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Música recente (72)

por José António Abreu, em 21.02.17

The Invisible, álbum Patience.

Os Invisible são Dave Okumu, produtor do primeiro álbum de Jessie Ware, guitarrista da malograda Amy Winehouse, e Tom Herbert e Leo Taylor, colaboradores habituais de Adele. A música que fazem evita a velocidade e a grandiloquência; trata-se de pop electrónica, mas num registo contemplativo e melancólico. Alguns dos melhores temas do álbum incluem convidadas (Anna Calvi, por exemplo).

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Girls, Fleabag, Roth, Steiner e sexo

por José António Abreu, em 20.02.17

Há uns anos, ao ver os primeiros episódios da série Girls (tão recente e já tão imitada que até fica difícil recordar quão inovadora foi),  lembrei-me de O Animal Moribundo, de Philip Roth. A certa altura, o professor David Kepesh afirma:

Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha que ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga.

Mais tarde, referindo-se à actualidade (de 2001), acrescenta:

Aparecem antigas namoradas de há vinte e trinta anos. Algumas já se divorciaram numerosas vezes e outras têm andado tão ocupadas a afirmarem-se profissionalmente que nem tiveram a oportunidade de casar. As que ainda estão sós telefonam-me para se queixarem daqueles com quem se encontram. Os encontros são detestáveis, os relacionamentos são impossíveis, o sexo é um risco. Os homens são narcisistas, não têm sentido de humor, são doidos, obsessivos, autoritários, grosseiros, ou então são muito bem-parecidos, viris e cruelmente infiéis, efeminados, ou são impotentes, ou são simplesmente demasiado estúpidos. (*)

 

A abordagem da revolução sexual ocorrida na década de 1960 é quase sempre feita partindo da perspectiva feminina. Antes de qualquer outra análise, salienta-se o modo como a pílula e a evolução dos costumes libertaram as mulheres para o sexo sem (demasiados) receios. Mas a liberdade feminina também representou o fim da submissão masculina a qualquer tipo de compromisso. O facto de, ao longo das últimas décadas, as mulheres terem exigido e obtido não apenas o mesmo estatuto no que respeita ao sexo, mas poder total sobre os seus corpos - incluindo o de terminar gravidezes indesejadas - foi extraordinariamente libertador para os homens. O esforço de cortejar, apoiar, assumir responsabilidades tornou-se-lhes opcional, em especial quando favorecidos pelo sorteio genético (i.e., quando atraentes). Nem sequer as regras do politicamente correcto - em muitos sentidos, a prisão dos tempos actuais - os forçam ao que quer que seja: adquirida a igualdade, as mulheres perderam o direito a queixarem-se de terem sido iludidas. Durante séculos, no mundo «civilizado», os homens viram-se obrigados a conjugar instintos e convenções sociais. Agora, estão livres para dar largas ao egoísmo. Às acusações de insensibilidade, podem responder que se limitam a «dar espaço» às mulheres; que estão a «respeitar» a «autonomia» delas.

 

Nos primeiros tempos de Girls, esta realidade saltava à vista. Hannah desesperava com a passividade de Adam. Para ele, a relação apenas parecia existir enquanto decorria o acto sexual. Em todos os outros momentos, Hannah sentia-se esquecida: ele não telefonava, não respondia às mensagens, demonstrava indiferença quando a encontrava. Fleabag, uma série de 2016 produzida pela BBC e pela Amazon, escrita e interpretada por Phoebe Waller-Bridge, atinge um novo extremo. Apresenta uma mulher que parece vogar entre relações sexuais sem significado (mas não sem consequências), nas quais se submete (sem ser explicitamente forçada) a actos que tem dificuldade em racionalizar. Tudo estaria bem se não as usasse como forma de evitar enfrentar o vazio e a infelicidade que a dominam. Fleabag vai tão longe que se permite incluir um indivíduo nada atraente e bastante irritante no séquito de homens que não têm qualquer dificuldade em ir para a cama com ela.

 

 

Sejamos francos: nas últimas décadas, o sexo tornou-se um produto de consumo como qualquer outro; mais uma forma semidescartável de sentir algo, totalmente desligada de sentimentos profundos. Em 1975, Woody Allen afirmava: «O amor é a resposta, mas enquanto se espera pela resposta, o sexo coloca perguntas interessantes.» A resposta continuará a mesma, mas as perguntas parecem ter vindo a perder interesse. Se a consequência óbvia de tanto desejo de independência (por parte das mulheres como por parte dos homens) é a solidão, a consequência óbvia de tanto sexo (real, imaginado, visualizado em ecrãs e na rua) só pode ser a banalização do acto e dos termos que se lhe referem. Em Os Livros que Não Escrevi, George Steiner dedica um capítulo à linguagem do erotismo. Considera-a - como ao próprio acto - cada vez menos subtil, mais baseada nos códigos instituídos pelo cinema, pela televisão, pela publicidade. Escreve ainda: Será fascinante descobrir os novos factores de complexidade e os contributos enriquecedores que poderão vir das correntes feministas. Produziram já uma poesia poderosa e uma prosa acusadora. Poderá a sua política da sensibilidade ser causa de novas orientações e de uma criatividade nova nos dialectos do amor? Até ao momento, os indícios nesse sentido são marginais. O que parece prevalecer entre as mulheres emancipadas é a adaptação, quase desdenhosa, do que eram a obscenidade e a licenciosidade clandestina do discurso masculino.(**)

