Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Tão-somente poder

por Diogo Noivo, em 23.05.17

Não sei se o problema tem 20 anos. Na verdade, vejo-lhe as origens no fracasso dos projectos pan-arabistas, como o de Nasser. Seja como for, "é um problema político" e não um choque de civilizações ou uma guerra de religiões. Aliás, é esse o meu argumento aqui e aqui

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 22.05.17

Certamente por limitação minha, só me ocorre uma analogia de surfista para descrever o blogue da semana: chegamos à praia e o mar não mexe; nem uma ondinha marreca, daquelas que apenas servem para acalmar o espírito; mas quando entra o set as ondas são memoráveis, ao ponto de colocarem esta praia no Olimpo dos sítios de surf favoritos. Falo de "A Origem das Espécies", de Francisco José Viegas. 

Para quem, como eu, o lê desde o advento dos blogues portugueses, os últimos tempos são marcados por uma cadência típica das marés: nenhuma actualização durante dias, seguida de posts em catadupa. É verdade que os leitores habituais querem maior regularidade, mas a qualidade dos textos compensa (e muito) a inconstância. 
De resto, Francisco José Viegas é dos poucos intervenientes no espaço público nacional cujas  análises não são mais do mesmo. Não alinha na opinião única e diz o que há a dizer com muito pouco. E abomina o politicamente correcto, o que muito se agradece. É, por isso, a minha escolha para Blogue da Semana. Esperemos que esta seja uma semana de ondas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há noites assim

por Diogo Noivo, em 18.05.17

Andei a ruminar os dias de triunfo póstumo de Salazar. Ruminava, mas não chegava a qualquer conclusão. Estava numa espécie de letargia induzida por uma dose cavalar de comprimidos Melhoral. Hoje a coisa aclarou-se graças ao artigo de Paulo Tunhas. Acertou na mouche.


Faltou-lhe, contudo, referir os efeitos nefastos da bebedeira. O problema, como sempre, está nas misturas: Fado (versão redux), futebol, Fátima, e a economia a crescer. Qualquer adulto sabe que, se é para ficar alegre, o melhor é beber sempre do mesmo. Mas não. Bebeu-se de tudo e houve bêbados para todos os gostos: alegres, depressivos, esperançosos, rezingões, quase todos chatos. A coisa é especialmente preocupante porque já andávamos a fazer as figuras tristes que nos levaram a valentes dissabores. Quando passar o efeito etílico, a dor de cabeça será de tal ordem que vão achar que têm anões hiperactivos com picaretas dentro do crânio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pensamento da semana

por Diogo Noivo, em 29.04.17

Ao menino e ao borracho mete a DBRS a mão por baixo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mal menor

por Diogo Noivo, em 22.04.17

Macron.jpg

Emmanuel Macron 

 

São quatro os candidatos que se destacam para a primeira volta das presidenciais francesas. Dois deles, Marine Le Pen e Jen-Luc Mélenchon, não deviam estar num boletim de voto, mas sim no boletim clínico de um hospício. Como sempre acontece com os extremos opostos em política, são mais as coisas que os unem do que as que os separam: anti-europeistas; anti-globalização, anti-establishment; anti-NATO; proteccionistas; contrários aos princípios basilares da democracia liberal; defensores de um Estado cuja principal função parece ser a de contratar tudo e todos. Extrema direita e extrema esquerda distinguem-se apenas no tom do cretinismo: Le Pen considera que todos os muçulmanos são potenciais terroristas; Mélechon defende uma união bolivariana entre França, Venezuela e Cuba. Em suma, nenhum dos componentes deste duo insano é solução para nada de coisa nenhuma. Sobram, portanto, Emmanuel Macron e François Fillon. 

 

Fillon tem a experiência e o estofo necessários para implementar as reformas políticas que França precisa e sempre recusou. Mas Fillon é hoje a cara dos abusos do poder. Sucessivos escândalos mostram que, no passado, François Fillon serviu o Estado, mas também se serviu dele, nomeadamente usando dinheiro público e empregos fictícios para pagar salários a familiares. Pedir sacrifícios aos franceses quando se tem este cadastro não é propriamente edificante e não augura grandes resultados eleitorais num país onde a população nutre um profundo desagrado, se não desprezo, pela classe política. Será porventura injusto que um caso de abuso ofusque anos de trabalho político sério, mas as coisas são como são. 

 

Resta-nos então Emmanuel Macron. Enquanto foi Ministro da Economia bateu-se pela liberalização de alguns feudos profissionais em sectores altamente protegidos, como o notariado ou os transportes públicos. Propõe as muito adiadas reformas, embora seja menos ambicioso do que Fillon. Macron é europeísta, defende uma economia aberta de mercado e tem a coragem de propor algumas reformas impopulares. Mas falta-lhe tarimba. Nunca foi eleito para qualquer cargo público e a sua experiência política resume-se em grande medida à titularidade da pasta da Economia entre 2014 e 2016. Pior, toda a sua campanha tem um aroma de voluntarismo "inspiracional" (é como se diz agora), de tipo Obama. Muita vontade, muito ânimo, muito allez!, mas tudo com um cheiro a inconsequência, típica da política-espectáculo. Tal como Obama, Macron é levado ao colo pela imprensa internacional, o que recomenda prudência na avaliação do candidato.

 

Se, como indicam as sondagens, Macron e Le Pen passarem à segunda volta, o sistema de partidos francês sofrerá uma alteração profunda pois será a primeira vez desde 1958 que os dois principais partidos ficam apeados. E se tal acontecer, mais incógnitas se perfilam no horizonte: a eleição Macron pode obrigar a coligações, algo invulgar no arranjo político-partidário de França; a eleição de Le Pen traduzir-se-á numa viagem para uma dimensão alternativa tão incerta como perigosa.

De resto, face ao atentado terrorista que marcou o final de campanha, Le Pen insistiu num discurso radical e isolacionista, contraproducente, que mais não faz do que agravar o problema e deteriorar os já maltratados pilares do Estado de Direito Democrático. As credenciais de Macron nesta matéria não são brilhantes, mas com ele há pelo menos a esperança de que possa vir a entender o que está em causa.

Assumindo que a política é a arte do possível, Emmanuel Macron é o mal menor. Ainda assim, de longe o mais desejável para França e, pela parte que me toca, para uma Europa salubre. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Breve história de um fim provisório

por Diogo Noivo, em 13.04.17

ETA.jpg

 

No passado fim-de-semana a ETA entregou as armas. Ao contrário do que sucedeu com o IRA ou com as FARC, o desarmamento da ETA foi unilateral, sem contrapartidas. Foi uma rendição. A organização terrorista chega aos dias de hoje sem ter ganho nada: nem independência, nem a junção do País Basco a Navarra, nem a transferência de presos etarras para estabelecimentos prisionais bascos, nem a internacionalização do “conflito”, nem amnistias. Nada. Chega aos dias de hoje sem apoio popular - o pouco que existiu é agora negligenciável. A única coisa que conseguiu foi deixar um rasto de terror feito à custa de mais de 800 cadáveres. 

 

O estertor do terrorismo etarra faz-se de duas datas: 10 de Janeiro e 20 de Outubro de 2011. A 10 de Janeiro de 2011 a organização terrorista ETA anuncia um cessar-fogo "permanente, geral e verificável", três palavras que nunca estiveram juntas em anteriores interrupções de hostilidades. A 20 de Outubro do mesmo ano, a ETA anuncia o "cese definitivo", o fim. Para decretar o óbito de 40 anos de terror faltava apenas que a organização entregasse as armas e, depois, anunciasse oficialmente a sua dissolução. No passado fim-de-semana cumpriu-se a primeira etapa. Aguardamos o cumprimento da segunda.

 

O estado da arte deve-se a diferentes factores que, juntos, criaram a tempestade perfeita. Em primeiro lugar, um processo negocial, o terceiro em 40 anos de terror. Já trouxe ao DELITO a história desta negociação: Negociador (Borja Cobeaga, 2014) é a adaptação cinematográfica criativa do livro onde Jesús Eguiguren, o principal negociador, conta como conversas exploratórias entre ele, do Partido Socialista Basco, e Arnaldo Otegi, uma das figuras mais conhecidas e activas da esquerda abertzale, evoluíram para rondas negociais entre o Governo, a esquerda abertzale e a ETA. Este processo, à semelhança dos anteriores, fracassou. Ainda assim, conseguiu cavar as clivagens existentes na esquerda pró-etarra e, assim, afastar a estrutura partidária da estrutura terrorista. Além do filme e do livro, o processo é agora explicado em El fin de ETA (Justin Webster, 2016), um documentário notável, muitíssimo bem feito, disponível em Portugal no Netflix. Espero trazê-lo em breve ao DELITO.

Em segundo lugar, a pressão policial e judicial. No ano 2000, a ETA contava com cerca de 1000 operacionais; seis anos depois este número desceu para aproximadamente 50. A aplicação da lei foi essencial para que a imensa maioria dos terroristas com experiência operacional e política acabassem presos. O vazio de poder na cúpula da ETA foi então preenchido por jovens impreparados, muitos vindos directamente da kale borroka (guerrilha urbana), gente com manifesta inépcia política.

A nova liderança terrorista é o terceiro factor: o seu fanatismo exacerbado impediu-a de ver a realidade e de perceber que à medida que o tempo passava a organização ficava cada vez mais isolada. A ETA continuou a matar, visando com frequência vítimas de oportunidade, os mais fracos ou mais desprotegidos, pessoas como Isaías Carrasco. Mostrou que a única forma de fazer política que conhecia era matar.

 

Tudo indica que a ETA chegou felizmente ao fim. Porém, manda o conhecimento do modus operandi da organização que esperemos pelo anúncio oficial de dissolução. Recorde-se que a 30 de Dezembro de 2006, em pleno processo negocial, a ETA detonou um carro-bomba no Terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madrid, matando duas pessoas e destruindo por completo um bloco de estacionamento. Recorde-se também que em Outubro desse ano a ETA roubou cerca de 300 armas e munições na véspera do dia em que o Executivo espanhol levou o Caso Basco e representantes das forças políticas separatistas ao Parlamento Europeu. O Governo esforçava-se por encontrar soluções, arriscava muito do seu capital político ao abrir a porta à internacionalização do “conflito”, mas a ETA aproveitava o momento para se rearmar. Por último, recordemos que a ETA defendeu e aplicou aquilo a que chamou de “socialização do sofrimento”, um conceito mórbido segundo o qual a violência tinha de chegar a todos: políticos, polícias, jornalistas, professores, enfim, a todos os que se opunham publicamente à utilização da violência como instrumento de acção política.

Compreende-se, assim, o cepticismo de vários sectores da sociedade espanhola. Além do mais, existe o risco de que os partidos independentistas recuperem o legado político da ETA, ainda que sem recorrer ao terror. Se tal acontecer, será praticamente impossível sarar a chaga social aberta ao longo de 40 anos de terrorismo. Também por isso é importante que a ETA assuma publicamente a sua dissolução.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando a democracia vence o terrorismo

por Diogo Noivo, em 10.04.17

zdbmbgyxpxxlzzvlth2l.jpg

 Monumento a la Constitución, 21 de Outubro de 1983

 

O desarmamento da ETA chega tarde. 

Manda a prudência, o percurso desta organização terrorista e o sofrimento das vítimas que não lancemos foguetes. Pelo menos, para já. Tentarei escrever sobre o tema. Por ora, partilho uma magnífica fotogaleria do El País dedicada à luta cidadã. Estas imagens e o pequeno enquadramento histórico de cada uma delas é suficiente para perceber a inanidade de uma peça recente da SIC que chamou "luta armada" ao terrorismo e "grupo separatista" à ETA.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Brexit: negociar a negociação

por Diogo Noivo, em 07.04.17

brexitBBC.jpg

 

Em regra, negociar é difícil. Negociar na arena política é especialmente difícil, sobretudo no plano internacional. No entanto, o Brexit está a levar a dificuldade de negociar a um novo patamar: não só é uma negociação difícil per se, como as partes não estão de acordo quanto à forma de negociar. Primeiro terão, portanto, que negociar a negociação. O Reino Unido defende que se trate da saída da União ao mesmo tempo que se negoceiam os termos de uma relação futura. Já Bruxelas não quer conversas paralelas e prefere uma abordagem sequencial. Se “Brexit means Brexit”, defende Bruxelas, então saiam e depois logo veremos em que termos colaboramos.

O artigo 50º do Tratado de Lisboa não ajuda a dirimir o conflito. Lê-se neste artigo que a desvinculação de um Estado-Membro passa por “um acordo que estabeleça as condições da sua saída, tendo em conta o quadro das suas futuras relações com a União”. Ou seja, e mesmo sem especiais dotes de retórica, é possível defender que o artigo 50º autoriza as duas abordagens.

 

A União Europeia quer deixar claro que está a negociar a desvinculação do Reino Unido, e não os termos de uma futura relação. O discurso oficial argumenta que a negociação paralela contaminará os dois processos. Mas, na verdade, esta posição política pretende demonstrar que a Europa não está refém do Reino Unido. Como afirmou Donald Tusk, Presidente do Conselho Europeu, “teremos saudades. Obrigado por tudo e adeus”. Curto e seco.

Mais do que pundonor, para a União trata-se de uma estratégia negocial assente em dois objetivos: (i) definir condições de desvinculação que dissuadam outros Estados-Membros de pretensões de ruptura; (ii) reduzir a margem negocial de Londres – se os dois dossiers, saída e relação futura, forem negociados em simultâneo, o Reino Unido pode obrigar Bruxelas a fazer “horse trading”, o que evidentemente colide com o primeiro destes dois objectivos.

