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Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

por Helena Sacadura Cabral, em 10.05.17

A rotina era sempre a mesma. Saía de casa mal amanhado e ia para o jardim do Principe Real. Agora nem isso, aquilo estava transformado num pandemónio, nem o seu banco lhe deixaram, tão atafulhado aquilo estava. Nem sei porque é que para aqui venho pensava enquanto apertava a banda do casaco, que a manhã estava fria. Era a Lisete que o levava ali. A Lisete quando era viva, pois fora naquele banco de jardim que a conhecera. Ela tinha-lhe sorrido e foi esse sorriso que os havia de juntar. Tanto amor. E o José era a prova, não se lembrava de quando é que o vira, mas sabia que ele estava bem, porque senão alguém havia de lhe dizer que ele estava mal. 

A tosse, esta maldita tosse, que viera com o fim do tabaco, mas ao preço a que ele estava, como não deixar de fumar? Fora isso que o médico do Centro de Saude lhe tinha dito, que não havia dinheiro para vícios. 

Lá estava o banco cheio de embrulhos, paciência, ia-se sentar no da frente. A Lisete havia de gostar de saber que ele continuava a ir ao jardim dela. Mas este banco apanhava sol e ele queria mesmo era sombra. Sombra? Sombra que bastasse tinha ele lá no quartito onde vivia. Apesar disso, não se mexeu. 

Para quê mexer se daqui a bocado o sol vira sombra, era o que lhe diria a Lisete que já explicara isso ao filho. Será que o Zé também terá explicado o mesmo ao filho dele? Como é que o miúdo se chamava? Parece que era Bernardo, mas que nome mais esquisito. Mas ele não conhecia o garoto, por isso não tinha que o chamar. Se a Lisete fosse viva havia de saber chamá-lo, mas talvez esteja enganado. Hei-de perguntar à Lisete, amanhã...

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Todas as horas de um homem

por Pedro Correia, em 14.04.17

«Morrer por uma religião é mais simples do que vivê-la com plenitude; lutar em Éfeso contra as feras é menos duro (milhares de mártires obscuros o fizeram) que ser Paulo, servo de Jesus Cristo; um acto é menos que todas as horas de um homem.»

Jorge Luis Borges, O Aleph

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O trágico destino dos escritores

por Pedro Correia, em 13.04.17

Foi só há pouco tempo, ao ler um notável ensaio de William Styron intitulado Visível Escuridão (Darkness Visible, 1990) que me apercebi das estreitas relações entre a depressão e o ofício da escrita. É quase inacreditável o número de grandes autores que cometeram suicídio, no auge de uma grave depressão.
Styron fez uma lista, que está longe de ser exaustiva: Hart Crane, Virginia Woolf, Cesare Pavese, Romain Gary, Ernest Hemingway, Jack London, Sylvia Plath, Henri de Montherlant, John Berryman, Wiliam Inge, Paul Celan, Tadeusz Borowski, Anne Sexton, Serguei Essenin, Vladimir Maiakovski. E Stefan Zweig, Primo Levi, Emilio Salgari, Yasunari Kawabata, Arthur Koestler, Paul Nizan, Yukio Mishima, Sándor Márai, Reinaldo Arenas, David Foster Wallace – acrescento eu.
No caso português, poderíamos mencionar, por exemplo, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Mário de Sá Carneiro, Luís de Montalvor, Manuel Laranjeira, Trindade Coelho, Florbela Espanca, Miguel Rovisco.
Outros houve, outros há.
 
“Apesar do raio de alcance da depressão ser ecléctico, demonstrou-se de forma bastante convincente que os temperamentos artísticos (particularmente os poetas) são especialmente vulneráveis a este mal – que, nas suas manifestações clínicas mais graves, colhe mais de 20 por cento das suas vítimas através do suicídio”, escreve Styron nesta notável obra sobre uma das maiores doenças da nossa civilização (Visível Escuridão, com tradução portuguesa de Teresa Caria, foi editada pela Bertrand em 1991). O próprio Styron – galardoado com o Prémio Pulitzer e o American Book Award, universalmente aplaudido por romances como A Escolha de Sofia – sofreu de depressão. “Receamos a perda de tudo, de todos os próximos e dos amados. Há um medo agudo do abandono. Ficar sozinho em casa, mesmo só por um momento, provocava-me um pânico e uma trepidação estranhos”, recorda o escritor neste impressionante e dilacerante depoimento.
“Não mais palavras. Um acto. Não voltarei a escrever.” Com estas palavras, redigidas num bilhete que lhe serviu de testamento, Pavese despediu-se da arte e da vida. O que levará um grande autor ao desespero? Quem de nós conhece devidamente os abismos da existência humana?
 
Texto reeditado e ampliado

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Da Gravidade

por Bandeira, em 23.01.17

Um amigo de infância – crescemos ambos em Lisboa, na parte desfavorecida da Avenida de Roma – faz-me notar que a alopecia nos está a invadir o outrora hirsuto couro cabeludo (Alopecia era a deusa liechtensteinense do cheque careca, sincretizada pelos romanos aquando da conquista do principado por três legionários etilizados que o confundiram com um Burguer King; sabemos por Salústio que terá revelado a Júlio César, num sonho, um truque para disfarçar as entradas, a saber, pentear as melenas na direcção da testa.)

