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Blog da Semana

por José Navarro de Andrade, em 07.10.17

Não negue à partida uma música que desconhece ou pior, que tem dela uma noção  auditiva influenciada pelos serôdios mas persistentes clichés do vanguardismo. Por via dos maravilhosos avanços tecnológicos o passado no jazz deixou de existir. Hoje é tão acessível o solo de Louis Armstrong em "Potato Head Blues" de 1925, como a última façanha de Christian McBride, com ou sem orquestra. E ambos, garanto, são deleitosos.

Marc Myers tem um blog onde fala de jazz com entusiasmo, sinceridade, sabedoria, encanto e sedução. Se for lá pode ser que fique convencido.

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Pensamento da semana

por José Navarro de Andrade, em 08.08.17

A internet é a mais formidável memória que a humanidade alguma vez teve ao seu dispor. E no entanto parece que a memória não aumentou. 

 

Este pensamento acompanha o DELITO durante toda a semana

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Manobras de diversão

por José Navarro de Andrade, em 16.07.17

É um sintoma do espantoso subdesenvolvimento cultural português, exercido pela classes que se dizem letradas e atentas, que todos os problemas se discutam reduzindo-se a questões polí­ticas e, pior, abaixados à  politiquice do jogo partidário. É o velho aforismo: quando se tem um martelo, todos os problemas são pregos.

O caso da compra da TVI-PRISA pela PT-Altice, demonstra tragicamente os equí­vocos de semelhante tacanhez. Num desplante, mas nada despropositado para quem tem interesses corporativos a defender, o Senhor Primeiro Ministro António Costa colocou as interrogações a esta operação nos termos que mais lhe convêm. Dado o tom, foi logo a banda bradar grande charivari à porta da ERC, um organismo de momento letá¡rgico, mas de génese e funções ignóbeis (qualificação que terei todo o prazer em esmiuçar em circunstâncias mais alargadas).

E no entanto os grandes dilemas criados pelas intenções da PT-Altice colocam-se num plano muití­ssimo mais determinante, influente e alarmante, do que de a preocupação e conveniência táctica de saber quem ficará a mandar no alinhamento dos telejornais - "It's economics, stupid."

Era esperado que se a PT-Altice abocanhasse a TVI-PRISA, como numa queda em dominó, a NOS se fizesse à  SIC-IMPRESA. Postas as coisas em movimento a questão fundamental é só uma:

Como será a paisagem audiovisual portuguesa?

Decorrem imediatamente daqui dois assombros:

  1. Em que outro paí­s europeu (ou mesmo mundial) CINCO indústrias (a televisão aberta, a televisão por cabo, a Internet, as comunicações móveis e as comunicações fixas) ficam agregadas numa empresa? E se a NOS executar os seus propósitos acrescentem-se MAIS TRÊS: a exibição cinematográfica e a distribuição cinematográfica. E os direitos de futebol.
  2. Que liberdade de mercado, económica, comercial e de escolha se antevêem quando tantas áreas industriais de tamanha dimensão e incidência se limitam a um duopólio?

Enquanto a discussão não enveredar por este caminho é poeira nos olhos. Boa sorte.

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Pensamento da semana

por José Navarro de Andrade, em 08.04.17

Em 1979 o filme "Bem-vindo Mr. Chance" (Being There) era uma comédia. Hoje é um documentário.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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SULTÕES DO SWING redescobertos

por José Navarro de Andrade, em 30.01.17

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Aquando do atroz incêndio que desfez em cinzas o Hotel Splendid, na Av. da Liberdade, julgou-se perdida para sempre a memória das sofisticadas soirées dançantes das meias-noites de Sexta-feira.
Até que no verão do ano passado num leilão do Sotheby’s foi levado à praça o espólio da Baronesa de Koenigswarter: 3 caixotes em pau-ferro do Maiombe, minuciosamente numerados 1, 2 e 3. Dado que o aval do revestimento creditava os dotes do conteúdo, as arcas mereceram a atenção dos licitadores e foi com algum custo que o Serviço Público as arrematou.
Devassados os cofres a pé-de-cabra revelou-se o tesouro: as fitas magnéticas com o registo de todos os SULTÕES DO SWING, os requintados saraus do Hotel Splendid!
Após uma laboriosa obra de restauro levada a cabo nos apetrechados laboratórios do Serviço Público, em breve Portugal, e por extensão o mundo, poderão voltar a escutar o insuperável glamour das noites de Sexta para Sábado do Hotel Splendid.

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Num pronto

por José Navarro de Andrade, em 06.01.17

A excitação social da semana é uma incrível briga entre púberes almadenses. Sempre alerta, as repugnadas consciências cívicas já debatem com ardor e profundidade se é de exigir justiça drástica e célere ou se há que culpar a sociedade por inteiro ou em parte. Todavia a zaragata deu-se no princípio de Novembro – porquê só agora se engasgam as vozes de comoção? Porque só agora foi posto clip nas “redes sociais”. Pavlovianamente, quando as “redes sociais” espigam as orelhas é quando a “comunicação social” dá ao rabo. Depois é só espiralar por aí acima. Assim se fabrica, fermenta e se fornece a informação e a opinião em pt. Entretanto a polícia não dorme e garantiu que as “diligências necessárias” tramitam resolutamente por todas as instâncias adequadas. Caramba, só passaram 2 meses.

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2019

por José Navarro de Andrade, em 09.11.16

Ainda antes da tomada de posse do 45º Presidente dos Estado Unidos da América começa o êxodo maciço de latinos.
A multidão acumula-se nas fronteiras. Há quem esteja mais de uma semana à espera de passar. Erguem-se os primeiros acampamentos.
O México encerra as fronteiras de Tijuana, Mexicali, Nogales, San Luis Rio Coronado, Sonoyta e Ciudad Juarez por tempo indeterminado para reorganização.
Os tumultos e os incidentes recrudescem no lado americano da fronteira. Já são centenas de milhares que gritam “Volveremos!”. O Presidente Obama decreta o Estado de Emergência e envia a Guarda Nacional. É a sua última medida.
Residentes em El Paso dizem que em Juarez a fuzilaria é incessante dia e noite. Há quem diga ter visto rockets – “It’s a civil war down there.”
Agricultores californianos alarmam o país, não há mão-de-obra para apanhar as colheitas hortícolas. Pela primeira vez na sua história os Estados Unidos têm de importar tomate.
O presidente Trump anuncia que a independência energética será o seu primeiro objectivo e que os EUA apoiarão a produção do fracking custe a quem custar. A Arábia Saudita reduz drasticamente a venda de petróleo e o preço sobe vertiginosamente.


Com o súbito e enorme agravamento das taxas de importação dos EUA, a Mercedes, a BMW e a Audi registam uma queda vertiginosa nas vendas.
Nas eleições federais de 2017 a CDU da Chanceler Merkel tem uma derrota histórica. Larga maioria absoluta para o SPD com o slogan “Deutschland zuerst”.
Declaração do novo Chanceler: “Rejeitamos toda e qualquer forma de expansionismo. A nossa economia tem de assentar no consumo interno.” A Alemanha sai do Euro. Os bancos alemães sofrem um forte investimento do Estado para se restruturarem em função da nova política económica. É lançado um ambicioso plano económico de desenvolvimento para os estados de Mecklenburg-Pomerânia, Brandenburgo, e as duas Saxónias.
A Presidente Marine Le Pen acorda com a Alemanha uma saída simultânea da França e da Alemanha da União Europeia. As diplomacias dos dois países começam a negociar uma miríade de acordos económicos bilaterais entre França, Alemanha, Polónia, República Checa, Hungria, Áustria, Valónia, Flandres, Suíça e países escandinavos.
Os países escandinavos e a Finlândia tomam medidas conjuntas para a revogação no prazo máximo de 60 dias das licenças de residência para todos os cidadãos não-europeus, mesmo os já nascidos em solo nacional. Todas as mesquitas são fechadas, mas o culto em privado é tolerado.
Após o brexit a Escócia torna-se independente por referendo. Em Espanha o governo do Podemos promulga a independência da Catalunha e do País Basco após referendo. Segue-se a Padânia na península Itálica. Primeiras acções armadas independentistas na Córsega.

No já célebre discurso de Tallinn o Presidente Trump declara que os EUA não podem suportar sozinhos a NATO. Os representantes da França e da Turquia interrompem-no dizendo que essa afirmação é falsa.
No dia seguinte há incidentes simultâneos com guardas russos nas fronteiras da Estónia, da Letónia e da Lituânia.
O presidente Putin anuncia a operacionalidade a 100% da capacidade nuclear instalada em Kaliningardo.

Com as exportações para os EUA brutalmente reduzidas, o governo Chinês anuncia que passará a dirigir o seu investimento para a África e os países asiáticos do Índico. Entretanto procede a um ataque em forma às bolsas mundiais. A bolsa de Nova Iorque fecha durante dois dias – é o colapso financeiro nas bancas americana e europeia.
Primeiras trocas de fogo entre a China e o Japão em torno das Ilhas Senkaku / Diaoyu.
A China tenta impedir a passagem de uma esquadra militar dos EUA pelas águas territoriais das nas Ilhas Spratly.
Os vasos de guerra estão frente a frente, o mundo aguarda o discurso de Presidente Trump.

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Do princípio ao fim (9)

por José Navarro de Andrade, em 01.10.16

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Sabem muito bem os compositores que terminar uma peça é mais difícil do que começá-la. Se o início da música pode ocorrer ao cérebro, por via daquilo a que se chama inspiração, com uma inesperada sequência de acordes e uma interessante, mesmo que débil, linha melódica, já a conclusão tem que fazer sentido. Ora o sentido é transpiração, não é inspiração.
Há tantos romances que se perdem no fim, ou porque foram para lá do que deviam, ou porque deram uma guinada insensata, ou porque se acobardaram a fechar a narrativa, deixando-a falaciosamente em aberto. Outros há, porém, que colocam o apogeu no final, que é uma forma eficaz, e por vezes brilhante, de fugir ao som sepulcral da porta que fecha e a esse acto de suprema confiança no leitor que é o de entregar ao seu critério os dilemas que o romance foi construindo e resolvendo.
E porque ao leitor cabe prosseguir o que ficou escrito da maneira que entender, os melhores finais são aqueles que não deixam o livro por terminar e libertam o leitor dele.


Talvez haja poucos remates tão melancólicos como o de “The Long Goodbye” (1953) de Raymond Chandler (1888-1959):
“He turned and walked across the floor and out. I watched the door close. I listened to his steps going away down the imitation marble corridor. After a while they got faint, then they got silent. I kept on listening anyway. What for? Did I want him to stop suddenly and turn and come back and talk me out of the way I felt? Well, he didn't. That was the last I saw of him.
I never saw any of them again – except the cops. No way has yet been invented to say goodbye to them.”