 

Theresa May não está impressionada. A Chefe do Executivo britânico afiançou que não chegar a acordo é melhor do que chegar a um mau acordo. O Governo britânico, além de desejar a margem negocial que Bruxelas lhe quer tirar, considera que uma negociação a dois tempos prolongará o clima de incerteza económica, em parte porque atrasará eventuais acordos bilaterais a estabelecer entre Londres e outras capitais. Para o Reino Unido, o Brexit é um processo make it or break it.

O drama é que esta postura parece ser para levar a sério. Simon Tilford, investigador no Centre for European Reform e um dos mais notáveis analistas de política europeia, considera provável que o Brexit acabe sem acordo e, dessa forma, com uma saída desenquadrada. Olhando para as projecções do FMI sobre as economias europeias, e em particular para as referentes ao Reino Unido, escreve Tilford que “[t]he forecast for the UK assumes that the British government succeeds in negotiating far-reaching access to the EU’s single market, which is unlikely. Indeed, there is probably a greater likelihood of negotiations between Britain and the EU breaking down, resulting in the UK leaving without any agreement in place. Under this scenario, the outlook for UK growth would be far worse than forecast by the IMF."

Extremar posições na fase inicial de uma negociação é normal e expectável. Mas continuar a extremá-las desta forma levará ambos os lados a um ermo do qual não poderão sair sem perder a face. O tempo passa, mas não saímos do Brexit à bruta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Robert B. Silvers

por Diogo Noivo, em 31.03.17

robert-b-silvers-annie-schlechter.jpg

 

Uma greve, trabalho voluntário e um parágrafo. Eis a génese da New York Review of Books. O parágrafo, intitulado "To the Reader", é notável pois mostra que não foi preciso escrever muito para definir as baias de uma das publicações literárias e políticas mais relevantes de sempre. O âmago do pequeno texto, publicado a 1 de Fevereiro de 1963, vive em duas frases: "This issue of The New York Review of Books does not pretend to cover all the books of the season or even all the important ones. Neither time nor space, however, have been spent on books which are trivial in their intentions or venal in their effects, except occasionally to reduce a temporarily inflated reputation or to call attention to a fraud". Simples, despretensioso, e apostado no escrutínio de um mundo onde as vaidades e os nepotismos sempre encontraram solo fértil.
Submetida ao impiedoso teste do tempo, a NYRB modernizou-se sem perder o rigor, o espírito crítico e os critérios nos quais se fundou. O mérito é produto de um trabalho conjunto, mas o timoneiro tem nome: Robert B. Silvers. Editor da publicação desde o momento em que foi criada, Silvers mostrou, como escreve Luis Gago no Babélia, que é possível exercer uma influência indelével em várias gerações de leitores sem escrever ou editar livros. A aversão a entrevistas e a aparições em eventos públicos deveu-se a um entendimento zeloso da missão de editor. “The editor is a middleman. The one thing he should avoid is taking credit. It’s the writer that counts”, disse numa das raríssimas entrevistas que concedeu e que o New York Times citou recentemente.
Para Silvers, a NYRB foi, entre outras coisas, um instrumento para espantar as matilhas unipensantes que vagueiam pelo milieu cultural e político, sem nunca se preocupar em demasia com a reacção dos leitores. Aliás, compaginar a adaptação aos tempos que chegam com o respeito pelos princípios fundadores da publicação é, sem dúvida, uma das características mais louváveis, porque é rara, do lendário editor da NYRB. Outra merecedora de destaque, porque também invulgar, foi a constante preocupação de ter textos legíveis, acessíveis a qualquer leitor, embora nunca permitindo que o trabalho de edição ofusque a complexidade dos temas abordados.
Robert B. Silvers morreu no passado dia 20 de Março. Daniel Mendelsohn refere que Silvers trabalhou até ao fim, com a bonomia e a erudição intactas, ainda que a energia já fosse faltando. “I admire great writers, people with marvelous and beautiful minds, and always hope they will do something special and revealing", disse Silvers. O que ele admirava nos outros fez da NYRB aquilo que é.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pensamento da semana

por Diogo Noivo, em 25.03.17

 

Enquanto o pau vai e vem, ficamos no lixo e a dívida aumenta.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

Autoria e outros dados (tags, etc)

Jaime Gama lê o DELITO

por Diogo Noivo, em 23.03.17

Em entrevista à Antena 1, Jaime Gama afirmou que “há uma ilusão geral muito grande em relação à economia portuguesa”. Acrescentou que “a opinião pública está anestesiada porque lhe é escamoteada a compreensão do problema (da dívida) e lhe é permanentemente afirmada a oferta ilusória que é impraticável”. E, como é evidente, a "realidade far-se-á sentir na altura própria”.

Como escreve o Expresso, Jaime Gama, embora sem mencionar o actual Executivo, diz que “todos (os atuais protagonistas da solução governativa) preferem esconder-se numa cortina de sombras para não tratar ou secundarizar as questões essenciais”. Está visto que o antigo presidente da Assembleia da República leu o nosso pensamento da semana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Só se estragava uma casa

por Diogo Noivo, em 22.03.17

O Ministro que comparou a concertação social a uma "feira de gado" considera infeliz que o presidente do Eurogrupo tenha caracterizado os países do sul como gastadores em "mulheres e álcool". Nascemos para sofrer.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Brexit à bruta

por Diogo Noivo, em 14.03.17

HouseofCommons.jpg

 

O Parlamento Britânico autorizou ontem o Governo a accionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa, a norma que contempla a saída de um Estado-Membro da União Europeia. Theresa May fica então com o caminho livre para avançar de imediato para o processo de desvinculação da União Europeia, muito embora a imprensa britânica afirme que a Chefe do Executivo esperará pelo final do mês para dar esse passo. Associada a esta proposta estava uma garantia de direitos aos cidadãos europeus a residir no Reino Unido. Votada a proposta, esta garantia de direitos foi chumbada graças a Conservadores e Trabalhistas - os Liberais foram os únicos a opor-se a este hard stance
São duas as razões que explicam a recusa de uma garantia de direitos. Por um lado, em ambos os lados do Parlamento há quem tema que oferecer esta garantia crie um efeito-chamada, isto é, que de repente entre no Reino Unido uma vaga de cidadãos europeus em busca de residência antes da oficialização do Brexit. Por outro lado, o Reino Unido quer usar este assunto como bargaining chip: antes de oferecer garantias a cidadãos oriundos dos Estados-Membros da União, Londres quer ver que garantias serão oferecidas aos cidadãos britânicos a residir em solo comunitário. Em suma, os direitos dos cidadãos ficam em carteira como moeda de troca para as conversas sobre a operacionalização do Brexit.
Porém, e como quase sempre sucede, existe ainda a matemática de mercearia, típica da política partidária. Theresa May, Chefe do Governo e membro do Partido Conservador, não quer ser ultrapassada pela direita dentro do seu partido. Como escreveu John McTernan no Telegraph em Julho do ano passado, é o mundo ao contrário. Enquanto políticos profundamente conservadores como Andrea Leadsom não hesitam em oferecer garantias aos europeus a residir no Reino Unido (estão de tal forma à direita que oferecer estas garantias não constitui um capitis diminutio político junto do eleitorado Conservador), Theresa May, supostamente mais ao centro, opta pela abordagem dura. 
Entretanto, o Governo Britânico continua sem uma estratégia para o Brexit que aparente um mínimo de consistência (pelo menos em público), a libra sofre uma desvalorização acentuada, e os estrangeiros residentes no Reino Unido vão de incerteza em incerteza até uma muito provável angina de peito final. Do lado da União a abordagem não é mais meiga, sob pena de abrir um precedente que incentive outros a abandonar o projecto comunitário. Se a tendência de extremar posições se mantém chegará o momento em que será impossível recuar sem perder a face.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Procurar razão

por Diogo Noivo, em 11.03.17

MVEEVOELO_Jabois.jpg

 

Com apenas 16 anos de idade Gabriel Vidal “Baby” tornou-se o centro de todas as atenções em Espanha: foi o primeiro a ser condenado pela justiça daquele país na sequência da investigação aos atentados terroristas de 11 de Março de 2004, em Madrid.
Apodado “El Gitanillo” pelos órgãos de comunicação social, Gabriel pertencia à “trama asturiana”, um pequeno grupo de delinquentes de Avilês que se dedicavam ao tráfico de estupefacientes e a delitos comuns. Rufias de bairro que por ganância, por laxismo e por força de um habitual encolher de ombros acabaram por fornecer a jihadistas os explosivos que mataram 191 pessoas e feriram cerca de 1000 na capital espanhola. “Baby” foi quem transportou os explosivos das Astúrias até Madrid e os entregou à célula terrorista que cometeu o atentado.
Em Nos vemos en esta vida o en la otra, Manuel Jabois, jornalista e colunista no diário El País, usa a história de “Baby” como estribo para descrever os factos, os personagens e as ligações que culminaram no acto terrorista mais devastador ocorrido na Europa Ocidental. A partir de várias conversas com o jovem asturiano, as primeiras que “Baby” teve com um jornalista, Jabois mapeia o contexto difuso de uma rede composta por redes, destrinçando com clareza as fronteiras entre a pequena criminalidade e o terrorismo; ao mesmo tempo, expõe o papel crucial que a oportunidade, o acaso e a indiferença de gente que nada tem que ver com o terrorismo desempenharam neste atentado. Aqui como noutros casos, o fanatismo religioso é manifestamente curto para explicar a confluência de acontecimentos e de diferentes percursos de vida que acabam por desaguar em massacre.
O livro é um trabalho notável de reportagem, muitíssimo bem documentado e escrito, que faz as perguntas certas, mas que não se angustia quando as respostas são demasiado triviais ou mesmo estúpidas. Todos os ângulos da história, todos os intervenientes (o livro refere mais de 50), todos os momentos que antecederam o atentado são trabalhados com minúcia e talento para tentar explicar o que parece destituído de razão.
Hoje assinalam-se os 13 anos do atentado em Madrid. No ano passado, escrevi aqui no DELITO que "[h]abituada à chaga terrorista, Espanha combateu a barbárie sendo irredutível na defesa da normalidade democrática." Nos vemos en esta vida o en la otra é mais uma expressão dessa normalidade. Manuel Jabois investiga e escreve sem assumir as dores de ninguém, sem tomar partidos, mas sem esquecer que existem vítimas. O livro é um esforço intenso, mas sereno de compreensão de um marco nefasto na história contemporânea de Espanha. Foi uma das leituras mais interessantes e impressivas que fiz em 2016. Se há dia para o recomendar, e merece sê-lo, hoje é sem dúvida esse dia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Imbecilidade com respaldo institucional

por Diogo Noivo, em 07.03.17

Uma pessoa ia dar uma conferência numa universidade. Essa pessoa tem curriculum académico e profissional relevante. Nada indicava, sugeria, ou indiciava que da conferência resultaria um ataque aos direitos, liberdades e garantias previstos na Constituição. Porém, um grupelho, porque não gosta da pessoa que ia ministrar a conferência nem das pessoas que a organizavam, decidiu lavrar protesto, suscitar desordem e exigir à faculdade o cancelamento da conferência. O Caramelo que está à frente da faculdade, certamente por não entender as funções que desempenha e a missão da instituição que dirige, acedeu ao pedido.
Podia sair do campo da abstracção e dizer que raras vezes concordo com Jaime Nogueira Pinto, muito embora tenha por ele admiração intelectual. Podia defender a pertinência do tema que ia ser debatido. Podia ainda afirmar que, pessoalmente, os promotores da conferência me parecem um pouco anacrónicos. Mas, para o caso, o detalhe e as apreciações pessoais são extemporâneas. Houve um gravíssimo atentado a liberdade de expressão, mais grave por ter sucedido numa instituição que, por definição, deve ser um espaço de debate, de liberdade e de conhecimento. Em vez de pastar por locais como o esquerda.net, o grupelho teria muito a ganhar em ler um notabilíssimo escritor de esquerda chamado Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo pseudónimo George Orwell. Entre outras coisas relevantes para o assunto em apreço, escreveu Orwell que "...to be corrupted by totalitarianism one does not have to live in a totalitarian country. The mere prevalence of certain ideas can spread a kind of poison that makes one subject after another impossible for literary purposes. [...] But what is sinister, [...], is that the conscious enemies of liberty are those to whom liberty ought to mean most." Só por estes pequenos excertos, e se não forem completamente destituídos, já aprendiam qualquer coisinha. Eles e o Caramelo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A diferença entre fumo, foguetório e fogo

por Diogo Noivo, em 02.03.17

manonfire.jpg

 

