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Blogue da semana

por Marta Spínola, em 19.03.17

Por hoje ser Dia do Pai, deixo como sugestão O Melhor Pai do Mundo, e aproveito para desejar um bom dia aos pais autores e leitores do Delito de Opinião.

 

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Das obras por Lisboa

por Marta Spínola, em 06.01.17

Deve dizer-se que na Fontes Pereira de Melo há três novas passadeiras, em locais onde as pessoas, durante anos, insistiam em tentar passar. Uma espécie de dor de membro fantasma invertida. 

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A Lena do bibe encarnado

por Marta Spínola, em 04.01.17

No João de Deus, onde andei dos 3 aos 10 anos (para sempre na minha cabeça, ou "pela vida fora João de Deus"), a referência para anos diferentes é a cor do bibe. Quem lá andou ou anda, orienta-se assim -"estávamos no bibe castanho", "em que bibe andas?", "Qual é o teu bibe este ano?", é uma coisa que nos fica, lá  está, pela vida fora. 

A Lena do bibe encarnado era uma das educadoras da altura em que eu estava no dito bibe (o dos 4 anos). Não era a minha, mas acompanhava os almoços, ficava connosco em alguns recreios, e por isso havia contacto. 

Eu tinha medo da Lena. A memória que tenho é de uma senhora um pouco ríspida, apesar de me lembrar de a ver sorrir - um sorriso de lado, só com um canto da boca -, de poucas palavras connosco. Tive um episódio com ela que me ficou sempre: uma vez, ao almoço, pus de parte o bocadinho mais apetitoso do peixe (quem nunca?) para ser o último. Aquele estava mesmo bom para ser o último a saborear. A Lena, que estava na supervisão dos almoços, apareceu por trás de mim, pegou no meu garfo, e misturou o peixe todo, enquanto dizia "o peixinho é para comer todo!". E eu chocadissima, mas em silêncio, que nem me atrevia a responder a adultos, muito menos aos que me metiam medo. Lembro-me que o meu pensamento imediato foi: "Nãoooooo! Eu não sou aqueles meninos que não gostam de peixe!".  E não era. 

A Lena tinha um dom: contava histórias como ninguém. Naqueles intervalos em que não podíamos ir brincar para o jardim, e ficávamos no salão, contava-nos histórias. Era uma narradora nata, tinha o tom certo, a entoação perfeita, fazia cada personagem sem grandes teatros mas de uma forma que eu, ainda sem saber ler, os vivia como os dos livros que li mais tarde. Contava-nos histórias, e eu ficava presa em cada palavra até ao fim.

Ouvi "A guardadora de patos", "A princesa e o sal", entre outras, muitas vezes. A que me marcou mais, tanto que nem a versão Disney a suplantou, foi "A Bela e o monstro". A Lena contava-a tão bem, que eu via a fera (não sei se ela não lhe chamaria fera) nas suas torres, serpenteando e perdendo a pele no fim da história. Ontem vi uma rosa numa cúpula de vidro, anunciando a nova versão de "A Bela e o monstro", e mais uma vez me lembrei da Lena e os recreios em dias de chuva, a ouvir histórias.  

Nos bibes que se seguiram, gostava sempre de tudo, mas tinha pena de já não fazer parte daqueles intervalos de histórias de encantar - ficaram sempre no bibe encarnado. Era encantada que eu ficava, juro.

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São loucos, estes americ... Romanos, pois!

por Marta Spínola, em 09.11.16

Vamos cá a ver: havia duas possibilidades e nunca houve uma maioria clara de Hillary Clinton. Não é que haja uma surpresa com Trump, a questão para mim não é tanto ele, que com o seu discurso desta manhã deixou em aberto um caminho para a moderação. Também é ele, que fez uma campanha de palhaço (literalmente) rico e venceu. Veremos o que por aí vem, que remédio.

Deixo a análise política para quem a sabe fazer, eu gosto (ou não) é de observar as pessoas. E o que continua a chocar-me é que as pessoas gostam de um bom circo, mesmo na vida real. Gostam ao ponto de levar circo ao poder para verem mais. Talvez também seja culpa dos canais pagos, pelo menos o presidente tem de dar em sinal aberto, e é entretenimento garantido. O que me preocupa de momento é que quem votou o fez ou porque crê naquela conversa da família americana - quando nem a dele o é! -, ou, e arrisco que pior, quem riu muito com ele, as suas alarvidades e grosserias. Isso não é frontalidade, é circo.

Já sei que a Hillary tem imensos defeitos e "ele é péssimo mas ela também é má" (e foi esta conversa que a vez perder, não tenhamos ilusões), e não sabemos, nem saberemos, como seria se fosse ela a eleita. Agora já está. Olho para trás e vejo como o meu choque com a reeleição do W Bush, parece tão ingénuo perto do de hoje.

Esta campanha foi só circo, e a minha fé na seriedade das pessoas está cada vez mais fraquinha. Sendo eu uma pessoa que adora rir e não reconhece limites ao humor, já vêem o que a ignorância me assusta.

Se falarmos no circo romano, há choque e horror, era um absurdo e uma barbárie. O pão e circo como campanha é uma coisa muito mal vista, mas só à distância de uns séculos. Vemos mal ao perto.

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Em 2004 choraste, e eu, que nunca chorei com a selecção, tive vontade de chorar contigo. "É tão menininho..." pensava, dizia. Nunca te deixei, segui-te sempre, quis saber sempre mais, ver mais. Saber onde podias chegar. Ano após ano.

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Ontem, quando te vi no chão e depois em lágrimas, pensei "não chores. Não chores, que também choro". Voltaste, porque és o maior e não desistes à primeira, não desististe em 12 anos, nunca viraste a cara a tanta ingratidão que se viu e ouviu, não sei quantos teriam essa capacidade, mas tu tens.

Não deu para continuares, e vieram as lágrimas novamente. Porque vives para todos os jogos, mas aqui entre nós, uma final é uma final, e detestas não estar presente.

Depois o momento de um verdadeiro capitão. E deixa-me dizer já aqui que muitas vezes eu disse: "ser capitão é uma pressão de que ele não precisa", e hoje sei por que nunca deixaste de o ser. Cresceste, amadureceste, sabes ser capitão nos momentos cruciais. Quem me conhece sabe como gosto do capitão da Itália e - detesto admitir isto - vê-lo de costas nos penalties dos colegas, quando se apregoavam um grupo unido, custou-me. Podem ser superstições, crendices, pode ter sido para não dar um grito ao Zaza, mas esse gesto ficou-me. No prolongamento vieste dar ânimo a todos, dentro e fora de campo. Abraços, gritos ou sussurros, o capitão estava ali com eles. O mimado, o birrento (atenção, adoro essas pequenas birras), estava ali a dar de si aos restantes.

