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Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 27.08.17

Comecei a acompanhá-lo uns anos antes da eclosão das chamadas Primaveras Árabes. Durante os processos de transformação política no Norte de África, este blogue foi uma fonte de informação fidedigna e serena, mas, sobretudo, foi um espaço de análise com qualidade e interesse invulgares. O seu autor, Issandr el Amrani, é um dos mais conceituados analistas de política árabe e é actualmente o director do International Crisis Group no Norte de África. São razões de sobra para visitar o The Arabist.

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A ler

por Diogo Noivo, em 18.08.17

 

Vamos ganando, de Jorge Galindo, na Jot Down.

 

 

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O primeiro atentado

por Diogo Noivo, em 18.08.17

El Descanso.jpg

 

Era mais um dia normal de serviço no restaurante. Mas em poucos segundos tudo mudou: um engenho explosivo colocado junto ao balcão foi detonado matando 18 pessoas e destruindo uma parte importante do restaurante "El Descanso", situado no quilómetro 14 da estrada Madrid-Barcelona. Foi no dia 12 de Abril de 1985. Cerca de 16 anos antes dos atentados de 11 de Setembro, nos Estados Unidos da América, Espanha sofria o seu primeiro ataque jihadista. Esta acção terrorista foi reivindicada por uma organização intitulada Jihad Islâmica, embora os detalhes da operação - autores materiais e morais, propósito, perfil da organização, etc - ainda hoje estejam por esclarecer.
O atentado de ontem em Barcelona é mais um episódio repugnante e condenável de uma longa e tortuosa história. Em Espanha, a Catalunha é a região com maior incidência de actividade jihadista desde há bastantes anos. De resto, como refere Ignacio Cembrero no livro La España de Alá, 50 das 98 mesquitas e oratórios salafistas sinalizados pelo Ministério do Interior estão na Catalunha. Por lá passaram organizações terroristas de diferentes países, da Argélia ao Paquistão. O problema é grave, mas não é novo. Em suma, e enquanto a poeira não assenta, importa evitar análises apocalípticas e especialistas de ocasião.

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Um herói caído em desgraça

por Diogo Noivo, em 15.08.17

Alberto Casillas.jpg

 

Em Espanha, Alberto Casillas foi um herói para os manifestantes anti-tudo. No dia 25 de Setembro de 2012, jovens "indignados", pertencentes a movimentos anti-sistema, anti-globalização e a uma lista infindável de associações ditas cívicas, promoveram a iniciativa Rodea el Congreso ("Cerca o Parlamento", um mote que, como é bom de ver, jorra civismo por todo o lado). Houve excessos por parte dos manifestantes e a polícia espanhola não é famosa por ser meiga. Aqueles que não foram detidos procuraram refúgio. Os que entraram no bar El Prado, em Madrid, tiveram a protecção de Alberto Casillas Asenjo, um empregado de mesa que se meteu entre os manifestantes e o corpo de intervenção. Alberto disse à polícia não querer violar a lei, mas foi irredutível na defesa dos manifestantes que se encontravam dentro do bar, afirmando que não autorizaria um "massacre". As imagens do acto de bravura de Alberto tornaram-se virais. Os colectivos anti-tudo saudaram o herói e desdobraram-se em agradecimentos laudatórios nas redes sociais.

 

Passaram uns anos e Alberto Casillas voltou às notícias: em 2014, interrompeu um acto público, em Madrid, onde Pablo Iglesias, caudillo do Podemos, era o convidado principal. Iglesias, que assessorou o regime chavista e que dele conseguiu financiamento para criar o Podemos, entretinha-se a criticar a "casta", os políticos "de siempre". Alberto levantou a voz e perguntou ao líder do Podemos se não tinha vergonha de ter assessorado o regime venezuelano. "Mi esposa no puede comprar papel ni comida", disse Alberto, que tem a mulher e a filha a viverem na Venezuela. Alberto foi expulso da conferência. Ao regressar ao trabalho no bar El Prado, Alberto encontrou ameaças e insultos e, uns tempos depois, o desemprego.

Este ano, num outro acto público onde representantes do partido Izquierda Unida se deleitavam a branquear a manipulação eleitoral e o autoritarismo do regime de Nicolás Maduro, Alberto volta à carga para dizer que o rei vai nu. "Están matando a jóvenes!", gritou, incomodando a fina flor da extrema-esquerda espanhola. Acabou na rua.

 

A avaliar pelo que fez no passado e pelo que fez agora, Alberto deve ser um tipo decente. Parece ter o coração no sítio certo. No entanto, acabou proscrito por aqueles que o elevaram ao Olimpo. O crime de Alberto foi o de não entender que para a extrema-esquerda a violência policial num Estado de Direito é hedionda, mas quando perpetrada por um regime autoritário afim é uma defesa legítima da soberania nacional. Agora não o aplaudem.

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A democracia venezuelana

por Diogo Noivo, em 09.08.17

O Egipto de Hosni Mubarak era uma democracia. Bom, não era, mas se aplicarmos ao regime de Mubarak a bitola usada por alguns para analisar a Venezuela de Hugo Chávez, então o ditador egípcio era na verdade o chefe de um Executivo ampla e plenamente democrático. Os órfãos do chavismo que preservam alguma sanidade mental e uma dose mínima de vergonha - excluo, portanto, Boaventura Sousa Santos e o PCP - mostram-se incomodados com as cenas que nos chegam da Venezuela e, acto contínuo, dizem-nos que antes é que era bom, que antes não se manipulavam eleições, enfim, que Hugo Chávez era um democrata. Ora, se Chávez era um democrata, então Mubarak também o era.


No Egipto de Mubarak as eleições eram livres na medida em que raramente havia manipulação dos votos expressos em urna. De resto, alguns actos eleitorais foram monitorizados e validados por organizações internacionais independentes. O problema da liberdade eleitoral egípcia estava a montante, isto é, nos partidos e indivíduos a quem era permitido concorrer. O crivo eleitoral imposto pelo regime era de tal forma apertado (e viciado) que às eleições apenas se apresentavam o partido no poder e chamada "oposição leal". No Egipto de Mubarak as eleições eram livres porque a manipulação (opressão, na verdade) acontecia antes de os eleitores se deslocarem às urnas. Na Venezuela de Chávez a lógica era em tudo semelhante: os juízes dissidentes eram detidos, os empresários que destoavam do regime eram expropriados, os dirigentes sindicais que ousavam levantar a voz eram investigados, os órgãos de comunicação social livres eram encerrados, os recursos do Estado eram colocados ao serviço dos interesses políticos do líder e, como se isto não bastasse, fez-se uma Constituição favorável ao poder incumbente. Quando este é o terreno de jogo não há grande necessidade de manipular eleições. Por estes dois lustrosos exemplos de autoritarismo se vê que quando falamos em democracia não nos limitamos à exigência de actos eleitorais livres em stricto sensu.
 
Na Venezuela actual a manipulação é evidente, como é evidente o grotesco atentado às liberdades políticas dos cidadãos. Não há dúvidas - pelo menos, para os democratas - quanto ao carácter autoritário do regime de Maduro, criatura que as ruas de Caracas apelidam adequadamente de Maburro. No entanto, o agravar da crise política e humanitária em curso está a abrir espaço para a reabilitação de Hugo Chávez, um revisionismo que dificilmente teria sustentação se não fosse pela falta de memória colectiva. Hoje, como no passado chavista, a democracia venezuelana é uma aldeia Potemkin.

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Uma coisa e o seu contrário

por Diogo Noivo, em 26.07.17

Incêndio em Mação "descontrolado" ou foi uma "manhã tranquila"? Em Alijó ocorreu a queda de uma aeronave ou trata-se apenas de uma aterragem de emergência? E o avião em Pedrógão Grande, caiu ou não caiu? Morreram 64 pessoas, foram mais (ou foram menos)? As seguradoras têm acesso fácil à informação sobre os incêndios para poderem indemnizar as vítimas ou esse acesso é dificultado por opacidade institucional? Foi feito o possível para combater os fogos ou o Estado falhou? Falando sobre Tancos, as armas roubadas estavam ou não operacionais? São perigosas ou são sucata? E há ou não o risco de que essas armas acabem nas mãos do crime organizado e de grupos terroristas?

 

Nas últimas semanas, houve respostas para todos os gostos. Entidades oficiais e gente com responsabilidades públicas desdobraram-se em afirmações que sustentaram uma coisa e o seu contrário. Aliás, há casos onde a mesma pessoa disse uma coisa para mais tarde, sem sinal de assombro, vir a terreiro desdizer-se. Visto como um todo, isto já não é incúria nem fracasso do Estado. É vaudeville. 

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O Ministério da Verdade

por Diogo Noivo, em 25.07.17

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O Ministério da Verdade, que por cá chamamos de Administração Interna, informa que o "número [de mortos] validado pelas autoridades competentes" é de 64. Passando à frente do atrevimento subjacente à utilização da palavra "competentes" e perdoando a falta de acentos, sabemos já que o número de mortos nos incêndios em Pedrógão Grande é superior ao "validado".
A postura do MAI, e em particular de quem o tutela, tem sido miserável. Ano após ano, a Ministra chega tarde e mal à dura realidade dos fogos, além de ser incapaz de controlar o caos que impera no ministério. A este quadro lamentável junta-se este tweet que, ao instrumentalizar cadáveres para fins de controlo de danos políticos, nos leva a um patamar de abjecção inaudita.
Importa recordar que não é a primeira vez que o Ministério da Verdade recorre ao Twitter para definir a agenda: depois dos incêndios, o MAI deu nota da subida do PS nas sondagens. Isto é, depois de uma tragédia horrorosa, mete-se o Estado ao serviço do partido num canal de comunicação que se quer oficial. Está visto que quem manda na casa tem as prioridades bem definidas.

Resta-nos, infelizmente, o alerta de "1984":
 
"And when memory failed and written records were falsified—when that happened, the claim of the Party to have improved the conditions of human life had got to be accepted, because there did not exist, and never again could exist, any standard against which it could be tested".
 
ADENDA: A Ministra da Verdade afirma que não há dificuldade no acesso à informação, mas a Associação Portuguesa de Seguradores veio dizer o contrário. Contudo, a verdade "validada" é só uma e a distopia orweliana avança.
 
ADENDA 2: Segundo Diário de Notícias de hoje: "O relatório do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), tutelado pelo Ministério do Planeamento e das Infraestruturas, contraria a tese do governo para o incidente com um helicóptero que combatia um incêndio em Alijó no dia 16 de julho. Nesse dia, segundo lembra a TSF, o ministério da Administração Interna disse tratar-se de uma aterragem de emergência e não de uma queda".