Com justiça e oportunidade, pede o nosso Sérgio que António Domingues revele a informação que tem sobre a trapalhada na Caixa Geral de Depósitos. Se Domingues foi enganado, e se existem dados que demonstrem esse engano, então que os torne públicos pois essa é a forma mais eficaz de apurar a verdade.
Certo. O problema é que a eficácia depende sempre do resultado final desejado. Como, aparentemente, o objectivo de António Domingues é o de queimar o Ministro das Finanças em lume brando, a revelação parcial e periódica de informação, vulgo 'a conta gotas', é bem mais eficaz. E divertida, imagino.
O Governo devia seguir uma estratégia semelhante no caso das transferências para as offshore. É sabido que o ‘caso Caixa’ está a correr francamente mal ao Governo, em parte porque oferece a uma oposição debilitada a possibilidade de dar provas de vida. Assim sendo, a criação de um ‘caso’ cujo ónus recaia na oposição permite baralhar e dar de novo, desviando as atenções do Governo actual para o Governo anterior. Em teoria, o ‘caso das offshore’ serve o propósito. Acontece que a cortina de fumo não passará disso mesmo: fumo.
Independentemente da posição de princípio que cada um tenha sobre as offshore, parece que no caso em apreço não há indecências a registar. O dinheiro transferido é privado, foi devidamente comunicado pelos bancos ao Estado, e tudo indica que os impostos aplicáveis foram pagos. Aliás, de acordo com uma fonte governativa citada por Paulo Baldaia, não houve fuga ao fisco nem qualquer outra ilegalidade. Esta ideia foi reforçada ontem, no Parlamento, quando Rocha Andrade, Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, atribuiu a causa do ‘caso’ a um problema de software. Por último, como Helena GarridoJoão Taborda da Gama e outros já explicaram, o cerne do ‘caso offshores’ parece ser de natureza estatística. Não é que daqui não devam ser tiradas ilações e consequências. De resto, Paulo Núncio, anterior Secretário de Estado, já assumiu responsabilidades políticas e Maria Luís, a anterior titular da pasta das Finanças, já se dispôs a prestar esclarecimentos na Assembleia da República. Até ver, não houve bar aberto no ‘caso offshores’ e, apesar disso, já houve quem se chegasse à frente.
No 'caso Caixa' temos o cenário inverso. De momento, sabemos que houve um gravíssimo “erro de percepção mútuo” (perdoem-me a novilíngua, mas parece que é o novo normal), e que a lei e os deveres de transparência exigidos aos gestores públicos foram deliberadamente mutilados pelo Governo. E ninguém se chega à frente. Sabemos também que as gentes do Bloco, sempre empenhadas na moralização da política portuguesa, foram submetidas a uma lobotomia pelo Primeiro-Ministro e padecem agora de uma apatia selectiva. A inefável Mariana Mortágua, tão tranquila e conivente perante a trapalhada da Caixa, acordou da letargia política para berrar umas coisas sobre as offshores. O sentido de oportunidade é inatacável.
Em resumo, no 'caso offshores', para já, nada há de grave a reportar. A não ser fumo e foguetório. Já no 'caso Caixa' há um Ministro a arder devido a uma relação difícil com a verdade. No entanto, só o primeiro caso merece a indignação da esquerda. Mas, importa reconhecer, a festa está animada. Quando acabar o fumo, o foguetório e o fogo logo veremos em que estado ficou o imóvel.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nem-Nem

por Diogo Noivo, em 28.02.17

As redes sociais aproximam as pessoas de uma forma inovadora e surpreendente. Além de encurtarem distâncias e de superarem barreiras culturais, as redes sociais ligam indivíduos que, de outra forma, jamais coexistiriam sob um mesmo tecto. Por vezes, a ligação oferecida pela experiência em plataformas como o Twitter ou o Facebook é de tal forma intensa que, mais do que ligar pessoas, opera ligações dentro delas. Nomeadamente ligando-lhes o cérebro ao duodeno.
Estou consciente que a afirmação anterior é tudo menos consensual pois, argumentarão alguns, a ligação directa da massa encefálica ao tracto gastrointestinal é muitas vezes uma condição pré-existente que as redes sociais apenas potenciam. Seja como for, as consequências são palpáveis – e lamentáveis. Nas redes sociais, a reacção antecede com frequência a compreensão. Legiões imolam-se em retórica inconsequente sem perceberem bem porquê. Como escreveu Miguel Tamen, nunca o intervalo entre espasmos e prosa foi tão curto.
Alguns jornais aproveitam-se do estado de catatonia funcional dos nativos digitais, não para trazer alguma elevação à arena, mas sim para tirar partido da idiotia. O método mais habitual designa-se clickbait, em tradução livre «engodo para clicks», e visa captar clicks e visualizações, dois elementos essenciais para definir o preço da publicidade – e, assim, as receitas do jornal. Em regra, o clickbait assume duas formas. Primeiro, e sabendo que os conteúdos partilhados nas redes sociais raras vezes são abertos, os jornais recorrem a parangonas que agitam curiosidades. Por exemplo, uma notícia titulada “O novo amor de António Costa” uma vez aberta dá conta ao leitor que o Primeiro-Ministro descobriu a sua paixão por sushi ou pela chanfana.
A segunda expressão de clickbait, especialmente desonesta, recorre a títulos que instigam indignações fáceis. Mais do que teorizar sobre esta segunda abordagem, proponho que olhemos para uma ‘notícia’ publicada há dias pelo jornal i. Lê-se no título que “Jovens que não estudam nem trabalham vão receber 700€ mensais de subsídios estatais”. Logo, todos os jovens que não trabalham nem estudam vão receber 700€ do Estado. Avançamos para o lead e confirmamos o título. Por outro lado, a fotografia que ilustra a ‘notícia’, e que é todo um tratado sobre mensagens subliminares, mostra jovens ociosos que aparentam ter uma vida folgada, ficando portanto implícito que vivem à conta de terceiros. Isto é, à primeira, à segunda e à terceira vistas tudo indica que o Estado vai sustentar todos os jovens portugueses que não trabalham nem estudam. Como seria de esperar, a notícia provocou revolta ardente e generalizada nas redes sociais.
Contudo, lendo o texto na íntegra, ou socorrendo-nos de notícias a sério sobre o mesmo tema, como esta do Observador, percebemos que se trata de um programa de apoio ao empreendedorismo de jovens que não trabalham nem estudam – habitualmente designados em Portugal como jovens “nem-nem”. Para aceder ao programa, estes jovens têm de cumprir um conjunto de requisitos, como ter concluído o ensino obrigatório, têm de se candidatar, têm de apresentar os seus projectos, têm de ser seleccionados, e só então poderão aceder aos apoios disponíveis. Importa referir ainda que o programa tem 315 vagas, um número inferior aos cerca de 300 mil jovens portugueses que estão sem trabalho e que não estudam. Em suma, a realidade dos factos é substancialmente diferente daquilo que nos é sugerido pelo jornal i.
Tudo contado e somado, percebemos que o texto publicado pelo i espelha, porventura por simpatia, o tandem sobre o qual versa: nem é um trabalho respeitável nem mostra estudo deontológico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O amor livre e a Caixa Geral de Depósitos

por Diogo Noivo, em 21.02.17

“Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Carregadinha de sageza, a pergunta é posta na boca de d. Hélder, Arcebispo progressista brasileiro, uma personagem saída das crónicas de Nelson Rodrigues. Reza a crónica que após um debate público onde “católicos inteligentíssimos, arejadíssimos, etc.,etc.” peroraram sobre amor livre com invulgar compreensão e manifesta abertura, chega a vez de o Arcebispo se pronunciar. “A cidade parou” porque todos “queriam conhecer a sua palavra sobre o direito que temos de fazer a nossa vida sexual com a naturalidade de um vira-latas de esquina ou de um gato de telhado”. Instado a dizer de sua justiça sobre a liberdade de amar sem pudor, d. Hélder pondera e, “de mãos postas”, mata o assunto: “Por que falar de amor livre se o Nordeste passa fome?”. Como escreveu o cronista brasileiro, gozando a paródia que criou, “[d]epois disso, o speaker poderia insistir? Nunca. E, ao mesmo tempo, não sabemos o que mais admirar em d. Hélder: se a fina inteligência, se a cálida bondade”.
Viajando no espaço e no tempo, do Brasil da década de 1960 para o Portugal de 2017, concluímos que a trapalhada com a Caixa Geral de Depósitos é o amor livre dos dias de hoje. Sopesando as novidades, as declarações, e o pouco edificante desenrolar do «caso Caixa» na última semana, é já evidente que o Ministro da Finanças mentiu ao parlamento e à opinião pública. É igualmente evidente que o Governo, responsável pela defesa do interesse público, se dispôs a mutilar a lei e os consequentes deveres de transparência exigidos a gestores públicos. E, embora menos claro, não é abusivo considerar que tudo isto foi levado a cabo com a conivência do Primeiro-Ministro e com a cobertura do Presidente da República – este último, ao ver o desenrolar do folhetim, meteu habilmente o corpo de fora, assassinando o Ministro das Finanças pelo caminho.
Aqui chegados, PS, PCP, BE e Presidência da República encarnam o espírito de d. Hélder: o que são a verdade, a ética, e os deveres de transparência quando comparados com a necessidade de recapitalizar a Caixa e com a estabilidade financeira do país? Não sei o que mais admirar: se o fino descaramento, se o pálido sentido de Estado. É agora oficial que os fins justificam os meios, e que a tão falada “ética republicana” mais não é do que um verbo de encher.
O novo utilitarismo é especialmente surpreendente nos bloquistas. Ao contrário dos demais partidos e de outros intervenientes no debate político, a acção pública do Bloco de Esquerda fundou-se sempre na moralização do regime. Desde que desaguaram no espaço público, os bloquistas foram sempre intransigentes com a mentira, mesmo quando ela não existia. As políticas públicas foram sempre por eles avaliadas com base naquilo que era “justo” e “correcto”, e nunca com base no que era possível. Para o Bloco, os constrangimentos da realidade foram sempre acessórios porque a política, na forma como a entendiam, almejava um patamar etéreo, onde a verdade, a ética e a justiça eram bens tão tangíveis como absolutos. Mas tudo mudou, o que levanta um problema. Se já não é o aurato da moral e da correcção, e considerando que a chamada «agenda fracturante» é agora bem mais exígua (e o pouco que sobra já foi assumido por outros), a raison d’être do Bloco de Esquerda desapareceu.
Escreveu Nelson Rodrigues que houve um tempo em que olhar para o céu nos punha “em relação direta, fulminante, com o infinito”. Porém, o progressista d. Hélder “só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva”. Para a esquerda, o «povo» é o equivalente do céu. E o Bloco, quando olha para ele, já não encontra nada de sublime. Por isso, é bom que vá pensando se leva ou não guarda-chuva.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O valor dos argumentos

por Diogo Noivo, em 15.02.17

Sou, sempre fui, favorável à despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Porém, discordâncias à parte, tenho de aplaudir o João Pedro Pimenta pela forma como responde aos talibãs do komentariado nacional que, nesta e noutras matérias, procuram fazer da ética um argumento de disciplina (e de imposição) em detrimento de um debate são, sério e democrático. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O local mais espaçoso no Metro de Lisboa

por Diogo Noivo, em 14.02.17

Em Lisboa, ficar em casa é um acto de rebeldia. Exposições modernaças, bares trendy, restaurantes étnicos, arquitectura (ou arquitetura?) desempoeirada, lançamentos de livros de dietas detox, lançamentos de lojas, lançamentos de “conceitos”, enfim, uma canseira de solicitações. Só ao Tejo é que ninguém se lança – já não se fazem portugueses como o Marcelo, o que, pensando bem, não é mau de todo.
Lisboa está na moda, Lisboa é sexy, Lisboa é cosmopolita. Desde que não seja para viver e trabalhar. Sobre as digressões cosmopolitas da capital muito há a dizer, começando pelos “happenings” e pelos “conceitos”, na sua maioria cópias baças daquilo que se faz noutras paragens. No entanto, o drama está no penoso quotidiano.
Regressado de Madrid, onde desta vez vivi cerca de um ano, as diferenças no dia-a-dia são esmagadoras. Na capital espanhola consigo tratar da minha vida usando os transportes públicos, em particular o Metro. Profissionalmente, mesmo que num só dia tivesse de estar em três ou quatro sítios diferentes, o Metro dá abasto. Para as coisas mundanas, como ir ao supermercado, ia a pé. Ao contrário do que sucede em Lisboa, Madrid mantém o comércio local vivo. Em todos os bairros da cidade há supermercados, farmácias, pastelarias, lojas de informática, livrarias, ginásios, cabeleireiros, lojas de roupa, restaurantes, enfim, tudo o que faz falta. Em matéria de acesso à cultura, voltamos aos transportes públicos. Cinema, teatro, livrarias grandes ou especializadas, todos têm uma estação de Metro por perto. Não conheço na cidade de Madrid um único trajecto que se percorra com maior rapidez e conforto de carro do que em transportes públicos. Já em Lisboa conheço vários.
É verdade, as estações de Metro em Madrid são feias, algumas causam mesmo repulsa. Pelo contrário, as de Lisboa são verdadeiras obras de arte. Reconhecida a diferença, importa salientar um aspecto relevante quando falamos de transportes públicos: o Metro de Madrid funciona. O metropolitano da capital espanhola apostou na dimensão e na funcionalidade da rede, a segunda mais extensa na Europa. O de Lisboa apostou na imagem. Em hora de ponta, o intervalo de tempo entre metropolitanos em Madrid ronda os 3 minutos. Em Lisboa, também em hora de ponta, o intervalo de tempo oscila entre os 5 e os 15 minutos, isto quando não temos as célebres “perturbações de linha” – eufemismo para o muito português “desemerdem-se”.
Dir-me-ão que as coisas por Madrid também não são fáceis, ao ponto de ter sido necessária a contratação de empurradores. Certo, mas isso só demonstra o quão eficazes são por lá: Lisboa não tem empurradores, mas devia. O grau de intimidade entre estranhos proporcionado pelo Metro de Lisboa em hora de ponta está à beira de desafiar as noções mais lassas de libertinagem. Mas até nem é mau dar por mim nessa situação. Não porque seja um tipo devasso, mas porque é sinal de que consegui entrar na carruagem. Depois de uns bons 15 minutos de indagações anatómicas mútuas e forçadas, que inevitavelmente levam a comparações, quase sempre desfavoráveis à minha pessoa, lá chegarei ao meu local de trabalho sem grande atraso. Amaçado, com a paciência na reserva, com odores no corpo que não são os meus (por princípio, não me oponho a ter no corpo odores de terceiros, mas ao menos que me paguem um copo primeiro), exausto, mas a horas.
Nada disto parece interessar. O que importa é que a cidade é famosa. E o Metro de Lisboa “é nosso”, novamente público, livre do jugo capitalista previamente autorizado por uma infame concessão a um nefando privado. Se o regresso ao perímetro público traz dificuldades, paciência, é o preço a pagar. Além do valor do passe, claro. Bom, o valor do passe é claro, mas a correspondente factura tem uma tonalidade tão escura que nauseia.
Aqueles que pugnaram por um Metro público, ignorando por completo a sua funcionalidade, eficácia e o serviço prestado aos passageiros, deveriam meter as suas ideias no mesmo sítio onde eu meteria a minha pasta se eles viajassem ao meu lado. Ainda que por definição seja um sítio aconchegado, é mesmo o único local com espaço num Metro lisboeta em hora de ponta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Parece simples, não é?

por Diogo Noivo, em 09.02.17

 

João Gomes de Almeida, no ECO:

 

"Mas numa coisa concordo com Fernanda Câncio: uma fação da sociedade não tem o direito de impor à maioria dos cidadãos a sua vontade. É por este motivo que acredito que os temas socialmente faturantes, ou como a jornalista refere as “escolhas do domínio da ética”, devem ser decididas por todos. Ou seja, através de referendo, tal como aconteceu com a Interrupção Voluntária da Gravidez. Isto porque nunca uma minoria deveria ter o poder de sobrepor o seu interesse ao da maioria. Certo? Não é isso que significa ser de esquerda?

