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Uma literatura sem personagens

por Rui Rocha, em 05.08.15

A contabilidade das rivalidades, fobias, invejas, choques e altercações entre escritores é tão longa que daria, ela própria, um romance grande ou até, eventualmente, um grande romance. Poucos terão atingido, é certo, os patamares de violência verbal de Mark Twain. Sobre Jane Austen, só para dar um exemplo, Twain afirmou que, depois de ler Orgulho e Preconceito, era tomado por uma indomável vontade de "desenterrar a autora e de a golpear no crânio com a sua (dela) própria tíbia". Uma bela metáfora. Esperemos... Mas, para além do prolífico Twain, não faltam casos de mimos entre escritores. Sobre Hemingway disse Faulkner que "nunca foi conhecido por utilizar palavras que obrigassem o leitor a usar um dicionário". E, no uso de direito de resposta, Hemingway não evitou um contido "pobre Faulkner que acredita que os grandes sentimentos vêm das grandes palavras". Virginia Woolf também não foi meiga com Joyce: "Ulisses é o trabalho de um universitário entediado enquanto espreme as suas borbulhas". Ou algo do género. Como meigos não foram Vargas Llosa e Garcia Márquez quando decidiram discutir o mérito das suas obras, literárias ou mais prosaicas, não se sabe, ao murro e à estalada. Pois bem. Se tudo isto é normal, se os escritores, grandes ou menores, não deixam por isso ou por causa disso de serem humanos, sujeitos às misérias das invejas que nos roem, dos odiozinhos que nos assolam, das dores de cotovelo que nos comem as articulações e a lucidez, é natural que os escritores portugueses também não tenham escapado. E aí tivemos Saramago e Lobo Antunes a prová-lo. Todavia, se os autores portugeses,  nesta coisa da ciumeira e do picanço, não fogem da comezinha normalidade, apresentam todavia uma nota de originalidade que me intriga. A literatura faz-se dos escritores, das obras, das ideias, do estilo. Mas também se faz das personagens. E aí estão, quantas absolutamente inesquecíveis, Quixote, Daedalus, Madame Bovary, Sherlock Holmes, Harry Potter, Tom Sawyer, Raskolnikov, Josef K, Alice, Leopold Bloom, Ana Karenina, Miguel Strogoff e tantas, tantas, que se fizeram muitas vezes maiores do que os autores, maiores do que a obra. Ora, como se sofresse de uma anomalia genética, a literatura portuguesa, tendo produzido grandes obras e escritores, nunca foi capaz de dar ao mundo extraordinárias personagens. Às personangens portuguesas falta invariavelmente espessura, golpe de asa, coragem e liberdade para se soltarem das páginas dos livros em que nasceram, abraçando a universalidade. Temos uma literatura de escritores, de livros, de estilos, de pensamento, mas não uma literatura de personagens. Como se os autores, para além das corriqueiras rivalidades com outros escritores, agissem deliberadamente com o objectivo de abafar as pessoas fictícas que dão à luz, não lhes permitindo superar em fama e proveito o próprio criador.

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23 comentários

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De Luís Naves a 05.08.2015 às 11:32

Discordo totalmente: o padre Amaro, Eusébio Macário, João da Ega, António de Faria, Bernardo Soares são algumas personagens que me ocorrem sem pensar muito no assunto…
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De Rui Rocha a 05.08.2015 às 11:53

Eheheh. Eu sabia que isto ia dar cartuchada. Publiquei em Agosto a ver se passava. Mas não estou convencido, Luís. Personagens "portuguesas" com ambição universal só me lembro do Alvega...
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De Cristina Torrão a 05.08.2015 às 12:27

Realmente, falta a universalidade às nossas personagens...

Acrescento, porém, que essa universalidade foi conseguida "à custa" do cinema, principalmente, de Hollywood ou de séries da BBC. Por isso, ressalto a grandiosidade de Quixote, cuja fama penso vir realmente da obra literária. Sei que há filmes e até me lembro de uma série, mas tudo produções "caseiras", penso eu. Já agora, agradecia que me esclarecessem, se estiver errada.

Quanto à rivalidade entre escritores:
Marcel Reich-Ranicki, conhecido como o "papa" da crítica literária alemã (por acaso, até era polaco, mas movia-se no meio literário alemão), dizia que o génio da literatura era sempre uma criatura muito egocentrista, pois, de outro modo, não conseguiria produzir obras-primas. Claro que é uma opinião polémica, mas talvez ajude a explicar essas fobias, invejas e choques entre escritores.

