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Vidas dos famosos

por Bandeira, em 13.02.17

A certa altura, Vincent Van Gogh percebeu que não podia continuar a dar ouvidos ao irmão.

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Factos alternativos

por Bandeira, em 13.02.17

Sucede por vezes que certas ideias incongruentes, talvez por jamais nelas investirmos um pouco do nosso capital reflectivo ou as havermos absorvido em muito novos, se colam ao nosso cérebro, um pouco como cartões de crédito sem plafond às carteiras de administradores de empresas públicas. Por exemplo, eu recordava-me muito bem de haver habitado no 4º andar de certo prédio de Algés; eu nunca pusera em dúvida o facto de haver habitado no dito 4º andar do supracitado prédio de Algés; mas certo dia, passando de automóvel pela rua do prédio de Algés em cujo 4º andar me recordava de indubitavelmente haver habitado, e tendo eu partilhado esse importante dado autobiográfico com os restantes ocupantes da viatura, alguém chamou a atenção para a circunstância de o prédio em questão não contar mais que dois andares bem contados, verdade que, de coração apertado, atestei visualmente alguns segundos antes de ligar para o meu neurologista - não sem antes apreciar o facto de ainda haver alguém que presta atenção ao que eu digo.

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Não perguntes

por Bandeira, em 31.01.17

Passo algum tempo no Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social. Algumas caras de assunto perfunctório, outras que podiam ser cavadas num vaso grego. Um homem põe a senha dele a dez centímetros da minha cara. Se faço o favor de lhe dizer em que número vai a senha “C”. O monitor está a dois metros de nós; infiro que não veja os números por estar sem óculos. “Vai no 64”. É o número dele. Observo-o enquanto se atira contra a pesada porta de vidro. Vai aflito. Espero que não perca a casa, o carro, os filhos. Senta-se, a funcionária corresponde aos bons dias. Consigo imaginar o diálogo que se segue. “Enviámos-lhe vários avisos por carta”. “Não duvido, minha senhora, mas vocês ficaram com os meus óculos e eu, sem eles, não sou capaz de ler”.

Não perguntes por quem dobram os sinos.

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Síndrome de Stendhal e tal

por Bandeira, em 27.01.17

José Bandeira

(Foto: Um homem atacado pela síndrome de Stendhal em plena Santa Croce, num momento místico captado por este seu criado. A igreja está escura para que não se veja o quanto é feia.)

O grande crítico vitoriano John Ruskin (a quem por vezes acendo velinhas e cuja foto quero muito em versão magneto de frigorífico) diz que a basílica florentina de Santa Croce não passa de uma espécie de mal amanhada despensa de frescos, túmulos e turistas, não forçosamente por esta ordem. O alvo dele é praticamente tudo o que não passou pelo crivo do arquitecto original, Arnolfo di Cambio, cujo estilo aprecia e ao qual, num rasgo de genialidade que ainda hoje me tira o sono, deu o nome de... Arnolfo-Gótico.

Permita, galerníssimo leitor, que cite Ruskin em Mornings in Florence (tradução caseira):

“[o leitor] Regressará a casa com a vaga impressão de que Santa Croce é, de algum modo, a mais feia igreja gótica em que alguma vez pôs os pés. Bom, de facto assim é (…)”

E pronto, no que aos ingleses diz respeito é case closed.

Mas de Stendhal, que não era crítico de arte, vitoriano muito menos e as más-línguas chegam a jurar francês, dir-se-ia que apreciou Santa Croce, que foi o primeiro local turístico que visitou, pelo que percebo das suas notas de viagem, aquando de uma visita à cidade toscana. Tanto assim que, em saindo da basílica, o autor do jamais concluído O Rosa e o Verde (cores que, digo-o a título de curiosidade, abundam nos mármores florentinos), trocou os passos, sofreu uma espécie de vertigem, quase desfalecia. A citação que se segue é traduzida de Naples, Rome et Florence:

“Havia atingido aquele ponto emocional onde se cruzam os sentimentos apaixonados e as sensações celestiais que nos dão as Belas-Artes. Em saindo de Santa Croce, sofri um acelerar do coração, aquilo que em Berlim chamam 'nervos'; a vida exauria-se dentro de mim, caminhava com receio de cair.”

O fenómeno, que atingia um sem-número de outros visitantes de Florença, depressa se tornou conhecido como “Síndrome de Stendhal”; e no Ospedale di Santa Maria Nuova inaugurou-se um serviço – que viria a tornar-se muito conceituado – dedicado ao estudo dessa estranha condição clínica que atinge aqueles que sofrem os efeitos da exposição excessiva a obras de arte. Ignoro se o serviço ainda funciona, a bem da tradição espero que sim, se bem que continue a achar que o mal de Stendhal era falta de brioches e cappuccino.

“E como… ahm… como ultrapassou Stendhal a desagradável situação?”, ouço perguntar, de Moleskine e caneta em riste, o plantivo leitor, recordado de haver sentido algo de semelhante numa exposição de aguarelas de um Artista Local na junta de freguesia do seu bairro.

Pois ultrapassou-a, respondo eu, sentando-se num banco e lendo poesia – à época, o ansiolítico mais eficaz, até porque se podia tomar com álcool. Muito álcool.