Mais lágrimas no golo do Éder. És maravilhoso quando choras de alegria. És o maior, o melhor do mundo mesmo a chorar,quero lá saber. Chorei contigo antes, chorei contigo agora.

Quando levantaste a taça, senti as lágrimas chegarem. Talvez por tudo o que ouvi e li de 2004 para cá, em cada europeu e mundial, sempre a mesma conversa, sempre os mesmos argumentos idiotas e ressabiados. Ou talvez me tenha voltado simplesmente a emocionar com Portugal.

Doze anos, esperei 12 anos para te ver ali, assim. E vi. És o maior, meu ric'menine.

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Pela não vulgarização das reticências

por Marta Spínola, em 26.05.16

Li ali, não interessa onde (foi no Facebook, pronto), uma pessoa defender o seu discurso pontuado exclusivamente por reticências com o argumento "é.. Para fazer... Pausas... Na conversa..."

Vamos lá a ver uma coisa: a gramática prevê pausas, chamam-se vírgulas e pontos finais. As reticências, para quem sabe ler, deixam uma ideia no ar, ou arrastam o discurso. Que ideia é esta de que são pausas? Se... Eu... Escrever um post... Assim... Isto não irrita ler?

De repente, há esta convicção de que pontuar tudo e um par de botas com três pontinhos está certo. Conta os três pontos de exclamação já, e bem, indignação. E este abuso das reticências? Ridículo, no mínimo.

Eu assumo que nem sempre ponho uma vírgula no lugar certo, se calhar faço parágrafos que podiam estar num só, mas... Esta... Coisa... Aborrecida... Das reticências... A... Fazer... Uma frase... Não, tenham paciência, mas as reticências eu sei bem quando usar.

As reticências são maravilhosas para a ironia e o sarcasmo, por exemplo. São óptimas para um flirtzinho ou uma picardia. Não as banalizem, se faz favor.

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Fora de série (3)

por Marta Spínola, em 17.05.16

Lembro-me de quando à terça ao serão havia sempre uma série policial. O "Polvo" dava às terças, "Modelo e Detective",  "Dempsey and Makepeace", "Crónica do Crime". Todas deram à terça.

Havia um padrão no serão da TV: concursos às segundas, filmes à quarta, debates à quinta, filmes à sexta. A terça era o dia das séries policiais e foi assim que conheci a minha favorita: "A Balada de Hill Street". Ou "Hill Street Blues", se preferirem.

Na esquadra de Hill Street acompanhávamos os agentes, individualmente ou em duplas no seu dia a dia, desde o carismático roll call ("let's be careful out there", mais tarde "let's do it to them before they do it to us") à cerveja ao fim do dia no bar onde todos se encontravam.

Eu era criança quando dava à noite, mas revi mais tarde numa reposição, e voltei a adorar, agora com mais atenção e noção. Fui apaixonada pelo officer Renko e o seu companheiro Bobby Hill, adorei cada rosnar de Belker, respeitei e chorei o sargento Esterhaus.

Gosto muito de séries e filmes do final dos anos 70, início dos 80. É série que se vir à venda não hesito em comprar.

Deixo o genérico, um hino.

 

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O blogue da semana

por Marta Spínola, em 10.04.16

Esta semana escolhi o blogue do Gato, The Cat Run, cuja apresentação fica feita logo à entrada: 

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se corre a escrever. Este não é um blog sobre gatos.

Numa escrita que sabe bem ler, num tom que faz sorrir e querer saber mais, é descrito um dia a dia com uma intersecção com o nosso, e todo um outro lado que gostávamos de viver como nos é contado. Ao mesmo tempo há um olhar sobre o mundo que comove e diverte.

Como apresentação para quem não conhece, deixo o post "Acidente em passo de corrida".

Boas leituras!

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Vi Bowie em 1990

por Marta Spínola, em 12.01.16

Raramente ganhei alguma coisa em concursos ou sorteios. Aos 13 anos tudo o que tinha ganhado foi um sumol num arraial, numa corrida de cavalos de pau ou coisa que o valha. Até aos 13 anos diria que foi tudo. Em 1990 amava Mick Jagger, os Stones e David Bowie. Isto tem explicação: tinha sido enganada pela Brosmania no ano anterior, e talvez pela longevidade tivesse optado por nomes com mais da minha idade no meio.  Assim garantia que não acabavam em meses, e tinham obra consagrada. Além disso, eram as influências de mamãe e um primo (também ele antes influenciado) a tomar o devido lugar. Nessa altura David Bowie vinha cá com a sua Sound and Vision tour, eu tinha uma Super Som a oferecer bilhetes ali à mão, e as respostas às perguntas na ponta da língua. Concorri e ganhei! Dei saltos, juro. No dia do concerto - ainda me lembro da sweat Ton Sur Ton de riscas que levei - os meus pais levaram-me a Alvalade, sentei-me na bancada perto de uma família, e vi dali o concerto. Adorei tudo, claro está. A saída, tão crescida, sozinha num concerto a sério - a propósito disto uma tola das amigas da altura dizia "ahahah vais ser uma drogada, a Christiane F também foi sozinha ver o David Bowie aos 13 anos!", todas tínhamos lido o livro nesse ano (ela tinha visto o filme). Sobrevivi sóbria, posso garantir. No palco, sem surpresas, Bowie era enorme na sua puffy shirt e poupa loira. Não foi o concerto mais concorrido a que assisti, mas nunca me esqueci dele. É o que importa.

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"Não vejo novelas"

por Marta Spínola, em 28.08.15

Sou, confesso, alérgica a rótulos e frases absolutistas do tipo "Não vejo novelas". Cansam-me as ideias pré-concebidas e a falta de ginástica mental. Dito isto, avancemos.