Sobre Marcel Reich-Ranicki, que viveu no Gueto de Varsóvia, tal como o pianista Władysław Szpilman, do filme de Polanski (baseado numa história verídica):
https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcel_Reich-Ranicki
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De Luís Naves a 05.08.2015 às 13:32

Rui, este post compara coisas incomparáveis e é um exemplo do espírito tão português de sermos uns coitadinhos, agora agravado pela recente extinção da auto-estima nacional. A literatura portuguesa não produziu um Macbeth e não teve um Tolstoi , mas a nossa realidade tem dimensão diferente da russa ou da inglesa em todas as áreas, incluindo na literatura. Aliás, a invenção de grandes personagens não é o único critério da grande literatura. Hemingway , por exemplo, imaginou alguma personagem memorável? Ou Faulkner ? E eram maus escritores? Apesar destas objecções, é evidente que o Padre Amaro cumpre os requisitos do post , pois estamos perante a personagem universal do hipócrita encantador. E se nos limitamos às provocações do post , tens a certeza que Josef K. é uma personagem densa e universal? A mim, parece-me propositadamente ambígua. E Sherlock Holmes está a fazer o quê nesta discussão? Por causa do cinema, Holmes (somatório de características improváveis numa pessoa) é mais famoso do que Anna Karenina , mas o que nos diz isso sobre a respectiva qualidade literária? Em resumo, estamos a misturar assuntos, a falar de cultura popular, de influência e glória das nações, em vez de literatura.
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De Anónimo a 05.08.2015 às 17:24

Olá, Cristina.
O que me fez ler o Quixote foi o filme "Man of La Mancha", de Arthur Hiller, com o Peter O'Toole e a Sophia Loren.
Há cerca de dois anos voltei a reler este livro quando comprei o dvd da série espanhola "El Quijote", com guião do Nobel Camilo José Cela e magistralmente interpretado por Fernando Rey.
Tivéssemos nós quem pegasse assim em algumas das nossas lusas personagens...
:-) Antonieta
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De Cristina Torrão a 05.08.2015 às 19:09

Olá Antonieta.
Não conheço esse filme de Arthur Hiller, uma falha que vou tentar colmatar (talvez o tenha visto na infância, mas não guardo recordação nenhuma). De qualquer maneira, penso não ser um filme tão conhecido como os de Sherlock Holmes ou Harry Potter ou mesmo Ana Karenina, mas, pronto, admito que muita da universalidade da personagem de Cervantes também se possa dever a ele. Quanto à série, lembro-me de uma muito antiga, vi-a há, pelo menos, trinta anos.

Já agora, a propósito de Sherlock Holmes:
Sir Arthur Conan Doyle começou a ficar incomodado pelo facto de a sua personagem se tornar mais célebre do que ele próprio (ai, o egocentrismo dos escritores...). Não gostava nada que as pessoas se mostrassem mais interessadas em Sherlock do que nele próprio. Foi por isso que decidiu matar o seu herói. Mas também não foi boa ideia! Os leitores ficaram tão indignados, tão furiosos, que ele resolveu ressuscitá-lo ;-)
Resta dizer que soube disto através do próprio Conan Doyle. Por mais incrível que pareça, há uma entrevista dele que foi filmada! Vi-a, há tempos, num documentário na televisão alemã. O escritor acabava a dizer, muito contrafeito, que não teve outro remédio, senão aprender a viver com Sherlock Holmes ;-)
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De Anónimo a 06.08.2015 às 07:55

O filme é de 1972 mas tem uma canção que a Cristina decerto conhece: The Impossible Dream.
Penso que é cantada no filme pelo O'Toole mas não tenho a certeza, foi há imenso tempo.
Quanto ao Sherlock Holmes, tal como a dupla Romeu e Julieta, muito boa gente pensa que existiram mesmo e que viveram naquelas casinhas de Baker Street e Verona, respectivamente ;-)
Antonieta
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De Cristina Torrão a 06.08.2015 às 12:11

«When the "Sherlock Holmes" stories were first published, street numbers in Baker Street did not go as high as 221, which was presumably why Conan Doyle chose a higher street number for the location of his hero, to prevent any person's actual residence from being affected».

