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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 22.01.17

Por razões estritamente pessoais que agora não vêm ao caso, tenho andado um pouco afastada dos blogues e, por isso, são muito poucos os que continuo de facto a acompanhar com regularidade.

Assim, deixo como sugestão um blogue que provavelmente já aqui mencionei, o Fio de Prumo e tenho para isso muitas razões: a primeira é que a sua autora, que também faz parte do grupo do DO, é uma pessoas de quem gosto muito, cuja amizade foi um daqueles presentes que a vida nos traz de forma inesperada e com quem, concordando ou discordando, se pode sempre aprender uma maneira de levar a vida com força, com garra e com boa disposição. E depois, gosto do seu modo despretensioso e genuíno de dizer o que muito bem entende, sem preocupações do que "fica bem", ou do que é apropriado, sem nunca ultrapassar os limites da educação e da decência.

Posso até parecer suspeita, eu sei, mas a verdade é que leio sempre HSC com muito prazer. E gosto do seu sentido de humor, tão importante numa altura em que toda a gente parece sempre mais ou menos zangada com a vida.

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Ladaínha dos Póstumos Natais

por Isabel Mouzinho, em 25.12.16

Há-de vir um Natal e será o primeiro 

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

 

                                                David Mourão-Ferreira

 

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Histórias de Lisboa (V)

por Isabel Mouzinho, em 30.11.16

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 Senhora do Monte

 

Foi, durante muito tempo, o meu lugar de eleição. Lá do alto, com a cidade a meus pés, olhei-a deslumbrada horas a fio e pude assistir muitas vezes ao cair da noite ou ao nascer do dia, vendo Lisboa a clarear ou a escurecer, transformando-se devagar em sons, cor e movimento, ou em repouso e quietude.

Ali, troquei beijos apaixonados, namorei ao luar, chorei a desilusão de amores breves que acreditara serem eternos, ou procurei refúgio para, em silêncio e solidão, de olhos perdidos no horizonte e pensamentos à solta, tomar decisões sérias, pensar na vida, sonhar.

Na verdade, há neste ponto alto do bairro da Graça, talvez até o mais alto da cidade, uma magia qualquer que faz dele um lugar meio feérico, quase irreal, suspenso no tempo e no espaço. 

Consta que foi este o local onde D. Afonso Henriques instalou o seu acampamento para conquistar a cidade. Na ermida de Nossa Senhora do Monte, fundada em 1147, dedicada a São Gens, um bispo mártir, encontra-se a cadeira de pedra que lhe terá pertencido e, segundo a lenda, se uma grávida se sentar nela terá um parto sem complicações. Mas, lendas e tradições à parte, é sobretudo a vista que nos seduz, por mais que a conheçamos. E, para mim, o Miradouro da Senhora do Monte será sempre muito mais que a melhor panorâmica de Lisboa. 

Hoje, quando regresso,  - agora que o visito bem menos amiúde -, não encontro já o sossego e o encanto de quando eu tinha vinte anos, pois tornou-se ponto turístico obrigatório, com alarido e euforia em excesso e selfies garantidas. É quase como se aquele "meu" lugar fosse agora do mundo inteiro. E, no entanto, tem ainda qualquer coisa que me toca, me enternece, me enfeitiça, que me faz espantar de tanta beleza, e gostar muito de ser daqui.

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Delito à Mesa (5)

por Isabel Mouzinho, em 26.11.16

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Chiringuito 

 

Em espanhol designa um bar de praia, lugar de bebidas frescas e comidas simples e rápidas. Nada a ver, portanto, com este lugar lisboeta que aqui menciono. O que o Chiringuito tem de especial é a conjugação feliz de diversos factores:

O espaço, em primeiro lugar. São duas salas distintas, ambas arranjadas com cuidado e extremo bom gosto, num lugar que  antes funcionara como padaria. A sala que fica junto da rua tem uma decoração ligeiramente  mais informal, enquanto a segunda, mais espaçosa e conhecida como "a fábrica" ainda em alusão ao anterior espaço da padaria, com móveis antigos e louças do tempo das nossas avós, conjuga na perfeição o antigo e o moderno e faz lembrar a sala de jantar de uma família numerosa.

Depois, há a comida propriamente dita, entre o tradicional, alentejano e o espanhol andaluz, que é muito o leitmotiv do conceito subjacente e faz deste restaurante um espaço profundamente ibérico, misto de casa de petiscos e bar de tapas, como de resto é designado.

Das entradas às sobremesas, é tudo de "comer e chorar por mais", numa carta onde se podem encontrar algumas especialidades típicas de ambos os lados da fronteira: há as "puntillitas" e os "tintos de verano", os secretos de porco preto e os peixinhos da horta, as "patatas ali oli" e  as farófias, entre muitas outras delícias, em clara e subtil demonstração de que é muito mais o que nos aproxima do que o que nos distingue.

A acrescentar a tudo isto há ainda os preços muitíssimos acessíveis e a simpatia com que somos recebidos. O Chiringuito é um negócio familiar e isso sente-se no trato e no ambiente que se respira. No fundo, é quase como se jantássemos na sala da casa de uns amigos. Por isso saímos  claramente satisfeitos e com vontade de voltar muitas vezes.

Falta dizer que fica em Campo de Ourique, na rua Correia Teles, e que ao Domingo há  buffet de cozido ao almoço. 

Por fim, tenho que fazer uma confissão: é que posso ser considerada relativamente suspeita, uma vez que tenho pela família que está à frente do Chiringuito grande consideração e um afecto profundo, que é já antigo.

Mas estive em várias ocasiões no restaurante e quem me acompanhava, de todas as vezes, gostou tanto como eu. Este é pois, por agora, um dos meus lugares favoritos de Lisboa para estar à volta de uma mesa, com amigos, em ambiente agradável e descontraído, o que constitui, quanto a mim, um dos maiores prazeres da vida.

Ora vejam as fotografias... E depois passem por lá para comprovar se eu tenho ou não razão...

 

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Histórias de Lisboa (IV)

por Isabel Mouzinho, em 06.11.16

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Rua Passos Manuel

 

Na rua de baixo cabe o mundo inteiro. Há o Jardim Constantino e o restaurante "Vaskus", de portas vermelhas e toalhas de quadrados, que já existe há pelo menos trinta anos. E continua quase igual. Esta é, sem dúvida, uma rua singular, onde encontramos de tudo um pouco: a loja de artigos ortopédicos e a sexshop, a Igreja Evangélica ao lado da Livraria "Assírio e Alvim", a mercearia antiga e o cabeleireiro "Pura Vaidade", o VivaFit mesmo antes  do alfaiate, o "Mundo dos pneus" e a papelaria, o Hotel e o Externato, a Boulangerie Costes em frente do atendimento social da Junta de Freguesia de Arroios, a Farmácia, a venda de velharias e a loja de artigos eléctricos, entre tantos outros pequenos comércios de bairro.

Na rua Passos Manuel misturam-se as línguas, as raças e as nacionalidades numa coexistência pacífica que é o paradigma da nova Lisboa, moderna e antiga, bairrista e cosmopolita, retrógrada e arrojada, caótica e encantadora, cheia de luz, de vozes e de vida. Mas é também esta miscelânea que faz de Lisboa uma das mais fascinantes cidades que conheço, que, apesar do caos actual em que a deixam as obras do Medina, me seduz e apaixona todos os dias.

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Do princípio ao fim (22)

por Isabel Mouzinho, em 14.10.16

Eu devia ter  mais ou menos dezassete anos e já não sei como aconteceu, nessa altura, ler l' Étranger pela primeira vez. Fi-lo sem saber bem que era Albert Camus, movida apenas pelo fascínio que a doce musicalidade da língua francesa exercia em mim  e, talvez, também, pela vontade de ler um livro de "gente crescida" nessa língua de que tanto gostava.

E o primeiro contacto com a obra, a estranheza que aquela leitura me causou, que era ao mesmo tempo incómodo e apego, foi para mim de uma importância determinante. Por isso nunca mais pude esquecer o seu início, tão forte quanto perturbador: Aujourd'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas.  Nem Meursault,  taciturno e enigmático, "estrangeiro" face ao mundo e a si mesmo, absolutamente bizarro na sua aparente indiferença.

Depois, quis conhecer outros livros e outros autores, escolhi estudar Literatura, e só meia dúzia de anos mais tarde percebi a importância de Camus e como esta era uma das obras fundamentais do século XX, de cujo incipit me voltei a lembrar muitas vezes, nas mais diversas circunstâncias.

Hoje, muitos anos depois, acho que não exagero ao considerar que esta leitura contribuiu também para aprofundar a paixão das palavras, que trago comigo desde sempre. E para perceber como elas são indispensáveis e essenciais à nossa existência, na sua relação com o silêncio, na distância que as separa do que dizem e também em tudo o que não conseguem dizer. E descobrir, ainda melhor, como  a leitura e a escrita podem ser um inefável e imenso prazer, como nos fazem descer ao mais fundo de nós e nos proporcionam o alargamento de olhares sobre o mundo, em muitas visões que se cruzam, se entrelaçam, se confundem e coexistem. 

Para além deste, muitos outros começos me marcaram; e tive ainda, além disso, a sorte  - que foi também privilégio - de ter a melhor de todas as professoras - Maria Alzira Seixo -  com quem aprendi que "a literatura não resgata o mundo, mas ajuda a compreendê-lo e a suportá-lo" e pode ser determinante na forma como lemos, como escrevemos, como pensamos e como vivemos.

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Histórias de Lisboa (3)

por Isabel Mouzinho, em 07.09.16

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Avenidas Novas

 

O bairro onde vivi os primeiros vinte anos da minha vida é, inexplicavelmente, um lugar por onde nunca passo sem ter a sensação de estar "em casa", mesmo quando na minha cabeça ecoam, às vezes, velhas canções: ( quand au hasard des jours/ je m'en vais faire un tour/ à mon ancienne adresse/ je ne reconnais plus/ ni les murs, ni les rues/ qui ont vu ma jeunesse). 

É verdade que o bairro é hoje muito diferente do que era naquele tempo, mais incaracterístico, talvez, muitos serviços e um pouco menos de alma. O nosso prédio, de azulejos verdes e brancos, foi substituído por um moderno edifício de vidro e ferro e a muitos outros, quase todos, aconteceram coisas semelhantes. Os cafés e as lojas já não são os mesmos, o padeiro e o leiteiro já não vêm de porta em porta, nem há eléctricos a passar dia e noite; já não há o Val do Rio, nem a drogaria, nem a sapataria na esquina, ou o Alberto confecções.

Hoje, a loja das tintas, na esquina com a Duque d'Ávila, é a Livraria Pó dos Livros e a pastelaria Colombo, na Avenida da República, transformou-se em Mcdonald's.

E, no entanto, apesar de toda estas mudanças que são um natural sinal dos tempos, há no meu antigo bairro pequenos detalhes que parecem tê-lo mantido de certo modo imune à passagem do tempo. Lá continua sempre igual a Versailles, até há pouco lugar obrigatório dos lanches de Domingo com a minha mãe, apesar de nem eu nem ela vivermos na zona, como se mantém igual o Colégio Académico (a "escola dos alunos burros", dizia-se na época), ou a Charcutaria Dava, mesmo ao lado da Pérola do Chaimite, com aquele magnífico cheiro a café, que são agora as únicas reminiscências de um tempo que  não volta.

Entretanto passei por outros lugares, gostei de uns mais do que de outros e, aos poucos, começo a afeiçoar-me também ao meu novo bairro, que não fica muito longe. Mas este será sempre um lugar que sinto como meu, que me pertence, a que pertenço.

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Histórias de Lisboa (2)

por Isabel Mouzinho, em 25.08.16

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 Baixa-Chiado

 

É o coração de Lisboa e por isso fervilha de gente e de vida, ainda mais agora, que a cidade está na moda e para os turistas é ponto de passagem obrigatório.

A mim, a Baixa traz-me sempre de algum modo a infância de volta. Não passo por lá nunca sem evocar o tempo em que ir à Baixa significava visita à casa dos avós, ou a excitação das compras,  que incluía uma voltinha obrigatória nas escadas rolantes do Grandella, -  o cheiro peculiar das lojas de tecidos, o sabor inigualável dos batidos de morango da Ferrari.