Esta é a frase que para muita gente é uma garantia de que não são ignorantes. Quem não vê novelas não é certamente burro e fala bem, pensam. Pensam mal. A música pimba, as festas na terra e o vestir mal são de novela para baixo, por isso o "não vejo novelas" coloca-as nesse patamar seguro, de quem não entra em bailaricos ou ouve Tony Carreira. Errado.
É como aquele dress code de multinacional em que "não vale calças de ganga", porque chinelos de praia, calções e tops pelo umbigo estão para lá dos jeans, então garante-se que ninguém vai mal vestido. Ui, a ingenuidade de quem pensou isto chega a ser quase fofa.

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Tentar que um conceito que é só nosso passe para o mundo resumindo-o numa tirada pateta devia ser acompanhando de um downer button de tão ridículo que é. Não temos de ser todos formatadinhos, não há um muito certo ou um muito errado nesta coisa dos gostos. Cada um de nós é como o nosso smartphone, e não há dois iguais. Ver novelas não é incompatível com beber gin, praticar paddle não implica nunca mais podermos ouvir Lionel Ritchie, ter um selfie stick não tem de impedir alguém de fazer parte da sociedade. Cada um escolhe as suas próprias aplicaç... características, gostos e manias. Ou, numa comparação mais analógica, seremos como aqueles jogos mix and match, de corpos divididos em três, em que podemos conjugar cabeça, pés e tronco das mais díspares personagens. Eu sou assim, assumo-o. Pior, gosto muito de ser assim. 

Um dia destes, num almoço, o rapaz ao meu lado disse-me: "sabes que é que vejo agora? O 'Mar Salgado'. Chego a casa sem cabeça, vejo aquilo sem pensar, e até me sabe bem". Cá está, ele não passou a ver novelas ou deixou de ser inteligente. Vê esta, sabe-lhe a descanso. É muitas vezes por aqui. O que não quer dizer que toda a gente tenha de as ver. Eu neste momento não vejo nenhuma, já vi algumas, muitas na minha infância. 
Não, pessoas, não ver novelas só faz de alguém isso mesmo, uma pessoa que não vê novelas. Se continuam a comer de boca aberta, a só saber falar dos preços das coisas, interessa pouco que conheçam o melhor gin do país. A mim pelo menos. Além disso, mal comparado, é como um suicida. Quem o faz não apregoa.

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O sol está mais quente

por Marta Spínola, em 01.07.15

Pois está, e não são precisos estudos para o saber. A mim basta sair da praia e escaldar os pés todos no processo.
É um facto, nos últimos anos sinto a areia muito mais quente muito mais depressa que quando era pequena. Ou tinha pezinhos de amianto, ou não sei. Talvez haja estudos sobre os pés de crianças dos anos 80 e a areia da praia. 

Já nem é só a areia do fim da praia, nem é preciso ser um grande areal. O sol aquece e a areia ferve com ele. Se vou descalça queimo-me, se calço chinelos às vezes a areia mete-se entre eles e um dos dedos, um tormento até os poder tirar.
Sair da praia pode ser uma dor, o que podia ser poético mas não é. Não deixo de ir, naturalmente, mas dói.

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Vivemos tempos - sinto que já posso usar expressões como "vivemos tempos", depois dos 35 anos dei comigo a dizer coisas assim - em que muito se aponta o dedo e pouco se sugere. Sempre se fez isto, com as redes sociais só ficou mais evidente. Eu frequento mais o twitter que o Facebook, mas é neste segundo que vejo mais vezes acontecer. Bom, agora que penso nisso no twitter também haverá comportamentos semelhantes... mas a timeline desce, desaparece e a coisa passa, não se presta tanto ao forum e ao ódio em escalada. 

Alguém toma uma iniciativa, e logo vem o dedo em riste "eu já vi isso, isso já foi feito na Islândia, assim não vale". Um jornal, uma empresa, alguém copiam assumidamente uma ideia porque acharam boa, e logo alguém se insurge "ah, não não. Isso era muito giro, mas imitado já não, lamento".

Diariamente tropeço em inquisidores de sofá. Imagino-os muito aborrecidos, entre um candy crush e um like, a destilar os seus ódiozinhos e irritações. Talvez seja terapêutico, não sei. E são assim no humor, nas séries, na vida: "Isso já foi feito, eu vi muito primeiro, não contem comigo para gostar". Acho cansativo e redutor, mas que sei eu. 

E sugerem alternativas, têm ideias, perguntam-me. Não, têm zero. Se eles estão aborrecidos temos de o estar todos. Toma lá que já te apontei o dedo, perdi tempo num comentário azedo, e arrumei-te. 

Se querem sobressair podem apenas fazer um comentário com uma referência inteligente "ah muito giro, tinha visto *inserir pessoa/local/plataforma/marca* e achei boa ideia também", boa? Eu não sou nada de andar sempre com o discurso "na vida é preciso sorrir", mas claramente precisamos. De sorrir e usar mais português. Também acho que passa muito pelo não se saber escrever mais que o vulgarzinho de Lineu (também posso usar esta).

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As greves do metro na óptica do utilizador

por Marta Spínola, em 18.06.15

Agora que já passei por diversas greves de metro - há mais de dez anos que o utilizo diariamente -, desde as só até às dez às de 24 horas, de quando havia uma de vez em quando até às regulares, posso dizer com propriedade: façam greves para aí, já contorno de forma relativamente simples a questão.

Já sei que é um direito, que nem sempre se percebe para o que ou para quem são e isso nem importa muito porque, lá está, as pessoas têm direito e podem fazer greve.

Muito bem, mas para quem usa no dia a dia, para quem tem de chegar a algum lado e depende do metro para isso, não é imediata a solidariedade e a compreensão. Somos assim, pronto, não é por mal. Isto também é pouco relevante para os números da greve, deixem-nos ter este amor/ódio por elas e desabafar redes sociais e blogues fora.

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Blogue da Semana

por Marta Spínola, em 05.04.15

Para esta semana sugiro o blogue Danos Colaterais. São posts assertivos e incisivos como a sua autora, a Sophia.

Vale a pena espreitar, e destaco este post, de entre os mais recentes. 

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IPO. Pediatria. Falemos disto (agora já) sem medos

por Marta Spínola, em 04.02.15

Em dia de luta contra, deixo isto. E um abraço a todos, não só a quem luta, a quem tem alguém próximo que luta, não só aos mais pequenos, a todos, porque todos o tememos de uma forma ou outra e devemos luitar contra o cancro.

