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Uma luz que se apaga

por Pedro Correia, em 02.01.18

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O País na minha pré-adolescência nada tinha a ver com este. Era um país cinzento, governado por senhores muito idosos que apareciam sempre de fato escuro nos monocórdicos telejornais.

Nesse país irrompiam ocasionalmente focos de luz e de brilho e de beleza. Proporcionados por mulheres lindíssimas, por vezes ainda mal chegadas à idade adulta, mas já em destaque no nosso pequeno mundo do espectáculo, da televisão, do teatro e do cinema.

 

No meu tempo de teenager, havia pelo menos duas que se destacavam da mediana dominante. Eram a Guida Maria e a Helena Isabel - assim mesmo, actrizes com duplo nome próprio.

Inigualáveis, cada qual à sua maneira. E contrariavam em tudo aquela triste modorra num país de senhores severos e graves que pareciam vir da pré-história. Pela forma como falavam, como vestiam, como se comportavam. E pela estonteante beleza que exibiam, sem sentirem necessidade de pedir desculpa aos diáconos de turno, ofuscados com tanto brilho. Como se beleza fosse pecado em vez de bênção.

Sempre me senti fascinado por ambas. Pareciam estrelas de Hollywood caídas neste cordato redil lusitano, fora do tempo e fora do espaço que lhes couberam em sorte. Deslocadas daquela época.

 

Um dia, muitos anos depois daquele tempo cinzento a que aludo no primeiro parágrafo, era eu editor de um suplemento de histórias protagonizadas na primeira pessoa do singular quando decidi entrevistar a Guida Maria. Foi uma longa conversa ao telefone, pontuada por incontáveis gargalhadas dos dois lados do fio. Ela, com um sentido de humor desconcertante, correspondeu à elevada fasquia que lhe antecipara.

Hei-de reproduzir aqui essa entrevista, que hoje recordo ainda em choque, ao saber da notícia do seu falecimento. Há mulheres que nunca deviam desaparecer-nos do horizonte. Sou incapaz de imaginar a Guida Maria morta: ela, bela como poucas, que tantas paixões incendiou na minha imberbe geração. E que trouxe um toque de inesperado colorido a um país baço e chato e deprimido.

Foi uma orquídea rara antes dos cravos. Um raio de luz que emergiu das sombras. Nunca lhe saberemos agradecer por isso.

 

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40 comentários

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De Luís Lavoura a 02.01.2018 às 17:42

Mas nesse país que o Pedro descreve, os senhores muito idosos que o governavam tinham todos eles amantes que eram raparigas muito bonitas e ainda mal chegadas à idade adulta. Portanto, não havia contradição nenhuma, nesse país, entre governantes muito idosos e raparigas muito bonitas - eles complementavam-se uns aos outros.

(Como tão bem descrito foi por José Vilhena.)
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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 17:59

Bom ano também para si.
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De Anónimo a 02.01.2018 às 18:44

Que exagero Pedro Correia! Guida Maria era tão novinha que nem conheceu os senhores vestidos de preto.Nesse tempo, os artistas frequentavam do melhor.Gastavam tudo sem pensarem que há o amanhã.
Tem que olhar mais para o calendário.
Cumps.
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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 18:48

Vai aí alguma confusão. Aliás confusão da grossa: está a confundir-me com o Lavoura.
Nem parece seu.
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De José da Xã a 02.01.2018 às 19:10

Lembro-me bem da Guida Maria, sempre insubmissa e sem papas na língua.

Merecia uma justíssima homenagem.
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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 19:36

A Guida Maria, a Helena Isabel e (lembro-me agora) a Ana Maria Lucas. Muito bonitas, todas elas. Raios de luz num país modorrento e baço.
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De Luís Lavoura a 03.01.2018 às 09:20

O país nesse tempo não era nada modorrento e baço sob esse ponto de vista. Pelo contrário: como a população era muitíssimo mais jovem, havia raparigas bonitas aos montes. Lembro-me de estar especado na rotunda de Entrecampos, à espera de já não sei o quê, e de ver passar uma quantidade inacreditável de beldades, quase uma a seguir à outra. Hoje em dia praticamente não se vê mulheres bonitas na rua. Hoje em dia é que o país está modorrento e baço.
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De Pedro Correia a 03.01.2018 às 10:53

Bom ano também para si. Corra ao oftalmologista.
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De Luís Lavoura a 03.01.2018 às 11:04

Muito obrigado pelos felizes votos, que retribuo. Obrigado também pelo amistoso conselho.
Acontece que no outono de 2017 fui operado às cataratas, em ambos os olhos e, após as operações, a oftalmologista que me operou declarou que estou com a visão perfeita (100%). Ela disse que não preciso de voltar a ela antes de passado um ano. O conselho não vai portanto ser seguido. Lamento.
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De Maria Araújo a 03.01.2018 às 17:13

