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Ter sorte não dá trabalho nenhum

por Teresa Ribeiro, em 13.05.14

Sorte é perder o avião que se despenhou, é encontrar na rua uma nota de 500, é ser amigo de quem nos pode arranjar emprego, é encontrar a nossa alma gémea e, claro, ganhar na lotaria. Ter sorte é, por definição, beneficiar de algo que é obra do acaso. Por isso dizer, como agora se usa, que "a sorte dá muito trabalho", é falacioso. A sorte não dá trabalho, cai-nos no colo. A sorte que se conquista não é sorte, é recompensa. Resulta da perseverança e da iniciativa e não de factores arbitrários.

Afirmar que a sorte dá trabalho é dizer aos azarados que além de azarados ainda têm culpa de ser azarados, mas também aplaudir quem teve a sorte de alcançar o que deseja sem esforço. É claro que esta confusão não é inocente e radica na ideologia da moda, a que promove o empreendedorismo, a "proactividade" e detesta gente piegas, dividindo sumariamente a sociedade em "falhados" e "bem sucedidos". Só que neste suposto esforço de combate à depressão nacional os ideólogos de serviço não devem confundir conceitos, sob pena de agravarem ainda mais  o estado mental de quem por um lado não vê os seus esforços recompensados nem foi bafejado pela sorte e por outro dos que tendo beneficiado de favores ainda acham que isso não é sorte, mas mérito seu.

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14 comentários

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De Luis Eme a 13.05.2014 às 10:48

Teresa, eu percebo o teu ponto de vista.

mas onde se utiliza muito essa expressão é no desporto, onde o factor sorte está muitas vezes presente. mas não está só, há muito trabalho por detrás.

por exemplo numa final olímpica, em que existem três quatro atletas ao mesmo nível, a sorte também acabará por decidir, por coisas pequeninas...
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De Teresa Ribeiro a 13.05.2014 às 11:11

No desporto o factor sorte pesa, e de que maneira, Luís. E às vezes é bem injusta, premiando equipas mais fracas e ateletas menos esforçados.
A frase é contraditória nos seus termos, por isso a contesto. Mas que seja usada no desporto, não me incomoda. Quando é aproveitada para pedagogias ideológicas é que me chateia e muito.
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De Carlos Duarte a 13.05.2014 às 11:00

Cara Teresa,

Ambos os lados têm razão, mas nenhum dos dois a tem por completo.

Será mais correcto dizer não tanto que a sorte dá trabalho, mas que aproveitar a sorte que se tem dá trabalho. Porque se, por um lado, ter só sorte não chega (e basta ver as desgraça a que muitos dos "sortudos" dos totolotos e euromilhões chegaram, estando piores do que antes de lhes sair a "sorte grande"), trabalhar só também não chega.

Um bocado da conjugação desses dois extremos da "sorte" é que advém uma das maiores justificações morais para o Estado Social (sem discutir modelo específico), a noção de que se nos é devido aquilo para que trabalhamos e é justo sermos recompensados por isso, também é injusto que aqueles a quem a vida não lhes foi feliz sejam penalizados e é dever do Estado tentar equilibrar (não equalizar, atenção) a Fortuna.
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De Teresa Ribeiro a 13.05.2014 às 11:22

Pois, mas essa é uma diferença radical. A diferença entre quem teve sorte e quem não teve. Ter sorte é algo de bom que nos acontece por acaso. Isso é ter sorte. Saber tirar partido dela, quando nos cai do céu, já é outra discussão. Os que a desperdiçam, esses sim, merecem todas as críticas.
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De João André a 13.05.2014 às 12:47

Teresa, se quisermos ser precisos, a sorte não existe sequer. Por definição a sorte é um acaso que nos é favorável. Pode inclusivamente defender-se que a sorte de uns é sempre o azar de outros. Dessa forma não haveria sorte, numa espécie de equilíbrio cósmico. É também isso que a estatística indica: a sorte em si não existe, apenas existem coincidências favoráveis e coincidências desfavoráveis. Ao longo da esmagadora maioria de vidas humanas a sorte e o azar (bem como os acasos neutros) equilibrar-se-ão e nenhuma pessoa poderá ser considerada sortuda ou azarada. Há casos muito raros em que uma pessoa pode considerar-se "sortuda" ou "azarada" quando existe um acaso de enorme significância na sua vida (ganhar a lotaria jogando uma única vez, ter um acidente grave na primeira vez que anda de avião, etc). Embora na vida dessa pessoa não se atinja um equilíbrio entre sorte e azar, através de uma população grande o suficiente (entenda-se por população o termo estatístico) esse equilíbrio será atingido.

Que uqero então dizer? Que de facto a sorte não dá trabalho porque em si não existe. Porque razão vemos objectivamente algumas pessoas como sortudas? Normalmente porque essas pessoas souberam aproveitar essa sorte/acaso (ou, igualmente importante, souberam utilizá-la, por exemplo com um bom investimento). Por outro lado também temos (humanos) a tendência para racionalizar tudo. Isso significa que não queremos aceitar que tivemos sorte. Por isso as pessoas que nasceram com vantagens sobre outras (alguém que nasce numa família educada e financialmente estável) acabam por racionalizar o seu sucesso com base no seu trabalho em vez de o fazer com base nas condições iniciais favoráveis (e que não influenciou).