 

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Da Gravidade

por Bandeira, em 23.01.17

Um amigo de infância – crescemos ambos em Lisboa, na parte desfavorecida da Avenida de Roma – faz-me notar que a alopecia nos está a invadir o outrora hirsuto couro cabeludo (Alopecia era a deusa liechtensteinense do cheque careca, sincretizada pelos romanos aquando da conquista do principado por três legionários etilizados que o confundiram com um Burguer King; sabemos por Salústio que terá revelado a Júlio César, num sonho, um truque para disfarçar as entradas, a saber, pentear as melenas na direcção da testa.)

Não apenas carecas, old chap, como diziam na parte favorecida da avenida, não apenas carecas, mas irreparavelmente deselegantes. “Fala por ti”, dirás. Não preciso, outros o fazem bem melhor do que eu e sem precisar de palavras. Ontem, em passeio dominical pelas faldas do Tejo, topei com uma roulotte de venda de comes e bebes. Era fim de tarde, havia alguns bolos mas de salgados sobrava apenas uma empada, que solicitei me fosse entregue para que a devorasse. A menina da roulotte nem se mexeu. Manteve os cotovelos apoiados no balcão, as mãos nas axilas que adivinhei quentinhas, e disse melancólica, “Desculpe, mas já só tenho uma de legumes”.

Permaneci alguns segundos em completa imobilidade, usando uma técnica Zazen que me permite intuir a natureza da Existência ou, em alternativa, não cair redondo no chão. Então disse, a voz embargada pelo choque: «Espere. Deixe-me ver se percebi. A menina olhou para mim e pensou, “Eis aqui um carnívoro de quase cem quilos; um homem com uma percentagem de DNA neandertal superior aos comuns 3 ou 4% e que, em podendo, se alimentaria exclusivamente de carne crua nas suas cinco ou seis refeições diárias; alguém para quem a ideia de gourmet consiste numa salada de coiratos, pé de porco e caracoletas, tudo regado com muita cerveja. O aparelho gástrico deste cavernícola é incapaz de digerir uma empada de vegetais.” Foi isso? Diga lá. Foi?».

Ela riu-se muito, decerto do nervoso, deitou um olhar carente de solidariedade para a Judas que me acompanhava (e que também se ria a bandeiras despregadas), negou que eu fosse um cavernícola, pelo menos não um dos mais hirsutos (lá está, alopecia), e com um gesto receoso, como quem dá um amendoim ao babuíno que lhe estende a mão traiçoeira, entregou-me a empada de legumes. Antes, porém, ainda hesitou – também isso eu percebi – e perguntou-se a si mesma se eu iria requerer um guardanapo.

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A Mãe

por Bandeira, em 21.01.17

A ti, generoso amigo norte-americano que me diz soluçando, entre dois goles de whiskey, “Por muito que me custe, este é o meu presidente e eu apoiá-lo-ei sem reservas”, lembro as imortais palavras do (literalmente) grande Chesterton:

“’O meu país, com razão ou sem ela’, é algo que a um patriota jamais ocorreria dizer excepto em casos desesperados. Seria como dizer ‘A minha mãe, bêbada ou sóbria.'"

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Trumpeta do Apocalipse

por Bandeira, em 21.01.17

José Bandeira/DN

(José Bandeira/DN)

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Roupa interior azul

por Bandeira, em 18.01.17

Em epístola que em tempos me endereçou, Oscar Wilde (para quando o Facebook, rapaz?) contou-me que havia sido formalmente convidado para jantar no Thirteen Club. O objectivo primeiro – e, julgo, único – da distintíssima agremiação consiste em combater e mofar-se da superstição sob todas as suas formas, incluindo isso de que não se coloca uma vírgula imediatamente antes de uma copulativa e que talher de peixe existe (quando na verdade apenas se distingue do de carne pelo cheiro). Nas mesas haveria treze lugares, da ementa constariam treze pratos e no final da refeição teria lugar uma orgia de estilhaçamento de espelhos.

Diz-me o dear boy, no entanto, que declinou o convite e que a vida lhe parece mais interessante quando apimentada por uma certa dose de arrebatamento místico. Não sei se concorde, por princípio sou até contra, mas a minha atitude face à superstição é, em grande medida, circunstancial. Sabe aqueles funcionários de companhias de TV por cabo e quejandos que assentam escadas no passeio? Em havendo espaço, sigo a lógica da aposta de Pascal (o cujo constatou que, havendo desvantagens em não acreditar em Deus e apenas benefícios em acreditar, a catequese até nem ficava cara), passando pelo lado de fora da escada; não havendo espaço, ponho cara de quem acha tais crendices coisa de gente sem coragem para enfrentar os tornados dessa vida madrasta e passo por baixo de peito feito, tendo apenas o cuidado de verificar pelo canto do olho se a escada está bem ancorada e o funcionário em estado de razoável sobriedade.

Olhe, veio-me agora à lembrança que na passagem de ano não usei roupa interior azul. Dang!