Mas quando chega à hora de dar a palavra ao povo, a esquerda normalmente encolhe-se e gosta de disparar um dos argumentos mais falaciosos do jogo democrático: “os direitos não se referendam”. O tanas é que não! O povo afinal não é soberano? Foi à conta desta retórica que os partidos de esquerda têm conseguido, na maioria das vezes à pressa e atabalhoadamente, fazer passar na Assembleia da República diplomas sobre os temas que dividem a sociedade. Socorrendo-se sempre da falácia de que “estes temas só dizem respeito a quem é afectado por eles” – o que é imperativamente mentira, se partimos do princípio de que todos vivemos em sociedade e de que as transformações que se operam na mesma dizem respeito a todos."

Autoria e outros dados (tags, etc)

A OCDE, as polícias e uma ajuda ao Governo

por Diogo Noivo, em 07.02.17

Mais um relatório incómodo de uma organização internacional. A OCDE, em relatório apresentado ontem, suscita sérias reservas sobre a estratégia do Governo português – e sobre o seu irritante optimismo, acrescento eu. Mário Centeno já veio dizer umas coisas, e digo ‘coisas’ porque a intervenção do Ministro das Finanças soou mais a birra do que a exposição de argumentos válidos. Enfim, o Governo tem uma bota para descalçar. Aqui, no DELITO, damos uma ajuda. Em vez de se perder com profissões de fé sobre as contas públicas, que só convencem os convertidos, o Governo deve focar-se num disparate defendido pela OCDE: Portugal tem polícias a mais. Esta sim é uma conclusão fácil de invalidar.
A conclusão da OCDE a respeito das polícias portuguesas tem dois problemas. Em primeiro lugar, não é claro que tipo de corpos de polícia são contabilizados. Mas ficamos com a impressão que se compara o que não é comparável. Vejamos os casos de Portugal e de Espanha. Portugal tem apenas duas forças de segurança, a PSP e a GNR. Espanha também conta com duas forças de segurança nacionais, a Policia Nacional e a Guardia Civil, mas dispõe ainda de forças de segurança regionais - por exemplo, a Ertzaintza (País Basco) ou os Mossos d'Esquadra (Catalunha). Se o País Basco e a Catalunha têm forças de segurança próprias, o esforço de alocação de efectivos pedido às polícias nacionais nestas regiões é inferior do que em países onde as forças de segurança nacionais são obrigadas a cobrir na íntegra e sozinhas todo o território de um país, sem o apoio de forças locais com competências para garantir a segurança e a ordem pública. Logo, comparar Portugal e Espanha tendo apenas em conta as respectivas polícias nacionais constitui um erro clamoroso.
Em segundo lugar, importa saber se analisar o número de polícias em função da população faz algum sentido. Olhemos, por exemplo, para o Alentejo. É provavelmente a região da Europa onde o número de polícias per capita é mais elevado, mas onde o número de polícias por quilómetro quadrado será dos mais baixos no continente. Em matéria de segurança, a cobertura de território, mesmo que com baixa densidade populacional, é crucial porque o vazio de forças de segurança pode constituir um incentivo à prática de determinados crimes (fabrico de estupefacientes, crime organizado, etc). Mas a OCDE, tanto quanto é possível perceber, apenas equaciona o factor demográfico. Asneira da grossa. Coisa diferente é saber se não teremos demasiado polícias alocados a funções designadas como "não operacionais" (administrativas, de apoio logístico, e outras semelhantes), mas disso a OCDE não fala.
E cá está, duas razões para o Governo e a maioria que o apoia desfazerem um relatório incómodo, embora recorrendo a argumentos devidamente fundamentados e que ecoem para lá da jihad liderada por João Galamba.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Men for all seasons

por Diogo Noivo, em 02.02.17

democracia_manda_maioria1.jpg

 Um ano e tal depois:

 

democracia_nao_e_ditadura_maioria1.jpg

 Via O Insurgente

As sumidades que pastam nos verdes campos do komentariado português são dadas a uma desfaçatez lendária. Daniel Oliveira, como bem nota João Cortez n’O Insurgente, é um caso flagrante.

Mas o seu a seu dono: em matéria de mortais encarpados à retaguarda, ninguém bate Nuno Saraiva, antigo jornalista do Diário de Notícias. Foi de A a B em tempo recorde e sem que o víssemos a percorrer o caminho que separa os dois pontos. Parece que se deixou de jornalismo – o que é um desafio ontológico notável, já que não é fácil abandonar o que nunca se fez – e se dedicou à bola. Parafraseando Gore Vidal, foi uma boa mudança de carreira.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fim do bar aberto?

por Diogo Noivo, em 30.01.17

CGTP_UGT.jpg

 Carlos Silva tenta explicar a Arménio Carlos o que é um papel assinado

 

Por dever de um ofício que tive em tempos, participei em várias reuniões com centrais sindicais ou com sindicatos a elas associados. Recordo-me que negociar com a UGT e com os seus afiliados era muito duro, tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista político. Não era fácil chegar a acordos, mas era possível. Já com a CGTP o processo era substancialmente mais fácil: raramente se negociava. A central liderada por Arménio Carlos entrava nas negociações dizendo que não ia negociar – porque era contra o sistema capitalista de mercado, porque considerava a austeridade um crime comparável ao Holocausto, ou por qualquer outra razão que não admitia excepções ou cedências. No entanto, exigia sempre permanecer à mesa. Ficava calada, ou a colocar cascas de banana com o intuito de descarrilar o processo negocial. Em resumo, a UGT cedia em troca de cedências dos seus interlocutores; a CGTP queria obter cedências, mas nunca estava preparada para abdicar de uma vírgula.
Outra grande diferença entre as duas centrais sindicais está nos limites. Para a CGTP vale tudo. Em 2013, participei numa negociação com sindicatos afectos à UGT e à CGTP. Foi um processo moroso, difícil, mas lá chegámos a uma base comum de entendimento. Quando nos preparávamos para assinar o acordo, um dos sindicatos próximos da CGTP aparece com uma nova reivindicação: queriam que os trabalhadores em apreço deixassem de pagar a parte correspondente ao subsídio de desemprego na contribuição para a Segurança Social. O argumento? Simples: somos funcionários públicos, nunca seremos despedidos, logo não faz sentido estarmos a contribuir para o subsídio de desemprego dos outros. Importa ter em mente que 2013 foi o annus horribilis do desemprego na Europa. Neste ano os portugueses mostram ter uma solidariedade à prova de bala, mas para este sindicato qualquer argumento – mesmo que eticamente abjecto – valia para dinamitar o acordo.


A única central que obrigou os sucessivos Governos a ceder foi a UGT. Se tivermos presente que os ganhos reais para os trabalhadores se obtêm por via de negociações ou de acordos entre sindicatos, patronato e Governo, uma parte muito importante dos ganhos laborais em Portugal deve-se à UGT. O que tem um custo para esta central sindical. Ao assinarem os acordos são de imediato acusados de traição pela CGTP. Na psique do sindicalismo radical, apostada numa luta que os levará à vitória final, os Governos são por definição entidades mefistofélicas. Como tal, um acordo, mesmo que vantajoso, funda-se num pecado capital inaceitável. No fundo, para a CGTP, entrar num acordo substantivo com um Governo implica mutilar a sua identidade política e ideológica. Por essa razão, em 2006, a única vez em que a CGTP aceitou subscrever um acordo a sério (um momento tão inédito que é considerado um marco histórico), não houve cerimónia de assinatura. A central sindical, liderada na altura pelo inefável Carvalho da Silva, assinava com vergonha, ainda que do acordo resultasse um aumento do salário mínimo. E, claro, foi uma questão de tempo até que a CGTP imputasse os aspectos negativos do documento à UGT.
Carlos Silva, Secretário Geral da UGT, terá chegado ao seu limite. Se a CGTP quer uma adenda ao último acordo de concertação social, então que o assine primeiro. É um mínimo olímpico. Veremos se a CGTP se qualifica. Para a central sindical de Arménio Carlos, a relação com os sucessivos Governos tem sido uma espécie de bar aberto: entram, servem-se, fazem a festa, e alguém que pague a conta. Esperemos que Carlos Silva seja bem-sucedido na missão de trazer um módico de decência ao estabelecimento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

De Belém, com afecto

por Diogo Noivo, em 26.01.17

MRS.png

 

O conceito "pós-facto" já entrou no léxico diário. Trump é a epítome desse mundo detestável onde a realidade é torcida e retorcida com o intuito de servir agendas próprias, ignorando os interesses nacionais e, por definição, os factos. Cá, em Portugal, não temos disso. Ou se calhar temos, mas a coisa é menos grave porque é feita com abraços, afecto e votos de saudinha a quem passa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gorden Kaye (1941-2017)

por Diogo Noivo, em 24.01.17

GordenKaye.jpg

 Morreu o maior sex symbol da Britcom, protagonista de uma das melhores séries de televisão de sempre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A elegância no ódio

por Diogo Noivo, em 23.01.17

best_of_enemies.jpg

Pedantes, cultos, sagazes e penas magníficas. Vistos desta forma, William Buckley e Gore Vidal eram faces da mesma moeda. Talvez por isso não se pudessem ver. Vidal era o enfant terrible liberal, um transgressor por vocação, convicção e prazer. Buckley era o poster boy da intelectualidade conservadora, um provocador elegante que defendia a política como arena de debate ideológico. Dois génios em lados opostos da barricada.
Em 1968, durante a campanha presidencial nos Estados Unidos da América, a ABC tinha de encontrar uma forma de se manter à tona, de captar audiências, aproximando-se das líderes de mercado CBS e NBC. É neste contexto que alguém na ABC se lembra de criar um modelo de debate entre comentadores, um frente-a-frente, no qual Gore Vidal se sentaria de um lado e William Buckley do outro. E assim nasceu um dos episódios mais marcantes da História do audiovisual e assim se criou uma inimizade lendária.

 

 

Os debates foram animais da sua época, muito embora não sejam conversas datadas. Para o bem e para o mal. É curioso ver como temas quentes nos Estados Unidos no final da década de 1960 continuam hoje a ocupar um lugar de destaque na agenda política e social desse país - a tensão racial é um dos vários exemplos possíveis. Mais curioso ainda é perceber como os argumentos aduzidos pouco ou nada mudaram. O que sim mudou foi a tarimba e o flâneur dos intervenientes. Eloquentes, mordazes e incisivos, Vidal e Buckley foram peças únicas. Único foi também o incidente ocorrido no último debate, um excesso que cavou o abismo que já separava os dois. Não estragarei a surpresa aos que não conhecem o caso e querem ver Best of Enemies, o documentário onde esta relação entre titãs é descrita e analisada.
Se há algo a retirar de Best of Enemies é que a inimizade, tal como o seu antónimo, exige uma atenção total e esmerada. Vidal era um cultor da língua, mas também do ódio. Mais do que um sentimento, o ódio era um compromisso tratado com tamanha elegância que quase foi elevado à categoria de virtude. Buckley era mais provocador do que amante de ódios, mas não deixou Vidal a detestar sozinho.
É verdade que o documentário tem falhas, algumas das quais analisadas com exagero (e talvez com algum ressabiamento) por Michael Lind no Politico, mas nem por isso é menos interessante. Narrado por John Litgow e por Kelsey Grammer, o documentário Best of Enemies prova que intelectuais públicos dignos desse nome não são matéria do domínio da ficção. Estreado em 2015 no Sundance Film Festival, Best of Enemies está disponível no Netflix.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dívida de gratidão

por Diogo Noivo, em 11.01.17

MSoares.png

Nasci um ano após a extinção do Conselho da Revolução. E não tinha ainda dois quando Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia. Isto é, os meus primeiros anos de vida foram os últimos do processo de transição democrática.
Os processos de democratização são fases politicamente complexas, sensíveis, e pejadas de riscos. Em Espanha, por exemplo, Juan Carlos I e Adolfo Suárez foram os arquitectos e os garantes de um regime democrático e plural, homens cuja capacidade política e o compromisso com o Estado de Direito Democrático permitiram desmantelar intentonas apostadas no regresso a tempos negros, como aquela que ocorreu no dia 23 de Fevereiro de 1981. Em Portugal, tivemos Mário Soares. Entre outros feitos notáveis, a coragem política (e física) de Soares garantiu que Portugal não se transformava num manicómio a céu aberto, num regime de demência colectiva do qual o PREC foi uma amostra tenebrosa.

