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Trump, Obama e o jornalismo

por Pedro Correia, em 14.11.16

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1

No meio dos dislates de Donald Trump - que os houve, e graves - ficou por perceber, deste lado do Atlântico, que mérito afinal este candidato teve aos olhos do eleitorado norte-americano. Algum terá, seguramente, caso contrário o "sábio povo" que elegeu Barack Obama em 2008 e 2012 não se transformaria no "estúpido povo" que agora votou como votou.

Acontece que a Portugal, durante a campanha, só chegou o aspecto anedótico, grosseiro e caricatural do candidato. Mais nada. Nenhuma proposta de âmbito social, nenhuma proposta de âmbito económico. Por que motivo a larga maioria da classe trabalhadora branca americana e um segmento significativo dos desempregados de longa duração votaram nele?

Era uma excelente história. Mas ficou por contar nos meios de comunicação portugueses. No meio de tanta reportagem “editorializada” não houve tempo para fazer jornalismo.

 

2

Trump, um milionário que fez questão de pagar a sua própria campanha sem recorrer a fontes de financiamento externas, conseguiu passar a mensagem de que era ele o candidato anti-sistema. Mal ou bem, o escrutínio confirmou esta evidência. Financiador das campanhas de Bill Clinton na década de 90 e recém-filiado no Partido Republicano, o magnata pulverizou o establishment político de Washington.

Isso verificou-se logo nas primárias, em que todos os candidatos da oligarquia partidária foram caindo, um a um (Jeb Bush, Marco Rubio, Ted Cruz), até à desistência definitiva do último que lhe fez frente. E acaba de ocorrer na eleição presidencial: Hillary Clinton (que, com o marido, domina o Partido Democrata há um quarto de século) é a personificação máxima do sistema. Talvez isto explique o facto de 20% dos eleitores que preferiam Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata terem votado Trump.

Porquê? Outra boa história que ficou por contar nos meios de comunicação portugueses, pré-formatados para a "inevitável" vitória de Hillary Clinton. Entre tanta reportagem “editorializada” contaminada pela propaganda de uma facção, não houve tempo para fazer jornalismo.

 

3

Tem faltado por cá um balanço crítico da presidência Obama. Porque a derrota eleitoral de Hillary é também uma derrota de Obama, que aliás se envolveu por completo na campanha – com uma intensidade e uma frequência raras vezes vistas num inquilino da Casa Branca prestes a abandonar o cargo.

De Obama, no entanto, também cá chega apenas a versão benévola disseminada pelos seus diligentes assessores de imagem e aceite nas redacções sem um assomo de interrogação: o homem que mal começou a governar e já recebia o Nobel da Paz, o bom pai de família, culto, sorridente, tolerante, descontraído, elegante e bem humorado - em jantares risonhos, passeios informais, bailes de gala e divertidos talk shows.

Um político com imensas qualidades, sem dúvida, mas cujo mandato foi agora avaliado negativamente pelos eleitores norte-americanos, que recusaram a candidata de Obama e optaram pelo Partido Republicano nas corridas à Presidência dos Estados Unidos, ao Senado e à Câmara dos Representantes. Numa jornada eleitoral em que os republicanos também conquistaram terreno nas eleições para  governadores (onde dispõem da mais larga maioria desde 1922) e para os parlamentos estaduais.

Quais as sombras projectadas pela administração Obama que prejudicaram seriamente Hillary Clinton e arrasaram o Partido Democrata nas urnas? Outra excelente história que não chegou a ser contada. Porque a propaganda se sobrepôs ao jornalismo.

 

4

Uma personagem de um filme de John Ford, jornalista de profissão, proclamava no Velho Oeste: “Quando a lenda se torna facto, imprime-se a lenda.”

Imitando essa figura de ficção, demasiados jornalistas andam por cá a imprimir a lenda, impondo-a como verdade unidimensional. Tudo isto esbarra no entanto com um sério problema: quando os factos desmentem a lenda, toda a construção mediática anterior cai pela base. E o descrédito dos meios de comunicação clássicos amplia-se ainda mais.

Não admira portanto que as pessoas se virem em doses crescentes e maciças para as "redes sociais". Lá, ao menos, e no meio de imenso lixo, acabam enfim por encontrar o indispensável e elementar contraditório que os media tradicionais estupidamente lhes vão negando.

