Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Taxa turística, habitação, falsa partida

por Tiago Mota Saraiva, em 06.09.17

Na semana passada assisti aos primeiros debates entre candidatos aos municípios de Lisboa e Porto. Não escreverei sobre os debates, mas sobre uma proposta que ambos os cabeças de lista do Bloco de Esquerda - Ricardo Robles (Lisboa) e João Teixeira Lopes (Porto) – defenderam a uma só voz: Taxa Municipal Turística de dois euros e aplicação da receita na resolução do problema de habitação dos dois municípios.

Começo por declarar que partilho com os dois candidatos a ideia que o problema da habitação deve ser central nestes debates autárquicos. Daí a relevância de perceber o que se propõe. Ora, como creio que Robles e Teixeira Lopes saberão, a taxa turística não pode ser aplicada na resolução do problema da habitação. A explicação é simples. Uma taxa implica a prestação de um serviço, pelo que a sua aplicação tem de ser, necessariamente, afecta à actividade turística. Repare-se que nunca estive em desacordo com a taxa municipal turística – que Robles, ainda em Julho de 2015 na AML, propunha anular - e também sou favorável a um imposto - que não existe e que inicialmente julguei, erradamente, ser o que se propunha -, cuja receita pudesse ser investida na minimização da pegada turística e, aí sim, na resolução dos problemas da habitação.
É certo que se poderia gastar os 13,5 milhões de euros arrecadados em 2016 pelo município de Lisboa em obras estruturais que estimulassem o fruir da cidade e a sua coesão territorial, beneficiando turistas e moradores. Discordo que, como defende Fernando Medina, estas verbas sejam aplicadas nas obras de conclusão do Palácio da Ajuda (um processo obscuro sobre o qual já aqui escrevi) ou na criação do Museu Judaico que irá carregar ainda mais o Largo de S. Miguel. Ao invés, parecer-me-ia mais interessante fazer derivar esta receita para políticas de acessibilidade e mobilidade ou para um plano de alargamento dos territórios turísticos da cidade.

Não me incomoda que Ricardo Robles sempre tenha defendido o fim da taxa que agora pretende duplicar o valor. Corrigiu a sua posição. Ainda bem. O que muito me incomoda é que, tendo o BE muito e boa gente com conhecimento sobre o problema da habitação, se apresente a eleições em Lisboa e no Porto com uma medida de alavancagem financeira que sabem que nunca se poderá aplicar. Espero que cheguem a tempo de corrigir esta falsa partida.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Independente

por Tiago Mota Saraiva, em 31.01.17

(publicado ontem no i)

 

É um qualificativo largamente sobrevalorizado nos dias que correm. Numa qualquer discussão não é invulgar fazer-se uma nota prévia de independência como argumento de autoridade sobre os demais.

No jornalismo actual a independência é uma vaca sagrada. Ainda que a experiência jornalística marcante dos anos 90, homónima do adjectivo, tenha estado longe de ser independente como o seu título sugeria, permanece uma interpretação mitológica do ser independente.

No recente Congresso dos Jornalistas, Pedro Tadeu – director na Global Imagens, colonista no DN e militante do PCP – propôs que os jornalistas registassem uma declaração de interesses. A organização do congresso esqueceu o seu nome e posição no jornalismo, para titular no seu site: “Jornalista do PCP defende registo de interesses”. Mesmo que não estivesse em representação do partido e não se conheça a sua posição sobre o que Tadeu defendeu – sendo, para o caso, pouco relevante titular a sua militância – quem escreveu e quem detinha a direcção editorial do site, não tiveram dúvidas em manter o título. Tendo passado pelo referido congresso históricos militantes de outros partidos em nenhuma outra peça se titulou militâncias.

No jornalismo actual glorifica-se a independência cuidando-se pouco da isenção e da pluralidade. Como leitor, entendo que não devo exigir independência a um jornalista, ainda que possa achar relevante ter uma ideia sobre as suas filiações. Quando leio um artigo sobre o Benfica posso achar relevante saber que o seu autor é do Sporting. Esse dado informa o leitor, mas não qualifica ou desqualifica o artigo. O jornalista deverá procurar escrever de uma forma isenta e registando a diversidade de factos e opiniões que considera relevantes sobre a matéria.

A reivindicação de um jornalismo independente é uma batalha falsa que, em limite, obriga o cidadão-jornalista a uma semi-clandestinidade sobre o que pensa. Não será por acaso que, no momento em que há mais gente a bater com a mão no peito afirmando-se independente, as redacções vão ficando mais pobres de jornalismo e os órgãos de comunicação social menos plurais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Paz, o Pão... Habitação?

por Tiago Mota Saraiva, em 30.10.16

A partir do acompanhamento do caso das demolições dos Bairros de Santa Filomena e 6 de Maio na Amadora e de uma queixa do Coletivo Habita, o Provedor de Justiça emitiu uma recomendação ao governo (n.º 3/B/2016) – destinada ao Ministério do Ambiente que tutela as questões da Habitação – para que fosse legislado um novo Plano Especial de Realojamento (PER) de modo a suprir as carências e necessidades urgentes que ainda hoje existem por todo o país. Passados três meses o governo ainda não respondeu ao Provedor, nem o OE2017 parece oferecer espaço para uma resposta decente.

Se é certo que o problema da habitação não se coloca como há quarenta anos - não faltam casas – o direito à habitação, nos termos consagrados no Art. 65º da nossa Constituição - “todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar” - ainda está por cumprir.

Urge colocar no terreno um novo PER, desburocratizado e sem ser concebido por quem não tem qualquer sensibilidade para o problema ou contacto com os territórios, ainda que o problema não se esgote na resposta de emergência, no realojamento ou na habitação social.

A substituição das políticas de habitação por políticas de incentivo ao crédito para habitação de casa e endividamento, a tolerância para com a degradação do edificado ou, mais recentemente nas cidades turísticas, a emergência do alojamento local conduziu-nos a uma situação em que o direito à habitação, nos justíssimos termos em que a Constituição o coloca, não está garantido para largas camadas da população. Casas com humidades, sem condições de salubridade ou ventilação, em sobrelotação ou em condições de elevada degradação, são situações que não devem ser tidas como normais porque “há quem viva pior” ou porque “já se viveu pior”.