GonzalezElPais.jpg

Como escreveu Felipe González no El País do passado domingo, Soares era sobretudo um democrata, o que não é pouco. Durante a transição, Mário Soares soube traçar a linha divisória no sítio onde ela era necessária. O país não se dividia entre esquerda e direita, entre conservadores e liberais, mas sim entre democratas e gente que pretendia substituir um autoritarismo por outro. Soares, com a preciosa ajuda dos eleitores, encarregou-se de manter os últimos ao largo.
Sei que, em Portugal, os mortos são por definição puros e incontestáveis. Mas Soares cometeu erros. Confundiu muitas vezes o aparelho partidário com a estrutura estatal. E nos últimos anos cometeu erros que evidenciavam o desaparecimento do lendário faro político de outrora – a recandidatura a Belém, ver em Hollande o salvador do centro-esquerda europeu, advogar o voto em Obama como via para o encerramento de Guantánamo, alinhar com o Bloco em reuniões toscas e profundamente iliberais, enfim, erros que o talento e a intuição política do Mário Soares da transição democrática porventura não permitiriam. Porém, feitas as contas, acertou mais vezes do que se enganou. Ou, dito de outra forma, os êxitos foram de tal forma significativos que os erros não fazem muita sombra.
Nasci num país sem grandes dúvidas em relação à democracia e ao europeísmo. E isso faz com que tenha uma enorme dívida de gratidão a Mário Soares. Ao contrário de certa direita ultramontana e de alguma esquerda mumificada, assumo essa dívida com gosto e sem matizes. Hoje, num Portugal que parece ter as costas voltadas à Europa, um país onde a linha divisória traçada por Soares se encontra em parte incerta, à dívida de gratidão junta-se a saudade que nunca esperei sentir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Táxi escondido com o rabo de fora

por Diogo Noivo, em 05.01.17

ubervstaxi_cbc.jpg

 

Na segunda-feira, dia 2, o Observador deu grande destaque a um trabalho de fundo sobre a precariedade laboral na Uber. Um dia depois, dia 3, o mesmo jornal publica uma notícia onde se refere que os taxistas exigem nova reunião com o Governo, se queixam dos “ilegais” (leia-se Uber e Cabify), e alertam para a “revolta” que sentem. Por outras palavras, o primeiro texto debilita a reputação da Uber e o segundo, publicado 24 horas depois, dá nota da força dos taxistas. Pura coincidência, certamente.
Mas – hipótese académica – admitamos que não é uma coincidência. Partindo deste princípio, não é difícil encontrar nestas duas notícias o reflexo de uma campanha de comunicação contra a Uber. Em primeiro lugar, depois do desastre calamitoso que foi a última manifestação de taxistas, o sector do táxi precisa de enfraquecer o opositor e, por outro lado, de abrir espaço mediático para a sua causa (um espaço que tem estado fechado em virtude das alarvidades feitas e ditas durante a última manifestação, muitas das quais visaram jornalistas). Estas duas notícias, e em particular a sua sequência, servem estes objectivos na perfeição. Em segundo lugar, os taxistas precisam de mudar o terreno de jogo. Explico-me: até agora, o debate público Táxis versus Uber deu-se sempre no âmbito do serviço prestado ao consumidor. Ora, neste campeonato a Uber ganha 10 a 0. Por isso, os táxis têm que levar o debate para outro lado. Por exemplo, para o lado das condições laborais, um assunto intimamente relacionado com a lei e com a fiscalização, algo que (surpresa!) vai ao encontro da narrativa dos taxistas. Mais uma vez, estas duas notícias - sobretudo a primeira - cumprem o serviço.
Voltemos à realidade. A hipótese académica que aqui desenhei é um disparate. Se o sector do táxi mete as condições laborais na arena de combate dá um tiro no pé. E uma campanha contra a Uber tão óbvia no conteúdo, na forma e no timing seria de tal forma amadora que é mau demais para ser verdade. Só pode ser fruto de coincidência. Se não for, os taxistas têm um estratega de comunicação para demitir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A propósito do incidente “feira do gado”, protagonizado por Augusto Santos Silva (who else?), o essencial já foi dito pelo Rui Rocha. Falta apenas dizer que o pedido de desculpa foi mais gravoso do que a afirmação que lhe deu origem (a afirmação insultou a concertação social, o pedido de desculpa insultou todos aqueles que têm dois dedos de testa), mas adiante.
Há, no entanto, um argumento que vai despontando nas fileiras de apoiantes do Governo, uma tese segundo a qual se tratava de um momento informal e, por isso, a recolha de som não é legítima. Eram conversas privadas, de gente que, no fundo, é mortal e igual ao cidadão comum. Em suma, gente que tem o direito de soltar umas boçalidades no recato do seu espaço próprio e privado. Parece-me um argumento difícil de defender – era um evento público, com intervenções públicas, para o qual foram convocados jornalistas.
Mas admitamos que sim, que o som foi colhido de forma ilegítima e 'pela calada'. Certo. Significa, portanto, que quem perfilha este argumento condena a gravação da célebre conversa privada entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schäuble? E, por maioria de razão, condenarão a divulgação pública das brutalidades cavalares ditas por Donald Trump sobre as mulheres, uma conversa tida à porta fechada, mas apanhada por um microfone aberto? Se sim, não me lembro que esta gente tivesse tantos pruridos quando estes casos fizeram manchetes. Neste Tempo Novo temos então um conceito inovador assente em dois paradoxos: o princípio sacrossanto, mas de aplicação à la carte, de privacidade em eventos públicos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O hacker Marcelo

por Diogo Noivo, em 26.12.16

webPR.PNG

 

Depois de uma mensagem sobre a ginginha do Barreiro, a página oficial da Presidência da República lamenta a morte de George Michael. Por momentos, pensei que a página da Presidência tivesse sido alvo de um ataque informático com o fito de gozar com o Presidente. Mas não. Não há nada que um hacker possa fazer que Marcelo não faça sozinho.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mais do que prestarem um serviço público, as companhias áreas de bandeira foram instrumentos da política externa dos Estados. A Turkish Airlines, certamente por excesso de zelo, levou a coisa um pouco mais longe e assumiu o papel de veículo de propaganda do regime liderado pelo presidente Recep Tayyip Erdoğan. E fê-lo com a subtileza e com a elegância de um choque frontal entre dois Airbus A340.
Mão amiga – uma expressão lamentavelmente caída em desuso – mostrou-me há umas semanas a revista de bordo da companhia aérea turca. Esta edição apenas existe em turco e, pelo que pude perceber, só está disponível em voos regionais. Junto a este post algumas fotos que fiz a essa publicação, pedindo desculpa pela fraca qualidade das imagens.
Em 1984, Orwell escreveu que quem controla o passado, controla o futuro. Cientes disto e da consequente necessidade de consolidar uma versão oficial da História, a Turkish Airlines diz ao que vem logo na capa e na contracapa. Imagens épicas e com imenso potencial iconográfico dos “protestos pró-democracia”, isto é, das manifestações de apoio ao presidente no momento em que decorria um estranho golpe de Estado, marcam o tom da revista (ver imagem abaixo).

capacontracapaTA.jpg

 

Um ataque à pátria requer inimigos. Se houver conspiração, tanto melhor. E se essa conspiração tiver ramificações internacionais então é um mimo para a máquina de propaganda. A revista da Turkish resume tudo isto com mestria (ver imagem seguinte). De um lado, fotos das detenções dos golpistas, encabeçadas por uma cronologia dos “factos” – a narrativa não pode ter falhas. Do outro lado, uma infografia onde se explicam as ligações norte-americanas, com o respectivo apoio financeiro e institucional, de Fethullah Gülen, o alegado instigador do golpe falhado.

conspiracao.jpg

 

Mas há mais. Fotos dos cabecilhas locais do golpe são acompanhadas por uma infografia onde constam as intuições às quais pertenciam e quantos homens de cada uma delas estiveram envolvidos na tentativa de derrube de Erdoğan. Seguem-se obviamente imagens de um presidente corajoso, determinado e sereno a dar uma entrevista à CNN (se for a um órgão de comunicação social estrangeiro sempre dá um ar menos amanhado). Há ainda fotografias de manifestantes pró-Erdoğan à porta de várias embaixadas turcas, nas quais o fotógrafo, socorrendo-se das técnicas de Leni Riefenstahl, faz com que 8 tipos pareçam 80 – mas destas, infelizmente, não colhi imagens.

cabecilhaseinstituicoes.jpg

 

Depois de anos submetida a jacobinismo militar, a Turquia atura agora o autoritarismo despudorado do presidente Recep Tayyip Erdoğan. E já não se disfarça. Ao ver esta revista percebe-se bem o interesse de alguns governos em manter as companhias aéreas sob controlo estatal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Blogue da Semana

por Diogo Noivo, em 11.12.16

Feminina, perspicaz e cáustica q.b. E escreve muitíssimo bem. Não faço ideia quem seja, pois intitula-se Gaffe. No blogue A Gaffe e as Avenidas fala-se da vida, do quotidiano, de livros e de literatura. E fala-se dos homens com uma naturalidade que, em tempos de feminismo exacerbado, se agradece.
Eu, que dou dado a gaffes lendárias e que gosto de gente que se diverte com a vida, passo por lá com regularidade. Por isso, A Gaffe e as Avenidas é a minha sugestão de blogue da semana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eduardo-Mendoza_ElDiario.es.jpg

Eduardo Mendoza

Não queria incomodar nem tem feitio para isso. Só queria escrever uma boa história. Escreveu e fez de Los soldados de Cataluña o seu primeiro livro. Para início de conversa, não esteve nada mal. Começou por incomodar a censura franquista, que lhe impôs uma mudança de título – La verdad sobre el caso Savolta, na versão que chegou aos escaparates e que o celebrizou enquanto escritor. Mas, mais importante, esta boa história inaugurou uma nova etapa na literatura espanhola, sendo consensualmente descrita como a primeira novela da Espanha pós-franquista. Em 1975, aos trinta e poucos anos, Eduardo Mendoza consegue com o seu primeiro livro aborrecer o regime – que descreveu o texto como “estúpido e confuso, escrito sem pés nem cabeça” – e provocar uma ruptura no estilo literário espanhol. Tudo isto para quem apenas queria contar uma boa história.
Os anos sucederam-se e os livros também. A ironia fina e certeira, a sobriedade, e a erudição expressa em linguagem simples tornaram-se a marca distintiva da identidade literária de Eduardo Mendoza. Poucas vezes participou em discussões candentes – a reprodução no El País de um discurso sobre a independência da Catalunha é uma das raras e admiráveis excepções. Ao contrário de outros escritores espanhóis, omnipresentes e ferozes no debate político, Mendoza não quis reclamar o estatuto de intelectual público. O que interessa são as histórias e os livros.
Em 2015, quando se assinalaram os 40 anos de La verdad sobre el caso Savolta, a imprensa espanhola dedicou muitas e boas linhas à revisitação de um livro que, segundo o escritor Javier Marías, é um “marco, uma revelação, um grande êxito, uma novidade distinta, e por isso se diz que, na literatura, marcou o início da democracia e a defunção do Franquismo”. Para António Muñoz Molina, “Mendoza não escrevia para submeter a exame as faculdades intelectuais do leitor, nem para lhe mostrar os seus conhecimentos sobre o nouveu roman francês, ou o monólogo interior ou as obscuridades mais difíceis de William Faulkner; não escrevia para doutrinar politicamente o leitor, nem para jactar-se das suas audácias sintácticas e sexuais. Mendonza, como Marsé, embora com recursos muito diferentes, procura a forma de contar, com a maior eficácia possível, uma história que é muito importante para ele, tão importante que decidiu dedicar-lhe um livro longo e complexo que talvez não chegasse a ser publicado”.