Houve depois, nos anos 80, aquele terrível Agosto em que acordámos em sobressalto com o barulho das sirenes dos bombeiros e a notícia do Chiado em chamas. Nessa manhã, fui até ao Miradouro da Senhora do Monte e, mesmo só ao longe, ao vê-lo assim, a ser destruído por aquele fogo que parecia imparável, até chorei. Parecia que uma parte da história da nossa vida se apagava também no incêndio. E, de facto, durante anos, o Chiado manteve-se lúgubre, triste e quase morto, mas renasceu das cinzas e readquiriu uma nova pujança. 

A Baixa-Chiado é agora uma outra Lisboa, mais moderna e cosmopolita, mas não menos encantadora. Continuam a seduzir-me as ruas estreitas, o Tejo a espreitar em cada volta de esquina, a boémia e a tradição, como se em cada recanto houvesse ainda ecos dos pregões das varinas e a todo o momento pudesse começar a ouvir-se um fado à desgarrada.

Hoje, há o Santini e a Vida Portuguesa, as esplanadas e os terraços, um certo ar de férias. Hoje, por motivos diferentes, ou talvez não - no fundo são quase os mesmos - continuo a gostar de ir passear à Baixa, de caminhar sem destino na preguiça e na alegria de quem descobre a cidade como se a visse pela primeira vez.

E em Agosto, apesar dos turistas, ela parece um pouco mais lenta do que no resto do ano, espreguiçando-se languidamente no calor das tardes, embalada ao de leve na brisa do fim do dia, entre gaivotas e maresia, sob o olhar plácido e enamorado do rio, com quem vive de mão dada.

 

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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 14.08.16

Por falta de tempo, e várias outras razões, são muito poucos os blogues que sigo com regularidade e atenção. Por isso, nunca me é muito fácil escolher um para recomendar. Mas, desta vez, não pensei muito: a minha escolha vai para  pinta-amores, pela sua espontaneidade e despretensão, duas qualidades que muito aprecio.

Trata-se um blogue que quase não tem texto e apenas recolhe inscrições emocionais anunciadas ao mundo, em muros, em estradas e caminhos, em sinais de trânsito, em postes e outras inimagináveis superfícies. São confissões, desabafos, pedidos, declarações, explosões de afecto, que estão por toda a parte, para toda a gente ver, como uma espécie de grito. Sempre a propósito do amor. E não é o que há de maior e melhor na vida?

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Histórias de Lisboa

por Isabel Mouzinho, em 05.08.16

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 Avenida Guerra Junqueiro

 

Houve um tempo em que a Avenida de Roma e circundantes, ou os Bairros de Areeiro e Alvalade eram uma zona nobre da cidade, onde se destacava a Avenida Guerra Junqueiro como um lugar chic de compras, com as lojas e os cafés a transbordar, sempre cheia de movimento e de vida.

Hoje, é apenas uma sombra do que foi, um lugar deserto onde parece não se passar quase nada, e a agitação de outrora partiu definitivamente para outras paragens. Muitos cafés fecharam ou transformaram-se em bancos, e até a Mexicana, com a remodelação, perdeu o prestígio e a popularidade de épocas passadas. A maior parte das lojas de roupa deu lugar a lojas de decoração onde não entra ninguém e o silêncio em que mergulha agora a avenida pesa e incomoda. Só os edifícios mantêm a imponência de antes, mas é poucochinho em relação ao que já foi.

No fundo, tudo isto deverá fazer parte da dinâmica da cidade em permanente mutação: há zonas que envelhecem e quase morrem, enquanto outras renascem e crescem.

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"Está vento, assim custa..."

por Isabel Mouzinho, em 26.05.16

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Todas as raparigas da minha geração têm a Anita como uma referência da sua infância. Pelo "Observador", soube que estes livros, que tanto contribuíram para desenvolver o nosso gosto pela leitura, comemoraram há dois dias 50 anos de publicação em Portugal.

Em minha casa não chegámos a ter a colecção inteira, mas havia aqueles que não podiam faltar: A "Anita dona de casa", desde logo, que era o primeiro volume, mas também a "Anita Mamã", a "Anita no ballet" ou a "Anita vai às compras".

Lembro-me de ir à Feira do Livro todos os anos, quando ela era ainda na Avenida da Liberdade, e de me deter longamente em bicos de pés junto da barraca amarela da Verbo Editora, a escolher, com critério e minúcia, um novo título (só podíamos comprar um). Lembro-me, também, de frases inteiras de alguns livros, que repetia com a minha irmã nas mais diversas circunstâncias, e que ainda hoje são uma espécie de "private joke" entre nós.

Muitos vieram depois considerar que o conteúdo destas histórias era demasiado conservador e veiculava uma visão da vida um pouco machista, o que na verdade me parece um exagero. Para nós, as histórias da Anita eram a mistura perfeita de ilusão e realidade quotidiana. Isso explica, talvez, o seu sucesso, que se prolongou por várias décadas. Estes são os primeiros livros que me lembro de ter lido. E relido muitas vezes, durante anos, até quase os saber de cor. 

Só quando já depois dos vinte anos deixámos a grande casa familiar da Conde Valbom é que eles desapareceram fisicamente da(s) nossa(s) casa(s). Acho que não guardei nenhum, a não ser na memória, onde ainda se conservam todos, intactos na sua pureza e simplicidade pueril, de onde às vezes regressam por uma palavra, uma frase, um desenho, e de onde espero que não desapareçam nunca por uma daquelas fatalidades que atiram tudo o que vivemos para o vazio do esquecimento.

Recentemente mudaram-lhe o nome e, sob nova editora, rebaptizaram-na, chamando-lhe Martine para a aproximar do original belga.

Mas para mim e para todas as que, como eu, cresceram com ela, será sempre a Anita, companheira de brincadeiras, descobertas, aventuras.

E hoje, que (re)começa a Feira  - agora no Parque Eduardo VII, onde ficará cerca de duas semanas -, lá voltarei uma vez mais, já não à procura de mais um livro da Anita, mas de outras leituras que, espero, me farão,  de igual modo, um pouco mais feliz. 

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Fora de Série (8)

por Isabel Mouzinho, em 22.05.16

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Quando eu era pequena não tinha autorização para passar muito tempo em frente da televisão. Talvez por isso, tudo o que via exercia sobre mim um especial fascínio. Foi assim que, durante muito tempo, me diverti com as peripécias de Samatha, a "feiticeira" e com os seus trejeitos de nariz que serviam para arrumar a casa ou resolver as mais insólitas situações, diante da perplexidade de um marido desajeitado, que fingia não entender os seus poderes especiais.

Mais tarde, ainda antes de me perder de amores pelos olhos verdes do Jean-Loup, de "Os Pequenos Vagabundos", a série de culto que na época fazia suspirar todas as meninas acabadinhas de entrar na adolescência, eu quis ser como a Pipi das Meias Altas, aquela miúda ruiva, sardenta, de tranças muito espetadas, que vivia sozinha com um cavalo e um macaco, que se pendurava nas árvores e fazia mil diabruras, numa irreverência que parecia não ter limites, permitindo-se quebrar todas as regras, e sair-se sempre bem.

A série, - um original sueco, feita a partir de três livros de literatura infanto-juvenil de Astrid Lindgren,- que acompanhei com paixão, misturava liberdade, aventura e brincadeira, num mundo onde tudo parecia permitido. A Pipi era uma personagem a meio caminho entre a realidade e a ficção, uma rapariga como nós e ao mesmo tempo muito diferente, que alimentava o nosso imaginário infantil num tempo em que a televisão ainda era só a preto e branco.

E lembro-me, vagamente, da desilusão que senti quando a actriz que fazia de Pipi na série passou por Lisboa e, vista assim, sem tranças e sem a habitual caracterização, me pareceu afinal uma rapariga como as outras.

Há pouco tempo voltei a ver uma fotografia de Inger Nilsson, que tem agora 56 anos. Nem parecia a mesma. A verdade é que já passaram alguns anos e o tempo deixa marcas em todos nós. Mas, ainda que os tempos sejam outros e muita coisa seja diferente, há determinadas vivências, típicas da adolescência, que não mudam nunca; e há séries que nos marcam para sempre.

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Dois anos sem o Vasco

por Isabel Mouzinho, em 27.04.16

O Acordo é uma barbaridade, feita inconsiderada e precipitadamente, mantida por obstinação e teimosia, e conducente a um resultado exactamente oposto ao pretendido.

 

(Entrevista ao Expresso. 26.05.2012)

 

Foi neste dia, há dois anos, que o "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamaram, nos deixou. É sempre cedo demais para ver partir aqueles de quem gostamos, porque mesmo que nos fiquem as palavras e as lembranças, sobra a saudade e um grande buraco vazio que não pode preencher-se.

Hoje, fará muita falta à sua família e amigos mais chegados, naturalmente, mas também ao país e ao mundo; e, acima de tudo, faz falta à língua portuguesa, que tanto e tão bem defendeu, e cuja luta é agora quase só ausência e esquecimento, encolher de ombros, deixar andar.

Ah, a falta que o Vasco (nos) faz...

 

O suporte da música pode ser  a relação

entre um homem e uma mulher, a pauta

dos seus gestos tocando-se, ou dos seus

olhares encontrando-se, ou das suas


vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,

ou dos seus obscuros sinais de entendimento,

crescendo como trepadeiras entre eles.

O suporte da música pode ser uma apetência


dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se

ramifica entre os timbres, os perfumes,

mas é também um ritmo interior, uma parcela

do cosmos, e eles sabem-no, perpassando


por uns frágeis momentos, concentrando

num ponto minúsculo, intensamente luminoso,

que a música, desvendando-se, desdobra,

entre conhecimento e cúmplice harmonia.

 

                                                                 (Vasco Graça Moura)

 

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Um Ministro Poeta

por Isabel Mouzinho, em 12.04.16

Sou tudo menos socialista, já se sabe. Mas ter um poeta como Ministro da Cultura, parece-me bem, confesso. Porque terá, pelo menos, um peculiar entendimento das coisas, uma sensibilidade maior. E isso é muito importante.

De Luís Filipe Castro Mendes conheço pouco. Mas à esquerda e à direita todos lhe tecem os maiores louvores. Segundo a minha amiga Helena, que o conhece bem, (...) iremos ter como Ministro da Cultura um homem muito inteligente, muito culto, e cuja profissão de origem, a diplomacia, lhe permitiu correr mundo e contactar com culturas muito diversas.

Humanamente é um homem caloroso, cujo olhar sereno mas directo só pode tranquilizar aqueles que, na área que vai conduzir, ponham parte do destino profissional nas suas mãos.

A Helena tem certamente razão. Há uns três anos estive no lançamento de um livro do futuro Ministro e gostei muito. Pude testemunhar a serenidade calorosa de que fala a Helena e tocou-me sobretudo a simplicidade com que pegou no seu livro e leu alguns poemas, que é no fundo a melhor maneira de os apresentar.

Vamos ver como se sai na política, mas lá que promete, disso não restam dúvidas...

 

Para a solidão nascemos. Outras vozes

nos chamam e invocam, outros corpos

se perfilam radiosos contra a noite.

Nós não somos daqui. Num intervalo

de campanhas esquecidas nos dizemos,

abrindo o coração aos de passagem.

Mas quando a manhã chega nós partimos,

mais livre o coração, longa a viagem.

 

                                                          (Luís Filipe Castro Mendes)

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Boas iniciativas

por Isabel Mouzinho, em 23.03.16

Já foi há dois dias, mas a iniciativa pareceu-me interessante e original. Para comemorar o Dia Mundial da Poesia, alunos da Escola Profissional de Teatro de Cascais prepararam uma surpresa aos passageiros do comboio da linha, percorrendo as carruagens do comboio da manhã, ou permanecendo nas estações, a declamar poemas, a distribuir livros gratuitamente e, acima de tudo, a divulgar a poesia de autores portugueses, tantas vezes tão injustamente esquecida. E chamaram-lhe "O comboio da poesia", que é também um bonito nome.

