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O céu a seu dono

por Ana Vidal, em 23.07.16

"O Mike, como o tratam todos os que fazem parte desta história, morreu antes de pintar aquele teto, que projetou. Pintaram-no muitos por ele, como terá acontecido na Capela Sistina. Hoje, aquele é "o céu do Mike", que faz de Santa Isabel uma igreja a céu aberto, prodigiosamente pintado. A abóbada - aqueles agora 800 m2 pintados a 20 metros do chão - está terminada. Atrás do sacrário, está a maquete, essa sim ainda pintada por Biberstein."

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En garde!

por Ana Vidal, em 15.07.16

Schopenhauer tem uma frase extraordinária, qualquer coisa como isto (cito de cor): "Quando não tenho nada que me angustie, é isso mesmo que me angustia". Não é possível inverter-lhe o sentido. Quando nada conseguimos ver que nos anime, não será nunca o desânimo a fazê-lo. E, a somar aos de cada um, motivos de desânimo colectivo não nos faltam hoje em dia, múltiplos, imprevisíveis e cada vez mais sinistros. Não é preciso procurá-los, não é preciso imaginação ou patologia especiais para estarmos infelizes. A depressão é a marca de água do nosso tempo.

Vivo a tentar contrariar esta tendência generalizada, não quero deixar-me dominar por um pessimismo descrente de tudo, que me dobre ao meio e me paralise. Até quando o conseguirei, não sei. A lucidez é a maior inimiga da alegria, e nem sequer falo em felicidade. Mas recuso, pelo menos enquanto tiver forças para isso, depor armas perante os monstros que rondam diariamente. Faço-o com total consciência, teimosamente, sem o bálsamo que seria alhear-me da realidade. Às vezes preciso de algum malabarismo para iludir-me, outras sinto que o meu optimismo é quase ridículo. Há dias em que ando muito perto da rendição, mas nunca tão perto que não sacuda o pó e volte a levantar-me. O meu maior trunfo, o que me salva sempre? O humor.

Entre mim e o desânimo existe uma guerra antiga, jurada, declarada e sem tréguas. Que vença o melhor.

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Jogo, logo existo

por Ana Vidal, em 07.07.16

Alcançada a meta física, chega a hora da metafísica. É o momento grande dos filósofos da bola, um olimpo que não está ao meu alcance. Não deixa de ser uma arte, admito, dizer absolutas vulgaridades durante horas a fio com a pompa e a convicção de quem proclama verdades universais. E, mais sofisticado ainda, com um léxico que não lembraria ao mais hermético dos pessoanos.

 

Fico-me pelo básico, que é o que interessa: Viva Portugal! (ou devo dizer "Portugal allez"?). Só sei que nada sei, mas estou contente. Alguma coisa que nos corra bem.

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Batatas

por Ana Vidal, em 21.06.16

"Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria e ousadia da vitória, os hinos, aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."

 

(Quincas Borba, Machado de Assis)

 

Custa a engolir, mas é assim mesmo. Entre a justiça e a sobrevivência nunca há muito que escolher.


Nota: A perenidade dos grandes textos deixa-me sempre fascinada.

 

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O estado da arte

por Ana Vidal, em 15.06.16

O problema dos humoristas em Portugal é que são como o estado islâmico: auto-proclamam-se. Alguns, como é o caso de Rui Sinel de Cordes, vão mais longe ainda nesse fascínio e trocam graças por mísseis e bombas contra um público que, evidentemente, não reage como eles gostariam. Não percebem os auto-proclamados humoristas que escolheram a mais difícil e ingrata de todas as artes, e que fazer rir muitos é para muito poucos. E quando isso não acontece, quando fatalmente constatam o fiasco, reagem como onze virgens ofendidas e vão fazer humor, enormes e injustiçados, para o seu micro-público amante de cintos de explosivos.

 

Não percebem também outra coisa muito básica: o direito à liberdade de expressão que lhes permite violentar todas as fronteiras (as dos outros, claro) é o mesmíssimo direito que assiste a esses outros para os crucificarem depois em praça pública. A mesma praça pública, aliás, e com a mesma violência.

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Ele há pessoas e há Pessoa

por Ana Vidal, em 13.06.16


Hoje não é só o dia de Santo António. É também o dia em que nasceu Fernando Pessoa (curiosamente, Santo António também se chamava Fernando), essa extraordinária excepção humana que, para nossa sorte, teve como pátria a língua portuguesa. Pensava à velocidade da luz e numa amplitude de registos tal que vai da complexidade da Ode Marítima ao léxico minimalistana e quase cómico do drama de bairro espelhado na carta de uma corcunda apaixonada por um vizinho indiferente. Mas o que mais me espanta nesta cabeça vertiginosa não é a explosão mental ininterrupta - muitos outros cérebros anónimos a terão, rotulados como casos patológicos e medicados para se manterem numa "normalidade" controlada - mas sim a capacidade que tinha, verdadeiramente única, de registar tudo o que pensava à mesma velocidade, com método, clareza e coerência. Essa capacidade, mais do que tudo o resto, define um prodígio.

 

Aqui fica uma nota biográfica escrita e assinada pelo próprio. Fico a imaginar se lhe terá servido de apresentação para conseguir um emprego, e a reacção de quem a recebeu. Que patrão arriscaria medir forças com um funcionário deste calibre? 

 

[NOTA BIOGRÁFICA] DE 30 DE MARÇO DE 1935

“Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.

“Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.

“Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.

“Estado: Solteiro.

“Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

“Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).

"Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.

“Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema». O folheto «O Interregno», publicado em 1928, e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.

“Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

“Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.

"Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.

“Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.

“Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».

“Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

“Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

Lisboa, 30 de Março de 1935

Fernando Pessoa

(In Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, ed. Richard Zenith, Assírio & Alvim, 2003, pp. 203 - 206.)

 

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(carta astral de Fernando Pessoa)

 

Nota: Informação encontrada no site da Casa Fernando Pessoa.

