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donald-trumpwhite-house.jpg

Foto:Reuters/Jonathan Ernst 

 

A notícia passou quase despercebida, mas esta segunda-feira o Presidente Donald Trump tomou a primeira medida concreta que dá corpo à retórica agressiva que tem proferido durante o último ano contra a liberalização do comércio internacional. A retirada dos EUA do Acordo Transpacífico (TPP) e o anúncio da revisão da sua participação no NAFTA foram sinais importantes e reveladores do caminho que a nova administração queria seguir, mas não foram mais do que isso, sinais. Pelo menos, até agora. Trump, em plena ressaca da crise do “shutdown” e com os holofotes mediáticos apontados para a guerra entre democratas e republicanos, anunciou que vai aumentar as tarifas de importação para máquinas de lavar e painéis solares. Estas medidas afectam, principalmente, países como a China e a Coreia do Sul e, segundo conselheiros citados pelo New York Times, outros produtos, como aço e alumínio, poderão vir a ser alvo de semelhante medida. Trump parece ter sido sensível ao “lobby” de empresas norte-americanas, como a Whirlpool (máquinas de lavar) ou a Suniva e a SolarWorld Americas (ambas de painéis solares). Os números revelados são muito significativos. Por exemplo, no primeiro ano, as primeiras 1,2 milhões de máquinas importadas sofrerão um acréscimo de 20 por cento nas respectivas tarifas, subindo para 50 por cento sobre todos os equipamentos comprados ao estrangeiro acima daquele número. A partir do terceiro ano, os valores descem para 16 por cento, no primeiro caso, e 40 por cento, no segundo. Quanto aos painéis solares importados, sofrerão um aumento de 30 por cento, um valor que cairá para 15 por cento no quarto ano.

 

Se aquelas empresas têm motivos para celebrarem, o sentimento não parece ser unânime na indústria da energia solar nos EUA, receando que estas medidas tornem o mercado menos competitivo. Também os ambientalistas temem que o aumento dos painéis solares comprometa o investimento da população nestas soluções. Além disso, são evidentes os potenciais efeitos nocivos que estas medidas podem ter no comércio internacional e nas relações de confiança entre os principais actores mundiais. Pequim e Seul já demonstraram o seu desagrado e ameaçam recorrer à OMC, no entanto, não anunciaram, para já, qualquer represália. Trump passou da retórica aos actos, naquilo que considera ser a concretização do seu lema: “America First”. Ora, aquilo que Trump não parece estar a ver é que, num primeiro momento, estas medidas até poderão beneficiar algumas empresas americanas e galvanizar uma parte do eleitorado, sobretudo aquele mais ligada à indústria pesada americana, mas, a médio prazo, os efeitos serão contraproducentes para a economia americana. A História, aliás, tem demonstrado que as economias crescem muito mais quando se abrem ao exterior do que quando se fecham com medidas restritivas.

Isso é dos livros, mas sobre essa matéria, Donald Trump não deverá estar muito ciente daquilo que é verdadeiramente benéfico para a América.

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12 comentários

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De Sarin a 23.01.2018 às 20:13

Trump tem a estratégia do homem de negócios que gere dinheiro.
Trump não gere empresas e tudo o que estas representam: se uma empresa não tem os resultados esperados, Trump deslocaliza, retalha, aliena. Não diagnostica, não investe, não remodela - e muito menos pensa em quem nela trabalha.
É uma forma de gerir, e tem resultados imediatos.

O problema vem com o médio e o longo-prazo...
... mas nessa altura já a prole terá amealhado e negociado o que bem quis, quem vier a seguir que segure a porta, quem estiver sem chapéu que apanhe a borrasca.
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De Lucklucky a 23.01.2018 às 20:17

"...até agora. Trump, em plena ressaca da crise do “shutdown” e com os holofotes mediáticos apontados para a guerra entre democratas e republicanos..."

Esta frase é toda um tratado de como dar a entender que Trump é que está de ressaca.

https://www.politico.com/story/2018/01/22/government-shutdown-deal-liberals-angry-357268

---
Quanto às medidas de Trump tem toda a razão, foi o proteccionismo do pós 1º GM que trouxe a Grande Depressão.

Mas é interessante que nada digam às tarifas que a UE coloca aos outros.
Aliás nada sabemos do que se passa na UE.


Ou o que o Trump faz bem como: https://danieljmitchell.wordpress.com/2018/01/04/falling-red-tape-rising-economic-growth/

Isso também não é notícia.
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De Luís Lavoura a 24.01.2018 às 12:11

é interessante que nada digam às tarifas que a UE coloca aos outros

Exatamente.

Aquilo que hoje se designa por "comércio livre" não é na verdade nada livre. É um comércio gerido. Há importantes setores (em particular tudo o que tenha a ver com agricultura) em que o comércio é tudo menos livre.

