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Blogue da semana

por Inês Pedrosa, em 19.06.17

Pipa não sabe voar  é o nome do blogue de "uma bibliófila convicta" que se chama Paula, mora em Brasília e diz que "ler é a sua forma de voar". O blogue é exclusivamente dedicado à literatura, quer através de poemas ou  excertos de livros, quer sobretudo - e nisso reside a sua força e o seu apelo - através de sólidas resenhas dos livros que esta leitora lê. E lê muito, de variados países - com um destaque comovente para a literatura portuguesa, que o blogue acompanha com tanta intensidade quanto a literatura do seu país, o Brasil. Pipa tem uma escrita inteligente e límpida que motiva para a leitura. Acresce que, de um modo geral, os seus critérios coincidem com os meus. Sim: ela já escreveu, e bem, sobre vários livros meus, foi assim que descobri este blogue. Mas não é só nem essencialmente por isso que o recomendo, como poderão concluir se o forem visitar.   

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Os pregadores do modo de vida

por Inês Pedrosa, em 25.05.17

Em contraponto aos hábitos do islamismo radical, é comum ouvirmos a expressão “o nosso modo de vida”. Ora uma das alegrias fundadoras das sociedades democráticas e laicas é a de, ao contrário das ditaduras (de esquerda ou de direita, se é que esta distinção faz algum sentido prático para alguém), não definirem nenhum “modo de vida” – nem sequer, para raiva dos invejosos de serviço, “estilos de vida”. O estreitamento da democracia que temos vindo a sofrer nas últimas décadas, alegadamente por causa da crise financeira internacional, tem feito o seu caminho nos corredores mentais das pessoas, afunilando-os também. A ideia, milhões de vezes repetida, de que não há alternativa à austeridade, acabou por diminuir os sonhos e as expectativas de populações inteiras, empurrando-as para os caminhos da desistência – esse monstro que nos impede de criar verdadeiras alternativas.

 As ciências e as artes têm demonstrado, desde o início do mundo, que a vida é um mar de possibilidades. Da invenção da agricultura à luz eléctrica, da anestesia às viagens a Marte, a humanidade não parou de encontrar outros “modos de vida” diferentes dos estabelecidos. Há um problema de base quando quase metade da riqueza mundial está nas mãos de 1% dos seres humanos – e um estudo recente da Oxfam prevê o agravamento deste descalabro nos próximos dois. Garantir um equilíbrio mundial que passa por uma redistribuição da riqueza não é uma questão de “modo de vida”, mas de civilização. À medida que o conceito de “competição” se foi tornando central e obrigatório na cartilha económica e ética dos tempos modernos, descartou-se o termo “civilização” para abolir a ideia, tida por primária, de comparação. Interessante paradoxo, que entretanto faz muito mal a muita gente.

 Na sequência do massacre à redacção do Charlie Hebdo, esgotada a união inicial em torno do choque, entrou-se no tempo do “mas” com o seu cortejo de elucubrações filosóficas escapistas – incluindo aquela, aventada por boas e cultas almas, de que a “nossa liberdade de expressão”, descendente de Lutero e de especificidades europeias, deve parar à porta da não-liberdade dos outros, que não têm a mesma genealogia. É o esplendor do paternalismo condescendente (e cobardolas, pormenor pouco filosófico mas pertinente). Recordo que hoje mesmo (se nada mudar entre a terça-feira em que escrevo e a sexta em que este texto é publicado) será de novo chicoteado em praça pública, na Arábia Saudita, um homem que entendeu, apesar de árabe, ter direito a pensar pela sua própria cabeça. E que milhões de seres humanos são torturados e mortos apenas por quererem pensar e viver livremente. A liberdade não admite “mas” – e, sobretudo, não pode continuar a ter filhos e enteados, consoante as culturas. O terrorismo de Estado é tão terrorista quanto aquele que não tem sede nem nação.

 Um conjunto de opinadores supostamente liberais aproveitou o massacre para dizer que ele resulta da atenção da Europa às chamadas “causas fracturantes” em vez de se preocupar com a segurança e a economia. Como se a atribuição de direitos a mulheres e homossexuais impedisse os restantes aspectos da governação. A mensagem implícita é a de que a manutenção de sociedades mais “tradicionais” não excitaria tanto os radicais islâmicos. A eterna mensagem do medinho e da resignação. Não, isso é que não é modo de vida.

      

Publicado no jornal Sol,23.5.2015

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Viver com medo é vegetar

por Inês Pedrosa, em 23.05.17

Nunca direi à minha filha de 19 anos, que estuda cinema em Londres, que não vá a um concerto ou a uma peça de teatro, que não vá filmar aqui ou ali, que não atravesse a ponte que atravessa todos os dias, que não saia de casa, que se proteja. Persistirei em protegê-la do medo, o maior inimigo da liberdade. Viver com medo é vegetar. 

Alyssa Elsman, uma jovem de 18 anos, foi mortalmente atropelada há um par de dias por um terrorista que lançou um automóvel sobre as pessoas que passeavam em Times Square, Nova Iorque. Podia ter acontecido à minha filha. Será cruel chamar-lhe terrorista: sim, ele disse que queria matar e ser morto, mas não era por nada; estava louco, dizem-me. Terrorista, no meu dicionário, é o que pratica o terror. Nunca há justificação para o terror. Setenta e não sei quantas virgens no céu, um artesão de barbas e voz grossa que teria feito o mundo, a vitória da pureza suprema contra a badalhoquice das mulheres, não são argumentos que me convençam, nem podem ser levados a sério por ninguém. Este, de Times Square, era só doente mental: tivessem-no tratado antes que ele matasse uma menina que tinha direito à vida. Não esquecerei Alyssa. Do assassino não quero lembrar-me. Muitos deles matam para ficar na História, numa página de jornal, Hamlets de sarjeta, míseros assassinos que se vingam por interposta pessoa.

Por isso tenho pedido e continuarei a pedir aos órgãos de comunicação social: não dêem eternidade aos biltres. Apaguem-lhes os nomes. Quando a extrema-direita clama pelo fechamento de fronteiras e expulsão de imigrantes, é útil revelar que estes assassinos, na maioria das vezes, não são imigrantes - parece ser esse o caso do de Manchester. Mas para dizer isso não é preciso dar glória e fama ao seu nome. Este silenciamento dos carniceiros desincentivará futuros criminosos. A juventude é influenciável, pois. Mas a conversa mole sobre a discriminação social como justificação derradeira do terrorismo também não me serve. Há tempos, umas criaturas, certamente acéfalas (ou muito distraídas) chamaram-me «racista» no twitter porque recordei que, se a discriminação social fosse o motor do terrorismo, os negros seriam os grandes terroristas do mundo - e não são, nem nunca foram. Caramba: houve povo mais mal-tratado na história da Humanidade que o de origem africana? Pois é.

De modo que, quer queiramos quer não, acabamos na violência religiosa - e na especialíssima violência contemporânea da religião islâmica. O islamismo radical está furioso com a liberdade de costumes do Ocidente, com os direitos das mulheres e dos homossexuais, com a alegria e a realização sexual. E o islamismo não-radical é - que me desculpem essas santas almas, se existirem - de um silêncio tão ruidoso que me faz mal à cabeça.    

Na Síria, no último ano, morreram centenas de meninas e meninos de todas as idades. Não nos afecta porque não nos imaginamos ali. Imaginamos pouco. Quando a minha filha chorava porque não queria ir para o infantário, eu dizia-lhe: «Estás a chorar porquê? Nasceste no Afeganistão?". Aos três anos de idade falava da vida do Afeganistão a quem a quisesse ouvir. Dizia: «Aquilo é só pedras, não há água. E, se houver, não dão a água às mulheres.»

Nunca disse à minha filha nada sobre a água do Afeganistão. Sucedeu apenas que ela começou a imaginar como seria ter nascido ali. Educação é empatia com o sofrimento humano, ou não é nada. Penso assim. Penso, logo existo, dizia Descartes - frase ainda hoje revolucionária.     

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Editor português, precisa-se

por Inês Pedrosa, em 22.05.17

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«Sejamos reaccionários ou progressistas, voltados nostalgicamente para o passado ou resolutamente para o futuro, todos somos modernos, porque reivindicamos e exercemos a liberdade de amar quem quisermos, como quisermos e durante quanto tempo quisermos.  
Somos, por outras palavras, senhores dos compromissos que assumimos. Esta soberania preenche-nos, mas também nos confronta, sem evasão possível, com as questões que atormentavam a Princesa de Clèves : basta que amemos para sabermos amar?  O amor será em si mesmo amável, digno de estima e de confiança? 
Podemos tratar destas questões através da estatística e das ciências sociais.Sem subestimar a utilidade dessas aproximações, escolhi uma outra: a literatura. Madame de La Fayette, Ingmar Bergman, Philip Roth e Milan Kundera foram os meus guias.»
Alain Finkielkraut.

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Terceiro Mundo é isto

por Inês Pedrosa, em 21.05.17

«A cantora terá também pedido ao Benfica para o filho treinar no centro de estágio do Seixal. O treinador anunciou  aos jogadores da equipa de sub-12 das Águias que passariam a treinar no campo nº 1, devido ao facto de contarem com o filho de uma estrela da música mundial

(de uma notícia sobre a provável mudança de Madonna para Lisboa)

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Que violência mostrar?

por Inês Pedrosa, em 17.05.17

Deve ou não um telejornal mostrar actos de violência? A resposta a esta questão é fundamental, e o que sobre ela decidirmos define uma ética. Há uma coerência de base exigível a qualquer sistema valorativo ou legal - valores ou leis arbitrárias representam o terror, a mais tenebrosa e incontrolável das imprevisibilidades. Estaline e Hitler usaram a prerrogativa da excepção contínua para manterem toda a gente - dos seus íntimos à população anónima - imóvel, obediente, submissa, incapaz de reacção, em permanente estado de aterrorização.

Alguns responderão um «não» curto e imediato, argumentando que violência desencadeia violência e que a exibição da violência tem o defeito suplementar de excitar o voyeurismo. Outros responderão um «sim» igualmente célere, enfatizando a necessidade de alertar os cidadãos, de os tornar mais atentos, precavidos e, se possível, interventivos, reduzindo, deste modo, a probabilidade de futuros actos violentos.

O argumento pacifista de que a visão da violência gera um acréscimo de violência depara-se com uma dificuldade essencial e intransponível: a violência que inunda a cultura - popular e erudita - do século XXI. Da mais permissiva televisão ao mais exigente cinema, o culto da violência é uma constante - para permanecermos no registo da imagem e, em particular, da imagem em movimento, mais irresistível e, por conseguinte, mais alienante do que as imagens estáticas ou as imagens mentais, desenhadas a partir da leitura ou da audição. Desde há muitos anos tenho vindo a anotar e a registar que a preocupação dos adultos com a protecção das crianças face ao mundo da pornografia é muito mais forte do que a de as proteger do universo da violência. Como se a violência fosse um dado adquirido - e até como se fosse útil às crianças o contacto com esse mundo, para as tornar mais resistentes e competitivas. A competição, não o esqueçamos, é o pilar universal da cultura contemporânea: do auto-denominado Estado Islâmico até ao mais aprazível dos estados nórdicos, a ideia de «superação» subjaz a tudo. Quando os pais dizem que só querem que os filhos sejam "mais" qualquer coisa do que eles próprios (felizes, ricos, inteligentes, etc) estão a criar neles uma ansiedade competitiva profunda: ninguém vale pelo que é, todos somos chamados a ser «mais» qualquer coisa do que os progenitores ou o vizinho do lado. A cultura da competição é uma cultura de violência.