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Acordo fechado entre a Visabeira e o Estado português tem a duração de 50 anos

 

"O grupo Visabeira vai investir 15 milhões de euros para instalar um hotel no Mosteiro de Alcobaça. O grupo português vai pagar ao Estado uma renda anual de 5 mil euros, mais IVA, noticia o Diário Notícias. A Visabeira assinou ontem com a Direção-Geral do Património Cultural um contrato de concessão do Claustro do Rachadouro do Mosteiro de Alcobaça, válido por 50 anos. O acordo vai permitir ao grupo a construção de um hotel de cinco estrelas, de três pisos, 81 quartos e nove suites, SPA, ginásio, para além de espaços para organização de congressos e eventos. O espaço foi atribuído depois de um concurso público internacional. A abertura do hotel está prevista para 2019."

 

Algumas das mil perguntas que esta notícia me sugere:

É esta a tão apregoada superioridade da esquerda em relação à cultura? Ou será que a cultura não inclui o património?

Para que serve uma Direção-Geral do Património Cultural, para trocar conventos por hotéis?

E a renda de 5.000 € anuais, esse valor astronómico, é para resolver o problema do défice?

Três pisos num claustro? Como, deitando-o abaixo?

O que se seguirá, uma discoteca nos Jerónimos? Um food hall na Torre de Belém?

E a Unesco, não tem uma palavra a dizer já que o Mosteiro está classificado como Património da Humanidade?

 

(é que nem consigo pôr uma tag nesta aberração)

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Muito bem, Sr. Presidente

por Ana Vidal, em 08.06.16

Na primeira prova de fogo (embora, na verdade, seja ainda um lume brando em relação ao que aí virá) e depois do alegre trolaró sem grandes compromissos em que tem andado até agora, Marcelo Rebelo de Sousa surpreende-me pela positiva. Passo por cima da lei das 35 horas de trabalho, sobre a qual não tenho ainda opinião formada que possa fundamentar como tal, e refiro-me apenas às decisões em relação às leis que dizem respeito (não só, mas sobretudo) às mulheres:

1. A promulgação da PMA, permitindo o seu acesso a TODAS as mulheres sem distinção nem discriminação de qualquer tipo, garante finalmente uma real igualdade de direitos, mais do que justa.

2. O veto da gestação de substituição, vulgo "barrigas de aluguer", é um prudente e escrupuloso travão à precipitação de aprovar a abertura de uma quase certa caixa de Pandora, sem a garantia de todas as devidas (e possíveis) salvaguardas que atenuem consequências dramáticas para os envolvidos nesta prática. Uma matéria desta complexidade e delicadeza não pode ser aprovada à pressa, só porque o mimado Bloco de Esquerda quer impor ao governo uma agenda que é a sua.


Mas não é por Marcelo ter feito exactamente o que eu faria no seu lugar que eu digo que ele me surpreende pela positiva. É por ter decidido claramente acima da sua opinião pessoal sobre estas matérias, porque tenho quase a certeza de que não concorda com nenhuma delas.

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Impotência

por Ana Vidal, em 07.06.16

Mais um atentado hoje em Istambul.

 

Uma das maiores perversidades deste mundo da informação global imediata, dominado sobretudo pelas redes sociais, é fazer-nos sentir culpados e insensíveis quando não comentamos as grandes tragédias, como se as ignorássemos ou lhes fôssemos indiferentes. Mas, que palavra nossa manteria à tona um barco no Mediterrâneo, abarrotado de gente faminta e atraiçoada? Que indignação suspenderia o choque de impacientes placas tectónicas no Nepal ou no Chile? Que like deteria o sabre ou o cinto de explosivos de um fanático islâmico? Que post impediria a violação de uma criança na Nigéria? Que fotografia chocante, que poema, que música mudariam alguma coisa na vida e na morte destes eternos filhos de um deus menor? Perante o horror, quase sempre se me secam as palavras na garganta e as lágrimas nos olhos. Fica só um tumulto cá dentro, surdo, mudo, cego. Que não ajuda ninguém.

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Olivença? Não conheço.

por Ana Vidal, em 05.06.16


Acabo de chegar de Inglaterra. Enquanto os portugueses estão preocupados com as sanções da UE, temendo a expulsão (como se isso alguma vez fosse acontecer, qualquer que seja o défice) desta confraria que já ninguém sabe exactamente o que é nem para onde caminha, os ingleses estão mortos por sair dela. Muitos deles, muitos mais do que se pensa. Cameron farta-se de fazer discursos inflamados - aflitos, diria mesmo - apelando ao Sim no referendo de dia 23, sinal claro de que não é nada improvável uma vitória do Brexit. Até o funcionário do aeroporto que me despejou a mala inteira numa mesa (por causa de um maldito creme de 30 ml que eu não pus no maldito saquinho de plástico) e revistou tudo com o ar enfadado de quem considera pertencer a uma casta superior, me disse, antipático: "Da próxima vez que cá vier, esse documento que tem na mão já não lhe vai servir de nada". Fingi não ter percebido e perguntei-lhe se o meu BI estava ilegível ou fora de prazo. Respondeu-me, no mesmo tom seco, "Não, mas vai precisar de um passaporte porque nós já não estaremos na UE. Não precisamos da Europa para sabermos quem somos." Respondi-lhe que nós, portugueses, também não. E acrescentei, de nariz empinado - apesar do pouco edificante espectáculo dos meus soutiens e outras intimidades espalhados na mesa entre nós - "Talvez o senhor não saiba que Portugal tem as fronteiras mais antigas da Europa," (eu sei que não é exactamente assim, mas cheguei para ele) "mas, sabe, achamos que a Europa precisa de nós". O resultado foi uma cara ainda mais antipática e algum tempo extra de inspecção aos meus pertences, mas saí dali consolada.

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(Fotografia - Chema Madoz)

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Regressos

por Ana Vidal, em 26.05.16

Há dias em que tudo nos nos puxa inexoravelmente para o passado. Dias que nos obrigam a olhar para trás e a reviver momentos longínquos, antes que a voragem do tempo os leve para sempre da nossa memória. Que nos devolvem imagens de muros caiados, cheiros e sabores há muito perdidos, sons de passos em soalhos encerados ou lajes de pedra, alamedas de cedros e palmeiras onde o sol se entretém a desenhar sombras chinesas, povoando de fantasia os misteriosos caminhos da infância.