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Eu - como tanta gente - pensei muitas vezes o que seria a pediatria num sítio como o IPO. Todos queremos distância de tal sítio - do IPO todo, não só da pediatria - por todos os motivos e mais algum, se a pudermos ter. Nunca tinha lá entrado, nunca tive de lá ir. 

Ouvi muitas vezes e provavelmente também o terei dito que a ala pediátrica devia ser dura, que voluntariado sim mas ali não. Falamos muito, nós. 

O ano passado dei comigo a ir ao IPO com uma criança de pouco mais de um ano, a Carlota. Acompanhei dias de análises, consultas e exames e várias horas de espera de resultados, quer no Hospital de Dia quer no piso do Serviço de Pediatria. Vi crianças em tratamento, umas pacientemente à espera do fim, outras mais agitadas. Vi pais mais resistentes que outros, vi pais permitirem-se um desabafo lá fora para aguentar mais um pouco junto dos filhos. 

Testemunhei como o pessoal é dedicado e orientado para as crianças, vi os doutores palhaços acocorados cantar para a Carlota enquanto ela comia e não sabiamos se a sopa ía ficar ou voar no minuto a seguir. Não é um mundo de que se queira fazer parte, mas estando lá as coisas são feitas para que seja o nosso mundinho enquanto for necessário. E bem. E é.

Não, nunca me "fez impressão", no dia em que entrei pela primeira vez no Hospital de Dia o drama da minha cabeça foi-se. Não por não ser dramático o que lá se passa, naturalmente que é, mas o meu drama e o de tanta gente estava deslocado, não era por ali.

Vi muitas crianças, muitas. Uma que fosse já era demais, mas vi várias. E foi ao ver estas crianças que percebi como quando dizemos que não éramos capazes não podíamos estar mais longe da verdade. Eu acredito que muita gente não fosse capaz de ali estar, respeito a resistência de cada um. Mas passa-se a porta e não é sobre nós, passa a ser sobre eles. Comigo foi automático, sem esforço. Entrei e ali contavam só aquelas crianças, eu não, não as impressões, não os dramas de conversas ditas sem saber na pele sobre as coisas. Eu poderia eventualmente ajudar no que pudesse e não atrapalhar. A Carlota e os outros meninos é que importavam ali dentro.

Outra coisa de que as pessoas têm receio é de ver crianças em sofrimento. É claro que haverá níveis e casos para tudo, é claro que em pediatria há pré-adolescentes e é bem diferente com eles, sentem tudo de outra forma e torna-se mais duro nesses casos, admito. Mas muitas das crianças que vi temiam as "picas" - viam um enfermeiro e de beicinho queixavam-se "não... tu dás pica" (e o meu coração desfazia-se mais um bocadinho) ou de tirar adesivos, do repelão na pele. Isto comoveu-me de uma maneira que não sei explicar, problemas tão piores as levavam ali mas os medos delas são muitas vezes estes. A verdadeira e mais pura inocência. A mesmo inocência que as faz pedir aos pais para irem mais cedo e poderem ir brincar no Lions antes das análises, exames e tratamentos. 

O meu fantasma de fazer voluntariado num lugar assim foi-se. Não seria fácil, não tenho essa ilusão, mas hoje sei que teria a força que um dia achei não ter. Eles não choram o que lhes aconteceu, quem sou eu para me sentir fraca perante isso?

 

Originalmente publicado aqui.

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Blogue da Semana

por Marta Spínola, em 02.11.14

Esta semana o blogue por mim escolhido é o all about little lady bug, o blogue pessoal da Joana onde se pode acompanhar a versatilidade da autora. Por outras palavras, as da própria Joana, é: "onde falo de mim, das minhas coisas, do meu mundo. há filosofia, há tony carreira... há de tudo. há kizomba e wittgenstein, tb."

Seguindo o perfil  existem outras pepitas deixadas pela hiper-dinâmica Joana por essa blogosfera (que é dinâmica fora dela também, muito).

 

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Laterpost - Só uma teoria. Ainda a Jessica

por Marta Spínola, em 30.10.14

Deixo hoje este post já um pouco datado. Escrevi-o quando se falou no desfile/comentários /post da Jessica Athayde. Nessa altura li alguns posts sobre o assunto e lamento que os de maior destaque acabassem por cair na asneira de referir que a fotografia em questão era infeliz ou não era a actriz no seu melhor. Tudo o que tinha sido antes pelas autoras desses posts caiu por terra no momento em que o fizeram. Tal coisa nem me ocorreu, mesmo não tendo tido a pretensão de empunhar o estandarte da mulher real e essas coisas muito bonitas mas depois regra geral ocas que se dizem.

Segue então o que disse na altura ali no Vida de Pi.

 

O problema não são as gordas. Não são as magras. O problema é, como sempre, estarem mal resolvidas. O problema são os preconceitos, o não conseguirem mostrar pele por ideias pré-concebidas ou não receberem um elogio ou piropo de vez em quando. Mesmo que o recebessem não saberiam o que fazer com ele, ficariam trapalhonas com ele nas mãos como quando o telemóvel quase se nos escapa, quase quase, mas afinal não chega a cair. O problema é também, admito, a convenção à escala mundial, de que o magro é que é perfeito. Mas isso é secundário perto da mesquinhez das pessoas.

O problema é quando há muito elogio a alguém, tanto piropo que quase as ensurdece e não conseguem ficar indiferentes. São ciumeiras e eu percebo alguma coisa de ciumeiras. Mas dessas não tenho, não é o meu mundo mesmo. É nessa altura, em que alguém está a ter toda a atenção, que saem os "mas ela até é gorda", "olha para aquela celulite". E uma pessoa olha e olha e pensa que ou precisa de óculos ou não estamos a ver a mesma coisa.
Pessoas gordas bem resolvidas, e eu sei do que falo, não olham para Jessicas Athaydes a apontar defeitos, a esfera é outra, não pairamos no mesmo planeta, portanto não venham com "as gordas" que até podemos ser, mas não somos todas iguais. 
Dá vontade de rir, não fosse triste ver mulheres assim umas contra as outras por motivos idiotas, apontarem algum defeito à fotografia que vi. Dispam-se, vistam-se como quiserem, vivam um bocadinho, comam só alface se assim o entenderem, e acima de tudo não chateiem.

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Delitos Poéticos (18)

por Marta Spínola, em 18.07.14

 

Rapto de Proserpina, Bernini (1621–1622)
 
O que eu desejei às vezes 
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
 
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje-que é tão pouca!
Tão pouca que nem existe.