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Fim do Mundo

por Bandeira, em 17.01.17

José Bandeira/DN

 (José Bandeira/DN)

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Conversas de xadrez

por Bandeira, em 15.01.17

José Bandeira / DN
(José Bandeira/DN)

 

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A Peste

por Bandeira, em 15.01.17

Os centros de saúde mudaram muito desde os tempos da peste bubónica, maleitoso leitor. Agora estão todos informatizados, há ecrãs, dinguedongues, apitos tipo Espaço 1999, numa palavra, eficiência. Logo à entrada das instalações, dou com um monitor táctil (note que o facto de estar à entrada já transmite uma ideia de planeamento e funcionalidade que seria impensável vinte anos atrás, quando o teriam instalado no bar em frente com abertura às dez da noite, peça a chave no intervalo do show à menina que dança no varão e não se esqueça de lhe pagar uma bebida pelo trabalho). Por motivos claramente arbitrários, o monitor exibe meia dúzia de opções. A primeira permite “Obter receituário”. A segunda, “Obter credenciais e receituário”. A terceira não pode ser reproduzida na presença de menores. Escolho a primeira opção. Vou clicando aqui e ali, admito que de forma aleatória, até ao ponto em que me é solicitado o cartão de cidadão. Este deverá ser introduzido na ranhura (disponibilizada) para que uma espécie de cópula informática tenha lugar. Durante este processo, “o sistema” ficará a saber tudo sobre mim, até porque estarei com todos os meus dados pessoais à vista. Mas não há química entre o meu cartão e a ranhura (disponibilizada) e sou informado de que serei obrigado, afinal, a “introduzir manualmente”. Semicerro os olhos, aponto as cataratas na direcção das formiguinhas no cartão e digito no teclado numérico, piscina de bactérias patogénicas (nada contra, não sangram elas também quando as picam etc.), o meu número de utente. Sucesso! Surge uma mensagem informando-me de que a minha senha está a ser impressa e que é minha obrigação aguardar um bocadinho. Várias horas depois (note: tenho fraca noção da passagem do tempo, uso a bateria do iphone para contar os minutos), torna-se óbvio que a senha *não está* a ser impressa.

 

Então a senhora que se segue a mim na fila entende explicar-me, passo a passo, como proceder para obter receituário. Faz exactamente o mesmo que eu havia feito, incluindo tentar que a ranhura (disponibilizada) e o meu cartão mantenham uma relação estável. Durante todo o tempo explico timidamente que já havia feito tudo aquilo. Mas eis que, sucesso! – surge uma mensagem dizendo que a minha senha está a ser impressa e que é minha obrigação aguardar um bocadinho. Algumas horas depois (ler nota acima) torna-se evidente que a minha senha *não está* a ser impressa. É este o momento em que o segurança de serviço decide oferecer os seus préstimos. “Qual é o seu problema?”, pergunta com a doçura possível num homem de 120 quilos que só deve ter conseguido o emprego após ameaçar o futuro patrão de que se o não contratasse lhe furaria os pneus do Toyota Celica, incluindo o sobressalente. Explico-lhe tudinho. “Isso acontece”, diz fazendo uma boquinha de selfie, “porque não escolheu a opção ‘Obter credenciais e receituário’”. Humildemente protesto: não quero obter credenciais, apenas receituário. Ele faz uma pausa para respirar fundo, revira os olhos e pergunta-me: “Sabe por que razão deve escolher “Obter credenciais e receituário?”. Admito que não, não sei, peço desculpa mas não sei. “Porque”, explica-me com paciência de Job, “a opção ‘Obter receituário’ não está a funcionar”. E como que para tornar ainda mais óbvio o quanto teria sido simples resolver a questão se eu não estivesse determinado a complicar a vida dos utentes que fazem fila atrás de mim, pressiona a tecla correspondente a “Obter credenciais e receituário”. Sem mais nada, sem um ruído, sem um queixume, o monitor expele uma senha com os dizeres “D071”. Sinto na nuca o olhar odiento dos restantes utentes. Julgo que um deles chega a dar-me um calduço por cima do cachecol. Orgulhoso do seu desempenho (jornalistas, por favor, parem de dizer “performance”!), o segurança vira costas e vai fazer algo verdadeiramente útil, no caso ler o Record. Sento-me e olho (como uma vaca olhando o prado, é como me sinto, que quer) para o ecrã de chamadas. Ignoro os AA, os BB e os CC. A senha D corrente é a 019. Após vinte minutos sem qualquer alteração, começo a suspeitar de que o dia não vai ser fácil – mas nada, nada me fará voltar a passar pelo segurança sem o receituário na mão.

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Qualquer economista quântico sabe

por Bandeira, em 13.01.17

Eu ia escrever um pequeno ensaio sobre uma disciplina inventada a que chamaria “Economia Quântica”, fazendo um paralelo muito arguto entre a incerteza que parece caracterizar o comportamento das partículas subatómicas e aquela que vem alapando o corrosivo germe da dúvida nos hoje tão fragilizados alicerces da Economia. Começaria com este naco de prosa da mais fina cientificidade:

 

"Qualquer economista quântico sabe que, das quatro forças do Universo – gravidade, nuclear fraca, electromagnética e nuclear forte –, a gravidade é a menos séria e a nuclear forte é a de maior gravidade. É com este aparente paradoxo que, (etc., etc.)"

 

Mas fiz uma pesquisa, e – como pude não ter adivinhado?– já existe uma Economia Quântica. Como Nietzsche, estarei num chalé suíço recuperando, ou não.

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Breve História da Higiene Pessoal

por Bandeira, em 05.01.17
Disputava o príncipe com o rei a única casa de banho do palácio: “Precisamos de fazer a barba”, dizia o príncipe. “E nós queremos tomar um banho de imersão”, retorquia o rei. “Mas nós vamos passar a noute fora com uma cortesã gaiteira”, insistia o príncipe. “Pois ide como estais, e tende o cuidado de tornar perfumado ao paço”, arreliava-se o rei. Desta forma encostado aos azulejos, o príncipe permitiu que o rei entrasse na vetusta banheira; após o que lhe afogou a majestade sem grande dificuldade.