 

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Março

por Isabel Mouzinho, em 29.02.16

Quando chega Março, tudo muda. Março sabe-me sempre a princípio. Escreve-se com M de Mouzinho e de Mãe. E, também por isso, Março é meu. É o mês que me viu nascer e é o mês da Primavera. É azul, como o céu e o mar. Traz consigo muita luz, cor e festa. E a serenidade da brisa da tarde, na claridade que mansamente se prolonga, que cresce um pouco mais dia após dia, encurtando a noite.

É o esplendor da natureza a renascer em efusiva e contagiante ostentação. São perfumes de flores e cheiros frescos e intensos, sentidos despertos que facilmente se deixam inebriar, pele que se destapa, vontade de passear ao sol.

E é o som do canto dos pássaros, o melro preto de bico muito amarelo que me visita todas as manhãs, e os chilreios na minha varanda ao amanhecer, para anunciar o nascimento de mais um dia.

Março convida ao amor e à ousadia, revitaliza a alma e traz boa disposição em doses reforçadas, a cada novo despertar. Em Março volto sempre a nascer, em alegria, força, energia e vontade. Porque, tal como na canção, é  promessa de vida no meu coração.

 

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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 21.02.16

Não é uma sugestão muito original, mas é boa. Já foi, certamente, muito referido por aqui. Mas, ainda assim, o blogue que quero recomendar esta semana é o do Pedro Rolo Duarte. E explico porquê: não conheço o Pedro pessoalmente, apesar de já nos termos cruzado muitas vezes, e de ter até chegado a participar num programa de rádio da sua autoria, nos anos 80, que se chamava "Só com gelo" e de que eu gostava muito. Comecei a lê-lo ainda antes disso, nos tempos do "Sete". Temos amigos em comum, além de vários gostos musicais. E literários, também. No entanto, nem sempre estamos de acordo, o que é natural. Não gosto do "visual" deste blogue; é uma página muito carregada, cheia de publicidade, a lembrar de certo modo um jornal. Mas gosto de o ler. Porque há uma personalidade por trás das palavras. Porque não soa a falso. Porque não é um daqueles blogues bonzinhos, cheios de sensatez e bons sentimentos, que me irritam e enjoam.E, como se tudo isto não bastasse, tem feito ultimamente muitas referências a Vergílio Ferreira, por causa do centenário, claro, e também porque, para ele, tal como para mim, é um dos escritores favoritos.

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Para sempre

por Isabel Mouzinho, em 28.01.16

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Hoje fui ver o mar. Na realidade não ia vê-lo mas aproveitei. E à primeira impressão  eu via-o mas não o via, porque via dele apenas a realidade imediata em ondas e espuma. Foi preciso que deixasse vir ao de cima o que oculto se me queria revelar. Abandonei-me a ele e deixei. Mas o que então se me revelou foi uma nebulosa confusa de emoções , memórias, associações indistintas, qualquer coisa que se anuncia como numa casa desabitada. O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos de onde vem. A praia estava deserta e o mar convulsionava-se num mundo ainda por nascer (...) Eu podia enumerar todos os elementos do que presenciava, mas havia outra realidade que ficava intacta à minha enumeração. Essa, essa - dizê-la. Não é aí precisamente que começa o "escrever bem"? Por isso a escrita não tem que ver com o real mas com o outro real dela. (...) Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir porque ele o revelou. 

 

(Vergílio Ferreira, Pensar)

 

Tinha dezassete anos quando o li pela primeira vez. Ou, pelo menos, quando se me revelou. E essa leitura marcou-me de uma forma tão profunda, que determinou de certo modo a escolha do caminho, porque me levou a decidir em definitivo que queria estudar literatura.

Escritor, ensaísta, professor, de personalidade forte e humor mordaz, dele se diz que morreu a escrever, aos oitenta anos, e que quis que o seu caixão ficasse virado para a Serra da Estrela, que ele tanto amava. Verdade ou não, o que importa é o que nos fica: uma obra imensa que, goste-se muito ou não se goste nada, ocupa um lugar central na literatura portuguesa do século XX. É, por isso, incompreensível e imperdoável que tenha sido retirado dos programas de Português do Ensino Secundário...

Vergílio Ferreira faria hoje cem anos. Para mim, será sempre um dos melhores.

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110 anos

por Isabel Mouzinho, em 20.01.16

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Inaugurado a 20 de Janeiro de 1906, o Liceu Pedro Nunes, como ainda hoje é conhecido, começou por designar-se "Lyceu Central da 3ª Zona Escolar de Lisboa", funcionando até 17 de Novembro de 1911 no Liceu do Carmo, primeiro, e na Rua do Sacramento à Lapa, depois, até se instalar definitivamente no centro da cidade, na Avenida Pedro Álvares Cabral, junto ao belíssimo Jardim da Estrela, num edifício criado de raiz pelo arquitecto Ventura Terra, modernizado entre 2008 e 2010 no âmbito do programa de intervenção da Parque Escolar, com um projecto da autoria dos arquitectos Pedro Viana Botelho e Maria do Rosário Beija, e classificado desde 2012  como "Monumento de interesse público".

Ao longo da sua história, passaram pelo Liceu Pedro Nunes alunos e professores que são ou foram figuras de relevo na sociedade portuguesa, como Nuno Crato, Marcelo Rebelo de Sousa, Luís Represas, enquanto alunos, ou Rómulo de Carvalho, o Padre Alberto Neto e Delfim Santos, como professores, para referir apenas alguns exemplos.

No velho edifício só me lembro de ter entrado uma vez, há muitos anos, para fazer um exame do "Propedêutico" - também eu fui "cobaia" da mil e umas experiências e reformas do ensino dos anos pós revolução de Abril e que se mantêm actualmente, no mesmo ritmo frenético e insensato, a cada mudança de governo. Guardo  uma memória difusa desse dia longínquo, marcado acima de tudo pelos nervos e a ansiedade de um acontecimento excepcional. Do espaço, só recordo  a enorme escadaria de madeira, que ainda existe, e uma sala de grandes janelas.

Hoje, o Liceu Pedro Nunes - que ainda não conheço bem, mas sinto já um pouco meu - é um espaço imenso, lindo e de bom gosto, onde a tradição e a modernidade se conjugam em harmonia, um lugar com história, onde passo muitas horas dos meus dias, um mundo quase todo novo que descubro devagar, no arrepio da surpresa que é também um desafio que se vai construindo a cada dia, e onde cabem todas as vitórias e derrotas, esperanças e desilusões, expectativas e vontades de que se vai fazendo o quotidiano, como se a vida estivesse sempre a recomeçar.

E, apesar de não haver lugares perfeitos, vivo ainda no estado de encantamento que têm todos os inícios, na satisfação de um sonho realizado, e na alegria de estar num lugar a que gosto muito de pertencer.

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Centenários

por Isabel Mouzinho, em 08.01.16

Dois grandes nomes das letras portuguesas nasceram há cem anos, com cerca de seis meses de diferença. Vergílio Ferreira (um dos meus escritores portugueses favoritos) surge em grande destaque no último número do JL, que lhe dedica várias páginas com textos de Helder Godinho, Alberto da Costa e Silva, Lídia Jorge, Eduardo Lourenço e um notável artigo de Maria Alzira Seixo, intitulado "Vergílio Ferreira, cem anos de inquietação", do qual transcrevo um pequeno excerto, e que constitui razão mais que suficiente para comprar o jornal, apesar de ser quase escandaloso o preço a que é vendido.

(...)  Vergílio, sobretudo a partir de Aparição, 1959, prossegue uma via de criação direccionada muito própria, aureolada pela filosofia que sempre o acompanha: a meditação sobre o destino humano e modos descontínuos de o exprimir ("espantados", dir-se-ia pensando em Raul Brandão; "alarmados", é o termo próprio no léxico de Vergílio). E que ele vai, a par, desenvolvendo em escritos reflexivos, desde Do Mundo Original e Carta ao Futuro, passando por decisivos tomos de Espaço do Invisível (onde indagação filosófica e literária se interligam) e certos trechos do diário Conta-Corrente, bem como de outras obras teorizantes de que destaco o seu final Pensar, de 1992, conjunto de textos apologais, por vezes divertidos, sempre de profundo alcance. (...)

A inquietação com que se elabora a obra de Vergílio decorre da sua temática mas está patente, antes de mais, no modo como estrutura os seus romances e a sua frase, no tipo de vocabulário que selecciona, do qual certos termos passaram a reenviar, directa ou indirectamente para o seu discurso típico. É uma inquietação que toma também o leitor, o que se deixa prender pelo seu fascínio; e que dará longo e diversificado caminho a quem pecorrer a obra que nos legou. Inquietação humana também, não apenas literária, mas fortemente literária. Porque a problemática do homem, sujeito da vivência das coisas e do próprio discurso, vai nesta obra muito além do que acima sugeri: ultrapassa a questão do "eu" para o abordar em vários modos que esse "eu" manifesta.

Foi também pela mão e pela sabedoria da minha querida professora Maria Alzira Seixo que descobri em Mário Dionísio um escritor fascinante, apesar de injustamente esquecido, como outros: Abelaira, por exemplo.

Na comemoração do centenário do seu nascimento, o Projecto Sinestesia do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, o Museu do Neo-Realismo e a Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo organizam de 27 a 29 de Outubro um Congresso Internacional sobre a vida e obra deste ensaísta, crítico literário e de arte, poeta, romancista, pintor, pedagogo, dando a conhecer as múltiplas facetas de uma das personalidades mais marcantes da cultura portuguesa do século XX.

Para quem não conhece, vale a pena fazer uma visita à Casa da Achada, também designada Centro Mário Dionísio, situada na Lisboa mais típica, entre a Mouraria e o Castelo, mesmo por trás da Igreja de São Cristóvão, onde está reunido o espólio do autor, tanto de pintura como de literatura, o arquivo pessoal e a sua biblioteca privada.

De todas as actividades e celebrações previstas para 2016 a propósito destes dois centenários, destaco ainda o ciclo de conferências: "Vergílio Ferreira e Mário Dionísio: Literatura, pensamento e arte", que terá lugar no CCB já entre 15 de Fevereiro e 14 de Março, sempre às segundas, das 18 à 19h, e que certamente contribuirá para nos dar a conhecer um pouco melhor o pensamento e a obra destes dois autores e para nos fazer ver de forma ainda mais clara a importância das palavras, da literatura e da poesia; e como elas podem fazer-nos pensar, modificar-nos, mudar a nossa vida, ajudar-nos  a viver melhor. 

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Memória de um Natal antigo

por Isabel Mouzinho, em 22.12.15

Esta noite, daqui a nada, começa o Inverno. Não é a minha estação preferida, longe disso, embora no fundo, cada uma tenha o seu encanto; e é nessa diversidade que reside o efeito especial que a mudança provoca em nós. 

Associado à noite, ao escuro, ao frio, a tristeza, fragilidade e desamparo, o Inverno é também tempo de recolhimento, de intimidade, de aconchego, do calor da casa, do sginificado mais profundo e tocante de qualquer pequeno gesto querido. E depois, para nós que vivemos deste lado do mundo, o Inverno é também o Natal.

Lembro-me de como era diferente o Natal no tempo em que os dias pareciam enormes e as Boas Festas se desejavam em bonitos postais escritos à mão.

Naquela época, eu era ainda uma menina, e toda a azáfama que antecedia a festa me parecia mágica e misteriosa, apesar de repetida cada ano. Não havia a euforia consumista de agora, e tudo se centrava na alegria um pouco poética de um Menino que nascia para nos salvar.

Recordo o cheiro a cera e a canela, o tilintar das louças, a alegria de ver entrar o pinheiro, que era muito grande e um pinheiro a sério; e as jarras cheias de azevinho; a excitação dos enfeites que demoravam uma tarde inteira a preparar e colocar nos sítios certos, com bolas e grinaldas coloridas espalhadas por todo o lado; e as tias a recortar estrelas em papel de lustro e cartolina, a fazer anjinhos de cartão, a ajudar a pendurar as bolas na árvore e a pôr lá no cimo uma estrela, naquele sítio mais alto, onde nos parecia impossível que se pudesse chegar.  

O presépio estendia-se ao longo do móvel da sala de jantar, tinha musgo e montes feitos de papel de cenário grosso, castanho escuro, com bolas de jornal por baixo para fazer o efeito das elevações, e muitas figuras pequeninas, ovelhas, pastores, reis magos e querubins, que nós adorávamos ir fazendo avançar discretamente por aquele cenário, dia após dia, até estarem todos juntinhos, quase amontoados diante do Menino Jesus, para grande irritação dos adultos lá de casa, que  voltavam a colocá-los nos lugares de partida sem que nós entendessemos bem porquê.