De tudo quanto nós fomos,
 
Apenas sei que sou triste.
 

António Botto

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Do estar desempregado

por Marta Spínola, em 10.06.14

Eu já não estou, é a primeira novidade. Apareceu finalmente o meu emprego e eu acredito com alguma força que vai correr bem. Mas não é disso que venho falar. Tentarei em poucos posts descrever alguns aspectos do lado de quem está nessa terrível posição.

Enquanto se está desempregado passa-se pelas mais diversas situações, observações e opiniões. Mas o pior de tudo é quando o telefone toca, é um contacto para uma eventual entrevista, um teste de idioma, uma hipótese "que pode vir a acontecer, mas ainda sem certezas". Não me interpretem mal, não é o interlocutor ou o que/quem nos levou até ele que está mal, as pessoas fazem o que podem ou está ao seu alcance, e eu tenho algumas a agradecer por terem ajudado na minha busca de trabalho, ainda que sem sucesso.

O pior é mesmo o outro lado, o nosso. O que procura, tenta, ouve e espera uma oportunidade e uma segunda chamada. Sabe que é capaz, pode fazer aquele trabalho sem problemas ou se lho explicarem, deixa-me lá pensar o que levo vestido para a entrevista. E o novo contacto tarda, e acaba por não chegar. Mas sempre que há um novo, toda a esperança se renova e recomeça, vai ser bom, aquela zona até é boa e eu não me vou atrapalhar, eu faço o que for preciso. É como se o que está para trás não importasse já, deixa lá, alguma coisa havia de haver para ti caramba, já chega de esperar. E foram algumas vezes em que afinal ainda não era desta.

Comigo foram dois anos. Não estive parada e tive experiencias enriquecedoras, estive em lugares onde não me imaginei, vi o lado bom de muita gente. O mais difícil foi mesmo esse jogo esgotante da energia para começar de novo e a desilusão de ainda não ser dessa vez.

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Blogue da Semana

por Marta Spínola, em 18.05.14

Eu leio muito menos do que já li, confesso. E leio menos do que planeio retomar a ler. Mas gosto muito quando um livro me preenche os dias, os personagens me acompanham e tenho pena de deixar de os ter comigo depois de o acabar e acima de tudo a sensação de fazer o que tenho a fazer para ir a correr ler mais um bocadinho. Este para mim é o maior encanto dos livros. 

Mas há quem não só leia, como se dedique com verdadeira paixão ao livros e que é contagiante. É o caso da Célia do Estante de Livros que alimenta o seu blogue há sete anos com opiniões sobre os livros que vai lendo. Há um Reading Challenge anual que a Célia vai superando ano após ano e imagens de estantes enviadas pelos leitores do blogue. Esta é uma sinopse desleal, só uma visita ao blogue poderá mostrar com justiça de que falo. 

Conheci a Célia no twitter e o seu gosto pelos livros deve ser a primeira caracterísitica que se salienta. É por isso que hoje destaco este blogue. 

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Isto não vai demorar nada. Jonet revisitada

por Marta Spínola, em 02.04.14

Há muitas vezes um silêncio quando alguém diz mal do facebook ou outra rede social. Se calhar por não acharmos fundamental defender, cada um está onde quer estar, quem não quer ter nenhuma não tem e vivemos bem assim. 

Mas depois há estes momentos em que acho o silêncio injusto. Cada um fará o que entender com o facebook, e se for só ter jogos pois seja. Eu uso para tudo e mais um par de botas.
Ao ler hoje (eu sei, ainda leio, para quê? Não sei, é o meu acidente na estrada, para esses não olho, olho para isto) as declarações de Isabel Jonet sobre os desempregados e as redes sociais, não consigo não dizer nada. Porque mais uma vez se generaliza sem, imagino eu, saber. 
Num resumo, direi apenas: 
  • em ano e meio desempregada, os trabalhos e contactos que maior efeito surtiram nesse sentido surgiram através do facebook. 
  • antes de estar desempregada também foi por ali que fui contactada para os melhores trabalhos que já fiz.
  • neste ano e meio tomei conta de dois bebés, cujos pais são meus amigos de infância e não teria reencontrado se não fosse pelo Facebook 
Eu sou uma pessoa tímida, quem me lê no facebook ou me segue no twitter não o diz. Mas mesmo que não o fosse, há coisas que escrevemos mais facilmente do que surgem numa conversa falada (ou numa entrevista de trabalho, já que estamos nesse âmbito). E chegam a mais pessoas numa rede social, e ainda bem, não tenho dúvidas que foi assim que muitas pessoas me foram conhecendo um pouco melhor, e elogios e cumprimentos ao que digo e penso - mesmo que sejam delírios, tolices, o que me dá na real gana, nunca escrevo nada muito profundo, garanto - só puderam existir porque me leram, porque eu estava no facebook/twitter/blogosfera. Se isso um dia me dará novo emprego? Não sei, mas não me distrai certamente de o continuar a procurar.
 
Para terminar, e não quero confundir pessoa e Instituição, para a qual contribuo, muito menos o trabalho dos voluntários que nada têm que ver com isto, a verdade é que precisando mais depressa pedia um ovo no facebook que ao Banco Alimentar. E sei que o receberia. 
(também publicado ali)

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Há umas horas deixei fugir um post que não pertencia aqui, peço desculpa. Está reparado e o post no devido lugar. 

Comentei eu há dias que gostava de poder fazer posts não políticos aqui no Delito e logo o post seguinte aborda uma questão política. Não a politizarei no entanto. Falo da co-adopção entre casais do mesmo sexo, não aprovada hoje. 

Não que eu seja chamada ao assunto, mas não tenho problema em assumir que sou a favor, sendo que acho que devia mesmo estar entre os direitos das crianças ter duas pessoas responsáveis por si. Mas adiante que não era isso que eu queria cá deixar. 

Costumo referir Cam e Mitch, o casal de Modern Family que tem uma filha adoptiva. É claro que eu não sei - nem sei se no guião constará - em que condições está adoptada a Lilly, nem é por isso que os menciono. Costumo dizer que se toda a gente os conhecesse, repensaria as suas convicções sobre o assunto. Porque há muita gente que funciona assim, se simpatiza na tv, mais facilmente simpatizará na vida. Conheço pessoas que pensariam "tal qualmente" assim, juro. As mesmas que perante o chumbo dirão "ainda bem, é melhor assim. Faz-me um bocadinho de confusão ainda, sabes?".