Ultrapassada alguma comoção inicial, o povo aclamou o matante como seu governante; e, em sinal de agradecimento à Divina Providência, o novo monarca não voltou a tomar banho de imersão em toda a sua longa vida – ainda hoje luzem no palácio o duche e polibã doirados que em lugar da real banheira ele mandou fossem instalados.
 

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A nossa música

por Bandeira, em 04.01.17

A intervenção era de rotina. Mas a mulher do cirurgião fugira nessa mesma manhã com o proctologista, e ele, que era apenas humano, operou para esquecer.

 

O paciente acordou na madrugada seguinte com o ventre rígido, dores agudas e vontade de dançar slow. Tiraram radiografias, entraram em pânico e ligaram para o telemóvel do cirurgião. Ele não demorou dez minutos. Tinha aspecto de quem passara a noite a vender as mágoas aos pombos no relvado do hospital. Olhou a radiografia e a queixada por barbear tombou-lhe no peito. Esquecera um velho single de 45 rotações no interior do paciente.

 

"A nossa música", gemeu chorando, e encostou o ouvido à barriguinha dele.

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Bandeira de papel

por Bandeira, em 03.01.17

José Bandeira

 

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Uma facadinha (filosofia de alcova)

por Bandeira, em 02.01.17

“Os blogues são como as ostras: às vezes têm pérolas dentro, às vezes causam indigestão.” Não, espere, isso faz sentido. “Blogues são como ostras: eles abrem e fecham.” Ah, muito melhor. Que tal “blogues são como as portas de um guarda-fatos: eles abrem e fecham”?

 

John Locke cogitou, pouco antes de dar entrada nas urgências, em como o entendimento humano se assemelha a um armário fechado cujas frinchas não nos permitem mais do que um vislumbre da realidade exterior. Cogitou ele nisso quando percebeu, pela cintilação da luz, que aquele que estava prestes a deixar de ser o seu melhor amigo de sempre atravessava o quarto na direcção do guarda-fatos onde se acoitava. Depois a inútil resistência da mulher nua, as mãos grandes e peludas puxando as portas contra um corpo excessivo de militar condecorado por mais de mil actos de bravura, nem todos em batalha.

 

“Sabe que eu desconfiava, John?” – disse o bom militar – “eu abri o armário, e cá está você”.

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O Universo em três andamentos

por Bandeira, em 01.01.17


Diz-me o bate-chapas da oficina de automóveis que arrendou parte do meu crânio (a que não está ocupada pelo cérebro) que apenas uma vez, em toda a música para piano de Mozart, se encontra a indicação de pianissimo ao lado de um fortissimo: é na Sonata Nº 8 em Lá menor. “Hawking”, acrescenta o factotum da oficina com os olhos perdidos no calendário Pirelli, “chamaria talvez a isso ‘uma singularidade’”. E o electricista jura acreditar que “Mozart teria sido capaz de compor o Big Bang”, o cujo, garante, “mais não é que um pianissimo seguido de um fortissimo”.

Eu ia contestar, um pianissimo não era de certeza, era género coisa nenhuma, quando muito um da Capo. Mas o mecânico meteu-se na conversa e lá do fundo, enquanto examinava o carburador do Ford Cortina, pôs-se lírico: 

“Já imaginou? O universo inteiro em música para piano?”

Calei a objecção. Durante uns minutos, uma eternidade, todos os outros sons se envergonharam e ouviu-se a Sonata número 8 em Lá menor, de Mozart, o homem que podia ter composto o Big Bang.

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O dia em que não nos rimos

por Bandeira, em 30.12.16

Um dos meus aforismos predilectos (tanto assim que serviu de epígrafe ao meu primeiro blogue, em 2005) é do humorista e escritor setecentista Nicolas Chamfort: “O dia em que não nos rimos foi o dia que desperdiçámos”. Não acredito que não ache isso belo. Vale toda uma estante da mais empedernida filosofia, uma biblioteca apinhada de volumes de “auto-ajuda” e até um cherne na grelha com batatinha a murro que certa vez comi num restaurante da Praia da Tocha.

 

Chamfort deixou-se arrebatar pelos ideais da Revolução Francesa, mas acabaria escrevendo contra os excessos que via surgindo. Detido e torturado no período do Terror, foi libertado apenas para ser de novo ameaçado com a prisão. Preferindo “morrer livre a ser reconduzido como escravo”, quis matar-se; mas o tiro inábil despedaçou-lhe caprichosamente o nariz e parte substancial da mandíbula, deixando-o com vida e lucidez. Então Nicolas lançou mão de uma faca de cortar papel e procurou uma artéria vital. Sem sucesso. Os repetidos golpes no peito com o literário instrumento, notoriamente incapaz da violência que lhe era exigida, não puseram termo ao tormento de Nicolas. Desfigurado e sofrendo horrores, aquele que foi um dos mais incompetentes suicidas da História veria passar ainda um ciclo de quatro estações antes de soltar o suspiro final.

 

Não posso saber se aconteceu, mas eu gosto de imaginar que Chamfort foi capaz de rir disso (para que nem tudo tivesse sido desperdiçado) no dia em que ele morreu.

 

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Havia em Constantinopla, hoje Istambul, uma grande estátua equestre que representava o imperador Justiniano segurando um orbe com uma das mãos e levantando a outra na direcção do Leste. Os bizantinos acreditavam que a mão tinha o poder mágico de fazer parar exércitos e que o Império não cairia enquanto a bolinha se mantivesse no seu lugar.