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Venezuela: Estado da Arte

por Diogo Noivo, em 21.07.17

"Es totalmente falso que en Venezuela haya una lucha entre izquierda revolucionaria y derecha fascista; el régimen venezolano está enfrentado a una coalición de fuerzas esencialmente de centro que incluye a partidos, líderes, organizaciones sociales e intelectuales de izquierda que creen en la democracia y el mercado. Lo que está en juego en Venezuela es el futuro del centrismo político en Latinoamérica, porque en esta ocasión, las fuerzas democráticas no son compañeros de viaje de extremistas ni de derecha, ni de izquierda. La derrota del extremismo abre la posibilidad de alcanzar una mayor madurez democrática en el continente."

 

"El supuesto marxista era que la Revolución Bolivariana lograría el desarrollo de las fuerzas productivas, pero, al igual que en Cuba, lo que hubo fue destrucción de las fuerzas productivas. Los bolivarianos hicieron retroceder la producción de petróleo y despilfarraron los ingresos más altos que ha tenido Venezuela en toda su historia."

 

Joaquín Villalobos, "Lo que queda de Venezuela", El País - 21.07.2017

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A segurança e defesa do Governo

por Diogo Noivo, em 07.07.17

O problema estava num Palma Cavalão que, ao abrigo do cobarde anonimato, ousou criticar o Governo português nas páginas de um diário espanhol associado à direita. Agora, um outro diário espanhol publicou uma notícia pouco abonatória da competência do Executivo chefiado por António Costa. Desta feita, trata-se de um periódico associado à esquerda e quem assina a notícia fá-lo com nome e apelido próprios. Assumindo que Portugal é um país normal, isto será o suficiente para que centremos o debate e abandonemos as arengas estéreis.

Sendo diferentes na origem e nos factos (nos poucos que se conhecem), os incêndios em Pedrógão Grande e o roubo de armas em Tancos são de extraordinária gravidade pois atestam a debilidade do Estado nos sectores da Segurança e da Defesa.

O apuramento de responsabilidades depende do apuramento dos factos. E já percebemos que o conhecimento dos factos foi habilmente atirado para as calendas, nomeadamente para depois do próximo acto eleitoral. Como o decoro é em Portugal um bem escasso e desvalorizado tudo isto é visto com normalidade.

Se não podemos avaliar os casos com base nos factos, podemos sim analisar a conduta política dos responsáveis pela Segurança e pela Defesa. No que respeita a Constança Urbano de Sousa, Ministra da Administração Interna, o que há a dizer está aqui e aqui. A senhora está a mais.

O caso da Defesa é mais complexo. O roubo de armamento é grave porque sugere incúria. É ainda mais grave dada a forte suspeita de que o destino do armamento roubado é o crime organizado e o terrorismo. Se o Ministro Azeredo Lopes não foi informado do risco, o CEMGFA terá de abandonar o seu posto e dar lugar a outro. Se o Ministro sabia, como é razoável que soubesse, então Azeredo Lopes deverá aproveitar a boleia da sua colega do MAI.

Porém, estas dúvidas tornaram-se assessórias quando o Ministro da Defesa decidiu abrir a boca. Em entrevista à SIC, Azeredo Lopes afirmou que o Ministro da Defesa Nacional “não sabe se falta uma câmara de videovigilância em Tancos ou em Lamego”. Disse também que o Ministro não é informado de problemas em vedações. Estas afirmações são reveladoras do entendimento que Azeredo Lopes tem da função que desempenha. Houve Ministros da Educação, de esquerda e de direita, a conhecer obras em escolas ao pormenor. Houve Ministros da Administração Interna a conhecer detalhes de todas as unidades das Forças de Segurança, do Corpo de Intervenção à Banda da PSP. Houve Ministros da Agricultura a saber de memória a extensão e a incidência regional de terrenos baldios em Portugal. Mas Azeredo Lopes aparenta não estar para ser incomodado com minudências. Adiante. Azeredo Lopes tenta mudar de assunto, mas o resultado não foi melhor: “Para não pensarmos que somos anormais no contexto europeu e mundial, basta procurar 'roubo de armamento militar' no Google e vamos chegar a conclusões interessantes.” Como o Pedro Correia aqui notou, parece que nunca foram roubadas tantas armas antitanque num país da NATO. Não satisfeito com esta lindeza de argumento, Azeredo Lopes volta a desculpar-se com as desgraças dos outros, dizendo não evocar, mas evocando, os atentados terroristas ocorridos em solo europeu. É dose.

Em resumo, os acontecimentos são gravíssimos e os Ministros não percebem a responsabilidade inerente às funções que desempenham. Estão a mais. E quanto mais tempo ficarem maior será a ameaça que constituem para a segurança e defesa políticas do Governo de António Costa.

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OK Corral no MAI

por Diogo Noivo, em 30.06.17

A Protecção Civil diz que o SIRESP falhou. Em resposta, o SIRESP diz que não. Já a Secretaria Geral do MAI aponta o dedo à Protecção Civil. A Protecção Civil, que não achou graça à acusação, escreveu ao Secretário de Estado a repor aquilo que entende ser a verdade dos factos. A GNR, ainda que num registo institucional e discreto, atribui responsabilidades ao Governo. Para rematar a faena, a Inspecção Geral da Administração Interna diz que vai investigar a Secretaria Geral da Administração Interna. É o caos no seu máximo esplendor. 

Em teoria, o cargo de Ministro da Administração Interna serve, entre outras coisas, para evitar que este passa-culpas e total desnorte suceda. Acontece que o lugar é ocupado por Constança Urbano de Sousa. Em vez de meter mão no faroeste que impera no Ministério, Constança Urbano de Sousa entretém-se (e tenta entreter-nos) com declarações difíceis de qualificar. Primeiro disse-nos que prefere dar a cara a demitir-se, não percebendo que uma e a outra coisa não são incompatíveis (vide o já muito falado caso de Jorge Coelho na sequência da queda da ponte de Entre-os-Rios). No parlamento, lacrimejante, disse-nos que passou por momentos muito difíceis, o que é de uma falta de tacto total e absoluta se tivermos em conta os sacrifícios feitos pelos bombeiros e o número arrepiante de mortos - esta declaração é também desleal porque quem esteve no momento mais duro do incêndio a dar más notícias ao país foi Jorge Gomes, Secretário de Estado da Administração Interna. A Ministra referiu ainda na Assembleia que este não foi o dia mais difícil da sua vida política, mas sim o dia mais difícil da sua vida, o que, ainda que respeitável, é absolutamente irrelevante para o apuramento dos factos (nem falo de responsabilidades).

Constança Urbano de Sousa reconhece, porém, que houve algo de "anómalo" (além do seu comportamento político, acrescento eu). Há esperança. Mas, no geral, tudo está bem porque aparentemente há um focus group a garantir que a popularidade do Governo permanece imaculada. Como a política é feita de percepções e expectativas, equipa que ganha não mexe e a culpa morrerá solteira.

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Sede Vacante

por Diogo Noivo, em 27.06.17

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Nunca um incêndio cobrou tantas vidas em Portugal. Trata-se de um dos incêndios mais mortíferos à escala mundial desde o ano 1900. Este facto é suficiente para justificar a demissão da titular da pasta da Administração Interna. A ocorrer, a demissão não será uma assumpção de responsabilidades políticas, mas sim uma mostra de decoro, de respeito institucional e de salvaguarda da autoridade do Estado.
A demissão da Ministra Constança Urbano de Sousa torna-se ainda mais premente se tivermos em conta os antecedentes. No ano passado, enquanto o país ardia, a Ministra da Administração Interna andou em parte incerta até aparecer a debutar numa festa organizada por uma revista cor-de-rosa. Como escrevi na altura, não estava em causa o legítimo direito a férias. Estava sim em causa a responsabilidade institucional inerente às funções de Ministro da Administração Interna, responsabilidade essa que Constança Urbano de Sousa manifestamente não entendeu. Depois de aparecer em público tarde e mal, a Ministra espraiou-se em declarações tão populistas como toscas, típicas de quem pretende usar os piores sentimentos que a raiva e o desespero suscitam nas vítimas de um incêndio para isentar-se de explicações.
Mandava a prudência e esperava-se da capacidade de aprendizagem da Ministra que as coisas corressem melhor este ano. Ilusões. Com o fogo a consumir floresta e a ceifar vidas, a primeira despesa política do Governo foi feita pelo Secretário de Estado da Administração Interna que, mais tarde, aquando da chegada do Presidente da República ao local, foi literalmente empurrado para fora do alcance das objectivas por uma Ministra preocupadíssima com a sua visibilidade. Tal como no ano passado, Constança Urbano de Sousa aparece em público tarde e mal. E tal como no ano passado, este ano a Ministra foi fértil em declarações que mais não são do que uma tentativa de se furtar a responsabilidades. O essencial das declarações já aqui foi comentado pelo Pedro Correia. Falta apenas referir o óbvio em relação a estas palavras: Senhora Ministra, dar a cara não é incompatível com a sua demissão. Como se tudo isto não bastasse, os problemas no terreno foram evidentes para quem conheça minimamente a área da Administração Interna. O avião que caiu sem cair e os militares da GNR sem informação são dois de vários episódios a expor graves problemas de coordenação de informação no terreno.
Constança Urbano de Sousa começou o seu mandato ávida de protagonismo, sobretudo em assuntos relacionados com terrorismo (matéria sobre a qual tem poucas competências) e com Serviços de Informações (matéria que não lhe compete de todo). Já no que respeita a combate a incêndios, um dossier que sim tutela, a Ministra mostra severa e reiterada incompetência institucional. A sua demissão não será movida pela assumpção de responsabilidades políticas. Será movida por inimputabilidade.
A Ministra perdeu toda a autoridade por culpa própria, em parte devido à incapacidade de compreender que debutar e governar não são sinónimos. Por isso, mesmo que continue agarrada ao lugar, o Ministério da Administração Interna encontra-se em estado de sede vacante.

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Talking Heads

por Diogo Noivo, em 21.06.17

Ontem à noite, um dos monitores na zona de entrega de bagagens do aeroporto de Lisboa estava sintonizado na RTP3. Na imagem, Pedro Adão e Silva, José Eduardo Martins e Ricardo Sá Fernandes. O monitor estava sem som, razão pela qual não ouvi o que foi dito. No entanto, lia-se no oráculo "porque falham as comunicações de emergência?". Dada a elevadíssima e reconhecida competência técnica dos intervenientes sobre a matéria em apreço, tenho a certeza que não ficou pergunta por responder ou pedra por virar, do SIRESP aos planos de prevenção. Aposto que até do mastoideu se falou.