Aliás, basta ver que as negociações de um qualquer dito "acordo de comércio livre" são sempre extremamente complicadas. Porque aquilo que se faz nesses acordos não é libertar o comércio, mas sim geri-lo.
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De Vento a 23.01.2018 às 21:22

Eu creio que ele está bem ciente do que está a fazer. Repare que ele sobe as tarifas aduaneiras onde sabe que existe mercado para suportar a compra dos materiais produzidos nos USA. Isto indica que ele não só ganhará em volume os impostos que baixou às empresas como também dinamizará a indústria de componentes existentes no USA ligados a estes sectores.
Por outro lado, ele sabe que esses artigos não deixam de ser fabricados pelas empresas sediadas na Europa e Ásia, caso também da Whirlpool, e não existirá qualquer retaliação. A existir lá se vão os empregos e os impostos ganhos por esses governos directa e indirectamente.

Trump, em matéria económica, sabe mais do que aquilo que aparenta. Pode ser um trumpalhão em certas áreas políticas, mas o que até agora fez em matéria económica foi bom, até fez a Apple aderir a sua política.

O Alexandre não se pode esquecer que esta onda verde e política pseudo-climática que atravessa a Europa nada mais é que uma necessária reconversão da economia para manter as economias estáveis e obrigar ao consumo. Portanto, a decisão é feita por necessidade económica e não por razões ambientais.
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De JS a 23.01.2018 às 22:20

O equilíbrio na balança de pagamentos entre os EUA e alguns "parceiros" comerciais é o que o Trump quer obter. É a sua obrigação, como PR dos EUA.

Algo que os anteriores PRs, políticos de carreira, menospresaram com graves consequências para os EUA.
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De Luís Lavoura a 24.01.2018 às 12:08

O equilíbrio na balança de pagamentos entre os EUA e alguns "parceiros" comerciais

Concordo totalmente que os EUA devem procurar equilibrar a sua balança de pagamentos.

Não concordo, porém, quando o fazem parceiro comercial a parceiro comercial. Ou seja, quando dizem que devem ter a balança comercial equilibrada com a China, e com a Alemanha, e com este e com mais aquele.

A balança comercial total deve ser equilibrada, mas é natural que, país a país, existam desequilíbrios, inclusivé grandes.

Quando os EUA se põem a dizer que a balança comercial deles com outro país qualquer deve estar equilibrada, não têm razão.
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De Lucklucky a 24.01.2018 às 13:42

Assim fala um mercantilista politizado.

O equilibro existe, os Americanos ficam com produtos que querem.

Mas claro para os políticos isso não interessa.

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De Luís Lavoura a 24.01.2018 às 09:34

A História, aliás, tem demonstrado que as economias crescem muito mais quando se abrem ao exterior do que quando se fecham com medidas restritivas.

Eu acho que o Alexandre Guerra deveria mesmo ir estudar História.

Primeiro, a História jamais demonstra seja o que fôr, porque não consegue fazer experiências controladas (com contrafactual). Jamia saberemos como se teriam as coisas passado se decisões diferentes tivessem sido tomadas.

Segundo, a História demonstra que a generalidade dos países, e certamente que os EUA, cresceu muito e bem sob a imposição de medidas restritivas ao comércio. Em especial os EUA, viveram a maior parte da sua História sob fortes medidas protecionistas e só muito recentemente se converteram ao comércio livre.
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De Lucklucky a 24.01.2018 às 13:46

A Recessão de 1929 foi provocada pelo fim do comércio livre que baixou para níveis inferiores ao inicio da 1 GM.

De qualquer modo se estiver num período histórico com várias novas tecnologias que trazem significativas melhorias à vida das pessoas - motor de combustão interna , electrificação, etc -o difícil é não crescer.

A questão não é se cresceu é se podia crescer ainda mais e se as pessoas que compraram os produtos não podiam ter uma vida melhor por comprarem ainda melhores produtos.
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De Sarin a 24.01.2018 às 15:21

Desculpe perguntar, mas perdi-me: afinal a história demonstra ou não demonstra?
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De Luís Lavoura a 25.01.2018 às 09:11

Tem razão, o verbo correto é "mostra", não "demonstra". Foi um lapso da minha parte.

Assim: a História mostra que a generalidade dos países cresceu muito e bem sob a imposição de medidas restritivas ao comércio.
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De Octávio dos Santos a 24.01.2018 às 18:50

... E, porém, até Al Gore (!) concorda com a decisão de Donald Trump...

http://dailycaller.com/2018/01/24/al-gore-trump-solar-tariff-davos/

... Que, aliás, mais não faz do que ir de encontro às solicitações dos fabricantes norte-americanos, que se vêem prejudicados numa concorrência desleal com empresas asiáticas que beneficiam de generosos subsídios estatais.

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