A verdade é que ela tombava com frequência, tanta que as pessoas evitavam passar-lhe por baixo, mas depressa voltavam a colocá-la no sítio e calceteiros disfarçavam a depressão no pavimento com bonitos mosaicos de padrões em trompe l'oeil.

 

No ano da desgraça de 1453, o otomano Maomé II fendeu as muralhas de Constantinopla, quero dizer: não ele, claro, mas os projécteis de um canhão mastodôntico inventado por um húngaro a quem os bizantinos não haviam podido pagar e que, em vista disso, se passara para o lado muçulmano. Constantino XI morreu defendendo as pedras da brecha por onde a cidade foi tomada, mas havia já quem dissesse que ele voltaria pela mão do anjo que o tirara da batalha e o levara para uma gruta sob a cidade, onde o adormecera e enfaixara da cabeça aos pés porque achava que essa era a coisa certa a fazer e estava com tempo.

 

Tal especulação não era agradável aos ouvidos do conquistador, o cujo de imediato exigiu a presença da imperial cabeça senão. Os seus homens encontraram o corpo de Constantino, que reconheceram pelas meias púrpura com pequenas águias bordadas, mas a cabeça havia sido cortada, como aliás as de praticamente todos os defensores; cada época seus costumes. Não houve remédio senão retirar do monte de cabeças ensanguentadas aquela que aos turcos pareceu melhor se adaptar à figura do imperador.

 

Mantido na ignorância de tais dificuldades, Maomé II ordenou que a cabeça fosse dependurada da mão com que a estátua de Justiniano mandava parar o Oriente. Isso mostraria aos bizantinos que as histórias sobre o regresso do seu imperador “não tinham pés, apenas cabeça”, e todos ririam muito e achariam que ele era engraçado.

 

Mas os habitantes de Constantinopla, olhando a estátua, diziam uns para os outros baixinho:

 

“Hahahaha, eu conheço o Constantino e aquela não é a cabeça dele.”

 

Isso reforçou a crença na lenda do imperador adormecido; e começaram a circular pela cidade desenhos perturbadores representando um homem enfaixado guardado por um anjo.

 

Muitos anos durou a crença. Até que, no século XIX, um navio inglês vindo do Egipto aportou à cidade carregando antiguidades várias, entre as quais uma múmia a que as autoridades turcas deram de imediato ordem de prisão, pois julgaram ver nela a figura do imperador; e acusaram os ingleses de pretenderem restaurar Constantino XI no trono do Império Romano do Oriente.

 

Então cortaram a múmia em pedaços, e hoje poucos são os que acreditam que o imperador vai regressar, pelo menos em boas condições.

 

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Nota bene: este texto é de 2008 - mas não quis deixar de recapitular nestes dias em que todos, uns mais, outros menos, recapitulam.

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Feliz Natal!

por Bandeira, em 24.12.16

Não é fácil ser-se o presumível pai de oito crianças (eram sete mas uma não resistiu) por alturas do Natal, sobretudo quando se está desempregado numa firma que paga tão pouco quanto a minha – uma startup ostentando digníssima inscrição na porta, no espaço livre entre as citações judiciais, com os dizeres “Emprendendo desde 2017”. Por várias vezes chamei a atenção para a falta de um “e” no enunciado; do economato respondem invariavelmente que a pouca tinta que circula ainda nas veias da velha impressora está reservada para coisas verdadeiramente importantes, como fotos de gatinhos tiradas do Instagram, bilhetes para a ópera (excepto o Don Carlos) e notas de banco, não forçosamente por esta ordem.

 

Procurei uma lojinha de brinquedos no centro comercial Pandemónio e solicitei à menina atrás do balcão – onde se escondia, soube-o depois, por não ter “nada para vestir” – que me aconselhasse uma prenda para oito crianças entre os três meses e os nove anos de idade; igual para todas, claro, porque eu jamais aceitaria favorecimentos à vista de toda a gente. Conversámos um pouco sobre como era engraçado que ela, com um doutoramento em Astrofísica e duas idas à Lua no currículo, tivesse acabado numa loja de brinquedos. “Todos os anos tenho dado o mesmo aos miúdos”, disse-lhe então (não sem dificuldade porquanto a menina, gemendo, batia com a máquina Multibanco na cabeça), “Licor Beirão para os mais novos e vodka para os mais velhos, para eles misturarem com o que quiserem e dessa forma incentivar o seu espírito de iniciativa; mas este ano faltam-me os meios e, além disso, queria variar um bocadinho”. “Cigarros são uma boa alternativa”, respondeu a astrofísica entre soluços, “os mais velhos de certeza que já fumam e os mais novos gostam sempre de ver os bonecos”.

 

É preciso algum cuidado com os conselhos de pessoas que vivem na Lua. Ainda assim, comprei uma garrafa de CRF e um pacote de Definitivos que encontrei num alfarrabista. Tenciono telefonar à minha mulher e convidá-la a aparecer, na condição de não trazer o Gelsão com ela. A família toda reunida, outra vez. Vai ser uma festa.

 

Rufino

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Da posse

por Bandeira, em 18.11.16

Falho de sentido de posse como sou, nunca senti o edifício do DN como meu. Pelo menos não a magnífica fachada, não a porta giratória, não os painéis do Almada. Essas glórias e a memória delas serão sempre de quem trabalhou lá dentro, na redacção. Eu, que há 34 anos pela primeira vez entrei no edifício como colaborador, usava a entrada das traseiras, que dava para as máquinas e cheirava um pouco a óleo, sempre aberta às madrugadas; e depois dela a escada, com as suas paredes amarelas de fumo e um ar vagamente industrial.