Talvez não apenas do discurso. Talvez de todo o comportamento. Sexualmente, as mulheres parecem-se cada vez mais com os homens. Mas isso - a acreditar em exemplos como Girls e Fleabag, eles próprios, será conveniente ressalvá-lo, provenientes da cultura cinematográfica e televisiva - não parece torná-las felizes. À liberdade, que neste campo tende a equivaler a quantidade, contrapõe-se a estandardização (nada é novo, pouco permanece tabu), e o novo poder masculino: um egoísmo assumido, que a igualdade torna inatacável.

Sobra a desilusão. Ou a busca de uma «novidade» cada vez mais extrema. Para mulheres, como para inúmeros homens, quando nada no sexo nem na linguagem do e sobre o sexo for misterioso, talvez actos como o que encerra o filme O Império dos Sentidos ou o que encerrou a vida do actor David Carradine (as referências do entretenimento são afinal úteis e variadas) constituam a única solução lógica.


____________________

(*) Edição Dom Quixote, 2006, p. 61 e 91, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

(**) Edição Gradiva, 2008, p. 132, tradução de Miguel Serras Pereira.

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Fotografias tiradas por aí (343)

por José António Abreu, em 19.02.17

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Vila Nova de Gaia, 2005.

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Música recente (71)

por José António Abreu, em 17.02.17

Osso Vaidoso, álbum Miopia.

Ana Deus e Alexandre Soares num segundo álbum de sonoridade mais «suja», assente em letras de gente como Jorge Luis Borges, Natália Correia, Nicolau Tolentino, Rainer Maria Rilke e Sá de Miranda.

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Playboy volta a ter fotografias de mulheres nuas.

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Música recente (70)

por José António Abreu, em 14.02.17

Minor Victories, álbum Minor Victories.

Um projecto só possível nos tempos actuais. Rachel Goswell, dos Slowdive, Stuart Braithwaite, dos Mogway, e Justin Lockey, dos Editors, trabalharam à distância e nunca gravaram todos no mesmo local.  O resultado mistura a tendência pop de Lockey com a guitarra densa de Braithwaite. A voz de Goswell acrescenta o toque de leveza e fragilidade.

 

(Sempre me pareceu que o planeta seria destruído por um gato - o de Blofeld, por exemplo. Ou então por um humano com cabelo alaranjado.)

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Fotografias tiradas por aí (342)

por José António Abreu, em 12.02.17

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Centro Português de Fotografia (antiga Cadeia da Relação), Porto, 2009.

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Música recente (69)

por José António Abreu, em 10.02.17

Señoritas, álbum Acho Que É Meu Dever Não Gostar.

Sandra Baptista e Maria Antónia Mendes, ex-Naifa (Sandra também ex-Sitiados), num conjunto de canções despidas, à base de acordeão, guitarra, baixo e tarola, gravadas em casa de Sandra. A perspectiva é madura e feminina, a sonoridade faz pensar em tangos e nas bandas sonoras mais famosas de Ennio Morricone.

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Música recente (68)

por José António Abreu, em 07.02.17

Elbow, álbum Little Fictions.

Há qualquer coisa na voz de Guy Garvey que anima a alma. Ainda por cima, neste álbum ele está apaixonado.

 

We protect our little fictions
When we bow to fear
Little wilderness mementos
But there's only you and me here
Fire breathing
Hold tight
Waiting for the original miracle

(...)

Life is the original miracle
(...)
Love is the original miracle

(no tema que dá título ao álbum)

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Fotografias tiradas por aí (341)

por José António Abreu, em 05.02.17

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2009.

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Música recente (67)

por José António Abreu, em 03.02.17

 Kasey Chambers, álbum Drangonfly.

Country alternativo de uma australiana com uma carreira iniciada há dezassete anos que já passou por inquietações sobre a beleza e a existência de Deus.

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Música recente (66)

por José António Abreu, em 31.01.17

Kid Koala featuring Emiliana Torrini, álbum Music to Draw To: Satellite.

Onze temas instrumentais, em registo ambiental, mais sete com a voz da islandesa Emiliana Torrini, num estilo ligeiramente mais electro-pop.

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Fotografias tiradas por aí (338 a 340)

por José António Abreu, em 29.01.17

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Jamor, 2008.