Ontem foi um desses dias. Sem saber como nem porquê, no regresso de Lisboa para Sintra fiz um desvio e fui procurar uma velha quinta, vendida há anos, onde passei os mais saudosos Setembros da minha vida. Foi um erro. Para começar, custou-me encontrar o lugar, porque já nada existe que seja reconhecível: os arredores passaram de muros de pedra cheios de musgo e estradas de terra batida a um emaranhado de ruas asfaltadas entre prédios altos, todos iguais; a antiga casa da quinta, desenhada por Raul Lino, foi substituída por inúmeras moradias geminadas pintadas de um amarelo pífio; todas as árvores e plantas morreram ou foram arrancadas; o portão verde de ferro rendilhado deu lugar a uma enorme placa metálica que obedece ao abre-te sésamo de um qualquer comando electrónico; o velho tanque, a que gostávamos de chamar piscina e fazia as nossa delícias, desapareceu sem deixar rasto. Há uma grade alta que rodeia tudo, sem ter sequer uma sebe a suavizar-lhe a rigidez ameaçadora.

É um condomínio de luxo, minha senhora, disse-me uma mulher a quem fiz perguntas cujas respostas não queria ouvir. Luxo? A mim pareceu-me uma triste gaiola partilhada.

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Pesos e medidas

por Ana Vidal, em 25.05.16

"Não gosto de fanatismos, porque nos cegam. Quem defendeu como nós a total liberdade da imprensa e pintou na cara a bandeira francesa quando surgiu a tragédia do Charlie Hebdo, porque se indigna agora ao rubro com um anódino cartaz em que Mário Nogueira vestido de Estaline puxa os cordelinhos a um ME marioneta? Porque o cartaz é da JSD? Porque Mário Nogueira é sacrossanto, intocável e sagrado? Porque é proibido fazer humor com políticos e com sindicatos? Afinal não queremos liberdade de imprensa? E é proibido rir?"

 

(Teolinda Gersão, na sua página do facebook)

 

A verdade é que muita gente ainda não integrou bem o conceito de liberdade de expressão, por isso lida mal com ela quando não é praticada pelos "seus". E quando a esta se associa o humor, tudo piora ainda mais.

 

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Fora de série (9/2)

por Ana Vidal, em 24.05.16

Nota prévia: No último jantar do Delito, onde foi lançada a ideia da série colectiva “Fora de série”, eu e o Zé Navarro de Andrade declarámos ao mesmo tempo que escolhíamos “Les Galapiats” (“Os pequenos vagabundos”, na tradução portuguesa). O mais engraçado é que foi também num uníssono imediato que repetimos as palavras que retivemos na memória até hoje, e de alguma forma nos marcaram para sempre: “C’est féerique!”. O que quer dizer que escolhemos ambos esta série pelas mesmas razões: uma paixão assolapada pelos protagonistas. Por isso combinámos escrever ambos sobre ela.

 

 

Pois é, Zé, nesse tempo não falavam os animais mas falavam as hormonas, e como! Ou melhor, gritavam, impunham-se, passavam à frente de tudo sem dó nem piedade. No teu caso (e no de muitos outros rapazinhos, aposto) com efeitos imediatos, traduzidas em furores físicos descontrolados. No meu, e no de tantas outras adolescentes românticas e ingénuas como eu, traduzidas em paixões sofridas, tão arrasadoras como inconsequentes.

 

Mas atenção, isto não é assunto com que se brinque: Jean-Loup foi o meu primeiro grande amor, e nem sequer posso dizer que fosse um amor “ virtual” já que, para mim, era a pura realidade. Se querem saber, acho que nem fazia ideia do nome do actor. Só agora descobri que se chamava Philippe Normand ou Philippe Cantrel, diferentes apelidos que usava como actor ou como cantor. Talentoso, hein? Foi uma paixão que levei tão a sério que condicionou totalmente os primeiros anos da minha vida amorosa, a ponto de só me ter permitido cair de amores por um rapaz (finalmente tangível, aleluia) parecidíssimo com o meu herói. Jean-Loup, o parisiense de férias na Bélgica, tinha criado na minha cabeça sonhadora um padrão, o meu modelo de príncipe encantado. Mais tarde, na mesma linha, veio Alain Delon, quem sabe se porque eu o imaginava como uma espécie de Jean Loup em adulto. O meu namorado de carne e osso era realmente parecido com ambos, e só não ponho aqui uma fotografia do dito (a prova inquestionável do que afirmo) porque não sei se ele lê o Delito.

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Por outro lado, e como não podia deixar de ser, havia a Marion-des-Neiges, a protagonista, para o Zé o supra-sumo da perfeição feminina aos 12 anos e para mim a rival odiada, deslavada e débil mental, sempre a precisar da protecção do meu herói e incapaz de uma proeza por conta própria. Bah.

 

“C’est féerique!” (nessa altura aprendíamos francês, aquela frase ficou-me atravessada no coração como um dardo, ainda antes de ler a legenda), referia-se aos bosques mágicos do Canadá e era dita no último episódio pela delambida Marion ao meu Jean-Loup, no momento da despedida de ambos, convidando-o a ir visitá-la um dia ao seu país. A sonsa. E eu sem nada de feérico para a troca: nada de florestas mágicas, só uma vilória rural com meia dúzia de pinheiros quase milenários, é certo, tudo o que restou do histórico e outrora famoso Pinhal da Azambuja. Uma vilória sem castelos de pontes levadiças nem tesouros perdidos por resgatar, onde o mais excitante que acontecia eram as largadas de touros, na feira de Maio, pelas ruas em que se misturavam poeira, febras na brasa e mil bebedeiras. A vida não é justa.

 

Por isso, por favor, não me contem o que sucedeu com o passar dos anos a Jean-Loup na vida real. Não quero saber. Deixem-me recordá-lo assim, um galã imberbe e aventureiro, de melena nos olhos, com solução para tudo e uma esperteza ilimitada para desmascarar malfeitores e salvar vítimas inocentes. Deixem-me retê-lo na memória desses anos de todas as ilusões, na versão “retrato do artista enquanto jovem” que me incendiava a imaginação e me povoava a mente e o coração, mesmo durante as aulas. A não ser, claro, que tenha casado com a idiota da Marion e estejam ambos obesos, num sofá qualquer em Montréal, a comer pipocas e a ver reality shows. Isso sim, seria a minha vingança servida fria. Gelada.