Não apenas carecas, old chap, como diziam na parte favorecida da avenida, não apenas carecas, mas irreparavelmente deselegantes. “Fala por ti”, dirás. Não preciso, outros o fazem bem melhor do que eu e sem precisar de palavras. Ontem, em passeio dominical pelas faldas do Tejo, topei com uma roulotte de venda de comes e bebes. Era fim de tarde, havia alguns bolos mas de salgados sobrava apenas uma empada, que solicitei me fosse entregue para que a devorasse. A menina da roulotte nem se mexeu. Manteve os cotovelos apoiados no balcão, as mãos nas axilas que adivinhei quentinhas, e disse melancólica, “Desculpe, mas já só tenho uma de legumes”.

Permaneci alguns segundos em completa imobilidade, usando uma técnica Zazen que me permite intuir a natureza da Existência ou, em alternativa, não cair redondo no chão. Então disse, a voz embargada pelo choque: «Espere. Deixe-me ver se percebi. A menina olhou para mim e pensou, “Eis aqui um carnívoro de quase cem quilos; um homem com uma percentagem de DNA neandertal superior aos comuns 3 ou 4% e que, em podendo, se alimentaria exclusivamente de carne crua nas suas cinco ou seis refeições diárias; alguém para quem a ideia de gourmet consiste numa salada de coiratos, pé de porco e caracoletas, tudo regado com muita cerveja. O aparelho gástrico deste cavernícola é incapaz de digerir uma empada de vegetais.” Foi isso? Diga lá. Foi?».

Ela riu-se muito, decerto do nervoso, deitou um olhar carente de solidariedade para a Judas que me acompanhava (e que também se ria a bandeiras despregadas), negou que eu fosse um cavernícola, pelo menos não um dos mais hirsutos (lá está, alopecia), e com um gesto receoso, como quem dá um amendoim ao babuíno que lhe estende a mão traiçoeira, entregou-me a empada de legumes. Antes, porém, ainda hesitou – também isso eu percebi – e perguntou-se a si mesma se eu iria requerer um guardanapo.

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Toda as mortes são prematuras

por Pedro Correia, em 26.12.16

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 Montgomery Clift e Marilyn Monroe em 'The Misfits'

 

Há frases que fixamos para sempre. Lembro-me de, em miúdo, ter ouvido o meu avô materno dizer que todas as mortes antes dos 75 anos eram "prematuras". Tomei nota da palavra, que não esqueci. E daquela espécie de desejo implícito contido naquela frase. Desejo cumprido, pois o meu avô morreu com 76 anos.

Muito mais tarde, Jorge de Sena ensinou-me, seu modesto leitor, que "todas as mortes são prematuras". O ser humano é vocacionado para a vida eterna - e saber de antemão que não cumprirá este anseio do seu corpo e este desígnio do seu espírito constitui a chave para sempre indecifrável de todo o pensamento filosófico, que procura responder às mais simples e mais complexas questões.

Quem sou? Que faço aqui? Em que medida se cumpre um destino humano?

 

Por estes dias em que Mário Soares trava uma luta tenaz contra a morte ouço dizer que teve "uma vida bem vivida". Face ao critério do meu avô, há muito que o ex-Presidente superou a perspectiva de uma morte prematura. Mas deverei dizer que os seus 92 anos foram "bem vividos" se no mesmo dia em que ele se encontra em estado muito crítico num hospital me cruzo num dos estabelecimentos comerciais mais conhecidos de Lisboa com a actriz Carmen Dolores - igualmente com 92 anos, mas nascida sete meses antes de Soares - caminhando com sacos de compras, elegante, grácil, quase etérea, sem sequer o apoio de uma bengala?

Filmou com António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros e Jorge Brum do Canto, contracenou com António Silva, Vasco Santana, Ribeirinho, João Villaret, figuras há muito inscritas no panteão do nosso teatro e do nosso cinema, e ei-la aqui, tal como nós, na idade do skype e do instagram. Teve um admirável percurso artístico, iniciado na remota década de 40. Mas por mais anos que permaneça connosco serão sempre escassos.

 

"Todos, homens e mulheres, estamos a morrer a cada momento que passa", dizia Marilyn Monroe no apogeu do seu talento e da sua beleza, interpretando-se de algum modo a si própria na última longa-metragem que acabou por rodar: The Misfits. Filme trágico e triste e assombrosamente belo, um dos filmes da minha vida

Cada existência é irrepetível e nuclear. Cada vida é um micrograma na poeira cósmica. Um sobressalto na nossa fisiologia, frágil como espiga ao vento, basta para sepultar toneladas de "certezas inabaláveis" que nos iludem na fatal transição entre os dois pontos extremos da nossa biografia - sempre imperfeita e fugaz, sempre situada aquém da insaciável espiral de todos os sonhos.