 

Para celebrar o décimo oitavo título do Grande Slam de Roger Federer, conseguido hoje, aos trinta e cinco anos, no Open da Austrália, numa final em 5 partidas contra Rafael Nadal, depois de ambos terem estado fora do circuito, lesionados. Os courts e as bolas em Melbourne estavam este ano um pouco mais rápidos, providenciando condições de jogo parecidas com as que eram frequentes até há dez-quinze anos. O resultado foi o renascimento dos jogadores de ataque. No quadro feminino, Venus Williams, de 36 anos, chegou a uma final de um torneio do Grande Slam pela primeira vez desde 2009 (perdeu para a irmã, Serena, um ano mais nova).

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Música recente (65)

por José António Abreu, em 27.01.17

 Rita Wilson, álbum Rita Wilson.

Imensos actores cantam, outros tocam banjo. Rita Wilson (que, com Tom Hanks, forma um dos casais do mundo do show business com que é mais fácil simpatizar) será apenas mais um exemplo. Mas canta bastante bem, neste seu segundo álbum, ao contrário do que aconteceu no primeiro, até escreveu as letras e, honestamente, hoje apetece-me algo alegre e inconsequente.

 

(É provável que esta tendência para associar alegria a inconsequência diga muito sobre mim.)

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Trump

por José António Abreu, em 26.01.17

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Alguém já deve ter feito um estudo relacionando o nível de riqueza dos países e o nível de proteccionismo das respectivas economias. Confesso desconhecê-lo. Estou, porém, convencido de que, a prazo, o proteccionismo nunca cria riqueza. Quando muito, é útil para dar algum tempo de adaptação a sectores específicos, de modo a evitar mudanças demasiado bruscas. Nenhum regime fortemente proteccionista é verdadeiramente rico (exemplo-limite: a Coreia do Norte) e, no mundo actual, baseado na tecnologia e no conhecimento, o proteccionismo é uma táctica suicida para economias pequenas e mal desenvolvidas (como a portuguesa).

 

Os Estados Unidos não têm nem o problema da dimensão (o PIB norte-americano representa cerca de 24% do PIB mundial) nem o de constituírem uma economia subdesenvolvida. Na realidade, numa economia tão grande, tão variada, tão baseada no consumo (68% do PIB) e tecnologicamente tão avançada como a norte-americana, é perfeitamente possível que medidas proteccionistas dêem origem a recuperação do emprego e aumento dos salários – durante uns tempos. Depois os preços tenderão a subir, o dólar a valorizar-se (com péssimas consequências para a sustentabilidade das dívidas de vários países periféricos), o consumo a travar, as exportações a diminuir (tanto pelo aumento dos custos de produção como pela imposição de tarifas aos produtos norte-americanos por parte de outros países), a imigração a aumentar (o efeito negativo na economia mexicana será imediato), o nível de inovação a descer, o investimento estrangeiro a hesitar, o mercado de capitais (assente em empresas multinacionais) a ressentir-se. Já para não mencionar o surgimento de dificuldades logísticas ou até mesmo político-logísticas: alguns materiais necessários para fabricar certos produtos obtêm-se apenas em países específicos (a China produz 85% dos metais de terras raras - como o neodímio e o lantânio - essenciais para o fabrico de smartphones e computadores) e uma deterioração das relações internacionais poderá dificultar o acesso a eles. (Vejam-se, por exemplo, as implicações de transferir a produção do iPhone para os Estados Unidos.) Enquanto isto for acontecendo, países mais fracos enfrentarão tremendas dificuldades (o México encontra-se prestes a ficar numa posição similar àquela em que Portugal se encontraria se perdesse o acesso livre ao mercado europeu) e a economia mundial também.

 

Mas Donald Trump está apenas a fazer o que prometeu. Na verdade, está até a fazer o que sempre defendeu. Comprovando a teoria (tão injustamente atacada) de que se pode ler a Playboy pelos artigos, parece que no interior do governo alemão tem andado a circular a edição de Março de 1990. Trump - que, pelos vistos, não gosta apenas de gatinhas (pussies), mas também de coelhinhas - era o entrevistado. E não tinha dúvidas: os problemas da economia norte-americana (no início de uma década de excelente desempenho) tinham origem nas importações de produtos japoneses e alemães, tornados competitivos através de subsídios dos respectivos governos, os quais ganhavam a folga para os pagar devido ao facto de serem os Estados Unidos a assegurar que os dois países não eram «removidos da face da Terra em cerca de 15 minutos». Trump acusava japoneses e alemães de roubarem o amor-próprio dos norte-americanos e terminava dizendo que «os nossos aliados lucram biliões lixando-nos». De então para cá, apenas necessitou de acrescentar China, México e, suponho, Coreia do Sul à lista dos seus ódios de estimação. Para Trump, tudo assenta em análises custo-benefício simplistas, feitas sempre numa perspectiva de curto prazo. Trata-se de uma excelente receita para o desastre. Que ele esteja a posicionar-se para incentivar o desmembramento da União Europeia, de modo a forçar acordos bilaterais a partir de uma posição de força que as condições actuais não lhe providenciam, só pode reforçar os motivos de preocupação.