Faltam uma política pública de habitação, não apenas para a dita “habitação social”, e um instrumento legislativo que enquadre no plano dos princípios e das acções toda a legislação dispersa, desarticulada ou incompetente. Hoje, mais do que nunca, cumpre-nos exigir que todos e todas vejam cumprido o que tão bem está descrito no Art. 65º da nossa Constituição, na certeza que não há governo de esquerda sem uma política de habitação.

 

(publicado no jornal i)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parque Escolar EPE, até quando?

por Tiago Mota Saraiva, em 17.10.16

 

Após décadas de condicionamento à manutenção e reabilitação do edificado, o plano de Sócrates para a sua requalificação parecia ser um bom investimento na escola pública. A pressa e a preocupação em distribuir avultadas verbas pelas várias clientelas - em 2011 a dívida da Parque Escolar EPE era praticamente igual à do valor somado das 408 empresas municipais – transformo-o numa estrondosa oportunidade perdida.

Atropelando procedimentos, sem transparência e controlo e, tantas vezes, sem competência e qualidade foram-se realizando obras até que Nuno Crato parou tudo - numa eficiente forma de patrocinar indemnizações aos grandes empreiteiros sem que tivessem de fazer a obra.

Muita desta história ainda estará por contar. Do Tribunal de Contas ao governo de Passos trabalhou-se para esconder aquela que foi a “festa” do Bloco Central ainda que os seus cadáveres estejam à vista de todos.

Depois de muitos anos a fazer-se de morta, a administração da Parque Escolar regressa à ribalta ao lançar um concurso de arquitectura para a reabilitação do Conservatório Nacional de Lisboa – um daqueles edifícios condenado ao degredo. Ainda que os administradores sejam outros, a vontade de manter as práticas obscuras condicionando a encomenda aos arquitectos de outrora, mantém-se. Mais uma vez ao arrepio da lei, abre-se um procedimento de concurso de arquitectura como se tratasse da escolha de uma equipa para reparar uma central nuclear, estabelecendo como critérios de adjudicação o preço (30%) e a realização nos últimos dez anos de projectos de reabilitação de edifícios e de uso colectivo de carácter semelhante (70%), e sem que nenhum critério se baseie sobre a qualidade da proposta. Sabendo-se que neste limite temporal e com este enquadramento fez-se pouco mais do que escolas, o resultado ficará limitado a pouco mais do que os gabinetes que mais escolas fizeram - sem qualquer análise crítica do seu trabalho e mesmo que depois da “festa” os respectivos gabinetes tenham fechado portas e lançado no desemprego e à emigração os falsos recibos verdes que faziam parte da sua precária engrenagem.

A consideração que nutro pela actual equipa do Ministério da Educação dá-me esperança que possam enfrentar mais estes interesses instalados. A Parque Escolar é um facilitador de interesses privados. Urge dissolvê-la e reintegrar o seu património – todas as escolas intervencionadas – e trabalhadores competentes no seio do Ministério da Educação para que, a partir daí, se consiga estruturar um plano integrado de longo curso de recuperação gradual do património escolar afectado pela ausência de manutenção ou pelas obras da Parque Escolar.

 

(publicado hoje no i)

Autoria e outros dados (tags, etc)

PCPês

por Tiago Mota Saraiva, em 12.10.16

 

É sabido que o PCP, na linguagem usada por quem o representa, tem uma forma de expressão muito própria que não encontra paralelo noutros partidos. Termos como “governo patriótico e de esquerda” são repetidos pelos seus dirigentes de uma forma exacta pelo facto de serem o produto da discussão colectiva e o seu significado estar perfeitamente definido no seio do partido. Todas as palavras contam: “preparar o país para a saída do euro” não quer dizer “saída do euro”.

O que perde em eficácia na comunicação com o seu exterior e na ambiguidade de que tantas vezes se faz a política, ganha na seriedade dos limites e objectivos do que se diz e das palavras que se empregam. Dando mais um exemplo, o PCP não aceita ou utiliza o termo “geringonça”, tanto por ter uma conotação negativa como por o englobar num mecanismo de governo do país do qual, objectivamente, não faz parte. Só por lapso, algum dirigente do PCP referirá a palavra.

Há três semanas foi publicado o projecto de resolução política proposto pelo Comité Central, resultado da discussão ocorrida dentro do partido nos últimos seis meses, e que será debatido e discutido em todas as suas organizações até ao XX Congresso no mês de Dezembro. Em PCPês: “As Teses”.

O documento não é de leitura fácil mas exigia-se que lhe fosse dado maior atenção no espaço público. Afinal, uma qualificada interpretação do que o PCP foi declarando antes das últimas legislativas, quando se referia que tudo faria para “derrotar o governo de direita”, já prenunciava muito do que se veio a passar. Não existindo, em 95 anos da sua história, muitos momentos em que a acção do PCP vá muito além do que está escrito nas suas Teses – e, repito, ainda que o actual documento vá sofrer alterações até ao último dia de Congresso -, ali estão bem claras a forma como caracteriza a actual situação governativa e as iniciativas que deverão ter o seu apoio parlamentar.

 

(publicado a 10/10 no i)

Autoria e outros dados (tags, etc)