Quem fica assim, fica só na companhia de quem o lê. E quando logo a seguir se fechar o livro resta-lhe a esperança, vaga e contingente, de que a sua memória deixe algum rasto durante algum tempo.

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Do princípio ao fim (8)

por José Navarro de Andrade, em 30.09.16

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“«La caballería ya no tiene sentido», comentó el capitán Arderíus al término de la reunión del 8 de febrero, martes.”
Assim começa assim “Herrumbrosas Lanzas” de Juan Benet (1927-1993). A melhor maneira de alegar a favor dos méritos desta escolha como admirável abertura de um livro é recorrer à frase que inicia outro livro de forma exemplar: “A beginning is the time for taking the most delicate care that the balances are correct.” (“Dune” de Frank Herbert).
Mesmo em Espanha, embora tenha atingido aquele ambíguo estatuto em que fica mal a um literato confessar que nunca o leu, a verdade é que Juan Benet continua a ser um autor secreto e intimidante, havendo poucos leitores com paciência e necessidade para se afoitarem aos parágrafos caudalosos e às oceânicas 720 páginas de “Herrumbrosas Lanzas” – livro tão lateral aos apetites literários prevalecentes que está omisso da Wikipédia.
Por conveniência editorial, que o autor artisticamente converteu em figurino folhetinesco, o livro foi publicado em 3 volumes autónomos (partes I-VI em 1983; parte VII em 1985 e partes VIII-XII em 1996) e só em 1998 saiu do prelo a póstuma edição integral, contemplando ainda as supostamente incompletas partes XV e XVI, não havendo traços das XIII e XIV em falta. A corrente edição de bolso da editora Debolsillo (ISBN: 9788499080079) traz de brinde uma carta topográfica de Region, desenhada pelo próprio Benet (de profissão engenheiro de estradas) que é uma preciosa companhia à leitura da obra.
Por uma daquelas coincidências que por vezes encadeiam a literatura, mais barrocas do que invulgares (o que confunde os idealistas, perpetuamente esperançosos de verem o dedo do transcendente a furar a casca do tangível), a história editorial de “Herumbrosas Lanzas”, no que teve de intrincada, acidentada, mas sobretudo de resoluções pragmáticas, ilustra e reflecte
a mecânica do enredo do livro.
“Herrumbrosas Lanzas” é o relato de uma ínfima e quase frívola campanha da Guerra de Espanha, desenrolada na periférica região de Region (inevitável redundância) quando as tropas e os militantes fiéis à República sediados em Region (a cidade homónima da região), lançam um assalto à franquista cidade de Macerta, através da montanha que separa os dois vales. A matéria romanesca de “Herrumbrosas Lanzas” são os planos, os preparativos, as intendências, as discussões processuais, as controvérsias bélicas e as conspirações e traições dessa campanha, havendo um bom par de batalhas expostas com a inquestionável ferocidade que nelas costuma manifestar-se. Ou seja, “Herrumbrosas Lanzas” captura o lado mais exposto da condição humana, normalmente evitado pela literatura coetânea, que prefere apascentar as personagens e as ficções pelas acostumadas vertentes da psicologia e do sentimentalismo.
Segundo Javier Marías “Herrumbrosas Lanzas” é o livro definitivo sobre a Guerra de Espanha. Desta vez é possível concordar com ele.

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Publicidade descarada

por José Navarro de Andrade, em 15.09.16

APOLOGIA DO JAZZ

É já no Sábado, das 10h às 13H
na Livraria Férin, à Rua Nova do Almada.

É para convencer quem acha que o jazz é para velhos e sempre a mesma coisa - arrisca?

É para quem gostava de gostar, mas ainda tem dúvidas em relação ao jazz. 

É para quem já gosta e quer saber um bocadinho mais. 

É para quem já gosta e sabe e quer passar uma manhã de jazz.

Ouvir a música e as histórias mirabolantes de Louis Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker, Miles Davis, John Coltrane e Wynton Marsalis.

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Blogue da Semana

por José Navarro de Andrade, em 04.09.16

Imagine-se com tempo e vontade, ou necessidade, ou curiosidade. Se quisesse demorava um dia a dar a volta ao mundo da informação sem gastar um cêntimo. Começava, por exemplo, pela New Yorker, passava ao Libé, ia pelo El País, espreitava a Folha de S. Paulo, descontraía no NPR, sabia sobre filmes na FilmComent, e com facildiade descobriria mais 18 publicações onde perder uma hora em cada até voltar ao princípio do dia.

Para desanuviar recomenda-se o Bored Panda, a única revista do mundo que edita criteriosamente assuntos de interessa para pandas. Como todos temos de panda um pouco, isto se calhar é connosco. Vendo bem, mais vale ficar por aqui.

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Ó Pátria sente-se a voz

por José Navarro de Andrade, em 03.07.16

Foi necessário chegar ao 9º penalty para resolver a 2ª Final Autêntica do Euro 2016 entre a Itália e a Alemanha. A 1ª Final Autêntica fora o Itália-Espanha em que o campeão europeu em título acabou derrotado pela Itália. Compreende-se porque tanto demoraram agora os fados a encontrar um vencedor: primeiro porque ninguém merecia ter perdido, mas, sobretudo, porque cada um dos marcadores de penalties tremeu ao ver que tinha pela frente o melhor guarda-redes do mundo, fosse ele Neuer ou Buffon. De modo que 4 rematadores italianos, contra 3 alemães, cederam à responsabilidade cósmica que lhes apertava o coração – como moribundos hão-de ter revisto a vida diante dos olhos nos segundos em que corriam para a bola …
No assim chamado “tempo regulamentar” a titanomaquia ficou filosoficamente indecisa entre o realismo de Maquiavel dos italianos e o determinismo de Schopenhauer que motivava os alemães. Sucedeu isto porque, durante o jogo, os 21 algoritmos de calções que evoluíram em campo mostraram-se incapazes de falhar, mesmo quando o cansaço lhes tolhia os movimentos, provando que o binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O 22º jogador foi Buffon, que se comportou com o panache a grandeza de um doge veneziano, fiel depositário do ceptro recebido de Pirlo (o melhor meio campista de sempre da história do futebol) que por sua vez o herdara de Maldini (o melhor defesa esquerdo da história do futebol).
Agora na meia-final, em boa verdade a 3ª Final Autêntica, os alemães enfrentarão das duas uma: ou os anfitriões franceses que têm revelado pouquíssima vontade de serem mansamente cornudos – em futebolês, como é óbvio – como o original Anfitrião de Molière, ou o prolongamento da saga nórdica lavrada em runas de fogo pelos vulcânicos islandeses.
De qualquer modo tudo isto são péssimas notícias para a Pátria, a nossa. Portugal tem que ganhar com veemência e larga margem a Gales. Se fizer mais um daqueles jogos sofridos, manhoso como um lavrador beirão, sonso como uma tia de Cascais e entregue aos azares de uma biqueirada cega, sem estatísticas que ratifiquem a vitória, chegaremos à final como a mais negra e ronhosas das ovelhas de que haverá memória em torneios futebolísticos e seremos execrados por milhões em todo o mundo a rezarem pelo nosso justo esmagamento. Da pele do “orgulhosamente sós” nunca nos conseguimos livrar por completo, é verdade, mas é escusado encasquilharmo-nos ainda mais nela.

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Fora de série (9)

por José Navarro de Andrade, em 23.05.16

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Foi no tempo em que os animais ainda não falavam, quando não eram sencientes nem semi-humanos, tal como nós, outrora, também fomos semi-deuses. Não falavam mas já cometiam proezas extraordinárias, como Skippy, o canguru, que conseguiu pôr as patitas no volante e impedir in extremis que um jipe se despistasse; ou Flipper, o golfinho, que apanhava malfeitores nas águas da Flórida bem antes de Miami Vice. “No one you see is smarter than he”, cantava o genérico, logo, sendo televisão, não podia ser mentira. Bem mais espertas estas alimárias que o Rin Tin Tin, limitado a ladrar quando lhe faziam uma pergunta e punha todo a gente a terminar o episódio a rir.

Nesses tempos, como se sabe, não havia sexo em Portugal, pelo menos para quem fosse filho único e ainda não frequentasse os últimos anos do liceu e concomitantes bailes de garagem. As miúdas eram uma miragem distante, uma inexistência tanto formal como prática. Até que em 1971, fizera eu 12 anos, passou na televisão a série “Os Pequenos Vagabundos”.

Portugal era uma estopada, porque na aldeia onde passava parte das férias grandes nunca consegui topar bandos de ladrões para desvendar e criminar como sucedia sistematicamente aos Cinco em Inglaterra e agora a estes miúdos belgas. Por isso, cada episódio de “Os Pequenos Vagabundos” só reforçava o meu cepticismo. Mas veio a cena final e a minha vida mudou. Marion, a loiríssima e intangível Marion, que havia enturmado com os rapazes sem que os pais a proibissem – uma inverosimilhança – convida Jean-Loup (um par de lambadas naquelas fuças andei eu a prometer-lhe durante toda a série, só com inveja dele) a ir visitá-la Montreal, e remata com os olhos em alvo: “c’ést feérique…” Uma frase, apenas uma, e a testosterona referveu em ebulição dentro de mim como nunca dantes a sentira, e foram noites intermináveis e seguidas a masturbar-me debaixo dos lençóis derramando, de certeza, o equivalente à população da China. Nenhuma Marion me falou assim e ainda hoje não encontrei em filme ou série cena tão mal interpretada e tão devastadora como aquela. Também é verdade que só se sofre os 12 anos uma vez na vida.

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Blogue da Semana

por José Navarro de Andrade, em 14.05.16

Poucas coisas haverá mais desanimadoras do que ser burlado num restaurante, pagando uma conta calada por uma má refeição. Tal como comprar livros e música, jantar fora é um investimento que requer recomendações seguras. Dantes, quando os jornais tinham algum amor-próprio e por isso eram lidos, havia o David Lopes Ramos e o José Nogueira Gil, cujos conselhos restaurativos podiam ser seguidos às cegas - eram independentes e verazes. Hoje o desamparo é grande, há publicistas não há críticos; quem escreve sobre a matéria debita opiniões mal cozidas com molhanga de adjectivos, não demonstrando um mínimo de cultura gastronómica expressa substantivamente.