O argumento belicista de que a visão da violência forma uma camada de protecção em relação a essa violência também não colhe: décadas de estudos têm provado que educação é exemplo, ou seja, que a violência é, de facto, contagiosa. Tudo está impregnado de violência, na nossa cultura de matriz cristã e católica, cujo símbolo icónico é um homem pregado numa cruz. Que muitos pais católicos coloquem esta imagem sobre o berço dos filhos recém-nascidos, eis uma forma de violência que sempre me incomodou. De resto, todas as religiões são férteis em fábulas de violência - porque o medo estimula a dependência, o acatamento e a crença. Acresce que a publicitação da violência provoca directamente o seu crescimento: o culto dos mártires, como o dos heróis, é auto-reprodutivo: cada mártir ou herói, sozinho, se bem propagandeado, gera centenas de outros. 

Não havendo uma forma ideal de lidar com este tema, creio que o mais sensato será adoptar um princípio misto, mas de contornos firmes e claros:os telejornais deverão mostrar os actos violentos, porque não os mostrar seria restringir o direito democrático à informação total. Os cidadãos têm direito a conhecer a fundo as questões sociais do mundo em que vivem, de modo a poderem tomar decisões informadas. Mas esses filmes nunca poderão expor o rosto das vítimas nem dos verdugos (porque a publicitação dos verdugos também os multiplica). Actos de tortura e extrema violência - por exemplo, as decapitações do ISIS, os enforcamentos no Irão ou a morte na cadeira eléctrica nos Estados Unidos - não devem ser mostrados ( mais uma vez, por uma questão de protecção da dignidade individual e também para não incrementar pulsões assassinas, mais comuns do que se imagina)  - mas devem ser narrados. Já tenho escrito várias vezes que deveria criar-se um consenso nos media quanto à não divulgação pública do nome de autores de massacres - para não lhes conceder essa fama póstuma que os engrandece aos olhos de outros. 

Virarmos a cabeça à violência ou apontarmos o dedo a quem a denuncia não me parece a forma correcta de lidar com este problema central do nosso tempo.

Acresce que há formas de violência psicológica praticadas diariamente pela comunicação social - a difamação através da insinuação, por exemplo - sobre as quais ninguém parece disposto a pensar seriamente: atira-se, na melhor das hipóteses, um "alegadamente" sobre o carácter de alguém cuja força e influência se pretende diminuir, e chama-se-lhe tudo, de ladrão a abusador. Com esta forma de violência as pessoas facilmente pactuam, caso a caso, ao sabor dos seus amores e ódios pessoais ou ideológicos, sem quererem entender que a questão de fundo é grave e afecta-nos a todos: trata-se do direito de cada um (vedeta ou não, político ou pastor) ao bom nome, à reserva da vida privada, à auto-determinação individual, à opinião e à liberdade. Seres moralmente moídos tornam-se presas dos poderes - e os poderes, sejam eles o 1º, o 4º ou o 5º, sabem-no bem.    

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Na morte de B.B.

por Inês Pedrosa, em 11.05.17

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Baptista-Bastos foi um escritor bem bom. Escrita sensorial, a dele - com cheiro, cor, corpo, ritmo. Fulminante na ironia, felino na narração das contradições do tempo e das pessoas, dono um vocabulário preciso, imaginativo e riquíssimo. Quem quiser saber como era o Portugal urbano e pseudo-intelectual amansado pela ditadura tem de passar pelos seus romances. Pareceu-me sempre muito subestimado enquanto romancista, creio que por ser jornalista. Havia (e há ainda, mas não posso dizê-lo porque lá virão umas doutas almas dizer que sou parte interessada) na intelligentzia local um entendimento geral segundo o qual médicos ou professores dão bons romancistas: jornalistas, nunca: sapateiros a quererem ir além da chinela. Esse entendimento era (e é) acirrado pelos próprios camaradas jornalistas, que odeiam os camaradas que escrevem livros, pelo menos enquanto eles próprios não os escreverem também. Reli há meses O Secreto Adeus e Elegia para Um Caixão Vazio e confirmei: resistem ao tempo, à releitura. Lêem-se de um trago, fazem-nos sorrir, pensar. E amar melhor Lisboa, apesar de todas as suas mazelas, ou precisamente por causa delas. B.B. pintava a cidade com engenho e arte.   

"O adjectivo é a prosa a tomar partido", disse-me o BB, era eu uma miúda recém-chegada aos jornais. BB era gentil com a miudagem, e sem paternalismos. A união destas duas características, na época, era rara nos jornais. O Fernando Assis Pacheco e o Fernando Dacosta faziam questão de ser assim: poucos mais. À distância percebe-se como o ser e o escrever afinal se entrelaçam: os atentos, os sensíveis, os disponíveis, os ternos, os cáusticos, os autênticos, eram também os de melhor texto. "Não tenhas medo do adjectivo: o adjectivo é a prosa a tomar partido", repetia, então, o B.B. Respirei fundo, cheia de alegria: passava a vida a ouvir discursos contra os adjectivos proferidos por poderosos jornalistas que tinham chegado aos cabeçalhos da imprensa com um mini-vocabulário de Cartilha Maternal de João de Deus, em versão pornográfica.

B.B. tomava partido: essa era uma das coisas que eu apreciava nele, concordasse ou não (muitas vezes não) com os partidos que ele tomava. Nunca sofreu da famosa má-língua nacional, indústria caseira produzida em barracas clandestinas, mais rápida a estragar fígados do que a produção vinícola. Não praticava aquela cortesia tão portuguesa de esperar que uma pessoa vire costas para começar a falar mal dela. Pegava-se de caras. Amava e odiava sem hipocrisias. Sabia que nada estraga tanto a escrita como a hipocrisia e a videirice. 

B.B. continuará vivo enquanto for lido. Da minha vida não desaparecerá. 

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A geração esquecida

por Inês Pedrosa, em 08.05.17

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Acabo de ler O Pianista de Hotel, novo romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, que andava desaparecido do mundo da ficção há dez anos. Fico contente com este regresso, e ainda mais contente porque se trata de um bom romance. Procuro acompanhar o que se vai publicando em língua portuguesa; creio que ninguém pode ser um honesto artífice de uma determinada literatura (pelo menos isso) sem a conhecer bem, no seu passado e no seu presente. Espanta-me a quantidade de escritores contemporâneos que nunca leram Raul Brandão nem Machado de Assis, e choca-me que se possa despachar o génio de Agustina Bessa-Luís com o disparate "é uma chata", sem que um raio caia em cima de quem profere tal aleivosia ( mais uma prova de que não existem milagres, e que a justiça divina é tão ronceira como a terrena).

Entre os meus contemporâneos, confesso que corro a ler com particular interesse e carinho os livros dos meus companheiros de geração, isto é: os escritores do meu país que começaram a publicar na segunda metade da década de oitenta ou no início da década de noventa do século passado. O Rodrigo publicou o primeiro romance exactamente há 25 anos, como eu. Nesse ano de 1992, estrearam-se também José Riço Direitinho ( com A Casa do Fim) e Pedro Paixão ( com A Noiva Judia). Esta geração literária que surgiu imediatamente a seguir - e na contramão - da geração do pós-25 de Abril (a chamada geração da guerra-colonial: António Lobo Antunes, Lídia Jorge, João de Melo, Mário de Carvalho, etc), teve em Adeus, Princesa ( Clara Pinto Correia, 1985) e Hotel Lusitano (Rui Zink, 1987) os seus dois pilares inaugurais - dois magníficos romances sobre uma nova era, a era da globalização, feita de novos desafios, esperanças e desesperos e, acima de tudo, novas linguagens. Os leitores perceberam e amaram estes dois romances muito mais depressa e melhor do que a crítica - e isso mesmo foi acontecendo a todos os outros escritores portugueses desta geração, que inclui, além dos já mencionados, Ana Teresa Pereira, Francisco José Viegas e Rita Ferro, por exemplo.  

O novo milénio veio revelar uma novíssima geração de múltiplas e variadas vozes, que teve a sorte de aparecer num tempo em que a juventude é, por si só, considerada uma forma de talento ( é ver a quantidade de prémios destinados a escritores jovens). No tempo em que éramos jovens, nós, os tais da geração-sanduíche entre os heróis da guerra colonial e as estrelas da pós-globalização, o melhor que podia acontecer-nos era ninguém nos ligar. Quando nos ligavam, raramente era por bem - nunca esquecerei, por exemplo, a violência personalizada e agigantada com que, no Expresso, foi espancado o segundo romance de Clara Pinto Correia, Ponto Pé-de-Flor. Suponho que pretenderam castigá-la pelo sucesso que Adeus, Princesa alcançara junto dos leitores -prémios, teve zero; esta geração tem sido aliás pouquíssimo premiada, por comparação com as imediatamente anteriores e posteriores.Certo é que a editora francesa Gallimard desistiu do contrato de publicação que tinha proposto a Clara Pinto Correia por causa da extrema brutalidade dessa crítica, alegando que não podia apostar num autor estrangeiro cujo segundo livro desmentia a promessa do primeiro. A Gallimard acreditou na "ciência" da crítica; não sabe que este pequeno país é uma lâmina de microscópio onde todos se conhecem e interferem directamente na vida alheia, todos se amam ou se odeiam.

A geração literária dos que eram demasiado crianças para poderem ter sido heróis de Abril e parecem agora demasiado velhos para serem adorados como oráculos do futuro tem vivido à margem do reconhecimento oficial. O que, na minha opinião, só a favorece. Sim, há grandes e belas vozes nesta minha geração. 

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Beaux Toujours (5)

por Inês Pedrosa, em 07.05.17

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Jamie Foxx 

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Filosofar é combater o paternalismo

por Inês Pedrosa, em 06.05.17

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Ruwen Ogien morreu há dois dias (a 4 de Maio). Recebo a notícia hoje, 6 de Maio, quando se completam 19 anos sobre a morte do meu pai, coincidência que obviamente não coincide com coisa nenhuma a não ser com os meus labirintos interiores. Quem era Ogien? Interessantíssimo filósofo francês, defensor de uma ética minimal que nos defenda do paternalismo e garanta a liberdade de cada um ser o que quiser e como quiser. Este pensador parte do princípio de que não temos qualquer "dever" ou "imperativo" moral para connosco, mas apenas para com os outros; esses deveres podem ser positivos (ajudar, fazer o bem) ou negativos ( não fazer mal), sendo que devemos privilegiar o dever negativo, isto é, o de não interferir na vida alheia, de forma a evitar o paternalismo - nomeadamente, o perigo de fornecermos "ajudas" indesejadas pelo alvo da nossa ajuda, desrespeitando desse modo a sua individualidade e auto-determinação. Particularmente estimulante era o seu método de pensar; Ogien servia-se de toda a espécie de materiais leves e pesados: intuições, experiências pessoais, dados históricos, sociológicos, jurídicos, normas lógicas, etc: entendia que do ecletismo bem organizado nasce a luz.  