Havia a Missa do Galo, na Capela do Rato, que era a parte mais espiritual, a que dava sentido ao resto, tudo muito bem agasalhado e trajado a rigor, entre o cheiro a velas, o silêncio do recolhimento que a solenidade  exigia, e cânticos de alegria, onde nunca faltavam o Adeste fidelis, a Noite Feliz e o Gloria in Excelsis Deo. Nessa noite custava-nos sempre mais a adormecer e, ao mesmo tempo, queríamos que o tempo passasse depressa, porque no dia 25 o Menino Jesus já tinha nascido e havia presentes logo de manhã; e o almoço de família.

Hoje, é tudo muito diferente: a casa já não é a mesma, já não vamos à Missa do Galo, muitos  partiram entretanto, outros chegaram. Mas a essência continua igual. Por isso o meu Natal não tem Pai Natal, não se centra nos excessos de comida e de bebida, nem na corrida desenfreada e alucinante das compras. E também não escrevo uma mensagem com frases feitas e palavras de circunstância, que envio num só clic a todos os meus "contactos."

No "meu" Natal, continua a ser obrigatória a missa e a família, mas os presentes são cada vez mais reduzidos, quase inexistentes, porque não é isso que conta. E às pessoas que verdadeiramente significam alguma coisa na minha vida eu telefono, eu escrevo, ou aperto nos braços, mas individualmente e de forma  personalizada, porque cada uma delas é também  especial para mim.

É  que apesar de já não me lembrar que idade teria, ainda sei como foi grande a desilusão de perceber que não era o Menino Jesus que vinha deixar presentes durante a noite. Mas, passada a surpresa inicial, isso não quebrou o encanto desta época de luz, emoção  e cumplicidades que, mesmo nos anos em que não me sinto particularmente tocada pelo "espírito natalício" (como neste) é, acima de tudo, um tempo de simplicidade e de afectos. De amor. E não há nada mais importante...

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O melhor político

por Isabel Mouzinho, em 10.11.15

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Por mim, só tenho a agradecer-lhe: o excelente trabalho destes quatro anos, o contributo para a boa imagem de Portugal, o patriotismo, a educação, a classe.

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O que nos fica dos que partem

por Isabel Mouzinho, em 01.11.15

Não tenho de todo o culto dos mortos e não gosto de visitar cemitérios em circunstância alguma, e menos ainda nestes dias em que vai toda a gente. Respeito muito, no entanto, quem o faz.

E, contrariamente aos que conseguem encontrar beleza e paz nestes espaços, só vejo neles soturnidade, assim como, para mim, há em todos os rituais associados ao fim da vida terrena qualquer coisa de lúgubre que me impressiona e incomoda. 

Não sinto, por isso, necessidade ou desejo de levar flores aos mortos, porque é em vida que gosto de homenagear e mimar as pessoas a quem quero bem; nem é no cemitério que me sinto mais perto dos que já cá não estão, porque não os associo a tristeza nem a desconforto.

Dos que partiram ficam-me as recordações, as ideias, as acções, os ensinamentos e tudo o que de bom e mau fomos vivendo ao longo do tempo, que é a marca indelével que deixaram em mim. É com ela que vivo. É ela que, passada a surpresa inicial do momento da partida - a morte surpreende-nos sempre - a dor da perda, o momento do luto, no-los traz de volta, em lampejos fugazes que nos chegam através de um lugar, de um objecto, de uma palavra, de uma canção. E lembrá-los assim é a mais bonita e singela forma de os voltar a ter próximos, no pensamento e no coração.

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Tiranias: as grelhas excel e os powerpoint

por Isabel Mouzinho, em 20.10.15

Quem, como eu, lida de perto com a escola de hoje sabe como ela é um universo cada vez mais complexo, e como podem ser verdadeiramente aberrantes as modas que se vão impondo, regra geral disfarçadas de "inovação pedagógica".

Vejamos o caso das grelhas Excel: instalou-se há uns anos e aos poucos foi ganhando contornos de quase ditadura, a ponto de se considerar que não há outra forma de avaliar alunos. Argumenta-se com a objectividade e a fiabilidade do método, que parte do pressuposto de que tudo é quantificável.

Valerá a pena, neste contexto, perder algum tempo a observar com atenção os critérios de avaliação das diferentes disciplinas, em diferentes escolas. Não são todos iguais, têm pequenas variações que vão das mais complexas fórmulas matemáticas às coisas mais hilariantes como, por exemplo, atribuir cinco ou dez por cento, ou outra percentagem qualquer, a coisas como "interesse" e "empenho", incluídas num item mais vasto que, quase sempre, se intitula "Atitudes". Gostava de saber como se pode quantificar o interesse e que instrumentos são utilizados para o "medir". Depois de obtidas as percentagens, introduzem-se todos os valores numa grelha Excel e, como diria Guterres, "é fazer as contas". E assim chega-se ao despropósito de a avaliação de um aluno, numa determinada disciplina, poder ser isto: P3=0,85.14,6+17,0+2x17,8+2x12,4+2x14,9+2x19,0/10 +0,1.0+16+14,5+14,5/4+0,05x10=15,208 - 15 valores. 

Quem o contesta é imediatamente olhado de lado. A máxima inerente é "toda a gente faz assim". De resto, hoje a ideia é cada vez mais fazermos todos tudo igual, para "não termos problemas" e perdendo-se aquilo que a vida toda fez de cada professor uma individualidade com nome e características próprias, que se esquece ou recorda para sempre, por boas ou más razões.Uns e outros não avaliavam os alunos desta maneira, nem sequer em nome de uma objectividade comprovadamente duvidosa. Como é possível reduzir a uma fórmula matemática o percurso de aprendizagem de um aluno? Onde fica, na frieza dos números, aquela margem de esforço e de sonho que os fez crescer como pessoas e não se pode quantificar? Porque há na escola um lado humano que tem que se ter em conta. Em tudo; e na avaliação também.

O rigor e a exigência não são, acho eu, nada disto. E qualquer professor minimamente sério e consciente do que faz é capaz de explicar detalhadamente a razão pela qual atribui determinada nota a un aluno, sem precisar de uma grelha Excel, ou de uma fórmula matemática. E depois, convenhamos, há na avaliação uma margem de subjectividade, que é incontornável e que deve ser assumida, sem qualquer peso na consciência ou sentimento de culpa.

Há também, além desta, a mania do "powerpoint", que se utiliza a torto e a direito, a propósito de tudo e mais alguma coisa, ou até sem propósito nenhum.

Hoje, não há aluno que, tendo que apresentar um trabalho oral, não venha acompanhado do inevitável "powerpoint", convencido que isso enriquece muito a sua apresentação e limitando-se até, em casos limite, a ler o que lá está escrito, ou a repeti-lo de cor. Muitos professores utilizam-nos também nas aulas - são em geral os mesmos que, em teoria, são contra as "aulas expositivas". E até as editoras, atingidas pela febre do "powerpoint" (ou as principais responsáveis pela sua generalização) oferecem-nos aos professores a propósito de mais diversas matérias de cada disciplina, chamando-lhes, pomposamente, "recursos."

É como se as palavras já não fossem suficientes. Ainda há menos de um mês vi, durante cinco quintas-feiras seguidas,uma sala do CCB encher-se para ouvir silenciosa e atentamente Maria Alzira Seixo falar de literatura. Sem PowerPoint. Apenas com sabedoria e com paixão.

Tenho a certeza que enquanto foi professora também não precisava das grelhas Excel para fazer a avaliação. E foi a melhor professora que tive na vida...

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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 27.09.15

Gostando tanto de fotografia como gosto, volto a destacar um blogue onde ela ocupa um lugar central. E faço-o, também, porque é um blogue "ressuscitado", após uma pausa de muitos meses. 

Conheço-o desde que aqui cheguei, há três anos e tal, mas a sua existência é muito mais antiga. Julgo que terá uns onze anos. Em Outubro do ano passado, o seu autor, mfc, decidiu pôr-lhe fim, mas felizmente, no final de Julho deste ano, o blogue Pé de Meia voltou, para alegria dos que o visitam quase diariamente, como eu.

É um blogue feito a norte, que publica invariavelmente "uma fotografia por dia", sempre lindíssima, com a sensibilidade de quem é capaz de captar os mais simples e singulares detalhes do que nos cerca e o "pensamento do dia... profundo", de que não sou tão grande fã.

Seja como for, este é um daqueles blogues que visito com prazer e que, por isso, é muito "cá de casa", onde gosto de me deter só a olhar, e onde tenho muitas vezes a sensação de que, por instantes, o tempo se suspende.

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Festa do Cinema Francês

por Isabel Mouzinho, em 22.09.15

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Como já vai sendo hábito, com o Outono vem também a Festa do Cinema Francês, que se realiza este ano pela 16ª vez.

Organizada pelo Institut Français du Portugal, a Embaixada de França, a Alliance Française e a Unifrance Films, a Festa passa por dezoito cidades portuguesas entre os dias 8 de Outubro e 29 de Novembro e inclui antestreias e clássicos de géneros tão diversos como a comédia, o drama e a animação, entre outros.

O Festival conta desta vez com a presença de Jean-Jacques Annaud na antestreia do seu mais recente filme e Jacques Doilon numa retrospectiva da sua obra. Em Lisboa, as sessões terão lugar, como habitualmente, no cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa.

Para saber o programa completo e mais informações, está tudo aqui.

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Rentrée

por Isabel Mouzinho, em 31.08.15

E pronto. Com a chegada de Setembro, vem também a rentrée em toda a sua plenitude. Tem que dizer-se assim mesmo, em francês, porque não há na língua portuguesa nenhuma palavra capaz de transmitir de forma tão forte e abrangente a infinidade de sentidos que ela encerra.

Gosto muito desta época em que tudo tem o sabor do recomeço, não com a alegria berrante e renovadora da Primavera, mas com os cheiros e as cores do Outono, na melancolia do fim de férias, misturada  com o entusiasmo do que principia outra vez e promete ser diferente, ou até talvez melhor.

Para mim, a vida toda, a rentrée significou quase sempre, acima de tudo, regressar à escola. E sempre foi em Setembro e não em Janeiro que senti que  começava mais um ano. Época de cadernos a cheirar a novo e de canetas por estrear, de novos projectos e de inconfessadas intenções, de algazarra e de esperança, da cabeça cheia de ideias para pôr em prática e da vontade de regressar a um mundo sempre igual e ao mesmo tempo sempre diverso, tão complexo quanto apaixonante.

Por variadíssimas razões, este ano traz consigo maior expectativa, e uma novidade que o torna um pouco mais novo que os outros. Por isso, desta vez, o conhecido e o incerto aliam-se  de forma ainda mais peculiar, o que me provoca um ligeiro friozinho na barriga, mescla de medo e de vontade em doses quase iguais, mil possibilidades em aberto, apesar de saber que haverá bom e mau, positivo e negativo, como sempre há em tudo, em todo o lado. Por ora, concentro-me nos dias por viver de um ano inteirinho em que espero conseguir misturar com natural simplicidade o que tem que ser feito e o prazer da sua realização, esquecendo por momentos, pelo menos, tudo o que também me limita, inquieta, preocupa. Ninguém disse que vai ser fácil. Mas acho que vai ser bom.

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Volver

por Isabel Mouzinho, em 19.08.15

Contrariamente ao que acontece com grande parte dos portugueses, não olho com desconfiança para tudo o que é espanhol, alimentando o velho ditado segundo o qual, daqueles lados, "nem bom vento nem bom casamento."

Irritam-me, até, as rivalidades parvas entre dois países que têm tudo para se entender, porque, no fundo, se calhar, o que nos aproxima é muito mais do que o que nos afasta, contrariamente ao que, durante tantos anos, sempre nos quiseram fazer crer.

Eu gosto de Espanha na sua diversidade e nos seus contrastes, como gosto de tudo o que é controverso e se ama ou se odeia, sem indiferença nem meias tintas. É um país onde me sinto quase como em casa. Identifico-me com o prazer de viver e com o espírito positivo, que faz de tudo uma festa. Mas, ainda me falta conhecer muita coisa. É que Espanha é enorme!...