A causa desta impostura é evidente: os ditos críticos passaram-se para o lado dos fornecedores e abandonaram o cliente/utente/consumidor (escolha-se o estatuto conforme a ideologia). Tal sucede, nuns casos, porque também eles ambicionam participar no negócio, organizando festivais e eventos, para os quais pedem a comparência dos chefs. Outros apreciam por demais os jantarinhos promocionais à borla que esses chefs legitimamente organizam, para o incremento e defesa do seu negócio que, todos sabemos, é arriscado, precário e assaz trabalhoso. Por fim isto cria – bem à portuguesa – um clima corporativo, uma cultura bacteriana, em que o sentido de pertença é condição sine qua non: quem não alinha na manada é posto fora do circuito e fica sem tema nem emprego.

Um blog, porém, tem capacidade para ser diferente. É o recente Assins & Assados de Paulina da Mata. A autora dedica-se ao estudo científico e molecular da culinária (espero estar a descrever a sua actividade com pertinência), de modo que não só tem autonomia económica para dizer o que lhe apetece, como demonstra saber o que diz. Ao que se pode acrescentar uma abertura de espírito, um gosto e uma curiosidade que lhe permite tanto ir à procura da melhor lampreia numa tasca à beira Tejo, como sentar-se à mesa do The Fat Duck. Denota algumas insuficiências estilísticas na escrita e não resiste a tecer rasgados elogios a quem lhe oferece jantares, mas para isto há remédio: é nunca pôr os pés em casa que execute tais operações de marketing.

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Sageza

por José Navarro de Andrade, em 05.05.16

Agora que todos têm acesso à informação em qualquer lugar e momento, fica claro o que parece cada vez mais obscuro: a novidade é a crisálida da velharia. Só conta verdadeiramente o que é antigo.

Já está tudo dito? Ainda, bem, assim teremos o prazer redobrado de ouvir outra vez.

Kenny Barron e Bill Charlap não têm nada de novo para dizer. Apresentam-se no mais convencional trio de piano a interpretar standards, ou originais tão mainstream que parecem standards. Ascenderam ao estado supremo da sabedoria que a maturidade a experiência trazem a quem já ouviu tudo, tocou tudo e por isso ganhou um espírito aberto.

A música de Kenny Barron e Bill Charlap não é Ferrari (como o de Miles), é Rolls Royce; não é champagne, é um Porto Vintage; não é Zara é Savile Row.

Puro júbilo.

(E que belíssimas capas tem esta renascida Impulse!)

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Cinemanias

por José Navarro de Andrade, em 21.04.16

O autorismo em cinema é conceito tão operacional e contemporâneo como a tecnologia usada para levar o homem à Lua. E, no entanto, persiste, como as pulgas no pêlo do cão. Agora deu-lhes - hossanas nos céus! - para esgravatar a boçalidade esteroidal de Verhoeven à cata de um "auteur" Força rapazes que ainda haveis de descobrir "diferância" em Harlan e rizomas em Pudovkin.

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Floretes & floreados

por José Navarro de Andrade, em 07.04.16

O mais desanimador é que não se imagina, sem schadenfreude, nenhum deles em postura ameaçadora, de sabre em riste, ou a vibrar a ponta do florete a provocar o adversário. À lambada é um bocado faia, não? Mas, pronto, o fado também já é cultura.

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O profe de português do 1ºCC, turma G

por José Navarro de Andrade, em 28.01.16

À beira da reforma, o professor de português passava as aulas a olhar pela janela com supino enfado, enquanto tentávamos desbravar o texto que nos dera a ler – em silêncio! - durante a aula. Dúvidas? No fim. E no fim a campaínha apanhava-o já à porta da sala, prestes a desaparecer por entre os plátanos do pátio sul do Camões. Nesse ano de 75 as classes passaram a ser mistas e, entre outras novidades igualmente truculentas, o ar andava denso de hormonas. De tal modo a paciência de Vergílio Ferreira se havia esgotado que nem para se mostrar descontente tinha disposição. Era uma sombra de meio-dia que só desejava não ser importunada pelos estados de alma da época. Valia-nos que não se armava em pedagogo, nem concedia que o admirassem, pelo que também lhe fazíamos o favor de não lhe ligar. Anos depois, ao ler a “Conta Corrente” pareceu-me detectar uma referência à nossa azougada turma, numa frase suspirada como um encolher de ombros, mas sem pez pejorativo. Na verdade, a distância que Vergílio Ferreira nos impunha seria igual àquela que manteríamos em face de uma figura que sentíamos como imponente. Alguns de nós até havíamos lido os seus romances.

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O declínio da imprensa

por José Navarro de Andrade, em 31.12.15

Mesmo no fim do ano aparece um artigo solitariamente lúcido sobe a crise da imprensa. De quem havia de ser senão de João Carlos Barradas?

Clique-se à vontade porque vale a pena, mas para ler há que pagar. Se fosse à borla o artigo não existia - uma lógica simples, não?

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2015, o jazz

por José Navarro de Andrade, em 26.12.15

Como de costume, ver as listas de “os melhores do ano” compostas por outrem é motivo de decepção. Sem dúvida que “outrem” dirá o mesmo desta, pois mil e uma cabeças ditarão mil e uma escolhas diferentes, boa parte delas conflituosas entre si, o que poderá atestar que, afinal, o jazz não está tão morto como isso. Também é certo que um género musical com necessidade constante de fazer prova de vida, não pinta demasiada saúde. Por isso cá vai uma lista minha, muito minha, que aceita com prazer a acusação de convencional, porque jazz é escola e escola é tradição, nem que seja para contraria-la.

 

 Vijay Iyer, “Break Stuff”

Apesar de ter sido capturado pela petulante ECM, que desde há décadas tem vindo a agasalhar o jazz numa frigidez setentrional, Vijay Iyer não se deixou vencer pelo cerebralismo. Houve quem ouvisse esvoaçarem nesta música as fórmulas matemáticas do espectralismo de Steve Lehman, mas “-ismos” aparte, Iyer densifica ritmos com a mão esquerda, ora estranhos ora compulsivos, e, à mão direita, vai desenhando ideias melódicas, algumas encantatórias outras dançantes. Uma surpresa ao virar de cada esquina.

 

Maria Schneider, “The Thompson Fields”

A música de Maria Schneider nunca toca no chão, desliza no ar, empurrada de um lado para o outro pela requintadíssima orquestração. Um francês evocaria a “tessitura”, outros mais simples diriam que a compositora, mas sobretudo a orquestradora, tem o secreto condão de transformar a música em paisagem. É como se estivéssemos lá, nas desmesuradas pradarias do norte, onde o céu se dissolve no horizonte. Em termos domésticos experimentem ouvir o disco no Alentejo – que pancada!

 

José James, “Yesterday I Had the Blues, The Music of Billie Holiday"

A proposta mais insensata que poderia passar pela cabeça de alguém: recriar com voz masculina o canto de Billie Holiday, no ano do seu centenário. Oportunismo e contrafacção – nos ídolos não se toca – seria o mínimo que se lhe poderia invectivar. Pois meta-se a viola no saco. Que o Zé tenha voz de algodão e crocante só lhe dá um certo mérito, pois se até na pobre da pop actual há cordas vocais formadas em conservatórios. O ponto mesmo é a calibragem certíssima entre dramatismo e contenção, capaz de lançar toda uma nova luz no repertório de Lady Day.

 

Rudresh Mahanthappa, “Bird Calls”

Aplicar a sintaxe e o vocabulário da música cárnatica à velocidade balística de Charlie Parker, endossar a coisa com o poder de impacte que tem sido o seu timbre, eis a promessa e o conseguimento (estás a ver Sãozita como de alguma coisa serviu a tua verve estrambólica) de Rudresh Mahantappa. Bem podem deitar as cartas que não se encontrará, nos dias de hoje, melhor e mais pujante saxofonista alto.

 

Ryan Truesdell, "Lines of Colour (The Gil Evans Project: Live at Jazz Standard)"

Reviver um orquestrador é empresa bem mais árdua do que reinterpretar ou recriar composições. Sendo Gil Evans o evocado, que para nossa felicidade nos legou tantos e tão diversos diamantes lapidados, de brilho capaz de ofuscar os imprevidentes – vamos lá ouvir em que se meteu este Truesdall. O disco foi gravado ao vivo: não se excitem com a ideia de risco e ausência de margem para o erro, esta gente sabe o que faz. Ao vivo quer dizer caloroso e corroborado pelo entusiasmo do público, assim saibam os músicos suscitá-lo. Souberam. Soube também Truesdell ser fiel sem subserviência, swingar sem nostalgia, quando foi preciso, reinventar o cool sem Califórnia. Uma hora muito bem passada.

 

Se me pedissem, eu até alinharia mais escolhas, mas assim já têm trabalho de casa quanto baste. Falta ainda o orgulho nacional. Não há “melhor do ano” sem haver o melhor da Clean Feed: “Epicenter” de Cris Lightcap, cintado por uma formação que é a fina-flor de um jazz despreocupado com parentescos.

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Quando a música parar

por José Navarro de Andrade, em 24.10.15

Estamos cada vez mais próximos da década de 30 do século passado.

A democracia liberal, ou "burguesa" como à época era desdenhosamente apodada, estava nas lonas e contra ela experimentavam-se modelos de estado positivistas, anti-plutocráticos e igualitários, desconfiadíssimos do capital, que em nome do povo ou da pátria – entidades ontológicas e essenciais – repugnavam os mecanismos da democracia representativa. Eram, em suma, estados socialistas, fossem em versão bolchevique ou nacionalista, e receberam o entusiástico aplauso de não poucos grandes espíritos, de Aragon a Céline ou de Hemingway a Ezra Pound.

O que presenciamos hoje, na parte do mundo em que as democracias liberais são mais sólidas e antigas, é o crescimento de uma oposição radical a elas, que se vai metamorfoseando consoante o território em que aparecem. De Tsipras a Donald Trump, passando pelo “caso Orban”, por Le Pen, por Corbyn, pelo Podemos espanhol, pelo Kokoomus finlandês, pelo FPO austríaco, pelo PVV holandês, e mais uma miríade de organizações por essa Europa fora, o que se nos depara é uma nítida clivagem entre quem está por “isto” ou contra “isto”.

Dividir binariamente o espectro político entre quem defende os valores e as instituições vigentes da democracia liberal e quem os pretende reformular radicalmente – para eufemisticamente não dizer “derrubar” – parece mais operativo e clarificador do que recorrer à vetusta antinomia entre “esquerda” e “direita”, cada vez mais inócua quanto maior for a classe média. (Bem se sabe que quem recusa a dialéctica esquerda-direita é logo denunciado pela esquerda como sendo de direita, de modo que, antes do mais, existe uma incompatibilidade ideológica sem grande entendimento à vista.)