O último livro de Ruwen Ogien é uma reflexão cáustica e acutilante sobre o culto do "dolorismo" e da suposta redenção através do sofrimento. É também uma crítica cortante ao totalitarismo hospitalar, ao elitismo dos médicos e ao modo como os doentes têm de se transformar em Sherazades do pessoal clínico, encantando-o para merecer os seus favores, designadamente analgésicos. O livro intitula-se: Mes Mille et Une Nuits. La maladie comme drame et comme comédie ( Albin Michel, 2017). Outros livros dele que destaco: L'éthique aujourd'hui. Maximalistes et minimalistes. (Gallimard, 2007) e  L’influence de l’odeur des croissants chauds sur la bonté humaine et autres questions de philosophie morale expérimentale (Grasset,2011). Alô, alô, há algum editor por aí com coragem para os publicar? 

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Comecei a trabalhar na redacção do semanário O Jornal, a tempo inteiro e com salário zero - estágio, chamavam-lhe eles - a 2 de Janeiro de 1983. Ainda não havia o capitalismo neo-liberal e não sei que mais, nem a crise dos mercados financeiros, nem o modo de vida do Sócrates, enfim, nada dessas coisas tenebrosas que vieram perverter o mundo e, segundo os entendidos, atrair as pessoas para a extrema-direita, a loucura e a morte. Certo é que, sem nenhum desses horrores no horizonte, já se praticavam os estágios gratuitos, mesmo em jornais de esquerda como, segundo as boas línguas, era o caso daquele.

Tive sorte: o jornal, então maioritariamente masculino, queria jovens do sexo feminino para mandar para a Assembleia da República. Explicaram-me os chefes que, sendo a maioria dos deputados do sexo masculino, convinha que fossem entrevistados por jornalistas do sexo oposto, com decotes generosos, para os levar a responder com maior sinceridade. O Rogério Rodrigues foi incumbido de me levar ao Parlamento para me apresentar as pessoas.

Não correu muito bem: assim que me viu, Almeida Santos fez-me uma festa na cabeça e pespegou-me dois beijos nas bochechas, antes que o Rogério tivesse tido tempo de explicar quem eu era. "Homem, vocês agora vão buscar jornalistas ao infantário?" - perguntou, embaraçado, Almeida Santos. Ofendida, retorqui que já tinha 20 anos. O então Ministro de Estado e dos Assuntos Parlamentares declarou: "Pois olhe, eu não lhe dava mais de 15". Assim terminou a minha promissora carreira de repórter parlamentar. Aproveito para prestar as minhas homenagens a Anabela Neves, minha colega de turma na universidade, e a Maria Flor Pedroso, que honraram e honram a difícil e delicada especialização do jornalismo parlamentar, em décadas de trabalho isento e exemplarmente rigoroso. Entraram para a profissão nessa época em que as redacções machas queriam meninas para impressionar os deputados, e sobreviveram magistralmente a essa sinuosa forma de assédio profissional.

 

A palavra assédio, pura e simplesmente, não existia. Quando o orientador de estágio que me fora designado no jornal começou a sussurrar-me que tinha de ir jantar com ele para garantirmos que eu conseguiria o emprego, valeu-me o apoio da Clara Pinto Correia, que entrara um ou dois anos antes para o jornal e tinha uma inteligentíssima capacidade de contra-ataque. Aconselhou-me a Clara a que marcasse o jantar na agenda de serviço do jornal, que estava colada na parede, no meio da redacção. De facto, essa boa acção teve o condão de anular de imediato o apetite do meu orientador. Pouco depois, consegui que me transferissem para a secção de cultura e passei a ser orientada pelo Fernando Dacosta, a quem devo lições essenciais sobre jornalismo, teatro, literatura e, sobretudo, dignidade humana.  

Ao fim de um ano e meio de estágio gratuito, o José Carlos Vasconcelos e o António Mega Ferreira, respectivamente director e chefe de redacção do JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, contrataram-me para a redacção deste jornal cultural, que passava então de quinzenal a semanal. Um belo dia, fui encarregada de entrevistar um escritor já em processo de consagração que, enquanto ia respondendo à entrevista, tentava meter-me as mãos em todas as partes do corpo (excepto, salvo erro, os tornozelos e os pés). Lembro-me de ter pensado de mim para comigo: "Respira fundo e faz de conta que estás numa daquelas comédias italianas desesperadamente ansiosas por parecerem picantes". O literato Don Juan extraira da minha cândida pessoa a confissão de que eu queria um dia escrever romances e, enquanto me dedilhava, dissertava sobre a superior facilidade de escrita que eu experimentaria se me deitasse com ele. Respondi-lhe que, mesmo que o talento se contagiasse sexualmente, preferiria escrever à minha maneira, e não à dele, o que o fez concluir, escandalizado: " Além de pespineta, você é uma arrogante".

Infelizmente, esses dois grandes defeitos não o fizeram desistir do assédio, antes pelo contrário, e o ordálio continuou por uns tempos, sem que eu me tivesse queixado a ninguém. Nem me ocorria. Nesses tempos considerávamos tais ataques como "normais". Preço a pagar pela ousadia de querermos afirmar-nos num mundo de homens. 

 

Hoje, sabemos identificar o assédio. Continuamos todavia a deixar que nos desmereçam. A aceitar que nos diminuam. A pactuar com o desmerecimento e a diminuição de outras mulheres. Sem sequer darmos por isso. 

- Ele a mim tratou-me sempre muito bem.

A frequência com que ouço esta frase, entre mulheres e contra mulheres, em situações de relações pessoais ou laborais, e o que ela representa de falta de solidariedade, cobardia, indiferença, obediência e auto-depreciação, leva-me a pensar que o pior assédio é o do medo. Invisível, inatacável, persistente, mantendo cada ovelhinha no seu lugar.

 

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Crónica Feminina

por Inês Pedrosa, em 27.04.17

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Escrevi durante nove anos consecutivos, sem uma semana de férias que fosse, uma crónica semanal com este título para a revista do jornal Expresso. Homenagem irónica à velhinha Crónica Feminina: um dia o então director do Expresso  José António Saraiva propôs-me que fizesse "uma crónica para a mulher" e eu, respirando fundo, perguntei: " Uma espécie de Crónica Feminina? " Para minha sorte, Saraiva tinha boas memórias da revista. Eu também: aos 12 anos de idade, ganhara nessa revista os primeiros 500 escudos da minha vida, prémio do concurso semanal "Cartas de Amor, Quem as Não tem". Ganhei-o com uma carta de amor à minha mãe, enviada para o concurso por uma prima - e deu-me um gozo especial porque a minha mãe detestava a revista e não queria que eu a lesse, por causa das fotonovelas que trazia. Mas eram fotonovelas bem eruditas: a edição em que se publicava a minha carta tinha um capítulo da fotonovela Madame Bovary. Ironicamente também, essa minha crónica acabou uma noite em que o recém-nomeado director do Expresso Ricardo Costa me telefonou dizendo que, para continuar, a crónica teria de ser quinzenal e eu teria de, cito, "alternar com um homem". Respondi (para gáudio do meu camarada Rui Zink, que estava a jantar comigo e assistiu a este diálogo) que já não tinha idade nem posição para iniciar uma vida de alterne. E assim se finou a minha Crónica Feminina.  

Vim a descobrir mais tarde que também Clarice Lispector escrevera, mais ou menos pelas mesmas razões do que eu,  uma Crónica Feminina. Quando cheguei ao Brasil tinha vergonha de não ter lido Clarice, sobretudo porque todos os jornalistas diziam que se notava haver uma cumplicidade entre mim e ela. Tinham razão: eu é que ainda não sabia. 

Lembrei-me desta história ao ver esta noite uma reportagem classista e presunçosa, na RTP 2, sobre essa popular e pioneira revista feminina. Valeu à memória da revista a Maria Antónia Palla, mulher livre, sem parvoíces peneirentas nem papas na língua. Houvesse mais mulheres assim e a paridade não estaria no pântano em que continua: muita lei, muito paleio, e nada de prática. Podiam pelo menos ter recordado a jornalista que lançou a revista, Maria Carlota Álvares da Guerra, por sinal mãe dessa fabulosa (e subestimada em Portugal, embora justamente idolatrada no Brasil)  actriz que é Maria do Céu Guerra. Mas a memória, neste país de mansos sonsos medíocres e fatais invejosos, é uma rapariga sem vício nenhum, nem o menor dos contactos com a verdade.

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Descubra as diferenças

por Inês Pedrosa, em 20.02.17

Na reportagem que o Expresso online publicou sobre a leitura pública do romance O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, realizada na Fundação José Saramago, escreve-se: "Foi a escritora e antiga presidente da Casa Fernando Pessoa quem deu início à leitura, lembrando que estavam todos ali por serem amigos do Valter" (conferir aqui). A gravação video da minha prestação demonstra que eu não "lembrei" isso - nem nunca o "lembraria", não só porque não sou íntima do Valter, mas sobretudo porque se tratava de valorizar a qualidade de um livro e de um escritor. O reconhecimento do talento faz muita confusão a certa imprensa; custa-lhe a crer que haja outras coisas entre a terra e o céu além do corporativismo. Deixo aqui a gravação, para mostrar a diferença.

 

 

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O regulador da democracia

por Inês Pedrosa, em 08.01.17

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O regulador da democracia

 

         O que irreversivelmente se perde com a idade é a fé nas pessoas. O peso das decepções rasga-nos as asas e torce-nos a perspectiva. Passada a fase da inocência bruta em que dividimos o mundo em bons e maus, entramos numa zona de nevoeiro. Habituamo-nos depressa a ela porque, bem vistas as coisas, é confortável: a mistura entre o bem e o mal pode ser amarga e complicada, mas poupa-nos a má-consciência e o remorso. Sem darmos por isso, tornamo-nos desconfiados, pensando que deste modo nos defenderemos melhor das armadilhas da vida. Essa defesa é a verdadeira armadilha; tira-nos o gozo de viver, que é o da partilha, impossível sem confiança.

Conheci demasiadas pessoas que morreram sozinhas – sobretudo mulheres – porque não aceitavam ninguém perto delas: começaram por desconfiar dos amigos, depois da família, depois de qualquer mortal. Tenho um amigo que costuma dizer: «cada vez gosto mais de menos gente». O António Alçada Baptista, que teria feito 85 anos no passado dia 29, dizia que há uma tribo que se reconhece pelo gesto e pelo olhar. E dizia outra coisa muito importante: que as pessoas se dividem entre as que preferem, em qualquer circunstância, a liberdade – e as outras, maioritárias, que escolhem a segurança. Dizia-me que a razão da sua amizade profunda e indefectível por Mário Soares era essa: Soares sempre escolhera a liberdade – e escolhera-a quando essa escolha, mais do que difícil (como sempre é) era perigosa e implicava uma coragem invulgar.

A democracia portuguesa deve muito a Mário Soares; independentemente de aproximações partidárias, penso que só os que ainda acreditam na bondade das ditaduras do proletariado não serão capazes de o reconhecer. Podemos discordar dos seus pontos de vista sobre este ou aquele tema, mas é impossível não lhe reconhecer uma sabedoria política e uma argúcia inultrapassáveis.

Há sete anos discordei da sua terceira candidatura à Presidência da República pensando que a democracia exigia mudança nos cargos de poder, renovação. Mas o panorama das figuras políticas é hoje tão desolador que já não consigo pensar assim. Não é uma questão de idade: aos 50 anos Soares conseguiu impedir a guerra civil em Portugal, estabelecer no país uma democracia ocidental e integrar Portugal na Comunidade Europeia. O ensaio «autobiográfico, político e ideológico» que publicou recentemente (Mário Soares – um político assume-se – edição Temas e Debates/ Círculo de Leitores) reclama o primado da política e a sua dignificação, lembrando essa coisa básica e esquecida: a economia é uma ciência ao serviço das pessoas, não um Deus ao qual as populações devam ser imoladas.

