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Temos medo

por Patrícia Reis, em 23.05.17

Temos medo. Podemos dizer que não temos, podemos tentar racionalizar, mas é um facto que o século XXI é o século do medo. Pelo menos até agora. Pode ser que mude, porém não vejo sinais de qualquer mudança, sinto apenas a escalada do medo. Aqueles pais, e Manchester, à espera de entender se o filho ou filha morreram é uma imagem que irá permanecer comigo durante muito tempo. Existem imagens hediondas que nos atingem todos os dias, mas o que se passou em Manchester não é um atentado como os outros. O público que assiste aos concertos da artista norte-americana Ariana Grande é jovem, muito jovem. A artista tem um concerto agendado para o Meo Arena e a pergunta que faço é: quantos pais vão repensar essa ida nocturna dos filhos a um concerto? E quantos perguntarão: um dia destes será em Lisboa, certo?

O medo é paralisante e será com isso que muitos movimentos terroristas contam. Não se sabe se o bombista suicida que se fez explodir em Manchester - matando (até ao momento) os 22 e ferindo 59 pessoas - era de algum grupo terrorista. O ataque não foi reivindicado. Uma coisa é certa, conseguiu entrar numa arena com capacidade para milhares de pessoas levando uma bomba que se supõe caseira. Não se sabe quem era, de onde vinha, o que fazia, em que acreditava.

Adonis, o poeta sírio tantas vezes indicado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura, escreve no livro “Violência e Islão” que não é possível o Ocidente e o Islão chegarem a um entendimento enquanto os estados árabes não forem laicos. Afirma que a religião como forma organizadora da sociedade implica, no caso do Islão, violência por ser uma religião criada na violência. Nunca quis acreditar nesta versão, por ser demasiado redutora, por reflectir a vida do poeta, que admiro, mas que está condicionado pela sua experiência. Numa coisa, contudo, está absolutamente certo: o islamismo é a religião que mais cresce, é o que mostram os últimos estudos, e o Ocidente sente-se ameaçado pelo invisível. Os terroristas que se dizem islâmicos não têm uma agenda lógica, atingem onde menos se espera. Nada pior do que não conseguirmos prever. O mundo que temos para os nossos filhos, os nossos netos, não promete nada que seja fácil e não garante qualquer segurança. Sim, repito, temos medo. E temos razões para ter medo.

O medo rouba-nos a liberdade, promove a desconfiança, remete-nos para o que consideramos seguro. O conhecimento e a vida não se fazem sem riscos e essa é a maior vitória do terrorismo que, tantas vezes, diz ofender-se com o estilo de vida ocidental. Sem liberdade não conseguiremos evoluir como sociedade e os retrocessos ao nível dos valores serão inevitáveis, os direitos serão condicionados. Não é assim que queremos viver, bem sei. Seria bom promover o diálogo, mas quem é que quer falar com terroristas que matam crianças? Manchester é assustador por ser no nosso contexto, dentro do padrão normal do nosso comportamento. Outras crianças morrem. Todos os dias, na Síria por exemplo, a morte é o mais comum. Qual é a diferença? O que acontece num país tão distinto da nossa realidade é algo que nos comove pontualmente. Talvez por isso as nossas crianças sejam mais importantes que as crianças dos outros. Nada podia ser mais triste.

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3 comentários

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De Luís Lavoura a 23.05.2017 às 16:56

Eu diria que os pais devem ter mais medo, muito mais medo, de que os filhos se matem em desastres rodoviários. Os desastres rodoviários, que atingem desmesuradamente os jovens, sobretudo machos, matam muitíssimo mais do que bombas. É muito mais provável um jovem que vai a um concerto matar-se num desastre rodoviário do que ser morto por uma bomba.
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De Luís Lavoura a 23.05.2017 às 17:10

não é possível o Ocidente e o Islão chegarem a um entendimento enquanto os estados árabes não forem laicos

Certíssimo. Ora, o que o Ocidente tem estado afincadamente a fazer, é a derrubar os poucos regimes laicos que há no Islão para os substituir por regimes religiosos. Foi o que fez no Iraque (substitui o regime de Saddam Hussein, que era laico, por um regime religioso xiita). Foi o que tentou fazer na Síria (substituir o regime de Bashar Assad, que é laico, por um regime religioso sunita). É claro que, com esta política, o Ocidente cava a cova em que há de cair.
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De lucklucky a 23.05.2017 às 19:06

O jornalismo que promoveu o terrorismo durante os últimos 40 anos, primeiro Marxista depois Islâmico esperava o quê como resultado?
Que ficasse lá longe? que fosse só contra Israel e os EUA?

Já algum jornalista foi questionar as mulheres em França, Holanda, Alemanha, Austria... se mudaram os seus hábitos nocturnos nos últimos 10-20 anos?

Claro que não, essa informação não interessa ao jornalismo marxista que temos.


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"Os terroristas que se dizem islâmicos não têm uma agenda lógica, atingem onde menos se espera."

Que coisa estranha para se dizer numa guerra.
Os Islamistas querem a destruição de uma civilização e a subjugação da sua população.




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