 

(A despedida e o célebre “C’est féerique!” – ver min 22.27)

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O sonho europeu

por Ana Vidal, em 23.05.16

Aqui está uma nova oportunidade para todos os que, como eu, sonharam com uma outra Europa.

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Animal Farm

por Ana Vidal, em 19.05.16

Não me parece nada bem que António Costa ande a oferecer vacas às suas ministras. Por muito engraçadas e voadoras que sejam as ditas, por muito subtil que seja a gracinha, não há nenhuma mulher que goste de indirectas destas. Se tivesse sido comigo, na próxima vez que o apanhasse em público oferecia-lhe um porco em cima de uma bicicleta.

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Concorrência

por Ana Vidal, em 19.05.16

As redes sociais inventaram um novo desporto de massas: a indignação inconsequente. O futebol que se cuide, em adrenalina e número de adeptos devem estar taco-a-taco.

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E se fosse consigo?

por Ana Vidal, em 19.05.16

Acredito, sem ironias, que Catarina Martins tenha mesmo sido apanhada por acaso no programa "E se fosse consigo?". Por que havemos de pensar sempre o pior das pessoas em todas as situações?

Mas, já que as figuras públicas entraram na dança, tenho uma sugestão para a Conceição Lino: inverter os papéis. Num próximo programa, pôr como actores um político e um jornalista conhecidos à chapada num jardim público (assim de repente, lembrei-me de João Soares e Augusto Seabra, ou Sócrates e um jornalista do Correio da Manhã) e ver as reacções dos transeuntes. Tenho genuína curiosidade de saber se alguém iria separá-los, dar-lhes lições de civismo ou... ajudar à festa.

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O suave milagre

por Ana Vidal, em 16.05.16

Eu sei, sou um ET. Não percebo patavina de futebol. O clubismo, para mim, é um absoluto mistério. Nunca consegui entender (e não me considero completamente idiota) o que possa ser esse conceito metafísico que tem por nome "fora de jogo". As imagens pós-jogo dos balneários são qualquer coisa entre um documentário sobre o paleolítico e um filme mexicano de série C.


Mas uma coisa sei, e de uma coisa gosto no futebol: é talvez o único acontecimento colectivo em que, sob a mesma emoção, seja ela a euforia ou o desgosto inconsolável, um nobre dos quatro costados é rigorosamente igual a um calceteiro ou um estivador. Não há diferenças, são irmãos de sangue e esse sangue tem exactamente a mesma cor: a cor do seu clube.

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Por outro lado

por Ana Vidal, em 14.05.16

Do tempo em que não havia esta proximidade física actual entre os escritores e os seus leitores. Era bem mais saudável essa distância higiénica, que evitava muitos equívocos e julgamentos inquinados.

Em alguns casos, por outro lado, que desperdício...

 

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(Foto do passaporte de Ernest Hemingway, 1923)

 

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Fábulas

por Ana Vidal, em 16.07.15

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Está tudo nos clássicos. A cigarra grega, que cantou durante anos, alegre e inconsciente, dança agora ao compasso da melodia imposta pelas diligentes e vingativas formigas: um requiem. Esopo avisou, mas quem quer ouvir um velho grego moralista?

 

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Stabat Mater

por Ana Vidal, em 13.07.15

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Olho esta imagem e vejo nela dois seres humanos sorridentes, cúmplices, felizes. Uma mãe orgulhosa, que parece dizer “vejam como o meu filho é o rapazinho mais bonito do mundo”, e uma criança amada, sentindo-se segura sob a asa protectora da mãe. O eterno quadro da maternidade feliz, que inspira ternura e nos resgata, como nenhum outro, dos nossos piores receios sobre a pantanosa natureza humana, sempre tão cheia de surpresas.

 

E no entanto, esta imagem apresenta-nos os protagonistas de uma das mais lancinantes notícias dos últimos dias. Uma história que não pode deixar de marcar-nos profundamente, tenhamos ou não filhos: Ji’Aire Lee, o menino de três anos que nos sorri na fotografia, morreu de hipotermia e desidratação no baloiço de um parque infantil em Maryland (EUA), após ter sido empurrado ininterruptamente durante quarenta e oito horas pela mãe, Romechia Simms. Não sabemos muito sobre as causas deste acto desesperado, a não ser que Romechia é uma sem-abrigo com aparentes problemas mentais.

 

Sabemos também que James Lee, o pai da criança, pedira recentemente a custódia judicial do filho por achar que a sua ex-mulher não tinha condições para cuidar dele, apesar de reconhecer que ela “não é uma mãe incapaz” e que nunca faria mal ao filho de forma consciente. Todos os que a conhecem têm a mesma opinião, a de que é boa pessoa e amava o filho, e a autópsia confirma a ausência de quaisquer indícios de maus-tratos.

 

Especulando, eu diria que esta mulher perdeu tudo o que a podia manter equilibrada e ligada a uma realidade considerada “normal”, atropelada pela voracidade de uma sociedade que exige sucesso a todo o preço e sacrifica implacavelmente os seus mais frágeis, os que se revelam incapazes de corresponder ao padrão. O último elo que ligava Romechia a essa normalidade era o filho, uma criança saudável e feliz que representava, muito provavelmente, o seu único sucesso. Mas a frustração de nada poder dar-lhe, aliada à notícia de que ia perdê-lo, deve ter abalado violentamente o que sobrava ainda da sua sanidade mental. Restou nela apenas o mais recôndito e ancestral dos instintos, a única coisa que podia e sabia fazer melhor do que ninguém pelo filho: embalá-lo. E foi esse gesto de ternura, automático e repetido até à exaustão, que acabou por matá-lo.

 

O terrível simbolismo desta história deveria fazer-nos pensar muito seriamente no modelo de sociedade que criámos para nós.