A Antonieta deve saber isto, mas, já agora, deixo o endereço da Wikipedia (em inglês) para mais curiosidades sobre o nº 221B da Baker Street:

https://en.wikipedia.org/wiki/221B_Baker_Street

Só nos anos 1930, quando a rua foi aumentada, passou a existir esse número. Desde aí, houve (e há) sempre alguém responsável pelas respostas às cartas enviadas a uma personagem de ficção! É simplesmente fascinante!
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De Anónimo a 06.08.2015 às 13:06

Essa das cartas por acaso não sabia, quer dizer que o Sherlock é como o Pai Natal que também recebe imensa correspondência.
Aliás, a Julieta de Verona também. Descobri isso ao ver um filmezinho simpático (eu e os filmes) com a Amanda Seyfried e a grande Vanessa Redgrave. É de 2010 e chama-se precisamente "Letters to Juliet" e fiquei a saber que há grupos de voluntárias que respondem a todas as cartas. Vi-o em dvd, ainda assim adorei ver aquela deslumbrante paisagem italiana.
:-) Antonieta
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De Carlos Faria a 05.08.2015 às 12:20

Dificilmente uma literatura que não é bem conhecida a nível global como a lusa pode dar personagens de âmbito universal, até porque projetar uma cultura nacional envolve muito frequentemente o reconhecer ou ter poder económico para despertar ou alimentar o interesse nos outros povos.
Mesmo assim, não sendo conhecidas tão internacionalmente personagens na nossa literatura nacional, tal não quer dizer que não tenham dimensão para o ser.
Pese embora o carácter fantástico da Blimunda de Saramago, esta é uma mulher muito mais forte do que a Anna Karénnina (obra que acabei de ler domingo passado) enquanto, a Quina de Bessa-Luís eleva-se a um patamar muito acima daquela russa derrotada por si e pela sociedade. Isto só para dar dois exemplos de obras da segunda metade do século XX em confronto com uma personagem citada no post
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De Anónimo a 05.08.2015 às 16:35

A Blimunda já tem uma ópera, de Azio Gorghi, estreada em Novembro de 1990 e que foi posteriormente apresentada em vários teatros mundiais, incluíndo o nosso S. Carlos.
O Bernardo Soares também é cada vez mais conhecido a nível mundial através do Livro do Desassossego.
:-) Antonieta
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De Anónimo a 05.08.2015 às 16:39

No comentário atrás esqueci-me de referir que a ópera foi estreada no Scala de Milão.
Antonieta
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De Liberato a 05.08.2015 às 14:31

É como comparar o macho do Malhadinhas com o Rocinante.
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De Anónimo a 05.08.2015 às 15:18

coragem!!!
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De cristof a 05.08.2015 às 15:22

Talvez o facto dos média e o cine ser fraco (coisa que já não acontece em Espanha onde até series já vendem mundialmente), seja em parte culpado de Blimunda e Sete-sois não surjam mais pelo mundo fora.
Todos nós somos muito influenciados pela TV e como podemos ver, o panorama é massificado pelos anglosaxónicos e seus heróis
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De Anónimo a 05.08.2015 às 17:07

Se bem que os brasileiros já tenham feito algumas séries bem interessantes adaptadas de livros do Eça.
Também na América Latina ele é bem conhecido (nos meios cultos, claro).
Estou-me a lembrar do "Crime do Padre Amaro", do mexicano Carlos Carrera, protagonizado pelo Gael García Bernal, filme de 2002 que foi nomeado para melhor filme estrangeiro para os Óscares e para os Globos de Ouro.
:-) Antonieta
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De JSP a 05.08.2015 às 19:37

Assim de repente, de repente mesmo, e no que toca " à universalidade" ( mas portuguese style...) só me vem á ideia o Alpedrinha...
:)
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De Anónimo a 06.08.2015 às 08:04

Mas olhe que há mais, caro JSP, há mais (portuguese style, I mean).
Dê uma espreitadela ao livro 'Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa', do Bruno Vieira Amaral (Guerra & Paz, Abril/2013) e vai ver que tenho razão.
:-) Antonieta
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De Anónimo a 06.08.2015 às 08:19

Recomendo especialnente a página 166, embora o Bruno não mencione o desgraçado e infeliz Alpedrinha...
Antonieta
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De JSP a 06.08.2015 às 13:29

Antonieta caríssima,
Muito obrigado pela dica.
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De Pedro Correia a 06.08.2015 às 14:38

Curiosamente, algumas das personagens mais emblemáticas - ao ponto de constituirem arquétipos portugueses - da nossa literatura surgem não na prosa mas na poesia. E desde logo uma n' Os Lusíadas: o Velho do Restelo.
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De Cristina Torrão a 06.08.2015 às 18:29

Bem lembrado, Pedro! Toda a gente conhece, mesmo aqueles que não sabem de onde ele vem ;-)
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De Fernando Pires a 06.08.2015 às 15:53

Na lista que o estimado autor fez de personagens "absolutamente inesquecíveis" e a seguir ao Harry Potter esqueceu-se do Snoopy, da abelha Maia, do Bruno Maçães e, claro, do duo maravilha Paulo Irrevogável Portas e Pedro Por-acaso-a-ideia-foi-minha Coelho.

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