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TSU e o mau da fita

por José António Abreu, em 25.01.17

1. Economia

Em Portugal, ninguém questiona que tudo passe pelo Estado e tudo dependa do Estado. Ao lidar com o sector público mas também com o privado, o governo age como se o dinheiro dos contribuintes fosse inesgotável e a economia de uma resiliência à prova de bala. Daqui nasce um círculo vicioso: a economia cresce pouco, o Estado não obtém os recursos pretendidos, o orçamento público apresenta défices crónicos, os impostos e a dívida aumentam, a economia cresce ainda menos. Tudo isto perante a complacência – quando não o aplauso – das associações patronais, dos sindicatos, da maioria dos comentadores, do Presidente da República. A polémica em torno da TSU constitui mais um exemplo desta lógica. A medida é péssima: apoia-se em dinheiro dos contribuintes, serve de contraponto a um aumento exagerado (porque muito superior aos ganhos de produtividade) do salário mínimo (já demasiado próximo do salário mediano), e, num país onde ele abrange vinte e tal por cento dos trabalhadores, incentiva as empresas a usá-lo ainda mais. Porém, isto não impediu que as associações patronais a sancionassem. Em vez de defenderem medidas que permitam a subida do salário mediano e forcem o Estado a um nível superior de eficiência (descidas de impostos ou simplificação de processos burocráticos, por exemplo), escolheram (escolhem sempre) alinhar numa lógica de subsidiação, apoiada em cada vez mais regras e excepções. Ou seja: em Portugal, as associações patronais são uma parte não apenas activa mas entusiasta no crescimento desmesurado do Estado - e, por conseguinte, no agravamento dos problemas dos seus próprios associados.

 

2. Política

Passos Coelho é um espinho cravado no sistema político nacional. O homem recusa-se a seguir o guião. Parece que, de repente, até decidiu fazer política. Indivíduos mais atentos teriam notado a forma como ele deu a volta a Paulo Portas em 2013; como aguentou críticas ferozes, vaticínios catastrofistas e distorções variadas (que, evidentemente, nada tinham a ver com «pós-verdade» ou «factos alternativos») enquanto foi primeiro-ministro; como, quebrando a tradição nacional de que uma pessoa não se «rebaixa» a um papel menos importante do que outro já desempenhado, assumiu o lugar de deputado após a queda do seu governo às mãos da «geringonça». Na verdade, Passos é um político. Um excelente político. Nas últimas semanas, António Costa – este sim, considerado por todos um político exímio, para além de um negociador imbatível – deu-lhe oportunidade para o demonstrar. Costa fechou um acordo que violava a Constituição (o escândalo mediático que teria surgido há apenas um par de anos...) e para o qual não garantira apoio parlamentar. Para o fazer passar, contava com a passividade do PCP, do Bloco – ou do PSD. Os dois primeiros foram iguais a si mesmos e mostraram que o governo de Portugal não é estável nem credível (quanto a duradouro, veremos). Por seu turno, Passos resolveu finalmente assumir o papel de líder da oposição e cumprir o que prometera aquando da tomada de posse da «geringonça»: forçá-la a governar. Nos dias seguintes, verificou-se que Costa tinha quase toda a gente «importante» com ele: a intelligentsia mediática, os «patrões», a UGT, a facção «bem-pensante» do PSD, o Presidente da República. Só que Passos aguentou muito mais durante os anos da Troika. Não cedeu, e fez bem. Contudo, assumiu um risco: para os poderes instalados (os mesmos que Ricardo Salgado elogiou explícita e implicitamente no artigo que escreveu aquando da morte de Mário Soares), é cada vez mais importante afastá-lo da liderança do PSD.

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14 comentários

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De Duque de Lafões a 25.01.2017 às 18:40

Uma palhaçada. O salário mínimo deveria subir independentemente da TSU. O PS no passado também não apoiou a descida da TSU e a sua oposição devia- se ao princípio em si e não ao modo.
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De lucklucky a 25.01.2017 às 19:11

Mesmo com QE, juros com nível baixo a economia não cresce...
Mas isto não preocupa o complexo político jornalista dedicado a fait divers como a TSU.

Só quando os jornalistas e as escolas olharem para a Cultura que construíram em Portugal nos ultimos 40 anos...

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De Alienado a 26.01.2017 às 12:19

http://www.hbs.edu/faculty/Publication%20Files/CAON%20Portugal%2004-10-02%20CK2_20e4a4d8-a06e-4a89-91cf-8f270dc0b4c1.pdf
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De V. a 25.01.2017 às 20:00

Nem mais.
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De tric a 25.01.2017 às 22:06

Passos devia ter sido logo expulso da liderança do PSD quando decide cometer o acto terrorista de destruir o BES...Passos apoiou a destruição de todos os Bancos a operar em Portugal de matriz Católica portuguesa só os estrangeiros é que foram acarinhados...
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De V. a 26.01.2017 às 11:08

LOL. É só teses e nenhuma conspiração.
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De Tá bemmmm a 26.01.2017 às 12:50

Percebes de Política e Economia como eu percebo de Lagar de Azeite!
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De Alienado a 26.01.2017 às 20:56