Numa entrevista concedida a Paula Moura Pinheiro, na RTP-2, Soares explicou como aproveitou o tempo de prisão para ler, ler muito, ler continuamente – e não apenas ensaios políticos, mas romances, através dos quais ampliou o seu conhecimento da existência humana. E disse que não se pode ser um bom político sem se ler muito. A leitura afinou-lhe a inteligência e aguçou-lhe a inocência, sem a qual ninguém pode ser livre nem coisa nenhuma que valha: assim, diz tranquilamente que o problema da direita americana é que «está cheia de gente de má qualidade». É importante manter o fio dos ideais e saber distinguir a qualidade das pessoas.

Há tanta entidade reguladora de coisa nenhuma. No estado actual do país, devíamos criar para Mário Soares o lugar de regulador da democracia. Ele saberia negociar com Angela Merkel e com as troikas. Talvez até conseguisse injectar um litro de bom senso neste governo que dispensa o Carnaval.

 

 ( crónica publicada a 10.2.2012 no semanário Sol

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Se alguém lhe oferecer flores...

por Inês Pedrosa, em 19.11.16

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... isso significa que essa pessoa gosta de si, quer sair consigo, eventualmente iniciar um namoro consigo. Se a oferta das flores vier de um cônjuge que habitualmente não lhe faz essas surpresas, pode ser um acto de má-consciência na sequência de uma infidelidade. 

Oferecer flores não é "assédio sexual" - a não ser que quem oferece seja chefe de quem recebe as flores e que as ditas venham acompanhadas de uma intimação para um encontro a sós. Nesse caso, e pressupondo que  não sente qualquer interesse romântico pelo/a dito/a chefe (porque não é crime desenvolver um interesse pessoal por um superior hierárquico), a pessoa que se sente intimada deve declarar de imediato e tranquilamente o seu repúdio pela proposta e afirmar que tomará medidas se essa aproximação indesejada continuar.

Qualificar toda e qualquer tentativa de aproximação como "assédio sexual" é grave, porque desvaloriza a realidade - tão torturante e criminosa - do assédio sexual, favorecendo a sua continuidade e o aumento de vítimas.

Querer "comer", sexualmente falando, outra pessoa, é aquilo a que se chama "desejo", e uma das grandes alegrias da existência.

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Beaux Toujours (4)

por Inês Pedrosa, em 19.11.16

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Robert Downey Jr. 

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A âncora da memória, 1: Caetano Veloso

por Inês Pedrosa, em 17.11.16

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A MENSAGEM DO TROPICALISMO

 

Caetano Veloso

 

Em 1968, atendendo ao convite de uma emissora de televisão e ao pedido de meu empresário, o fascinantemente esclarecido carioca Guilherme Araújo, apresentei uma canção chamada É proibido proibir. Como eu não via valor intrínseco na canção, animei-me a enriquecê-la com os timbres da banda Os Mutantes em arranjo estruturado pelo maestro Rogério Duprat e a transformar a apresentação num happening complexo. E como a abreviadíssima peça se resumia à repetição de uma frase francesa tratada com procedimentos do rock anglo-americano, tudo isso influenciado pela música eletrónica erudita alemã, decidi recitar as seguintes palavras enquanto os três músicos disparavam sons atonais sobre um ritmo de marchinha quebrado (ou desdobrado) em seis por oito:

 

«Sperai! Cahi no areal e na hora adversa

Que Deus concede aos seus

Para o intervalo em que esteja a alma imersa

Em sonhos que são Deus.

 

/Que importa o areal, a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É O que eu me sonhei que eterno dura

É Esse que regressarei.»

 

Assim o fiz porque queria e precisava me aproximar do que me atraía e me amedrontava – sem falar no que me repugnava – na mística sebastianista que conhecera através de amigos que tinham, na Bahia, tido contato com o professor Agostinho da Silva. A apresentação aconteceu no auge do que veio a se chamar tropicalismo. Fazia exatamente um ano que essa aventura começara e esse momento – sem sequer uma boa canção – significava para mim o ingresso de corpo inteiro no desconhecido. Dada a reacção furiosa da platéia, Gilberto Gil, meu parceiro no projeto, ficou amedrontado. Eu também fiquei. Mas, por imaturidade e desconhecimento da vida, bem menos do que ele. O misto de atração e pavor, tingidos por certa repulsa, não estava ausente de minha aproximação do rock ou da música atonal. Assim, o sebastianismo seria apenas mais uma terra semi-incógnita entre as tantas que tentava visitar. Mas eu sabia que, por mais que essa fantasia de volta do encoberto fosse a mais estranha aos interesses compartilhados pelas pessoas com quem eu convivia – direta ou indiretamente – ela era central e estruturante do movimento que desencadeávamos. Ela, e não o rock ou a vanguarda erudita, podia servir de substrato ideológico ao tropicalismo.

O apelido que nosso movimento ao princípio ganhara e com o qual, em parte, se identificava, era som universal. Tropicalismo me parecia restritivo – e o sebastianismo de Agostinho como sua infraestrutura, redutor, equivocado e assombroso. Mesmo assim, era ele, e nada mais, que se sustentava por trás do enfrentamento da ditadura militar sem adesão ao imaginário de esquerda vigente, por trás do redimensionamento da cultura popular norte-americana e do amor aos experimentalismos formais da arte e da poesia.

Minha vinda a Lisboa agora me exige a pergunta: como avalio hoje o papel que Mensagem – e a visão de Agostinho sobre ela; Fernando Pessoa – e a visão de Agostinho sobre ele – tiveram na minha música ligeira, nas minhas escolhas políticas e no meu pensamento íntimo?

Não deixa de ser significativo que me tenham convidado para falar ao lado de Antonio Cicero – e que ele tenha me trazido a casa, entre outras coisas para ler antes da nossa vinda – e estendendo-o em primeiro lugar – exatamente o livro Um Fernando Pessoa, de Agostinho da Silva, que foi também o que me deram a ler na Bahia quando, tendo assistido a uma conferência do professor, disse ao meu amigo (que era o mais entregue discípulo entre os que Agostinho tinha em Salvador) que dela saíra impressionado. O que Cicero, na contramão das modas pós-estruturalistas, foi buscar no nascedouro da modernidade, ou seja, em Descartes, sua ideia de absoluto negativo, o cogito ultracartesiano e, como ele próprio já disse com belas palavras aqui mesmo em Lisboa, encontrou no racionalismo pessoano (e na concepção pessoana do eu  independente do sujeito empírico) ilustrações para sua tese. Isso me põe numa situação bastante sugestiva e algo incômoda: «A Europa em que Portugal assenta não é, felizmente, a Europa cartesiana»  – são as palavras de Agostinho da Silva num de seus momentos de revelação do sentido geral de Mensagem e da poesia de Fernando Pessoa. O que poderá reconciliar uma afirmação como essa com a decisão filosófica de Antonio Cicero? No entanto, mesmo na apreciação – por mais vaga, inexperta e desavisada que seja – que esboço do pensamento de Cicero, essa perspectiva sebastianista ainda se apresenta como pano de fundo ou como arcabouço provisório. Quer me parecer que o fato de que se tenha escrito justamente em português brasileiro a mais consequente defesa do fundamento cartesiano diz muito sobre a originalidade brasileira; e, mais importante, sobre a responsabilidade brasileira com relação à criação desabusada de um futuro cheio de grandeza espiritual. Fernando Pessoa não desprezaria essa incoerência, esse paradoxo.

Uma outra ideia de Agostinho pensando Pessoa que reluz à aproximação de Cicero é a complexa observação de que a atitude de Ricardo Reis diante da vida que existe à sua volta é, em parte, como a de um romano, «mas não com a alegria que, estranhamente, nós passsamos do nosso cristianismo para o paganismo antigo – e o julgarmos o cristianismo triste é ainda um resto do nosso paganismo –  mas com uma tão intensa melancolia que os próprios jogos do amor, o desabrochar das rosas e o saborear dos vinhos têm sempre diante de si o homem impassível que já está pressentindo como hão-de os ventos de outono varrer amor, flores, aroma».

Meu psicanalista, que se chama MD Magno, e, sendo um inventor dentro da disciplina que elegeu, progrediu do lacanismo para uma produção esotérica que, para minha surpresa, apresenta uma versão de sucessão de impérios, usando termos semelhantes aos de Vieira, Pessoa e da Silva, ao me ouvir comentar esse trecho, disparou: «o cristianismo é depressivo, e dessa perspectiva o paganismo surge como portador da alegria». O que me fez pensar imediatamente: «eu não soube contar bem o que li no trecho citado». Esse MD Magno é muito engraçado e esperto. Possivelmente ele também pensou algo além do que disse, pois viu em minha cara a relativa insatisfação e eu logo vi na sua a insinuação de outra volta do raciocínio –  mas tínhamos coisas mais urgentes a tratar, a vinda a Lisboa e as leituras a isso relacionadas eram apenas parte de um drama mais confuso e abrangente e, de todo modo, o tempo da sessão se esgotara. Mas o que pensei foi que Agostinho flagrara a alegria da luz do Espírito Santo sendo projetada na alegria melancólica dos romanos – e ainda por cima com o cuidado de distingui-los dos gregos, cuja complexidade, se levada em conta na construção da frase, exigiria outras palavras. Agostinho tinha acabado de dizer que Fernando Pessoa julgara Ricardo Reis um semi-helenista e tinha comentado: «e se há algum domínio em que seja difícil ser semi, esse domínio é exactamente o da Grécia:  a Grécia é muito mais complicada do que a fizeram os franceses, e saber só metade de uma complexidade é na realidade não a saber; ao passo que não há perigo nenhum em se saber só metade da simplicidade que foi Roma». Depois disso é que a frase sobre a perspectiva cristã projetar alegria na vida e poesia romanas apareceu no texto. Não posso deixar de notar, aqui, que  ele nada disse sobre o que os alemães fizeram da Grécia.