 

EduardoMendoza.jpg

 

A obra criou uma ruptura e o autor também. Para Muñoz Molina, Eduardo Mendoza é imune à “arrogância despectiva”, à “postura jactante”, à “desqualificação frívola daquilo de que não se gosta”, vícios predominantes na cultura intelectual espanhola da época, inclusive da anti-franquista. Não é hagiografia. Tive oportunidade de conhecer Eduardo Mendoza na última feira do livro de Madrid. Quando soube desta oportunidade, hesitei. Conhecer pessoalmente alguém que admiramos pode facilmente dar azo a uma decepção descomunal. E, por outro lado, o homem mudou o romance espanhol e eu nunca mudei nada digno de registo. Hesitei, mas lá fui. E ainda bem, porque o gigante é de uma simpatia distendida e desarmante. Falámos dos livros dele, claro. Embora, curiosamente, Mendoza tenha falado deles como entidades independentes, com vida própria, nunca usando o pronome possessivo “meus”. As histórias têm que valer por si. Com alguma vergonha, disse-lhe que comecei a lê-lo pelos livros mais recentes, nomeadamente pela série do detective anónimo, razão pela qual ainda não tinha acabado o Caso Savolta, que aliás levava debaixo do braço. Eduardo Mendoza pede-me o exemplar e na dedicatória da praxe (que muito agradeço e estimo) não refere importância literária ou pessoal do livro, ou mesmo que se trata de um livro. É tão simplesmente uma velha história. Juan Cruz tem razão quando escreve que Eduardo Mendoza é um cavalheiro que não alardeia os seus triunfos nem as suas feridas.
Na semana passada, Eduardo Mendoza foi galardoado com o Prémio Cervantes, habitualmente descrito como o Nobel da Literatura para as letras em espanhol. Tenho quase a certeza que, ao receber o prémio, não dirá que é dele ou dos seus livros, mas sim das histórias que pôde contar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sem rei nem roque

por Diogo Noivo, em 30.11.16

O Chefe de Estado espanhol, Filipe VI, discursou no parlamento português. No final da intervenção, houve aplausos de todos os deputados, menos na bancada do PCP, onde os parlamentares apenas se levantaram em sinal de respeito institucional. Os comunistas cumpriram o mínimo olímpico. A jogar num campeonato diferente, os deputados do Bloco de Esquerda permaneceram sentados. Nem aplausos nem cortesia. Nada.
A peça da SIC que deu nota deste episódio fala em evolução bloquista. E explicou porquê: por ocasião da visita oficial do anterior monarca espanhol, Juan Carlos I, os bloquistas não apareceram no hemiciclo; desta vez estavam lá. A jornalista da SIC vê nisto uma evolução.
Há dias, Fidel Castro mereceu todos os encómios possíveis por parte do Bloco, que nada disse sobre a sucessão de estilo dinástico entre Fidel e o seu irmão Raúl. Hoje, um Chefe de Estado vinculado a uma constituição democrática, que goza de um respaldo popular muito superior ao da constituição portuguesa, recebeu o tratamento político-institucional que se dá a um ditador. Julgo que a maioria dos democratas verão nisto uma fonte de vergonha alheia e até de algum asco. Mas a SIC vê uma evolução. Parece-me que para os lados de Carnaxide também há gente a limpar os pés às cortinas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

No le tengo miedo

por Diogo Noivo, em 26.11.16

Hoje e nos próximos dias suceder-se-ão as análises sobre a vida e o papel político de Fidel Castro, uma das personalidades mais fortes e marcantes do século XX. Porém, a morte do líder cubano deve convidar-nos também a relembrar todos aqueles que, com prejuízo para a sua parca liberdade e segurança, se atreveram a denunciar o regime ditatorial que submeteu um país inteiro à indigência.
Conhecemos relativamente bem os opositores das gerações mais velhas, gente como Guillermo Fariñas, Elizardo Sánchez, e o colectivo Damas de Branco. Mas existe uma ala jovem, tão ou mais activa. Los Aldeanos, um duo formado por Bian Oscar Rodríguez Gala "El B" e por Aldo Roberto Rodríguez Baquero "El Aldeano", estão na vanguarda da nova dissidência. Usam como instrumento de acção política um dos poucos 'produtos' que conseguiu furar o embargo: o hip hop.
Formado em 2003, o duo Los Aldeanos deixa claro ao que vem nos títulos dos álbuns que editou e no nome dos projectos que integrou: o primeiro trabalho recebeu o título “Censurado”; o segundo intitula-se “Poesia Esposada” (Poesia Algemada); e, em 2007, integram o colectivo “La Comisión Depuradora”.
As letras têm um propósito claro. Contudo, e em linha com a tradição da música de intervenção feita sob o jugo de ditaduras, os versos estão pejados de subtilezas que tornam os textos ambivalentes – e que mantêm os autores fora da prisão. “No le tengo miedo” é porventura um dos melhores exemplos da capacidade de criticar frontalmente o regime de Castro através de uma letra cujo valor facial não é político. O que, à primeira vista, é uma ode à vida e à superação das dificuldades quotidianas, esconde um apelo à resistência e à liberdade.

Y yo sé que yo
a la vida no le tengo miedo
y aquí no se rinde nadie no
seguiré de pie levantando mi voz
Y yo sé que yo... Y yo sé que yo...

 

Los años no engañan, el tiempo puede estar bravo
que yo sigo siendo yo, y a los falsos caso no hago, no!
trabajo diariamente, no soy creyente ni vago
ni me rindo, ni me paro, ni me canso, ni me apago

 

Destruir la poesía de fe con podrida prosa
es como ver encajada en un clavo una mariposa
a la luz la creación, a lo oscuro, el facilismo
tu podrás ser quien tu quieras fiera, que yo soy yo mismo

 

Lo más importante es la visión real que tengas
que nadie te meta un cuento y la mente te la entretenga
en mierda, basura, drogas, dinero y prostitución
porque todo eso, no es más que perdición

 

Voy en dirección contraria, el agor lleva muchos
porque escucho a mi corazón y con mi corazón lucho
son tiempos de ahogo espiritual, de idas absurdas
la gente dobla en lo reto y coge reto en la curva

 

Em Portugal, país apaixonado por cantautores como Zeca Afonso, os projectos musicais como Los Aldeanos deveriam ser venerados. Hoje é um bom dia para começar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há alguém muito baralhado no Reino de Lisboa

por Diogo Noivo, em 21.11.16

FMedinaAlSissi.jpg

 

Durante a Web Summit, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu criticar Donald Trump. Fê-lo usando fundos e recursos públicos, de forma presunçosa e com erros ortográficos, mas enfim, a crítica é legítima e a Trump não lhe faltam características merecedoras de censura.
O que já é difícil compreender é que se critique Trump e, acto contínuo, se atribuam as chaves da cidade a Abdel Fattah al-Sissi, o presidente do Egipto. Critica-se o presidente eleito de um Estado de Direito Democrático, um Chefe de Estado e de Governo cujo poder está limitado por um sistema de freios e contrapesos. Mas dão-se as chaves da cidade a um ditador que chegou ao poder por via da força, interrompendo um processo de transição democrática que, apesar das vicissitudes normais, avançava.
Temo que no município de Lisboa alguém ande a limpar os pés às cortinas e a tapar as janelas com os tapetes de entrada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Barulho

por Diogo Noivo, em 09.11.16

Logo nas primeiras linhas de Ravelstein, Saul Bellow escreve que é “curioso que os beneméritos da sociedade sejam pessoas divertidas. Pelo menos na América é com frequência este o caso. Quem quiser governar o país tem também que o entreter”.
Vista a campanha dos dois principais candidatos, os beneméritos estão em parte incerta, gente divertida também não se viu (a inimputabilidade, por um lado, e o cinismo sem sinal de projecto político, por outro, não divertem), e seja qual for o resultado duvido que haja entretenimento de qualidade. Estas eleições são de tal forma atípicas e decepcionantes que nem o maior escritor americano do pós-guerra equacionou uma coisa assim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Séries do ano (7) - Bloodline

por Diogo Noivo, em 01.11.16

Bloodline.jpg

 

O filho pródigo a casa torna. Esta parábola, bem conhecida, é um conto de redenção. O guião de Bloodline mais não é do que uma revisitação muito capaz da história do filho pródigo, embora o desejo de redenção nesta série seja apenas o gatilho de um thriller em tom de melodrama familiar.
Danny Rayburn (excelente interpretação de Ben Mendelsohn) regressa a casa por ocasião do 45º aniversário de casamento dos pais. Robert Rayburn (Sam Shepard) e Sally Rayburn (Sissy Spacek) são os patriarcas, donos de um hotel de charme plantado numa praia de areia fina, na zona de Florida Keys. O regresso de Danny suscita desconforto imediato nos pais e nos irmãos. Após anos em paradeiro incerto, dedicados a uma vida de consumo de álcool e de estupefacientes, a chegada do filho pródigo é um elemento desestabilizador do clima de felicidade e de unidade do clã Rayburn. Os episódios avançam e vamos percebendo que o incómodo provocado pelo regresso de Danny não se deve tanto às falhas do próprio, mas sim ao passado traumático que a sua chegada desenterra.

 

 

O cenário paradisíaco de Florida Keys serve dois propósitos em Bloodline. Por um lado, acentua o ambiente de união e de felicidade do clã Rayburn. Por outro lado, torna mais vis e dolorosas a mentira e a violência que a tela de estabilidade familiar esconde. O sol e a praia apoiam o lado bom e sadio dos personagens, mas o calor e a humidade abrasadora abrem o caminho para os segredos e os pecados que teimam em não descansar.
A cadência da série obedece a um ritmo de drama, de verdades por revelar, e de ansiedade mal contida, um tom que desenha um mapa do passado fundamental para explicar o presente e que é revelado com parcimónia e com muita atenção aos timings exigidos a um bom thriller.
A fotografia em Bloodline lembra a magnífica primeira temporada da série policial True Detective e cria uma imagem entre o noir e o híper realismo, quase ao estilo documental. O elenco foi escolhido com zelo cirúrgico, onde para além de Sissy Spacek, de Ben Mendelsohn e de Sam Shepard, encontramos outros bons actores como John Leguizamo, Chloë Sevigny, e ainda Kyle Chandler e Linda Cardellini em interpretações muito superiores ao que nos habituaram.
Produzida pelo Netflix, Bloodline vai na segunda temporada. A terceira e última estreará no próximo ano. Se não viu ainda, vale a pena meter os episódios em dia para acompanhar o desfecho desta boa história em 2017.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Acabou a novela, mas não acabou o drama

por Diogo Noivo, em 30.10.16

RajoyCD_20minutos.jpg

 

Ouvi há dias uma frase que resume na perfeição o último ano da política espanhola: Mariano Rajoy é o único animal no planeta que avança sem se mover. O líder dos Populares não tem carisma, não tem o dom da palavra, lidera um partido com vários militantes e antigos militantes envolvidos em casos de corrupção e de branqueamento de capitais, não fez grandes cedências à oposição apesar de carecer de uma maioria absoluta, mas avança. Aliás, olhando para o percurso de Rajoy na política nacional vemos uma história quase inexplicável de sobrevivência. Uns dirão que se trata do triunfo da mediocridade, outros que é um bom exemplo da importância do sangue-frio e da estratégia em política. Seja como for, o homem resiste.
Isso deve-se, em parte, à hecatombe socialista, que analisei aqui. O desastre estratégico e eleitoral do PSOE levou o partido a um Comité Federal, realizado no passado domingo. Ao órgão máximo do PSOE competia-lhe tirar os socialistas de uma encruzilhada asfixiante: abster-se na investidura de Rajoy, permitindo que Populares formassem governo, ou votar “não” e levar o país a terceiras eleições. Esta era a escolha visível e imediata, aquela que se assume perante as câmaras. Mas, como na música, havia outra, mais importante: ganhar tempo para reconstruir o partido ou ser ultrapassado nas urnas pelo Podemos e, consequentemente, tornar-se irrelevante. Sem surpresa, o PSOE optou pela abstenção, ou seja, por manter o lugar de principal força política de esquerda.

 

O Podemos não gostou. Ainda com Pedro Sánchez no lugar de Secretário-Geral, Pablo Iglesias y sus muchach@s (assim, com arroba, à Podemos) pressionavam diária e intensamente o PSOE. Segundo o Podemos, os socialistas não podiam ceder aos apelos à responsabilidade, tinham que ser intransigentes no “não” ao PP. Para o Podemos, este era o caminho para o sucesso: as terceiras eleições fariam dele o primeiro partido de esquerda em Espanha, seguido por um PSOE de rastos e sem condições para se reafirmar no panorama político nacional. Era uma oportunidade de ouro. Decidida a abstenção socialista no passado domingo, o radicalismo e a ferocidade do Podemos atingem novos patamares. Pablo Iglesias e os seus dizem do PSOE o que Sócrates não disse de Cavaco (pelo menos em público), evidenciando um discurso típico de mau perdedor. “Traidores”, “marca branca do PP” e “casta” figuram entre os apodos mais simpáticos, ditos nos intervalos da exploração das fracturas internas que um profundamente inábil Pedro Sánchez deixou no PSOE.
Mas Iglesias também extrema posições num espaço político mais vasto. Após defender que o Podemos devia menorizar o papel das instituições e fazer política na rua, Pablo Iglesias mostrou-se favorável à ideia de um protesto que cercasse o Congreso de los Diputados, uma manifestação cujo intuito é de tal forma contrário ao espírito e aos procedimentos do Estado de Direito Democrático que dispensa comentários adicionais. Pelo meio, manifestantes de cara tapada impediram Felipe González, antigo Presidente de Governo e histórico líder socialista, de dar uma conferência na Universidade Autónoma de Madrid. É verdade que não houve um apoio formal do Podemos a estes manifestantes, mas é igualmente verdade que as palavras de ordem foram copiadas de diferentes intervenções públicas de Pablo Iglesias. É caso para evocar as brujas que não existem, mas que vão aparecendo.
No passado domingo, o PSOE optou por sobreviver, como aliás demonstra a reacção visceral do Podemos. Os socialistas têm tempo e o Governo de Mariano Rajoy nas mãos, o que é um bom ponto de partida. Mas a pressão à sua esquerda deve continuar num trajecto ascendente.