 

Há um ponto, todavia, em que é necessário elogiá-lo. Um ponto que até ajuda a explicar por que venceu as eleições. Nos primeiros dois dias, Trump reuniu-se com líderes de grupos industriais e com sindicalistas. Nas conferências de imprensa diárias, Sean Spicer, o porta-voz da Casa Branca, fez questão de realçar que vários deles nunca tinham estado na Sala Oval e que alguns nunca haviam sequer entrado na Casa Branca. Para um cidadão desempregado, ou num emprego de baixo rendimento, que via as estrelas de Hollywood descreverem, nos programas de Stephen Colbert ou Jimmy Fallon, as festas e os jantares na Casa Branca em que haviam participado, isto é um tremendo sinal. Os encontros de Trump podem não passar de demagogia ou significar o pontapé de partida para uma crise mundial. Para essas pessoas, contudo, marcam a diferença. Barack e Michelle Obama eram elegantes, politicamente correctos, excelentes oradores e dançarinos - o epítome do cosmopolitismo. Mas Trump está a lutar por eles. Não há piada desdenhosa ou crítica mal fundamentada capaz de vencer esta ideia.

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TSU e o mau da fita

por José António Abreu, em 25.01.17

1. Economia

Em Portugal, ninguém questiona que tudo passe pelo Estado e tudo dependa do Estado. Ao lidar com o sector público mas também com o privado, o governo age como se o dinheiro dos contribuintes fosse inesgotável e a economia de uma resiliência à prova de bala. Daqui nasce um círculo vicioso: a economia cresce pouco, o Estado não obtém os recursos pretendidos, o orçamento público apresenta défices crónicos, os impostos e a dívida aumentam, a economia cresce ainda menos. Tudo isto perante a complacência – quando não o aplauso – das associações patronais, dos sindicatos, da maioria dos comentadores, do Presidente da República. A polémica em torno da TSU constitui mais um exemplo desta lógica. A medida é péssima: apoia-se em dinheiro dos contribuintes, serve de contraponto a um aumento exagerado (porque muito superior aos ganhos de produtividade) do salário mínimo (já demasiado próximo do salário mediano), e, num país onde ele abrange vinte e tal por cento dos trabalhadores, incentiva as empresas a usá-lo ainda mais. Porém, isto não impediu que as associações patronais a sancionassem. Em vez de defenderem medidas que permitam a subida do salário mediano e forcem o Estado a um nível superior de eficiência (descidas de impostos ou simplificação de processos burocráticos, por exemplo), escolheram (escolhem sempre) alinhar numa lógica de subsidiação, apoiada em cada vez mais regras e excepções. Ou seja: em Portugal, as associações patronais são uma parte não apenas activa mas entusiasta no crescimento desmesurado do Estado - e, por conseguinte, no agravamento dos problemas dos seus próprios associados.

 

2. Política

Passos Coelho é um espinho cravado no sistema político nacional. O homem recusa-se a seguir o guião. Parece que, de repente, até decidiu fazer política. Indivíduos mais atentos teriam notado a forma como ele deu a volta a Paulo Portas em 2013; como aguentou críticas ferozes, vaticínios catastrofistas e distorções variadas (que, evidentemente, nada tinham a ver com «pós-verdade» ou «factos alternativos») enquanto foi primeiro-ministro; como, quebrando a tradição nacional de que uma pessoa não se «rebaixa» a um papel menos importante do que outro já desempenhado, assumiu o lugar de deputado após a queda do seu governo às mãos da «geringonça». Na verdade, Passos é um político. Um excelente político. Nas últimas semanas, António Costa – este sim, considerado por todos um político exímio, para além de um negociador imbatível – deu-lhe oportunidade para o demonstrar. Costa fechou um acordo que violava a Constituição (o escândalo mediático que teria surgido há apenas um par de anos...) e para o qual não garantira apoio parlamentar. Para o fazer passar, contava com a passividade do PCP, do Bloco – ou do PSD. Os dois primeiros foram iguais a si mesmos e mostraram que o governo de Portugal não é estável nem credível (quanto a duradouro, veremos). Por seu turno, Passos resolveu finalmente assumir o papel de líder da oposição e cumprir o que prometera aquando da tomada de posse da «geringonça»: forçá-la a governar. Nos dias seguintes, verificou-se que Costa tinha quase toda a gente «importante» com ele: a intelligentsia mediática, os «patrões», a UGT, a facção «bem-pensante» do PSD, o Presidente da República. Só que Passos aguentou muito mais durante os anos da Troika. Não cedeu, e fez bem. Contudo, assumiu um risco: para os poderes instalados (os mesmos que Ricardo Salgado elogiou explícita e implicitamente no artigo que escreveu aquando da morte de Mário Soares), é cada vez mais importante afastá-lo da liderança do PSD.

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Música recente (64)

por José António Abreu, em 24.01.17

Capitão Fausto, álbum Capitão Fausto Têm os Dias Contados.