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Radicais e coniventes (VI)

por Diogo Noivo, em 11.06.17

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Belgian Muslims condemn attacks, donate blood (Politico)

Los musulmanes condenan los atentados de Bruselas: “El terrorismo no tiene religión” (La Vanguardia)

Organization of Islamic Cooperation Strongly Condemns Brussels Attacks (Variety)

Brussels attack: Australian Muslims condemn Islamic State terror (The Australian)

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Radicais e coniventes (V)

por Diogo Noivo, em 10.06.17

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San Bernardino Shooting: Muslim Leaders Condemn ‘Revolting’ Massacre (NBC)

American Muslims Are Raising $1,000 an Hour for San Bernardino Victims (Time)

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Radicais e coniventes (IV)

por Diogo Noivo, em 09.06.17

 

#NotInMyName- Young British Muslims at Active Change Foundation show their solidarity against ISIS and their actions.

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Radicais e coniventes (III)

por Diogo Noivo, em 08.06.17

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This Egyptian Muslim Woman Died Defending Christians On Palm Sunday (HuffPost)

Three Egyptian police died preventing suicide bomber from entering Alexandria cathedral (ahram online)

 

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Radicais e coniventes (II)

por Diogo Noivo, em 07.06.17

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Ahmed Merabet, policier achevé au sol et Franck Brinsolaro, tué au côté de Charb, qu'il protégeait (Le Figaro)

Charlie Hebdo: Muslim police officer killed in Paris attack commemorated with #JeSuisAhmed (Independent)

France's New Hero Is The Muslim Police Officer Killed Confronting The Charlie Hebdo Gunmen (Business Insider)

#JeSuisAhmed: The Muslim Victim in the Paris Massacre (The Atlantic)

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Radicais e coniventes (I)

por Diogo Noivo, em 06.06.17

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Manchester Arena attack: Muslim leaders condemn ‘horrific’ suicide bombing (Independent)

Members of Manchester's Muslim community among those most strongly condemning deadly bombing (Los Angeles Times)

Manchester Muslim community joins faith leaders to condemn ‘cowardly’ terror attack (The Sun)

Muslims unite to condemn Ariana Grande Manchester terror attack (Metro)

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Tão-somente poder

por Diogo Noivo, em 23.05.17

Não sei se o problema tem 20 anos. Na verdade, vejo-lhe as origens no fracasso dos projectos pan-arabistas, como o de Nasser. Seja como for, "é um problema político" e não um choque de civilizações ou uma guerra de religiões. Aliás, é esse o meu argumento aqui e aqui

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Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 22.05.17

Certamente por limitação minha, só me ocorre uma analogia de surfista para descrever o blogue da semana: chegamos à praia e o mar não mexe; nem uma ondinha marreca, daquelas que apenas servem para acalmar o espírito; mas quando entra o set as ondas são memoráveis, ao ponto de colocarem esta praia no Olimpo dos sítios de surf favoritos. Falo de "A Origem das Espécies", de Francisco José Viegas. 

Para quem, como eu, o lê desde o advento dos blogues portugueses, os últimos tempos são marcados por uma cadência típica das marés: nenhuma actualização durante dias, seguida de posts em catadupa. É verdade que os leitores habituais querem maior regularidade, mas a qualidade dos textos compensa (e muito) a inconstância. 
De resto, Francisco José Viegas é dos poucos intervenientes no espaço público nacional cujas  análises não são mais do mesmo. Não alinha na opinião única e diz o que há a dizer com muito pouco. E abomina o politicamente correcto, o que muito se agradece. É, por isso, a minha escolha para Blogue da Semana. Esperemos que esta seja uma semana de ondas.

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Há noites assim

por Diogo Noivo, em 18.05.17

Andei a ruminar os dias de triunfo póstumo de Salazar. Ruminava, mas não chegava a qualquer conclusão. Estava numa espécie de letargia induzida por uma dose cavalar de comprimidos Melhoral. Hoje a coisa aclarou-se graças ao artigo de Paulo Tunhas. Acertou na mouche.


Faltou-lhe, contudo, referir os efeitos nefastos da bebedeira. O problema, como sempre, está nas misturas: Fado (versão redux), futebol, Fátima, e a economia a crescer. Qualquer adulto sabe que, se é para ficar alegre, o melhor é beber sempre do mesmo. Mas não. Bebeu-se de tudo e houve bêbados para todos os gostos: alegres, depressivos, esperançosos, rezingões, quase todos chatos. A coisa é especialmente preocupante porque já andávamos a fazer as figuras tristes que nos levaram a valentes dissabores. Quando passar o efeito etílico, a dor de cabeça será de tal ordem que vão achar que têm anões hiperactivos com picaretas dentro do crânio.

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Pensamento da semana

por Diogo Noivo, em 29.04.17

Ao menino e ao borracho mete a DBRS a mão por baixo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

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Mal menor

por Diogo Noivo, em 22.04.17

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Emmanuel Macron 

 

São quatro os candidatos que se destacam para a primeira volta das presidenciais francesas. Dois deles, Marine Le Pen e Jen-Luc Mélenchon, não deviam estar num boletim de voto, mas sim no boletim clínico de um hospício. Como sempre acontece com os extremos opostos em política, são mais as coisas que os unem do que as que os separam: anti-europeistas; anti-globalização, anti-establishment; anti-NATO; proteccionistas; contrários aos princípios basilares da democracia liberal; defensores de um Estado cuja principal função parece ser a de contratar tudo e todos. Extrema direita e extrema esquerda distinguem-se apenas no tom do cretinismo: Le Pen considera que todos os muçulmanos são potenciais terroristas; Mélechon defende uma união bolivariana entre França, Venezuela e Cuba. Em suma, nenhum dos componentes deste duo insano é solução para nada de coisa nenhuma. Sobram, portanto, Emmanuel Macron e François Fillon. 

 

Fillon tem a experiência e o estofo necessários para implementar as reformas políticas que França precisa e sempre recusou. Mas Fillon é hoje a cara dos abusos do poder. Sucessivos escândalos mostram que, no passado, François Fillon serviu o Estado, mas também se serviu dele, nomeadamente usando dinheiro público e empregos fictícios para pagar salários a familiares. Pedir sacrifícios aos franceses quando se tem este cadastro não é propriamente edificante e não augura grandes resultados eleitorais num país onde a população nutre um profundo desagrado, se não desprezo, pela classe política. Será porventura injusto que um caso de abuso ofusque anos de trabalho político sério, mas as coisas são como são. 

 

Resta-nos então Emmanuel Macron. Enquanto foi Ministro da Economia bateu-se pela liberalização de alguns feudos profissionais em sectores altamente protegidos, como o notariado ou os transportes públicos. Propõe as muito adiadas reformas, embora seja menos ambicioso do que Fillon. Macron é europeísta, defende uma economia aberta de mercado e tem a coragem de propor algumas reformas impopulares. Mas falta-lhe tarimba. Nunca foi eleito para qualquer cargo público e a sua experiência política resume-se em grande medida à titularidade da pasta da Economia entre 2014 e 2016. Pior, toda a sua campanha tem um aroma de voluntarismo "inspiracional" (é como se diz agora), de tipo Obama. Muita vontade, muito ânimo, muito allez!, mas tudo com um cheiro a inconsequência, típica da política-espectáculo. Tal como Obama, Macron é levado ao colo pela imprensa internacional, o que recomenda prudência na avaliação do candidato.

 

Se, como indicam as sondagens, Macron e Le Pen passarem à segunda volta, o sistema de partidos francês sofrerá uma alteração profunda pois será a primeira vez desde 1958 que os dois principais partidos ficam apeados. E se tal acontecer, mais incógnitas se perfilam no horizonte: a eleição Macron pode obrigar a coligações, algo invulgar no arranjo político-partidário de França; a eleição de Le Pen traduzir-se-á numa viagem para uma dimensão alternativa tão incerta como perigosa.

De resto, face ao atentado terrorista que marcou o final de campanha, Le Pen insistiu num discurso radical e isolacionista, contraproducente, que mais não faz do que agravar o problema e deteriorar os já maltratados pilares do Estado de Direito Democrático. As credenciais de Macron nesta matéria não são brilhantes, mas com ele há pelo menos a esperança de que possa vir a entender o que está em causa.

Assumindo que a política é a arte do possível, Emmanuel Macron é o mal menor. Ainda assim, de longe o mais desejável para França e, pela parte que me toca, para uma Europa salubre. 

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Breve história de um fim provisório

por Diogo Noivo, em 13.04.17

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No passado fim-de-semana a ETA entregou as armas. Ao contrário do que sucedeu com o IRA ou com as FARC, o desarmamento da ETA foi unilateral, sem contrapartidas. Foi uma rendição. A organização terrorista chega aos dias de hoje sem ter ganho nada: nem independência, nem a junção do País Basco a Navarra, nem a transferência de presos etarras para estabelecimentos prisionais bascos, nem a internacionalização do “conflito”, nem amnistias. Nada. Chega aos dias de hoje sem apoio popular - o pouco que existiu é agora negligenciável. A única coisa que conseguiu foi deixar um rasto de terror feito à custa de mais de 800 cadáveres. 

 

O estertor do terrorismo etarra faz-se de duas datas: 10 de Janeiro e 20 de Outubro de 2011. A 10 de Janeiro de 2011 a organização terrorista ETA anuncia um cessar-fogo "permanente, geral e verificável", três palavras que nunca estiveram juntas em anteriores interrupções de hostilidades. A 20 de Outubro do mesmo ano, a ETA anuncia o "cese definitivo", o fim. Para decretar o óbito de 40 anos de terror faltava apenas que a organização entregasse as armas e, depois, anunciasse oficialmente a sua dissolução. No passado fim-de-semana cumpriu-se a primeira etapa. Aguardamos o cumprimento da segunda.

 

O estado da arte deve-se a diferentes factores que, juntos, criaram a tempestade perfeita. Em primeiro lugar, um processo negocial, o terceiro em 40 anos de terror. Já trouxe ao DELITO a história desta negociação: Negociador (Borja Cobeaga, 2014) é a adaptação cinematográfica criativa do livro onde Jesús Eguiguren, o principal negociador, conta como conversas exploratórias entre ele, do Partido Socialista Basco, e Arnaldo Otegi, uma das figuras mais conhecidas e activas da esquerda abertzale, evoluíram para rondas negociais entre o Governo, a esquerda abertzale e a ETA. Este processo, à semelhança dos anteriores, fracassou. Ainda assim, conseguiu cavar as clivagens existentes na esquerda pró-etarra e, assim, afastar a estrutura partidária da estrutura terrorista. Além do filme e do livro, o processo é agora explicado em El fin de ETA (Justin Webster, 2016), um documentário notável, muitíssimo bem feito, disponível em Portugal no Netflix. Espero trazê-lo em breve ao DELITO.

Em segundo lugar, a pressão policial e judicial. No ano 2000, a ETA contava com cerca de 1000 operacionais; seis anos depois este número desceu para aproximadamente 50. A aplicação da lei foi essencial para que a imensa maioria dos terroristas com experiência operacional e política acabassem presos. O vazio de poder na cúpula da ETA foi então preenchido por jovens impreparados, muitos vindos directamente da kale borroka (guerrilha urbana), gente com manifesta inépcia política.