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No país dos brandos costumes

por Ana Vidal, em 11.07.15

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Algumas notas minhas, à margem deste artigo que subscrevo.


1. Fiquei genuinamente espantada (chamem-me naif, devo sê-lo) por constatar que a cabeça nua de Laura Ferreira teve, da parte da esmagadora maioria das pessoas, uma leitura política. Prova-o um facto incontestável: salvo raras excepções, quem é de direita aplaudiu o gesto, quem é de esquerda criticou-o. Onde eu vi apenas uma mensagem pessoal, simples e corajosa, dirigida às mulheres que passam por este calvário tão comum, como quem diz "Uma mulher não deixa de ser inteira por não ter cabelo", muita gente viu um frete eleitoralista, um apelo à piedade ou à simpatia política, ou simplesmente a exibição de uma intimidade incómoda que deve permanecer escondida, sobretudo quando se trata de uma figura pública.


2. Presumir que Laura Ferreira se sujeitaria a este grau de exposição pessoal (e à violência dos comentários que se lhe seguiram, que ela, mais calejada nestas coisas do que eu, provavelmente previu) por outros motivos que não uma decisão pessoal, é duplamente ofensivo. Por um lado, é negar-lhe o direito a vontade, agenda e intenções próprias, fazendo dela um mero fantoche do marido. Por outro, é atirar-lhe à cara que não tem o amor e o respeito dele, se assim oferece à turba, implacável e com as piores intenções, a sua pretensa fragilidade, sem que ela sequer se aperceba disso. Ou, pior ainda, percebendo a marosca mas aceitando o papel, submissa e acéfala. Ou seja, é chamar-lhe imbecil e/ou conivente. Em qualquer dos casos, feitas as contas, tudo isto é profundamente machista. Diz-se-lhe que fique em casa, quietinha e discreta como costumava ser, pelo menos até estar apresentável outra vez.


3. Se as medidas de austeridade impostas por Passos Coelho chegaram ao extremo de negar tratamentos eficazes a doentes oncológicos porque são caros, grite-se bem alto esse atropelo ao direito dos cidadãos portugueses à dignidade e aos cuidados de saúde. Exija-se o recuo, a mudança. Mas não se misture tudo numa açorda de ódio que acaba por ter como alvo uma mulher que é, ela própria, uma doente oncológica. A frustração leva muitas vezes as pessoas a limites de crueldade, caindo nos mesmos erros que apontam aos outros. Muitos dos comentários críticos que li nas redes sociais são de uma violência sub-humana.

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Voltar

por Ana Vidal, em 10.07.15

Dizem que não se deve voltar aos lugares onde se foi feliz, mas é mentira. Voltar é bom. No meu caso nem é bem um regresso, é só o retomar de um ritmo interrompido.

 

 

(com um presentinho especial para o Pedro Correia) :-)

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Rainha por um dia

por Ana Vidal, em 06.08.14

 

Hoje fui tomar um café à Vila, para espairecer e andar um bocado. Nesta altura do ano Sintra é dos turistas, um formigueiro deles a perguntar-nos tudo, a fotografar-nos à porta de casa como se nós, indígenas, fôssemos assim uma espécie de hobbits a sair dos nossos cogumelos com telhas. Mas uma destas, juro, nunca me tinha acontecido. No largo do palácio, entre mil outros turistas, vejo um casal com um filho adolescente, todos de ar ansioso e olhar fixo na escadaria da porta principal. Quando me aproximo, perguntam-me (num castelhano com sotaque) a que horas saem... os reis de Portugal! Ok, estão a brincar, claro... entro na onda e respondo, com o mesmo ar sério, que só aos sábados os reis saem à rua para cumprimentar os seus súbditos. Aproveito e pergunto de onde são: Manizales, Colômbia. Insistem, estão ali à espera para tirar "una foto con los reyes" para levar para casa e mostrar aos pais respectivos, a quem prometeram a façanha. De repente, perante os olhares desolados, percebo que estão a falar a sério. Explico-lhes que tenho imensa pena mas Portugal já não é uma monarquia há mais de um século. E é então que a mulher, mais espevitada e recusando render-se à evidência (temos sempre uma solução de recurso, nós...), pede-me que tire uma fotografia com eles como se fosse... a rainha. Olhem, não sei se me comoveu a delicadeza de não quererem decepcionar dois casais de velhotes lá na Colômbia, ou se me aterrorizou a ideia de represálias (sei lá se eles pertencem a algum cartel de Medellin), só sei que alinhei no disparate: fiz a minha melhor pose aristocrática - queixo levantado, um sorriso meio condescendente e uma mão magnânima sobre o ombro do rapazinho - e lá foram eles com o seu recuerdo real, todos contentes. Voltei para casa com um passo mais elegante, evitando a custo acenar aos passantes e pensando com os meus botões que Luísa de Gusmão tinha toda a razão: mais vale ser rainha por um dia que duquesa toda a vida.

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O Admirável Mundo Novo

por Ana Vidal, em 04.08.14

Do século XXI ao paleolítico inferior, sem passar pela casa da partida.

Foi para isto que evoluímos?

 

*(obrigada pelo empréstimo do título, caro Aldous)

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Esquizofrenias televisivas

por Ana Vidal, em 02.08.14

Às vezes tenho genuína pena dos jornalistas. Ninguém devia ser obrigado à esquizofrenia de ter de dar notícias saltando, sem interrupção, dos rockets para os aviõezinhos de publicidade, da faixa de Gaza para a faixa voadora que diz Amo-te Sónia, dos banhos de sangue para os banhos de mar, das explosões para os fogos de artifício, de um cenário de guerra para o cenário da festa de Verão da TVI.

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Delitos poéticos (31)

por Ana Vidal, em 31.07.14

 

(Instalação de Rebeca Horn)

 

IMPOSSÍVEL REGRESSO

 

Quando no fim
aquele tema torna, não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos perante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.