Seja como for, nem Cicero nem meu psicanalista sentiriam o contentamento de identificação que senti com a frase de Agostinho sobre a alegria do cristianismo, quando ela chegou no correr do texto. No entanto, talvez mais difícil para mim seria aderir à exigência de que, no Império a ser fundado, a definição do conceito Portugal exclua «as formas institucionais que vão, como o autoritarismo político, o liberalismo econômico ou a negação do Espírito Santo, contra o que há de estrutural no próprio homem». Sei que, exatamente no tempo em que Agostinho escrevia essas palavras e em que eu as lia, Portugal e Brasil viviam sob autoritarismo político e aderiam a algum liberalismo econômico. O ritual anual de uma criança vestida de imperador, soltar um preso no dia do Espírito Santo, eu ainda o encontrei na Bahia da minha adolescência. Eu odiava crianças, mas achava bonito esse rito. Confesso que odiava crianças porque a criança aparece como figura idealizada em toda a interpretação que faz Agostinho da obra e dos sonhos de Pessoa. O Menino Jesus do poema de Alberto Caeiro se espalha por toda a visão que Agostinho tinha dos quatro poetas e da mensagem de Mensagem. A trindade fomada por Maria, o Menino Jesus e o Espírito Santo é-me imediatamente muito mais simpática do que a formada por este mais o Pai e o Filho. Assim, como já  não odeio crianças (o nascimento de meus filhos foi o maior acontecimento de minha vida adulta) e continuo a odiar autoritarismos políticos, esbarro na negação em bloco do liberalismo econômico. É bem verdade que, saturado da iconografia católica e um tanto enjoado com as idéias tipo O Pequeno Príncipe como interpretação do chamado de Jesus, «deixai vir a mim as criancinhas», posso por vezes me sentir um pouco incomodado pela supervalorização da infância (uma coisa que as crianças são as primeiras a desprezar: ou será isso um sintoma da glorificação da vida adulta que teria invadido Portugal com a vitória da Europa sobre os atrasos medievalizantes de sua corte?). Mas gosto de ler a revolta que causa em Agostinho o reconhecimento de que na Inglaterra da Revolução Industrial o monstruoso não era que houvesse crianças de oito anos trabalhando em fábricas, mas que aquilo fossem adultos de oito anos. Assim como hoje, nas favelas do Rio, vemos adultos de nove, dez, treze anos trabalhando no tráfico de drogas e carregando armas de fogo. O que não consigo ver é como as liberdades políticas se podem dar sem que haja algo como o liberalismo econômico. Mas que digo? Se justamente a força de sonho que me encanta no projeto sebastianista que Agostinho achou desenvolvido em Pessoa e passou, tanto por meu intermédio quanto pelo de Glauber, para os tropicalistas? Será? Se me maravilho diante de declarações como «Portugal já civilizou Ásia, África e América, falta civilizar Europa», por que esbarraria numa condenação do liberalismo? Pela simples razão de que vejo esses arroubos, esses mitos e esses sonhos como a sugestão de assumir tarefas.  

Faz pouco, causei, meio involuntariamente, um pequeno escândalo no Brasil por ter aparecido num jornal dizendo que o presidente é analfabeto. Era realmente algo feio de se ler na primeira página do jornal. Feio porque, primeiro, não é verdade factual: Lula não é analfabeto. Segundo: porque esse tom me aparecia semelhante ao tom grosseiro que tanto me desagrada na nova direita que faz sucesso nos media (ou na mídia, como se diz no Brasil). No entanto, nem quis corrigir o que me pareceu edição sensacionalista de minhas palavras: estava mais interessado em quebrar o tabu de, em certas rodas (amplamente majoritárias) estar proibido dizer-se mal de Lula. Mas a verdade é que, à luz tropical do sebastianismo de Pessoa via Agostinho, Lula surge a meus olhos como uma figura de grandeza histórica e épica. Uma grandeza bem do tipo épico em versos líricos que se encontra em Mensagem. Sinto ternura, simpatia, amor pelas figuras que parecem carregar a tocha dessa caminhada em que me descobri implicado desde menino: um uso da visão supersticiosa para assumir tarefas em que a superstição desaparece. E que pretende livrar-me, e a todos nós,  para sempre, das superstições. Perante as superstições tomadas a sério, como os marxismos de minorias de massa, o sebastianismo que me ficou do acaso de ter nascido no Brasil, falar português e ter sido apresentado a Pessoa (e ao que dele disse Agostinho) num momento crucial de minha vida se traduz hoje assim: ver a imagem do Cristo Redentor do Rio de Janeiro subir como um foguete na capa da The Economist na mesma semana em que fui informado de que não poderá haver turnée do meu show nos Estados Unidos por causa da enorme desvalorização do dólar. E completar essa trama com a nota de Paul Kruegman sobre Obama ter titubeado e mostrado insegurança em entrevista à Fox News me dá angústia. Penso em MD Magno dizendo que a passagem do Império do Filho para o do Espírito Santo não se dará sem muito sofrimento e que já estamos em começos dela. É demasiado simbólico que Obama seja o primeiro presidente negro e que ele tenha um nome-do-meio árabe (suponho que Barak seja bíblico, Hussein, árabe, e Obama, subsaariano). Que ele tenha assumido num momento de desestabilização do Império Americano e de ameaças ao Ocidente por parte de extremistas muçulmanos só amplia e intensifica essa impressão. O Brasil de Lula que é o Brasil de Fernando Henrique, o primeiro Brasil realmente pós-ditadura, já que Collor apenas abriu o Mercado e quase destruiu o país, não é só o Brasil do inchaço do Estado. É sobretudo o Brasil da promessa de ganhar crescente poder mundial e apresentar uma maneira nova de exercê-lo: sem a força das armas nem da grana como determinantes. Mas como chegaremos a algo assim, se há adultos de nove anos segurando armas pesadas nas favelas e a crueldade da polícia contra os pobres pode ser imensa; e a crueldade dos grupos que detêm poderes econômicos ilegais, mas fortes, pode ser infernal? É na coragem do enfrentamento disso que se encontra a nossa tarefa. De minha parte, apenas canto canções ligeiras e busco pensar como se exerce essa atividade entre nós.

 

Conferência proferida na Casa Fernando Pessoa a 4 de Dezembro de 2009, posteriormente publicada no 1º número da revista Pessoa, em Dezembro de 2010.

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Beaux Toujours (3)

por Inês Pedrosa, em 16.11.16

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Javier Bardem

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Beaux Toujours (2)

por Inês Pedrosa, em 15.11.16

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 Caetano Veloso 

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O melhor cliente é o que ainda não chegou

por Inês Pedrosa, em 15.11.16

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Há uns tempos aconteceu-me no restaurante Muralhas, em Óbidos: "Essa mesa não pode ser, está reservada". Perguntei se o autor da reserva tinha pedido especificamente aquela mesa para duas pessoas, encostada à parede. Responderam-me que sim. Só ficámos porque já era tarde e estávamos num desses dias celebrativos em que os restaurantes transbordam. Nunca chegou ninguém para a tal mesa que não podia ser. Nunca mais lá voltámos, claro. 

Agora foi no restaurante Prim, na Ericeira. Éramos dois, já passava das nove e meia da noite, dirigíamo-nos a uma mesa para quatro, num cantinho. A empregada disse-nos que não podia ser, porque podia ainda chegar um grupo de quatro pesssoas, e encaminhou-nos para a outra mesa disponível, para duas pessoas, ao lado dessa e praticamente colada a outra mesa ocupada. Volvidos 20 minutos chegaram mais duas pessoas... que foram encaminhadas para a simpática mesa de quatro, mais isolada, que nós tínhamos pretendido. Só não saímos porque já estávamos a comer. Mas não voltaremos, evidentemente. Para muitos restaurantes portugueses, os clientes que merecem ser bem tratados são os que ainda não chegaram. Sebastianismo gastronómico. 

 

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Beaux Toujours

por Inês Pedrosa, em 14.11.16

Nova secção, com vénia a Pedro Correia. 

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    Marcello Mastroianni 

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Avalanche

por Inês Pedrosa, em 11.11.16

Morreu Leonard Cohen. Eu ter-lhe-ia dado um Nobel qualquer. Por exemplo, o da química. O meu corpo e a minha alma explicam porquê, desde que, aos 11 ou 12 anos, ouvi pela primeira vez esta canção. So long, Leonard. 

 

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Na manhã seguinte à derrota de Hillary Clinton já estava em curso uma suposta campanha em prol da candidatura presidencial de Michelle Obama, em 2020. Nem vou comentar a estupidez política da iniciativa, tão óbvia é: uma das razões da rejeição de Hillary foi a questão "dinástica", pelo que propor imediatamente Michelle só pode servir para a queimar. Nem vou alongar-me sobre a - também óbvia - misoginia desta ideia de que a melhor candidata mulher terá de ter sido necessariamente mulher de um Presidente. A minha questão é outra, e ética: a arrasadora imoralidade deste abandono imediato de Hillary. Não gostavam dela, é isso? Mesmo que seja isso: quando apoiamos alguém, o mínimo olímpico de ética que se exige é que fiquemos ao lado dessa pessoa no momento da sua queda. Que lhe seguremos a mão quando tudo se esboroa, caraças. Pergunto a esses febris corredores de lebres: gostariam que os vossos próximos desertassem no momento de maior dor? Achariam natural? 

Como o próprio T***p acabou por dizer no discurso da vitória (depois de ter passado a campanha eleitoral a insultá-la soezmente e até a prometer mandá-la para a prisão, é preciso não esquecer), Hillary Clinton tem uma vida inteira de dedicação ao serviço público. Em 1977, co-fundou a associação Advogados em Defesa das Crianças e Famílias do Arkansas. Entre 1979 e 1992, liderou a reforma do sistema de ensino do Arkansas. O seu plano de saúde (de 1993) era muito mais avançado do que o de Obama - tão avançado que não conseguiu que fosse aprovado. Entre 1997 e 1999, criou o Programa de Seguro de Saúde para Crianças, a Lei da Adopção e da Segurança Familiar e a importantíssima e inovadora Lei dos Adoptivos Indepententes. Como secretária de Estado de Obama, visitou mais países do que qualquer dos seus antecessores e incentivou o acesso das mulheres aos cargos de poder. Terá cometido erros, evidentemente: só quem não faz nada não os comete. E foi sujeita a um escrutínio e a uma crueldade que não se aplica a nenhum político do sexo masculino: a eleição de T***p é prova disso. Ah, é que T***p não era político, e por conseguinte não sofre de nenhum dos múltiplos vícios de que essa classe padece - é esta a lengalenga do populismo triunfante. Sabem que 87% do dinheiro da Fundação Clinton é mesmo aplicado em programas destinados a melhorar o mundo? Quantas fundações portuguesas conhecem que façam isto? E o que fez T***p em prol do seu semelhante?      

O empenhamento e a capacidade política de Hillary pareceram-me sempre muito maiores do que os de Bill - que, aliás, várias vezes tem afirmado que foi ela quem o empurrou para a política. Tive pena que não fosse ela a candidata em 1992; evidentemente, não teria qualquer hipótese, nessa época. Nem agora a teve, não só porque a misoginia custa muito mais a ultrapassar do que o racismo, mas também por ser a mulher de um ex-presidente. Até das infidelidades do marido a acusaram: T***p chegou a dizer publicamente que, se Hillary nem sequer conseguia satisfazer o marido, certamente não conseguiria satisfazer a América. Sim, é nisto que ainda estamos. Ou que cada vez mais voltamos a estar. Poucos meses antes de morrer, em 1993, Natália Correia disse-me que não tinha vontade de continuar a viver porque o início do milénio seguinte seria de acentuado retrocesso civilizacional, e preferia não assistir a isso. Lembro-me muitas vezes dessas palavras proféticas. 

Não é só T***p nem o que ele significa; é o facto de, no lado pretensamente oposto ao racismo, ao sexismo, ao isolacionismo e à arrogância que o dito cujo representa, se encontrar gente para a qual palavras como lealdade e solidariedade não representam nada. Este cavalo perdeu a corrida? Apostemos já noutro, adiante. É a febre do next, a ambição sem freio nem reflexão, uma visão da existência como gigantesca onda a surfar, de sucesso em sucesso. Quando lhes dizemos: «tenham vergonha», espantam-se do nosso arcaísmo. Boa sorte com esse modo de vida.  