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O bom taxista e o mau taxista

por Bandeira, em 12.10.16

José Bandeira/DN

 (José Bandeira/DN)

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Do Princípio ao Fim (17)

por Bandeira, em 09.10.16

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Se era para escrever sobre James Joyce, eu antes queria ter aludido ao início de The Dead, a última história em Dubliners: “Lily, the caretaker’s daughter, was literally run off her feet”. Olhe esse “literalmente” – Acha que Joyce teria sido capaz de o escrever por engano? Sherlock Holmes diria que o erro (my dear Watson) estava em tomar o erro por erro, porque não havia erro de todo. A haver um, seria o de considerar que toda aquela gente da sociedade de Dublin que corria para a festa e cujos casacões a criadita tão descalçadamente amontoava nos braços estavam vivos, na mais bela acepção da palavra; não o estava sequer a criadita, apesar de não ser gente da sociedade de Dublin. Eu iria por aí adiante, até ao ponto em que Gretta conta ao atónito Gabriel, seu marido, a história do rapaz de Galway que aos dezassete anos morrera de amor por ela. Eu podia ter escrito sobre isso e ter-me-ia sentido justificado porque a minha própria mãe, menina ainda, em inocência levou um rapaz como o de Galway a um fim semelhante. E depois contar-lhe-ia a si, agora que nem Gretta nem Gabriel – ou a minha mãe e o meu pai – nos podem ouvir, como o jovem pretendente deixou à minha mãe uma nota com uma única e ingrata palavra: “Ingrata”. E nos céus de Lisboa, como nos de Dublin, nevaria e a neve seria as almas de todos os mortos do mundo.

 

Se quisesse falar de pretendentes podia também ter dissertado sobre Ulysses, o pau-de-sebo da literatura e um livro a que podemos chamar livro sem risco de hipérbole porque, usando o critério do avô de João Ubaldo Ribeiro (perdoe se erro em um ou outro detalhe, ou mesmo no texto todo, estou sem tempo e cito de memória), não merece tal designação um volume que não se tenha em pé sozinho. Existirá em toda a literatura final mais excitante do que esse em que Molly Bloom dá o “sim” e que ditou a interdição da obra no então desenvolvidíssimo mundo falante de inglês? Se existe, por favor envie-me um exemplar em envelope inviolável e numa língua que eu seja capaz de ler.

 

Porque perdi a minha mãe há três meses e ganhei um neto há três dias, todavia, forçoso era que falasse sobre o princípio e o fim de Finnegans Wake, que Joyce escreveu, melhor, ditou já velhinho e praticamente cego. Ele dizia não perceber o problema da suposta ilegibilidade da obra: quem não a compreendesse lendo, que o fizesse em voz alta e de súbito tudo, e tudo é a vida na mais bela acepção da palavra, faria sentido. Não por acaso um físico, um homem bom e curioso, baptizou certa partícula elementar com o nome “Quark”, nome até então tão enigmático quanto a tal partícula e que emerge em igualmente enigmática frase do livro. Eu já lhe tinha dito que perdi a minha mãe há três meses e que ganhei um neto há três dias? O tempo que mediou estes dois extraordinários acontecimentos, vivi-o como um Finnegans Wake, um amontoado de partículas elementares que, lidas em voz alta – vividas – parece fazerem sentido. A última frase de Finnegans Wake, “A way a lone a last a loved a long the”, é também a primeira, e prossegue na primeira, que é também a última: “riverrun, past Eve and Adam’s, from swerve of shore to bend of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to Howth Castle and Environs”. E de súbito tudo faz sentido, outra vez, e outra vez, e outra vez. “Seja”, dirá o sorumbático leitor, “mas leu mesmo todo o Finnegans Wake?”. É claro que não. Pensa que sou o quê, louco?

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Guterres como Trump

por Bandeira, em 07.10.16

José Bandeira/DN

("Cravo & Ferradura", José Bandeira/DN)

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A Spatha e o Gladius

por Bandeira, em 10.05.16

Como deve ter sido aterradora para um disciplinado legionário romano, essa visão de milhares de bárbaros inteiramente nus, deslizando nos seus escudos como snowboarders pelas pistas nevadas dos Alpes, os corpos e os cabelos pintados e urrando como alguém que acaba de descobrir que lhe cobraram duas garrafas a mais na conta do restaurante. Mas suponho que o efeito se diluísse um pouco após a primeira carga do inferior ferro celta no scutum romano. Imagine um gigante – quero dizer, gigante quando comparado com um legionário baixinho: com 1,60m um romano já arranjava namorada –, guedelhudo, pintado com motivos de papel de parede do início dos anos 70, meio enterrado na neve, querendo muito emprestar alguma dignidade ao acto de tentar endireitar a lâmina da sua espada.

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The times they are a’changin’

por Bandeira, em 07.05.16

Escorrego na calçada molhada e quase caio, mas aguento-me. Um taxista pára o carro, abre a janela do passageiro e diz “Grande tombo que ia dando, hã?”, e eu querendo fugir ao dilúvio, “Pois, mas não houve azar”, e o enorme bigode insistindo, “Não pisou merda, era o chão mesmo, ali não havia merda”, e eu já ensopado, “Pois não, obrigado pelo cuidado”, e ele “Estava a ver que tinha de ir levantá-lo do chão”, e eu a pensar que já cá faltavam a cultura clássica e a literatura.