Em face dos resultados eleitorais de 4 de Outubro levantou-se a contumaz algaraviada de comentadores e opinadores, que são gente que diz tudo o que pensa e pensa pouco no que diz, motivada pelo facto de não ser responsável por qualquer decisão. Das aritméticas possíveis para interpretar tais resultados do 4 de Outubro, e muitas e desvairadas foram utilizadas até agora, a do Presidente da República, tal como foi expressa no seu discurso do dia 22, afigurar-se-á como a mais sensata e menos paroquial. (Refira-se, muito a seu favor, que em boa medida alinha com o teor genérico os escritos de Vasco Pulido Valente o qual, por ser clamorosamente céptico, costuma ter razão muitas vezes.)

É na verdade muito estranho querer introduzir na governação “disto” quem está contra “isto”, sobretudo se acumuladamente não atingiu sequer os 20% dos votos, nem assenta em mais do que 36 lugares no Parlamento. Que a democracia liberal seja assaz ampla e eclética para acomodar a sua própria refutação política é uma bonita coisa, que permita aos seus inimigos alcançarem o poder pelas vias que põe ao seu dispor será, ainda, simpático, mas já parece um pouco autofágico que dê mando aos que “defendem a revogação do Tratado de Lisboa, do Tratado Orçamental, da União Bancária e do Pacto de Estabilidade e Crescimento, assim como o desmantelamento da União Económica e Monetária e a saída de Portugal do Euro, para além da dissolução da NATO”, que segundo as últimas verificações são basilares a “isto”.

Como é costume em Portugal, pelo menos desde as invasões napoleónicas, tudo se resolverá de fora para dentro. No regresso da primeira romaria a Bruxelas a pedinchar financiamento para o almoço que desde há anos temos comido sem dinheiro para o pagar, a putativa coligação PS-BE-PCP ou vira “isto” de barriga para o ar, e então vai ser um ver-se-te-avias, ou verá esfumado o capital de esperança que os seus apoiantes puseram nela e fica tresloucada como os balões quando perdem ar de repente.

Entretanto só faltam 4 anos para o octogésimo aniversário de 1939.

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Ainda em tempo

por José Navarro de Andrade, em 06.07.15

Dados os recentes acontecimentos, ou "evoluções", como dramatizam os observadores, não consigo deixar de recordar esta fulminante, premonitória e já clássica, "Natureza Morta" de Sam Taylor Wood, em exposição na Tate Modern.

 

 

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Obras de Santa Engrácia

por José Navarro de Andrade, em 03.07.15

Então não vai uma petiçãozita para retirar Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro e Sophia de Mello Breyner e Andresen do Panteão? Ficava muito mais compostinho e homogéneo, além de que verdadeiramente representativo da ideia que se quer legar da Nação.

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A queda dos graves

por José Navarro de Andrade, em 19.06.15

Um inglês é convidado para uma festa. Apresentando-se de smoking constata que os convivas estão todos à volta da piscina em fato de banho. Murmura com os seus botões: "By jove! - se calhar ainda há ingleses que falam assim... - enganei-me no dress code." 

Um português é convidado para uma festa. Lá vai ele de smoking todo nos trinques, mas ao chegar dá com uma farra na piscina, tudo em fato de banho. "Olha-me para estes gajos - exclama ele, alto e bom som - isto é maneira de se vestirem para uma festa?"

Outro exemplo desta genuína filosofia lusitana. Sai uma sondagem com números surpreendentes ou desagradáveis. De pronto palpitam duas reacções:

a) Isto é um povo de alienados (substituir por cretinos ou bestas, conforme o grau de acinte) que ainda não percebeu nada. Ilustre-se com citações de Guerra Junqueiro (demodée) ou Jorge de Sena (erudito).

b) Os números foram martelados. Insira-se este argumento em teorias da conspiração mais vastas, as melhores, quer dizer, as mais rebuscadas e complexas, irão ter à Casa Branca, ou a qualquer outra instituição americana (Pentágono, CIA, etc...) 

Retire-se o seguinte preceito: terás sempre um agucadíssimo sentido crítico, desde que ele não ponha em causa o teu sentido crítico.

 

 

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Às primeiras horas da madrugada de hoje

por José Navarro de Andrade, em 25.04.15

Ontem, ao soar da meia-noite, estralejaram foguetes em vez de badaladas, e no Largo de Santos, ruiu uma bátega que só vista. Abrigados debaixo de um beiral, oito cinquentões ergueram os cravos que traziam e soltaram-se a cantar a Grândola. Nesse instante passou por eles um grupo de miúdos demasiado jovens – não haviam de ter mais de 14 anos – de cerveja na mão e os cotas saudaram-nos com um “viva o 25 de Abril!”. Retorquiram os garotos com um esgar inibido: ter-se-ão assustado com a interpelação? Terão ficado embaraços com a figura que estavam a fazer aqueles maduros? Ter-lhes-á parecido paleolítica ou despropositada a manifestação de jovialidade?

Eu era um dos oito veteranos. Estava radiante por me encontrar vivo, porque ao fim de meio século aprende-se a não ser invulnerável; alegre por ainda estarmos ali juntos, camaradas de faculdade desde lá do fundo dos décadas; contente por poder continuar a festejar o 25 de Abril. Bem sei que é uma felicidade melancólica, aquela que se tem por aquilo que não se perdeu. Mas o que mais me tranquilizou no festejo foi a atitude dos adolescentes; para eles, que nasceram muito depois, a data é tão longínqua como o 5 de Outubro ou como o 28 de Maio eram para mim – pura História.

Confesso, por isso, algum desconforto perante o cerimonioso afã institucional, a enfatuada seriedade, ou, nos piores casos, a senatorial altivez etária (“vocês não sabem como era dantes”) nas comemorações oficiais do 25 Abril. Ainda mais entristece a versão ressentida e fracassada de um suposto 25 de Abril que não aconteceu, que transforma a data num repositório arbitrário de todos os sonhos não realizados, o 25 de Abril do que poderia ter sido, como se em vez de uma conquista – a bem dizer de uma dádiva de uns moços de 30 e poucos anos, com a pele endurecida por duas comissões de guerra – o 25 de Abril tivesse sido um malogro.

Bem andaram os miúdos de sexta à noite dos bares de Santos: a maior vitória do 25 de Abril é não ser preciso celebrá-lo – a que melhor pode aspirar a democracia senão a ser uma evidência?

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belensíadas

por José Navarro de Andrade, em 10.04.15

E assim a comédia descamba no grotesco.

Como já toda a gente reparou, este circo das presidenciais e dos putativos candidatos não passa de pura histeria mediática.

Tal como os maridos de Sábado de Vinícius, as instituições estão “funcionando regularmente” e o maioral da oposição bem tem feito em andar calado como um totem, porque a vida, a vidinha, a viducha (à semelhança, afinal, da gestão, do direito, da política e, até, dos matrimónios) é feita de minudências e não de causas, das ventosas ou das fracturantes, aspecto “syrisamente” comprovado. Quer dizer que, por aqui, no passa nada

Fora esta bagatela de somenos que é a governação, todos os partidos, que são quem marca o passo da charanga, andam preocupados, quiçá ocupados – é a “agenda”, estúpido… – com um pormenorzito talvez não despiciendo: as eleições legislativas de Outono de 2015. Antes disso façam o favor de não os importunar com outros assuntos.

Ora esta normalidade causa grande transtorno à corporação dos comentadores. O seu múnus especulativo é como andar de bicicleta: se pára, cai.

Daí que os papagaios televisivos, sobretudo o jongleur que palra, significativamente, antes da Casa dos Segredos, ou essoutro adolescente tardio, que tropeça em todas as esquinas políticas, tenham dado ao badalo em toque de rebate e, acto contínuo, todo o cortejo de palhaços pobres lá seguiu atrás deles, aos pinchos e aos pinotes.

Devidamente estimulada, a comunicação social nunca prescinde de patentear os seus genes de lémure, correndo em magote e com grande desenvoltura para o abismo. O qual, por definição, é o vazio.

Estamos, portanto, naquela fase genericamente caracterizada pela expressão: “ó patego, olhó balão!” Por favor acordem-me só quando estiver para começar. Obrigado.

 

presidenciável, sem dúvida

 

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A grandeza está nas pequenas coisas

por José Navarro de Andrade, em 29.03.15

No passado dia 2 de Dezembro a Fundação Francisco Manuel dos Santos lançou o meu livrinho "Terra Firme", uma reportagem com laivos de ensaio, ou vice-versa, sobre uma herdade alentejana. À medida que me iam anunciando o programa comecei a sentir-me um pouco fora de pé: o belíssimo cenário mourisco da Casa do Alentejo? um rancho de cante a abrir a sessão? Um beberete final com vinhos e petiscos da planície? Não seria demais para uma obra de amador? A dimensão da coisa ganhou foros de susto quando mencionaram a magna figura convidada para comentar o livro - e que tinha aceite... Vai ser bom para a minha vaidade, pensei, prestigiar-me com a sua presença nesta cerimónia, decerto protocolar. Pois sim... Em vez das triviais generalidades simpáticas do costume, o cavalheiro, que não me conhecia de lado nenhum e a quem eu fora apresentado à entrada, sacou de um exemplar de "Terra Firme" ouriçado de Post-Its e durante uma hora analisou e dissertou em pormenor, com uma acuidade fulminante e uma desvelada gentileza.

Disseram-me depois que Sevinate Pinto era sempre assim.

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HH

por José Navarro de Andrade, em 24.03.15

Começou a contagem decrescente até que alguém se lembre da última atrocidade: enfiar Herberto Helder no Panteão. Entretanto, ó ironia do destino, os poemas que ele deliberadamente tanto resguardava, vão atulhar as "redes sociais", com muito sentimento in memoriam, porque cada um crê que o meu Herberto é mais Hélder que o teu Herberto.

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Blogue da semana

por José Navarro de Andrade, em 01.03.15

Dois blogs de arte diametralmente opostos, ou seja, muito complementares, se quisermos.

Um é de Ana Vidigal, um caderno de apontamentos, um work in progress - as "pequenas coisas" de uma grande pintora.

Outro é trendy, efervescente, divertido e ecléctico - está no centro do mundo.

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Resumo da semana

por José Navarro de Andrade, em 27.02.15

Quando a casa começa a arder, vai tudo à procura do culpado. E quem procura culpados acaba sempre por encontrá-los.

Do mesmo modo, quem procura a verdade já sabe de que verdade anda à procura. Assim, mesmo que lhe passem diante dos olhos outras verdades, muito transparentes apesar das evasivas, não as consegue ver, porque não são as verdades ou os culpados que procura.

