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Tão-somente poder

por Diogo Noivo, em 23.05.17

Não sei se o problema tem 20 anos. Na verdade, vejo-lhe as origens no fracasso dos projectos pan-arabistas, como o de Nasser. Seja como for, "é um problema político" e não um choque de civilizações ou uma guerra de religiões. Aliás, é esse o meu argumento aqui e aqui

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12 comentários

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De Luís Lavoura a 23.05.2017 às 16:53

Excelente extrevista. Estou de acordo com praticamente tudo nela.
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De Diogo Noivo a 23.05.2017 às 17:26

Não sei se a nossa concordância é um bom sinal... Espero não ter aberto um precedente, Luís Lavoura.
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De lucklucky a 23.05.2017 às 19:12

O "problema Político" chama-se Totalitarismo do Islão.

É um choque de civilização, uma guerra religiosa por causa do Totalitarismo que está na base do Islão.



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De Diogo Noivo a 23.05.2017 às 22:16

E 'prontos'. Embrulhem!
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De Luís Naves a 23.05.2017 às 20:40

A explicação é boa, temos aqui uma teoria que parece adequada, mas depois surgem algumas dúvidas. Que diabo, estes malucos estão a matar as nossas crianças! A ideia de uma crise dentro do Islão não pode certamente explicar totalmente que um maluco se faça explodir ao pé de gente tão vulnerável, para mais sendo um maluco criado em Inglaterra. É que não existe aqui um alvo militar, caramba, uma coisa que se veja, um símbolo de opressão, uma merda qualquer que nos envergonhe, não, o tipo queria simplesmente matar o máximo de crianças que estavam a sair de um concerto inofensivo, isto em nome de uma ideologia radical que aboborou dentro de uma mente certamente fanatizada e burra! A crise dentro do Islão é certa, existe, podemos desenvolver explicações, o petróleo e essas merdas, a distribuição catastrófica da riqueza, os líderes corruptos e o conflito com Israel e ainda a guerra entre sunitas e xiitas, mas isso não explica que estes tipos estejam a conseguir infernizar a vida dos ocidentais, trazendo com eles ideias que consideramos absurdas, que nem sequer consideramos ideias propriamente ditas, apenas aberrações doentias, tipos aliás que nem sequer trouxeram nada com eles pela razão simples de terem vivido sempre nas nossas próprias sociedades. Enfim, a tua explicação parece insuficiente e é de exigir um post apropriado...
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De Einstürzende Neubauten a 23.05.2017 às 21:51

Se pensar pela sua cabeça, Luís, nunca compreenderá as "razões" que levam alguém fazer-se explodir. As justificações também não podem ser encontradas usando elementos racionais de inferição, expressos em tratados politico-históricos-religiosos.

Penso que estaremos mais perto de compreendermos as "razões" dos suicidas se recorrermos, não a Huntington, mas sim ao DSM-5 - Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais. A religião, ou um Lebensraum, são apenas argumentos que mentes baralhadas usam para baralhar.
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De Diogo Noivo a 23.05.2017 às 22:12

Está um gajo convencido que pode ser o próximo Pedro Marques Lopes, que pode vir para aqui soltar umas boutades sem saber de nada ou usar a cabeça, e aparece o meu amigo a fazer perguntas difíceis. Não se faz.

Sem prejuízo do tal post para o qual me desafias, ensaio uma resposta preliminar.

Estão a matar as nossas crianças, sim. Mas estão há mais tempo a matar crianças muçulmanas e matam-nas em maior número. Sei que não me acusarás de relativizar, mas antecipando comentários que possam surgir, deixo claro que não o estou a fazer. O meu ponto é outro: o terrorismo islamista, ou jihadista, está a matar muita gente e, tanto do ponto de vista histórico como do ponto de vista estatístico, nós, os europeus, não somos os principais alvos da violência. Significa isto, portanto, que explicar estes atentados ao abrigo de uma guerra civilizacional ou religiosa é, no mínimo, curto.

Então porquê? A resposta é longa.

Na sua génese, os movimentos jihadistas contemporâneos eram uma forma de oposição violenta aos regimes árabes seculares. Na altura, estavam circunscritos às fronteiras dos países aos quais pertenciam. Ainda que se inscrevessem numa ‘jihad’ por definição internacional, eram projectos políticos (violentos) puramente locais. Parte da sua estratégia assentava em meter árabes contra árabes, muçulmanos contra muçulmanos.

Eis então que a URSS invade o Afeganistão. Este acto surtiu uma espécie de efeito-chamada, atraindo para o Afeganistão e para o Paquistão combatentes (mujahidin) de todo o mundo, mas sobretudo de países onde já fervia o caldo jihadista. Para alimentar o esforço de guerra, a propaganda jihadista difundiu a ideia de que qualquer bom muçulmano estava obrigado a defender parte do Dar al-Islam (terra/casa do Islão) da invasão de uma potencia ateia.
A experiência de combate contra a União Soviética no Afeganistão, ao colocar lado a lado mujahidin de várias nacionalidades, criou uma consciência internacional da jihad, devidamente capitalizada por alguns chefes locais, entre os quais um saudita enfezado chamado Osama bin Laden.