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Premonição

por Bandeira, em 04.05.16

Jose Bandeira

 

(José Bandeira, Focus, 2004) 

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Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 03.05.16

Jose Bandeira/DN

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Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 24.04.16

Naturalmente, o cartão do cidadão terá dimensões superiores às do cartão da cidadã.

José Bandeira/DN

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Lógica da Literatura

por Bandeira, em 24.04.16

Shakespeare morreu há 400 anos.

Cervantes morreu há 400 anos.

Logo, Cervantes era Shakespeare.

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E isto para não chegar a lado nenhum

por Bandeira, em 18.04.16

José Bandeira - Pilos, Messénia, Grécia
Região de Pilos, Messénia, Grécia (Foto José Bandeira) 


Garantir que os gregos não inventaram a democracia como hoje a conhecemos é dizer que os sumérios não inventaram a jante de liga leve. Depois de uns Bushmills dá para aceitar, mas há necessidade? Fiel a mim mesmo, serei pedante e lembrarei que até os romanos, cuja civilização em certa medida se construiu contra a dos gregos (leia a Eneida outra vez, vá), perceberam a relevância do tremendo legado. E se Popper apodou Platão de totalitarista, não deixou de escrever também que a primeira filosofia grega era quase “demasiado boa para ser verdade”.

 

Em Os Cavaleiros, o poeta (muito) cómico Aristófanes arrasa Cléon, o grande demagogo da democracia ateniense. Eleito em acalorada discussão comandante militar, Cléon acabara de chegar de Pilos com mais de trezentos espartanos acorrentados e, sobretudo, humilhados; gente nada habituada a tratos de polé. Eis que a cidade se vê já a vencer a guerra (se quer saber, não a venceu) mas Aristófanes arrasa o seu próprio líder, ao mesmo tempo que retrata os seus conterrâneos, o povão ateniense, com condescendência aristocrática (quase todas as fontes que nos chegaram do período democrático, incluindo Aristófanes, são de certa forma hostis à democracia, quando não admiradoras confessas do regime totalitário em vigor em Esparta). Superando uma ou outra dificuldade – o autor queixa-se de não ter encontrado quem se dispusesse, com receio de represálias, a fazer-lhe uma máscara de Cléon –, a peça foi a concurso no teatro de Dioniso e ganhou o primeiro prémio.

 

O primeiro prémio! Mas então esse Cléon, tratado na aba da Acrópole de corrupto e ladrão por um poeta cómico aplaudido por uma multidão em delírio, perdeu o poder, certo? É claro que não. O mesmo povo que deu o primeiro prémio a Aristófanes colou as costas do seu demagogo ao espaldar da cadeira do poder. Pelos padrões de hoje, tudo perfeitamente normal. Até na parte em que Aristófanes, apesar de um processo ou outro nos tribunais, se permitia usar de liberdade de expressão, uma coisa que a gente se habituou a achar muito recente, muito nossa, muito luxo de primeiro mundo.

 

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Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 14.04.16

José Bandeira/DN

 

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Não a percam jamais

por Bandeira, em 13.04.16

Amigos do serviço de urgência do Hospital de S. Francisco Xavier: Não me conheceis, nem isso importa; sou filho da velhinha que foi deixada ao vosso cuidado por dois diligentes bombeiros ao princípio da chuvosa noite de ontem, vítima de um desmaio e subsequente queda que lhe rasgou um corte feio na cabeça e fez perigar o recobro das intervenções duras que a senhora havia sofrido, semanas antes, noutro hospital. Durante todo o tempo que a minha velhinha passou no interior do vosso serviço, entre análises e exames de imagiologia, percebi – no fundo já o sabia – o quanto são duras as vossas tarefas, difícil o trato humano. Sempre que tenham de lidar com uma velhinha assustada, um alcoolizado violento, um acidentado grosseiro ou um adolescente em pânico, por favor sintam o meu respeito e admiração. Obrigado por terem tratado a minha velhinha como se fora a vossa velhinha; por esse vosso espírito estranhamente jubiloso que vos permite acumular lucidez para os momentos mais difíceis; e sobretudo pela vossa gentileza, a vossa incomensurável gentileza: não a percam jamais.

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Navegar é preciso

por Bandeira, em 01.04.16

Jose Bandeira/DN

 

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À Humanidade

por Bandeira, em 26.03.16

Porque John Donne está a morrer, ele escreve algumas Lamentações; nelas se queixa inclusive de que as dores o impedem de gozar na sua plenitude a experiência da morte. Escreve que "nenhum homem é uma ilha" e outras coisas lindas, quase sempre porém melancólicas e tristes.
Séculos depois, Hemingway usa em prefácio um trecho da 17a Lamentação, algo como: "Não perguntes por quem dobram os sinos; eles dobram por ti". Com isto queria Donne dizer que partilhava da Humanidade, e que morrendo um qualquer homem morria Donne um pouco também (já Terêncio, por outras palavras, sugerira algo assim).
Em Hollywood fez-se um filme e o trecho prosaico da Lamentação de Donne ficou na memória que hoje sói chamar-se colectiva, muitas vezes tomado por verso, porque Donne era, antes de prosador morrendo, um poeta; e os poetas, não sendo ilhas, serão talvez penínsulas.
À Humanidade, uma Páscoa feliz.

