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Toda a estupidez é intolerante

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.03.17

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O tema, à partida, afigurava-se interessante. O orador é um reconhecido intelectual de direita, homem culto que sempre assumiu com coragem as suas convicções. Discutir o populismo e a democracia, compreender fenómenos como o Brexit, Le Pen e Trump não poderia ter mais actualidade. Sobre estes temas e outros idênticos já eu próprio participei num debate público e tive intervenções versando esses temas num programa de rádio onde regularmente intervenho. E, pergunto eu, que poderá haver de mais estimulante, mesmo para quem professe ideias contrárias, do que debater com um intelectual da craveira de Jaime Nogueira Pinto essas questões da actualidade política, questões que por esse mundo dividem a direita da esquerda, o pensamento neo-liberal e conservador do socialismo democrático, os radicalismos extremistas dos diversos modelos de democracia?

Confesso que tanto me faz que a intolerância venha da direita xenófoba e racista, de uma "associação de estudantes" de "orientação maoista" (ainda há maoistas?; eles sabem o que é o maoísmo?) ou de um triste Sousa Lara.

Como uma vez mais se prova, a estupidez não tem cor política. Aquilo que aconteceu na Universidade Nova de Lisboa, uma respeitável instituição de ensino, com excelentes professores e pensamento crítico, é mais uma evidência de que muitas vezes os piores sinais vêm de onde menos se espera. De onde não podem vir. Uma academia, uma universidade, é um espaço de excelência para a troca de ideias, para a discussão e o debate, para a divulgação de experiências e conhecimentos. Sem debate e discussão não há pensamento crítico, não há inteligência, não há luz. 

Como qualquer homem livre, avesso à intolerância, às trevas e à estupidez  – esta passagem dá para perceber o nível dos censores: "[n]ão compactuamos com eventos apresentados como debates sob a égide de propaganda ideológica dissimulada de cariz inconstitucional" (sic) –, adepto de um bom debate, de uma discussão acalorada em torno de um punhado de ideias, quero aqui deixar registada a minha indignação e tristeza pelo que aconteceu na Universidade Nova de Lisboa.

Jaime Nogueira Pinto não será um novo Savonarola ou um Giordano Bruno. Ele merece a nossa solidariedade e eu espero que possa apresentar as suas ideias, para que possam ser discutidas, criticadas e apoiadas por quem quiser, tão breve quanto possível numa qualquer outra instituição universitária onde os estudantes se comportem como tal.

Porque só isso poderá ser salutar para a universidade, para a democracia e para a liberdade. Porque as ideias combatem-se com ideias, e não com a estupidez ignorante. Porque a intolerância não é esquerdista. A intolerância é pura e simples estupidez. E só no reino da estupidez é que a manifestação de uma opinião, seja de direita ou de esquerda, é um crime ou um delito. Portugal já tem estupidez que chegue.

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18 comentários

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De ana paula ferreira dos santos a 07.03.2017 às 09:04

Não censuremos este senhor, porque não somos como ele!
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De V. a 09.03.2017 às 12:46

Estás com os binóculos ao contrário.
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De AntónioF a 07.03.2017 às 09:32

Caro Sérgio,
permita-me que aplauda o seu texto e sublinhe:
«Toda a estupidez é intolerante (...) Confesso que tanto me faz que a intolerância venha da direita xenófoba e racista, de uma "associação de estudantes" de "orientação maoista" (ainda há maoistas?; eles sabem o que é o maoísmo?) ou de um triste Sousa Lara.»
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De Carlos Faria a 07.03.2017 às 10:08

Independentemente das suas ideias pessoais, se existe alguém em Portugal que sabe analisar problemas de tensões entre povos, culturas e a situação atual na Europa de uma forma sustentada e coerente com a realidade é Jaime Nogueira Pinto, não querer ouvi-lo é seguramente querer ficar mais ignorante por medo dos factos contradizerem o que querem convencer-nos.
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De Carlos Faria a 07.03.2017 às 10:10

Independentemente das suas ideias pessoais, se existe alguém em Portugal que sabe analisar questões de tensão entre povos, religiões, culturas e ideologias, de forma sabiamente sustentada é mesmo Jaime Nogueira Pinto. Não querer ouvir só manifesta receio e insegurança da validade das ideias de quem lhe quis cortar a voz.
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De Vento a 07.03.2017 às 10:56

Pegando neste excerto, "[n]ão compactuamos com eventos apresentados como debates sob a égide de propaganda ideológica dissimulada de cariz inconstitucional" (sic), que faz parte dos tiques da direita e esquerda por este mundo actual, que muito gosta de transformar o pensamento em lei, permite-me dissertar sobre a intelectualidade enlatada.