A nova liderança terrorista é o terceiro factor: o seu fanatismo exacerbado impediu-a de ver a realidade e de perceber que à medida que o tempo passava a organização ficava cada vez mais isolada. A ETA continuou a matar, visando com frequência vítimas de oportunidade, os mais fracos ou mais desprotegidos, pessoas como Isaías Carrasco. Mostrou que a única forma de fazer política que conhecia era matar.

 

Tudo indica que a ETA chegou felizmente ao fim. Porém, manda o conhecimento do modus operandi da organização que esperemos pelo anúncio oficial de dissolução. Recorde-se que a 30 de Dezembro de 2006, em pleno processo negocial, a ETA detonou um carro-bomba no Terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madrid, matando duas pessoas e destruindo por completo um bloco de estacionamento. Recorde-se também que em Outubro desse ano a ETA roubou cerca de 300 armas e munições na véspera do dia em que o Executivo espanhol levou o Caso Basco e representantes das forças políticas separatistas ao Parlamento Europeu. O Governo esforçava-se por encontrar soluções, arriscava muito do seu capital político ao abrir a porta à internacionalização do “conflito”, mas a ETA aproveitava o momento para se rearmar. Por último, recordemos que a ETA defendeu e aplicou aquilo a que chamou de “socialização do sofrimento”, um conceito mórbido segundo o qual a violência tinha de chegar a todos: políticos, polícias, jornalistas, professores, enfim, a todos os que se opunham publicamente à utilização da violência como instrumento de acção política.

Compreende-se, assim, o cepticismo de vários sectores da sociedade espanhola. Além do mais, existe o risco de que os partidos independentistas recuperem o legado político da ETA, ainda que sem recorrer ao terror. Se tal acontecer, será praticamente impossível sarar a chaga social aberta ao longo de 40 anos de terrorismo. Também por isso é importante que a ETA assuma publicamente a sua dissolução.

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Quando a democracia vence o terrorismo

por Diogo Noivo, em 10.04.17

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 Monumento a la Constitución, 21 de Outubro de 1983

 

O desarmamento da ETA chega tarde. 

Manda a prudência, o percurso desta organização terrorista e o sofrimento das vítimas que não lancemos foguetes. Pelo menos, para já. Tentarei escrever sobre o tema. Por ora, partilho uma magnífica fotogaleria do El País dedicada à luta cidadã. Estas imagens e o pequeno enquadramento histórico de cada uma delas é suficiente para perceber a inanidade de uma peça recente da SIC que chamou "luta armada" ao terrorismo e "grupo separatista" à ETA.

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Brexit: negociar a negociação

por Diogo Noivo, em 07.04.17

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Em regra, negociar é difícil. Negociar na arena política é especialmente difícil, sobretudo no plano internacional. No entanto, o Brexit está a levar a dificuldade de negociar a um novo patamar: não só é uma negociação difícil per se, como as partes não estão de acordo quanto à forma de negociar. Primeiro terão, portanto, que negociar a negociação. O Reino Unido defende que se trate da saída da União ao mesmo tempo que se negoceiam os termos de uma relação futura. Já Bruxelas não quer conversas paralelas e prefere uma abordagem sequencial. Se “Brexit means Brexit”, defende Bruxelas, então saiam e depois logo veremos em que termos colaboramos.

O artigo 50º do Tratado de Lisboa não ajuda a dirimir o conflito. Lê-se neste artigo que a desvinculação de um Estado-Membro passa por “um acordo que estabeleça as condições da sua saída, tendo em conta o quadro das suas futuras relações com a União”. Ou seja, e mesmo sem especiais dotes de retórica, é possível defender que o artigo 50º autoriza as duas abordagens.

 

A União Europeia quer deixar claro que está a negociar a desvinculação do Reino Unido, e não os termos de uma futura relação. O discurso oficial argumenta que a negociação paralela contaminará os dois processos. Mas, na verdade, esta posição política pretende demonstrar que a Europa não está refém do Reino Unido. Como afirmou Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu, “teremos saudades. Obrigado por tudo e adeus”. Curto e seco.

Mais do que pundonor, para a União trata-se de uma estratégia negocial assente em dois objetivos: (i) definir condições de desvinculação que dissuadam outros Estados-Membros de pretensões de ruptura; (ii) reduzir a margem negocial de Londres – se os dois dossiers, saída e relação futura, forem negociados em simultâneo, o Reino Unido pode obrigar Bruxelas a fazer “horse trading”, o que evidentemente colide com o primeiro destes dois objectivos.

 

Theresa May não está impressionada. A Chefe do Executivo britânico afiançou que não chegar a acordo é melhor do que chegar a um mau acordo. O Governo britânico, além de desejar a margem negocial que Bruxelas lhe quer tirar, considera que uma negociação a dois tempos prolongará o clima de incerteza económica, em parte porque atrasará eventuais acordos bilaterais a estabelecer entre Londres e outras capitais. Para o Reino Unido, o Brexit é um processo make it or break it.

O drama é que esta postura parece ser para levar a sério. Simon Tilford, investigador no Centre for European Reform e um dos mais notáveis analistas de política europeia, considera provável que o Brexit acabe sem acordo e, dessa forma, com uma saída desenquadrada. Olhando para as projecções do FMI sobre as economias europeias, e em particular para as referentes ao Reino Unido, escreve Tilford que “[t]he forecast for the UK assumes that the British government succeeds in negotiating far-reaching access to the EU’s single market, which is unlikely. Indeed, there is probably a greater likelihood of negotiations between Britain and the EU breaking down, resulting in the UK leaving without any agreement in place. Under this scenario, the outlook for UK growth would be far worse than forecast by the IMF."

Extremar posições na fase inicial de uma negociação é normal e expectável. Mas continuar a extremá-las desta forma levará ambos os lados a um ermo do qual não poderão sair sem perder a face. O tempo passa, mas não saímos do Brexit à bruta.

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Robert B. Silvers

por Diogo Noivo, em 31.03.17

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Uma greve, trabalho voluntário e um parágrafo. Eis a génese da New York Review of Books. O parágrafo, intitulado "To the Reader", é notável pois mostra que não foi preciso escrever muito para definir as baias de uma das publicações literárias e políticas mais relevantes de sempre. O âmago do pequeno texto, publicado a 1 de Fevereiro de 1963, vive em duas frases: "This issue of The New York Review of Books does not pretend to cover all the books of the season or even all the important ones. Neither time nor space, however, have been spent on books which are trivial in their intentions or venal in their effects, except occasionally to reduce a temporarily inflated reputation or to call attention to a fraud". Simples, despretensioso, e apostado no escrutínio de um mundo onde as vaidades e os nepotismos sempre encontraram solo fértil.
Submetida ao impiedoso teste do tempo, a NYRB modernizou-se sem perder o rigor, o espírito crítico e os critérios nos quais se fundou. O mérito é produto de um trabalho conjunto, mas o timoneiro tem nome: Robert B. Silvers. Editor da publicação desde o momento em que foi criada, Silvers mostrou, como escreve Luis Gago no Babélia, que é possível exercer uma influência indelével em várias gerações de leitores sem escrever ou editar livros. A aversão a entrevistas e a aparições em eventos públicos deveu-se a um entendimento zeloso da missão de editor. “The editor is a middleman. The one thing he should avoid is taking credit. It’s the writer that counts”, disse numa das raríssimas entrevistas que concedeu e que o New York Times citou recentemente.
Para Silvers, a NYRB foi, entre outras coisas, um instrumento para espantar as matilhas unipensantes que vagueiam pelo milieu cultural e político, sem nunca se preocupar em demasia com a reacção dos leitores. Aliás, compaginar a adaptação aos tempos que chegam com o respeito pelos princípios fundadores da publicação é, sem dúvida, uma das características mais louváveis, porque é rara, do lendário editor da NYRB. Outra merecedora de destaque, porque também invulgar, foi a constante preocupação de ter textos legíveis, acessíveis a qualquer leitor, embora nunca permitindo que o trabalho de edição ofusque a complexidade dos temas abordados.
Robert B. Silvers morreu no passado dia 20 de Março. Daniel Mendelsohn refere que Silvers trabalhou até ao fim, com a bonomia e a erudição intactas, ainda que a energia já fosse faltando. “I admire great writers, people with marvelous and beautiful minds, and always hope they will do something special and revealing", disse Silvers. O que ele admirava nos outros fez da NYRB aquilo que é.

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Pensamento da semana

por Diogo Noivo, em 25.03.17

 

Enquanto o pau vai e vem, ficamos no lixo e a dívida aumenta.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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Jaime Gama lê o DELITO

por Diogo Noivo, em 23.03.17

Em entrevista à Antena 1, Jaime Gama afirmou que “há uma ilusão geral muito grande em relação à economia portuguesa”. Acrescentou que “a opinião pública está anestesiada porque lhe é escamoteada a compreensão do problema (da dívida) e lhe é permanentemente afirmada a oferta ilusória que é impraticável”. E, como é evidente, a "realidade far-se-á sentir na altura própria”.

Como escreve o Expresso, Jaime Gama, embora sem mencionar o actual Executivo, diz que “todos (os atuais protagonistas da solução governativa) preferem esconder-se numa cortina de sombras para não tratar ou secundarizar as questões essenciais”. Está visto que o antigo presidente da Assembleia da República leu o nosso pensamento da semana.

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Só se estragava uma casa

por Diogo Noivo, em 22.03.17

O Ministro que comparou a concertação social a uma "feira de gado" considera infeliz que o presidente do Eurogrupo tenha caracterizado os países do sul como gastadores em "mulheres e álcool". Nascemos para sofrer.