Olhe explique-me por que é que o azeite puro, sem mistura, tem um sabor que não convence os turistas da cidade. Falando com o sr. António, das Mós do Douro, fiquei a saber que lhe tinham de misturar óleo pois só assim os ambientalistas da cidade lho compravam. Tudo artificio para essa malta
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De Vento a 26.01.2017 às 13:02

Pela primeira vez nos últimos 10 anos Passos Coelho revelou decência e coerência política. PS, PCP e BE, cada um à sua maneira, pretendiam usar o PSD para assegurar suas políticas.
O PCP e o BE pretendiam evitar a demostração de uma crise política em torno da solução governativa, pensando que o PSD votaria a favor da TSU.
Costa também pensava que a dita coerência política do PCP e BE em nada causaria mossa ao PS, porque o PSD seria a sua muleta na aprovação daquelas medidas que a suposta coerência não apoiaria. Todavia, ainda que PCP e BE não apoiassem formalmente tais medidas, intimamente desejavam que o PSD fizesse.

Ora bem, a solução governativa encontrada tinha como princípio a erradicação da vida política a anterior, esta sim, geringonça. Geringonça nas mãos de uma troika que geringava sem rumo. E assim se deve manter até que o PSD seja capaz de se reconstruir e revele nas suas fileiras ser capaz de dar lugar a gente mais crescida e madura. O CDS terá que se dar conta de uma matriz cristã. Quando compreender isto, verificará que essa matriz jamais poderá ser encapotada pelo rito e pelos trejeitos.
Neste cenário, o que assistiremos no futuro será precisamente verificar uma melhor coordenação nas negociações entre PS, PCP e BE; com estes últimos, o PCP e BE, a terem de aprovar medidas que sempre disseram ser de direita. O PSD também tem aqui uma oportunidade para iniciar a sua conversão.

Uma coligação que pretende reverter políticas também tem de ser capaz de reverter algumas ideias, funcionando em contexto. Costa tem agora o PCP e o BE nas mãos para provar o que acabei de afirmar. Ou isto ou novas eleições, Costa. E o PCP e o BE vão ter de mostrar agilidade mental como peças determinantes no funcionamento desta geringonça.
A Universalidade governativa que sempre preconizei engloba o espectro partidário vigente (todos), desde que as políticas sejam direccionadas para a Pessoa, individualmente e colectivamente, e não para uma amálgama ideológica que exclua essa importância que o Indivíduo tem e a Polis também.

Quanto a tudo passar pelo Estado, José: No UK está tudo a passar pelo Estado; nos USA também, em França também; na China também; na Rússia também; na Alemanha também; na Dinamarca também; em Itália também; na Irlanda também; na Grécia também; ...
E está tudo a passar pelo Estado porque a dita liberalização da economia revelou-se ser constituída por ineptos, incompetentes, gananciosos e egoístas, com o beneplácito dos governos. Foram estes os muros que se começaram a edificar. Os ditos muros actuais de que tantos falam são somente o reboco, os acabamentos, sobre os anteriormente edificados.
What goes around comes around!
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De Alienado a 26.01.2017 às 20:57

Sabe o que lixa o Pedro? Haver aumento do salário mínimo nacional.
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De simplesmente avô a 26.01.2017 às 15:30



Passos é economista.
Costa é jurista.
Marcelo é jurista.
Concepções e culturas algo distintas.
Passos é directo, tenaz e pouco hábil.
Costa é subtil, oriental, dado a consensos.
Marcelo é elegante no trato e condescendente.

O País, nas mãos destes Srs., lá vai vivendo.

Sem grandes expectativas.
Sem singulares arroubos.
Sem espírito de aventura.
Dobrado sob o peso da dívida pública.

É isto que temos.

E que teremos durante muitas dezenas de anos.

Parabéns pelo seu artigo.

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De Alienado a 26.01.2017 às 20:58

Olhe, eu até diria mais. Nunca houve mais nada por cá se não ir vivendo sem grandes expectativas, sem singulares arroubos, sem espírito de aventura.
Dobrados sob o peso da dívida pública.
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De Makiavel a 26.01.2017 às 15:38

Como elogio fúnebre (politicamente), até que o artigo nem está mau.
Normalmente, este tipo de escrita é feito por amigos chegados.
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De s o s a 26.01.2017 às 23:29

A leitura do post provoca alguma gargalhada.
Passos foi ladrao, mais papista que o papa, e ainda agora nos reis disse algo do genero : mais que estar a haver criaçao de emprego, estao os desempregados a reformarem-se.
Ele sabe do que fala, de maquinaçoes. Nos também.
Relembro : Passos queria ir ao pote, ainda antes de haver troika. Passos foi o nosso Trump de fraudas, queria suspender a democracia.
Passos roubou, mesmo, quer aos reformados quer aos empregados. Nao com o objetivo de crescer, ampliar o numero de pessoas felizes e bastadas.

Nao é a inteligencia que nao quer o Passos, mas o partido que mais que desconfia que com este lider associado á tal ladroagem, fique aquem de bom resultado, sendo que nesse jogo tem sempre tambem que ver com a forma como joga o adversario.

clarinho, mais clarinho não há : socrates estava a roubar cada vez mais os portugueses. O PSD, no caso com Passos, mas outro que fosse, era a alternativa a mudar a politica de socrates.
O Poder é sujo, mas o Passos já o era desde menino.

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