Gostava de, um dia, por exemplo, poder fazer o caminho de Santiago, ir ao cabo Finisterra, a Oviedo brindar com sidra, ou às festas de San Fermín, em Pamplona. E, também, a sítios menos afamados e muito mais recônditos, como Úbeda, na província de Jaén, considerada a jóia do renascimento andaluz,  Ronda,  ou Sos del  Rey Católico, em Zarogoza. E mais; muito mais!

Do que conheço, gosto de maneira mais intensa e apaixonada de San Sebastian, romântica e cativante, da aldeia de El Rocío (Huelva), por tudo o que significa para mim, de Barcelona, só por causa do Gaudí, (que os catalães são mesmo muito embirrantes), de Madrid, monumental e cosmopolita e, naturalmente, de Sevilha, que é a Espanha mais genuína.

Porque Espanha, para mim, é sul. É Andaluzia, sol, touros e mar. São as esplanadas, o flamenco e as sevilhanas. São noitadas intermináveis,  de amigos, de copos e de música. É o entusiamo excessivo e inebriante, com razão ou sem ela, o colorido forte e o à-vontade às mãos cheias.

Adoro  Sevilha, a sua cálida luminosidade, o ambiente "callejero" e a vida ao ar livre, o tilintar dos guizos das carroças  misturado com o som dos cascos dos cavalos no asfalto, a paz do rio Guadalquivir, o fervor religioso em ritmo de alegria, a simpatia das pessoas, o movimento fervilhante das ruas ao final do dia e a preguiça da sesta nas tardes quentes de Verão. Seja em que altura do ano for, Sevilha é sinónimo de ócio, de animação e de folia.

Gosto muito de cidades, da sua agitação e vida próprias, que distingue cada uma de todas as outras. E gosto muito de repetir os lugares onde me sinto bem. De vez em quando, preciso de voltar a Espanha para me encher de alegria e de festa, seja a Sevilha (onde vou pelo menos uma vez por ano), a Madrid, ou a qualquer outro destino. Espanha é perto e bom caminho. Tem muito para ver e fazer. E é tão boa esta ideia de regressar...

 

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O que vale a pena

por Isabel Mouzinho, em 12.08.15

Há nas amizades verdadeiras uma aura de mistério, qualquer coisa de incompreensível e de inexplicável que faz delas uma espécie de benção, que nos enche a  alma e  a vida, e nos conforta o coração em dias sombrios, ou quando tudo parece virar-se do avesso e o mundo começa a girar ao contrário.

Vivem-se em total liberdade, mas tratam-se com cuidado e carinho. Têm por base a confiança inabalável, os sentimentos genuínos e a grandiosidade do afecto e, por isso, devagar se fazem também cumplicidade e partilha, na magia que faz os amigos de há pouco poder parecer que são já de há muito, e na certeza de saber que para lá dos silêncios e dos gestos alguma coisa nos liga, um laço invisível que se nos ata ao coração e que se acredita poder perdurar para lá de tudo. Mas todas as pessoas, mesmo as que mais amamos ou admiramos, podem um dia desiludir-nos ou magoar-nos.

Perguntamo-nos, então, quanto vale uma amizade. Por que será, afinal, que nos zangamos tanto, às vezes, por coisas maiores ou mais pequenas, até com quem nos quer bem? E quantas pessoas, das que nos são queridas, não foram já ficando pelo caminho, porque a determinada altura nos afastámos sem uma razão óbvia, ou sem conseguirmos encontrar um motivo suficientemente forte, e válido, que o pudesse explicar. Fomos deixando de nos falar e pronto. Por um  amuo, um mal-entendido qualquer, que depressa dá lugar ao ressentimento, tantas vezes motivado por uma insignificância.

Já todos passámos por isto. Cada um de nós tem "o seu feitio" e eu não sou excepção, mas sou incapaz de prolongar uma zanga com as pessoas de quem gosto e que me importam. Essa é mesmo uma das minhas maiores debilidades. Sobra um incómodo, que me sufoca, e quero logo fazer as pazes. Tendo ou não razão. Se uma pessoa me ofende, prefiro dizer-lho, ainda que isso implique discutir o assunto de forma mais ou menos acalorada. É que, apesar de difícil,  tentar pôr-se no lugar do outro e percebê-lo pode ser interessante. Importante, também. E pode valer a amizade. Afinal há tanta coisa que uma boa conversa, olhos nos olhos, permite esclarecer... Mas o que fazer quando até isso nos é negado?

Enfim, a vida é demasiado curta e, no fundo, o mais importante é saber guardar os amigos verdadeiros coladinhos ao coração e levá-los connosco vida fora, para lá de todas as mágoas, de todos os silêncios e indiferenças, de todas as histórias reais, imaginadas, ou forjadas por quem nos quer mal.

E acreditar que o tempo traz sempre consigo a verdade de todas as coisas. E que ter quem acredite em nós faz a vida valer a pena...

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Ana Hatherly

por Isabel Mouzinho, em 05.08.15

 

Carta de Amor Informático

 

Penetraste no meu coração

Como um virus no meu processador

 

Vindo de lado nenhum

 Ofereces-me agora

O vazio da não opção

 

Estragaste-me o real

Obrigaste-me a reinventá-lo:

Para quê?

 

Agora estás

No meu cemitério de textos

Já não te posso reencaminhar

 

Arquivei-te no lixo da memória

Do meu Pentium IV

Que aliás já vendi

 

Troquei-o por um lap top

Mais leve

Mais portátil

Mais facilmente descartável

 

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Como um longo e aborrecido Domingo

por Isabel Mouzinho, em 01.08.15

Agosto é o mês de que menos gosto. Associo-o sempre a suor e a calor em excesso, a moscas, a desleixo e a chungaria. O país vive a meio gás, semi-parado como num imenso intervalo, e tudo se centra no Algarve, que passa a ser o lugar a evitar nem que seja por sobrelotação, tal e qual  o metro à hora de ponta, ou perto disso.

Na verdade, tirando a nossa casa, quase todos os sítios são insuportáveis; até Lisboa, antigamente tranquila, preguiçosamente apetecível, muito mais silenciosa e quase vazia de gente e de trânsito é agora tão cosmopolita e turística que perdeu parte da graça e da sua habitual sonolência estival, o que pode fazer de um fim de tarde a olhar o Tejo um verdadeiro massacre, ou no mínimo a confusão garantida.

Tenho comigo esta espécie de desgosto que nem chega bem a sê-lo de, por força das circunstâncias, só poder estar de férias no mês que até para viajar é menos simpático que todos os outros. Nesta altura, nada como permanecer no sossego e na frescura do nosso espaço mais íntimo, ao sabor da vontade de cada momento. Há sempre o lado bom das longas manhãs de sono, de praia, ou de moleza, da chuva inesperada e do agradável cheiro da terra molhada que se lhe segue, das horas que parecem passar mais devagar e dar tempo para fazer tudo o que se quer.

Para mim, Agosto é acima de tudo tempo de arrumações, de balanços e de projectos, de descansar e de preparar a nova vida, que se anuncia para o final do Verão. E isto também são férias!

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Esta coisa das palavras

por Isabel Mouzinho, em 30.07.15

Dentro da minha cabeça vou deslocando as vírgulas, substituindo um verbo por outro, afinando um adjectivo. Às vezes redijo mentalmente a frase perfeita e, no pior dos casos, se não a aponto a tempo, mais tarde foge-me da memória. Resmunguei e desesperei-me muitíssimas vezes tentando recuperar aquelas palavras exactas que iluminaram por um instante o interior do meu crânio, para depois voltarem a mergulhar na escuridão.

Esta é uma passagem de um livro que ando a ler, de Rosa Montero (La loca de la casa), que aborda um assunto que me apaixona desde sempre, ou pelo menos desde o tempo até onde a minha memória consegue chegar: as palavras, o que elas significam e a distância que as separa daquilo a que elas se referem e  daquele resto mais fundo que nunca se consegue dizer e apenas se sente. E por isso, também, a incessante procura da palavra mais exacta, ou mais aproximada do que se quer transmitir... 

E depois há nas palavras a ambiguidade de trazerem em si a morte e a impossibilidade de morrer: ao  serem nomeadas, as coisas deixam de existir, adquirindo  outra forma de ser. A palavra que as designa nega-lhes a existência real e dá-lhes uma existência nova, na palavra. Ao fazê-lo, a linguagem adquire um carácter destrutivo, em certa medida: reduz as coisas a meras ausências, criando uma incomensurável distância entre elas e as palavras que as designam.

E, no entanto, a distância que a utilização da linguagem implica é a condição do entendimento possível das coisas, o único modo de elas nos serem comunicadas, de nos aproximarmos delas e de as conhecermos. É, pois, pela realidade da linguagem que se acede à realidade das coisas, como única visão possível do mundo.

Anterior a toda a palavra, há uma existência de que temos de nos separar para podermos falar e compreender. A linguagem traz em si  a marca do que lhe falta e a precede, do que ela exclui ao manifestar-se. Mas, se é verdade que a linguagem começa por negar a existência do que afirma, podendo por isso considerar-se num certo sentido portadora de morte, há nela também uma ambiguidade intrínseca que faz dessa morte uma impossibilidade. Ao conter em si a negação e a afirmação, a morte e a vida, a linguagem faz com que uma e outra de certo modo se neutralizem, tornando a morte impossível.

Mantendo uma forte relação com a linguagem, a literatura acentua estas questões, assumindo-as de uma forma ainda mais radical. Ao reconhecer a linguagem como a única forma possível de apreender o mundo, a literatura distancia-se da linguagem tal como ela é utilizada usualmente e, a partir da infinita distância que estabelece, subverte a experiência do homem e do mundo, criando outros mundos possíveis e um modo próprio de os nomear. É essa diferença que nos enfeitiça e que determina a forma como lemos, escrevemos, pensamos, vivemos.

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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 12.07.15

Apesar de não ser uma especialista, gosto muito de fotografia e do que é nela tentativa de deter um instante e o fazer perdurar, imobilizando o tempo na sua permanente evanescência. 

Há em cada fotografia uma dimensão artística, a escolha de um determinado ângulo, luz, aproximação, o que implica um arrebatamento individual que exprime um rasgo emotivo e traduz um estado de alma, uma experiência pessoal, um momento único, irrepetível, capaz de  chegar ao que há de mais fundo e indizível em quem a vê e lhe acrescenta também alguma coisa, que tem a ver com o seu sentimento, gosto, emoção.

A minha escolha vai pois, desta vez, para um blogue cheio de fotografias, chamado À Esquina da tecla.

Da sua autora sei apenas que se chama Luísa e que é do Algarve. Mas isso chega-me. Porque o que eu gosto é de lhe espreitar as fotografias dos "Passeios de Domingo", ou da série "A vida é bela", na singularidade de um momento que uma sensibilidade que me é alheia captou de uma maneira que me toca e onde, por isso, os meus olhos às vezes se demoram.

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Encantos da vida na cidade

por Isabel Mouzinho, em 03.07.15

Lisboa parece às vezes uma cidade parada no tempo, arrastando-se vagarosa por ruas estreitas e antigas, deambulando como quem não tem pressa ou não sabe que rumo tomar, em  romântica e sedutora incerteza.

Delicia-me essa lentidão quando entro no eléctrico na Estrela, me sento junto da grande janela aberta, solto o cabelo na brisa da tarde, demoro o olhar no azul mais claro do céu ou mais escuro do rio e a observo nos seus mais ínfimos detalhes de pessoas, lugares, cores, cheiros e sons, como se não a conhecesse ainda, ou ela tivesse sempre uma novidade para mim. 

E deixo-me levar até à Baixa naquele balanço pachorrento que me sossega a alma e deixa no corpo o mesmo torpor molengão de quem acaba de acordar de uma sesta, e encosto o meu coração ao coração da cidade de que eu tanto gosto e, como no conto de Mário Dionísio, dá-me vontade de começar a assobiar baixinho.