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Celebrar Agustina

por Inês Pedrosa, em 15.10.16

Agustina Bessa-Luís faz hoje anos. Das saudades que tenho dela, das suas palavras, do seu carinho, daquela sua gargalhada que vale mil bibliotecas, não sei falar, nem vêm ao caso. O melhor presente que se pode oferecer a um escritor é ler os seus livros. Deixo aqui o texto que publiquei no Expresso, em 1999, sobre o romance A Quinta-Essência  (Guimarães,1999), uma das muitas obras-primas que Agustina nos ofereceu.  

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Em que consiste a Quinta-Essência? Agustina dá-nos uma primeira aproximação ao enigma a páginas 67/68: « As mulheres não são pacientes com o amor. São pacientes com tudo e de tudo fazem hábitos. Do amor é que não. Daí que muitas delas deixem de ser honestas e se entreguem a uma forma de criação que é principiar do nada coisas efémeras que nunca acabam. Chama-se a isto a Quinta-Essência, a região do fogo e do amor. Mas é muito raro que alguém possa atingir essa última metamorfose.» Todo o universo agustiniano circula em torno dessa incandescência sobrenatural; este romance, porque se situa em Macau, infinita roleta em que se cruzam Ocidente e Oriente, ilumina de forma particular a demanda dessa espécie de Graal interior.

No aparente lugar do protagonista ( porque em Agustina todos os protagonismos são ilusórias aparências) temos um homem que parte para Macau movido pelo abstracto sentido da vingança: despojado da sua casa, dos seus bens e da sua família pela revolucionária lei das Ocupações, decide, uma década depois, ferir o capitão que a assinara, através da filha ilegítima que o mesmo deixara em Macau. Puro pretexto para fugir à sua própria sombra, que o mesmo é dizer, para se afundar nos abismos dela. Chama-se Pessanha, este homem que gosta de impressionar as mulheres ao ponto de para isso se tornar catedrático em ciências humanas, com a candura cerebral que muitas vezes assiste aos grandes imorais. Chegado a Macau, afasta-se desse seu nome, que substitui pelo outro, de pior historial, de Santos Pastor, de modo a que o fantasma do Pessanha poeta se desimagine dele. Mas Camilo Pessanha sobrevoa o seu destino, entranha-se-lhe na memória da pele à medida que o seu caminho pelas portas da China se torna irreversível.

Na origem dessa irreversibilidade está o amor que se revela a José Carlos Pessanha através de Iluminada, a filha do seu inimigo. Um amor praticamente impossível, a que siara Debra, a pequenina e férrea avó chinesa de Iluminada, concede um breve tempo de floração, para que a vida lhe sobreviva nos ritos das estações. «Sempre é pouco para o amor», diz ela, e pouco mais diz. Nesta frase resume a quinta-essência do encontro de José Carlos e Iluminada.      

«Ela sabia, por tradição muito antiga, que o amor não estava ao alcance dos mortais. Conheciam os ritos do sexo, as paixões que tornam os homens assassinos ou profetas, ou que os levam a viver nos mais áridos desertos. Mas a quinta-essência era-lhes vedada. Se assim não fosse, viviam eternamente, o que é grave infracção às leis que pesam sobre o mar Morto e sobre o qual Satanás tem grande poder.»( p.211).

Não é de sexo que se trata – embora o sexo seja tratado com um desassombro e um rigor de acupunctura, tocando todos os equívocos da sua afirmação actual, incluindo o caso da «descarada e encantadora menina Lewinsky» neste livro especificamente oriental de Agustina – mas da melancolia do conhecimento que o acende.«A quinta-essência, de que os chineses conhecem a cadeia perfeitamente combinada, atribui ao sexo um meio de atingir a divina longevidade. Mas é tão subtil o seu uso e fundamental a sua harmonia, que poucos conseguem obter algo mais do que o prazer.»(pp. 217-218) Trata-se do intratável: o amor, palavra devorada pelo quotidiano mediático da civilização ocidental. Trata-se, por conseguinte, de deslocar a palavra para lhe desocultar a luz afogada e lhe entender a voz, através das frinchas de outra civilização. «A quinta-essência consumava-se na memória do encontro que não é da carne, mas das profundas faculdades da inteligência comum. Nada era mais galante do que o viver tal companhia. E, estando separados, se encontravam no enigma.» (p. 257).

A história de José Carlos e Iluminada desenha-se com sublime delicadeza sobre o manto imenso dos mistérios da História próxima e distante de Portugal e da China, não só porque o jogo das interrogações infinitas amplia os limites e a sapiência do amor, mas sobretudo porque no mundo de Agustina o tempo é o menor dos escultores, o burocrata de serviço às modas que ofuscam para a terrível contemporaneidade da natureza humana, por todos os séculos dos séculos. Já em 1964, a propósito de Os Quatro Rios, Eduardo Lourenço definia a escrita de Agustina Bessa-Luís como «uma tapeçaria, mas dum género especial, aberta». ( in O Tempo e o Modo, nº 22).«”A vida é feita de arrumações de coisas que não são nossas” – pensou Iluminada. Pensamentos que muito antes de nós já comoveram alguém e que estão em toda a parte, no vento, na água, no sol. Uma vez encontrados, a quinta-essência destaca-se como um ponto brilhante no universo e tudo volta ao seu lugar.»( p.248).

 

A Quinta Essência.jpgA expressão aforística, que neste romance atinge um grau de autêntico esplendor, prende-se, não com uma exibição compulsiva de autoridade individual, como certas leituras ligeiras frequentemente sugerem, mas com esta impessoalidade profunda que, como sublinhou Silvina Rodrigues Lopes num dos seus penetrantes estudos sobre a escritora,«(...)produz um pensamento indeterminado, simultaneamente inteligência contagiante, revelação que interfere na formação do leitor, e abertura de múltiplas hipóteses(...)» ( Agustina Bessa Luís – As Hipóteses do Romance, Asa, 1992, p. 30). Sob um estilo aparentemente clássico, a autora estilhaça todas as regras convencionais da criação de personagens e de desenvolvimento da acção: as personagens – em particular os homens - são intrinsecamente virtuais ( imprevisíveis, permeáveis, porosas), a acção deixa-se contaminar pelas múltiplas recriações da memória de acções anteriores, a citação vicia e vigia inconscientemente o tecido íntimo do devir. Como o par de apaixonados deste romance, a escritora pensa sem temor nem repouso no pensável e no impensável, arriscando saltar no escuro todos os muros até hoje estabelecidos. Nesse sentido, Agustina foi post-moderna avant la lettre.

A ousadia deste romance que investiga as semelhanças entre portugueses e chineses, o encontro entre Ocidente e Oriente, prepara-o para atravessar, numa intocável fórmula de beleza, o milénio que vem aí – como O Sonho no Pavilhão Vermelho de Cao Xueqin atravessou o mar do tempo até chegar a Agustina, que fez do autor um onomatopaico e próximo «amigo Joaquim» e da saudade desse sonho oriental a pedra de toque desta portentosa declinação das idades do amor eterno. 

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Do princípio ao fim (15)

por Inês Pedrosa, em 07.10.16

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"Eulália começou a morrer na terça-feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. À cabeceira, Madruga presidia os festejos e os hábitos implantados na casa desde a sua chegada à América. Olhava então os presentes com certo tédio, deles cobrando sangue e apreço pelas travessas com a comida adornada."

Assim arrancam as 705 páginas de A República dos Sonhos, romance de 1984 recentemente reeditado em Portugal pela Temas e Debates. Os romances inesquecíveis são longas conversas sobre política, lendas, memórias, sentimentos, mágoas e descobertas. A ficção de Nélida Piñon pertence a este caudal. Os seus romances são ensaios, experiências existenciais em que o passado se esclarece e o futuro se revela; os seus textos ensaísticos convocam memórias, descobertas e esse dom da surpresa próprio do ficcionista – a associação atrevida, a brincadeira com os círculos imprevisíveis do tempo, a elasticidade da escrita.

         A República dos Sonhos narra a saga de uma família de emigrantes galegos no Brasil, de um modo muito original, a partir dos três dias em que a matriarca decide morrer – a grande decisão da sua vida – e convoca filhos e netos para a despedida. A vida do patriarca e dos seus descendentes entretece-se com as vicissitudes do Brasil ao longo do século XX. Quando Getúlio Vargas chegou ao poder, em Novembro de 1930, pondo fim à chamada República Velha, o Brasil quis acreditar que poderia transformar-se numa República dos Sonhos.  A brutalidade da ditadura, com o seu cortejo de torturas e ignomínias, adiou esse sonho, mas nunca conseguiu matá-lo, talvez porque a omnipresença da morte exalte os impulsos da vida. Madruga, o emigrante bem sucedido, avisa o seu contraponto Venâncio, emigrante falhado, mas nunca desistente: “ Não se pode conviver intensamente com dois países mortíferos como o Brasil e Espanha. Você terá de abrandar um deles dentro da alma. De outro jeito, eles terminam por matá-lo.” (p. 173). O paralelo permanente entre a Espanha e o Brasil, “países vorazes e movediços”  é a pedra de toque deste romance. Nélida, como Breta – a neta escritora de Madruga, que partilha com ele e com a autora o relato da história – assume-se como uma voz claramente brasileira e americana, mas arqueóloga das suas raízes galegas e europeias. Essa ligação a dois territórios tão distantes permite-lhe o entendimento profundo que advém da conjugação entre intimidade e estranheza, estar dentro e fora do tempo, num lugar, não de omnisciência, mas de límpida ciência do particular. O retrato minucioso do tempo da ditadura militar, e do modo como ele se reflecte nos comportamentos e destinos individuais, é particularmente rico e pormenorizado. Os ditadores não caem do céu – nem os Madrugas desbravadores, sobreviventes à fome e avessos à resignação.

8341277330326G.jpgNélida Piñon tem um talento particular para cruzar o pessoal e o político. As múltiplas personagens deste romance, com o seu lastro e as suas vozes singulares, dão-nos a conhecer as forças e fraquezas do Brasil e também da Galiza, reconciliando-nos com o oceano do tempo ao qual, enquanto mortais, estamos sujeitos. Nós morremos – mas a República dos Sonhos não. Nélida Piñon consegue ser simultaneamente estilista da língua, historiadora, psicóloga, socióloga, filósofa, pintora. “É preciso buscar a linguagem certa. Pobre do escritor que se equivoque nessa escolha. Sobretudo há que se escrever na língua principal que o país está produzindo naquele momento. Se Montaigne tivesse escrito em latim, ninguém o recordaria agora.” ( p. 669). A aliança com uma língua representa um compromisso com a memória dos povos que a utilizam. Romancista que não domine todas as áreas das artes e ciências do humano, não é nada. Há menos romancistas do que se pensa, neste tempo de especialização e fragmentação aguda.

         Breta permanece sempre menina porque é escritora. Isso permite-lhe confiar na palavra e ousar as ilusões e desilusões que são a matéria fundamental da escrita e do conhecimento. A arte cria uma película de candura que nos protege da vida e nos ensina a não desistir dela. Diz o avô Madruga à neta escritora: “Essa graça que temos de narrar se deve ao facto de sermos celtas, Breta. É a nossa maior herança. Mas, também, o que sobra de um povo sem o seu imaginário? Deve ser por isso que o primeiro ato das ditaduras é proibir a imaginação. Nada asfixia mais do que sermos privados de inventar.” ( p. 79).  Na imaginação radica a liberdade. Hannah Arendt explicou como o totalitarismo esmaga o indivíduo, retirando-lhe qualquer espaço de acção, anulando-o na massa. O romance é um dispositivo de combate anti-totalitário – e A República dos Sonhos é um vigoroso e clarividente exemplo disso. Eulália, a mulher apagada que se ilumina quando decide morrer, explica-nos em que consiste o ofício de sonhar: “O sonho é uma distinção, Madruga. É como saber construir com perfeição uma gaiola ou um barco, fazendo-os parecer um palácio mourisco”. Saibamos merecer este palácio.

