras responsabilidades"); e convenhamos, até para falar do tempo é necessário um mínimo de pensamento, algo que se lhe desconhece de todo. Mas não há motivos para alarme: o seu executivo camarário traz na ponta da língua as lições do mestre na arte do passar por entre as pingas da chuva. Como o Público confirma

 

O vereador da Protecção Civil da Câmara de Lisboa acusou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) de não ter previsto tanta chuva, acrescentando que a cidade se teve de preparar “à última da hora”. 

 

“Houve uma grande precipitação. As informações que nós tínhamos do IPMA não iam nesse sentido, portanto a cidade teve de se prevenir à última da hora, uma vez que não tinha sido lançado aviso laranja para o distrito de Lisboa”, disse Carlos Castro que falava aos jornalistas numa conferência de imprensa convocada devido ao mau tempo.

 

A coisa seria cómica se não fosse trágica. Ou se Lisboa não ficasse inundada pelo menos uma vez por ano, sem que os (ir)responsáveis camarários (estes e os anteriores) movessem uma palha para tentar encontrar soluções para um dos mais previsíveis problemas que a cidade enfrenta a cada Outono ou Inverno - e a culpa é do IPMA, que até previu chuva mas que não previu tanta chuva, obrigando "a cidade" a fazer "à última da hora" aquilo que todos sabemos que de qualquer maneira não teria feito - e que continuará sem fazer agora (até porque outras responsabilidades se alevantam). Se o descaramento pagasse imposto...

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Por este andar, já só falta quererem que Marinho Pinto ande de Clio.

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Delitos poéticos (24)

por João Campos, em 24.07.14

Pintura de Katsushika Hokusai no tecto do templo de Ganshoin em Obuse, no Japão

 

 

I have done it again.
One year in every ten
I manage it—

 

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

 

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

 

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify?—

 

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

 

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

 

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

 

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

 

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

 

Them unwrap me hand and foot—

The big strip tease.
Gentlemen, ladies

 

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

 

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

 

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

 

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

 

Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

 

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.

 

It’s easy enough to do it in a cell.
It’s easy enough to do it and stay put.
It’s the theatrical

 

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

 

‘A miracle!’
That knocks me out.
There is a charge

 

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart—
It really goes.

 

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

 

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

 

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

 

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

 

Ash, ash—
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there—

 

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

 

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

 

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

 

Lady Lazarus, de Sylvia Plath 

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Desenganem-se ingleses e espanhóis, já a contar com a companhia dos portugueses no vôo de regresso do Brasil. Por este andar, a FPF vai ter de pedir é um charter à Cruz Vermelha. 

 

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Revisitando 2002

por João Campos, em 17.06.14

Depois de um estágio a anos-luz - em distância e em clima - do país anfitrião do torneio e de uma estreia miserável no Mundial de 2002, tudo o que falta à selecção portuguesa para reproduzir a prestação de 2002 é uma vitória dilatada pela fúria no segundo jogo e um bravo voluntário para esmurrar o árbitro no jogo que a recambiará de volta para este lado do Atlântico. E nem precisamos de nos preocupar com a eventualidade de não contarmos com o nosso caceteiro-mor, Pepe; Bruno Alves ou João Pereira decerto estarão à altura da ocasião.

 

(claro, há ainda aquela história de o seleccionador de 2002 ter perdido uns milhares de euros num casino de Macau, mas nada nos garante que Bento não tenha também dado um salto a Atlantic City)

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Deve ser o marketing, estúpido

por João Campos, em 11.05.14

A foto, em si, causou uma risota e uma polémica que me passou um pouco ao lado. Mas um dia espero perceber por que motivo um "museu interactivo e parque temático" dedicado aos Descobrimentos Portugueses recebeu o mui português nome de "World of Discoveries". 

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Under the Skin

por João Campos, em 08.05.14

 

(...) And somehow Johansson, Glazer and his cinematographer Daniel Landin transform how we think of this star. They've taken one of the most glamorous actresses of the modern era—a woman whose looks have been abstracted into hubba-hubba caricature in most films, and on awards shows—and ironically restored her earthliness by having her play a creature not of this earth. They've made her beautiful in a real way, with hips and blemishes and folds in her skin.

 

As palavras são do crítico Matt Zoller Seitz no portal de Roger Ebert a propósito do desempenho superlativo de Scarlett Johansson em Under the Skin, a terceira longa-metragem do britânico Jonathan Glazer e um dos filmes mais belos, estranhos, desconfortáveis e divisivos do ano. Com uma estética algo reminiscente de Kubrick, uma banda sonora tão evocativa como arrepiante da jovem Mica Levi e uma fotografia lindíssima (que nos últimos só talvez encontre igual no extraordinário Melancholia de Lars Von Trier), Under the Skin coloca Scarlett Johansson no papel de Laura, uma alienígena em pele humana que vagueia pela noite de Glasgow em busca de homens para seduzir - para fins que o filme mostra sem explicar, numa cena cuja beleza evanescente só pode ser comparada ao horror visceral que conjura. A interpretação de Johansson, com pouquíssimas palavras, revela-se perfeita do primeiro ao terceiro acto do filme - a sua aparência inocente e sedutora, a sua natureza predatória implacável, a sua confusão perante o que é, o que aparenta ser e o que não poderá ser. E acima de tudo a estranheza do que não é humano, do que não compreende o que é ser-se humano por mais que se tente misturar - um ponto de vista raríssimo, raramente arriscado e brilhantemente executado. Poucos extraterrestres da ficção científica cinematográfica são tão alienígenas como a Laura de Johansson, enganadora na sua forma humana; e poucos filmes do género conseguiram veicular a noção do outro com a mesma carga emocional. 

 

Under the Skin estreia hoje, e será sem dúvida um dos melhores filmes de 2014. 

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Blogue da semana

por João Campos, em 28.04.14

Desta vez, escolho para blogue da semana aqui no Delito o Intergalactic Robot. E não é (só) pela amizade ao Artur Coelho, companheiro de armas nas andanças da ficção científica e afins; é, sim, pelas excelentes sugestões de banda desenhada (contemporânea e não só), pelas críticas literárias sempre pertinentes, e por algumas das melhores reflexões sobre o género que podemos ler actualmente em português. Para nem referir as belíssimas fotografias, claro. Para os interessados e curiosos, fica a sugestão. 

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Admito: não estava preparado para isto. 

 

Adenda: enquanto a RTP não voltar a bloquear a coisa, aqui fica o vídeo do comentário semanal tornado entrevista.

 

 

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