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Incertezas

por Isabel Mouzinho, em 22.06.15

Nunca acreditara realmente que as coisas, todas as coisas, pudessem julgar-se garantidas, ou definitivas, nem na predestinação, ou naquela ideia um pouco pueril de que algures no mundo havia alguém que lhe estaria destinado, uma espécie de alma gémea, conceito que na verdade nunca tinha conseguido entender. O que seria uma "alma gémea"? Soava-lhe sempre à imagem de si ao espelho, algo parecido com "mais do mesmo" e, por isso, profundamente desinteressante.

Acreditava, sim, nos encontros fortuitos e nas almas e corpos que de repente  se aproximam e se fundem no inexplicável que é o amor, na repentina falta de domínio sobre a vontade e na explosão dos sentidos, em momentos perfeitos de desejos à solta e de entrega incondicional e inteira, rendição do corpo e da alma tornadas inevitáveis e urgentes, não deixando querer nem pensar mais nada, porque, em momentos assim, nada mais importa.

Sabia que havia certos olhares a que era impossível dizer não, como sabia que havia feridas que demoram a cicatrizar e recordações que doem para sempre. Conhecia a falta de olhos, de risos e de corpos, e os suores frios de certas febres que se devem a males da alma, mais do que do corpo. Conhecia a amargura e a solidão das noites em que tremia de frio por dentro e a saudade lhe doía demais, quando não sentia no ar o cheiro de um perfume que lhe era familiar, nem  as mãos que desatavam vontades, à deriva pelo seu corpo em sobressalto, descontrolado em arrepios estremecidos de prazer, e em gestos  e palavras transbordantes de ternura.

Mas  sabia, também, que o mundo continuava a girar, que os dias e as noites se sucediam inexoráveis, e às vezes voltava até a sentir o coração a acelerar em alvoroço, como numa paixão de vinte anos, na luz de outros olhares que despertavam vontades súbitas, inesperadas e incertas, fugazes ou duradouras, que  lhe pareciam muito e outras vezes coisa nenhuma, que lhe apetecia provar  em pequenos sorvos, como uma bebida que se vai saboreando devagar, ou beber de um trago, como quem é tomado de assalto pelo desejo de saciedade e de tudo a acontecer de novo como se fosse a primeira vez e a doce inquietação do desejo estivesse de volta, dissolvendo e mantendo incertezas.

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Noites de Verão

por Isabel Mouzinho, em 21.06.15

Daqui a algumas horas começa o Verão. Tempo de calor excessivo e de corpos suados, de desleixos, de moscas e de bichos, mas também de despreocupação e de abandono, do vagar  de ver a vida correr, de peles  a saber a sol e a mar, de noites quentes e quietas, de luas enormes e de cigarras a cantar, de desejos indomáveis, de amores breves,  beijos ardentes e molhados, palavras apaixonadas, sinceras  e inconsequentes.

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Saltos altos e a calçada portuguesa

por Isabel Mouzinho, em 19.06.15

A calçada portuguesa é especialmente bonita, imagem de marca das nossas ruas, embelezando  passeios com padrões a preto e branco, que misturam calcário e basalto em  formas geométricas, mais ou menos artísticas. Parece, até, que o desenho dos passeios da Praça dos Restauradores é de Abel Manta.

Quando eu era pequena, lembro-me de aproveitar as formas traçadas na calçada para fazer um jogo com a minha irmã, Avenida da República fora, a caminho da escola: só podíamos pisar as pedras pretas e perdia quem primeiro pisasse as brancas. Ou o contrário.

Hoje, já não me demoro nem entretenho a pisar as pedras de uma ou de outra cor, mas continuo a caminhar cuidadosamente, com  diferente motivação e propósito: procurar não enfiar os saltos nos buracos. É que, apesar de muito bonita, a calçada portuguesa não é uma boa aliada para quem, como eu, gosta de  usar saltos altos, mesmo que isso signifique um exercício quotidiano de equilíbrio no empedrado, procurando evitar as fissuras entre as pedras, o que se agrava significativamente nos dias em que está molhada.

"Vaidade a quanto obrigas", dir-me-ão. Mas só quem partilha esta minha mania dos saltos poderá entendê-lo; e saber como é deliciosa  a sensação de chegar a casa depois de um dia inteiro a evitar aos buracos das ruas de Lisboa e "quitarse los tacones"...

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Apaixonadamente

por Isabel Mouzinho, em 17.06.15

É um dos meus grandes  amores. Entrego-me nos seus braços como quem regressa ao colo de um amante antigo, no encanto apaixonado do que já conheço e me seduz, enamora, entontece, e na exaltação emocionada do que me falta descobrir. O que nos liga é intenso, muito antigo e inexplicável. Porque há amores assim: infindáveis, grandiosos, requintados, românticos, diferentes, excepcionais e desmedidos, irredutíveis às palavras, avessos a definições e que apenas se podem sentir.  

Conheci-a nos livros, nas fotografias, nas canções, nos filmes, antes de a conhecer na realidade; idealizei-a ao sabor da minha imaginação, deixando-me encantar pelo romantismo e a boémia que lhe estão associados, num tempo em que a cultura francesa era ainda a cultura dominante, embora já em fase de declínio.

Quando a visitei pela primeira vez, devia ter uns dezanove anos. E foi uma enorme emoção. Sonhara com esse encontro vezes sem conta. Ainda me lembro como se fosse hoje da minha entrada inicial em Paris, de madrugada, na excitação de tudo o que se quer muito e acontece pela primeira vez, na alegria desassombrada  de poder por fim estar num lugar que nunca vira antes e que, no entanto, já me pertencia. E da comoção de tudo ser  tão real e palpável, daquele mundo, até aí sonhado e imaginário, subitamente tornado verdade para os meus sentidos; e daquela primeira impressão de grandiosidade, de que tudo era afinal imenso, ou, pelo menos, muito maior do que  eu idealizara.

Hoje, já não sei quantas vezes lá voltei. Conheço Paris em quase todas as estações do ano: sei do sol abrasador nas tardes de Verão do Quartier Latin - que eu adoro -, do frio cortante que se sente ao caminhar nas Tuileries, em manhãs gélidas de Inverno, do encanto da cidade tão justamente apelidada cidade luz (ville lumière) intensificado pelo brilho das iluminações na época de Natal, da doce tranquilidade das manhãs na Place des Vosges, do sol de Primavera amenizando o silêncio e a quietude dos cais do Sena, luminoso, reflectido no rio, ou fazendo brilhar os  típicos telhados, na deslumbrante vista da cidade desde Montmartre. Falta-me apenas Paris no Outono;  e imagino como devem ser fantásticos os fins de tarde no Jardin du Luxembourg,  - que é um dos meus locais preferidos -, com as árvores e os extensos relvados cobertos de folhas douradas.

Gosto de tudo em Paris: dos monumentos e dos edifícios, das ruas e dos cafés, das praças, dos jardins, da cidade construída à volta do rio, da dissemelhança das suas inúmeras pontes, dos bateaux-mouche, passeando de cá para lá no Sena, da arte em cada esquina, do requinte de cada detalhe, do ar em que se respira cultura e sofisticação, da atmosfera simultaneamente retro e avant-garde.

Paris é uma cidade apaixonante, um daqueles lugares com alma onde o amor apetece. Há nesta cidade uma magia qualquer, uma luz especial, um magnetismo insondável, que me faz querer sempre voltar, e que faz dela um sítio  verdadeiramente especial. Talvez só em Baudelaire, na sua Invitation au Voyage, encontro algo que se aproxima vagamente do que Paris me faz sentir, no dístico que se repete como um estribilho: Là, tout n'est qu'ordre, beauté, luxe, calme et volupté.

Apaixonam-me as cidades. E depois de Lisboa, é Paris que trago no coração. 

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Amores da vida toda

por Isabel Mouzinho, em 16.06.15

Os dias sucediam-se desiguais, entre sossegos e inquietações, sobressaltos e rotinas, ora deixando o tempo fluir sem querer nada que não fosse a liberdade de poder ceder à vontade mais imediata, ora entregando-se ao prazer das horas em que lhe bastava tê-lo perto para lhe parecer que aquele amor haveria de poder resistir a tudo, nos dias em que o seu cheiro e a sua presença lhe faziam crer que tudo estava certo e lhe tomavam conta da vida e lhe voltavam a despertar desejos ocultos que julgava adormecidos no fundo de si, desgastados pelo quotidiano, mas que ainda se reacendiam às vezes, quando ele a olhava com os olhos meigos que só têm os amantes secretos, ou quando ria com o seu riso de menino, que sempre a desarmava e enternecia.

E então tudo lhe fazia sentido de novo; e parecia que as estações e os anos não haviam passado e que o mundo continuava a ser só eles os dois e aquele amor discreto, independente e desmesurado, que mais ninguém conhecia pelo lado de dentro, no arrepio da pele, na sensualidade do toque e no coração a bater descontrolado, nos gestos ardentes, nas horas tempestuosas e serenas de entrega total, paixões à solta e corpos confundidos, sem pudores nem moralismos, no desnorteamento de quem procura através de todos os sentidos conhecer o mapa que indica o caminho do paraíso.

E queria agarrá-lo e apertá-lo contra o peito, cedendo à saudade de só se deixar ir, rendida ao calor daqueles braços bons, dos beijos demorados e intensos, pensando que há amores que são da vida toda e que quando é a sério cabe tudo dentro deles: o amor e a dor, o medo e o prazer, a paz da intimidade e o silêncio de quem se entende só pelos olhos.

O que havia entre eles era uma vida inteira. Eram todos os beijos e todas as lágrimas, os sorrisos e os sonhos que tinham sonhado juntos, os projectos e as promessas, as incertezas e as ausências, os desejos e os desencontros. E os caprichos satisfeitos apenas porque sim. E as palavras, e a força, e o aconchego, e os mimos. E tudo o que só se consegue sentir e se toma nos braços, e se embala devagar, e se quer levar pela vida fora.

Depois passava um avião que a despertava do torpor ainda ensonado que a transportava para longe, virada para dentro do coração, enquanto olhava desatenta o azul do dia a clarear.

E sorria, a pensar que o que quer que fosse a sua vida daí em diante, sempre tão cheia de surpresa e novidade, a felicidade era também o muito e o pouco daquela história bonita, triste, enternecedora e verdadeira, que a marcaria para sempre, como um nó muito apertado, que nunca se desfaz.

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A festa dos livros

por Isabel Mouzinho, em 15.06.15

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Se há coisa de que eu gosto é de livros. Gosto do cheiro dos livros, do toque e do que eles me ensinam. Não imagino a minha vida sem livros, como também não a imagino sem música. Foi nos livros que conheci muita coisa antes de a viver, foi onde aprendi o sonho e a vida, onde me aventurei por destinos que fiz meus, descobrindo palavras que sempre me acompanham e ajudam a traçar caminhos.

Gosto dos livros como gosto de canetas, na relação de ambos com as palavras e com os mundos para onde me levam, mas também na ligação ao corpo, e em tudo o que há nisso de mais sedutor. E, mesmo reconhecendo as vantagens da era tecnológica,  apesar da minha natural resistência e falta de jeito, não me deixo seduzir pelo livro electrónico, porque me falta a relação física, o lado mais imediato e sensual do toque, dos dedos a folhear o papel, da mão a deslizar na página, que precede a entrega da alma inerente ao acto de ler, como ao de escrever.

Quando eu era pequena, a Feira do Livro era na Avenida da Liberdade. Lembro-me de como gostava daquele passeio feito a pé, depois do jantar, nas noites claras que anunciavam o Verão e as férias grandes. E de como, naquela altura, me pareciam enormes as barracas amarelas e cinzentas, carregadinhas de livros.

Lembro-me de olhar fascinada as capas dos livros da Anita à procura dos que ainda me faltavam na colecção, num tempo em que os livros ficavam quase à altura dos meus olhos.  Depois eram os Cinco e os Sete e as Gémeas e todas as sagas de Enid Blyton, ou as Brigittes de Berthe Bernage, que também tiveram a sua época. E a iniciação aos livros de "gente crescida", a capa castanha de As Pupilas do Senhor Reitor, lisa e sóbria, como me parecia então o mundo dos adultos;  e tantas outras memórias dessas Feiras da minha infância, a que nunca faltava, celebração de fim de Primavera,  uns dias antes de Lisboa explodir em festa, com os bailes e as marchas, as sardinhas e os manjericos.