A longa madrugada do ajuste

por Tiago Mota Saraiva, em 04.10.16

A obra de conclusão do Palácio Nacional da Ajuda mereceu capa de jornais como raramente os projectos de arquitectura merecem. Além das imagens e do anúncio da realização da obra, todos os textos destacavam a autoria do projecto de um arquitecto da Direcção Geral do Património Cultural.
Dediquei-me, nos dias posteriores, a aplaudir a resiliência desta equipa de projecto sobrevivente à depauperação de técnicos e gabinetes de projecto a que o Estado foi sendo sujeito ao longo dos anos. Mas estava a ser enganado. Não havia equipa. Se parece ser verdade que quem assina o projecto é um técnico da DGPC, a própria instituição, alegando “falta de recursos internos”, contratou, por ajuste directo, uma empresa privada para “apoio na elaboração do projecto de arquitectura”. Ou seja, fugiu ao concurso público de concepção a que a lei obriga.
Infelizmente, a fuga ao concurso é a regra e perante o insuficiente escrutínio público e do Tribunal de Contas só nos resta o escárnio sobre o anedotário. Alguém ouviu falar das 20 contratações entre estudos, projectos e levantamentos para o Mercado do Bolhão, fraccionadas de modo a não atingir os 75 mil euros (limite para o ajuste directo), superiores em valor somado a 850 mil euros? Alguém foi confirmar se o projecto do campus da Universidade Nova, tão elogiado pelo Presidente da República, foi a concurso público como se escreve?
Até 10 de Outubro está para discussão pública uma nova revisão do Código da Contratação Pública. Apesar desta alteração ir, a meu ver, no bom sentido - assim que expurgada de alguns disparates como a possibilidade de haver júris de um indivíduo - não irá mexer no que é estrutural. No que faz com que, a partir de 2008, o concurso público de concepção tenha passado a ser raríssimo. Como não creio que a maioria dos decisores públicos sejam corruptos ou tenham arquitectos de eleição a quem queiram adjudicar trabalhos, entendo que o problema estrutural está no facto de ser muito mais simples e rápido fazer um ajuste directo a uma empresa do que padecer dos longos e intrincados processos de concursamento. A chave do problema está na inversão deste paradigma. Importa tornar mais complexa e fiscalizável a decisão de contratar sem concurso e mais céleres todos os procedimentos de concursamento.

 

(publicado no jornal i)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Falsa partida

por Tiago Mota Saraiva, em 26.09.16

A discussão gerada em torno do alegado novo imposto sobre o património imobiliário não está a correr bem ao governo e à maioria parlamentar. E nem sequer começou mal. 

Na sequência da fuga de informação publicada no “Jornal de Negócios”, José Gomes Ferreira – na sua ânsia de liderar a oposição a partir da televisão – espalhou-se com estrondo ao ensaiar relacionar a classe média com os detentores de património imobiliário com valor patrimonial inscrito superior a 500 mil euros, provando mais uma vez que se o ridículo matasse o comentário político banalizaria o suicídio.

Apesar da escassez de informação sobre o novo imposto tudo corria bem até que o BE resolveu assumir a sua paternidade, atropelando-se com o governo. A fuga de informação, que governo e maioria parlamentar nunca deviam ter confirmado até ao dia de apresentação do orçamento, transformou-se num facto. Abriu-se espaço e tempo para que os detentores de património imobiliário afectado possam tratar de fugir ao imposto deixando perguntas importantes por responder. Porque não se aplica este imposto a acções ou a fundos? Quais as vantagens de reabilitar e melhorar as condições energéticas de imóveis que passem a enquadrar-se neste imposto? Como se protege alugueres de longa duração no caso de senhorios com vasto património agregado que, além do IMI, já estão tributados em 28% sobre o valor da renda?

Tenho vindo a defender que o IMI é dos impostos mais interessantes para promover a redistribuição. Mas este é um imposto complexo e multidimensional que não pode ser deixado exclusivamente ao arbítrio de fiscalistas ou de estratégias de comunicação. Alterações ao IMI têm reflexos no ordenamento do território, nas políticas de habitação ou no meio ambiente. Como salvaguardar a habitação própria permanente que corresponde a um direito fundamental constitucionalmente consagrado?

Temo que esta falsa partida fira de morte um caminho que tem de ser feito. O que hoje se conhece do novo imposto denota insuficiências técnicas que deverão ser corrigidas longe da gritaria instalada.


(publicado hoje no i)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dizem-me, pessoas entretanto falecidas, que, após leitura deste parágrafo de marialvice, José António Saraiva ter-se-á preocupado por intuir nas entrelinhas uma certa mariquice de elevador pouco digna da direita conservadora. Afinal, porque não se propõe estuprar a doida varrida?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Queremos mais estacionamento?

por Tiago Mota Saraiva, em 19.09.16

 

Se cada cidadão eleitor em Lisboa e no Porto tivesse um automóvel próprio as viaturas estacionadas nas nossas ruas ocupariam 6,2% e 6,5% das respectivas áreas da cidade. Se a esse número acrescermos o da média diária estimada de automóveis que entram nas duas cidades (700.000 e 70.000), podíamos ter o território de cada uma das cidades ocupado em 14,9% e 8,6% por estacionamento automóvel – o que poderá não andar longe do que sucede actualmente. Em Lisboa, os cerca de 1500 hectares potencialmente ocupados por automóveis correspondem à área de duas freguesias de Marvila ou sete Arroios.

Estes números servem para se perceber a radicalidade do problema e a necessidade urgente de construir políticas que alterem esta escalada de ocupação do território. A circulação dentro da cidade ou a existência de famílias com frota automóvel a residir em contexto urbano devem ser desincentivadas ao mesmo tempo que o custo dos transportes públicos deve diminuir e a sua frequência e qualidade aumentar. Por outro lado devem ser aceleradas as políticas de incentivo à mobilidade pedonal e ciclovias que têm vindo a ser desenhadas.

O sucesso do movimento de vizinhos do Jardim do Caracol da Penha em Lisboa - que mobilizou a população através de uma petição entregue na Assembleia Municipal e terá conseguido travar a pretensão da EMEL de construir no decorrer deste Verão um parque de estacionamento a céu aberto nos terrenos de uma antiga quinta com 1 hectare numa das zonas de Lisboa com maior carência de espaços verdes - deve ser motivo de reflexão. A resposta ao problema de estacionamento tem de deixar de ser sempre a criação de mais estacionamento. Temos inúmeros casos que demonstram que a afectação de mais espaço urbano a lugares de estacionamento não só não resolve como, a médio prazo, agrava o problema incrementando a solução do transporte individual.

Sendo certo que esta questão não se resolve da noite para o dia nem com um decreto, devemos trabalhar para que as decisões vão todas no mesmo sentido. Não se pode promover o uso da bicicleta ao mesmo tempo que se estimula o incremento do automóvel e tem de se perceber que, em certas circunstâncias, a criação de uma nova carreira de autocarro pode resolver um problema de estacionamento.

 

(publicado hoje no i)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Errar melhor

por Tiago Mota Saraiva, em 05.09.16


(publicado hoje no i)

A célebre expressão atribuída a Séneca “Errar é humano” está instalada no espaço público sem que valorizemos verdadeiramente a sua dimensão.