E no fim toda a gente diz que já percebeu, precisamente porque não percebeu nada.

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Um homem insignificante

por José Navarro de Andrade, em 23.02.15

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O Eng. Ilídio Monteiro foi muita coisa importante na vida, que mereceu devida menção na sua morte. Por mim vale por ter sido pequeno. Sempre que a banda do A.D.R. "O Paraíso" precisava de um instrumento novo, lá ia de bota cardada por aqueles vinhedos fora, fazer uma serenata à porta da sua casa de Vale Fornos, quando sabia que ele lá estava. O homem ouvia a charanga - que por acaso toca com muita afinação - e no fim passava o cheque com um "obrigado". Uma insignificância nunca negada que só favoreceu uma aldeola.

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O progresso

por José Navarro de Andrade, em 23.02.15

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Este folheto do Radio Shack, retalhista de electrónicas nos EUA, data de 1990. Hoje todos estes aparelhos e gadgets estão condensados dentro de um telemóvel.

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A questão do amor ou o amor em questão

por José Navarro de Andrade, em 15.02.15

Fica então resolvida de vez uma questão que tem afligido a humanidade, o sector euro-caucasiano dela e seus influenciados, pelo menos.

No dia 9 de Janeiro deste ano a escritora e investigadora Mandy Len Catron publicou no NY times o ensaio “To Fall in Love, With Anyone, Do This”, que num piscar de olhos disparou para os oito milhões de visitas, assim provando que correspondia a uma necessidade premente das populações leitoras daquele diário. Não se tratava de uma frivolidade, pois a peça estribava-se num estudo cientificamente académico (ou vice-versa) - cuja inapelável seriedade inscreve-se logo no título: “The Experimental Generation of Interpersonal Closeness: A Procedure and Some Preliminary Findings” - publicado pelo Professor Arthur Aron e sua equipa (de passagem demonstrando que hoje em dia só se pode alegar uma ideia com a caução de um estudo e que há estudos para caucionar tudo). De seguida, num gesto de generosidade e fidúcia, o jornal oferece à puridade uma app que permite a qualquer par de indivíduos apaixonar-se ao fim de 36 perguntas e quatro minutos de jogo do sisudo.

Embora o instinto de defesa nos leve a iludir o facto, todos sabemos que as noções de “amor” e “felicidade”, tal como apaixonadamente as diligenciamos e vivenciamos no nosso dia-a-dia, foram inventadas no séc. XVIII, por poetas que as implantaram na Idade Média (época que eles fantasiaram com inigualável arte), prosseguindo hoje o debate para determinar em que proporção as devemos a Rousseau, a Goethe ou a Byron. Há mais de 200 anos, portanto, ou só há 200 anos…, que andamos com os humores cerebrais atribulados por esta idealização romântica, a qual não deve ser confundida com o amor bíblico de Deus pel@s human@s, embora canonicamente um bocadinho mais por eles do que por elas, ou o amor instintivo e biológico de mãe pelas crias.

Uma das crises mais perturbantes da vida moderna é assistir ao espectáculo de pessoas apoquentadíssimas com os seus sentimentos, prolongando melancolicamente pela vida adulta os avatares da adolescência, fase em que as hormonas e as utopias desarranjam o entendimento. Esta situação é tão comum e preocupante que pelo menos três indústrias (a literária, a musical e a cinematográfica, em suma: toda a cultura) se têm dedicado com persistência e argúcia dissecá-la. Em Portugal apenas a Sra. D. Margarida Rebelo Pinto porfia nesta matéria, com tão pouco sucesso e muito menos resultados financeiros do que os seus congéneres mundiais.

Pois é tudo isto – quase 3 séculos de apaixonado labor, caramba! – que o NY Times e Mandy Len Carter desmobilizam numa penada.

Assim sendo, façamos todos o teste e arrumemos o assunto. Uma coisa é certa: sairá mais barato do que o bilhete para o filme “Anatomia de Grey” que já de si é mais económico que um conjunto de lingerie da Victoria’s Secret.

 

PS – Espero que no dia dos namorados o leitor tenha comprado no comércio local produtos vegetarianos e orgânicos – vê como é simples adquirir um estado de beatitude moral?

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E depois há aquele provérbio chinês

por José Navarro de Andrade, em 29.01.15

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Quanto mais me matas, mais me rio de ti

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Wolinski sale con, esta nem de encomenda...

Educado numa dieta de Tintin e Pilote, quando nos fervores de 74 me caiu nas mãos o voluminho “Ils ne pensent qu’à ça” de Wolinski, recuámos horrorizados, eu e o meu puritanismo revolucionário de então. Um tarado que se dizia de esquerda, como toda a gente à época, publicava (e logo na esmerada In Folio da Gallimard) um punhado de cartoons verdadeiramente ordinários e meramente provocatórios, abusadores da “liberdade burguesa” mas sem uma “perspectiva” (como se dizia) de libertação, vinhetas machistas, onanistas e solipsistas, repletas de mulheres-objecto e homens falocratas.

Mais tarde dei conta dos antecedentes desta pouca vergonha: o efémero pasquim “L’Enragé”, nascido nos contra-tudos do Maio de 68 de parceria com outros delinquentes da estirpe de Siné, Cabu, Topor e Williem. Um radicalismo quase niilista, à margem de qualquer disciplina, com o fito exclusivo de irritar o burguês francês (e, mon Dieu, nunca houve burguês como o francês), ou seja, sem apontar “alternativas”, “atitude indispensável” para uma “política consequente e transformadora” – estão a ver pelas aspas no que deu hoje a esquerda de antanho?

Pois este Wolinski nunca desde então moveu uma palha para cá dos limites da ordinarice, dos ataques pessoais, da piada porca, do insulto rasca, ou seja dos indefinidos confins da liberdade de expressão.

Morrer desta maneira aos 80 anos foi o melhor que lhe poderia ter acontecido. Abençoados terroristas que transformaram Wolinski no produto supremo da nossa civilização, a única – sim é etnocentrismo – capaz de aceitar com simples um c’est la vie a obra deste genial bandalho.

Wolinski, a partir de hoje serás o meu herói e quando me vierem falar de liberdade, terei um argumento atómico: "permitirias um Wolinski?" Menos que isto não interessa.

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Viva a liberdade.

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Liberdade é aceitar a expressão daquilo que não se gosta. É defender e não tolerar (que tresanda a condescendente) a sua existência, é repudiar mas não querer proibir, é não dizer "pôs-se a jeito" ao que achamos reprovável.

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Nunca gostei do escabroso, inconsequente, insultuoso "Charlie Hebdo".

Viva o detestável "Charlie Hebdo"!

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Coisas que valeu a pena ouvir em 2014

por José Navarro de Andrade, em 07.01.15

Só oiço jazz, género que me deixa musicalmente saciado. De vez em quando, se bem orientado, faço tímidas incursões no espesso território da música dita clássica ou oiço na rádio uma canção a que não fico indiferente. Afirmar de modo tão taxativo este meu gosto pelo jazz não me faz especialmente refinado, assim como alguém que radiantemente despeite o jazz não se torna mais irónico. Convém, portanto, não contribuir para essa deplorável forma de arrogância que presume o seu gosto pessoal como mais interessante e inteligente que o de outrem.

Para o leigo ou desinteressado, o jazz é monótono; uma infindável repetição de acordes digressivos em cima de uma base harmónica por vezes insólita, outras vezes modesta. Por ter prescindido da palavra, também parecerá inexpressivo e melodicamente rudimentar. No entanto, esta pequena ilha musical habitada por aficionados grisalhos é um pouco como o nó da gravata: há bastante tempo que não está na moda, mas há muita gente que o faz todos os dias.

Em 2014, tal como noutros anos, produziram-se no jazz gravações de gabarito, mesmo que ninguém esteja em condições de assegurar que daqui a 10 anos ainda sejam recordadas. Tal imprecisão reflete-se nas escolhas dos melhores trabalhos do ano. Rever as diversas e prolíficas listas enunciadas pelos patriarcas da crítica por esse mundo fora, resulta na constatação de que não existem duas selecções iguais, todas fascinantes e nenhuma despropositada. Esta que abaixo se compõe será, assim, mais uma entre tantas, maculada (afinal como as outras…) por um gosto pessoal e por um inapelável alinhamento com o pós-modernismo marsaliano dos anos 80 a que os prosélitos do vanguardismo chamarão de conservador (se não percebeu o significado da frase anterior não se preocupe, é apenas uma private joke jazzística).

(Salvo se o leitor for psicanalista, considere-se a ordem aleatória):

“Road shows, volume 3” de Sonny Rollins, provando que os deuses ainda falam connosco.

“Magic 201”, em que Frank Wess demonstra qualidades equivalentes às do vinho do Porto.

“The art os conversation”, um diálogo que dura há 30 anos entre o pianista Kenny Barron e o contrabaixista Dave Holland – finalmente sós…

“Trip” em que o idiossincrático Tom Harrell (clinicamente esquizofrénico, Harrell só encontra paz mental na música) vai de viagem com o tenor Mark Turner para um lugar que só eles sabem.

“The Imagined savior is far easier to paint” o terceiro passo do trompetista Ambrose Akinmusire confirma-o com o “ai jesus” do actual momento do jazz. Que ele debique noutros géneros musicais (como fez Jason Moran em “All rise”) é caso para se ficar atento ao destino destas direcções.

“Habitat” de Christien Jensen Orchestra. Longe vão os tempos das grandes orquestras de jazz, não há dinheiro para tais aventuras. E no entanto Christine Jensen logrou juntar um ensemble de 20 elementos, prescindiu do clássico swing e obteve uma inigualável textura lírica.

“Quiet Pride: The Elizabeth Catlett Project” de Rufus Reid. Transfigurar esculturas (de Elizabeth Catlett) em música é a conseguida ambição desta obra. Mas o melhor é ouvir como um contrabaixista que sempre foi complementar (o que no jazz não é defeito, apenas modéstia), atinge semelhante grau de requinte e primor aos 70 anos.

“Landmarks” de Brian Blade. Ao terceiro compasso já se sabe de olhos fechados que se está a ouvir Brian Blade. O jazz mais melódico e sentimental dos dias de hoje. Um pouco de doçura só faz mal a diabéticos.

“Mise en Abîme” de Steve Lehman e o seu octeto. Jazz de fusão, mas não dessa dos anos 70. Fusão entre as técnicas de composição espectralistas (faça o favor de ir ver à wiki, porque agora não há tempo para explicar) e electroacústicas, com as harmonias do jazz. Primeiro estranha-se e depois torna-se a estranhar antes que se entranhe. Talvez demasiado cerebral, mas nunca desinteressante.