Entretanto a Feira mudou-se para o Parque Eduardo VII e é agora muito diferente desses tempos já longínquos. Ou sou eu que a vejo com outros olhos, talvez. Houve mesmo anos em que nem passei por lá. Agora sim, volto à Feira, mas não a visito inteira e de uma vez só. Passo várias vezes, em dias diferentes, descubro-a aos bocadinhos, escolho percursos com paragens criteriosamente seleccionadas, ou deixo-me levar sem destino, detendo-me ao sabor das novidades que surgem no caminho, ou por qualquer motivo que me desperta a atenção.

Hoje, na Feira, há muito mais do que os livros e os autores. Há as "vedetas" de televisão e sabe-se lá de onde mais que se misturam e confundem com os escritores; e as barraquinha das farturas e a das queijadas de Sintra; o "Olá fresquinho", e a "língua da sogra", os palhaços e os balões; todo um folclore que tem pouco a ver com os livros,  as letras e a escrita.

Mas, ainda assim, a Feira do Livro já faz parte da história da "minha" Lisboa e, ano após ano, o Parque enche-se de gente nesta altura, em ambiente de passeio e de festa.  Este ano não foi diferente. Pelo menos uma vez em trezentos e sessenta e cinco dias os lisboetas vão ao Parque ver os livros, mexer-lhes e folheá-los. Comprar, até, em calhando. Não sou apologista de que o importante é ler, seja lá o que for. Porque a leitura forma-nos o gosto e a maneira de olhar o mundo. Mas se, para além do negócio que lhe está associado, a Feira servir para levar mais pessoas a gostar de ler e a querer fazê-lo, então ela também terá valido a pena.

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Vozes do mundo

por Isabel Mouzinho, em 29.05.15

 

 
Conheci-a pela primeira vez num programa da RTP2 que nem sei se ainda existe, chamado "Bairro Alto". Gostei do seu modo de ser comunicativo e das coisas que então a ouvi dizer. Estávamos em 2008, julgo eu, e  María Beresarte, de origem basca, acabava de publicar o seu primeiro disco que, curiosamente, era um disco de fado.
Uma espanhola a cantar fado parece uma ideia estranha. Mas se o ouvirmos não é. Pelo contrário: achei que ele era bem a prova que o fado e o flamenco são muito mais próximos do que parecem, que há mesmo o que pode considerar-se uma sonoridade ibérica, com especificidades próprias que têm a ver com as nossas distintas maneiras de ser. E deixei-me encantar por esta voz,  poderosa, enfeitiçante e arrebatadora. Mas acabei por não guardar o disco, "Todas las horas son viejas", considerado pelo crítica como o melhor álbum de fado por uma voz estrangeira, pois ofereci-o  a uns amigos espanhóis que gostam muito da canção de Lisboa.
Anos mais tarde, em 2012, tive a oportunidade de finalmente a ouvir ao vivo num concerto do "Quinteto de Lisboa", um interessante projecto musical que inclui também João Gil, José Peixoto, Hélder Moutinho e João Monge (tudo nomes de peso, pois claro). Foi um espectáculo marcante e inesquecível, pela sua qualidade e carácter inovador. Foi também, para mim, a confirmação de María Beresarte como uma artista extraordinária, que além da excepcional voz que tem é ainda elegante e sensual; e canta com o corpo inteiro.
Desde então tenho acompanhado mais ou menos o seu percurso artístico. Sei, por exemplo, que faz muito sucesso em França, e não só, que se vai tornando "um caso sério", e provando cada vez mais que é, acima de tudo, uma voz do mundo.
María Beresarte acaba de  lançar o seu segundo disco, chamado "Súbita" que, pela amostra, parece valer a pena ouvir com atenção.

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Flagrante Delito

por Isabel Mouzinho, em 24.05.15

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Julgo que este terá sido o oitavo encontro do DO. Para mim foi o primeiro. E por ser a "caloira" coube-me, como é da praxe, a complicada e aliciante tarefa de o pôr em palavras. Mas eu gosto do que é difícil.

Começo pelo fim: o que à partida parecia ter um certo toque de "encontro às cegas", acabou por ser na verdade um encontro de amigos. E é isto que torna a blogosfera fascinante: conhecemo-nos  pelas palavras antes de sabermos que cara têm, ou como soam as vozes e os risos de pessoas que nos habituamos a ler, com quem rimos ou sorrimos, pensamos, nos emocionamos e surpreendemos, concordamos ou discordamos, aprendemos, numa teia de encantos e cumplicidades criada entre gente das mais diversas proveniências, idades, áreas profissionais, interesses, e de quem sabemos muito pouco, ou quase nada. Afeiçoamo-nos devagar a pessoas que nunca vimos, que conhecemos sem conhecer,  e percebemos que é possível, ainda assim, criar laços, sintonias e afectos. É a escrita que nos aproxima. E quando finalmente nos encontramos, parece que já nos conhecemos há muito.

Foi mais menos o que se passou comigo. De uma vez só, conheci "em carne e osso" meio DELITO.  

A Patrícia e a sua encantadora família, que os espanhóis designariam como muito "entrañable", receberam-nos de portas e braços abertos e isso foi grande parte do sucesso da soirée, na qual se comeu e bebeu divinamente, em ambiente descontraído como sempre acontece quando um grupo de amigos se junta à volta de uma mesa e se "perde" em longas conversas cruzadas sobre tudo e mais alguma coisa. 

Falámos muito, rimo-nos muito, e no fim não podia faltar a habitual fotografia, a provar que foi tudo verdade.

Para a história desta animada reunião ficarão naturalmente o prato "à Brás, mas sem bacalhau" da Patrícia e do Elvis, elogiadíssimo por todos, o delicioso pudim de queijo  da Serra da Teresa, a tarte de framboesas da Ana, o bolo da Francisca, que parece ser já uma tradição, e a mousse de chocolate do Luís Naves, apurada com extremo requinte. E havia mais, muito mais, mas não consegui experimentar tudo.

Depois houve também tudo o que eu não sei dizer e que é a melhor parte: as vozes, os risos, as piadas, a alegria de estarmos juntos e podermos olhar-nos, as cumplicidades;  e os abraços à despedida, com a promessa de voltar.

Para a metade que não veio fica um recado: nem sabem o que perderam. E agora a boa notícia: Vai haver mais!  E o  próximo encontro já se anuncia para breve, lá pelo início do Verão.

Por mim, é um prazer e uma honra integrar o DO, e uma felicidade conhecer tantas pessoas encantadoras que a blogosfera tem trazido à minha vida e que, aos poucos, se vão tornando amigos novos. 

Balanço final: suculento repasto e muito boa companhia. Uma noite em cheio. E a vontade de repetir. Muitas vezes!...

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A fé em alegria

por Isabel Mouzinho, em 12.05.15

Acho que devia ter uns sete anos quando estive em Fátima. Terá sido a primeira e a única vez. Guardo dessa visita imagens um pouco difusas, mas na verdade nunca tive vontade de lá voltar. Porque é um lugar  que associo a uma vivência da fé que me diz pouco, que entendo mal, que me parece excessivamente sofredora, dolorosa, como uma imensa lamúria. É bonita, de certo modo, a "procissão das velas"; mas há naquele "Avé, Avé.." arrastado, qualquer coisa que me deprime. Que respeito, mas que não tem nada a ver comigo.

Na verdade é muito mais com a alegria espanhola que me identifico e tenho pela Virgen del Rocío uma devoção como a que muitos terão por Fátima. Maio é também, por isso, mês de Romaria para mim. Mas é num outro mundo, em que a fé se celebra em festa e na exultação da vida. Esta romaria andaluza, que reune numa aldeia da província de Huelva, nos limites do Parque Nacional de Doñana, milhares de" romeiros" vindos de toda Espanha e do mundo, acontece sempre no Pentecostes e até já calhou coincidir com o nosso 13 de Maio.

Foi há exactamente dois anos, que escrevi este texto. Ele explica brevemente do que se trata; e porque penso muito em tudo isto durante o mês de Maio, hoje tive vontade de o trazer até aqui.

 

O Rocío colado ao coração

 

 

Esta é a semana do Rocío, a que antecede o fim de semana da Romería, que se celebra sempre  no Pentecostes. Por esta altura, as mais de cem hermandades preparam-se para fazer o caminho até à  Aldea del Rocío, a pé, a cavalo, em carroça, levando consigo o sinpecado (insígnia com a figura da Virgem do Rocío)  e a carreta que o transporta, os vestidos de flamenca, chapéus e flores nos cabelos, medalhas de romeiro ao peito e o coração cheio de alegria e de fé, na ilusão de viver uma vez mais um reencontro de amigos e de "irmãos", que se juntam, cada ano, naquela enorme festa, que parece sempre igual mas nunca  é a mesma, para rezar à Blanca Paloma e celebrar a vida.

 

 

 

 

 

 

Durante todo o fim de semana e até segunda-feira, quando acaba a Romería, o Rocío é uma aldeia que não dorme, em clima de festa permanente levada até ao limite do que o corpo aguenta, as casas de portas abertas, misturando o canto e a dança, a guitarra, a flauta e o tamboril com o trote dos cavalos e o chiar das carroças em incessante vai e vem pelas ruas de areia.

No Sábado, o dia é marcado pelas apresentações à Virgem, um desfile de hermandades que dura todo o dia e se vive em alegria, entre vivas e olés, palmas a compas de sevillanas, chapéus lançados ao ar, foguetes e lágrimas incontidas.

Mas é na madrugada de Domingo que toda a  aldeia converge para junto da ermita, para assistir ao momento mais alto e comovente da Romería:  a saída da Virgem, num silêncio imenso, quebrado pelas  palmas da multidão emocionada, unida pela força desabrida da fé, no momento tão ansiado em que se avista a imagem dourada surgir na noite,  sob o céu estrelado. E, até  ao amanhecer, a Virgem percorre a aldeia,  a visitar as hermandades, regressando de novo ao seu altar, na ermita branca, quando o sol já vai alto. 

 

 

 

E, no entanto, o Rocío é muito mais do que tudo isto. Porque para lá da realidade dos factos está, principalmente, o que não pode contar-se. Como se explica o Rocío a quem nunca o viveu? Como exprimir em palavras, o que é só sentimento e emoções à flor da pele?

Como transmitir a frescura do rebujito com sabor a hortelã? A comoção de ver chegar as hermandades com o cheiro dos pinheiros e o pó do caminho ainda agarrados à pele, o corpo cansado e os olhos brilhantes por chegar enfim à aldeia? Como revelar o som enlouquecido e cadenciado dos sinos,  tocando sem cessar? Ou  a calma tranquilidade do entardecer quieto e silencioso da marisma, a contrastar com o bulício da festa? Que palavras poderão dizer a sensação do recolhimento no meio da multidão, em silêncio diante da Virgem, sentindo a força da sua protecção, experiência única  de reencontro com o mais fundo de nós? Ou a magia dos instantes em que a festa se interrompe, às duas da manhã, e as luzes se apagam para entoar a Salve,  num coro arrebatado em que todas as vozes se unem e soam como um só clamor:  olé olé olé olé olé al Rocío yo quiero volver pa cantarle a la virgen con fe, con un olé, olé olé olé olé... 

Só quem já viveu o Rocío, nem que seja uma vez, pode entender aquilo de que falo. Há naquele lugar, na verdade,  um encanto especial que  se nos cola à vida e se guarda no coração. Porque há lugares assim, que se tornam nossos para sempre.

        

 

Depois de 2000, quando tive o privilégio de estar na Romería pela primeira vez, já voltei mais sete vezes. E em cada ano que não vou, como este, é como se alguma coisa se quebrasse no mais fundo da minha alma, o que faz com que, à medida que a data vai ficando mais próxima, alastre no peito o sentimento doloroso de não estar onde devia.

E quer vá, quer não, quando chega o mês de Maio penso muito na Romería, momento fundamental do meu ano, com aquela dimensão espiritual que nos aproxima da nossa essência, como têm a Páscoa, ou o Natal, por exemplo.