Tantas vezes o brilho do estrelato retira da narrativa a importância do erro. Cremos que a sua assunção prejudica. Valorizamos a aproximação ao comportamento de máquinas que inventamos, com as quais se procura diminuir a margem de erro e negligenciamos o fascínio de sermos humanos. Olhamos o erro com desdém.

Quando Cristiano Ronaldo marca dizemos ser uma “máquina de fazer golos”, quando falha não lhe toleramos o comportamento humano. Dizemos que está mais velho, essa condição humana para que todos caminhamos.

Esquecemos que uma história de sucesso pode ser construída a partir de erros. Mesmo no futebol. Não esqueçamos aquele minuto 70 da temporada passada, em que o Benfica perdia em casa com o Sporting por 0-3. Tudo parecia perdido até que a multidão irrompe a cantar “Eu amo o Benfica”, construindo-se a partir de um jogo falhado a caminhada para o título.

No espaço da decisão política, território de tantos falhanços, está instituído que o erro deve ser escondido de todas as formas. “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, sintetizou Cavaco. Independentemente da ridicularização a que a declaração se prestou, ainda hoje corresponde à moral reinante. Valoriza-se o político-máquina cheio de certezas que perante os erros não hesita em mentir ou desdizer-se na esperança de que a memória colectiva seja curta. Por mais idiota que isso possa parecer, isto tem funcionado. É uma boa receita para quem quer preservar o poder mas não para quem quer governar melhor e de uma forma mais transparente. A aceitação do erro e a sua exposição pública, além de permitir perceber melhor as decisões e as suas consequências, torna muito mais difícil a sua repetição.

A assunção do erro permite que se erre menos ou, pelo menos, melhor e na política permite-nos distinguir decisões erradas – resultado da muito nobre condição humana – de políticas produzidas para falhar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

O problema dos estágios

por Tiago Mota Saraiva, em 04.09.16


(publicado no i a 29 de Agosto de 2016)


O estágio é um período de tirocínio de um determinado ofício patrocinado pela entidade patronal para que, findo esse período, possa contar com um novo trabalhador habilitado. Se, como já aqui escrevi, discordo que o Estado possa financiar estágios em grandes empresas, penso que é um instrumento fundamental para as micro e pequenas empresas criarem novos postos de trabalho no actual contexto do país.

As notícias vindas a público na última semana sobre as fraudes em pagamentos de estágios do IEFP não são novidade e generalizam-se pela acção das ordens profissionais a partir do momento em que criam limitações no acesso à profissão impondo o chamado “estágio profissional”. O “estágio profissional” não tem como objectivo a constituição de um posto de trabalho, mas o de promover um tirocínio habilitante.

Se é verdade que a maioria dos estágios apoiados pelo IEFP não são os das ordens profissionais, não surpreende que a esmagadora maioria dos casos de fraude relatados sejam em áreas em que o estágio é obrigatório para o acesso à profissão.

É com vergonha que constato que em todas as notícias recentes sempre aparece o exemplo de um estágio na minha área profissional. A Ordem dos Arquitectos (OA) diz nada saber, ainda que há poucos meses tenha aprovado um novo regulamento que alarga o período de estágio e apaga a obrigação de remuneração. Com uma existência precarizada pelos baixíssimos honorários, resultado da bárbara liberalização a que a encomenda pública tem vindo a ser sujeita, as estruturas de arquitectura vêem-se condenadas a sobreviver. Em vez de enfrentar o problema da encomenda, a OA tem optado por ser actor central na liberalização do mercado laboral, obrigando centenas de recém-licenciados a cumprir um estágio obrigatório, cada vez menos fiscalizado, que desqualifica a profissão e premeia a trafulhice.

Fraudes nos financiamentos públicos existirão sempre e deverão ser julgadas enquanto tal. O que neste caso importa tratar é a sua generalização. Não entender que as fraudes denunciadas são a ponta do iceberg dos “estágios profissionais”, que colocam o recém-licenciado em condições de aceitar pagar para trabalhar, é não enfrentar o problema. Ordens profissionais que não assegurem que os estágios que tutelam cumprem os princípios básicos das leis da República não devem ter o direito de os exigir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Barões privados com dinheiros públicos

por Tiago Mota Saraiva, em 09.05.16

publicado aqui

 

Mais do que a racionalização financeira do sistema, o corte no financiamento público de colégios privados que o Ministério da Educação está a ensaiar é um acto de coragem. Desengane-se quem, a este propósito, lucubra argumentos em torno da liberdade de escolha – alguém achará que, se eu optar por beber água engarrafada, o Estado deve financiar o litro de água que bebo para que me custe o mesmo que a da torneira? – ou quem julga ser um ataque às escolas católicas – quem o diz é o PSD, e não os órgãos próprios da Igreja.

Não tendo caracteres disponíveis para relatar alguns casos escandalosos de negócios privados no sector da educação, aconselho a reportagem “Dinheiros públicos, vícios privados”, de Ana Leal, que passou na TVI em Dezembro de 2012. Nesta investigação revelava-se o caso do Grupo GPS, detentor, à época, de 26 colégios, que auferia 25 milhões de euros do Orçamento do Estado para concorrer com escolas públicas e no qual pontificavam ilustres ex-governantes, deputados e dirigentes de PSD e PS.

Sendo injusto conotar todas as instituições detentoras de colégios privados com as do Grupo GPS, talvez tivesse sido prudente que a AEEPC, associação que os representa, escolhesse para seu director executivo e porta-voz um professor de carreira ou um pedagogo com provas dadas no sector, ensaiando a despartidarização que a nomeação do ex-chefe de gabinete da ministra da Educação do governo de Santana Lopes não garante.

Como se deve imaginar, esta decisão do Ministério da Educação não será pacífica, desde logo, dentro do PS. É muito dinheiro e muita gente importante que vive na sombra destes negócios privados com dinheiros públicos que não se esgotam na educação. Seria um excelente sinal que este corte nas gorduras do Estado também chegasse a outras áreas de negócio com características semelhantes, como a saúde ou a segurança social, desmanchando o baronato financeiro que vive em torno das velhas lógicas do bloco central.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Breves notas sobre os resultados

por Tiago Mota Saraiva, em 25.01.16

Marcelo Rebelo de Sousa ganhou, como se esperava. Teve mais votos que Cavaco em 2011 e, provavelmente, conseguiu ir buscar votos a todos os partidos. Fez um discurso de unidade nas antípodas do do anterior Presidente da República. Saberá ser popular.

