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Um PSD que não voa

por Diogo Noivo, em 22.11.17

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Carlos Eduardo Reis é conselheiro nacional do PSD. Assinou ontem um artigo de opinião no Público em jeito de resposta a um texto de Marina Costa Lobo publicado no mesmo jornal. Nunca ouvi falar dele. Mas já ouvi falar (e falar de) Marina Costa Lobo, uma das mais notáveis cientistas políticas do país. E por aqui deve começar o comentário à prosa de Carlos Eduardo Reis.

 

Logo a abrir o segundo parágrafo, escreve este conselheiro nacional de um dos maiores partidos políticos portugueses que “não sabia quem era” Marina Costa Lobo. Perdoada a deselegância, a constatação diz mais sobre ele do que sobre a investigadora e docente universitária.

 

No início do parágrafo seguinte, escreve Carlos Eduardo Reis que, enquanto leitor, não entende como é possível “receber um artigo sobre "o PSD" em vésperas de disputa interna e a alegada analista só referir um candidato”. Olhando para esta frase, não será abusivo concluir que subjacente às dificuldades de entendimento está uma concepção enviesada e curta de liberdade de opinião. Já quando olhamos para o artigo de Marina Costa Lobo percebemos que o conselheiro foi incapaz de entender o que leu.

 

Ainda no terceiro parágrafo, Reis acrescenta que “[e]laborar um diagnóstico de uma força política quando a sua liderança está em vias de ser decidida já seria duvidoso”. Em democracia, aberta e plural, qualquer momento é adequado para diagnósticos partidários, principalmente quando quem os faz não tem vínculos políticos e aborda o tema de um ponto de vista científico. Admito que seja diferente quando um membro de um partido ataca explicitamente a candidatura que apoia em vésperas de um acto eleitoral. Como fez, por exemplo, a número cinco da lista do PSD a Lisboa uns dias antes das últimas autárquicas. Mas, dada a ausência de artigo de opinião sobre o assunto, imagino que tal acto seja para o conselheiro nacional do PSD menos gravoso do que um texto escrito por uma cientista social.

 

Chegados ao quarto parágrafo – não se perde um –, Carlos Eduardo Reis escreve, sem sombra de matizes, que “[e]m política, o contexto é tudo”. Portanto, ideias, valores e projectos políticos anulam-se perante os caprichos do contexto. Governa-se a pensar no momento porque a estratégia pertence ao domínio da ficção. Ficamos esclarecidos. Ainda em relação a esta preponderância absoluta do contexto em política, Reis acrescenta que “[n]ão é preciso ser político ou professora de política para sabê-lo”. Pois não. É sim preciso fazer umas leituras (Tocqueville, Weber e Orwell são prescrição indicada para este tipo de patologia) e dispor de um módico de senso-comum para não escrever inanidades.

 

No quinto parágrafo, o conselheiro nacional do PSD alerta para o facto de “não entender que o carácter excepcional do contexto que se seguiu ao governo de 2005 é irresponsável”. Voltei ao texto de Costa Lobo, que li. E reli. E tornei a ler. E em momento algum o artigo desvaloriza ou branqueia os resultados nefastos da governação socialista de José Sócrates. Delírio ou análise deficiente, este quinto parágrafo sobra.

 

No último parágrafo, Carlos Eduardo Reis agarra-se à primeira pessoa. “Eu”, escreve, “que não sou académico mas sou português” (duas informações que não surpreendem ninguém) “sei que de que lado da História fiquei e que História quero ainda ver mudar”. Muito bem. Mas nós, a generalidade do grande público, não sabemos de que lado da História ficou. Nem temos nisso grande interesse. Já eu, depois de ler o artigo deste conselheiro social-democrata, temo ao pensar sobre o que ele pretende da História ou, pior, sobre o papel que nela venha a desempenhar.

 

Declaração de interesses: antecipando-me a eventuais comentários, não sou nem nunca fui militante do PSD, embora veja nesse partido aquele que melhor traduz as minhas preocupações enquanto cidadão (tendo em conta os candidatos perfilados, a coisa poderá mudar). E porque estamos em Portugal, país onde as críticas reflectem quase sempre motivações ocultas, deixo claro que não conheço pessoalmente Marina Costa Lobo.

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4 comentários

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De Anónimo a 22.11.2017 às 11:01

Procurar qualquer tipo de rigor ou coerência nas elites partidárias é pior que procurar uma agulha num palheiro.
É endémico e sistémico.
Não vale a pena tentar corrigir.
Nunca encontrará aquele partido "...que melhor traduz(a) as (minhas) suas preocupações...".
Pelo menos no atual sistema.
João de Brito
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De Anónimo a 22.11.2017 às 11:06

Bom dia. Começando pela sua declaração de interesses, eu escreveria algo muito semelhante.
Quanto à essência do seu post, assino por baixo. Naturalmente, para mim, creio muito importante a renovação de gerações dentro dos partidos, mas ainda mais importante a participação das pessoas e designadamente nas autarquias, no dia a dia, na vida das comunidades. Caso contrário a bovinidade crescente vai ficando. Quanto ao articulista do PSD faz-me lembrar um outro do PS, lá no Porto, exemplos de como a necessária renovação me parece estar a ficar complexa.
António Cabral
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De Luís Lavoura a 22.11.2017 às 14:51

[e]m política, o contexto é tudo

Esta frase é altamente verdadeira vinda de um conselheiro nacional do PSD. De facto, o PSD é um partido ideologicamente amorfo, que pode defender uma ou outra ideologia, ou nenhuma ideologia, dependendo do contexto. C.E.Reis está portanto a afirmar algo que tem a perfeita noção de ser absolutamente verdade no partido em que milita.
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De Anónimo a 24.11.2017 às 18:16

Sabemos bem quem é Marina Costa Lobo. Mas algumas das suas opiniões deixam um tanto a desejar, como diz o vulgo. Principalmente aquela em que defendia que Pedro Passos Coelho se devia candidatar a Presidente da Câmara de Lisboa!
Quanto ao PSD, a maioria dos comentadores, sobretudo aqueles ligados ao comentário politico, não sabem do que falam. O processo em curso é perfeitamente normal. Tanto em democracias modernas como em "democracias" da Antiguidade. Porque é que essa gente não lê os clássicos, modernos e antigos?

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