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Cravo & Ferradura: O Directo

por Bandeira, em 24.03.16

Jose Bandeira/DN
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Eu teria uns dezanove ou vinte anos e queria muito escrever em jornais, mais até do que desenhar, talvez porque desenhar sempre soube e desenho melhor do que parece (perdoe este momento de soberba que pagarei em rigorosos planos prestacionais aos balcões da Eternidade); sucede que devemos reservar o melhor do que sabemos para mostrar às mães nas horas difíceis.

Já a escrever eu não nasci ensinado; foi o professor Branco, digníssimo avô de branquíssimas cãs e alvíssima bata (como um anjo de alguma idade) do actual reitor da Universidade do Algarve, quem me deu o privilégio — jamais esqueça que saber escrever é um privilégio — das primeiras letras, na escola número 33 do bairro lisboeta de Alvalade.

Mas tergiverso, perdoe, perdoe. Dizia eu que teria uns dezanove ou vinte anos e um dia chegou o convite do homem magro de brasão ao peito e cabelo empastado. Não desdenhe, na altura usava-se muito e agora talvez se volte a usar se o Vitória ganhar o campeonato. O convite era para um encontro e o encontro foi num dos bares do casino do Estoril; eu faltei à faculdade porque oportunidades assim não as havia todos os dias. Eu não tinha fato mas levei camisa, o que decerto deixou o empresário impressionado; tive também o cuidado de estacionar o velho Austin bem longe para que não se percebesse o quanto estava enferrujado, tanto que do lado do morto já não havia onde poisar os pés — alguns amigos mais sensíveis ainda se lembram disso, o asfalto correndo sob os pés deles e os calafrios bons que isso lhes causava.

O empresário pediu, digo, exigiu o seu uísque “em balão aquecido” e eu, ignorante que era das coisas do mundo, uma simples cerveja: sabia lá quanto custava um uísque. Eu fazia parte da categoria social a que então se dava o nome de “remediada”. Tinha uma única nota no bolso, acho que de 500 escudos, para gasolina e uma ou outra necessidade.

O cavalheiro, quero dizer, ele e “uns investidores ali do Estoril”, queriam lançar um semanário e contavam com o meu talento (como era ralo, o meu talento!) para escrever e ilustrar duas páginas “para a juventude”. Em poucos meses, “máximo um ano”, o mercado — ao tempo não se dizia “mercado”, seria a mesma coisa com outro nome qualquer — era nosso. Eu estava comprado e vi os tons azuis e a gravata riscada de vermelho do homem magro erguer-se para dar por terminada a conferência. Então ele levou as mãos aos bolsos, pôs uma expressão contrafeita e disse, com ar de importância nenhuma, “Zé, não sei onde deixei a carteira, pague aí o meu uísque, sim?”

Paguei, lívido mas paguei; e voltei para Lisboa pela marginal — ainda não havia a A5 — rezando a santinhos em que não acreditava para que se não me acabasse a gasolina.

O jornal saiu quê, dois ou três números, depois fechou, foi como se nunca houvera existido, nem do título me lembro, nunca percebi o que sucedeu e eu se recebi alguma coisa foi uns tostões, que aliás não mereceria pelos meus méritos literários ou artísticos.

Mas até hoje, sabe, venho pagando esse uísque.

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Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 14.03.16

Jose Bandeira/DN

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O Congresso

por Bandeira, em 14.03.16

Imaginei que o grande Braga cobria o congresso:
"Depois de dois dias de debates ficou assentado que Portugal é um lindo país. Também se deliberou, depois de vários oradores, que estava um clima muito agradável. A palestra foi decaindo, então, para assuntos muito escabrosos – discutiu-se até política."

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Faz frio.

por Bandeira, em 11.03.16

Jose Bandeira/DN

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Supernova (Há vinte e cinco anos)

por Bandeira, em 05.03.16

Prevenidíssimos, os jornais têm prontas para publicação biografias de todas as pessoas importantes do mundo. Líricos querem que nasça uma estrela sempre que alguém morre. A realidade é bem o inverso. É quando ela morre que a estrela mais brilha, e arrasa tudo o que estiver por perto, excepto o cigarro, o uísque e o berro do chefe de redacção.

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Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 02.01.16

Jose Bandeira/DN

 

Aos meus amigos fum... fotógrafos.
(José Bandeira/DN)

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Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 01.12.15

Jose Bandeira/DN

 

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Consultando Costa

por Bandeira, em 24.11.15

Jose Bandeira/DN

Cravo & Ferradura, José Bandeira/DN

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Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 13.11.15

Jose Bandeira/DN

(José Bandeira/DN)

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Cravo & Ferradura

por Bandeira, em 07.11.15

José Bandeira/DN

 (José Bandeira/DN)

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Metafísica (XII)

por Bandeira, em 21.07.15

Cabo Tainaro, Mani, Grécia
(Cabo Tainaro/Matapan, Mani, Grécia)

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Metafísica (XI)

por Bandeira, em 16.07.15

Mistras, Lacónia, Grécia
(Mistras, Lacónia, Grécia)

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Metafísica (X)

por Bandeira, em 15.07.15

Lago Pamvotida, Epiro, Grécia

(Lago Pamvotida, Epiro, Grécia)

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Metafísica (IX)

por Bandeira, em 10.07.15

Esparta, Lacónia, Grécia
(Esparta, Lacónia, Grécia)

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