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Brexit à bruta

por Diogo Noivo, em 14.03.17

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O Parlamento Britânico autorizou ontem o Governo a accionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, a norma que contempla a saída de um Estado-Membro da União Europeia. Theresa May fica então com o caminho livre para avançar de imediato para o processo de desvinculação da União Europeia, muito embora a imprensa britânica afirme que a Chefe do Executivo esperará pelo final do mês para dar esse passo. Associada a esta proposta estava uma garantia de direitos aos cidadãos europeus a residir no Reino Unido. Votada a proposta, esta garantia de direitos foi chumbada graças a Conservadores e Trabalhistas - os Liberais foram os únicos a opor-se a este hard stance
São duas as razões que explicam a recusa de uma garantia de direitos. Por um lado, em ambos os lados do Parlamento há quem tema que oferecer esta garantia crie um efeito-chamada, isto é, que de repente entre no Reino Unido uma vaga de cidadãos europeus em busca de residência antes da oficialização do Brexit. Por outro lado, o Reino Unido quer usar este assunto como bargaining chip: antes de oferecer garantias a cidadãos oriundos dos Estados-Membros da União, Londres quer ver que garantias serão oferecidas aos cidadãos britânicos a residir em solo comunitário. Em suma, os direitos dos cidadãos ficam em carteira como moeda de troca para as conversas sobre a operacionalização do Brexit.
Porém, e como quase sempre sucede, existe ainda a matemática de mercearia, típica da política partidária. Theresa May, Chefe do Governo e membro do Partido Conservador, não quer ser ultrapassada pela direita dentro do seu partido. Como escreveu John McTernan no Telegraph em Julho do ano passado, é o mundo ao contrário. Enquanto políticos profundamente conservadores como Andrea Leadsom não hesitam em oferecer garantias aos europeus a residir no Reino Unido (estão de tal forma à direita que oferecer estas garantias não constitui um capitis diminutio político junto do eleitorado Conservador), Theresa May, supostamente mais ao centro, opta pela abordagem dura. 
Entretanto, o Governo Britânico continua sem uma estratégia para o Brexit que aparente um mínimo de consistência (pelo menos em público), a libra sofre uma desvalorização acentuada, e os estrangeiros residentes no Reino Unido vão de incerteza em incerteza até uma muito provável angina de peito final. Do lado da União a abordagem não é mais meiga, sob pena de abrir um precedente que incentive outros a abandonar o projecto comunitário. Se a tendência de extremar posições se mantém chegará o momento em que será impossível recuar sem perder a face.

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Procurar razão

por Diogo Noivo, em 11.03.17

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Com apenas 16 anos de idade Gabriel Vidal “Baby” tornou-se o centro de todas as atenções em Espanha: foi o primeiro a ser condenado pela justiça daquele país na sequência da investigação aos atentados terroristas de 11 de Março de 2004, em Madrid.
Apodado “El Gitanillo” pelos órgãos de comunicação social, Gabriel pertencia à “trama asturiana”, um pequeno grupo de delinquentes de Avilês que se dedicavam ao tráfico de estupefacientes e a delitos comuns. Rufias de bairro que por ganância, por laxismo e por força de um habitual encolher de ombros acabaram por fornecer a jihadistas os explosivos que mataram 191 pessoas e feriram cerca de 1000 na capital espanhola. “Baby” foi quem transportou os explosivos das Astúrias até Madrid e os entregou à célula terrorista que cometeu o atentado.
Em Nos vemos en esta vida o en la otra, Manuel Jabois, jornalista e colunista no diário El País, usa a história de “Baby” como estribo para descrever os factos, os personagens e as ligações que culminaram no acto terrorista mais devastador ocorrido na Europa Ocidental. A partir de várias conversas com o jovem asturiano, as primeiras que “Baby” teve com um jornalista, Jabois mapeia o contexto difuso de uma rede composta por redes, destrinçando com clareza as fronteiras entre a pequena criminalidade e o terrorismo; ao mesmo tempo, expõe o papel crucial que a oportunidade, o acaso e a indiferença de gente que nada tem que ver com o terrorismo desempenharam neste atentado. Aqui como noutros casos, o fanatismo religioso é manifestamente curto para explicar a confluência de acontecimentos e de diferentes percursos de vida que acabam por desaguar em massacre.
O livro é um trabalho notável de reportagem, muitíssimo bem documentado e escrito, que faz as perguntas certas, mas que não se angustia quando as respostas são demasiado triviais ou mesmo estúpidas. Todos os ângulos da história, todos os intervenientes (o livro refere mais de 50), todos os momentos que antecederam o atentado são trabalhados com minúcia e talento para tentar explicar o que parece destituído de razão.
Hoje assinalam-se os 13 anos do atentado em Madrid. No ano passado, escrevi aqui no DELITO que "[h]abituada à chaga terrorista, Espanha combateu a barbárie sendo irredutível na defesa da normalidade democrática." Nos vemos en esta vida o en la otra é mais uma expressão dessa normalidade. Manuel Jabois investiga e escreve sem assumir as dores de ninguém, sem tomar partidos, mas sem esquecer que existem vítimas. O livro é um esforço intenso, mas sereno de compreensão de um marco nefasto na história contemporânea de Espanha. Foi uma das leituras mais interessantes e impressivas que fiz em 2016. Se há dia para o recomendar, e merece sê-lo, hoje é sem dúvida esse dia.

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Imbecilidade com respaldo institucional

por Diogo Noivo, em 07.03.17

Uma pessoa ia dar uma conferência numa universidade. Essa pessoa tem curriculum académico e profissional relevante. Nada indicava, sugeria, ou indiciava que da conferência resultaria um ataque aos direitos, liberdades e garantias previstos na Constituição. Porém, um grupelho, porque não gosta da pessoa que ia ministrar a conferência nem das pessoas que a organizavam, decidiu lavrar protesto, suscitar desordem e exigir à faculdade o cancelamento da conferência. O Caramelo que está à frente da faculdade, certamente por não entender as funções que desempenha e a missão da instituição que dirige, acedeu ao pedido.
Podia sair do campo da abstracção e dizer que raras vezes concordo com Jaime Nogueira Pinto, muito embora tenha por ele admiração intelectual. Podia defender a pertinência do tema que ia ser debatido. Podia ainda afirmar que, pessoalmente, os promotores da conferência me parecem um pouco anacrónicos. Mas, para o caso, o detalhe e as apreciações pessoais são extemporâneas. Houve um gravíssimo atentado a liberdade de expressão, mais grave por ter sucedido numa instituição que, por definição, deve ser um espaço de debate, de liberdade e de conhecimento. Em vez de pastar por locais como o esquerda.net, o grupelho teria muito a ganhar em ler um notabilíssimo escritor de esquerda chamado Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Entre outras coisas relevantes para o assunto em apreço, escreveu Orwell que "...to be corrupted by totalitarianism one does not have to live in a totalitarian country. The mere prevalence of certain ideas can spread a kind of poison that makes one subject after another impossible for literary purposes. [...] But what is sinister, [...], is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most." Só por estes pequenos excertos, e se não forem completamente destituídos, já aprendiam qualquer coisinha. Eles e o Caramelo.

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A diferença entre fumo, foguetório e fogo

por Diogo Noivo, em 02.03.17

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Com justiça e oportunidade, pede o nosso Sérgio que António Domingues revele a informação que tem sobre a trapalhada na Caixa Geral de Depósitos. Se Domingues foi enganado, e se existem dados que demonstrem esse engano, então que os torne públicos pois essa é a forma mais eficaz de apurar a verdade.
Certo. O problema é que a eficácia depende sempre do resultado final desejado. Como, aparentemente, o objectivo de António Domingues é o de queimar o Ministro das Finanças em lume brando, a revelação parcial e periódica de informação, vulgo 'a conta gotas', é bem mais eficaz. E divertida, imagino.
O Governo devia seguir uma estratégia semelhante no caso das transferências para as offshore. É sabido que o ‘caso Caixa’ está a correr francamente mal ao Governo, em parte porque oferece a uma oposição debilitada a possibilidade de dar provas de vida. Assim sendo, a criação de um ‘caso’ cujo ónus recaia na oposição permite baralhar e dar de novo, desviando as atenções do Governo actual para o Governo anterior. Em teoria, o ‘caso das offshore’ serve o propósito. Acontece que a cortina de fumo não passará disso mesmo: fumo.
Independentemente da posição de princípio que cada um tenha sobre as offshore, parece que no caso em apreço não há indecências a registar. O dinheiro transferido é privado, foi devidamente comunicado pelos bancos ao Estado, e tudo indica que os impostos aplicáveis foram pagos. Aliás, de acordo com uma fonte governativa citada por Paulo Baldaia, não houve fuga ao fisco nem qualquer outra ilegalidade. Esta ideia foi reforçada ontem, no Parlamento, quando Rocha Andrade, Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, atribuiu a causa do ‘caso’ a um problema de software. Por último, como Helena GarridoJoão Taborda da Gama e outros já explicaram, o cerne do ‘caso offshores’ parece ser de natureza estatística. Não é que daqui não devam ser tiradas ilações e consequências. De resto, Paulo Núncio, anterior Secretário de Estado, já assumiu responsabilidades políticas e Maria Luís, a anterior titular da pasta das Finanças, já se dispôs a prestar esclarecimentos na Assembleia da República. Até ver, não houve bar aberto no ‘caso offshores’ e, apesar disso, já houve quem se chegasse à frente.
No 'caso Caixa' temos o cenário inverso. De momento, sabemos que houve um gravíssimo “erro de percepção mútuo” (perdoem-me a novilíngua, mas parece que é o novo normal), e que a lei e os deveres de transparência exigidos aos gestores públicos foram deliberadamente mutilados pelo Governo. E ninguém se chega à frente. Sabemos também que as gentes do Bloco, sempre empenhadas na moralização da política portuguesa, foram submetidas a uma lobotomia pelo Primeiro-Ministro e padecem agora de uma apatia selectiva. A inefável Mariana Mortágua, tão tranquila e conivente perante a trapalhada da Caixa, acordou da letargia política para berrar umas coisas sobre as offshores. O sentido de oportunidade é inatacável.
Em resumo, no 'caso offshores', para já, nada há de grave a reportar. A não ser fumo e foguetório. Já no 'caso Caixa' há um Ministro a arder devido a uma relação difícil com a verdade. No entanto, só o primeiro caso merece a indignação da esquerda. Mas, importa reconhecer, a festa está animada. Quando acabar o fumo, o foguetório e o fogo logo veremos em que estado ficou o imóvel.