Jorge de Sena, "Bach:Variações Goldberg", ARTE DE MÙSICA

 

 

(Glenn Gould - Goldberg Variations var.26-30 & Aria Da Capo)

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Delitos poéticos (3)

por Ana Vidal, em 03.07.14

          (Sandy Skoglund - The Wedding)

 

          ILEGAIS 

        Tira a aliança do dedo. O gozo
        é redobrado se
        nos assinto ilegais. Porque
        esse
        aro dourado concede-te
        direito a mim
        não há pecado assim:
        o meu
        nome em ti o
        teu
        nome em mim
        e
        essa data grafada em que assinamos
        de Cruz
        o arbítrio da união.
        As
        mãos procuram respostas como
        quem ergue rosas pelo espinho:
        tira a aliança do dedo. Se
        esta lei é sagrada nós
        somos apenas mortais precisamos
        de pecado:
        vamos
        dormir ilegais.

       (João Luís Barreto Guimarães)

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Contos ínfimos (20)

por Ana Vidal, em 07.03.14

A PRIMEIRA DAMA

 

Tão ambicioso quanto limitado, dedicou uma vida inteira a tentar chegar a presidente da Junta de Freguesia. No dia em que foi eleito vogal, esfusiante, apresentou finalmente a mulher. Ninguém estranhou que fosse uma consoante. Muda.

 

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Ternuras

por Ana Vidal, em 03.03.14

 

Vê-los descobrir a pólvora, mesmo que tarde - perdoamos-lhes tanta coisa em nome do eterno 'mais vale tarde do que nunca' - consola-nos sempre, enche-nos de um estranho, complacente e inexplicável orgulho. Chegamos até a comover-nos, como se eles fossem a criança que na festa da escola consegue superar-se e dizer a sua deixa sem falhas na peça de Natal. Para mal dos nossos pecados e para bem das batotas deles os deuses fizeram-nos assim, atentas e orgulhosas dos progressos dos nossos homens em descobertas que para nós são tão óbvias como dois mais dois. Mesmo reclamando muito, reclamando sempre. É por isso, Henrique Raposo, que a sobrevivência do outro terço nos espanta muito menos do que a si. Mas ainda bem que acordou, que ternura.

 

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Sortilégios

por Ana Vidal, em 17.02.14

 

Hoje subi à Pena. A serra está esplendorosamente verde, nebulosa e encharcada como nunca. Tudo cheira a terra e a primórdios. Escorrem mistérios de cada pedra, entre musgos e líquens. Seria capaz de jurar que ouvi, ao longe, uma cavalgada de valquírias ao som de Wagner. Assim que consegui livrar-me do encantamento dos sentidos desci depressa, quase de fugida, antes que me nascessem membranas entre os dedos ou me transformasse em árvore como uma Daphne tardia. Mas vim de lá revigorada, conciliada com o mundo. É bom viver na Atlântida.

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Era uma vez...

por Ana Vidal, em 20.01.14

... mais um caso de corrupçãozinha e favorecimentozinho neste país de inhos em que quem não se aproveita é parvinho. Agostinho Branquinho (agora mais para o encardidinho, mas adiante), que é espertinho e não anda cá a ver passar os comboiozinhos, quando era deputadinho teve uma bela ideiazinha: com uma manobrazinha de diversão digna de um verdadeiro Houdinizinho, ajudou um amiguinho a licenciar um hospitalzinho que estava naquelas meias tintazinhas do costumezinho: nem abria nem saía... do caminho. E como se chamava o hospitalzinho? Ora, claro, S. Martinho! Moral da historiazinha: agora andam ambos às voltinhas com um processozinho. Veremos como acaba o bailinho, mas diz-me a experienciazinha que talvez ainda os espere um happyendezinho.

 

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O Grande Irmão partidário

por Ana Vidal, em 17.01.14

 

Notável o que se passou hoje na Assembleia da República: a votação para a realização de um referendo (adopção e co-adopção por casais do mesmo sexo) levantou um mar de "declarações de voto" de deputados obrigados ao absurdo da disciplina de voto, sobretudo numa matéria que é nitidamente de consciência individual. Esta é uma das razões, talvez a mais importante de todas, por que eu jamais me filiaria num partido. Não admito que pensem por mim.

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Ovos de luxo

por Ana Vidal, em 16.01.14

 

 

"...no Governo há “assessores de aviário”, jovens promissores de 20 e poucos anos a vencer 3.000€ mensais. Expliquem-nos a razão por que um pensionista paga CES e IRS e estes jovens só pagam IRS! Ética social da austeridade?"

 

Bagão Félix (Público 2014.01.13)

 

Pena que estes ovos de luxo não sejam Fabergé, acrescento eu. Sempre serviriam para ajudar a pagar a dívida externa, em vez de nos custarem um balúrdio.

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Blogue da semana

por Ana Vidal, em 12.01.14

Um bibliotecário que se apresenta assim: Moreno é bibliotecário do Centro de Tecnologia da UFRJ. Graduado pela UFF, mestre em Ciência da Informação pelo IBICT e doutorando em História das Ciências na UFRJ. Mas nada disso vai importar depois do apocalipse robótico.

 

Para os apaixonados pelas novas tecnologias e/ou pela história da bibliofilia. Moreno Barros, eis a minha proposta para blogue da semana.

 

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Caça às bruxas no reino dos feiticeiros

por Ana Vidal, em 11.01.14

Por muito que a ética jornalística ande pelas ruas da amargura - e anda - isto é absurdo, ofensivo e, pior do que isso, muito preocupante. Se existe violação do segredo de justiça é porque a fuga de informação partiu de dentro, de quem está obrigado ao dito segredo. É a origem que tem de ser investigada e punida, não o destino. Esta proposta é uma espécie de "mate-se o mensageiro", lembra-me aquele caso ridículo de condenação por corrupção em que não havia corruptor, só corrupto. Não só não vai resolver nada como vai afastar ainda mais os jornalistas da investigação séria de casos de justiça, e as consequências podem ser imprevisíveis. 

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Que Sophia merece o Panteão, acho que nem se discute. Pergunto-me é quais serão afinal os critérios de selecção, e sobretudo fico aparvalhada com esta forma de dar notícias... como se ela estivesse em competição com o Eusébio para ver quem chega lá primeiro. Este país ensandeceu de vez??