Verifica-se pelos padrões acima descritos que hoje o pensamento é circunscrito a razões constitucionais: não se pode emitir opinião sobre uma trágica e estúpida descolonização; não se pode emitir uma opinião contrária aos contextos feministas actuais; não se pode emitir uma opinião clara e contrária aos conceitos de família que hoje vigoram; não se pode emitir uma opinião que distinga o que é ser um par e um casal; não se pode emitir uma opinião pró-vida, isto é, contra o aborto, porque o aborto, isto é, a morte de um Ser, transformou-se num avanço civilizacional e numa libertação da mulher que se deu conta agora de ser dona de sua barriga e também de um Ser que aí é gerado por acção de um fluido masculino que ao entrar deixa de ser pertença de um homem; alguns têm receio em falar de Deus-Pai - não se vá cair no sexismo - e lá vão engendrando um Deus-Mãe para tentar tocar corações que parecem não estar ligados à mente; não se pode falar de uma escola pública e privada que compactue com os princípios da laicidade, isto é, que ser laico é precisamente abranger tudo o que na sociedade se expressa e não somente umas correntes; e etc. e etc. e etc e tal.
Curiosamente estes preconceitos têm vindo a ser mais vincados em quadrantes esquerdistas que são muito pouco dados ao sal, ao açúcar, ao tabaquito, ao piropo (isto é, também coisas boas da vida, desta vida amarga), ao cartão de cidadão, que devia ser uma cartolina de cidadania; e parece pretenderem que a mente humana e o livre pensamento se enlate num esquema dito constitucional, com fazem às sardinhas.
Mas, pela leitura que faço de seu texto, Sérgio, os mauzões (deixo que se coloque as aspas ou não conforme critério constitucional) ressurgiram ou ressuscitaram e quase me convencem que por este caminhar ainda veremos a política do filho único, a selecção de escolha do género no nascimento em detrimento das meninas, o controlo sobre a nomeação de pessoas religiosas que devem ser exclusividade do Estado; e etc. e etc. e etc. e tal.

Em resumo, e concluindo, eu definiria esta nova vaga com sendo etc. e tal.

Nota: Podem chegar-se à frente ou, mais actual, step forward.
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De Bic Laranja a 08.03.2017 às 02:10

O comentário é melhor que o artigo, mas o foco da censura foi outro: foi a Nova Portugalidade, não o Jaime Nogueira Pinto. Este, pode muito bem dizer o que ia dizer; na associação 25 de Abril, p. ex.
Cumpts.
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De Vento a 09.03.2017 às 11:33

Se é livre para o dizer na Associação 25 de Abril estou em crer que essa liberdade também pode ser extensível, por exemplo, à Universidade onde foi impedido de apresentar suas ideias.
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De Anónimo a 07.03.2017 às 10:56

Muito bom SAC.
A criançada anda apenas a mimetizar -como macacos de - o que vê lá por Berkley, etc.. Meninos parvinhos há-os em toda a parte. Mas na Universidade, além do mais, é de mau agouro.

Agora, a pedra de toque, será a reação dos adultos, dos responsáveis pela Universidade.
Vão por água na fervura, fingir que não viram, esquecer... desistir de educar?.

Será que os instigadores de esse infeliz grupo de aprendizes a ditador até são das juventudes dos partidos no poder ?.
Neste caso a coisa seria ainda mais interessante.
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De JPT a 07.03.2017 às 11:00

E exonerar o senhor que cancelou a conferência, não cabe nas competências e deveres do Ministro da tutela? Imaginemos, por um momento, que o motivo da censura tinha sido a cor da pele, o género, a orientação sexual do conferencista, ou a sua convicção na bondade da ditadura do proletariado - ou outra razão igualmente tutelada pela Constituição da República - estaríamos aqui todos tão calminhos?
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De lucklucky a 07.03.2017 às 11:23

"é mais uma evidência de que muitas vezes os piores sinais vêm de onde menos se espera. "

!? Não sabe o que é o Marxismo?

Não tem nada de estupidez.
Violência e Intimidação foi sempre a forma de exercer o Poder pelos Marxistas. E tem lhes servido bem para alcançarem o Poder e para se perpetuarem no quando o alcançam.


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De Luís Menezes Leitão a 07.03.2017 às 12:55

Há muito que digo que o país atravessa um novo PREC. Este é mais um sinal a juntar a tantos outros.

E não me parece que haja nada de estúpido neste comportamento de uma associação maoísta. Mao podia ter muitos defeitos, mas a estupidez não era seguramente um deles. E esta associação está a aplicar a sua cartilha à risca. E pelos vistos já têm a Direcção da sua Faculdade na mão.
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De lucklucky a 07.03.2017 às 14:42

Não é Portugal. É um PREC no Ocidente.

Pode ir a toda a censura e violência de Esquerda nas Universidades Americanas, a lista é interminável.

Em Inglaterra:
http://www.telegraph.co.uk/education/2017/03/07/student-union-bans-conservative-society-speaking-challenged/

Em Espanha agora já se sentem com tanto poder que começam a morder quem os promoveu, sim jornalistas:
http://observador.pt/2017/03/06/jornalistas-espanhois-denunciam-pressoes-do-podemos/


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De Anónimo a 07.03.2017 às 13:13

Gostava que alguém me dissesse o que, no contexto, significa "...sob a égide de propaganda ideológica dissimulada de cariz inconstitucional" (sic)
Sinceramente, cariz institucional?!...
Que instituição?!
João de Brito

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