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Nem-Nem

por Diogo Noivo, em 28.02.17

As redes sociais aproximam as pessoas de uma forma inovadora e surpreendente. Além de encurtarem distâncias e de superarem barreiras culturais, as redes sociais ligam indivíduos que, de outra forma, jamais coexistiriam sob um mesmo tecto. Por vezes, a ligação oferecida pela experiência em plataformas como o Twitter ou o Facebook é de tal forma intensa que, mais do que ligar pessoas, opera ligações dentro delas. Nomeadamente ligando-lhes o cérebro ao duodeno.
Estou consciente que a afirmação anterior é tudo menos consensual pois, argumentarão alguns, a ligação directa da massa encefálica ao tracto gastrointestinal é muitas vezes uma condição pré-existente que as redes sociais apenas potenciam. Seja como for, as consequências são palpáveis – e lamentáveis. Nas redes sociais, a reacção antecede com frequência a compreensão. Legiões imolam-se em retórica inconsequente sem perceberem bem porquê. Como escreveu Miguel Tamen, nunca o intervalo entre espasmos e prosa foi tão curto.
Alguns jornais aproveitam-se do estado de catatonia funcional dos nativos digitais, não para trazer alguma elevação à arena, mas sim para tirar partido da idiotia. O método mais habitual designa-se clickbait, em tradução livre «engodo para clicks», e visa captar clicks e visualizações, dois elementos essenciais para definir o preço da publicidade – e, assim, as receitas do jornal. Em regra, o clickbait assume duas formas. Primeiro, e sabendo que os conteúdos partilhados nas redes sociais raras vezes são abertos, os jornais recorrem a parangonas que agitam curiosidades. Por exemplo, uma notícia titulada “O novo amor de António Costa” uma vez aberta dá conta ao leitor que o Primeiro-Ministro descobriu a sua paixão por sushi ou pela chanfana.
A segunda expressão de clickbait, especialmente desonesta, recorre a títulos que instigam indignações fáceis. Mais do que teorizar sobre esta segunda abordagem, proponho que olhemos para uma ‘notícia’ publicada há dias pelo jornal i. Lê-se no título que “Jovens que não estudam nem trabalham vão receber 700€ mensais de subsídios estatais”. Logo, todos os jovens que não trabalham nem estudam vão receber 700€ do Estado. Avançamos para o lead e confirmamos o título. Por outro lado, a fotografia que ilustra a ‘notícia’, e que é todo um tratado sobre mensagens subliminares, mostra jovens ociosos que aparentam ter uma vida folgada, ficando portanto implícito que vivem à conta de terceiros. Isto é, à primeira, à segunda e à terceira vistas tudo indica que o Estado vai sustentar todos os jovens portugueses que não trabalham nem estudam. Como seria de esperar, a notícia provocou revolta ardente e generalizada nas redes sociais.
Contudo, lendo o texto na íntegra, ou socorrendo-nos de notícias a sério sobre o mesmo tema, como esta do Observador, percebemos que se trata de um programa de apoio ao empreendedorismo de jovens que não trabalham nem estudam – habitualmente designados em Portugal como jovens “nem-nem”. Para aceder ao programa, estes jovens têm de cumprir um conjunto de requisitos, como ter concluído o ensino obrigatório, têm de se candidatar, têm de apresentar os seus projectos, têm de ser seleccionados, e só então poderão aceder aos apoios disponíveis. Importa referir ainda que o programa tem 315 vagas, um número inferior aos cerca de 300 mil jovens portugueses que estão sem trabalho e que não estudam. Em suma, a realidade dos factos é substancialmente diferente daquilo que nos é sugerido pelo jornal i.
Tudo contado e somado, percebemos que o texto publicado pelo i espelha, porventura por simpatia, o tandem sobre o qual versa: nem é um trabalho respeitável nem mostra estudo deontológico.

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O amor livre e a Caixa Geral de Depósitos

por Diogo Noivo, em 21.02.17

“Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Carregadinha de sageza, a pergunta é posta na boca de d. Hélder, Arcebispo progressista brasileiro, uma personagem saída das crónicas de Nelson Rodrigues. Reza a crónica que após um debate público onde “católicos inteligentíssimos, arejadíssimos, etc.,etc.” peroraram sobre amor livre com invulgar compreensão e manifesta abertura, chega a vez de o Arcebispo se pronunciar. “A cidade parou” porque todos “queriam conhecer a sua palavra sobre o direito que temos de fazer a nossa vida sexual com a naturalidade de um vira-latas de esquina ou de um gato de telhado”. Instado a dizer de sua justiça sobre a liberdade de amar sem pudor, d. Hélder pondera e, “de mãos postas”, mata o assunto: “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Como escreveu o cronista brasileiro, gozando a paródia que criou, “[d]epois disso, o speaker poderia insistir? Nunca. E, ao mesmo tempo, não sabemos o que mais admirar em d. Hélder: se a fina inteligência, se a cálida bondade”.
Viajando no espaço e no tempo, do Brasil da década de 1960 para o Portugal de 2017, concluímos que a trapalhada com a Caixa Geral de Depósitos é o amor livre dos dias de hoje. Sopesando as novidades, as declarações, e o pouco edificante desenrolar do «caso Caixa» na última semana, é já evidente que o Ministro da Finanças mentiu ao parlamento e à opinião pública. É igualmente evidente que o Governo, responsável pela defesa do interesse público, se dispôs a mutilar a lei e os consequentes deveres de transparência exigidos a gestores públicos. E, embora menos claro, não é abusivo considerar que tudo isto foi levado a cabo com a conivência do Primeiro-Ministro e com a cobertura do Presidente da República – este último, ao ver o desenrolar do folhetim, meteu habilmente o corpo de fora, assassinando o Ministro das Finanças pelo caminho.
Aqui chegados, PS, PCP, BE e Presidência da República encarnam o espírito de d. Hélder: o que são a verdade, a ética, e os deveres de transparência quando comparados com a necessidade de recapitalizar a Caixa e com a estabilidade financeira do país? Não sei o que mais admirar: se o fino descaramento, se o pálido sentido de Estado. É agora oficial que os fins justificam os meios, e que a tão falada “ética republicana” mais não é do que um verbo de encher.
O novo utilitarismo é especialmente surpreendente nos bloquistas. Ao contrário dos demais partidos e de outros intervenientes no debate político, a acção pública do Bloco de Esquerda fundou-se sempre na moralização do regime. Desde que desaguaram no espaço público, os bloquistas foram sempre intransigentes com a mentira, mesmo quando ela não existia. As políticas públicas foram sempre por eles avaliadas com base naquilo que era “justo” e “correcto”, e nunca com base no que era possível. Para o Bloco, os constrangimentos da realidade foram sempre acessórios porque a política, na forma como a entendiam, almejava um patamar etéreo, onde a verdade, a ética e a justiça eram bens tão tangíveis como absolutos. Mas tudo mudou, o que levanta um problema. Se já não é o aurato da moral e da correcção, e considerando que a chamada «agenda fracturante» é agora bem mais exígua (e o pouco que sobra já foi assumido por outros), a raison d’être do Bloco de Esquerda desapareceu.
Escreveu Nelson Rodrigues que houve um tempo em que olhar para o céu nos punha “em relação direta, fulminante, com o infinito”. Porém, o progressista d. Hélder “só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”. Para a esquerda, o «povo» é o equivalente do céu. E o Bloco, quando olha para ele, já não encontra nada de sublime. Por isso, é bom que vá pensando se leva ou não guarda-chuva.

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O valor dos argumentos

por Diogo Noivo, em 15.02.17

Sou, sempre fui, favorável à despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Porém, discordâncias à parte, tenho de aplaudir o João Pedro Pimenta pela forma como responde aos talibãs do komentariado nacional que, nesta e noutras matérias, procuram fazer da ética um argumento de disciplina (e de imposição) em detrimento de um debate são, sério e democrático. 

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O local mais espaçoso no Metro de Lisboa

por Diogo Noivo, em 14.02.17

Em Lisboa, ficar em casa é um acto de rebeldia. Exposições modernaças, bares trendy, restaurantes étnicos, arquitectura (ou arquitetura?) desempoeirada, lançamentos de livros de dietas detox, lançamentos de lojas, lançamentos de “conceitos”, enfim, uma canseira de solicitações. Só ao Tejo é que ninguém se lança – já não se fazem portugueses como o Marcelo, o que, pensando bem, não é mau de todo.
Lisboa está na moda, Lisboa é sexy, Lisboa é cosmopolita. Desde que não seja para viver e trabalhar. Sobre as digressões cosmopolitas da capital muito há a dizer, começando pelos “happenings” e pelos “conceitos”, na sua maioria cópias baças daquilo que se faz noutras paragens. No entanto, o drama está no penoso quotidiano.
Regressado de Madrid, onde desta vez vivi cerca de um ano, as diferenças no dia-a-dia são esmagadoras. Na capital espanhola consigo tratar da minha vida usando os transportes públicos, em particular o Metro. Profissionalmente, mesmo que num só dia tivesse de estar em três ou quatro sítios diferentes, o Metro dá abasto. Para as coisas mundanas, como ir ao supermercado, ia a pé. Ao contrário do que sucede em Lisboa, Madrid mantém o comércio local vivo. Em todos os bairros da cidade há supermercados, farmácias, pastelarias, lojas de informática, livrarias, ginásios, cabeleireiros, lojas de roupa, restaurantes, enfim, tudo o que faz falta. Em matéria de acesso à cultura, voltamos aos transportes públicos. Cinema, teatro, livrarias grandes ou especializadas, todos têm uma estação de Metro por perto. Não conheço na cidade de Madrid um único trajecto que se percorra com maior rapidez e conforto de carro do que em transportes públicos. Já em Lisboa conheço vários.
É verdade, as estações de Metro em Madrid são feias, algumas causam mesmo repulsa. Pelo contrário, as de Lisboa são verdadeiras obras de arte. Reconhecida a diferença, importa salientar um aspecto relevante quando falamos de transportes públicos: o Metro de Madrid funciona. O metropolitano da capital espanhola apostou na dimensão e na funcionalidade da rede, a segunda mais extensa na Europa. O de Lisboa apostou na imagem. Em hora de ponta, o intervalo de tempo entre metropolitanos em Madrid ronda os 3 minutos. Em Lisboa, também em hora de ponta, o intervalo de tempo oscila entre os 5 e os 15 minutos, isto quando não temos as célebres “perturbações de linha” – eufemismo para o muito português “desemerdem-se”.
Dir-me-ão que as coisas por Madrid também não são fáceis, ao ponto de ter sido necessária a contratação de empurradores. Certo, mas isso só demonstra o quão eficazes são por lá: Lisboa não tem empurradores, mas devia. O grau de intimidade entre estranhos proporcionado pelo Metro de Lisboa em hora de ponta está à beira de desafiar as noções mais lassas de libertinagem. Mas até nem é mau dar por mim nessa situação. Não porque seja um tipo devasso, mas porque é sinal de que consegui entrar na carruagem. Depois de uns bons 15 minutos de indagações anatómicas mútuas e forçadas, que inevitavelmente levam a comparações, quase sempre desfavoráveis à minha pessoa, lá chegarei ao meu local de trabalho sem grande atraso. Amaçado, com a paciência na reserva, com odores no corpo que não são os meus (por princípio, não me oponho a ter no corpo odores de terceiros, mas ao menos que me paguem um copo primeiro), exausto, mas a horas.
Nada disto parece interessar. O que importa é que a cidade é famosa. E o Metro de Lisboa “é nosso”, novamente público, livre do jugo capitalista previamente autorizado por uma infame concessão a um nefando privado. Se o regresso ao perímetro público traz dificuldades, paciência, é o preço a pagar. Além do valor do passe, claro. Bom, o valor do passe é claro, mas a correspondente factura tem uma tonalidade tão escura que nauseia.
Aqueles que pugnaram por um Metro público, ignorando por completo a sua funcionalidade, eficácia e o serviço prestado aos passageiros, deveriam meter as suas ideias no mesmo sítio onde eu meteria a minha pasta se eles viajassem ao meu lado. Ainda que por definição seja um sítio aconchegado, é mesmo o único local com espaço num Metro lisboeta em hora de ponta.