Decidem então que a melhor forma de combater os regimes árabes “apóstatas” é atacando os Estados que lhes dão cobertura, isto é, os “infiéis” do Ocidente. Somos, portanto, um alvo sucedâneo. Com o fim da guerra no Afeganistão, os mujahidin regressaram aos seus países de origem e, os que foram impedidos de regressar, rumaram a outros destinos. Ou seja, havia gente doutrinada, com experiência de combate e com um sentimento de pertença a algo maior espalhada por todo o mundo – ainda que com especial incidência em regiões como os Balcãs, o Norte de África, ou o Sudão. E, de uma maneira muito simples e bastante redutora, assim nascem as redes jihadistas, das quais a al-Qaida foi baluarte.

As forças e serviços de segurança ocidentais foram aprendendo a combater esta ameaça, razão pela qual a manutenção de células terroristas activas em território ocidental se tornou bastante arriscado e oneroso. O jihadismo percebe então a força da propaganda e, mais uma vez, de forma muito redutora, surgem os chamados “lobos solitários” – sobre os quais já escrevi aqui:

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/lobos-solitarios-e-aves-raras-8526452

São baratos, não têm custos operacionais (i.e. não podem delatar ninguém) e oferecem um retorno formidável. Sobre os perfis destes lobos solitários, e apenas destes, verás que há uma enorme incidência de jovens e de gente com perturbações mentais, o que nos levaria a discutir os processos de radicalização. Mas isso fica para outro post, camarada.

Por último, de notar apenas que no jihadismo, como em todas as outras formas de terrorismo, é nos momentos de maior debilidade destas organizações que as campanhas de terror são intensificadas. Como o Daesh está a perder território, gente e recursos financeiros, este tipo de atentados são expectáveis.

Abraço amigo, Luís.
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De Luís Naves a 24.05.2017 às 00:03

Tudo isto explica em esboço a crise do Islão; limitava-me a acrescentar a desestabilização causada pelas receitas do petróleo e a destruição dos sectores tradicionais da economia dos países exportadores logo após os choques petrolíferos.

E, no entanto, não consigo entender a ligação aos atentados que vemos em países ocidentais ou cristãos (o atentado de Sampetersburgo, por exemplo, o de Manchester). Qual a razão de se atacarem pessoas vulneráveis, obviamente inocentes?

O problema da tua explicação é que os autores destes atentados são indivíduos jovens, que viveram toda a sua vida em sociedades ocidentais ou cristãs, mas que se matam em nome do Islão radical e sem terem qualquer experiência da crise do mundo muçulmano descrita no comentário. Estas pessoas pertencem à segunda ou terceira geração de comunidades imigradas, que se integraram mal nas sociedades ocidentais e que julgam ter valores superiores aos nossos, nomeadamente religiosos.
O que leva estes indivíduos à radicalização? Será a crise do Islão, a ideologia, um choque civilizacional? O que leva estas pessoas a rejeitarem valores com que tiveram amplo contacto, por exemplo, a liberdade, a democracia, os direitos humanos?

Como não acredito na explicação da doença mental, já que todas as acções são racionais e planeadas ao pormenor, então tem forçosamente de existir uma explicação mais complexa...
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De Nebauten a 24.05.2017 às 08:06

Perturbação mental e loucura não são sinônimos. Sociopatas e psicopatas "pensam bem" em redor do mal.
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De Diogo Noivo a 24.05.2017 às 12:01

Qual a razão de matar inocentes? Inocular o medo.
Um dos objectivos mais imediatos - e evidentes - de qualquer organização terrorista é o de usar o medo como instrumento para condicionar comportamentos sociais e políticos. Se uma organização terrorista visa apenas determinado tipo de vítimas como, por exemplo, polícias e políticos, a restante sociedade tende a sentir-se segura. O poder político pode sentir-se coagido, as forças de segurança podem ser condicionadas (i.e. menos candidatos aos cursos de formação, menos elementos policiais na rua), mas a sociedade como um todo não se sente especialmente visada. Foi por isso que a ETA adoptou a dada altura o conceito de "socialização do sofrimento", ou seja, levar violência a todos (políticos, polícias, professores, intelectuais, jornalistas e outros) e, dessa forma, aumentar o impacto social e político das suas acções.
No caso do jihadismo contemporâneo, sobretudo a partir do momento em que decide ambicionar mais do que objectivos meramente locais, a violência foi sempre dirigida à sociedade como um todo para maximizar a sua mensagem (é sinistro, mas é assim).

Se a tua pergunta é sobre as motivações pessoais de cada bombista, aí entramos no domínio da radicalização, que é um espaço tortuoso.
Tens razão, as perturbações mentais não explicam todos os casos, mas explicam bastantes, sobretudo os mais recentes. Porém, concedo que a resposta é insuficiente. Dos vários argumentos e teses que tenho lido, não encontrei até ao momento uma explicação cabal e definitiva. Julgo, no entanto, que a alienação social, uma das teses recorrentes na literatura especializada, é aquela que melhor enquadra o problema. Note-se que alienação social nada tem que ver com pobreza ou dificuldades económicas. Refere-se simplesmente à falta de identificação de alguém com o meio no qual se insere. Este distanciamento pode ter várias causas e, muito importante, não transforma alguém num terrorista - apenas o torna mais permeável a mensagens radicais (terroristas ou outras). Mas, como te digo, é domínio onde julgo ainda faltar muito trabalho.
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De Einstürzende Neubauten a 23.05.2017 às 21:23

E se mais que um problema politico, for um problema mental? Tão somente a Pulsão de Morte, a Todestrieb?

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