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Um trabalhinho para o engenheiro Guterres

por Inês Pedrosa, em 06.10.16

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As sauditas iniciaram há 90 dias uma campanha no twitter, sob a hashtag #StopEnslavingSaudiWomen, tentando acabar com a prisão masculina a que estão sujeitas para absolutamente tudo, incluindo tratamento médico. Sim, se o "guarda" de uma mulher da Arábia Saudita decidir proibir-lhe a assistência médica, tem esse direito. A Arábia Saudita prometeu na ONU acabar com o sistema de "guarda masculina" para as mulheres em 2009, depois em 2013. Agora atira esse projecto para 2030, e as sauditas fartaram-se de viver nesta hedionda escravatura e iniciaram a corajosa campanha sobre a qual escrevi aqui 

Espero que o novo secretário-geral da ONU use o seu poder e as tais qualidades extraordinárias que dizem que ele tem para pôr fim a esta ignomínia. Se o conseguir, talvez eu consiga encontrar-lhe atenuante para o desprezo que mostrou pela saúde reprodutiva das portuguesas, em 1998, quando substituiu a lei da interrupção voluntária da gravidez aprovada no Parlamento por um referendo que prolongou por mais dez anos o drama da mutilação e morte por aborto clandestino em Portugal.

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Jornalismo, dizem eles

por Inês Pedrosa, em 04.10.16

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No sábado passado houve celebração internacional conjunta dos idosos e da música. O Presidente da República foi à Casa do Artista, que apresentou um curto espectáculo musical, e prestou homenagem à minha querida amiga Nini Remartinez, antiga cantora do dueto Irmãs Remartinez, que aos 97 anos é uma das pessoas mais jovens e inspiradoras que conheço. Como o Presidente chegou rodeado de câmaras de televisão, à noite passeei pelos telejornais em busca da reportagem da visita. Na RTP, mostraram o Presidente a falar do sigilo bancário, à porta da Casa do Artista, sem qualquer referência ao local e ao motivo da visita. Sobre o dia do idoso, o telejornal do canal público de televisão apresentou uma reportagem sobre a crescente obesidade dos mais velhos, por preferirem dietas pouco saudáveis. A TVI foi mais longe no esticar dos princípios deontológicos do jornalismo: utilizou o coro de crianças que cantou para o Presidente na Casa do Artista como ilustração do "coro das críticas da esquerda" ao veto presidencial da lei sobre a quebra do sigilo bancário. Nem uma referência à instituição, à homenagem, ou ao anúncio feito por Marcelo de que realizaria em breve, na Presidência, um evento conjunto com a Casa do Artista. Só a SIC apresentou, depois das declarações sobre o sigilo bancário, uma reportagem sobre o evento em que tais declarações haviam sido feitas.

O bom-senso e a boa educação mandariam que, em visitas oficiais a instituições de solidariedade ou cultura, o Presidente se limitasse a falar dos temas das visitas. Isso não evitaria o uso abusivo de imagens ( no caso, ainda por cima, de crianças), mas obrigaria a chamar a atenção dos meios de comunicação para o assunto ou a instituição em causa. Os afectos não podem ser só cenário, pois não?        

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Sobre Crónica do Tempo, de Maria Isabel Barreno

por Inês Pedrosa, em 04.09.16

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Um escritor continua vivo enquanto tiver leitores. Maria Isabel Barreno não foi apenas uma das magníficas Três Marias; seria injusto que a excepcionalidade de Novas Cartas Portuguesas apagasse a obra desta escritora, menos conhecida do que a das suas duas companheiras de aventura e risco - Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa -, mas forte, singular, composta por uma série de romances fundamentais para compreender o Portugal contemporâneo. Destacaria A Morte da Mãe (1979), Inventário de Ana (1982), Célia e Celina (1985) ou Crónica do Tempo ( 1990 - Prémio Fernando Namora). Ao longo dos anos, fui escrevendo nos jornais sobre vários dos seus livros - deixo aqui um excerto do texto que escrevi em 1990 para o Expresso sobre Crónica do Tempo, esperando estimular potenciais leitores para a descoberta desta voz woodyalleneana da nossa literatura.    

"Maria Isabel Barreno dá-nos a fala das cidades, geração após geração. E um dos principais méritos desta Crónica do Tempo é o de não enquistar na perspectiva e na voz da uma geração, escapando assim  à vulgata dos lugares comuns e dos juízos cataclísmicos sobre a decadência do mundo. A narradora ( ou narrador, pouco importa) olha todos os seus personagens, sejam eles o avô Jorge, colonialista, ou o neto Miguel, surfista, com um mesmo e intenso amor relativo. O amor relativo é o que mora na única assoalhada imutável do coração. Trata-se de um amor desapaixonado, meigo, atento, que permanece para além da fúria dos mitos e que procura compreender em vez de devorar. Um olhar lúcido e cáustico, como só o olhar da ternura pode ser, pousado sobre os pais da ditadura, os filhos do  «vício da sua geração, a palavra. Que aliás já deixara perplexa a geração anterior. A nova geração trazia o ouro do silêncio, talvez fosse isso.» (p.115) Um amor estranho, sobretudo num país de resignações e raivas absolutas. Um país ajoelhado em frente a Nossa Senhora Lá de Fora: « Lá fora é o país onde todos os escritores são ricos e reconhecidos como geniais, onde os pintores pintam entre honrarias diversas, onde não há burocracia(...)» Assim fala Maria Isabel Barreno, através das palavras de Rosa. Jorge: «São os preconceitos contra o dinheiro que nos fazem pobres.O preconceito é inveja» (p. 46) « As casas diminuíram, as mulheres devem ter sentido reduzido seu espaço. As meninas de boas famílias começaram a falar com voz de quem ocupa um espaço pequenino no mundo e se esforça por mostrar isso aos outros. Eu sou doce e frágil, não ameaço ninguém, tratem-me bem.» (p. 66)  «Construímos os nossos ideais políticos tão por fora das realidades como as donzelas românticas constroem seus príncipes encantados no silêncio dos quartos. O confronto com a ditadura em nada nos ajudava, só agudizava a nossa febre, a nossa urgência. Um pai tirano não prepara a donzela para o amor, para o casamento.» (p. 127) «Salazar, tirano triste. Há tiranos benévolos, tiranos loucos. O nosso foi um tirano triste e solitário, este era o seu carisma. De tristeza e solidão convenceu os portugueses, como de um destino natural.» (p. 127).Jorge: «Se os nossos intelectuais não vivessem tão embasbacados defronte da França e da Inglaterra, não teriam dado o monopólio da identidade nacional a Salazar.» (p. 141) Rosa: « O que nos acontece de pior é essa vivência miserabilista de todas as coisas, a grandeza vive-se, não se inventa»."

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As vantagens de ser mulher

por Inês Pedrosa, em 30.08.16

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O blogue da semana

por Inês Pedrosa, em 07.08.16

Como já terão percebido, não sou muito blogueira. Gosto da ideia do blogue, gosto de ler blogues, mas a verdade é que, parafraseando o sábio Herman, eu é mais livros. E também é verdade que, quando me ponho a espreitar os blogues, inúmeras vezes encontro declarações que me deixam a ferver. Tendo sido criada ainda na longa noite do Dr. Salazar, fervo em pouca água. Hábitos da austeridade. A fervura é uma grande musa, mas já não me convém, na minha provecta idade, gastar a água toda, nem ferver por dá cá aquela palha. De modo que, confesso, evito. Um dos poucos blogues que sigo com regularidade e apreço desde há anos é este, onde, por gentil convite do Pedro Correia, vou tentando, a pouco e pouco, ultrapassar as minhas reticências e limitações informáticas, que são vastas.

Neste momento em que as atenções se concentram no Rio de Janeiro, sugiro que descubram o blogue do Instituto Moreira Salles, uma espécie de Fundação Calouste Gulbenkian brasileira, com sede no Rio, dedicada às artes plásticas (sobretudo fotografia), ao cinema (ou não fossem dois Moreira Salles cineastas - o João Moreira Salles e o seu irmão Walter Salles), à literatura e à música. O blog do IMS tem excelentes cronistas (entre os quais o escritor brasileiro Bernardo Carvalho) e fala de livros, filmes, viagens, política, além das exposições e actividades do próprio Instituto. Tem um design límpido e sedutor, com imagens de grande qualidade. Através dele podemos aceder também às edições anteriores da revista Serrote, uma revista de arte & ensaios, belíssima, e com o melhor do pensamento contemporâneo  (também publicada pelo IMS, editada por Paulo Roberto Pires, jornalista, escritor e editor de extrema argúcia). Procurem-no, porque vale mesmo a pena. O endereço deste blogue é: www.blogdoims.com.br.

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Selecção Nacional - 6

por Inês Pedrosa, em 09.07.16

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"A cama flutuante eleva-se agora sobre as nuvens, as chaminés, e os telhados encanecidos. A cama dirige-se para o Criador. E é uma auto-estrada fluida, a que liga a Terra, onde Cristina se encontra, ao infinito, onde está o Criador. A cama sobe até às estrelas, e Cristina sente que está quase a atingir o seu destino. Tem tantas perguntas, nem sabe por onde começar. Quando encontrar Deus, promete, tentará não desatar logo em invectivas, a insultá-lo violentamente, que é o que lhe apetece. É o que lhe apetece, mas controla-se. Será esperta, melíflua, cínica mesmo. Irá com calma. Oferecer-Lhe-á os seus favores, se for caso disso, para melhor O enganar. O coração de Cristina devia estar a bater com força, à medida que se aproxima do ente supremo, mas o que acontece é precisamente o contrário, vai ficando cada vez mais calma, serena, senhora de si própria. " 

Rui Zink, O Suplente, 2000, 344 pp, p. 86. 

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Selecção Nacional - 5

por Inês Pedrosa, em 07.07.16

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"A chuva ia e vinha como uma cortina que ora se fecha ora se esgarça, e ele acrescentou, com o candeeiro levantado e os olhos cravados nos dela — «Nunca te dei nada». E ela continuava completamente surpreendida, pois sabia que não era assim, e quis mostrar como não era assim, como estava rodeada de objectos e seres deixados por ele, imagens, ideias e fundamentos, tecidos e desenhos, os suficientes e adequados, provenientes dele, e se tinha desejado aquele encontro, era só para lhe explicar como vivia com ele, na ausência dele, por tudo isso que possuía. Queria dizer-lhe que não lhe devia nada, pelo contrário, que tudo estava certo como uma conta de multiplicar bem contada, que até ao fim da lógica e dos séculos sempre resiste à mesma prova real. Mas nessa noite era impossível explicar, pois talvez ela não tivesse as palavras, ou tivesse mas não as soubesse unir, ou pelo menos assim acontecia, naquele momento de surpresa em que ele a visitava." 

Lídia Jorge, O Vale da Paixão, 1998, p. 16. 