Pop assumida, em oito temas onde não há medo de usar (e de subverter) clichés.

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Fotografias tiradas por aí (337)

por José António Abreu, em 22.01.17

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Porto, 2016.

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Música recente (63)

por José António Abreu, em 20.01.17

 Amanda Shires, álbum My Piece of Land.

Composto durante a fase final de uma gravidez, longe do marido (Jason Isbell andava em digressão), é um trabalho de subtilezas, reflectindo solidão e inquietudes, mas também esperança no futuro.

 

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Música recente (62)

por José António Abreu, em 17.01.17

Warpaint, álbum Heads Up.

Há uma incursão pela pop em New Song, o terceiro tema. De resto, o álbum mantém a sonoridade complexa e ligeiramente arrastada habitual nas Warpaint.

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Fotografias tiradas por aí (336)

por José António Abreu, em 15.01.17

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Porto, 2016.

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Música recente (61)

por José António Abreu, em 13.01.17

The XX, álbum I See You.

 O título não podia ser mais adequado. Ao terceiro álbum, os XX sacodem (ainda que ligeiramente) a tendência para a introspecção e olham para fora.

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Música recente (60)

por José António Abreu, em 10.01.17

Bat for Lashes, álbum The Bride.

Um álbum conceptual, de acesso não exactamente imediato, sobre uma mulher cujo noivo morre no dia do casamento. A ideia-base podia ter constituído receita para um conjunto intragável de lamentações, mas Natasha Khan é demasiado inteligente para cair nessa armadilha. Ainda assim, não será o trabalho ideal por onde começar a descobrir a música da londrina.

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Fotografias tiradas por aí (335)

por José António Abreu, em 08.01.17

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Ria de Aveiro, 2016.

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Música recente (59)

por José António Abreu, em 06.01.17

Sean Riley & The Slowriders, Sean Riley & The Slowriders.

O regresso, após quatro anos, de uma das bandas que me chegaram a fazer pensar haver uma ligação subterrânea entre Coimbra e o Sul dos Estados Unidos (as outras: D3Ö, Bunnyranch, os projectos de Paulo Furtado). Tê-lo-ia assinalado antes mas o José Maria Gui Pimentel adiantou-se.

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Socialismo de Curto Prazo

por José António Abreu, em 05.01.17

O caso da TSU do salário mínimo ilustra bem os tempos em que vivemos. Uma medida que se traduz no aumento de poder de compra a curto prazo transporta consigo incentivos perversos de contenção dos salários mais baixos a médio e longo prazo. O acordo do salário mínimo é, na prática, uma política que defende uma economia de salários baixos.

Helena Garrido, no Observador.

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Música recente (58)

por José António Abreu, em 03.01.17

Steve Gunn, álbum Eyes on the Lines.

Suave, fluído, quase sempre com a guitarra em primeiro plano. Talvez o melhor álbum de 2016 para ouvir enquanto se conduz.

 

(Para além de Gunn, no vídeo surge o guitarrista Michael Chapman - bem como a casa deste, situada no condado inglês de Northumberland.)

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Fotografias tiradas por aí (334)

por José António Abreu, em 01.01.17

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Porto, 2016.

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2016

por José António Abreu, em 31.12.16

A economia cresceu menos do que em 2015. O crescimento deveu-se não ao previsto aumento do consumo interno mas ao turismo e às exportações. Agora o governo diz que a aposta são o investimento e as exportações. Tudo indica que o crescimento permanecerá anémico.

A dívida pública aumentou. Apesar das medidas do BCE, as taxas de juro subiram, tanto no mercado primário como no secundário.

A operação de recapitalização da Caixa Geral de Depósitos foi adiada para 2017. O processo incluiu uma tentativa governamental para contornar legislação existente. Seria mais grave noutros tempos.

Descontando operações de recapitalização de bancos, o défice público deverá baixar cerca de 0,5% em 2016 (contra uma média superior a 1,3% nos cinco anos anteriores). 0,3% dessa redução ficará a dever-se a um perdão fiscal a que o governo não gosta de chamar perdão fiscal. Além disso, as cativações permanentes subiram e os pagamentos em atraso provavelmente também.

Apesar da construção de hotéis e da abertura de espaços vocacionados para o turismo no centro de Lisboa e do Porto, o investimento caiu. Em percentagem do PIB, o investimento público caiu para níveis da década de 1950. Parece que até os socialistas entendem que é necessário apertar em algum lado. Há uns anos, quem imaginaria que o fizessem aqui?

A taxa de desemprego desceu. É uma boa notícia. Provavelmente teria descido mais com mais investimento. De preferência, privado.

Os impostos indirectos aumentaram. Em 2017 continuarão a aumentar.

Os «lesados» do BES vão ser salvos pelos contribuintes. Com um pouco de boa vontade, a Cornucópia também.

O sistema de Educação conseguiu bons resultados a nível internacional. A análise ainda não abrangeu as mudanças introduzidas pelo actual governo.

