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Um traço de união 27 anos depois

por Pedro Correia, em 06.03.17

publico_n1_600[1].jpg

 

Trabalhar no Público foi uma experiência única, irrepetível. Ter integrado a equipa da fundação do jornal - que andou durante meses a fazer números zero - foi ainda mais gratificante. Orgulho-me de ter figurado nessa primeira equipa daquele que continuo a considerar o melhor jornal diário jamais feito em Portugal.

O Público foi mais do que um jornal: foi um estado de espírito, que perdurou muito para além do espaço físico em que era elaborado. Refiro-me ao Público mais genuíno, o original, aquele que foi concebido e concretizado por um jornalista de excepção, o Vicente Jorge Silva. Que tinha como marcas editoriais a qualidade de escrita, a atenção à imagem, a valorização da ciência e da cultura, a recusa de um olhar paroquial sobre a actualidade noticiosa. E a irreverência, sempre a irreverência, contra os sucessivos poderes de turno.

Características que constituem traços de união entre os que por lá passaram. Isso ficou bem evidente neste sábado, quando nos juntámos no restaurante O Manjar do Marquês, em Pombal - uma das catedrais gastronómicas portuguesas. Éramos cerca de 120, dois terços vindos de Lisboa, os restantes oriundos do Porto.

 

Foi o meu baptismo no género, relutante que costumo ser às romagens de nostalgia, mais próprias da Liga dos Antigos Combatentes. Mas gostei muito de lá ir. De rever camaradas das lides jornalísticas que há muito não via, de conhecer enfim outros com quem nunca me tinha cruzado e sobretudo de confirmar como são sólidos os elos de cumplicidade entre diferentes gerações de jornalistas que tiveram o Público como denominador comum, em diferentes fases da vida do periódico - que ontem celebrou 27 anos de existência, já com poucos sobreviventes do ano da fundação no seu quadro redactorial.

Lá estavam o Joaquim Fidalgo, o João Seabra e o Carlos Lopes (dinâmicos organizadores deste encontro periódico de ex-jornalistas do Público). E o Fernando Sousa, meu parceiro ainda mais antigo de jornalismo, além de colega aqui no DELITO. E tantos outros: o Joaquim Trigo de Negreiros, a Sofia Branco, o Manuel Queiroz, a Paula Torres de Carvalho, o Rui Cardoso Martins, o Luís Francisco, o Jorge Baptista, o Pedro Caldeira Rodrigues, o José Vítor Malheiros, o António Granado, a Isabel Gorjão Henriques, o João Ramos de Almeida, a Lurdes Dias, a Joana Ferreira da Costa, a Ana Gerschenfeld, o Martins Morim, o Fernando Correia de Oliveira, a Anabela Natário, o João Manuel Rocha, o José António Cerejo, a Eunice Andreia, a Ana Machado, a Christiana Martins, o Rui Ferreira e Sousa, a Ivone Ralha, o Aníbal Fernandes, o José Queirós, a Cristina Sampaio.

Uma atmosfera única, de algum modo simbolizada nas festivas fotografias que reuniram três dos cinco membros da primeira direcção do jornal, ali presentes. O Vicente, o Jorge Wemans, o Fidalgo.

 

thumbnail_20170304_151135[1].jpg

 

Naquele momento pensei: se esta equipa voltasse a reunir-se não em torno de um caloroso almoço que se prolongou até ao fim da tarde mas de um projecto jornalístico, os leitores poderiam ter a certeza do que aí encontrariam: ousadia, desassombro, inovação, rigor e qualidade. Características que vão faltando, no todo ou em parte, ao jornalismo contemporâneo e que explicam boa parte do seu divórcio com as crescentes exigências da cidadania portuguesa.

O Vicente saberia explicar isto melhor que eu, num daqueles seus editoriais que nunca receavam suscitar polémica. Num tempo em que nenhum jornalista precisava de pedir licença para emitir opinião. Num tempo em que não havia responsáveis editoriais prontos a mudar de perspectiva sobre o mesmo assunto da noite para a manhã, medíocres cultores da blague de Groucho Marx: "Se as minhas ideias não lhe agradam, arranjo já outras."