 

São estas pessoas que me fazem sentir a Mafalda na tira em que a Susaninha, que esteve a ler títulos de jornais horrendos, diz "Sabes, estive a ler como sou boazinha".

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Delitception

por Marta Spínola, em 12.01.14

Hoje lembrei-me de uma vez ter vindo ao Delito comentar um post da Rita Ferro, convidada na altura. Fui procurar e encontrei-nos, esta Marta era eu. Achei graça e reitero tudo. 

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Das fórmulas e palavrinhas mágicas

por Marta Spínola, em 16.12.13

À senhora que estica o braço para chegar ao Philadelphia e eu só dou por ela porque nessa empreitada me toca de raspão.

Ao senhor de idade na fila de ar suplicante primeiro, indignado depois porque não se lhe adivinhou a urgência e a dor. 

Ao senhor que se desvia e serpenteia entre mim e quem mais está no caminho, fazendo-nos desviar quando damos por ele já na iminência do choque.
À carteira da senhora que fura por entre a gente para circular e nos bate - obtusa e objecto que é - sem querer saber. 
Ao grupo de miúdos a rir, a correr, e de lado a passar de qualquer maneira desde que todos. 

Ai, as pessoas, as pessoas... 
A todos os que têm pressa de passar ou chegar: peçam licença, vão ver que resulta, e não dói nem paga imposto. 

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Blogue da Semana

por Marta Spínola, em 10.11.13

Esta semana, trago o blogue Zuropa, que sigo há dois, três anos. 

O Ricardo, o autor, faz do blog uma juke box de boa música - passeando pela tag loud facilmente se percebem as preferências e presenças - mas não só. 

Por entre os videos surgem posts sobre filmes e o quotidiano, francos ou mais sarcásticos, e bem escritos. 

O Zuropa é uma espécie de lounge onde sabe bem estar. De vez em quando vou para lá. 

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Livros de cabeceira (17)

por Marta Spínola, em 05.11.13

 

Adormecer a ler é das melhores sensações do mundo. Aquela altura em que leio e releio a mesma linha, teimo com o sono e as pálpebras, já não vejo nada mas quero ver. Gosto muito, desde criança. 

Sempre andei com livros atrás e em pilha, mesmo que os deixe a meio ou a preguiça ciclicamente me impeça de ler ao ritmo e na quantidade que idealizo em esboços imaginários de "daqui para a frente vou ser assim". Nunca sou. 

Sempre tive pilhas ao lado da cama, ou em cima como é o caso por estes dias. Reduzi-a recentemente ou teria de lhe arranjar uma almofada também, já que partilhamos a mesma cama. 

Explicando: há sempre um livro de mesinha de café para folhear pontualmente, no caso o dos Sopranos (alterno com uma fotobiografia de JFK e todas as crianças Kennedy em Martha's Vineyard numa altura em que as tragédias eram menos (sempre as houve na família, já sabemos).

Há sempre uma ou outra revista, a Time Out vê-se bem e não pesa. Fica a representar bem essa camada da minha cabeceira. 

O "Por Entre As Guerras", de Mário de Carvalho é daqueles livros (tal como o de Leonardo Da Vinci) que já li mas gosto de reler de vez em quando, com a vantagem de cada capítulo ser um relato de um conflito diferente e poder saltitar por entre as guerras. Gosto muito deste testemunho bélico na primeira pessoa, muito respeito por este impressionante cv de quinze cenários de guerra para captar imagens.

Por último, mas no topo, sempre o livro que leio actualmente. No caso "Abraço" de José Luis Peixoto. Ainda no início, salientarei apenas que gosto sempre de ler um autor que domina a nossa língua, e José Luis Peixoto além disso é de uma sensibilidade extraordinária nos seus livros. 

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O que estou a ler (9)

por Marta Spínola, em 29.07.13

Pergunta o Luís. Eu estou sempre a ler muita coisa e leio nada. Livros a meio são mais de muitos (não são eles, sou eu) e tenho saudades de me prender a um livro de início ao fim. Entretanto, peguei num uma outra vez. 

O livro que reli mais recentemente, coisa que faço frequentemente com este livro, é o "Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci". Desta vez, a propósito de um post no facebok que coincidiu com a altura em que assisti a um curso sobre a Mesa Aristocrática no século XVIII (e aconselho o blog da autora Ana Marques Pereira, Garfadas On Line) e me lembrou muito as notas de Mestre Leonardo dois séculos antes.

Este livro, mais do que me interessar pelo conteúdo histórico, está cheio de pérolas de preocupação de Leonardo Da Vinci não só com a apresentação à mesa, como os modos dos seus contemporâneos. Percebe-se que sofria com a falta de civismo o que resulta, admito que também pela tradução, em notas engraçadíssimas. Ainda que a intenção dele não fosse fazer rir. 

Inocentemente - ou não - acaba por ser indiscreto nos hábitos de Sforzas e Borgias à mesa, dá-nos conta de algumas receitas da época e são mostrados alguns projectos de objectos para cozinha e mesa como o saca-rolhas e a batedeira (à escala humana, com pedais, impraticável uma vez que ou o conteúdo era pouco e o efeito não o pretendido, ou o "batedor" se afogaria). 

Relativamente a soluções práticas, diz-nos que o melhor para não ter a cozinha a cheirar a cabra é não ter cabras na cozinha. 

É um livro recheado de pepitas. Deixo umas imagens, mas vale bem a pena lê-lo. 

 

É com este livro que tenho andado para trás e para a frente, enquanto a vida se prepara para dar uma reviravolta.

 

Passo a vez à Patrícia Reis, para sabermos o que lê de momento.  

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Blogue da Semana

por Marta Spínola, em 12.05.13

Numa das legislaturas mais (inserir o adjectivo à escolha) as oposições e protestos são mais que muitas, já se sabe. E o importante é mesmo não deixar de apontar o dedo, elogiar o que possível for, salientar o que houver a ser salientado. Para bem e para mal. É o que é feito no blogue desta semana. E bem feito.

Apercebi-me do aparecimento do 365forte pelo e no twitter e espreito-o de vez em quando. É bem escrito e acima de tudo bem pensado. Não estuturalmente, em conteúdos mesmo. É salutar lê-lo e pensar com os diferentes autores. 