Acabou a novela da investidura em Espanha porque há desde ontem um Presidente de Governo. Tal como Mariano Rajoy, o PSOE sobrevive. É o melhor cenário para ambos. Mas os problemas de um e do outro estão longe de estar resolvidos. Rajoy estará nas mãos do PSOE e o PSOE talvez esteja nas mãos do Podemos. Há drama no horizonte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Séries do ano (6) - Penny Dreadful

por Diogo Noivo, em 25.10.16

penny-dreadful-season-3-key-art.jpg

 

Ambientada na Londres dos finais do século XIX, Penny Dreadful junta sob o mesmo tecto ficcional personagens lendárias, produzidas pela literatura da época, como Dorian Grey, o Doutor Jeckill e o Mr. Hyde, Victor Frankenstein e as suas criaturas, e ainda figuras míticas saídas da pena de Bram Stoker, como Mina Harker, Dr. Seward, e Renfield. Nesta série de televisão, o Reino Unido do século XIX fornece os personagens e o ambiente cénico, mas também o título: “penny dreadful” foi o nome pejorativo dado à literatura popular publicada em pequenos fascículos e com periodicidade semanal, pequenos livrinhos vendidos por um 'penny'.
Muito embora reúna todos estes personagens temíveis num só guião, Penny Dreadful não é uma sucessão de episódios de terror puro, cheios de efeitos especiais, mas sim uma história dramática que explora os limites e as contradições de personagens que não inventou, mas aos quais soube dar novas cores sem os descaracterizar. Este ponto é aliás um dos aspectos mais fortes da série. As personagens são feitas de conflitos internos, de antagonismos íntimos, narrativamente explorados com inteligência, sem cair no lugar-comum do personagem atormentado, e respeitando a estrutura original das criaturas saídas da literatura do século XIX.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

MaurizioVirolibook.jpg

Há várias formas de intervir numa campanha eleitoral. Maurizio Viroli escreveu um livro sobre política, o que não surpreende uma vez que o autor é professor de Ciência Política. Surpreende ainda menos que o livro verse sobre Nicolau Maquiavel pois Viroli é dos mais reputados estudiosos da obra do secretário florentino.
A primeira originalidade reside no facto de Viroli meter Maquiavel ao serviço de Hillary Clinton. A dupla é menos improvável do que possa parecer a alguns, não porque Clinton seja pérfida, mas porque Maquiavel não o era. A segunda originalidade, que revela alguma mestria autoral, está na naturalidade com que um livro que pretende ser um instrumento de intervenção na campanha eleitoral norte-americana não a refere explicitamente nem aos candidatos que nela participam. Por fim, a simplicidade do texto é igualmente invulgar. Publicado pela editora da Universidade de Princeton, “How to Choose a Leader: Machiavelli’s advice to citizens” é acessível, directo e quase panfletário, estando, portanto, nos antípodas da sofisticação (e da sobranceria) doutoral que se poderia esperar. Digo quase panfletário porque a simplicidade e o viés político que sobrevém do texto não comprometeram o rigor do livro, construído a partir de comentários de Viroli a citações retiradas dos mais diferentes textos de Nicolau Maquiavel, de O Príncipe, passando por Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, até à correspondência política. Em capítulos curtos e despretensiosos, está lá tudo o que importa: a razão de Estado; o caso de necessidade; a Fortuna e a Virtude; o papel da religião na política; a importância da História; e a capacidade que Maquiavel teve de intuir o geral a partir do estudo cuidado de casos particulares.

Se crítica há a fazer prende-se com a apresentação de um Maquiavel demasiado prescritor e mecanicista, o que é francamente redutor. Talvez não houvesse outra forma de pegar no trabalho do secretário florentino e transformá-lo em guia prático do eleitor. Porém, é precisamente este pendor prescritivo, de ajuda na escolha de um líder, que faz do livro uma leitura bem-vinda a outras latitudes. Como a nossa.

Depois de, no primeiro capítulo, deixar claro que Nicolau Maquiavel atribuía aos cidadãos um papel tão crucial como insubstituível na vigilância da acção dos políticos, pois disso depende o grau e a qualidade da liberdade na República, Maurizio Viroli adverte os eleitores para os perigos encobertos pelos amanhãs que cantam.

Citando Discursos, o autor salienta que, segundo Maquiavel, a ruína do povo está muitas vezes nas promessas de grandeza e de esperança feitas por gente aparentemente respeitável. Escreve Viroli que “estratégias arrojadas, apelos à honra e a evocação de elevados princípios morais têm sempre um grande impacto” junto das populações, mas quando tais caminhos não se sustêm numa avaliação prudente da realidade são uma receita perfeita para a tragédia humana e política. Por outras palavras, as bravatas em política têm um preço e quem o paga são, em regra, os cidadãos.

 

800px-Portrait_of_Niccolò_Machiavelli_by_Santi_di

 Maquiavel, num retrato de Santi di Tito

 

Uns capítulos depois, e continuando com exemplos retirados dos Discursos, Viroli explica-nos que um bom político almeja a glória e guia a sua acção pelo cuidado com as gerações futuras. Feita a evidente distinção entre fama e glória, de resto cunhada pelo pensador florentino, Maurizio Viroli afirma que “os políticos cujo único objectivo seja a obtenção e manutenção do poder estão única e exclusivamente preocupados com metas de curto prazo e com o consenso eleitoral; líderes políticos que entretenham ideias de glória olharão para o futuro com a esperança de deixar no mundo sinais favoráveis da sua passagem pela Terra”. Importa, portanto, distinguir políticos que ambicionem “verdadeira glória de alguém que apenas deseja vanglória”.

Mudando de assunto e de capítulo, mas sem sair de Discursos, o autor colhe de Maquiavel o ensinamento segundo o qual a boa gestão das contas públicas é imprescindível para manter a igualdade e a liberdade na República. “É pouco avisado escolher governantes dispostos a exaurir o tesouro em benefício dos cidadãos”. Quando tal acontece, mais cedo ou mais tarde, será necessário que o governante submeta os cidadãos a um “fardo extraordinário, e recorra à taxação e empregue todo o tipo de medidas que lhe permitam obter mais dinheiro”. Um tesouro vazio é uma “ameaça à liberdade, sendo o perigo ainda maior se a República é devedora a potencias estrangeiras”.

Enfim, apesar da simplicidade do texto e de visar as eleições presidenciais norte-americanas, o livro é basto em exemplos pertinentes para estas bandas. É uma leitura recomendada para eleitores, mas sobretudo para políticos – mesmo para aqueles que não se expressam correctamente na sua língua materna. Em boa verdade, o inglês de “How to Choose a Leader: Machiavelli’s advice to citizens” é mais acessível do que o português que consta dos preâmbulos dos Decretos-Lei e das Resoluções do Conselho de Ministros.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pátria de violência e ódio

por Diogo Noivo, em 20.10.16

patriaLibro.jpg

 

A ETA, a esquerda abertzale e o regime fascista que ambas instituíram no País Basco sempre mereceram pouca atenção em Portugal, nuns casos por laxismo, noutros por conivência. Durante 40 anos, ser democrata e exercer o direito à liberdade de expressão foram, no País Basco, crimes de delito de opinião. O criminoso era penalizado com ameaças, quando não com a morte. Professores, escritores, cineastas, jornalistas, polícias, políticos e até humildes portageiros eram confrontados com uma escolha: aceitar uma liberdade timorata, mutilada e tutelada pela violência terrorista, ou fazer valer os seus direitos e ideias. Os que optaram pela segunda via assumiram um custo. Para os próprios e para as suas famílias.

O País Basco foi ao longo de quatro décadas uma região bizarra, em absoluta divergência da construção de liberdades no espaço europeu. Os verdadeiros criminosos saiam à rua, faziam as suas vidas com relativa impunidade, enquanto as vítimas viviam num regime de detenção, sob permanente escolta armada, impedidos de actos normais e quotidianos como ir ao cinema ou visitar um familiar quando bem lhes aprouvesse.

A nuvem de chumbo que pairou sobre a Euskadi é hoje uma névoa rarefeita. Mas não se dissipou. No passado fim-de-semana, dois militares da Guardia Civil, que gozavam uma noite de folga na localidade navarra de Alsasua, foram brutalmente agredidos por cerca de 50 indivíduos pertencentes à esquerda abertzale. Os militares e as suas namoradas. Ser polícia no País Basco ainda é um crime. Ser amigo ou companheiro de um polícia é um crime por associação. Julgamento e pena são servidos de uma assentada pelos auto-denominados “representantes do povo basco” que, para além de carecerem de legitimidade democrática, nunca representaram nada nem ninguém.

O mais recente romance de Fernando Aramburu é, por isso, infelizmente oportuno. “Patria” acompanha a história de duas famílias separadas pelo medo e pela violência. Em cerca de 650 páginas, Aramburu abarca décadas de agressões, de gente subjugada, e fá-lo desde uma perspectiva pouco habitual: olhando para o quotidiano. O livro é um puzzle de ficção, cujas peças saíram de uma realidade dolente. O aparelho de repressão da ETA, os funerais, as tabernas onde se aprendia a odiar em conjunto, os arruaceiros e a cobardia são elementos que perpassam “Patria” do princípio ao fim, criando uma imagem tão impressionante como fidedigna. Em entrevista ao Babélia, o suplemento de cultura do El País, Fernando Aramburu afirma que a derrota literária da ETA continua pendente. Este livro é sem dúvida um valiosíssimo contributo para conseguir essa derrota e uma oportunidade para perceber que, durante décadas, houve na Europa das liberdades uma região agrilhoada por uma ditadura violenta e alimentada pelo ódio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Séries do ano (5) - 11.22.63

por Diogo Noivo, em 18.10.16

11.22.63.jpg

 

Tudo começou em Lisboa. Porque foi a capital portuguesa a dar o nome a uma pequena localidade no Maine, nos Estados Unidos da América. Porque no liceu dessa localidade estudou Stephen King, célebre escritor de ficção científica e de histórias de terror, autor de grandes êxitos literários, alguns dos quais adaptados ao cinema com igual sucesso, como The Shining, Carrie, Stand By Me, The Shawshank Redemption e The Green Mile. E finalmente porque King escolheu Lisbon, no Maine, como palco de abertura de 11.22.63.

Esta minissérie, uma adaptação televisiva do livro homónimo, conta a história de Jake Epping (interpretado por James Franco), um professor no liceu Lisbon Falls – a escola onde Stephen King estudou – que viaja no tempo para evitar o assassinato de John Fitzgerald Kennedy. Daí o título: Kennedy é morto, em Dallas, no dia 22 de Novembro de 1963.

Mas comecemos pelo princípio. Al Templeton (Chris Cooper) é o proprietário de um diner onde, num canto esconso, existe um armário que nos leva a 1960, concretamente ao dia 21 de Outubro. Para Al, evitar a morte de Kennedy permitirá, graças ao efeito borboleta, resolver todos os males contemporâneos dos Estados Unidos da América, o que, consequentemente, será uma mais-valia para o mundo. É uma ideia muito discutível, mas, como estamos no domínio da ficção científica, aceita-se. Existem, contudo, dois problemas. Em primeiro lugar, o passado não gosta de ser perturbado e resiste. Em segundo lugar, sempre que se regressa do passado ao presente, o mundo faz reset, tudo volta ao mesmo. Logo, para que as mudanças produzidas no passado tenham um efeito duradouro, o agente de mudança tem que se sacrificar, permanecendo no passado para sempre. Templeton fez a viagem, permaneceu vários anos na década de 1960, mas como o passado penaliza quem o tenta modificar, desenvolve um cancro agressivo que o impede de completar a missão. Convence então o seu amigo de longa data Jake Epping para o substituir e salvar a História. Jake mostra-se reticente, mas Al tem um argumento de peso: independentemente do tempo transcorrido no passado, 3 semanas ou 3 anos, no momento presente passarão apenas 2 minutos – a dinâmica das viagens no tempo, ao bom estilo de Stephen King, fica envolta em mistério.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Séries do ano (4) - Game of Thrones

por Diogo Noivo, em 11.10.16

game-of-thrones.jpg

 

Game of Thrones é o José Sócrates das séries de televisão. Não que seja uma série ensimesmada, irascível, de estrutura ética e comportamento duvidosos (embora isto caracterize boa parte dos personagens de Game of Thrones), mas porque apenas suscita amor e ódio. Não há meio-termo. Contudo, e ao contrário do que sucede no caso do antigo Primeiro-Ministro, quanto mais se vê Game of Thrones mais se gosta.

Fui dos que, após meses de resistência, se converteu – à série, porque a José Sócrates creio que nem sob o efeito de psicotrópicos. Numa primeira abordagem, a série reúne todos os ingredientes que detesto em ficção: ambiente medieval, dragões, armaduras, batalhas épicas, solípedes com fartura, e mais uns quantos artifícios que parecem ter saído da mente de um miúdo pré-adolescente. Vistos os primeiros episódios, desenganei-me e integrei as fileiras da legião de fãs. Game of Thrones é uma série muito bem pensada e escrita, bem produzida, extraordinariamente bem interpretada, e com uma capacidade de prender o espectador quase insuperável.

O universo de Game of Thrones faz-se de um conjunto de reinos e de famílias em competição pelo poder. São ameaçados por perigos externos cuja gravidade, bem vistas as coisas, depende quase em exclusivo da solidez interna de quem é ameaçado. Há guerras de sucessão, umas naturais, outras forçadas. As alianças são tão essenciais quanto voláteis, uma vez que tudo se resume às relações de poder entre as forças em jogo. Na arena política de Game of Thrones, todos sabem que quem pelo poder mata, pelo poder morrerá. É só uma questão de tempo. Abreviando, a série é uma alegoria perfeita da vida política. Sobretudo, da vida em política.