Na Concertação Social, o governo conseguiu um acordo para aumentar o salário mínimo. Logo a seguir, um ministro comparou os parceiros sociais a gado. Estes nem mugiram.

Marcelo viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies, viajou, falou e tirou selfies. Considerando que tomou posse apenas no início de Março, em 2017 deverá conseguir viajar, falar e tirar selfies ainda mais. Poderá ter problemas em manter taxas de crescimento significativas a partir de 2018.

A «geringonça» aguentou-se. Parabéns a António Costa. Bloco e PCP estão mais domados do que CDS alguma vez esteve. Como se viu no caso da TSU, até os termos dos «acordos de entendimento» já podem ser violados.

 

Mas, globalmente, parece que os portugueses andam satisfeitos. Óptimo. Sempre apreciámos o status quo. E, no fundo, estamos habituados à mediania.

Bom 2017.

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Música recente (57)

por José António Abreu, em 30.12.16

Justice, álbum Woman.

A electrónica de outro duo de franceses (i.e., não os Daft Punk), cantando em inglês, num vídeo que inclui uma actriz norte-americana e um carro japonês. A globalização ainda não perdeu a guerra.

 

(Colocar Susan Sarandon, de óculos escuros e cabelo solto, ao volante de um descapotável traz de volta certas memórias...)

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Imaginemos uma fila para aquisição de bilhetes para um espectáculo muito concorrido e com os ingressos prestes a esgotar. Um idoso ou um portador de deficiência passa à frente de quem chegou primeiro?

Obviamente.

(...)

Porque é que o Governo entendeu legislar sobre esta matéria? Haverá uma generalizada falta de bom senso entre os portugueses? Porquê legislar e ter força de lei aquilo que por muitos é visto como bom senso?

A razão é exactamente essa. Esta é uma situação que é vista como bom senso e o bom senso como se costuma dizer é algo como o oxigénio ou o ar que respiramos: só sentimos a falta dele quando de facto não está lá.

Entrevista da Renascença à Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência. 

 

Houve um tempo em que a esquerda afirmava acreditar na bondade humana; hoje, prefere desconfiar, controlar e punir. Bom senso seria legislar sobre o essencial e deixar em paz tudo o resto. Mas não apenas organismos públicos diversos e secretarias de Estado para a «Inclusão» têm de justificar a sua duvidosa razão de ser como o Estado vive da imposição e do controlo de regras. Quanto mais existirem, mais Estado pode existir.

Repare-se que a lógica da secretária de Estado é extensível a quase tudo. O bom senso também recomenda que não se ande pelas ruas em fato de banho durante o Inverno, que não se vá engripado a locais onde esteja muita gente, que se ajudem indivíduos à procura da rua x ou da praça y, que se modere o humor diante de desconhecidos, que não se ingiram (e que não se disponibilizem) produtos com elevados teores de açúcar, gordura ou álcool. Mas será necessário legislar sobre estes assuntos?

Os defensores da hemorragia legislativa acreditam que ela torna a sociedade mais justa e solidária. Na verdade, é mais provável que contribua para o aumento do nível de acrimónia. Em primeiro lugar, o excesso de legislação faz com que as pessoas sintam, justa ou injustamente, que os outros estão mais protegidos do que elas: há legislação conferindo privilégios a tantos grupos específicos e até a animais; que legislação se preocupa comigo? Em segundo, leva-as a sentirem-se menorizadas: ao Estado não basta informá-las de que determinado comportamento é preferível a outro; força-as a ele, plasmando-o em lei (a qual, reconheça-se - até um Estado gargantuesco tem limites -, fica muitas vezes por aplicar). Finalmente, converte gestos de boa vontade em imposições - e enquanto ceder voluntariamente o lugar numa fila gera satisfação, ser obrigado a fazê-lo dá azo a reservas e desconfianças. Não pode ser coincidência que, nas sociedades ocidentais, a leis cada mais «perfeitas» pareçam corresponder níveis de individualismo e de falta de cortesia cada vez mais elevados. Num ambiente em que todos os comportamentos se encontram legislados, a única liberdade reside no egoísmo.

É desta forma que, perante o aplauso de muitos e o silêncio indiferente, ignorante ou cobarde de muitos mais, o politicamente correcto se vai transformando em ditadura. Proíbem-se actos, proíbem-se palavras e, quando for possível ler pensamentos, proibir-se-ão todos os considerados impróprios. Sempre em nome de magníficos princípios, numa sociedade cada vez mais crispada.

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Música recente (56)

por José António Abreu, em 27.12.16

 Carla Dal Forno, álbum You Know What It's Like.

Texturas sombrias e roufenhas onde a voz procura um lugar.

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Fotografias tiradas por aí (333)

por José António Abreu, em 25.12.16

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Serra da Estrela, 2016 (ontem).

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Música recente (55)

por José António Abreu, em 23.12.16

The I Don't Cares, Wild Stab.