 

A apresentação mais precisa é feita no primeiro post.  

 

Fica então a sugestão do 365. Forte como convém. Sem antídoto conhecido até ver. Assim me foi passado, assim o passo agora.  

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6% baralha e volta a... tirar

por Marta Spínola, em 18.04.13

É puxar a brasa à minha sardinha, pois é. Estou desempregada e vejo este yo-yo da que já não é fortuna nenhuma. Se o meu coração, por este e outros motivos, sobreviver a 2012/13 podem estudar-me.

Ainda não foram passados os valores a partir dos quais se manterão os 6%, mas provavelmente serão os que nunca se imagina que as pessoas recebam, os que rondam os 400 euros.

Estou irritada, não vejo futuro para mim por cá, e também não sei bem como fazer para me ir embora. Acima de tudo ainda não o queria fazer. Porque irei sozinha, porque estarei sozinha. Não me atrapalho sozinha em muita coisa, mas ir passear a Roma sozinha, viver cá sozinha, pagar as minhas contas sozinha, é uma coisa, fazer a vida toda noutro lado, é outra. Sou optimista regra geral, mas neste caso obrigo-me a refrear-me, não dar um passo maior que a perna.

Tenho capacidades, não tenho medo de trabalhar, mas no cv vão os meus 36 anos e essas qualidades talvez fiquem para trás, não sei. Sei que ninguém responde, nem mails automáticos (já não se usam? Eu preferia-os ao vazio). 

Desde que fiquei sem emprego já passei por várias fases. Mas uma constante é sentir que tenho muitos deveres e poucos direitos, a sensação é a de que vivo de um favor do Estado. Constantemente. Felizmente as pessoas que me passam esses deveres e cumprem (formadores, atendimento) mostram-se compreensivas com quem está do lado de cá, seria insuportável de outra forma. 

Custa, não se pense que é viver à sombra da bananeira. Sabem-me bem os primeiros dias de sol, poder aproveitá-lo. Experimentei fazer coisas que fui adiando enquanto trabalhava, pude fazer babysitting e não o trocava por nada. Mas custa bastante ser diariamente confrontada com a situação, com os 6% que afinal eram meus mas agora já não. Custam os olhares de pena e segue a vidinha (prefiro que a sigam logo), custam as não respostas, custa o subsídio comparado com o que se recebia a trabalhar. E custa-me ser só um número, isso é o que me custa mais. 

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A tal história de reis

por Marta Spínola, em 19.03.13

A propósito deste post do Pedro, lembrei-me de um episódio a que assisti numa aula na universidade. 

O meu curso, ainda que por acabar, é História. Tenho para mim que se há coisa simples em História é perceber que se um Afonso é II ou III é porque antes dele houve um ou dois. E sempre achei que não era preciso explicar isto a uma criança. Mal sabia eu...

 

Estava no quarto ano, numa aula do terceiro porque tinha de fazer ainda História Moderna Geral desse ano. Era a aula das 8 da manhã, aquela não era a minha turma, tudo me aborrecia, e eu sentava-me logo na primeira fila para tirar apontamentos e nem me distrair. 

O professor falava nessa manhã sobre a sucessão de Carlos VIII, "que não tendo descendência masculina directa, foi então sucedido pelo primo Luis XII". Apontamento tiradinho, pronta para continuar.

Alice não, a Alice quis saber, quis indagar, estranhou e avançou: "Pode repetir?" e o professor, paciente, simpático, repetiu: "como Carlos VIII não tinha descendência masculina directa, quem lhe sucedeu foi primo, Luis XII, o parente mais próximo". Mas a estranheza da Alice estava noutra questão, e não  hesitou, juro que ainda a vejo encostar a caneta ao lábio antes de atirar: "Mas isso não faz muito sentido, pois não? Devia ser Luis IX." (a numeração romana é minha, ela pensou em "9º", tenho essa convicção). 

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O Justin e as Beliebers

por Marta Spínola, em 11.03.13

 

 

 

Desde ontem leio opiniões, zangadas até, sobre o Justin Bieber e suas Beliebers que por esta hora estarão em êxtase a ver o seu ídolo. É claro que também vi coisas que não me passam pela cabeça: esperas de horas, tatuagens desenfreadas e patrocínio de pais em tudo isto. Não falo dos que acompanham os filhos a um concerto, à hora do concerto e não de véspera.
Eu não sei quem vai ser Justin Bieber amanhã. Associo-o a fenómenos efémeros, mas que sei eu da indústria? Se for muito mais que isso também não me surpreende. Conheço pouco, muito pouco. Arrisco mesmo dizer que conheço mais uma música de One Direction que de Justin Bieber. Isso prefaz um total de uma música de JB que pode ser cantarolada por mim. Mas tenho bom remédio se quiser conhecer mais, e zero problemas em assumi-lo caso o faça. Adiante.
Hoje está cá e vai actuar para milhares de adolescentes e pré-adolescentes que gritarão até ficarem roucas. Faz parte. Tenho lido de tudo sobre as miúdas. Não sou radical nestas coisas, nem percebo muito bem a irritação. Lembro-me bem que também fui uma delas, uma das miúdas deslumbradas. Numa outra escala, na possível há vinte/ vinte e cinco anos.
A única boysband fugaz (talvez a mais fugaz de todas) de que fui fã, julguei que era para sempre (foram uns dois meses intensos) foram os Bros. Sim, os Bros. Os tempos eram outros - era a altura em que achava que estava muito muito longe de dizer "os tempos eram outros" - eu não tinha os Bros a entrar-me casa e internet (que internet?) dentro. Eles nunca viriam cá, e tudo o que eu tinha eram posters da Bravo e PopCorn e pins comprados em centros comerciais de frequência dúbia. Passou-me ao primeiro album e mais nenhuma banda do género me apanhou. Mas soube letras de todas as que se seguiram, assumo tudo. Ainda sei algumas.
Vejo-as de gorro dos Lakers e percebo que é por ele, nem preciso de ir confirmar. Eu não cheguei a usar abre-caricas nos sapatos, mas saltei de muros com amigas "a la Bros", os manos Goss saltavam de lado e nós íamos ao céu. Nunca éramos muitas mas apenas porque, lá está, era outra altura. Menos mal, nunca apareci na televisão a jurar amor eterno a ingleses de cabelo bem cortado (lá isso...), mas eu também nunca fui muito histérica na vidinha lá fora (fora do virtual, digo).
Não faço ideia de como seria eu como Belieber, mas nunca fui de ir para a frente nos concertos, tatuagens tenho zero. Nem é certo que o fosse ver hoje, tal como amei Bono Vox toda uma adolescência e nunca (nunca) o vi ao vivo. Sou uma fã de trazer por casa, está visto.
Seja como for, sou team deixai as miúdas-desde-que-com-maneiras-conta-peso-e-medida-mas-isso-também-em-tudo-na-vidinha Beliebar à vontade. Amanhã estarão felizes e partem para outra (algumas, pelo menos).