 

Os galardões talvez convençam os cépticos. Os prémios valem o que valem, é certo, mas uma série não se torna a mais premiada na história dos Emmy por mero acaso. Game of Thrones conta já com 38 estatuetas (destronou Frasier), das quais duas são de Melhor Drama Televisivo (conseguidas em 2015 e 2016). Nesta categoria, o recorde está nas quatro estatuetas, um feito alcançado pelas séries Hill Street Blues/Balada de Hill Street, Mad Men e West Wing/Os Homens do Presidente. Game of Thrones tem mais duas temporadas previstas, logo ainda tem possibilidade de entrar nesta galeria de luxo. Caso o palmarés não chegue para persuadir os resistentes, olhemos então para avaliação dada pelas principais plataformas de televisão e cinema: a IMDb atribui à série uma pontuação de 9.5 em 10; a Rotten Tomatos fixa a apreciação em 94%.

A sétima temporada, que estreará no Verão do próximo ano, e a oitava e última temporada serão mais curtas do que as anteriores, com, respectivamente, sete e seis episódios (as temporadas anteriores contaram com 10). Com o fim anunciado, a HBO, a produtora de Game of Thrones, já apresentou uma sucessora: Westworld. Apesar da nova aposta ter argumentos de peso, como Jonathan Nolan (criador de Person of Interest, co-autor dos filmes Memento, The Dark Knight, The Dark Knight Rises e de Interstellar), Anthony Hopkins, Ed Harris e Sidse Babett Knudsen (actriz protagonista na magnífica série dinamarquesa Borgen), não será fácil replicar o fenómeno de audiências e de lealdade dos espectadores a uma série conseguido por Game of Thrones.

Autoria e outros dados (tags, etc)

teamguterres.jpg

 

Para aqueles que vivem isolados de formas de vida pubescentes, uma breve nota prévia: o fenómeno Twilight consiste numa saga livresca adaptada ao cinema cuja história, em traços gerais (aqueles que a saga merece), se resume a um jovem vampiro e a um jovem lobisomem que se digladiam pelo coração de uma rapariga apática e sem graça nenhuma. Foi um fenómeno de audiências intenso e à escala planetária. A legião de meninas adolescentes que acompanharam a saga divide-se, portanto, em dois bandos: a Team Edward, que torce pelas ambições amorosas do vampiro; e a Team Jacob, que apoia os sonhos românticos do lobisomem. Ambos os bandos são de um fanatismo implacável, onde qualquer concessão ao adversário é entendida como uma traição imperdoável. Foi dos fenómenos populares mais profundamente imbecis dos últimos vinte anos.

 

O processo de selecção para o cargo de Secretário-Geral da ONU foi uma espécie de Twilight dos crescidos e, finda a saga, parece que ganhou a Team Guterres. Julgo ser um bom desfecho. António Guterres tem um perfil mais do que adequado ao desempenho da função em apreço. As suas prestações nas diversas rondas de avaliação foram quase sempre notáveis e, gostando-se ou não, a verdade é que António Guterres não só domina tecnicamente os assuntos, como demonstrou ter pensamento próprio sobre o sistema das Nações Unidas. Foi um excelente candidato, merecedor de todos os louvores. E, claro, como somos portugueses, ficamos sempre muito satisfeitos quando um patrício singra no estrangeiro.

 

Porém, apesar de meses de paixões arrebatadas e de críticas encarniçadas, nenhum apoiante ou detractor se deu ao trabalho de explicar a importância do cargo ao qual António Guterres era candidato. Tal como a saga Twilight ignorou por completo o folclore e a tradição literária do género, de Bram Stoker a Alexandre Dumas, passando por Oscar Wilde ou Robert Lewis Stevenson, o debate sobre a eleição de um novo Secretário-Geral da ONU ignorou, pelo menos em Portugal, temas prementes como a reforma do sistema da ONU, a representatividade do Conselho de Segurança, os procedimentos da Assembleia Geral, os limites da polémica R2P, as sérias debilidades das missões de 'Peacekeeping', entre outros assuntos. No espaço público português, este processo foi um deserto onde as ideias foram obliteradas pelas emoções. E agora que a vitória de António Guterres é um facto, a Team Guterres, embevecida, insiste no tom de candura juvenil e disparatada, defendendo que, por exemplo, a eleição deste nosso compatriota é na verdade um reconhecimento da enorme relevância de Portugal no mundo. Se a racionalidade não acompanhou o processo de selecção, agora que temos novo Secretário-Geral o registo do debate público continua pobre e fanático. Mas enfim, o que interessa é que o nosso galã ganhou. E, já agora, a miúda dele é muito mais gira do que aquele pãozinho sem sal dos filmes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Séries do ano (3) - The Night Of

por Diogo Noivo, em 04.10.16

TheNightOf.jpg

 

“Quando vamos ao cinema levantamos a cabeça; quando vemos televisão, baixamo-la”. Longe vão os tempos em que este aforismo de Jean-Luc Godard fazia algum sentido. A série The Night Of demonstra-o.

The Night Of é uma boa história, contada com calma. O ritmo da acção, que à primeira vista parecerá um convite à narcolepsia, é na verdade um dos aspectos mais fortes da série. O tempo que o formato televisivo oferece, e que falta ao cinema, pelo menos ao comercial, é aproveitado para construir personagens sólidas, para dar profundidade à história, para obrigar o espectador a pensar. 

O primeiro episódio dá-nos um homicídio com um suspeito mais do que provável. A partir daí, The Night Of centra-se na investigação do crime e sobretudo na defesa em tribunal do alegado criminoso, um jovem universitário de ascendência paquistanesa (interpretado por Riz Ahmed). O advogado de defesa, John Stone (uma interpretação brilhante de John Turturro), é uma figura burlesca, ainda que surpreendentemente verosímil, pouco habituada a casos desta envergadura. O papel foi inicialmente pensado para James Gandolfini, o actor principal em The Sopranos, de quem aliás partiu a ideia de fazer esta adaptação da série britânica Criminal Justice. Gandolfini chegou a filmar o episódio piloto, mas o destino interveio e este gigante morreu, vítima de um ataque cardíaco. A HBO pegou então no projecto e decidiu homenagear James Gandolfini atribuindo-lhe os créditos de produtor executivo a título póstumo.

 

Ao não ter pressa em desenrolar a acção, The Night Of permite-se criar e explorar um conjunto de pormenores simbólicos que, como todos os pormenores, são essenciais. Um deles, e para dar um exemplo, remeteu-me para “Burmese Days”, o primeiro livro escrito por George Orwell. O protagonista, John Flory, tem um sinal de nascimento na cara, uma mancha semelhante a uma equimose, que lhe cobre quase todo o lado esquerdo do rosto. É causa de timidez, de auto-repulsa. Quando Flory morre, a mancha desaparece, um fenómeno que Orwell usou para afirmar que a solidão, a dor e os pecados morrem com o corpo. O advogado de defesa em The Night Of não morre (perdoem-me o spoiler, prometo que não há mais), mas o eczema do qual padece serve um propósito narrativo semelhante ao usado por George Orwell.

A crítica recebeu The Night Of com louvores desmedidos e, desta vez, teve razão. A história é boa e bem contada, a fotografia é magistral (muito superior ao que se tem visto no cinema) e as interpretações são na sua maioria irrepreensíveis. Uma série a não perder.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Anatomia de uma hecatombe

por Diogo Noivo, em 03.10.16

PedroSanchez.jpg

 

A pressão exercida pelos barões socialistas forçou Pedro Sánchez a demitir-se das funções de secretário-geral do Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE). Esta não é a verdade dos factos, mas é a verdade para alguma imprensa portuguesa. Vamos por partes.

No dia 20 de Dezembro de 2015, o PSOE, capitaneado por Pedro Sánchez, obteve o seu pior resultado eleitoral de sempre em eleições legislativas, o resultado mais baixo desde 1977. Deste acto eleitoral não saiu um governo e, como tal, foi necessário repetir eleições. No dia 26 de Junho de 2016 os espanhóis voltaram às urnas e o PSOE bate o seu próprio recorde: perdeu 5 deputados e cerca de 156 mil votos. Nova derrota histórica. O seu adversário directo, o Partido Popular (PP), reforçou a vitória obtida em Dezembro, conseguindo mais votos (aproximadamente mais 600 mil) e mandatos (mais 14), isto apesar de ser a força política associada à austeridade, à subserviência a Bruxelas e, pior, a casos de corrupção e de branqueamento de capitais. Por outras palavras, mais do que uma derrota histórica, o resultado dos socialistas a 26 de Junho de 2016 foi uma humilhação sem paliativos.

No plano local o cenário não é mais ameno. Nas eleições celebradas recentemente na Galiza e no País Basco, o grande derrotado foi o PSOE. Na Galiza perdeu 5 mandatos, na Euskadi perdeu 7 mandatos e 40% dos votos, e em ambas é ultrapassado pelo Podemos. Importa recordar que, entre 2009 e 2012, o PSOE governou o País Basco.

Em suma, associando os resultados nacionais aos resultados locais, o PSOE foi de derrota histórica em derrota histórica até uma cada vez mais provável irrelevância final. Pedro Sánchez pegou num partido com vocação de governo, uma força política fundamental no processo de consolidação da democracia em Espanha, e levou-o à beira da irrelevância. No entanto, nada disto foi suficiente para que Sánchez assumisse publicamente quaisquer responsabilidades. A este rosário deprimente há ainda que somar episódios pouco edificantes como, por exemplo, o “Comando Luena”: César Luena, braço direito de Sánchez, organizou uma ‘tropa de choque’ para, nas redes sociais, denegrir e insultar todos aqueles que ousavam criticar a direcção socialista. Ou seja, derrotados nas urnas e totalitários na gestão interna do partido.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A polícia ou o absentismo escolar?

por Diogo Noivo, em 01.10.16

EstacaoCP.jpg

Sublime reflexão de parede - estação ferroviária da linha de Sintra

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Do princípio ao fim (6)

por Diogo Noivo, em 28.09.16

“A raíz del regicidio del 1 de febrero, última escena trágica de la historia de Portugal, que es, siglos hace, un continuado naufragio, pudieron algunos creer que iba a cambiar el rumbo de su vida pública. No los que lo conocen. Aquel acto, tal vez justiciero, en todo caso fatal, fue de una justicia, de una fatalidad anárquicas.”

Miguel de Unamuno, “Desde Portugal”, Julho de 1908

Ensaio reunido no livro Por tierras de Portugal y de España (Alianza Editorial, 2014)

 

PorTierrasdePortugalyEspana.jpg

Miguel de Unamuno, filósofo espanhol, um dos mais importantes da Geração de 98, viveu apaixonado por Portugal. Não era uma paixão cega, acrítica. A admiração e o fascínio iam quase sempre de mão dada com a exasperação.

Insuspeito de simpatias com a monarquia, Unamuno foi prudente – se não desconfiado – com o advento da república portuguesa. Muito poderia ser escrito a este respeito. Aqui, registo apenas a solidez e a seriedade intelectual de alguém que, não gostando da monarquia, recusou entregar-se nos braços do republicanismo português. Para este autor, a política, que se quer séria e importante, não se coaduna com lógicas de barricada. Em Miguel de Unamuno, a paixão por Portugal foi o motor de um espírito crítico sem concessões, de uma cidadania activa e comprometida vinda de alguém que, não sendo português, foi mais exigente com a pátria do que muitos dos seus contemporâneos lusos.

No ensaio “Desde Portugal”, cujo primeiro parágrafo aqui cito, após deambular pelas páginas de Oliveira Martins, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, entre outros, conclui que o pessimismo endémico dos portugueses resulta da apatia, “una apatia que produce a veces arranques de furia”. Normalmente mal direccionados, claro. Pouco terá mudado em Portugal.

Mais adiante, Unamuno arremete contra a pseudociência progressista e “pedante” das classes médias dirigentes, deslumbradas com trivialidades vindas do estrangeiro. Isto é, se fosse ressuscitado e voltasse a Portugal, Miguel de Unamuno não estranharia, por exemplo, as certezas dos economistas que fazem carreira no PS, no Bloco de Esquerda e na direita que gostava de ser liberal.

No parágrafo que abre este texto, o intelectual espanhol vê o regicídio como um acto de uma justiça e fatalidade anárquicas. No final do ensaio, Unamuno remata o assunto atestando que em Portugal, como na Galiza, pode “florecer el anarquismo, pero no el sentimiento de liberdad. Y la anarquia es la servidumbre”. Volvidos mais de cem anos, tudo está na mesma.

Abreviando bastante, uma das principais conclusões a retirar da leitura de “Desde Portugal” no início deste século XXI é que o país é dono de uma coerência estóica. A pele rija do carácter nacional é imune à passagem do tempo e, sobretudo, à aprendizagem que advém da experiência. É verdade que muito mudou. A alfabetização é quase total, a tecnologia superou a barreira da imaginação, a esperança média de vida aumenta. Mas o país é o mesmo. Sem tirar nem pôr.

Enfim, e honrando o propósito desta série que agora fazemos no DELITO, está tudo no primeiro parágrafo do ensaio: a paixão sofredora por Portugal; o espírito crítico; o acontecimento que serve de mote para perscrutar o carácter nacional; o fado imutável do naufrágio histórico.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D