Após encontrar na cave de Paul Westerberg (The Replacements) muitos temas escritos ao longo dos anos mas nunca utilizados, Juliana Hatfield (um dos ícones da década de 1990) convenceu-o a formar uma banda com ela. O resultado é ligeiramente desconexo mas totalmente isento de pretensiosismo: dezasseis temas low-fi, com arestas por polir, que soam mesmo a material gravado numa cave, em dias de descontracção.

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Música recente (54)

por José António Abreu, em 20.12.16

Angel Olsen, álbum My Woman.

Da indie ao rock quase puro (i.e., retro), a palete de Olsen continua a expandir-se.

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Fotografias tiradas por aí (332)

por José António Abreu, em 18.12.16

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Porto, 2016.

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Música recente (53)

por José António Abreu, em 16.12.16

Conor Oberst, álbum Ruminations.

Um dos trabalhos mais intimistas, minimalistas e pessimistas de Oberst, composto em Omaha no Inverno passado enquanto ele recuperava de "laringite, ansiedade e exaustão", e gravado em 48 horas.

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Música recente (52)

por José António Abreu, em 13.12.16

M.I.A., álbum AIM.

A dificuldade de muitos artistas com mensagens políticas radicais é conseguirem conjugá-las com o desejo, tão humano, de estrelato (ou, numa versão mais benigna, de atingirem um público vasto). Houve uma época em que a raiva de M.I.A. parecia genuína. Hoje, encontra-se demasiado estilizada para convencer plenamente. Há boas canções em AIM (a do vídeo acima, por exemplo), mas também há (demasiadas) canções fracas e, acima de tudo, nenhuma constitui um desafio, lírica ou musicalmente; em nenhuma o ouvinte sente o desconforto de ver a sua mundividência posta em causa.

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Fotografias tiradas por aí (331)

por José António Abreu, em 11.12.16

Blogue_praias6_SenhorPedra2016_v2.jpg

Senhor da Pedra, Vila Nova de Gaia, 2016.

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Música recente (51)

por José António Abreu, em 09.12.16

Wilco, álbum Schmilco.

Um dos trabalhos mais acústicos e intimistas dos Wilco. As letras exprimem confusão, nostalgia, por vezes até mesmo depressão, mas também uma subtileza e ironia muito particulares (I hope you find someone to lose, someday). A música adiciona a esperança.

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Diário semifictício de insignificâncias (22)

por José António Abreu, em 08.12.16

Por um lado parece-me lógico, por outro paradoxal: não me lembro onde pus um cartão de memória.

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Música recente (50)

por José António Abreu, em 06.12.16

 Jenny Hval, álbum Blood Bitch.

 Eu sei, estamos em tempo de Natal, de músicas expansivas, com sininhos e mensagens de optimismo... Mais ou menos isto, creio. (Não estou a ironizar assim tanto: há imensa beleza e algum optimismo nos sons densos e nas letras carregadas de sangue, sexo e solidão que a norueguesa Hval incluiu neste trabalho. Assim de repente, Period Piece pode até ser o único tema alguma vez escrito no qual uma mulher admite encontrar conforto no espéculo do ginecologista: Some people find it painful / But all I feel is connected. OK.)

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Do princípio ao fim (29)

por José António Abreu, em 05.12.16

(O Pedro Correia encerrou oficialmente esta série há pouco mais de uma semana. Não desejo reabri-la, mas não tive coragem para apagar este texto, alinhavado em meados de Novembro.)

 

Blogue_ToThe Lighthouse.jpg

Saio dos melhores livros de Virginia Woolf com uma sensação de plenitude. Não recordo uma história, mas sei que o livro fez sentido. Cada frase, cada parágrafo, contribuiu para uma imagem global – e, neste caso, o termo «imagem» não é aleatório – que nenhuma sinopse tem o poder de encapsular. As melhores páginas de Virginia Woolf têm a lógica de uma melodia ou - cá vamos novamente - de uma pintura. Isto não acontece por acaso: Woolf deixou apontamentos que mostram a intencionalidade do efeito. Em The Waves (um livro difícil), a estrutura esforça-se por replicar os padrões do pensamento humano. Em Mrs. Dalloway e, acima de tudo, em To the Lighthouse (Rumo ao Farol), a intenção é mesmo replicar o efeito de uma pintura, na qual os detalhes podem revelar génio bastante para que se pare a analisá-los, mas onde acima de tudo interessa a sensação geral, frequentemente obtida aumentando a distância em relação à tela, num efeito similar a tantos acontecimentos na vida humana. A intenção é tão explícita que Lucie Briscoe, uma das personagens, vai realmente pintando um quadro enquanto observa o que se passa. No parágrafo final, termina-o. Encontrou uma imagem que, podendo não ter interesse nem fazer sentido para qualquer outra pessoa (ou até mesmo para ela, noutro instante), podendo transmitir uma mensagem difícil de aceitar (a da inutilidade da vida, por exemplo), fecha algo; permite um momento de compreensão. E não apenas todos os bons finais são momentos de compreensão como momentos de compreensão são tudo o que se pode desejar de uma pintura, de um livro, da vida.