“The great lakes suite” de Wadada Leo Smith. O freejazz já tem meio século mas ainda julga que é novo. Poucos dos seus mestres resistiram à repetição ad nauseam das dissonâncias e da des-construção, ou seja, ao seu próprio academismo. Como todos os cardeais, Wadada Leo Smith às vezes tem pensamentos heréticos, mesmo que não cheguem para renegar de todo a fé no free – este foi um deles. Quem não for aficionado aproxime-se com cautela.

“Fuzzy logic” de Taylor Haskins. Nem o trompetista é muito conhecido, nem o disco deu muito que falar, mas foi das coisas que me deram mais prazer ouvir em 2014.

Se me perguntarem daqui a meia hora, fornecerei uma lista de certeza diferente, pois não é verdade é que há mais jazz do que orelhas para ouvi-lo todo? Haveria de sair deste mundilho porquê?

(11? Sim, porque haviam de ser 10, ou 12? Ide agora por essa net fora à procura deles.)

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O que valeu a pena ver em 2014 - 3/3

por José Navarro de Andrade, em 31.12.14

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Ida antes de ouvir John Coltrane

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 Ida ouvindo John Coltrane

 

Polónia, anos 60, catolicismo (a protagonista é freira), culpa (a tia da protagonista, ex-juíza, condenou inimigos do estado à morte nas purgas vermelhas de 50) e John Coltrane. Se não fosse o último item tudo em “Ida” seria demasiado óbvio à partida, mesmo que à chegada acabássemos por sentir a espada fria do desalento – haverá verões na Polónia? – que corta todo o filme. Planos longos e muito quedos (e tensos), enquadramentos esvaziados de quinquilharia cenográfica e ritmo pouco atribulado, não são meras marcas de estilo – do estilo que se espera das cinematografias outrora “do leste”, hoje da “europa central” – mas uma necessidade dramática. Não havia outra maneira de mostrar nem de transmitir isto. “Isto”, posto em filme contemporâneo, é um formidável ajuste de contas da Polónia com o seu presente, fingindo que se mostra o passado. O tema “Naima” de John Coltrane (“Giant steps”- 1959), posto aqui e posto assim, é o rasgão de luz efémera que por momentos cintila em “Ida”, capaz de alinhar todas as peças no seu lugar e virar o tabuleiro ao contrário – um golpe de génio, tão comedido como a narrativa do filme. Noutras cinematografias prefere-se a auto-punição ou o género sempre-em-festa, ambas formas de não olhar, nem sequer para o umbigo. Chama-se Pawel Pawlikoswski o autor desta pérola.

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Estreou-se neste ano de 2014 mais um troço da extensíssima perquirição de Frederick Wiseman (84 anos de idade) às instituições públicas contemporâneas, que já tem 43 peças. Por junto Wiseman oferece-nos a mais formidável memória futura da nossa civilização – se um dia ela desaparecesse, bastariam os seus filmes para entendê-la. Desta vez escalpela a National Gallery de Londres de maneira mais breve que o habitual, só durante 180 minutos. Se o tivesse visto seria decerto um dos filmes do ano.

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O que valeu a pena ver em 2014 - 2/3

por José Navarro de Andrade, em 30.12.14

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O Washington, o Jefferson e o Franklin da revolução televisiva

 

É possível que o actual apogeu da ficção televisiva constitua o preâmbulo da inexorável falência da indústria audiovisual tal como ela hoje opera, ou seja, segundo o modelo de negócio vigente. Para onde se vai ninguém sabe, onde se está só alguns entendem, aqueles que tomam decisões, quase todas em função de dilemas instantes. Olhando na direcção certa não é difícil verificar que constelação de influências deu azo a que hoje, na(lguma) televisão, se possam ver as mais inquietantes, refinadas e sagazes narrativas, com génio e têmpera de meter o cinema no sapato. Averiguando as audiências televisivas dos EUA (porque as respostas hão-de ser avistadas no terreiro dos mercados, lugar onde estas coisas se tramam, e não nas nuvens institucionais, no seu melhor limitadas a diagnosticar resultados), constata-se que os canais de cabo pago (HBO, Showtime, etc.) lograram uma massa crítica de assinantes que lhes propiciou orçamentos de produção ao nível das estações generalistas. Estribados nesta fartura, irreproduzível noutros territórios, nomeadamente europeus, demandaram à conquista dos segmentos de audiência mais sofisticados, por hábito resilientes à televisão e à sua corrente oferta ficcional. Significa isto que uma sequência de séries impossíveis em canal aberto, como “Sopranos”, “Dexter” Californication”, “The wire” “Generation Kill”, “Six feet under”, “Big love”, “True blood”, “Deadwood”, “Weeds”, “Boardwalk empire” e “Breaking bad”, teve o poder e a virtude de recolher ao redil da televisão espectadores desavindos, que nelas surpreenderam um desafogo de inteligência, irreverência e originalidade, assim alargando a base de clientes de tão selectos canais. Estamos elucidados quanto à “criação de novos públicos”, um mantra muito recitado e pouco acertado – it’s economics, stupid...

Ainda não houve neste século, nem na literatura nem no cinema, personagem com a dimensão comparável à de Walter White (o definitivo Bryan Cranston) de “Breaking Bad” (“Ruptura total”) quer lhe peguemos pela tragédia quer pela farsa. Com a temeridade própria dos desesperados, Walter White arrasta o seu cancro terminal ao longo de 62 horas, perverte toda a ordem estabelecida, seja a familiar, seja a legal, seja a criminal (porque no crime há uma ordem muito estrita) no passo em que eleva o sarcasmo, o farisaísmo e um sentido utilitário dos escrúpulos a patamares inéditos, sobretudo porque nunca resvala para fora das baias do quotidiano e não incorre na fastidiosa panóplia de tons épico, melodramático ou lírico, que habitualmente se usa para enlear o sentimento do espectador.

Tendo Walter White recebido ceptro & coroa de Tony Soprano, quem lhe terá sucedido no trono após a sua esplêndida morte? Ouso denominar Will McAvoy, o anchorman, ou pivô, em português de gema, de “The newsroom” – há condições para afirmar que Jeff Daniels era um actor persistentemente desinteressante até dar a pele por esta personagem.

“The newsroom” é apresentado como “uma criação” de Aaron Sorkin. Estamos assim em face de um ordenamento industrial em que argumentistas (uma bateria deles), realizadores (todos com crédito seguro, nenhum com cartel de auteur), produtores executivos e demais artistas ou colaboradores, subsumem a sua participação criativa à batuta abrangente de Sorkin. Sendo a ficção de cinema americana essencialmente politizada – fenómeno que tanto irrita as facções mais reacionárias dos Republicanos quanto é desapercebida pelos olhares europeus – Sorkin é aquele que melhor converteu a política pura e dura em ficção, com paralelo histórico talvez em I.A.L. Diamond e poucos mais. Do seu palmarés como argumentista avultam “A few good man” (“Uma questão de honra”) obsequiando Jack Nicholson com o melhor momento da sua carreira ao recitar um dos discursos mais ambíguos, desassombrados e desconfortáveis da história do cinema (perfeito anti-Capra); “Charlie Wilson’s war” (“Jogos de poder”), “Moneyball” (“Jogada de risco”), que devia ser de visão obrigatória para qualquer decision maker (pardon my french…) e a série de TV que lhe trouxe popularidade “West wing”. O que singularizar e sublima “The newsroom” será o abandono de qualquer pretensão naturalista, ideia prodigiosa sendo o jornalismo a matéria da série. Sorkin dispensa ostensivamente a credibilidade para ambicionar alguma verdade, pois essa coisa da “credibilidade”, tão diligenciada nas indústrias emparelhadas da informação e da ficção, é erário de burlões, sem o qual seriam incapazes de cultivar a sua arte. Cada episódio constitui-se, assim, num pequeno debate sobre ética, desde os processos de trabalho às relações afectivas. E este plano invejável e impossível de comportamentos revela-se por diálogos e frases de supina perspicácia e gramática; ninguém fala assim, com réplicas súbitas e argutas, com tamanha agilidade verbal e tanta intuição imediata das questões; ninguém discute desta maneira, tão mental e emotiva, sem, no entanto, descair na mesquinhez, na sua típica forma de insulto pessoal; ninguém em “The newsroom” pergunta que horas são ou se o café está quente, todas as palavras são usadas para exprimir estados de alma estratosféricos. “The newsroom” não imita a realidade, mostra-nos o que na realidade deveria passar no íntimo das cabeças jornalísticas em plena posse das suas faculdades. Que o faça de maneira amável com o espectador, sem lhe dar lições de moral nem fazer com ele chantagens emocionais, e de forma delicada com as personagens, permitindo-lhes a dúvida e a incerteza, que é a maneira de não as ajuizar, faz de “The newsroom” um prodígio de escrita e de narrativa, só ao alcance de talentos e recursos incomparáveis.

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O que valeu a pena ver em 2014 - 1/3

por José Navarro de Andrade, em 29.12.14

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Scorsese na cama com os actores

 

Como estreou em 4 de Janeiro deste ano, começo logo por deturpar as regras protocolares do “filme do ano” elegendo “O lobo de Wall Street”, um original de 2013, entre os meus predilectos. Um Scorsese premium sem dúvida.

Tal como os grandes jogadores que sabem envelhecer em campo, Scorsese já não corre como outrora mas continua a imprimir velocidade no jogo. Os movimentos de câmara são agora menos ofegantes, a montagem é menos brusca, apostando não tanto no contraste (aquele espécie de “montagem de atrações” em que cada plano seria a antítese do anterior) como num constante incremento: o que vem a seguir precipita a potência do que ficou para trás; e toda a continuidade do filme já não tem a forma da típica montanha russa de Scorsese, mas faz-se numa espécie de “queda para cima”, em que o clímax coincide com o momento em que tudo e todos se estatelam. A duração das cenas permite entender “O lobo de Wall Street” como um filme de actores – em memória do confuso cinema dos sixties – com as alterosas dificuldades inerentes ao conflito entre uma ampla latitude de planos para especificarem as personagens mas sem qualquer margem para apontamentos digressivos e especulações histriónicas.

Que semelhantes e fatigantes propriedades estejam a cargo de um director de 72 anos e de uma montadora, a infalível Thelmas Schoomaker, de 73 anos, é obra de se lhes tirar o chapéu.