 

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25 comentários

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De BELIAL a 14.11.2016 às 11:40

Post lúcido.
Post sensato.
Livre.
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De am a 14.11.2016 às 11:44

Jornalista e politólogo de trampa: --

" É espantoso que tenha bastado 48 horas para alguma direita portuguesa se tenha convertido a um racista, xenófobo, misógino e javardo "
Por
Pedro Adão e Silva / Esquerdista a recibo negro
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De Pedro Correia a 14.11.2016 às 15:06

O arguto e lúcido povo americano, que na vanguarda do planeta elegeu o "primeiro presidente negro" em 2008, elegendo-o em 2012, retrocedeu em 2016 ao mundo das cavernas, elegendo um troglodita.
A vanguarda tornou-se retaguarda. Imprima-se a lenda.
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De lucklucky a 14.11.2016 às 14:13

Bom post, com relvância para o que foi e é jornalismo em relação a Obama.
Por ter ocorrido durante 8 anos e durante muito mais situações, do Iraque a Bengasi, do Obamacare, das ordens executivas para tudo, do vergonhoso caso das multas e punições legais pagas por Empresas entregues a grupos de apoio ao Partido Democrata em vez de ao Estado.
Bem mais grave que o comportamento do jornalismo nesta eleição.

Desde 1922 que o Partido Republicano não tinha tantos Governadores de Estado como hoje. A cada eleição desde 2008 o Partido Democrata foi perdendo em Estados e localmente.
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De Pedro Correia a 14.11.2016 às 15:11

Faltou-me referir os governadores - e os parlamentos estaduais.
http://www.wsj.com/articles/gop-sees-gains-in-state-legislatures-1478815199
Ainda vou acrescentar.
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De Anónimo a 14.11.2016 às 15:57

Bom post. Quem tem só acesso a informação via RTPs, SIC(K) ou TVI houve cada uma!.
Que (o criminoso) Trump já diz ir expulsar 3 milhões. O que aliás nunca disse.

O que sempre disse, pequeno detalhe que escapa aos inteligentes de serviço nestas estações foi o seginte.

Trump sempre afirmou que iría expulsar do País (3 milhões de) indocumentados com cadastro criminal, como obriga "the Law of the Land" e cuja execução Obama congelou ilegalmente.
Pobres diabos, os jornalistas, claro. Estavam preocupados com alegações de actividade para-sexual do candidato.
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De Pedro Correia a 14.11.2016 às 20:38

Nas últimas 48 horas li e ouvi em vários meios de comunicação portugueses frases como "Ku Klux Klan apoia Trump". Como se 60 milhões de americanos fossem do KKK.
Continuam a fazer campanha por H. Clinton, sem perceberem que o Partido Democrata perdeu em toda a linha as eleições, tanto a nível nacional como estadual: Presidência, duas câmaras do Congresso, governadores, parlamentos estaduais.
Ao produzirem conteúdos "informativos" deste género, os jornais e as televisões em Portugal prosseguem a caminhada acelerada rumo ao precipício.
Porque estão a reproduzir a lógica das "redes sociais".
Sem perceberem que o original é sempre superior a qualquer cópia.
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De lucklucky a 15.11.2016 às 03:59

Obama expulsou 3 milhões durante 8 anos.

http://order-order.com/2016/11/13/249237/
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De Octávio dos Santos a 14.11.2016 às 16:50

O Pedro escreve neste seu texto que «ficou por contar» a «excelente história» de saber «por que motivo a larga maioria da classe trabalhadora branca americana e um segmento significativo dos desempregados de longa duração votaram» em Donald Trump; que «outra excelente história que não chegou a ser contada» é a de saber «quais as sombras projectadas pela administração Obama que prejudicaram seriamente Hillary Clinton e arrasaram o Partido Democrata nas urnas»; enfim, que «tem faltado por cá um balanço crítico da presidência Obama»...