 

(Para já não falar no crescente analfabetismo dos jornalistas. Quando a TSF escreve, assume e assina por baixo a palavra "transladada", acho que está tudo dito.)

 

Actualização: afinal as palavras "trasladação" e "transladação" são sinónimos, ambas estão correctas. Agradeço aos comentadores que fizeram a correcção. Sempre a aprender.

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Eusébio, uma lição

por Ana Vidal, em 05.01.14

 

Quando a minha mãe esteve internada no no recém-inaugurado Hospital da Luz, no quarto ao lado estava o Eusébio. Era sempre complicado passarmos a barreira de segurança que preservava o doente famoso de jornalistas, fotógrafos e meros penetras, tínhamos de provar a nossa identidade para passar da sala de entrada do piso ao corredor dos quartos (o hospital fervilhava de esquemas para furar essa barreira). Íamos sabendo da evolução do estado dele pelas enfermeiras e pelas notícias cá fora, e um dia soubemos que ele tinha tido alta e ia sair nessa tarde. Por acaso cheguei ao hospital muito cedo nessa manhã, ainda não tinha começado o circo mediático. Passei a sala e entrei no corredor ainda silencioso, completamente deserto. Hesitei, voltei a hesitar, mas a curiosidade foi mais forte: não resisti e espreitei pela porta aberta do quarto de Eusébio, como se me tivesse enganado na porta. Estava sozinho e acordado, olhou-me, disse "bom dia" e sorriu. Nem um pingo de enfado, contrariedade ou irritação perante aquela inesperada invasão da sua privacidade. Nem um gesto para chamar o segurança, ausente por momentos. Só um sorriso simpático, quase um convite para entrar. Dei-lhe de volta o meu melhor sorriso e os bons-dias, pedi desculpa pelo "engano" e desejei-lhe as melhoras. Saíu nessa tarde, a minha mãe saíu poucos dias depois. Não voltei a vê-lo. Mas hoje, no dia do anúncio da sua morte, lembrei-me deste episódio e deixo aqui a história. É a minha homenagem a um homem grande a quem a fama nunca corrompeu nem roubou a simplicidade.

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Receita de sempre

por Ana Vidal, em 29.12.13

É muito provável que este poema já tenha sido publicado aqui (não fui procurar, confesso), mas é sempre bom recordá-lo. Que acorde um Ano Novo em cada um de nós, e que seja bem menos doloroso do que este que passou.

 

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

 

Carlos Drummond de Andrade

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Assim uma espécie

por Ana Vidal, em 23.12.13

"Horta Osório é assim uma espécie de Cristiano Ronaldo da Banca"

 

Agora mesmo, nas notícias da SICN.

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Lisboa em camisa*

por Ana Vidal, em 20.12.13

 

Já não aguento mais anedotas, defesas acaloradas e indignações puritanas sobre o video promocional de um escritório de advogadas de Lisboa. Deixem lá as senhoras venderem o seu peixe como sabem, podem ou sonham, deixem-nas lá tentar demonstrar a sua eficácia através de sapatos de agulha com implantes de gibóia (morta à chapada, como diria alguém que conheço com graça), mini-saias de lycra e pulseiras tilintantes de ouro chinês. Juro que não percebo como é que este assunto, que não vale um caracol, atingiu contornos de esquizofrenia colectiva. Percebo ainda menos como foi que chegou à Ordem dos Advogados em forma de queixas sucessivas. O facto, inegável, é que elas puseram o país a ver o video, a falar dele compulsivamente nas redes sociais, e, pasme-se, já chegaram até às notícias televisivas em horário nobre. Se tudo isto lhes trará novos clientes, não sei. Se esses eventuais clientes não irão ao engodo de outros serviços, atordoados pela mensagem dúbia, também não faço ideia. O tempo e o mercado o dirão, e só elas recolherão os louros da ousadia ou pagarão o preço do fiasco. Por que raio temos nós todos de nos preocupar com isso? Temos já 40 anos de democracia, caramba. Conquistámos o direito à liberdade de expressão, à liberdade de vestir ou despir o que nos apetecer, conquistámos até o direito ao mau gosto. Será que em todos estes anos ainda não conseguimos encaixar estas simples premissas?

 

(* título roubado a Gervásio Lobato, que já não se importará muito)

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Rosa, rosae

por Ana Vidal, em 18.12.13

 

Uma rosa é uma rosa é uma rosa. Declarou Gertrude Stein, pintou Magritte, nomeou Umberto Eco, humanizou Saint Exupéry, aprisionou num frasco Coco Chanel. E provei eu, hoje, em forma de uma compota hiper-enjoativa. Sabem que mais? Só os grandes deveriam atrever-se a tocar numa rosa.

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O mundo é um lugar estranho

por Ana Vidal, em 11.12.13

Pergunta legítima: se este homem não estava a usar linguagem gestual reconhecidamente útil, se não planeou a extraordinária proximidade com a maior concentração de líderes mundiais da actualidade para perpetrar nenhum crime, se não era um fã enlouquecido de famosos a aproveitar uma oportunidade única para sacar autógrafos, se nem sequer aproveitou o microfone para cantar ou fazer reivindicações, o que estava esta alma a fazer ali?????

 

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Kiev, ontem. A notícia aqui

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Ainda Nelson Mandela

por Ana Vidal, em 07.12.13

E volto a Nelson Mandela. Porque é importante lembrá-lo como ele foi, não como queremos ou nos convém que ele tivesse sido.


Há quem queira fazer de Mandela um santo impoluto, branqueando propositadamente o seu passado de combatente e caudilho na luta armada do ANC. Há quem queira, pelo contrário, apontar-lhe esse mesmo passado como uma mancha indelével no curriculum pessoal. É demasiadamente tentador e fácil usar uma figura emblemática desta dimensão para instrumentalizações, polémicas e barricadas partidárias, como aliás se tem visto, mas poucos parecem preocupados em fazer-lhe verdadeira justiça: é que a grande, a enorme, a incomensurável diferença que há entre Mandela e o comum dos mortais é justamente o facto de, tendo ele sido um homem entregue a uma causa até às suas últimas consequências, tendo ele sido um guerreiro, tendo sido injustiçado, perseguido, temido, tendo sido um preso político a quem a prisão roubou quase trinta dos melhores anos de vida, e tendo ele plena consciência da sua condição de líder nato, capaz de arrastar multidões para onde quisesse levá-las, mesmo assim teve a rara capacidade de renunciar ao ódio, dando um exemplo raríssimo de dignidade, coragem, sabedoria e qualidade humana. Tudo isto sem abdicar das suas convicções e do seu propósito de vida, porque não deixou de fazer a revolução que se impunha mas escolhendo a via pacífica, embora firme.