Só os que, como eu, trazem este lugar consigo, marcado no peito e na pele para sempre, mais forte e mais fundo que  uma tatuagem, conseguem entender a nostalgia que me enche o coração, o pensamento a fugir para muito longe daqui, a querer levar-me para o Rocío nestes dias, detendo-se naquela aldeia tão extraordinária, onde nos evadimos e abstraímos do resto do mundo, tão diferente de tudo que chega a parecer irreal, como uma utopia onde o sonho e realidade se misturam e a vida se reinventa e ganha maior sentido.

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"Enquanto há língua há esperança"

por Isabel Mouzinho, em 14.04.15
 

O Anfiteatro 1 da Faculdade de Letras foi hoje demasiado pequeno para acolher todos os que quiseram estar presentes no Fórum/Debate pela defesa da Língua Portuguesa e contra a aberração do AO de 1990.

Durante mais de três horas foram muitos os escritores, jornalistas, professores e alunos dos ensinos universitário e secundário, tradutores, intérpretes, cidadãos, que se manifestaram contra este aviltamento da língua e as suas consequências. Foram muitos, de igual modo, os que não podendo estar presentes, fizeram chegar a sua opinião e adesão à iniciativa, como João Braga, Bagão Félix, ou Garcia Pereira, por exemplo. Naturalmente, Vasco Graça Moura foi  um nome muito citado. Nada mais justo! É por isso que o título deste post lhe presta também homenagem, citando as suas palavras, sempre certeiras.

Na impossibilidade de dar conta de tudo o que ali que foi dito, nas mais diversas e pertinentes intervenções, e enquanto aguardamos que o filme do encontro chegue ao Youtube, aqui fica a moção hoje aprovada:

O chamado "Acordo Ortográfico" ("AO") contradiz-se já na sua designação, porque nem é acordo (só válido se ratificado por todas as partes assinantes) nem ortográfico (uma vez que o seu texto prevê a existência de facultatividades). Implementado sem discussão pública, contra o parecer de conceituados linguistas e docentes de língua e literatura portuguesa, só por via de uma imposição autoritária é que tem sido possível a sua adopção, nunca consequente devido à destruição de uma normatividade articulada com a herança etimológica.

Após três anos e três meses da sua imposição no ensino e na administração Pública, os resultados estão à vista, traduzindo-se numa arbitrariedade de cortes de consoantes mesmo quando são pronunciadas. O chamado "AO" falhou assim os seus autoproclamados objectivos, nomeadamente a unificação das variantes do Português e uma alegada "simplificação" que corresponde a uma total insegurança ortográfica.

Por isso, os cidadãos reunidos no Fórum organizado por um grupo de docentes e alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 14 de Abril de 2015, exigem a imediata suspensão da obrigatoriedade do uso do "AO" nas escolas e na Administração Pública, bem como a organização de um referendo cujos resultados reflictam o modo como todos os utentes da língua pensam qual a opção ortográfica que melhor corresponde a um uso sustentado da mesma, no quadro das línguas europeias da mesma família.

Enfim, por enquanto, a todos quantos gostamos suficientemente da nossa língua para não poder aceitar vê-la assim maltratada e destruída, e colaborar nisso, resta-nos o direito à objecção de consciência e a resistência activa a esta ignomínia. Por mim, sei muito bem o que fazer; e manter-me-ei fiel àquilo em que acredito.

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Ainda Manoel de Oliveira

por Isabel Mouzinho, em 04.04.15

 

Sobre Manoel de Oliveira já muito se disse. Mas faltava isto... 

 

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Outra dimensão

por Isabel Mouzinho, em 22.03.15

É difícil imaginar o que sentem e pensam os que amamos quando passam a viver num universo de silêncio, feito de mãos que apertam outras mãos e de gestos a que apenas metade do corpo responde. E tentamos em vão adivinhar o que nos dizem os olhos que, mais transparentes que nunca, ora se fixam em nós, ora vagueiam distraídos do mundo, ou a que correspondem as tentativas mais ou menos aflitas e inquietas de comunicar o que não chega às palavras, e se limita a incompreensíveis sons, que não podem decifrar-se.

A longevidade, que é uma conquista do nosso tempo, traz consigo perplexidades e contradições, e esta será talvez a mais dolorosa e martirizante de todas: o prolongamento da existência em lenta agonia, que é apenas um sopro de vida e às vezes nos parece não ser já coisa nenhuma.

E perguntamo-nos com frequência qual o sentido de tudo ser assim, que dimensão é esta a meio caminho entre cá e lá, enquanto tentamos aceitar e adaptarmo-nos à nova realidade e a outra lógica, e nos dói a casa agora vazia de vozes e risos, onde pouco mais resta que memórias de dias felizes e objectos sem alma.

Então lembramos o que foi o maior e o melhor de todos os colos, e em nome de tantas lições de alegria e boa-disposição que recebemos, vamos aceitando tudo, vamos tentando ser amparo e aconchego na fragilidade do fim que se aproxima, e escutamos vagamente Brel, lá longe, pungente e certeiro: les vieux ne parlent plus ou alors seulement parfois du bout des yeux (...) les vieux ne bougent plus, leurs gestes ont trop de rides, leur monde est trop petit...

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A lei do menor esforço

por Isabel Mouzinho, em 27.02.15

A recente proposta do CNE no sentido acabar com as "retenções" no Ensino Básico e Secundário é muito mais que uma aberração. Parte mais ou menos do pressuposto que se o número de reprovações é demasiado elevado e atinge proporções "preocupantes", acaba-se com elas e está o problema resolvido. As consequências destas "passagens administrativas", que me recordam vagamente os tempos do PREC, já não são relevantes. A formação de cidadãos cada vez mais incultos, incapazes de pensar e de emitir opiniões consistentes também não é de todo pertinente.

É o expoente máximo do facilitismo reinante. Assustador, no mínimo...

Dei-me ao trabalho de ler a recomendação do CNE de uma ponta à outra. Cita uns números do PISA, como convém a qualquer estudo/relatório para que ele pareça ter maior seriedade e rigor "científico", e faz uma série de recomendações muitíssimo genéricas, que se traduzem em pouca coisa, para não dizer coisa nenhuma. Deste género: que têm que ser dadas condições às escolas para isto e aquilo, que as dificuldades de aprendizagem têm que ser diagnosticadas precocemente para se poder apoiar os alunos com dificuldades e, claro, como não podia faltar, lá surge o inevitável  apelo ao maior envolvimento das famílias.

Só quem está na escola e a vive por dentro todos os dias no que ela tem de mais duro e desgastante do ponto de vista físico e psicológico sabe como tudo isto é pura "conversa fiada". Sabe, também, que 95% dos maus resultados escolares não representam quaisquer dificuldades de aprendizagem, mas apenas falta de trabalho, de empenho e de esforço, promovidos por uma cultura de anos que, a pretexto da "democratização" do ensino e absurdas experimentações / reformas foi sempre nivelando por baixo, promovendo o facilitismo mais ou menos generalizado, a lei do menor esforço, a incompetência e a falta de rigor e de profissionalismo.

Este é só mais um passo no caminho do abismo. Ou talvez até o empurrão final...

Fico sempre a pensar por que se pedem estes pareceres a quem pensa muito, mas faz pouco. Quantos destes "conselheiros" saberão o que é a realidade de uma sala de aula actualmente?

E, já agora, faço(-lhes) também uma recomendação: e pensar em fechar as escolas de vez? Não?

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Blogue da semana

por Isabel Mouzinho, em 08.02.15

É-me difícil fazer uma única escolha. Sempre tive dificuldade em dizer quem é o meu actor ou cantor preferidos, ou em escolher um único filme, ou livro, que fossem "o da minha vida".

No que diz respeito aos blogues, optar apenas por um torna-se ainda mais complicado. Na verdade, só há cerca de três anos este mundo tão complexo como aliciante  se me revelou e, por isso, estou longe de o conhecer bem. Nem sei se me interessa, para ser sincera. É um universo demasiado vasto, onde do estilo ao tema é possível encontrar um pouco de tudo. Do que já conheço, são pouco numerosos aqueles de que gosto verdadeiramente. De um modo geral, são os que me fazem pensar os que mais me tocam. Uma questão de gosto pessoal, sem dúvida, de feitio, de afinidades e de afectos, ou seja lá o que for que me leva, nisto como noutras coisas, a aproveitar o que me parece bom e a ignorar o resto.

Tenho duas grandes referências, blogues incontornáveis que visito todos os dias e onde sempre me apetece voltar. São os "cá de casa": O Fio de Prumo, por onde comecei e que é pois minha inspiração e exemplo de vida, e de "sagesse", onde aprendo a viver melhor através de um olhar sábio, experiente e bem-disposto sobre os mais diversos assuntos do quotidiano; e o Cair em Tentação, para mim o mais bonito de todos, que mistura na perfeição inteligência, sensibilidade, bom gosto e sentido de humor.

Mas, para não parecer demasiado suspeita, nem repetitiva, até porque hoje me ligam aos seus autores laços de profunda estima e amizade verdadeira, escolho para blogue da semana Acordar um Dia. Não é por acaso. Sou uma amante de literatura e este é um blogue quase só de poesia. O seu autor, Nuno Camarneiro, é para mim uma descoberta recente e uma agradável surpresa. Conheci-o em pessoa primeiro, gostei de o ouvir, interessou-me o seu percurso algo sinuoso e só então tive vontade de lhe conhecer a obra. Tem uma escrita simples e clara, mas que cativa. Depois, cheguei ao blogue. E acho que vale a pena passar por lá...

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Transportes públicos

por Isabel Mouzinho, em 17.01.15

Há muitos anos, tive uma professora que dizia que gostava muito de andar nos transportes públicos, porque era uma interessantíssima experiência do quotidiano.

 Na altura não entendia muito bem o que ela queria dizer, mas percebo-o agora perfeitamente. E lembro-me muitas vezes dessa frase.

Hoje, sou uma verdadeira especialista dos transportes públicos de Lisboa, que domino em pormenor. Sei as vantagens e desvantagens de cada um, conheço todos os percursos e ligações, qual a maneira mais rápida de chegar onde quer que seja e até alguns horários.

Raramente me ponho a ler ou a ouvir música. Distraio-me a observar as pessoas, o modo como se comportam, o que vestem, os gestos e os olhares, o que lêem, de que conversam. E às vezes ponho-me até a imaginar-lhes as histórias e as vidas. É uma interessante e muito diversificada amostra sociológica, de facto.

Vem tudo isto a propósito de um diploma recentemente publicado em Diário da República, que julgo ter entrado hoje em vigor e que prevê a aplicação de "coimas" entre 50 e 250 euros a "quem praticar atos ou proferir expressões que perturbem a boa ordem dos serviços ou incomodem os outros passageiros" nos autocarros.

Não conheço o diploma e apenas tomei conhecimento dele pela comunicação social. Ainda assim, ao que parece,  "a coima também se aplica a quem entrar nos veículos quando a lotação estiver esgotada, entrar e sair do veículo quando este esteja em movimento, fora das paragens, ou depois do sinal sonoro que anuncia o fecho das portas, assim como ocupar lugar reservado a pessoas com mobilidade condicionada e grávidas e projetar objetos para o exterior do veículo."

Tudo isto me faz sorrir, no mínimo. Porque quem frequenta os transportes com regularidade e atenção, como eu, sabe que mais de metade dos seus utentes  não cumpre o que há de mais básico, como por exemplo pagar bilhete. E mesmo em relação a isso a impunidade é quase total. A fiscalização existe, mas aparece um fiscal num autocarro (aliás meia dúzia, que eles andam agora em grupos de três, de  quatro ou até cinco) cada dois ou três meses. E no resto do tempo toda a gente circula livremente, ou muito perto disso, o que me leva a crer que neste como noutros casos, se calhar, "o crime compensa".

E pergunto-me que sentido fará criar este tipo de diplomas com regras que apenas existem no papel e com umas "coimas" que depois nunca chegam a ser aplicadas na realidade.

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Vasco Graça Moura

por Isabel Mouzinho, em 03.01.15

lamento para a língua portuguesa

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia-a-dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade,
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
mas cá e lá do que eras tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
de violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tal degradação tão mais feliz
que o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de haver milhões que te uivam triunfantes
na raiva e na oração, no amor, no grito
de desespero, mas foi noutro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste, eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.
 
(Vasco Graça Moura faria hoje 73 anos. E faz-nos muito falta...)

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