... Porém, e na verdade, tudo isso eu - jornalista com a carteira profissional Nº 4473 - tenho feito, e aliás faço desde Janeiro de 2009 (quando Barack Obama tomou posse), no meu blog Obamatório, cuja leitura o Pedro já simpaticamente sugeriu aqui no Delito de Opinião. Nestes quase oito anos foram várias as vezes em que contactei (diversos) órgãos de comunicação social nacionais «oferecendo-me» (porque não me convidavam) para de algum modo colaborar neste âmbito, para comentar a actualidade política (e não só) dos EUA; nunca se mostraram interessados... e agora os resultados desse desinteresse estão à vista.
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De Pedro Correia a 14.11.2016 às 20:49

Caro Octávio: eu refiro-me naturalmente aos chamados "órgãos de referência" que têm correspondentes lá e para lá enviam repórteres em missão especial de recolha de informações.
São esses os que têm a estrita responsabilidade de produzir informação rigorosa, factual, previamente submetida ao teste do contraditório.
Foram vários desses que falharam em toda a linha. Confundindo desejos com realidades. Substituindo-se à vontade soberana de quase 200 milhões de eleitores, "elegendo" à partida quem muito bem lhes apeteceu.
Se tivessem permanecido por cá, no eixo Chiado-Príncipe Real, não teriam feito nada diferente.
Viajaram de olhos fechados. E com a "estória" escrita de antemão.
Resumindo e abreviando: em vez de produzirem valor informativo acrescentado, esses enviados e esses correspondentes produziram jornalismo "editorializado", que se confundiu em toda a linha com a propaganda do Partido Democrata.
O que é totalmente inaceitável.

Não nego que houve nichos informativos que desmentiram esta péssima regra, fora dos circuitos dominantes. Não ignoro que houve comentadores credíveis nesses próprios jornais e nesses próprios canais televisivos que procuraram remar contra a maré.
Infelizmente, foram a excepção. E o pior é que sei de antemão que nenhum desses jornais e nenhum desses canais televisivos fará autocrítica interna para corrigir procedimentos. Basta pensar no que sucedeu há três anos com o tristemente célebre caso "Baptista da Silva". A "ética da responsabilidade" que tantos jornalistas exigem para os políticos nunca é aplicada em causa própria.
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De Anónimo a 14.11.2016 às 17:32

Não confundamos a mensagem com o mensageiro.
O voto do povo americano não é a favor de Trump.
É um voto de protesto.
Contra a mais cínica e eficaz ditadura de que há memória:
- a democracia representativa.
Mais cínica: porque se legitima pelo voto, que sistematicamente usa contra o povo.
Mais eficaz: porque instrumentaliza os media e o marketing.
Os autodenominados democratas enchem a boca (e o bolso) com a liberdade conquistada e com o binómio "uma pessoa- um voto".
Os americanos encheram-se de verificar que essa liberdade e esse voto só têm beneficiado os representantes, em sentido lato, da tal democracia representativa.
Ou seja, com voto ou sem voto, o povo está sempre na mesma.
Na ditadura clássica, o povo não tem voto na matéria.
Nas ditadura democrática, o povo tem voto, mas não tem matéria.
A matéria fica toda para os representantes.
A ditadura clássica até é menos má, porque tanto tira o voto ao povo como a matéria aos representantes, poupando assim muito dinheiro.
É esta a mensagem do povo americano.
E vai daí, os autodenominados democratas vêm para a rua.
Já não lhes interessam os votos.
Só a matéria.
Os atuais ditadores egípcios fizeram o mesmo...
João de Brito

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De Pedro Correia a 14.11.2016 às 20:56

Respeitando inteiramente a sua opinião, e o seu direito de expressá-la com a correcção que o faz, estou profundamente em desacordo com ela.
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De Anónimo a 14.11.2016 às 20:02

Os americanos mostraram toda a sua estupidificação política, no auge que lhes irá sair bem cara. Um dia no tempo de Bush filho como governante, fiz questão de perguntar a alguns americanos, em seu território que tal o presidente? Resposta: nós americanos temos aquilo que merecemos e na realidade está à vista, eles adoram a ignorância, a estupidez, a frivolidade e deitam fora, a sabedoria, a inteligência e o humanismo.
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De Pedro Correia a 14.11.2016 às 20:33