 

Sampaio da Nóvoa é, na verdade, uma surpresa. Teve uma percentagem maior do que a maioria das sondagens lhe deram e do que Alegre em 2011. Não atingiu o objectivo de uma segunda volta, mas não sai desta eleição politicamente morto.

 

Marisa Matias é a grande surpresa da noite. Não conseguiu apenas consolidar uma parte muitíssimo significativa dos votos do BE, como terá conseguido penetrar no tradicional eleitorado comunista (veja-se, por exemplo, os resultados das autarquias comunistas de Constância ou Almada). As notícias de uma fuga de votos do eleitorado do BE para Marcelo eram manifestamente falsas.

 

Maria de Belém não foi alvo de um assassinato de carácter, como os seus apoiantes repetiram. Belém revelou-se. Não conseguiu conquistar o eleitorado socialista como pretendia, enfraqueceu o segurismo e demonstrou a fraca expressão eleitoral que a poderosa ala direita do PS tem. Desaparecerá sem fama nem glória da vida política, podendo levar para casa a sua pensão vitalícia.

 

Edgar Silva não deve ser visto como o culpado do mais fraco resultado eleitoral de um candidato com o apoio do PCP. Viu-se pouco o Edgar que trabalha com os que nada têm e que intervém junto do lumpén, para assumir uma postura institucional de porta voz do partido. A sua candidatura demonstrou que o eleitorado do PCP não é estanque, nem é alheio aos discursos políticos das candidaturas de Marisa Matias e Sampaio da Nóvoa.

 

Tino de Rans não é uma surpresa. Repete, com menos vigor, o resultado de José Coelho das eleições de 2011. 

 

Paulo de Morais e Henrique Neto são figuras instrumentais para o sistema ao lançarem a suspeita de corrupção sobre todos sem concretizar acusações. Foram duas candidaturas com discursos semelhantes, mas sem brilhantismo. Morais destacou-se no resultado, ainda que fique aquém do que o próprio pensava poder alcançar.

 

Jorge Sequeira era o único candidato sem qualquer relação passada com algum partido político. Teve 0,3% dos votos expressos.

 

Cândido Ferreira nem em Leiria, de onde provinha, conseguiu votação significativa. Cumpriu o seu papel de manter dúvidas sobre a licenciatura de Nóvoa, como se o ex-reitor não as tivesse esclarecido de imediato. Fica a dúvida sobre como terá conseguido o número de assinaturas necessárias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Declaração de voto

por Tiago Mota Saraiva, em 22.01.16


O nosso futuro próximo não é um mar de rosas. A pressão dos directórios europeus já nos fez pagar o BANIF e prepara uma batalha de imposição do seu orçamento cujas consequências ainda são difíceis de prever. O futuro Presidente da República fará sempre parte dessa batalha, seja seguindo a estratégia de quem manda na UE, seja na defesa do direito soberano de ser o país, e o seu povo, a decidir as suas principais opções estratégicas.
Depois deste período de campanha não me parece haver grandes dúvidas que dos dez candidatos, apenas três, escolhem a segunda opção: Sampaio da Nóvoa, Marisa Matias e Edgar Silva. Os outros sete ou não têm consciência desta dicotomia ou são ideologicamente afectos às escolhas dos mercados e das famílias políticas que mandam na UE.
Com os dados que temos das sondagens permito-me concluir duas coisas. Em primeiro lugar, Marcelo Rebelo de Sousa não aparece tão destacado que possamos dar como garantida a sua eleição à primeira volta. Curiosamente, os resultados de Marcelo nas sondagens são muito similares aos de Cavaco antes das eleições de 2006 e 2011 (em que obteve respectivamente 50,54% e 52,95%) - será interessante analisar, posteriormente, se o eleitorado de Marcelo não é praticamente o mesmo que o de Cavaco. Por outro lado, com o colapso de Maria de Belém, não parece haver grandes dúvidas que, a haver segunda volta, está será disputada entre Marcelo e Nóvoa.
Sendo assim o meu voto em Edgar Silva é óbvio e combativo. Além de ser do meu campo político, Edgar defende uma ideia para o país e para a presidência da república que é a que me está mais próxima.
Contudo o resultado de Edgar Silva nesta primeira volta pode vir a ter outra leitura. Apesar de haver diferenças entre eleições e de nas presidenciais se votar em pessoas, um resultado entre os 2-3%, como lhe é atribuído nas sondagens, penalizará o PCP. A escolha corajosa de levar a candidatura até ao fim - teria sido mais fácil se tivesse apoiado outra candidatura, mas correr-se-ia o risco de desmobilizar algum eleitorado, o que só beneficiaria Marcelo - poderá ter o reverso da medalha num momento difícil para a intervenção política do partido. Se Edgar Silva mantiver ou superar o eleitorado que tradicionalmente vota no candidato apresentado pelo PCP será um novo tónico na intervenção do partido e, sobretudo, nas batalhas que, a cada dia, terá de travar na Assembleia da República.

Autoria e outros dados (tags, etc)

TV Marcelo avariou

por Tiago Mota Saraiva, em 09.01.16

 

Reconheço-lhe a inteligência. Apreciava ouvi-lo como um contador de estórias - ainda que tantas vezes efabuladas. Sempre prezei menos a sua acção política, não porque esteja nas minhas antípodas, mas porque fez da intriga e da dissimulação um instrumento central da sua forma de intervenção.
A estratégia de Marcelo está a fazer desta campanha eleitoral um momento novo, em que a direita parece órfã. Depois de secar a hipótese de outra candidatura proveniente do PSD ou CDS, Marcelo convenceu-se que devia fazer toda a campanha como se perfilhasse ideais de esquerda para mendigar os votos que lhe faltam.
Ora esse contorcionismo só podia ser bem sucedido se fosse honesto ou se não tivesse contraditório. Ou seja, implicava que Marcelo declarasse a dissidência do campo político em que toda a sua vida militou ou que os seus adversários abdicassem de o confrontar.
A coisa até não correu mal no início. A comunicação social sempre lhe foi simpática e ninguém ousava confrontar o candidato que parecia fazer um passeio triunfal para Presidente da República. Contudo a estratégia verificou-se insustentável assim que houve algum confronto com os outros candidatos.
O desempenho do "professor" no seu território, a televisão, foi muito mau. Marcelo perdeu todos os debates com os candidatos mais directos. Ao seu contorcionismo ideológico opunham-se-lhe citações e declarações passadas. Em resposta, Marcelo colocou-se na posição confrangedora de desmentir o que era factual, chegando a renegar as intenções de uma petição que havia encabeçado recentemente.
Parece-me difícil que a sua estratégia traga frutos eleitorais em algumas franjas de esquerda, mas estranho o total silêncio da direita. Será admissível ignorar o que diz o candidato, confiar-lhe o seu voto, ainda que tenha a certeza que regressará às suas posições originais?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue da semana