Sim!
Quando li este post, pensei que havia mais alguém desta geração que não precisava de grandes camadas de make up para mostrarem uma beleza fictícia como as jovens de hoje, porque belas já elas eram e são.
E encontrei no comentário a Ana Maria Lucas, "que bela mulher!"
"Que belas mulheres!"
Apesar de não acompanhar o trabalho de Guida Maria, gostava da sua voz, da sua ousada representação e quando a vi, há 9 anos, em " Monólogos da Vagina", foi mulher e representação para não mais esquecer.
Gostaria de ver de novo esta peça.
Pedro, gostei desta homenagem.
Ficarei atenta à publicação da entrevista.



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De Beatriz Santos a 02.01.2018 às 19:19

Bem verdade, lembro-a como uma mulher a rasgar cenários, impunha-se.
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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 19:43

Protagonizou o primeiro nu integral do cinema português, em 1972, num filme do António de Macedo, também há pouco desaparecido.
Revi esse filme no ano passado: é dos poucos dessa época que resistiram à prova do tempo.
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De Maria Araújo a 03.01.2018 às 22:01

O Pedro relembra o que estava esquecido.
Tenho uma vaga ideia de ver o filme.
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De Anónimo a 02.01.2018 às 19:28

Lembro-me vagamente desta senhora actriz em algumas novelas, já não sei quais, era muito novo.
Se é como o Pedro Correia descreve não tenho que discordar mas seria só ela e a Helena Isabel ?
Boas entradas.
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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 19:32

Eu lembro-me delas. Quem se lembrar de outras, não se acanhe: faça o favor de mencioná-las.
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De Anónimo a 02.01.2018 às 19:54

A resposta das 19:28 é minha - WW

Ana Zanatti

Manuela Marle

Quanto a Manuela Marle não tinha a ideia de ser dessa geração até porque a memória que melhor retenho dela foi na série " Os Homens da Segurança" com Nicolau Breyner e TóZé Martinho.

WW
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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 20:33

A Manuela Marle é de outra geração, emergindo já nos anos 80. Portanto um pouco fora do contexto que assinalo aqui.
Bom ano, WW.
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De FatimaMP a 02.01.2018 às 20:05

Que homenagem bonita e justa, Pedro Correia, totalmente de acordo consigo. Guida Maria era tudo isso que diz e Helena Isabel também. Felizmente, esta última continua aí, maravilhosa.
Parabéns por ser uma pessoa permeável a temas considerados “não centrais” pelos previsíveis "ideólogos" de serviço …
Vai ser divertido continuarmos a levar com eles em 2018. Bom Ano para si! Bom Ano para todos!
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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 20:32

Ora viva, Fátima. É tão bom passar mais um ano e continuar a vê-la por cá.
Grato, uma vez mais, pelas suas palavras de incentivo.
Bom 2018!
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De Maria Dulce Fernandes a 02.01.2018 às 20:54

Lembro-me da Guida Maria desde miuda.
O meu pai conhecia-a como a filha do Luis Cerqueira, que fazia a voz dos ratinhos da Cinderella.
Cresceu como mulher, actriz e mãe sempre bem disposta.
Foi cedo demais.
Até sempre.

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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 21:09

Também me lembro ainda do pai dela, nas Noites de Teatro da velha RTP: Luís Cerqueira era um habitual secundário nessas peças. Magrinho, de feições angulosas. Eu, muito miúdo, ia perguntando à minha mãe os nomes dos actores. E fixava-os de imediato. Fixei-os para sempre.
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De Anónimo a 02.01.2018 às 21:42

Iluminava os corredores do Liceu de Oeiras.
R.I.P


JSP
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De Pedro Correia a 02.01.2018 às 23:17

Acredito bem.
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De Anónimo a 03.01.2018 às 00:26

Paz à sua alma.
Realmente tém desaparecido gente que faz falta a este pobre País.
Óscar
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De Pedro Correia a 03.01.2018 às 11:23

Eu nem a sabia doente. Daí o meu choque ser maior ainda ao ter sabido a notícia. Foi-se uma das musas da minha adolescência.
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De Anónimo a 03.01.2018 às 02:22

Foi juntar-se à Maria Cabral, outra bela actriz igualmente já desaparecida.

Bom ano, Pedro e forte abraço.

VSM

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De Pedro Correia a 03.01.2018 às 11:25

Tu bem sabes, Vítor, como as minhas palavras neste texto podem ser subscritas por largos milhares de ex-adolescentes e jovens rapazes daquela época.
Gostei muito de te rever no dia 29: ainda bem que me mobilizaste para o repasto. Bom ano. Forte abraço.

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