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Parece simples, não é?

por Diogo Noivo, em 09.02.17

 

João Gomes de Almeida, no ECO:

 

"Mas numa coisa concordo com Fernanda Câncio: uma fação da sociedade não tem o direito de impor à maioria dos cidadãos a sua vontade. É por este motivo que acredito que os temas socialmente faturantes, ou como a jornalista refere as “escolhas do domínio da ética”, devem ser decididas por todos. Ou seja, através de referendo, tal como aconteceu com a Interrupção Voluntária da Gravidez. Isto porque nunca uma minoria deveria ter o poder de sobrepor o seu interesse ao da maioria. Certo? Não é isso que significa ser de esquerda?

Mas quando chega à hora de dar a palavra ao povo, a esquerda normalmente encolhe-se e gosta de disparar um dos argumentos mais falaciosos do jogo democrático: “os direitos não se referendam”. O tanas é que não! O povo afinal não é soberano? Foi à conta desta retórica que os partidos de esquerda têm conseguido, na maioria das vezes à pressa e atabalhoadamente, fazer passar na Assembleia da República diplomas sobre os temas que dividem a sociedade. Socorrendo-se sempre da falácia de que “estes temas só dizem respeito a quem é afectado por eles” – o que é imperativamente mentira, se partimos do princípio de que todos vivemos em sociedade e de que as transformações que se operam na mesma dizem respeito a todos."

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A OCDE, as polícias e uma ajuda ao Governo

por Diogo Noivo, em 07.02.17

Mais um relatório incómodo de uma organização internacional. A OCDE, em relatório apresentado ontem, suscita sérias reservas sobre a estratégia do Governo português – e sobre o seu irritante optimismo, acrescento eu. Mário Centeno já veio dizer umas coisas, e digo ‘coisas’ porque a intervenção do Ministro das Finanças soou mais a birra do que a exposição de argumentos válidos. Enfim, o Governo tem uma bota para descalçar. Aqui, no DELITO, damos uma ajuda. Em vez de se perder com profissões de fé sobre as contas públicas, que só convencem os convertidos, o Governo deve focar-se num disparate defendido pela OCDE: Portugal tem polícias a mais. Esta sim é uma conclusão fácil de invalidar.
A conclusão da OCDE a respeito das polícias portuguesas tem dois problemas. Em primeiro lugar, não é claro que tipo de corpos de polícia são contabilizados. Mas ficamos com a impressão que se compara o que não é comparável. Vejamos os casos de Portugal e de Espanha. Portugal tem apenas duas forças de segurança, a PSP e a GNR. Espanha também conta com duas forças de segurança nacionais, a Policia Nacional e a Guardia Civil, mas dispõe ainda de forças de segurança regionais - por exemplo, a Ertzaintza (País Basco) ou os Mossos d'Esquadra (Catalunha). Se o País Basco e a Catalunha têm forças de segurança próprias, o esforço de alocação de efectivos pedido às polícias nacionais nestas regiões é inferior do que em países onde as forças de segurança nacionais são obrigadas a cobrir na íntegra e sozinhas todo o território de um país, sem o apoio de forças locais com competências para garantir a segurança e a ordem pública. Logo, comparar Portugal e Espanha tendo apenas em conta as respectivas polícias nacionais constitui um erro clamoroso.
Em segundo lugar, importa saber se analisar o número de polícias em função da população faz algum sentido. Olhemos, por exemplo, para o Alentejo. É provavelmente a região da Europa onde o número de polícias per capita é mais elevado, mas onde o número de polícias por quilómetro quadrado será dos mais baixos no continente. Em matéria de segurança, a cobertura de território, mesmo que com baixa densidade populacional, é crucial porque o vazio de forças de segurança pode constituir um incentivo à prática de determinados crimes (fabrico de estupefacientes, crime organizado, etc). Mas a OCDE, tanto quanto é possível perceber, apenas equaciona o factor demográfico. Asneira da grossa. Coisa diferente é saber se não teremos demasiado polícias alocados a funções designadas como "não operacionais" (administrativas, de apoio logístico, e outras semelhantes), mas disso a OCDE não fala.
E cá está, duas razões para o Governo e a maioria que o apoia desfazerem um relatório incómodo, embora recorrendo a argumentos devidamente fundamentados e que ecoem para lá da jihad liderada por João Galamba.

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Men for all seasons

por Diogo Noivo, em 02.02.17

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 Um ano e tal depois:

 

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 Via O Insurgente

As sumidades que pastam nos verdes campos do komentariado português são dadas a uma desfaçatez lendária. Daniel Oliveira, como bem nota João Cortez n’O Insurgente, é um caso flagrante.

Mas o seu a seu dono: em matéria de mortais encarpados à retaguarda, ninguém bate Nuno Saraiva, antigo jornalista do Diário de Notícias. Foi de A a B em tempo recorde e sem que o víssemos a percorrer o caminho que separa os dois pontos. Parece que se deixou de jornalismo – o que é um desafio ontológico notável, já que não é fácil abandonar o que nunca se fez – e se dedicou à bola. Parafraseando Gore Vidal, foi uma boa mudança de carreira.

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Fim do bar aberto?

por Diogo Noivo, em 30.01.17

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 Carlos Silva tenta explicar a Arménio Carlos o que é um papel assinado

 

Por dever de um ofício que tive em tempos, participei em várias reuniões com centrais sindicais ou com sindicatos a elas associados. Recordo-me que negociar com a UGT e com os seus afiliados era muito duro, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista político. Não era fácil chegar a acordos, mas era possível. Já com a CGTP o processo era substancialmente mais fácil: raramente se negociava. A central liderada por Arménio Carlos entrava nas negociações dizendo que não ia negociar – porque era contra o sistema capitalista de mercado, porque considerava a austeridade um crime comparável ao Holocausto, ou por qualquer outra razão que não admitia excepções ou cedências. No entanto, exigia sempre permanecer à mesa. Ficava calada, ou a colocar cascas de banana com o intuito de descarrilar o processo negocial. Em resumo, a UGT cedia em troca de cedências dos seus interlocutores; a CGTP queria obter cedências, mas nunca estava preparada para abdicar de uma vírgula.
Outra grande diferença entre as duas centrais sindicais está nos limites. Para a CGTP vale tudo. Em 2013, participei numa negociação com sindicatos afectos à UGT e à CGTP. Foi um processo moroso, difícil, mas lá chegámos a uma base comum de entendimento. Quando nos preparávamos para assinar o acordo, um dos sindicatos próximos da CGTP aparece com uma nova reivindicação: queriam que os trabalhadores em apreço deixassem de pagar a parte correspondente ao subsídio de desemprego na contribuição para a Segurança Social. O argumento? Simples: somos funcionários públicos, nunca seremos despedidos, logo não faz sentido estarmos a contribuir para o subsídio de desemprego dos outros. Importa ter em mente que 2013 foi o annus horribilis do desemprego na Europa. Neste ano os portugueses mostram ter uma solidariedade à prova de bala, mas para este sindicato qualquer argumento – mesmo que eticamente abjecto – valia para dinamitar o acordo.


A única central que obrigou os sucessivos Governos a ceder foi a UGT. Se tivermos presente que os ganhos reais para os trabalhadores se obtêm por via de negociações ou de acordos entre sindicatos, patronato e Governo, uma parte muito importante dos ganhos laborais em Portugal deve-se à UGT. O que tem um custo para esta central sindical. Ao assinarem os acordos são de imediato acusados de traição pela CGTP. Na psique do sindicalismo radical, apostada numa luta que os levará à vitória final, os Governos são por definição entidades mefistofélicas. Como tal, um acordo, mesmo que vantajoso, funda-se num pecado capital inaceitável. No fundo, para a CGTP, entrar num acordo substantivo com um Governo implica mutilar a sua identidade política e ideológica. Por essa razão, em 2006, a única vez em que a CGTP aceitou subscrever um acordo a sério (um momento tão inédito que é considerado um marco histórico), não houve cerimónia de assinatura. A central sindical, liderada na altura pelo inefável Carvalho da Silva, assinava com vergonha, ainda que do acordo resultasse um aumento do salário mínimo. E, claro, foi uma questão de tempo até que a CGTP imputasse os aspectos negativos do documento à UGT.
Carlos Silva, Secretário Geral da UGT, terá chegado ao seu limite. Se a CGTP quer uma adenda ao último acordo de concertação social, então que o assine primeiro. É um mínimo olímpico. Veremos se a CGTP se qualifica. Para a central sindical de Arménio Carlos, a relação com os sucessivos Governos tem sido uma espécie de bar aberto: entram, servem-se, fazem a festa, e alguém que pague a conta. Esperemos que Carlos Silva seja bem-sucedido na missão de trazer um módico de decência ao estabelecimento.

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De Belém, com afecto

por Diogo Noivo, em 26.01.17

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O conceito "pós-facto" já entrou no léxico diário. Trump é a epítome desse mundo detestável onde a realidade é torcida e retorcida com o intuito de servir agendas próprias, ignorando os interesses nacionais e, por definição, os factos. Cá, em Portugal, não temos disso. Ou se calhar temos, mas a coisa é menos grave porque é feita com abraços, afecto e votos de saudinha a quem passa.

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Gorden Kaye (1941-2017)

por Diogo Noivo, em 24.01.17

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 Morreu o maior sex symbol da Britcom, protagonista de uma das melhores séries de televisão de sempre.

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A elegância no ódio

por Diogo Noivo, em 23.01.17

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Pedantes, cultos, sagazes e penas magníficas. Vistos desta forma, William Buckley e Gore Vidal eram faces da mesma moeda. Talvez por isso não se pudessem ver. Vidal era o enfant terrible liberal, um transgressor por vocação, convicção e prazer. Buckley era o poster boy da intelectualidade conservadora, um provocador elegante que defendia a política como arena de debate ideológico. Dois génios em lados opostos da barricada.
Em 1968, durante a campanha presidencial nos Estados Unidos da América, a ABC tinha de encontrar uma forma de se manter à tona, de captar audiências, aproximando-se das líderes de mercado CBS e NBC. É neste contexto que alguém na ABC se lembra de criar um modelo de debate entre comentadores, um frente-a-frente, no qual Gore Vidal se sentaria de um lado e William Buckley do outro. E assim nasceu um dos episódios mais marcantes da História do audiovisual e assim se criou uma inimizade lendária.