 

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Selecção Nacional - 4

por Inês Pedrosa, em 06.07.16

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"Não amo a desgraça nem o excesso de graça, mas posso contá-los. Era um salão com lustres e de gente com duzentos milhões, pelo menos, de renda anual em angolares e francos suíços. O meu coração não é duro, porque nesse tempo eu não faria contas dessas. Ao princípio fascinaram-me as relações exemplares. Depois apercebi-me que essa raridade era uma ofensa, como uma desmesurada conta na Suíça e, felizmente, muito mais rara. Os amores únicos e a sua crónica devem ser deixados a escritores menores, os agiotas da ilusão. Ou pervertores de consciências. Ah, se o amor é fulminante e arbitrário, porque não preferir o poder ou a sua prima triste - o conhecimento?" ( pp. 92-93) 

Maria Velho da Costa, Missa in Albis, 1988, 465 pp.

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Selecção Nacional -3

por Inês Pedrosa, em 04.07.16

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"Há quem me considere perigosa e também quem me diga visionária por querer salvar a Pátria portuguesa, mas há igualmente quem se ria nas minhas costas, querendo colar-me a imagem daquela a quem não se pode dar crédito, devendo por isso ser afastada.

As sombras adensam-se em torno da minha casa da Rua da Boa Morte. Assustada, vejo-me a esbracejar em vão, sem poder deixar de lutar por aquilo em que acredito, tentando encontrar o caminho mais hábil para combater o despotismo que sempre sufocou as nações.

Só a poesia me dá algum alento, pois mesmo com as minhas amigas e meu irmão brigo, desconcertando-me comigo própria. E apesar de muitos serem os motivos desencorajadores, todos os dias persisto: saio de casa cedo e fico esquecida, esperando inutilmente nas antecâmaras dos ministérios, sentindo-me transparente aos olhos de quem se recusa a receber-me.

Sabendo-me considerada uma ameaça.

Afinal, em nada do que pretendo se acoita o perigo."

Maria Teresa Horta, As Luzes de Leonor, 2011, p. 957.

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Selecção Nacional - 2

por Inês Pedrosa, em 03.07.16

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"Maria suspeitou que ele se exprimia em verso ou como tal. Com efeito falava sem a olhar mas rindo-se para não dar importância ao que dizia e que apenas lhe saía da boca porque o tinha escrito dentro dele. «Estás aqui comigo à sombra do sol e tenho pena de ser só isto», disse a certa altura. E dói-me um braço, e sei que sou o pior aspecto do que sou.»

Maria: «Não é nada pior. Eu até tenho os seus livros todos.»

O poeta Ruy Belo se a ouviu não se mostrou entusiasmado. Mergulhou na caneca de cerveja e ficou por lá a pensar. Ao cabo de alguns instantes levantou a boca cheia de espuma:

«Acabo de inventar um advérbio: helenamente.» Acenou para o copo: «É isso. A maneira mais triste de estar contente.»

Voltou-se para a Maria: Helenamente, a maneira mais triste de estar contente não tinha nada a ver com estóicos nem com filosofias gregas, a boa menina que não pensasse. Aquilo vinha do nome duma mulher que só ele sabia, e queria dizer o mar, a terra, o fumo e a pedra simultaneamente. Helenamente, simultaneamente.“

José Cardoso Pires, Alexandra Alpha, 1987, pp 425-426.

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Elie Wiesel: nunca esqueceremos

por Inês Pedrosa, em 03.07.16

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Morreu hoje, 2 de Julho, aos 87 anos, a última das grandes vozes literárias do Holocausto: Elie Wiesel. "Noite" narra a sua experiência de prisioneiro nos campos da morte de Auschwitz e Buchenwald, de onde foi libertado aos 16 anos. Enquanto o lermos, enquanto passarmos a sua palavra, Wiesel continuará vivo. E os milhões de assassinados do horror nazi não serão esquecidos.

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Selecção Nacional -1

por Inês Pedrosa, em 02.07.16

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"Só é estável o que nos parece perecível. Busco, volto, abandono e chamo de novo. É isto amor. Trago no meu seio irmãos e horas, luzes, palavras, mitos; o caldeiro cheio de corações humanos onde cozem as suas ervas as feiticeiras do tempo; a roça e a espada, a flor e a poeira. Isto é amor. Quem pode obstar a esta torrente, quem vem, com pé leviano e peca sombra, interceptar o sentido dalguma coisa que nasce no seio do seu próprio sentido? Vou, volto, danço de roda das trípodes e das fogueiras, devasso os corações lívidos dos vivos e o seu frágil comércio sentimental. E percebo que tudo o que foi criado muda, que a alma corre como o vento em busca da sua guarida que é por momentos alguém, depois um projecto, uma dor do lado esquerdo ou o jornal da manhã, o dinheiro, a fama ou o desdentado riso dum mendigo. Que são romances? Histórias fingidas, presenças estudadas, um coro de actividades morais, a burocracia da personalidade. Não é tempo talvez de tais jogos mais ou menos argutos e meditabundos. Cada voz reclama a sua parte de luz, não há heróis, já que tão bem sabemos que o convívio com eles se torna funesto e nos absorve. Cada voz está só e é única, e é contra o coração dos outros, vertiginosamente, que ela ressoa."

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, 1957, pp 38-39.

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Feira do Livro de Lisboa: sessões de autógrafos

por Inês Pedrosa, em 26.05.16

 

26 DE MAIO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Inês Pedrosa (16.30); Maria Manuel Viana (16.30); Patrícia Müller (16 h).

 

27 DE MAIO

Helena Sacadura Cabral (18 h); Maria Manuel Viana (17 h).

 

28 DE MAIO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Cristina Carvalho (16 h); Cristina Norton (17 h); Deana Barroqueiro (16 h); Gabriela Ruivo Trindade (16 h); Inês Pedrosa (17h); Maria Manuel Viana (17 h); Patrícia Reis (17 h); Rita Ferro (17 h); Rita Taborda Duarte (16 h).

 

29 DE MAIO

Alice Vieira (16.30); Ana Margarida de Carvalho (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Ana Zanatti(15.30); Helena Sacadura Cabral (15 h); Joana Bértholo (16 h); Maria João Lopo de Carvalho (17 h); Maria Teresa Horta ( 16.30); Patrícia Portela (16 h).

 

4 DE JUNHO

Ana Margarida de Carvalho (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Deana Barroqueiro (16 h); Filipa Leal (16 h); Helena Sacadura Cabral (17 h); Inês Pedrosa (16.30); Isabel Rio Novo (16 h); Julieta Monginho (16 h); Lídia Jorge (16.30); Mafalda Moutinho (16 h); Margarida Fonseca Santos (17 h); Maria João Lopo de Carvalho (16.30); Maria Manuel Viana (16.30); Rosário Alçada Araújo (17 h).

 

5 DE JUNHO

Ana Cristina Silva (16 h); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Ana Zanatti (15.30); Isabel Rio Novo (16 h); Mafalda Moutinho (16 h); Maria Manuel Viana (16.30); Maria Teresa Horta (16.30); Patrícia Müller (16 h); Patrícia Reis (16.30); Rita Taborda Duarte (16 h); Teolinda Gersão (15.30).

 

10 DE JUNHO

Alice Vieira (16.30); Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (16.30); Inês Pedrosa (16.30); Isabel Zambujal (17 h); Joana Bértholo (16.30); Rita Ferro (16.30).

 

11 DE JUNHO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h); Helena Vasconcelos (17 h); Luísa Costa Gomes (17 h); Mafalda Moutinho (16 h); Patrícia Portela (16 h); Tatiana Salem-Levy (15 h).

 

12 DE JUNHO

Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h); Helena Sacadura Cabral (15 h); Inês Pedrosa (16.30); Rita Ferro (16.30); Teolinda Gersão (15.30).

 

13 DE JUNHO

Alice Vieira (16.30); Ana Maria Magalhães & Isabel Alçada (16 h); Dorothy Koomson (17 h).

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Sondagem às Virgens Marias de Empréstimo

por Inês Pedrosa, em 14.05.16

Quem estiver disposta a suportar uma gravidez e um parto de uma criança considerada alheia e que lhe será retirada ao nascer, ponha o dedo no ar.

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Milan, quem dera!

por Inês Pedrosa, em 12.05.16

Milan Kundera tem levado a vida a protestar porque críticos e académicos insistem em definir os seus romances como "políticos". Sobre A insustentável leveza do ser repetiu incessantemente - e com bons resultados - que se trata de "um romance de amor". O meu problema é exactamente o contrário: quando publiquei o meu penúltimo romance, que falava do 11 de Setembro, de uma iraniana fugida de Inglaterra para escapar de um casamento forçado, que em Portugal se vê obrigada a fugir dos que querem fazer dela uma Vítima Exemplar e do drama identitário dos filhos post-modernos de pais anónimos, entre outros assuntos políticos contemporâneos, a maioria da crítica descreveu-o como um romance de amor. A propósito desse romance, um jornalista perguntou-me, ultrajado: "Por que razão as mulheres preferem sistematicamente os homens casados?". O romance tinha, de facto, uma mulher que se apaixonava por um homem casado, mas creio que, de Tolstoi a Kundera, inúmeros escritores lhe poderiam explicar que o contrário também acontece, e que não há nenhuma estatística divina que faça desses casos um destino. Pedro Mexia declarou, na revista Ler, que eu me tenho ocupado a recuperar a "tradição" do "romance sentimental". A minha mãe gostaria que assim fosse, e creio que o fantasma de Bernardim Ribeiro também. Se ao menos eu pudesse sentar-me com Milan Kundera no café de Flore a trocar cromos: eu ficava com o rótulo do "romance político", ele com o do "romance de amor". E talvez assim lhe dessem finalmente o prémio Nobel que ele tanto merece e que, certamente por amor, lhe têm negado.

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Fábula onde os animais não falam

por Inês Pedrosa, em 08.05.16

Primeiro ouvi o carro a subir a ladeira, aceleração no máximo: que não se duvidasse da potência de quem o conduzia. Depois o choque: bem feita, pensei. Em seguida, o ruído da marcha-atrás e o arranque veloz. Então ocorreu-me que o meu carro estava estacionado mesmo ali, de onde viera o ruído do choque, e saltei do sofá onde estava tranquilamente absorvida pelas reflexões de Milan Kundera sobre a falta de sentido das acções humanas. Encontrei a traseira do meu pobre automóvel, que me serve sem sobressaltos desde 2003, desfeita. Da besta que o esmagou, só os traços das rodas no asfalto. O cão dos vizinhos sabe quem é, fartou-se de ladrar, mas infelizmente não fala. A GNR veio com rapidez, dois agentes muito simpáticos; anotada a ocorrência, prometeram uma volta nos arredores dos bares das aldeias próximas, procurando o responsável. Mas não o encontraram: os cobardes safam-se quase sempre, no mundo de Kundera como no nosso. Passei anos a rejeitar as redes sociais por causa da infestação de ratos humanos. A certa altura, descobri que um jornalista que eu mal conhecia estava zangado comigo por causa de comentários que alguém lhe dirigira num blogue, fazendo-se passar por mim. Descobri também duas páginas de facebook feitas por um alter-ego meu, totalmente desconhecido e tonto. Acabei por aderir ao Twitter, e agora aceitei o gentil convite que o Delito de Opinião me endereçou. Haverá sempre cobardes infames: tanto podem atacar no mundo virtual como no mais remansoso e real recanto rural. Mas não nos vencerão.

Inês Pedrosa

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