O que faz dele um ser especial é ter saído da prisão sem sinais de sede de vingança ou sede de poder, quando o contrário teria sido expectável e mais do que compreensível. A grande lição de Nelson Mandela é a da sublimação pessoal, uma elevação que está, afinal, ao alcance de todos nós.

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Mandela

por Ana Vidal, em 06.12.13

Mandela não é só nome de homem, é o grau mais alto da condição humana. Lembrá-lo é lembrar o melhor que há em nós.

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Farinha Amparo

por Ana Vidal, em 13.11.13

 

Leio este post do Rui Rocha, depois leio esta notícia. E chego à triste conclusão de que não é possível levar a sério os níveis de exigência no ensino em Portugal, tão apregoados por um governo aparentemente bi-polar. Se a ideia é facilitar cada vez mais o acesso a cursos superiores e a sua conclusão rápida - e é verdadeiramente escandalosa a admissão descarada de que o objectivo é "aumentar o número de diplomados em Portugal e atingir as metas da União Europeia, de 40 por cento" - só posso concluir que a preocupação extrema com a formação dos professores não passa de uma cortina de fumo, ou, pior ainda, que os professores estão a ser muito convenientemente escolhidos para bodes expiatórios do inevitável fracasso de uma política de ensino que assenta num único eixo: trabalhar para as estatísticas. Lembro-me de um dichote popular antigo, que visava desvalorizar cursos de má fama de onde resultavam profissionais incompetentes: "Saíu-te o curso na Farinha Amparo?". Pois bem, este governo parece definitivamente apostado em voltar aos cursos da Farinha Amparo. Por este andar, ainda havemos de ter médicos formados em workshops.

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Espinha

por Ana Vidal, em 09.11.13

O actor RICARDO DARIN, entrevistado por Alejandro Fantino para o programa "Mano a Mano". Ainda há gente com espinha. 

 


Fantino: ¿Es cierto que vos rechazaste una oferta para filmar en Hollywood con Tarantino?.
Darín: Sí, claro.
F: Y ¿Por qué?.
D: Porque me ofrecieron el papel principal pero tenía que hacer de narco mexicano, y yo le pregunté a su productor por qué los mexicanos tienen que seguir haciendo de narcos si los que más consumen merca a nivel planetario son los Yankees.
F: ¿Y qué te contestó?.
D: Bueno…a ver…la respuesta que me dio me molestó tanto que afirmó que estaba en lo correcto no filmar con Tarantino. Me dijo: “Entonces es una cuestión de plata, diga cuánto más quiere que se la pagamos, usted ponga la cifra”. Es decir, no pueden llegar a ver ni comprender que hay códigos por fuera del dinero que algunos todavía portamos, ¿me explico?.
F: Mmm...no…la verdad que no.
D: ¿Cómo que no?, Ale, vos sos un tipo piola, tenés que comprender de qué te hablo.-
F: Pero podrías haber tenido más plata.
D: ¿Más plata? ¿ser millonario?...y…¿Para qué?.
F: ¿Cómo para qué?...para ser feliz!.
D: ¿Feliz con más plata?, ¿De qué me hablás?.
F: Bueno…todos quisiéramos tener más plata y ser felices.
D: Ale, yo tengo plata, tengo un auto importado de alta gama. Desayuno, ceno y almuerzo lo que quiero y puedo darme dos duchas calientes al día ¿vos tenés idea de cuánta gente del mundo puede darse dos baños calientes al día?, muy poca gente puede darse ese gusto. Y como no me considero un excelente actor, siempre digo que lo mío fue pura suerte ¿me entendés? En este mundo capitalista salvaje yo soy un tipo de muchísima suerte. Yo soy un privilegiado entre millones de personas, y además tengo la suerte de poder ver eso en mí, que me permite tener una buena cuenta bancaria y no creérmela. Yo me puedo ver desde afuera y me digo “Puta, loco, qué suerte que tuviste”.
F: Pero hubieras filmado en Hollywood…y no podés negarme que de Tarantino al Oscar hay un paso.
D: Creo no me sé explicar bien…yo ya estuve en la ceremonia de los Oscar y no me gustó, todo es de plástico dorado, hasta las relaciones entre las personas. Fui, la pasé lindo, lo disfruté…pero ese mundo no es lo mío, no es lo que yo elegí en esta vida.
F: Realmente me asombrás, Ricardo…te hacía más realista…más con los pies sobre la tierra.
D: Mirá qué casualidad !!!…yo a vos también.

 

(Aqui o link da entrevista)

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Da descaracterização de um país

por Ana Vidal, em 06.11.13

"Havias de os ver, havias de os ver. Mestres sem assinatura é o que eles sempre foram e continuam a ser, mais hábeis e pacientes como nenhuns. De martelinho sagaz, aparelham pedaços de basalto na concha da mão que depois implantam na brancura dos passeios como quem implanta diamantes negros. Capricham nos artifícios, são tão mestres na figura livre como no traçado geométrico e se for preciso vão até às inscrições caligráficas num rigor de compêndio emplumado. Calceteiros. Em inglês não sei como se diz mas eu chamar-lhes-ia ilustradores ou joalheiros de calçadas, se não fosse literário de mais chamar-lhes assim. São eles, fica sabendo, que embelezam e combrem de memórias os caminhos que nós, os de Lisboa, cumprimos todos os dias."                                                                                                                                                 

José Cardoso Pires, in "Lisboa - Livro de Bordo"


Eu chamar-lhes-ia desempregados ou emigrantes, que é menos literário mas muito mais duramente real.

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    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D