por Tiago Mota Saraiva, em 27.12.15

O fworld da Fátima Rolo Duarte é uma declinação desviante da blogosfera. Se houvesse um Zukerberg aprumadinho que mandasse nos blogues a página já estaria fechada por subverter as regras blogosféricas.
A Fátima reescreve e apaga sem pudor. Sem olhar a datas e visualizações. Faz imagens das imagens e vai actualizando sem actualidade. O fworld está firmemente enraizado em práticas de criação com uma forte identidade portuguesa contemporânea - poderia explicá-lo um pouco melhor mas apetece-me pouco discuti-lo agora.
Durante a semana em que aqui vai ficar como blogue da semana o fworld poderá não ser actualizado, poderá bloquear-nos o acesso ou até fechar.
That's fworld, folks!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Alguma coisa tem de mudar

por Tiago Mota Saraiva, em 22.12.15
Em 2012, a troika obrigou o Estado português a criar um fundo de resolução a que todos os bancos podiam recorrer, com uma parte significativa do valor que ia emprestar. Como era previsível, este valor serviu ao BANIF para mais uns poucos anos de regabofe e, sobretudo, para conseguir que os principais accionistas fossem conseguindo diluir as suas responsabilidades no banco.
O Orçamento Rectificativo que a Assembleia da República votará amanhã, transforma a dívida do BANIF num custo para o erário público, sem responsabilização da troika (que obrigou o Estado a criá-lo) ou dos responsáveis do banco - administradores e accionistas. Mais, abre um precedente ao qual todos os bancos poderão recorrer.
O PCP faz muito bem em não aprovar este orçamento rectificativo. Espero, sinceramente, que BE e PEV também o façam.
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da série "Não há dinheiro!" (01)

por Tiago Mota Saraiva, em 22.12.15

"Portugueses já deram 13 mil milhões para salvar bancos"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estes tipos do PCP...

por Tiago Mota Saraiva, em 21.12.15

Agora é fácil dizer que o BANIF é um novo BPN, mas vejam lá se disseram alguma coisa quando ainda era tempo?
Bem que podiam ter dito isso há uns anos antes do governo lá pôr o nosso dinheiro. Andam a dormir!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Vá-se lá saber porquê...

por Tiago Mota Saraiva, em 21.12.15

 

Luís Amado, presidente do Conselho de Administração do BANIF desde Fevereiro de 2012: “Não subscrevo a fórmula do fim da austeridade” (espirituosa declaração publicada no dia 7/12/2015)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Notícias da frente ("Reporting From the Front")

por Tiago Mota Saraiva, em 19.12.15

Este é o tema que o curador da Bienal de Arquitectura de Veneza de 2016, o chileno Alejandro Aravena, escolheu para a próxima edição que acontecerá entre Maio e Novembro do próximo ano. No documento em que caracteriza o que pretende que seja a Bienal, Aravena escreve que "Mais e mais pessoas no planeta procuram um lugar decente para viver e as condições para alcançá-lo estão cada vez mais difíceis.(..) Mas ao contrário de guerras militares, onde ninguém ganha e onde há um sentimento predominante de derrota, na linha de frente do ambiente construído há uma sensação de vitalidade, porque a arquitectura consiste em olhar para a realidade com uma proposta." (aqui pode ler-se uma explicação mais detalhada),
Entretanto, cada país posiciona-se neste importantíssimo debate. Shumi Bose, Jack Self e Finn Williams, curadores da representação britânica, propõe-se reflectir sobre as mudanças que podem vir a dar-se na forma de desenhar o espaço doméstico. O DAM será responsável pela representação alemã, afirmando a Alemanha como um país de acolhimento discutindo a questão dos refugiados. Como se pode ver nas notícias da Archdaily, cada país vai anunciando os seus curadores e representações oficiais afirmando a sua identidade e contribuindo para uma Bienal de expectativas elevadas. 
Em Portugal, a cinco meses do início da Bienal, ainda não há fumo branco. Num momento em que as condições sociais e políticas do país foram devastadas por anos de políticas de austeridade, a representação de Portugal estará sob olhar atento do mundo inteiro. Espera-se que não se regresse ao modelo caduco de uma representação monográfica de arquitecto, ou daquilo que se entendeu chamar como "arquitectura portuguesa", abdicando-se de posicionar o país nas discussões da linha da frente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Obrigado Dr. Luís Amado!

por Tiago Mota Saraiva, em 14.12.15

LUIS_AMADO[1].jpg

 

Por ter feito com que todos e todas possamos ser accionistas de um banco privado comprando, no decorrer do dia de hoje, mil acções do BANIF pelo preço de um café.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um caso de polícia

por Tiago Mota Saraiva, em 14.12.15

 

A Associação de Defesa do Ambiente – SOS Tejo – disse hoje que o rio Tejo foi cortado com um novo dique junto da Central Termoeléctrica do Pego, unindo esta localidade com a freguesia de Mouriscas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O candidato Marcelo propõe-se fazer...

por Tiago Mota Saraiva, em 08.12.15

... exactamente o contrário do que fez o actual Presidente da República.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Assemble vencem o Prémio Turner

por Tiago Mota Saraiva, em 08.12.15

 

Os assemble venceram o mais prestigiado (prémio de arquitectura) prémio de artes visuais* atribuído no Reino Unido. Os assemble, tal como tantos outros colectivos e ateliers que actuam pela Europa fora, demonstram a mais valia de um colectivo de arquitectura não ser um castelo de arquitectos, de que a arquitectura não é alheia às condições objectivas da realidade que a rodeia e que não é um acto apolítico.