Concluindo: a sorte não dá, de facto, qualquer trabalho. Por outro lado também não existe. Quando existe, para ser sorte, dá trabalho.
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De Teresa Ribeiro a 14.05.2014 às 00:30

João, "coincidências favoráveis" e "coincidências desfavoráveis" são uma excelente definição de sorte e azar. Suponho que o equilíbrio entre as duas é atingido, ou seja, ou número de coincidências agradáveis e desagradáveis para uma população alargada é equivalente, mas a sua distribuição de indivíduo para indivíduo não é equilibrada, pelo que não existindo em teoria a "sorte e o "azar", na prática existe. Não precisas de ir mais longe. Eu ao jogo não acerto uma. A coisa revelou-se desde sempre tão frustrante, que há muitos anos desisti de arriscar fosse no que fosse. Euromilhões, lotarias, não quero saber, porque a mim sei eu que jamais sairá :)
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De João Campos a 13.05.2014 às 13:25

A última frase é tão certeira, Teresa.
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De da Maia a 13.05.2014 às 14:04

Muito bom texto, Teresa.
Desmistificar os mitos modernos, é uma tarefa muito importante, porque alguns têm um grande grau de perversidade.

No entanto, a maldicência nacional actua nos dois sentidos.
Há também queira reduzir um melhor sucesso a sorte, e não é sorte.
Muitas vezes é trabalho, outras vezes é simples falta de escrúpulos, trafulhice, etc.
Quando um transeunte deixa cair a carteira, para uns pode ser sorte - ficando com ela, para outros é o trabalho de correr atrás do sujeito para a devolver.

Uma boa parte do sucesso está ligado a ausência de valores.
Quem menos se importar com os outros, mais julga obter para si.
Outra grande parte do sucesso está ligada a uma herança... uns têm, outros não, e ninguém parte em igualdade de circunstâncias.

Mas outra parte de sucesso está ligada com muito esforço, e quando outros não o entendem, chamam-lhe sorte, o que é redutor. Pode parecer casual dar-se com a fórmula para um medicamento, mas quando se passaram milhares de horas no laboratório até a encontrar... essa sorte deu muito trabalho.

É nesse sentido que se quer aplicar a expressão, mas como é geral, é bom esclarecer, para não confundir as coisas.
Porque, quem não tem escrúpulos, facilmente se quer associar a trabalho que não teve, e a valores que não tem.
Não deixemos que tenham essa sorte...
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De Teresa Ribeiro a 14.05.2014 às 00:35

Obrigada, da Maia. E concordo consigo quando diz que as distorsões também se fazem no sentido inverso, desvalorizando o que resulta do mérito, atribuindo-o à sorte.
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De Vento a 13.05.2014 às 14:50

E má sorte, Teresa, é ter que levar com gente que pensa que a sorte é tudo em contrário do que descreve.

Chegámos a um ponto onde se confunde sucesso e mérito com jogadas baixas ligadas a meras questões económicas.
Na realidade esta gente foi criada num ambiente estéril, e é sabido que em ambiente estéril não se ganha vida e mundo.
Felizmente, tenho consciência, que o ambiente geral - o ambiente em que esses se reproduziam e reproduzem, que presumem ser um pequeno gueto - em que me criei e vivo é um ambiente conspurcado em que fui contaminado pelas mais variadas espécies de micro-organismos; e foi este ambiente que originou os anti-corpos que possuo. Neste sentido tenho uma sorte imensa em saber que os ratos estéries acabarão por perecer de suas próprias virtudes.

Finalmente, Teresa, há mesmo eunucos tornados tal pelas mãos dos homens. É só olhar para esses a que se refere e que presumem ser líderes. Não conheço nenhum médico que se salva a si mesmo.
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De Teresa Ribeiro a 14.05.2014 às 00:40

A espertalhufice proporciona sucesso, mas não tem mérito nenhum.
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De Maria de Jesus Lourinho a 14.05.2014 às 18:28

Li este post e respectivos comentários. No dia 21 de Março, no meu blog, escrevi um texto com o título "O trabalho que a sorte me dá" que foi aqui citado por Pedro Correia no dia 10 de Abril no seu post Ler. Não sei se tudo o que aqui está escrito pode ter origem neste meu textozito (http://1diaatrasdooutro.blogspot.pt/2014/03/o-trabalho-que-sorte-me-da.html) mas duvido. Sendo certo que não enfio a carapuça, deixo o link para quem quiser poder ler o que escrevi.
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De Teresa Ribeiro a 15.05.2014 às 00:02

Faço questão de ler os textos que o Pedro linka nesses seus posts, porque confio no seu critério. Mesmo que não me identifique com alguns, acho-os sempre interessantes. Mas por acaso falhei a leitura da selecção que ele publicou nesse dia, de modo que só agora li o seu texto (e assinalo a coincidência de a imagem escolhida ser quase igual, o que deve ter contribuído para deduzir que este post seria inspirado no seu). Fica o esclarecimento.

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