 

 

Os debates foram animais da sua época, muito embora não sejam conversas datadas. Para o bem e para o mal. É curioso ver como temas quentes nos Estados Unidos no final da década de 1960 continuam hoje a ocupar um lugar de destaque na agenda política e social desse país - a tensão racial é um dos vários exemplos possíveis. Mais curioso ainda é perceber como os argumentos aduzidos pouco ou nada mudaram. O que sim mudou foi a tarimba e o flâneur dos intervenientes. Eloquentes, mordazes e incisivos, Vidal e Buckley foram peças únicas. Único foi também o incidente ocorrido no último debate, um excesso que cavou o abismo que já separava os dois. Não estragarei a surpresa aos que não conhecem o caso e querem ver Best of Enemies, o documentário onde esta relação entre titãs é descrita e analisada.
Se há algo a retirar de Best of Enemies é que a inimizade, tal como o seu antónimo, exige uma atenção total e esmerada. Vidal era um cultor da língua, mas também do ódio. Mais do que um sentimento, o ódio era um compromisso tratado com tamanha elegância que quase foi elevado à categoria de virtude. Buckley era mais provocador do que amante de ódios, mas não deixou Vidal a detestar sozinho.
É verdade que o documentário tem falhas, algumas das quais analisadas com exagero (e talvez com algum ressabiamento) por Michael Lind no Politico, mas nem por isso é menos interessante. Narrado por John Litgow e por Kelsey Grammer, o documentário Best of Enemies prova que intelectuais públicos dignos desse nome não são matéria do domínio da ficção. Estreado em 2015 no Sundance Film Festival, Best of Enemies está disponível no Netflix.

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Dívida de gratidão

por Diogo Noivo, em 11.01.17

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Nasci um ano após a extinção do Conselho da Revolução. E não tinha ainda dois quando Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia. Isto é, os meus primeiros anos de vida foram os últimos do processo de transição democrática.
Os processos de democratização são fases politicamente complexas, sensíveis, e pejadas de riscos. Em Espanha, por exemplo, Juan Carlos I e Adolfo Suárez foram os arquitectos e os garantes de um regime democrático e plural, homens cuja capacidade política e o compromisso com o Estado de Direito Democrático permitiram desmantelar intentonas apostadas no regresso a tempos negros, como aquela que ocorreu no dia 23 de Fevereiro de 1981. Em Portugal, tivemos Mário Soares. Entre outros feitos notáveis, a coragem política (e física) de Soares garantiu que Portugal não se transformava num manicómio a céu aberto, num regime de demência colectiva do qual o PREC foi uma amostra tenebrosa.

GonzalezElPais.jpg

Como escreveu Felipe González no El País do passado domingo, Soares era sobretudo um democrata, o que não é pouco. Durante a transição, Mário Soares soube traçar a linha divisória no sítio onde ela era necessária. O país não se dividia entre esquerda e direita, entre conservadores e liberais, mas sim entre democratas e gente que pretendia substituir um autoritarismo por outro. Soares, com a preciosa ajuda dos eleitores, encarregou-se de manter os últimos ao largo.
Sei que, em Portugal, os mortos são por definição puros e incontestáveis. Mas Soares cometeu erros. Confundiu muitas vezes o aparelho partidário com a estrutura estatal. E nos últimos anos cometeu erros que evidenciavam o desaparecimento do lendário faro político de outrora – a recandidatura a Belém, ver em Hollande o salvador do centro-esquerda europeu, advogar o voto em Obama como via para o encerramento de Guantánamo, alinhar com o Bloco em reuniões toscas e profundamente iliberais, enfim, erros que o talento e a intuição política do Mário Soares da transição democrática porventura não permitiriam. Porém, feitas as contas, acertou mais vezes do que se enganou. Ou, dito de outra forma, os êxitos foram de tal forma significativos que os erros não fazem muita sombra.
Nasci num país sem grandes dúvidas em relação à democracia e ao europeísmo. E isso faz com que tenha uma enorme dívida de gratidão a Mário Soares. Ao contrário de certa direita ultramontana e de alguma esquerda mumificada, assumo essa dívida com gosto e sem matizes. Hoje, num Portugal que parece ter as costas voltadas à Europa, um país onde a linha divisória traçada por Soares se encontra em parte incerta, à dívida de gratidão junta-se a saudade que nunca esperei sentir.

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Táxi escondido com o rabo de fora

por Diogo Noivo, em 05.01.17

ubervstaxi_cbc.jpg

 

Na segunda-feira, dia 2, o Observador deu grande destaque a um trabalho de fundo sobre a precariedade laboral na Uber. Um dia depois, dia 3, o mesmo jornal publica uma notícia onde se refere que os taxistas exigem nova reunião com o Governo, se queixam dos “ilegais” (leia-se Uber e Cabify), e alertam para a “revolta” que sentem. Por outras palavras, o primeiro texto debilita a reputação da Uber e o segundo, publicado 24 horas depois, dá nota da força dos taxistas. Pura coincidência, certamente.
Mas – hipótese académica – admitamos que não é uma coincidência. Partindo deste princípio, não é difícil encontrar nestas duas notícias o reflexo de uma campanha de comunicação contra a Uber. Em primeiro lugar, depois do desastre calamitoso que foi a última manifestação de taxistas, o sector do táxi precisa de enfraquecer o opositor e, por outro lado, de abrir espaço mediático para a sua causa (um espaço que tem estado fechado em virtude das alarvidades feitas e ditas durante a última manifestação, muitas das quais visaram jornalistas). Estas duas notícias, e em particular a sua sequência, servem estes objectivos na perfeição. Em segundo lugar, os taxistas precisam de mudar o terreno de jogo. Explico-me: até agora, o debate público Táxis versus Uber deu-se sempre no âmbito do serviço prestado ao consumidor. Ora, neste campeonato a Uber ganha 10 a 0. Por isso, os táxis têm que levar o debate para outro lado. Por exemplo, para o lado das condições laborais, um assunto intimamente relacionado com a lei e com a fiscalização, algo que (surpresa!) vai ao encontro da narrativa dos taxistas. Mais uma vez, estas duas notícias - sobretudo a primeira - cumprem o serviço.
Voltemos à realidade. A hipótese académica que aqui desenhei é um disparate. Se o sector do táxi mete as condições laborais na arena de combate dá um tiro no pé. E uma campanha contra a Uber tão óbvia no conteúdo, na forma e no timing seria de tal forma amadora que é mau demais para ser verdade. Só pode ser fruto de coincidência. Se não for, os taxistas têm um estratega de comunicação para demitir.

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A propósito do incidente “feira do gado”, protagonizado por Augusto Santos Silva (who else?), o essencial já foi dito pelo Rui Rocha. Falta apenas dizer que o pedido de desculpa foi mais gravoso do que a afirmação que lhe deu origem (a afirmação insultou a concertação social, o pedido de desculpa insultou todos aqueles que têm dois dedos de testa), mas adiante.
Há, no entanto, um argumento que vai despontando nas fileiras de apoiantes do Governo, uma tese segundo a qual se tratava de um momento informal e, por isso, a recolha de som não é legítima. Eram conversas privadas, de gente que, no fundo, é mortal e igual ao cidadão comum. Em suma, gente que tem o direito de soltar umas boçalidades no recato do seu espaço próprio e privado. Parece-me um argumento difícil de defender – era um evento público, com intervenções públicas, para o qual foram convocados jornalistas.
Mas admitamos que sim, que o som foi colhido de forma ilegítima e 'pela calada'. Certo. Significa, portanto, que quem perfilha este argumento condena a gravação da célebre conversa privada entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schäuble? E, por maioria de razão, condenarão a divulgação pública das brutalidades cavalares ditas por Donald Trump sobre as mulheres, uma conversa tida à porta fechada, mas apanhada por um microfone aberto? Se sim, não me lembro que esta gente tivesse tantos pruridos quando estes casos fizeram manchetes. Neste Tempo Novo temos então um conceito inovador assente em dois paradoxos: o princípio sacrossanto, mas de aplicação à la carte, de privacidade em eventos públicos.

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O hacker Marcelo

por Diogo Noivo, em 26.12.16

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Depois de uma mensagem sobre a ginginha do Barreiro, a página oficial da Presidência da República lamenta a morte de George Michael. Por momentos, pensei que a página da Presidência tivesse sido alvo de um ataque informático com o fito de gozar com o Presidente. Mas não. Não há nada que um hacker possa fazer que Marcelo não faça sozinho.

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Mais do que prestarem um serviço público, as companhias áreas de bandeira foram instrumentos da política externa dos Estados. A Turkish Airlines, certamente por excesso de zelo, levou a coisa um pouco mais longe e assumiu o papel de veículo de propaganda do regime liderado pelo presidente Recep Tayyip Erdoğan. E fê-lo com a subtileza e com a elegância de um choque frontal entre dois Airbus A340.
Mão amiga – uma expressão lamentavelmente caída em desuso – mostrou-me há umas semanas a revista de bordo da companhia aérea turca. Esta edição apenas existe em turco e, pelo que pude perceber, só está disponível em voos regionais. Junto a este post algumas fotos que fiz a essa publicação, pedindo desculpa pela fraca qualidade das imagens.
Em 1984, Orwell escreveu que quem controla o passado, controla o futuro. Cientes disto e da consequente necessidade de consolidar uma versão oficial da História, a Turkish Airlines diz ao que vem logo na capa e na contracapa. Imagens épicas e com imenso potencial iconográfico dos “protestos pró-democracia”, isto é, das manifestações de apoio ao presidente no momento em que decorria um estranho golpe de Estado, marcam o tom da revista (ver imagem abaixo).

capacontracapaTA.jpg

 

Um ataque à pátria requer inimigos. Se houver conspiração, tanto melhor. E se essa conspiração tiver ramificações internacionais então é um mimo para a máquina de propaganda. A revista da Turkish resume tudo isto com mestria (ver imagem seguinte). De um lado, fotos das detenções dos golpistas, encabeçadas por uma cronologia dos “factos” – a narrativa não pode ter falhas. Do outro lado, uma infografia onde se explicam as ligações norte-americanas, com o respectivo apoio financeiro e institucional, de Fethullah Gülen, o alegado instigador do golpe falhado.

conspiracao.jpg

 

Mas há mais. Fotos dos cabecilhas locais do golpe são acompanhadas por uma infografia onde constam as intuições às quais pertenciam e quantos homens de cada uma delas estiveram envolvidos na tentativa de derrube de Erdoğan. Seguem-se obviamente imagens de um presidente corajoso, determinado e sereno a dar uma entrevista à CNN (se for a um órgão de comunicação social estrangeiro sempre dá um ar menos amanhado). Há ainda fotografias de manifestantes pró-Erdoğan à porta de várias embaixadas turcas, nas quais o fotógrafo, socorrendo-se das técnicas de Leni Riefenstahl, faz com que 8 tipos pareçam 80 – mas destas, infelizmente, não colhi imagens.

cabecilhaseinstituicoes.jpg

 

Depois de anos submetida a jacobinismo militar, a Turquia atura agora o autoritarismo despudorado do presidente Recep Tayyip Erdoğan. E já não se disfarça. Ao ver esta revista percebe-se bem o interesse de alguns governos em manter as companhias aéreas sob controlo estatal.

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