Este prémio é uma forte machadada no muro que protege os zeladores de uma arquitectura conservadora e desligada da sociedade que, em Portugal, ainda encontra muitos fiéis.
 
A ler, no the guardian:
 

* conforme notado pelos leitores

Autoria e outros dados (tags, etc)

O perigo das políticas de extrema-direita

por Tiago Mota Saraiva, em 07.12.15

(publicado no i a 21.02.2014)

Uma das mais recorrentes mistificações é a confusão que se faz entre Europa e União Europeia. A Europa é um continente que, salvo acidente geográfico, tenderá a permanecer estável por muitos e bons anos. A UE é a expressão institucional de uma associação de Estados.
Não me competirá neste texto filosofar sobre as intenções inerentes à criação da CEE ainda que seja justo reconhecer que os objectivos iniciais pareciam diferentes. Contudo o poder vigente – um centrão partilhado entre Populares e Socialistas (onde se inscrevem PS, PSD e CDS) – parece  ser bem mais perigoso para as democracias que a escalada de partidos de extrema direita.
Os mecanismos de eleição directa têm vindo a ser reduzidos a um parlamento cada vez com menos poderes e as políticas centrais dos Estados têm deixado de passar por organismos tutelados directamente pelos povos. Por outro lado, o discurso dos governos do centrão em países mais poderosos pulula de preconceitos xenófobos – das diatribes de Merkel sobre “os do Sul” à cedência do “socialista” Valls a algumas bandeiras da FN.
Lampedusa e as políticas territoriais no Mediterrâneo ou o apoio ao governo ucraniano e turco revelam que a UE não se posiciona, por princípio, do lado dos valores humanistas ou dos poderes democráticos.
Se, em Portugal, não se costuma estabelecer uma correlação entre as políticas da UE e os partidos que estão integrados nas duas famílias que a governam é revelador que seja o actual líder do PS que proponha uma revisão do sistema de representação para diminuir a expressão crescente dos partidos que não inscrevem no centrão.
Aumentar artificialmente o número de representantes do partido mais votado ou bloquear a eleição de representantes dos que não obtenham determinada percentagem, círculos uninominais e diminuição do número de representantes eleitos, não são formas de aproximar o eleito do eleitor, mas de retirar representatividade e pluralidade às instituições de representação directa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Situação política

por Tiago Mota Saraiva, em 06.12.15

Foi particularmente interessante assistir aos debates parlamentares que decorreram durante a semana.
A maioria que sustentou o actual governo demonstra estar tranquila com a sua diversidade. Um governo do PS, uma maioria de esquerda à qual só faltará juntar um presidente de esquerda - mas esta questão fica para outros escritos.
A posição conjunta entre PS e BE, PCP e PEV é um bom ponto de partida que parece ser simpático para todos. Ainda assim, muitos desafios terão pela frente. Ao contrário do que a trupe de comentadores que se repete nas TV's, demasiado ocupados a papaguear questões financeiras, o grande engulho para a maioria parlamentar não será o orçamento ou o défice mas, muito provavelmente, as eleições autárquicas - caso não sejam preparadas em conjunto (que não quer dizer em coligação) e com tempo.
Ao invés, PSD e CDS, estão em processo de auto-flagelação. A tese da ilegitimidade e o ataque de carácter a Costa tem eco na população. O problema é que não se consegue resistir quatro anos a dizê-lo. O pico máximo de popularidade dessa tese ocorreu no dia em que foi declarada pela primeira vez. A partir daí só perde simpatizantes. Mais dia menos dia o PSD deverá ir para Congresso. Fora do poder, com um Passos Coelho radicalmente contra o governo de Costa e, muito provavelmente, com algumas das suas medidas sob investigação (política e judicial) surgirá, certamente, um candidato que procure retomar as pontes ao centro porque isso significa mais votos e muitos lugares na administração pública, mesmo com um governo do PS. Para já o CDS parece-me imprevisível. Veremos se os próximos tempos ajudarão a clarificar-se.

Autoria e outros dados (tags, etc)



A Ordem dos Arquitectos acaba de publicar no seu site este Regulamento de Inscrição e Estágio. Depois de seis anos (2001-2007) como seu dirigente, têm-me motivado pouco as suas discussões internas cada vez mais alheadas do mundo e do país.
Contudo, esta discussão interna - ou a falta dela -, motiva-me a alertar para o facto de, se nada se fizer, a Ordem dos Arquitectos continuar a fechar-se no seu castelo isolada do mundo, sob o olhar displicente da maioria dos arquitectos.
Aqui ficam algumas notas/observações públicas sobre este documento:

 
1. Perante um tema que tem espoletado as maiores discussões no seio da Ordem, é inaceitável que este Regulamento não seja submetido a consulta pública - ver abaixo P.S. (11h48);
 
2. Sem discussão ou avaliação sobre o que se passou até hoje, pelo menos que conste neste diploma, aumenta o período de estágio de 9 para 12 meses;
 
3. Os processos de estágio a decorrer têm 60 dias para manifestar o interesse em que se aplique o regulamento perante o qual se inscreveram. Se não o fizerem o período de estágio é aumentado por decisão unilateral da Ordem;
(Tenho imensas dúvidas que isto seja juridicamente aceitável e que não impere o princípio da lei mais favorável)
 
4. A necessidade de formação contínua (CPD) para os associados continua a estar ausente;
 
5. Quem suspende actividade, por estar no desemprego por exemplo, passa a ser proibido de "participar na vida institucional da Ordem ou beneficiar dos serviços desta", ou seja, depois de - por decisão política e não jurídica - o membro suspenso perder o direito de voto passa também a ser-lhe vedado o acesso às assembleias;
 
6. O procedimento de cancelamento de inscrição na OA deve ser proposto pelo associado e submetido ao Conselho Directivo Nacional da OA para "efeitos de validação e posterior decisão", ou seja, o membro da OA pode não conseguir de deixar de ser membro da instituição se o CDN não o aprovar.
(Matéria que é, claramente, inconstitucional ao abrigo do princípio da Liberdade de Associação)
 
 
P.S. (11h31) - Alerta-me o meu caro amigo e colega Miguel Judas que o documento falha noutra coisa, provavelmente, a mais relevante. Creio que pela primeira vez num regulamento da Ordem dos Arquitectos sobre o processo de admissão não vem qualquer referência à remuneração dos estágios.
 