Que bom, o mundo a preto e branco.
Próprio das histórias aos quadradinhos.
Os bons de um lado, os maus dos outros.
O povo americano, que era inteligente e visionário em 2008 e 2012, ficou estúpido em 2016.
Bom cartão de visita para a administração Bush.
Mau cartão de visita para a administração Obama.
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De Anónimo a 14.11.2016 às 21:45

Tem dúvidas que votaram estupidamente e com toda a ignorância possível? Eu não tenho a mínima, como não tenho qualquer dúvida que o Trump lhes vai dar muito trabalho e revolta. Tem dúvidas da impreparação política e não só, dos americanos? Eu não tenho nenhuma e está provado que são muito baixos a nível intelectual, talvez por isso se verguem tanto aos israelitas. Em 2008 e 2012 votaram com lucidez, agora votaram mostrando que ficaram sem nada dentro das cabecinhas ocas e que vão sofrer as consequências e de que maneira. Vamos andando e depois veremos quem tem razão...
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De Pedro Correia a 14.11.2016 às 22:09

"Votaram estupidamente e com toda a ignorância possível" em que ano?
2008? 2012? 2016?
Para a Casa Branca? Para o Senado? Para a Câmara dos Representantes? Para a maioria dos cargos de governador? Para a maioria dos parlamentos estaduais?
Sessenta milhões de "estúpidos"? Sessenta milhões de "ignorantes?
Em todo o tempo, para todos os órgãos políticos?
E o inteligente e esclarecido é quem? Você?
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De MM a 14.11.2016 às 23:33

Pelo que vejo é um grande admirador do Trump e das suas loucas ideias. Mostra ser um grande democrata...
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De Pedro Correia a 15.11.2016 às 00:08

Não tenho a menor admiração por anónimos, Marques Mendes.
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De rmg a 14.11.2016 às 22:48


O "Anónimo" das 20.02 e das 21.45 é um patusco que já me fez rir, logo hoje que não estava com muita vontade disso.

É que ver alguém escrever contra si próprio, mostrando ao mundo o seu vazio de ideias ao acusar os outros de estúpidos e ignorantes ano sim e de inteligentes e lúcidos ano não é sempre divertido.

Isto já para não falar das sondagens pessoais que faz...

Bem haja, "Anónimo" patusco!
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De Pedro Correia a 14.11.2016 às 23:13

Isto anda tudo ligado. É como na produções Walt Disney: mal surge o Donald, aparece logo o Pateta.
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De WW a 15.11.2016 às 03:13

O Pedro Correia critica e com razão os jornalistas que fizeram as reportagens travestidas de editoriais mas omite da critica os donos dos meios de comunicação social, alguns dos quais (meios de comunicação social) existem por mero interesse dos respectivos donos pois estão mais que falidos como se sabe...já para não falar na pressão que existe sobre muitos jornalistas para travestirem a realidade e não elencarem os factos de forma concisa.

Os donos da comunicação social sempre prontos a defender o capitalismo e a economia de mercado são os primeiros a insurgirem-se contra a privatização do grupo RTP, porque será ?

Ainda bem que refere o episódio Baptista da Silva, a sorte do outro foi ser conhecido (mediático) e o pensar no futuro por parte do seu patrão que como agora se observa está a dar jeito, o homem se tivesse vergonha tinha-se demitido mas enfim quem é que lhe ia dar trabalho...bem talvez na RTP.
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De Pedro Correia a 15.11.2016 às 12:37

"Se tivesse vergonha tinha-se demitido". Frase-chave.
O problema é que é sempre mais fácil recomendar a "ética da responsabilidade" a outros, em artigos cheios de aparente moralismo. Dupla moral, no entanto: porque esses parâmetros éticos nunca funcionam em causa própria.
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De lucklucky a 16.11.2016 às 19:53

E a demonstar como o "jornalismo" é Político e serve para o proselitismo da Política ficou por contar e fica sempre por contar a história do maior bloco político = o bloco não político: Os abstencionistas, nulos e brancos.

Nestas eleições Presidenciais tiveram 46% de abstenção. Mais pessoas que os votos de Trump ou Hillary.
Mas como não são políticos o jornalismo não os aceita como cidadãos.
O jornalista não está interessado em saber deles porque não serve o poder do jornalista que só existe se for político e servir a política.

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