Só na vida real ou num filme de Scorsese poderia ser verosímil a história de um grupo de compinchas de infância, nados e criados num arrabalde proletarizado (Long Island, que no seu melhor será a Costa da Caparica de Nova Iorque…), de gosto e educação duvidosos, impostores e oportunistas, que exploram a cupidez da bolsa de capitais e de caminho comprovam que, nos métodos, haverá pouca diferença entre as gravatas de seda italiana dos correctores de Wall Street e os fatos de treino com grossa corrente de ouro que eles ostentam.

Desde que o calvinista Godard decretou que "os travellings são uma questão moral" ficou óbvio que a amoralidade (bem diferente da imoralidade) é uma perspectiva virtualmente inatingível em cinema. Está nisto o supino talento de Scorsese: gerar uma permanente sensação de alarme em cada enquadramento e em todas sequências, que nos arrasta para um estado de empatia com os escroques e nos suspende o juízo a pontos de darmos connosco do lado errado da ordem pública (sequer poderemos argumentar que seríamos inocent bystanders), emocionalmente envolvidos naquelas trapalhadas. Claro que isto é devastador, para nós, que estávamos tão agarradinhos aos nossos princípios, e para os sujeitos que Scorsese manipula, demonstrados desde o início como objetos à deriva na corrente do capitalismo financeiro, peças soltas da engrenagem, que a entopem e avariam mas não desmantelam – somos todos atirados para fora de pé sem bóia nem natação.

Gosto muito de filmes que se inclinam demasiado, em vias de desabarem a qualquer momento, sempre a pisarem o risco do grotesco e do burlesco – há lá coisa mais complicada em cinema? E esta arte de Scorsese, perfeitamente comandada em “O lobo de Wall Street”, só a vejo aproximada hoje em dia por David O. Russell, realizador dos magníficos e pouco estimados “Guia para um final feliz” (arriscada paráfrase do intraduzível “Silver lining playbook”) e “Golpada Americana”.

Por mim, estou em crer que apenas um jesuíta, e dos muito estufados, seria capaz de atravessar “O lobo de Wall Street” de sobrancelha franzida.

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cante quem for de lá

por José Navarro de Andrade, em 28.11.14

Os deserdados cantam. Os negros das charnecas do Mississippi, os ciganos andaluzes, os ganhões do Alentejo – e outros, noutros lugares, haverá – cantam para levantarem a voz ao céu e tirarem-se da terra, num instante de liberdade. O canto trabalha como as vacinas: cantam-se os lamentos para aliviar a tristeza e espantá-la para bem longe. Cantar é primitivo, é anterior aos sentimentos e aos sentidos, não se canta por revolta ou submissão, canta-se para desafiar a sorte e o destino. Por isso o cante do Alentejo é irredutível e impermeável ao verniz da cultura; o resto da humanidade, nós, pode escutá-lo - que eles são generosos e partilham-no - mas só os alentejanos é que o sabem.

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Não há circo sem palhaços

por José Navarro de Andrade, em 26.11.14

Circo mediático não é o clip de 5 segundos de um automóvel a sair da garagem com um arguido lá dentro. Circo mediático não é a chusma de repórteres a troar perguntas irrelevantes ao advogado que vem cá fora fumar um cigarrito, sabendo que não terão resposta. Isto é business as usual. Circo mediático são 4 canais durante 4 horas e upa, a darem vez e voz a turbas de comentadores, cortesãos e outros assim, que debitam incessantes e minuciosas opiniões sobre um assunto que afirmam desconhecer. Boa parte dessas opiniões reprovando o circo mediático.

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E ainda agora começou

por José Navarro de Andrade, em 23.11.14

Ainda vai no adro a procissão do que se poderá chamar “Caso José Sócrates” e já estão em desenvolvimento formidáveis teorias da conspiração, em que nada é o que parece ser mas outra coisa qualquer que só os mais espertos e previstos conseguem perscrutar, e connosco partilham generosamente.

Já apareceram coisas lindas de se lerem, por exemplo esta:

“Ou seja, a Justiça cometeu o crime de violação do segredo de Justiça ou pior, de manipulação do caso, que posso legitimamente suspeitar ser manipulação política dadas as simpatias dos ditos jornais [Correio da Manhã e Sol] pelo regime no poder. Suspeito, apenas. Tenho esse direito.”

Ora aqui está uma opinião com entrada directa para os anais da ignomínia intelectual. Impressiona como num parágrafo se pode acusar tão peremptória e cabalmente a Justiça das hediondas práticas de “violação do segredo de Justiça” e de “manipulação política”, para no parágrafo seguinte, em vez de comprovar a dedução com factos, como mandaria a decência (adeus ó ética jornalística), desarmar tamanhas certezas com o singelo advérbio “apenas”: apenas suspeita do que disse. Mas tem esse direito lá isso ninguém lho tira – que direito? Direito a quê? e porque razão considera que o tem?

Poderei, então, a meu bel-prazer invocar uma fantasmagórica “legitimidade” (atribuída por que instância? Baseada em quê?) para suspeitar que a autora deste dislate usa umas cuecas às pintinhas oferecidas pelo Sr. José Sócrates. Apesar de ter tantas provas factuais como ela, também acho que tenho o direito de bolçar suspeita tão parva.

Isto é a ponta do iceberg dos contorcionismos e denegações que vêm a caminho e atingirão muito em breve o ponto de rebuçado mediático nas chamadas redes sociais. Desde logo começou a circular por aí um twitter, emitido por outra senhora, esta com responsabilidades institucionais, que se lhe aplicássemos a lógica formal seria como adicionar uma laranja com uma pera para dar o resultado de dois ananases, ou seja junta a detenção do Sr. José Sócrates com o caso dos vistos gold, dizendo que uma mão veio para lavar a outra. Descobrir coincidências temporais (é fácil, pois não estão sempre a acontecer?) e deduzir nelas implicações causais (é ainda mais fácil, basta imaginar e suspeitar) é como supor que um desastre de automóvel poderia ter acontecido em melhor altura.

Como diria Bette Davis: “fasten your seatbelts, it’s going to be a bumpy ride.”

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Qual a novidade?

por José Navarro de Andrade, em 11.11.14

É sempre intrigante deparar com consternação e estranheza em reacção às contumazes declarações de irredutibilidade ideológica do PCP. A resiliência do PCP trouxe-lhe pelo menos duas vantagens políticas que são verdadeiramente admiráveis. A primeira constata-se no plano estratégico. Graças ao seu acastelamento ideológico o PCP alcançou uma proeza absolutamente singular no continente europeu: foi o único partido comunista a sobreviver à calamidade da “perestroika” tornando-se, de facto, no único partido comunista europeu. Olhe-se para o sucedido com o PCF, o PCI e o PCE, que até ao final a década de 80 dominavam as esquerdas nos seus países, e depois se fragmentaram em cisões social-democratas e se dissolveram nas pautas eleitorais. Nestas cantigas não embarcou o PCP; meia dúzia de personalidades indispostas com a disciplina e a obediência cega do centralismo democrático foram expulsas com mão de ferro e o Partido manteve-se no essencial incólume aos sopros de mudança, como provam os seus resultados eleitorais. Não cresceu? Envelheceu? Pois sim – manteve-se, e o resto são balelas. Porque haveria o PCP de mudar se a mudança se comprovou ser perniciosa? A segunda vantagem da inflexibilidade política do PCP é sua clareza, pelo que nunca nos desilude. Com o PCP é garantido que não há a efémera agitação de “questões fracturantes” nem a excitação das “transversalidades”, nem qualquer envernizamento ideológico pequeno-burguês para seduzir o descontentamento das depauperadas classes médias com a conversa fiada das “alternativas”. O PCP não é um soufflé, é conduto e do sólido, dizendo de caras ao que vem: um processo de transição mais ou menos complexo (mas inscrito pelo determinismo histórico e “científico” na ordem natural das coisas) desta democracia burguesa em que vivemos para a ditadura do proletariado como fase de instauração do verdadeiro socialismo, rumo ao comunismo – quem quiser come, quem não quiser não come. Onde outros gaguejam quando se lhes acabam os tirinhos de pólvora seca e são compelidos a propôr soluções objectivas (à melhor envolvem algumas barbaridades irrealistas e irrealizáveis num tom de profecia académica), o PCP tem o supremo condão de nunca surpreender ou tergiversar: ele diz o que sempre disse e tudo indica que dirá. Ao cabo destes anos todos, onde é que isto provoca espanto? O problema habita, portanto, numa certa esquerda, que poder-se-á classificar como alienada, porque não se quer confrontar com o facto que o PCP torna evidente: não haverá socialismo sem os instrumentos necessários ao socialismo, ou seja, a aniquilação – física, pois então… – de uma classe por outra. A revolução não é um chá dançante (nem um fórum de discussão aberta) e o poder está na ponta da espingarda – salvo para quem apreciar as comodidades da democracia liberal e não perfilhar a religião da luta de classes.

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Obrigado Estado Islâmico

por José Navarro de Andrade, em 16.10.14

Obrigado ISIS por recordares que as utopias são o horror perfeito. Que o mundo puro e absoluto oferecido em cada utopia só é atingível quando a imperfeição humana for corrigida ou eliminada, porque o puro é incompatível com o impuro e o belo não pode conviver com o defeituoso. É por isso que um militante do ISIS reclama, com toda a sinceridade e convicção, num vídeo que anda por aí: “Nós não somos maus, nós somos as melhores pessoas do mundo.” Claro que são – ou melhor: claro que julgam ser – maus são os outros que ainda não viram a luz e a beleza suprema do reino dos céus realizado na terra. A estes, com infinita misericórdia, o ISIS mimoseia-os com duas alternativas: ou se deixam iluminar pela verdade e se extasiam diante de tão impecável utopia, ou terão que ser, infelizmente, removidos do convívio com os sadios. Esta era a lógica dos inquisidores. Eles não laceravam as carnes dos hereges por mero deleite sádico. Apenas procuravam, repletos de piedade, libertar as almas do erro e da ilusão, com que o corpo e a realidade tangível enganam o espírito. Se o ímpio, finalmente expurgado pelo sacrifício, reconhecesse o seu mau caminho, talvez fosse perdoado; se fosse dado como relapso, outro remédio não havia que não o de assá-lo na fogueira, ou seja, reduzir o físico a cinzas para que a alma se pudesse desencarcerar. Obrigado também ISIS por recordares que fenómenos tão insignificantes e quotidianos como o bikini e a água canalizada são afinal privilégio da civilização que, provavelmente, mais conforto e conhecimento proporcionou à humanidade. A civilização que, apesar de tudo, melhor soube aprender com os seus erros e deficiências, que melhor soube acomodar a contradição, a controvérsia e o conflito. Porque é a única civilização que coloca a liberdade como questão fundamental e fundadora, mesmo que entre nós nunca se chegue a acordo sobre o que é isso da liberdade, mas que, precisamente em nome da liberdade, soube transformar o desacordo e a divergência numa vantagem e não num mal. Obrigado ainda ISIS por recordares que vivo numa civilização, que não obstante seja essencialmente religiosa, me permite proclamar em voz alta que sou ateu sem temer pela cabeça. Porque as Inquisições já a renegámos há muito tempo e as superámos deveras. Custou muito, mas o que nós andámos para aqui chegar. E os templos continuam abertos, em paz e sossego.