P.S. (11h48) - Entretanto há 9 minutos a Ordem dos Arquitectos em post no seu facebook oficial informa que este documento está para consulta pública.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Michel Giacometti e o Plano de Trabalho e Cultura - Serviço Cívico Estudantil

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há 40 anos começou a acabar | 04. Casa para todos

por Tiago Mota Saraiva, em 26.11.15

Continuar a viver - Índios da Meia Praia de António da Cunha Telles

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há 40 anos começou a acabar | 03. Reforma Agrária

por Tiago Mota Saraiva, em 25.11.15

Torre Bela de Thomas Harlan

Autoria e outros dados (tags, etc)

alfabetização.jpg

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

... Cavaco só estará disponível para ler a carta de Costa lá para o final da semana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

somos bibliotecas.jpg

 

Aceda ao site somosbibliotecas.pt e assine a petição

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há 40 anos começou a acabar | 01. Operações SAAL

por Tiago Mota Saraiva, em 23.11.15

Trailer do Filme AS OPERAÇÕES SAAL de João Dias 


Autoria e outros dados (tags, etc)

Um pequeno passo

por Tiago Mota Saraiva, em 20.11.15

- Revogação das alterações à lei da IVG aprovadas pela maioria de direita na legislatura passada;
(aprovado com os votos do PS, BE, PCP, PEV, PAN e 1 PSD)

 

- Aprovação a adopção por casais do mesmo sexo;
(aprovado com os votos do PS, BE, PCP, PEV, PAN e 19 PSD)

 

- Aprovação de alteração ao Código do Registo Civil, tendo em conta a adopção, a Procriação Medicamente Assistida e o apadrinhamento civil por casais do mesmo sexo.
(aprovado com os votos do PS, BE, PCP, PEV, PAN e 15 PSD)

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mais que uma música, mais que um vídeo

por Tiago Mota Saraiva, em 19.11.15

 

Solo andata - Canzoniere Grecanico Salentino

Autoria e outros dados (tags, etc)

Depois de vário comentadores do Delito colocarem nas caixas de comentários as suas certezas sobre a equiparação do comunismo ao nazismo/fascismo, José António Abreu também o fez aqui. De uma forma serena e sem ser preciso um tratado diria que, para comparar, nos devemos entender sobre o terreno da comparação.
Se optarmos por fazer a comparação pelo número de mortes causados, suponho que o capitalismo também entrará a jogo e vencerá de uma forma avassaladora, por isso não pode ser. Se o fizermos pelas suas expressões práticas e qualidades das respectivas democracias - recordando que nenhum país no mundo alguma vez se declarou como um estado comunista - também creio que é de difícil comparação até porque nenhum estado nazi/fascista pretendeu ter práticas democráticas e, mais uma vez, temos de colocar na equação muitos estados-exemplo das práticas do capitalismo. 
Assim sendo, creio que o único campo em que podemos colocar esta comparação é do ponto de vista teórico-ideológico. Nesse campo, o nazismo/fascismo é uma ideologia que não perfilha a libertação do homem, mas a vitória perante outros. Mais, o comunismo foi, ao longo da história, quem mais combateu (e continua a combater) o nazismo/fascismo para que pessoas como eu ou o José António Abreu possamos, em liberdade, escrever no mesmo blogue o que bem entendermos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Guerra ao ódio

por Tiago Mota Saraiva, em 15.11.15

Ontem, pediram-me do i que participasse numa série de artigos de opinião sobre os atentados em Paris. Ali deixei o meu contributo para a discussão do tema.


Autoria e outros dados (tags, etc)

É na política que somos todos

por Tiago Mota Saraiva, em 14.11.15

Hoje choca-nos. Sentimo-nos próximo. Reconhecemos as ruas de Paris e aquelas expressões de pânico parecem-nos familiares. Procuramos contactar quem conhecemos em Paris. Apetece-nos prestar solidariedade. Uma solidariedade que de pouco vale às vítimas - os mortos, sobreviventes e todos os que lhes estão próximos. 
É no campo da política que podemos agir. É aí que somos todos.
Perceba-se, de uma vez por todas, que mais policiamento e controlo não é garante que não volte acontecer. Abordar o problema desta forma apenas nos garante que acontecerão novos massacres cada vez com mais perdas do lado dos que passeiam na rua.
Este também é o tempo de mandar calar todos os que levantam dúvidas sobre os motivos da crise dos refugiados. É disto que fogem.
Repito, o que podemos fazer é agir politicamente. Contribuir para a paz e não espalhar a guerra. Hoje é um bom dia para avaliar as consequências da guerra ao terror, da existência da NATO e do papel que tem tido na escalada desta guerra.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nova matemática: 107 > 86+19+17+1

por Tiago Mota Saraiva, em 13.11.15

Que eu saiba,a soma de três perdedores não dá um vencedor” - João Machado, presidente da Confederação dos Agricultores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Aprender, aprender sempre

por Tiago Mota Saraiva, em 12.11.15

Passados quase dois anos de ausência da blogosfera ensaio um regresso nesta casa histórica, provavelmente improvável, para um comunista.
Vivemos tempos interessantes, em que a política abafa as notícias sobre o mais mediático processo de corrupção ou sobre a última lesão de Fejsa. Tempos interessantes de discussões improváveis em que o espaço público (e também o Delito) é tomado por ensaios sobre a URSS, o PREC, o marxismo-leninismo ou o muro de Berlim.
Sei que não estarei à altura da intensidade de escrita de outrora mas tentarei não desperdiçar muitas oportunidades de discussões duras e acaloradas. Quanto mais não seja para que a ignorância e a falta de cultura não diminua a discussão política.
Olhemos para a polémica das últimas horas. Por pior que tenha sido o último governo não merece que o facebook oficial da JSD equipare a sua derrota na Assembleia da República à derrota do nazi-fascismo. Aos jovens, antes de mostrarem serviço, ter-lhes-á de ser explicada uma das citações mais sábias do senhor da esquerda e que dá título a este escrito.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D