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Um país futebolizado

por Pedro Correia, em 16.05.17

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Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto - ou, no caso português, apenas o futebol - potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro - muito diferente e claramente negativo - é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta.

 

O eco que os meios de informação tradicionais fazem do que se publica na Rede, amplificando tudo de forma acrítica e seguidista, vai produzindo cada vez mais estragos.

A crise financeira dos media conduziu nos últimos anos a drásticas alterações de âmbito editorial. A deontologia jornalística manda auscultar todas as partes com interesses atendíveis numa determinada história, obrigando também o jornalista a não eleger uma "verdade" sem pelo menos registar a soma das "verdades" em disputa. Acontece que a urgência de conseguir leitores e audiências tem levado muitos jornais e televisões a "queimar etapas" e a elevar o tom do relato noticioso, desvirtuando-o.

Os adversários tornaram-se inimigos, os desafios transformaram-se em batalhas, os saudáveis confrontos derivaram para devastadoras guerras.

 

Somar a febre do futebol à necessidade imperiosa de estancar quebras de tiragens dos jornais e fugas dos telespectadores para canais temáticos alternativos dá nisto: visões extremadas onde a emoção substitui o raciocínio, toda a moderação é considerada imprestável e o "vencedor" proclamado dos debates é invariavelmente o que berra mais que os outros.

Eis-nos mergulhados num caldo de cultura que nada augura de bom.

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16 comentários

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De V. a 17.05.2017 às 09:56

Nunca percebi com é que as rendas em Lisboa —durante os anos negros de Passos e da Troika, com imigração diária de filhas e filhos em busca de pão nos países capitalistas opressores, fome generalizada e um volume de actividade sindical para a qual nem os próprios sindicalistas se tinham inscrito (aquilo dá muito trabalho, escolher os cartazes para as manifs) — nunca percebi, dizia, eu, como é que as rendas em Lisboa nunca chegaram a baixar. Ah, já sei: é uma cidade de funcionários públicos. Uma parte trabalha no Estado e a outra parte tira um ordenado limpinho das rendas que cobram a quem as pode pagar. E devem ser muitos que as podem pagar, se as rendas não baixam. Sei que pareço a Helena Matos a escrever uma crónica, mas digo isto porque quem trabalha para privados ou dá umas aulitas aqui e ali e recebe 500 euros a recibos verdes não as consegue pagar de certezinha absoluta.

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