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Do ginásio. Regresso ao Futuro

por Marta Spínola, em 23.02.13

Fui aos 10 anos para a ginástica rítmica. Nada de competições, era tarde para isso. Eu queria era saltitar com fitas e arcos, e fi-lo em grupo pelo pais. As Besuguinhas, chamavamo-nos. Depois a minha professora foi para o Benfica e a classe desfez-se. Comecei a andar pelas aeróbicas, steps e localizadas até à faculdade. Depois disso só voltei a um ginásio por 2003, mas não durou muito. Retomei uns anos mais tarde e voltei a parar até agora que, quero crer, é para manter.

Isto é um post a mim, se pudesse falar com a eu de 15 anos.

 

"Querida tu (eu)

 

Agora os ginásios são diferentes. Mais que isso, chamam-lhes health clubs e trata-se um pouco disso mesmo. 

Usam-se os balneários e não é só para trocar os ténis por sapatilhas ou pontas tomam-se banhos, secam-se cabelos, aplicam-se cremes. Os ginásios são melhores, mas também há gente a circular de todas (e quaisquer) maneiras no balneário, abstrai.

Sabes quando vês quem agarre o calcanhar em vez do peito do pé nos alongamentos? Vais estar assim, lamento. Há esperança, podes voltar ao antes, mas uma ou outra aula ainda o farás assim. Tem coragem e enfrenta o mundo de mão no calcanhar temporariamente.

Pasma: ainda tens bastante flexibilidade, mas esquece definitivamente a perna esquerda à frente numa espargata, mantém-a direita e corre bem. Tudo ok com as mãos ao chão e a cabeça nos joelhos com as costas direitas, já não é mau. A postura continua a ser importante, a expressão podes deixar cair, já não estás em Torres Vedras de fita rosa a esvoaçar. Por outro lado, vais preferir aulas de grupo e coreografias, podes sempre usar um sorriso. 

Há pessoas de todas as idades, gostos e géneros. Há aulas para todos. Ao molho e fé em Deus. Vais quase enlouquecer quando as pessoas não sabem colocar-se em xadrez para optimizar o espaço na aula. Vais ficar azul com as pessoas que guardam lugar para outra que nunca mais chega numa aula. Vais rir das tricas e intrigas de aulas trocadas (os horários são rotativos, não é bestial? vais achar que sim, contra quase toda a gente). Inspira e vai rindo. Escreve posts em blogs (vais gostar disso). 

Vais nunca perceber a descoordenação das pessoas, como é que na rua andam movendo o braço contrário à perna, e no step sobem com o do mesmo lado? Nisso e acertar passos com braços não terás problemas. Vais querer fazer tudo o que são aulas de danças e saltos. Não serás tough a dançar como imaginas que podes ser. Mas não desistas! Trabalha o fôlego. Respira. Vai correr mais vezes. Eu sei que não vais, mas fica dito.

Há mais instrutores como o Rui, descansa. E mais bem dispostos até. Há opções para quem inicia as aulas e vais achar que para ti são só mesmo para quando estiveres prestes a cair para o lado. Há músicas que não terás no mp4 (depois vês o que é) mas delirarás dançar em sala. E há (os mesmos) instrutores que dizem "estamos no Brasil, mostrem os cocos", vai-te mentalizando que não podes ser transparente por mais que treines o "sou um vaso ming sou um vaso ming sou um vaso ming". Cora se tiver de ser, mas não pares, mexe-te.

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Eurico vs William

por Marta Spínola, em 20.01.13

Ao ler ali o post do Pedro, lembrei-me que quando vi o Braveheart achei que uma adaptação - hollywoodesca, o mais possível, assumo tudo - do "nosso" "Eurico, o presbítero", tinha tudo para superar aquele filme (de que gostei muito aliás).

Não uma versão europeia, não discuto a qualidade, mas gostava de ver Hollywood pegar em Herculano e fazer uma coisa em grande. O drama de Eurico bate aos pontos o de William Wallace na minha opinião. Só não há kilts, não faz mal. 

Não tive uma relação fácil e imediata com este romance. Primeiro estranhei-o, como tanta gente. Mas depois de passar a estranheza, foi sem dúvida o meu livro favorito do programa do liceu. 

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Não é o leitor, sou eu

por Marta Spínola, em 15.01.13

O momento em que chego ao Delito - vivemos tempos conturbados mas desses não falarei, já basta a realidade. O virtual serve-me de descanso e recreio - é aquele em que me encontro a tomar conta de um bebé (não meu, filho de amigos) no meu dia a dia, vivo a temporada de prémios de cinema, e a que espero seja a recuperação pós crise da equipa de futebol do meu clube. Vivo mais coisas, mas ficam estas para o primeiro retrato. 

Pelo virtual alterno entre saltinhos e desabafos. Tanto me dá para dissertar um ódio de morte a quem se (e me) atropela nos transportes para apanhar um lugar sentado, como quanto me é indiferente estar numa praia cheia de gente. Tanto me dá para estar serena e ver passar as modas, como implicar com uma tendência. Tal como gosto de tendências e me aborrece estar quieta. É isto, o meu "não és tu, sou eu" aplicado ao blog.  

Quando escrevo tento ser coerente. Ou não, sou-o sem querer e se não o sou talvez (só talvez) repense o caso. Dizem que os peixes estão representados em direcções opostas, circulando sem nunca se encontrarem. Eu sou peixes, e nem ligo a estas coisas (cá está, um para cada lado).

Eu sou de gostos e paixões, sou de birras e implicações. É muito provável que os venha desabafar no Delito e achei por bem fazer o disclaimer.   

 

Obrigada ao Pedro Correia pelo convite, espero estar à altura. 

 

PS - vi que escolhi estrear-me numa altura triste para o DO. Lamento o sucedido e o momento doloroso para todos.

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