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Blogue da semana

por José Navarro de Andrade, em 14.09.14

Pululam na internet blogues de culinária. E é muito bom que assim seja, porque sendo bastantes deles deveras interessantes, é possível em qualquer momento e em qualquer circunstância encontrar esse el dorado que é uma receita apropriada, prática, rápida, barata e saborosa. Um ou outro blog, além destes critérios funcionais absolutamente imprescindíveis, acrescenta a originalidade. Como o destes rapazes, da nação de la cuisine, por exemplo. 

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Delitos Poéticos (28)

por José Navarro de Andrade, em 28.07.14

AO FIM

  

Ao fim são muito poucas as palavras

Que nos doem a sério e muito poucas

As que conseguem alegrar a alma.

São também muito poucas as pessoas

Que tocam nosso coração e menos

Ainda as que o tocam muito tempo.

E ao fim são pouquíssimas as coisas

Que em nossa vida a sério nos importam:

Poder amar alguém, sermos amados

E não morrer depois dos nossos filhos.

 

Amalia Bautista (tradução de Joaquim Manuel Magalhães)

 

Alberto Burri, “Rossa plastica”, 1964

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As receitas do Delito (14)

por José Navarro de Andrade, em 14.07.14

ASPIC DE TOMATE

 

Instado pela Helena Sacadura Cabral sou compelido a revelar um dos mais ciosos segredos da minha cozinha, tão refinado que até tem um nome estrangeiro.

1- Despejar duas latas grandes de tomate pelado numa tigela. Escarafunchar na massa vermelha à procura do pé para o cortar. Boa sorte e muita paciência para quem quiser expurgar as sementes.

2- Deitar lá dentro 3 dentes de alho (ou quantos desejar, conforme o gosto), meia dúzia de folhas de manjericão, um fiozinho de azeite para ligar, sal e pimenta. Por mim podem-se acrescentar uns pingos de Tabasco.

3 - Moer tudo com a varinha mágica até formar uma polpa uniforme.

4 - Retirar duas conchas da polpa para outro vasilhame e partir à tesourada lá para dentro três pacotes de folhas de gelatina. Os puristas preferirão gelatina vegetal. Aguardar 10 minutos, mais ou menos o tempo de fumar um cigarro e beber um copo de vinho branco.

5 - Retirar outras duas conchas da polpa original e deitar num tacho que vai ao lume. Quando levantar fervura:

6 - ...Despejar na vasilha em que a gelatina esteve a ser embebida.  Mexer, mexer, mexer (só interromper para ir beberricando outro copo de vinho branco) até derreter totalmente a gelatina na polpa, sem grumos. Se falhar neste passo arruinou a receita.

7 - Quando atingir um líquido homogéneo e espesso misturar com o resto da polpa que ficou para trás. Mexer outra vez para incorporar bem.

8 - Deitar numa forma de pudim previamente comprada na loja do chinês. Talvez seja prudente que não seja daquelas com buraco no meio. Levar ao frigorífico.

9 - Horas depois, melhor ainda se for no dia seguinte, desenformar (passo traiçoeiro: é melhor pedir a quem tenha dedos de fada) o pudim resultante e partilhar com os amigos. Se ficou bem faz um figuraço.

10 - Acabar com o resto da garrafa de vinho branco enquanto serve o aspic às fatias. Acompanha tudo que dê vontade de comer no Verão.

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A noite em que não vi nem ouvi Charlie Haden

por José Navarro de Andrade, em 12.07.14

A única explicação que encontro é de isto se ter passado no Cretácico Inferior, por altura dos primeiros mamíferos.

Era normal um rapazola de 12 anos gostar de jazz? Em 1971 não seria inteiramente anormal, embora as discussões se inclinassem para os Emerson, Lake & Palmer (“Tarkus”, a mais bela capa de disco até hoje – não é verdade, mas era o que se dizia na altura), os Yes (“Fragile”, a mais bela capa de sempre – idem), Procol Harum (“A Whiter shade of pale” e “Conquistador”, as mais belas canções alguma vez cantadas – ibidem) e Jethro Tull (“Aqualung”, nunca houve capa tão feia). Os do pátio sul do Liceu Camões, uns idosos de 16 anos, ouviam as coisas de adultos que passavam no “Em órbita”: “Imagine” de Lennon, “Who’s next” dos The Who, ou “L.A. Woman” dos The Doors. Em nota de rodapé seja testemunhado que os Genesis, isto é, “Selling England By the Pound”, e os Pink Floyd, ou seja “Dark Side of the Moon”, vieram noutra glaciação, dois anos depois. Temos assim que a minha pancada pelo jazz era suficientemente excêntrica para dar assunto, mas não de modo a taxar-me entre os putos charilas da turma, o que seria a morte súbita destinada aos apreciadores dos Bee Gees.

Não consigo hoje perceber minimamente como foi possível que o meu pai me tivesse deixado ir ao Festival de Jazz de Cascais de 1971. Porque: 1) Ia dar sarilho – 10.000 barbudos rodeados de polícia de choque por todos os lados? 2) Aquilo era tardíssimo, estava marcado para as 21h30 o que, segundo os fusos horários da época, queria dizer que não começaria antes das 22h30; 3) Era longíssimo, ou seja, na estância balnear de Cascais onde passávamos férias.

Postos os argumentos sensatos, porque diabo se deu o meu pai ao trabalho de pedir ao Luís Andrade (a RTP gravou todo o Festival) que me introduzisse no Dramático, o majestoso e nóvel pavilhão de hóquei convertido em sala de espectáculos, com acústica e conforto a condizer com a modalidade dos patins? Apresentei-me no carro de exteriores bem antes do início da récita, às dez horas portanto, um técnico enfiou-me um par de auscultadores na mão e entrei com a caravana que dava assistência às câmaras – “está connosco” foi o que laconicamente disseram ao Cérbero da porta que implacavelmente rechaçava a legião de borlistas. Não teria sido preciso tanto John LeCarré: o pessoal da RTP havia sequestrado uma grade de cerveja do bar e partilhou-a toda a noite com porteiro e com o polícia de turno enquanto lá dentro decorria a “macacada” – expressão deles).

Mas como se não bastasse tanta irresponsabilidade paterna, os meus pais ainda me levaram até Cascais e ficaram ali à espera que eu me extraísse da mole ululante de 10.000 hippies, yé-yés e playboys que no âmago do Dramático se amontoava até ao tecto. Uma condição: “sais à meia-noite”.

Seria alguém hoje capaz de imolar um filho de 12 anos às fauces deste Baal de charros e subversão, sob a ameaça latente de uma carga policial, que eram famosamente vesgas e bestiais? Claro que não.

Do espectáculo só registo duas memórias: as calças de cetim verde de Miles Davis e, quando entrei, um músico de bochechas aerostáticas a fazer um scat, sozinho à entrada do camarim, que me piscou um olho perante o meu indiscreto estarrecimento com aquele rosto inflado (era Dizzy Gillespie, o que na minha ignorância bíblica só vim a saber muito depois). Que mais impressões poderia um pré-adolescente apedeuta e apagado recordar da primeira noite em que saiu sozinho, ouviu jazz ao vivo e esteve metido numa multidão hirsurta até à mítica hora da Cinderela?

Por isso, pela parte que me cabe agradeço do fundo da alma a Charlie Haden. Não que o tivesse visto, ou ouvido a sua célebre dedicação do tema “Song for Che” aos movimentos de libertação das colónias que, contaram, provocou um sururu homérico no Dramático, mas porque ele fez virtualmente parte da noite em que perdi a virgindade existencial e em que vi a liberdade pela primeira vez.

Quanto Charlie Haden, o contrabaixista, o mínimo que se pode dizer é que deu a volta ao universo, começando no despertar do free em “The shape of jazz to come” (1959) de Ornette Coleman e culminando o seu percurso estelar no sereníssimo, belíssimo e tradicionalíssimo (nunca haverá demasiados superlativos para ele) “Come Sunday” (2006) em dueto com o pianista Hank Jones que faleceria logo a seguir à gravação. Venha quem faça melhor…

 

Quem quiser saber a sério como foi o 1º Festival de jazz de Cascais leia aqui e aqui.

O alfa e o ómega da trajectória de Charlie Haden.

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Os castelos da Baviera

por José Navarro de Andrade, em 09.07.14

A melhor equipa deste mundial é incontestavelmente o Bayern de Munique. Nas meias-finais alinharam jogadores do Bayern pela Alemanha (Neuer, Boateng, Lahm, Shweinsteiger, Kroos, Müller e Klose, que já não é mas é como se fosse, e no banco ficou Götze), pelo Brasil (Dante desceu aos Infernos - trocadilho óbvio - porque habituado a vê-los de costas, apanhou com eles de frente) e pela Holanda (o escanfandrista Robben). Mas o Bayern ainda deu para fornecer as principais estrelas da França (Ribery, apesar de ausente), Suiça (Shaqiri), EUA (Julian Green), Croácia (Mandzukic).

Pode-se assim inferir que vencerá aquela equipa que apresentar o número suficiente de jogadores do Bayern para aplicar em campo o seu famoso modelo de jogo, mesmo que por cortesia com os anfitriões, se disfarce com a camisola do Flamengo. Ora esse modelo, já adivinharam os especialistas (um especialista em futebol é alguém que tem oportunidade de se enganar mais vezes que um amador) é, digamos assim, o tüken-täken. Para os leigos seja explicado que se trata de um tiki-taka com mais centímetros de altura e nutrido por uma dieta de salsichas e cerveja em vez de tapas.

Quanto à única equipa das meias-finais que não tem jogadores do Bayern, essa tal de Argentina, a questão estará em saber se Mascherano e Messi já se esqueceram do modo como jogavam há dois anos. Mas o Sabella já provou ser um grande macaco e tem-se recusado a treinar ou a dar a táctica à Argentina, para não estragar nada – talvez resulte.

Desconfio que o Bayern era capaz mesmo de ganhar à Alemanha.

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