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14 comentários

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De Tiro ao Alvo a 06.03.2017 às 14:09

Lembro-me bem desses tempo, das dificuldades que o PÚBLICO teve para arrancar. E da posição, sobranceira, do JN, dando conta dessas dificuldades e das aspirações, que consideravam exageradas, da primeira direcção do novo jornal.
E também me lembro de que fiquei muito agradado com os primeiros números, que me "agarraram" como leitor fiel até hoje, embora tenha deixado de ler certos "opinadores", alguns afastados, outros ainda no activo, pelo que, não raras vezes, tenha acabado por considerar a despesa como um desperdício.
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De Pedro Correia a 06.03.2017 às 16:13

Sim, andámos durante longos meses a elaborar vários "números zero" - a "escrever para o boneco", como na altura ironizava o Miguel Esteves Cardoso no 'Independente'. O mesmo MEC que neste fim de semana, por ironia, foi convidado a dirigir a edição do 27.º aniversário do 'Público'.
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De Carlos Silva a 06.03.2017 às 15:46

Velhos tempos em que havia jornalistas de campo. Levavam tempo a crescer
Hoje são de aviário. Crescem tão depressa que antes de aprenderem o que é profissionalismo e ética, já estão a prostituírem a sua mente e escrita, a quem melhor lhes paga.
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De Pedro Correia a 06.03.2017 às 16:11

"Jornalistas de aviário": excelente expressão. E muito certeira. Eu, que entrei no jornalismo por concurso, sei bem a diferença entre uma coisa e outra.
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De Luís Lavoura a 06.03.2017 às 16:01

O Manjar do Marquês, em Pombal - uma das catedrais gastronómicas portuguesas

Muito me admira que o Pedro classifique dessa forma esse restaurante que, que eu saiba, é sobretudo conhecido por servir refeições rápidas e estandardizadas a excursionistas pouco seletivos.
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De Pedro Correia a 06.03.2017 às 16:19


Discordo. Revejo-me muito neste texto de Fátima Moura sobre o restaurante de Pombal:
http://conversasamesa.blogs.sapo.pt/bons-manjares-em-pombal-81254
A "tasca da Dona Maria de Lurdes", como lhe chama o Ricardo Felner, que - ainda mais entusiasta que eu - o elege como "um dos melhores restaurantes do mundo".
https://ohomemquecomiatudo.wordpress.com/2013/07/15/a-tasca-da-d-maria-de-lurdes/
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De lucklucky a 06.03.2017 às 21:10

Eu lembro-me que um dos primeiros números se contestava a existência de Forças Armadas com argumentos estúpidos.

Bastou.

Agora apreciem a cultura que entre outros ajudaram a criar:
https://oinsurgente.org/2017/03/06/inaceitavel-direccao-da-fcsh-cancela-conferencia-jaime-nogueira-pinto/

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De Pedro Correia a 06.03.2017 às 21:24

Que contorcionismo, o seu. Saltar da fundação do Público em 1990 para um acto de censura na Universidade Nova a Nogueira Pinto em 2017. Extraordinário.
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De lucklucky a 07.03.2017 às 11:28

Cultura de um povo é construída pelo seu jornalismo.

A cultura de uma instituição como o Publico fica bem representado no título do jornal sobre este caso:
"Pressão dos estudantes trava organizadores de conferência com Nogueira Pinto"

Pressão...



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De Pedro Correia a 07.03.2017 às 11:33

Precisamente o contrário. O 'Público', sob a direcção do Vicente Jorge Silva, sempre deu voz a todas as tendências políticas. Sem anátemas nem exclusões.
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De Anónimo a 07.03.2017 às 13:36

Uma boa homenagem, Pedro - e um obrigado pela parte que me cabe. Estive entre os fundadores e acompanhei a aventura do Público até 2009, quando senti que tinha cumprido uma etapa e optei por outra. Acompanhei-o na sua "ousadia, desassombro, inovação, rigor e qualidade", saí dele quando era seu director o José Manuel Fernandes. Estava de fecho na tarde em que o Vicente me deu, para pôr em página, o editorial que titulou Geração Rasca. Vivi lá o drama e por fim a independência de Timor-Leste. Deixei nele os meus melhores trabalhos, trouxe dele a nostalgia de um jornalismo que não tem hoje nada que se lhe compare e - o menos frequente - um monte de amigos. Bem-vindo, Pedro, aos ex-Públicos.
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De Fernando Sousa a 07.03.2017 às 18:39

Eheheheh, sim, fui eu que escrevi isso, mas a coisa foi parar aos comentários a moderar. É o preço das pressas.
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De V. a 07.03.2017 às 13:47

Por falar em jornais (e em marqueses), ontem estive a ver um niquito do P'rós e Contras onde apascentavam, entre outras criaturas, o produtor fictício que transumou do Eixo do Mal da SIC para o poleiro subsidiado na RTP (isto um gajo tem de acautelar uma reforma de gabarito agora que os bancos não valem nada). Às tantas NAS dizia com gravidade filosófica que a RTP, ao contrário dos canais privados, não encara o espectador como um consumidor mas como cidadão. Profundo. Mas o melhor foi a resposta do Director de Info da TVI que disse que a TVI também encara o espectador como cidadão mas que ao contrário da RTP não encara os espectadores como contribuintes. PUMBA. Toma e embrulha. Toma e embrulha digo eu, o produtor fictício quer lá saber da realidade. Isto dava um post para os comunas cripto-fascistas tipo Lavoura virem para aqui espingardar.

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