 

Quickly, as if she were recalled by something over there, she turned to her canvas. There it was - her picture. Yes, with all its greens and blues, its lines running up and across, its attempt at something. It would be hung in the attics, she thought; it would be destroyed. But what did that matter?, she asked herself, taking up her brush again. She looked at the steps; they were empty; she looked at her canvas; it was blurred. With a sudden intensity, as if she saw clear for a second, she draw a line there, in the centre. It was done; it was finished. Yes, she thought, laying down her brush in extreme fatigue, I have had my vision.

(Lamento, mas não tenho uma versão em português.)

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Fotografias tiradas por aí (330)

por José António Abreu, em 04.12.16

Blogue_ruas73_Porto2001.jpg

Porto, 2001. 

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Música recente (49)

por José António Abreu, em 02.12.16

Rita Redshoes, álbum Her.

Uma sonoridade expansiva, cinematográfica, que remete para outras décadas e combina na perfeição com a voz límpida de Rita. Encontro-lhe um ponto negativo: aqui e ali, o optimismo e a força de vontade expressos nas letras resvalam para o lugar-comum (sou mulher / sem vergonha de vencer / eu aprendo ao viver / e não mudo o meu caminho). Pela primeira vez, alguns temas (quatro) são em português.

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Blogue_homensMortos_2.jpg

Numa parede do Porto.

 

Na série britânica Love, Nina, adaptação de Nick Hornby de um livro de memórias de Nina Stibbe, há um momento em que alguém pinta desenhos obscenos nos passeios do bairro onde decorre a acção. Várias personagens reúnem-se em torno de um deles e debatem identidade e possíveis motivações do autor. George, a editora literária a que Helena Bonham Carter dá corpo, defende que, obviamente, terá sido um homem, porque as mulheres não andam por aí a fazer desenhos no pavimento; pelo menos, acrescenta, não em número estatisticamente relevante.

Olho para a frase acima e pergunto-me se George estaria certa - e, nesse caso, que diabo se passa na cabeça de um homem capaz de a escrever.

Claro que Love, Nina decorre no início da década de 1980. Talvez hoje em dia mais mulheres pintem coisas no chão e nas paredes. Não daria um grande sinal do rumo da evolução feminina (há actos tipicamente masculinos que, podendo remeter para instintos antigos de marcação do território, são hoje apenas estúpidos) nem faria com que esta mensagem ficasse aceitável, mas sempre a tornaria um pouco menos ilógica.

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Música recente (48)

por José António Abreu, em 29.11.16

Christian Kjellvander, álbum A Village: Natural Light.

A música do sueco Kjellvander devia ser um segredo menos bem guardado. Leonard Cohen, Mark Lanegan e os Tindersticks andam por aqui.

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França e o futuro da UE

por José António Abreu, em 28.11.16

nomeação de François Fillon como candidato do centro-direita às eleições presidenciais francesas abre perspectivas interessantes. Se, como tudo parece indicar, for ele a defrontar Marine Le Pen na segunda volta, não apenas a eleição de Le Pen ficará quase impossível (por muito que a faceta social-conservadora de Fillon desagrade à esquerda «progressista», ele constituirá sempre um mal menor) como, qualquer que seja o vencedor, ficam garantidas mudanças fundamentais na política francesa – e, por arrasto, na europeia. É sabido que uma vitória de Le Pen conduziria a França para fora do euro e da UE, provocando o colapso desta. Mas uma vitória de Fillon garantirá uma alteração fundamental no balanço de forças entre os países que defendem e aplicam reformas estruturais e os países que, na prática, se lhe opõem. Fillon defende cortes no Estado e uma economia baseada na iniciativa privada e nas exportações. Num país como França, não é líquido que consiga fazer tudo o que pretende. No mínimo, enfrentará enorme contestação dos grupos que se alimentam do Estado. Mas terá o peso da estagnação francesa a seu favor (muita gente sabe que algo tem de ser feito) e uma legitimidade dupla: a conferida pela eleições e a decorrente da clareza, verdadeiramente admirável, com que tem exposto as suas ideias. Ora uma França reformista (honestamente, parece um oxímoro) estará muito mais alinhada com a Alemanha e tornará a União Europeia muito menos condescendente para com países que preferem ir arrastando os pés. Convinha que estes se preparassem – para qualquer dos cenários.

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Fotografias tiradas por aí (329)

por José António Abreu, em 27.11.16

Blogue_macro8_2016.jpg

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Música recente (47)

por José António Abreu, em 25.11.16

Mitski, álbum Puberty 2.

A passagem para a idade adulta e a tentativa de encontrar um lugar e um sentido no mundo, através de rotinas que ajudam mas também prendem, e de relações que, hoje em dia, parecem sempre provisórias e desequilibradas.

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