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Em todo o caso, a verdade é esta

por Rui Rocha, em 26.12.16

Em 2016 morreram muitos dos ícones da nossa adolescência. Mas isso é natural. À medida que envelhecemos, a probabilidade de as nossas referências desaparecerem vai aumentando. Podemos não querer encarar a realidade, "culpando" 2016. Mas se 2016 foi mau, 2017 e os seguintes serão piores. A vida é assim.

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Numa parede do Porto.

 

Na série britânica Love, Nina, adaptação de Nick Hornby de um livro de memórias de Nina Stibbe, há um momento em que alguém pinta desenhos obscenos nos passeios do bairro onde decorre a acção. Várias personagens reúnem-se em torno de um deles e debatem identidade e possíveis motivações do autor. George, a editora literária a que Helena Bonham Carter dá corpo, defende que, obviamente, terá sido um homem, porque as mulheres não andam por aí a fazer desenhos no pavimento; pelo menos, acrescenta, não em número estatisticamente relevante.

Olho para a frase acima e pergunto-me se George estaria certa - e, nesse caso, que diabo se passa na cabeça de um homem capaz de a escrever.

Claro que Love, Nina decorre no início da década de 1980. Talvez hoje em dia mais mulheres pintem coisas no chão e nas paredes. Não daria um grande sinal do rumo da evolução feminina (há actos tipicamente masculinos que, podendo remeter para instintos antigos de marcação do território, são hoje apenas estúpidos) nem faria com que esta mensagem ficasse aceitável, mas sempre a tornaria um pouco menos ilógica.

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Eis-me ainda a perguntar porquê

por Pedro Correia, em 24.11.16

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Faz hoje dez anos, fomos sacudidos pela notícia trágica: a Maria José Margarido morrera num acidente de aviação durante umas férias no Chile, quando o bimotor em que viajava acompanhada por três amigos - dois deles também jornalistas - e uma guia local se despenhou numa região montanhosa.

Mergulhámos num mutismo dolorido. Sobre a ruidosa redacção, sempre fervilhante de conversas cruzadas e estridentes toques de telefone, caiu um manto de silêncio incrédulo e assombrado. Todos olhávamos para a secretária da nossa colega que ainda há dias ali estava, na flor da juventude e um sem-fim de sonhos por realizar. Parecia apenas ausente por breves instantes: ninguém diria que partira numa viagem sem regresso.

A Maria José, especializada em temas sociais, era uma das mais competentes jornalistas da sua geração. Deixou centenas de artigos no Diário de Notícias - onde a vi entrar, tímida estagiária - como  testemunhos  inapagáveis  do seu mérito profissional. Sempre com uma escrita cuidada, meticulosa, muito acima da mediania. Tão discreta como perspicaz, parecia quase pedir desculpa pelo seu talento.

Tinha uma beleza serena e um brilho inquieto que por vezes lhe vislumbrava num olhar fugaz. No último postal que escreveu no blogue Respirar um Novo Ar, com o pseudónimo Celta, deixou esta frase: "Nunca estive fisicamente em Lisboa, não." Jamais cessarei de me interrogar se aqueles que partem demasiado cedo serão de algum modo tocados pela misteriosa premonição do fim.

Hei-de lembrar-me sempre dela, eternamente jovem. E do silêncio interminável em que o seu imprevisto desaparecimento nos envolveu naquela fatídica tarde, contemplando a cadeira onde ela nunca mais se sentaria.

Já passaram dez anos. Eis-me de novo a perguntar porquê, eis-de me novo sem resposta alguma.

 

Leitura complementar: A morte e o lixo, do Pedro Mexia.

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Aventuras de Uma Livreira Acidental

por Francisca Prieto, em 15.09.16

Hoje, a propósito do Festival Internacional de Cultura, a Déjà Lu andou em polvorosa. A RTP tinha-nos pedido para filmar um par de entrevistas numa das nossas salas e nós não nos fizemos rogados. Estendemos a passadeira vermelha e vergámo-nos em vénia, mortinhos por assistir a tudo.

O primeiro entrevistado foi Andrew Morton, famoso biógrafo de várias personalidades, incluindo membros da família real inglesa. A conversa foi muitíssimo interessante, mas confesso que tinha o coração em pulgas. Sabia que o segundo convidado seria David Lodge. Ora, eu adoro o David Lodge, a tal ponto que já li três vezes o “Terapia” e sei várias passagens de cor.

De maneira que quando a equipa técnica, entre uma entrevista e outra, comentou que “o outro” ainda não tinha chegado, tive de me insurgir e de perguntar se se estavam a referir naqueles termos miseráveis a Sir David Lodge.

Lá chegou então o senhor, muitíssimo discreto, que se deixou entrevistar com toda a candura.

No final, convidei-o a visitar a livraria. Expliquei-lhe que se tratava de uma livraria solidária, cujos lucros eram destinados a 100% para projectos de profissionalização de jovens com Síndrome de Down. Neste momento fui interrompida: “Down Syndrome, you said? Do you know that I have a son with Down Syndrome?’”.

E foi assim que tive direito a uma prolongada cavaqueira com um dos meus escritores predilectos, que autografou com toda a boa vontade e simpatia uma data de exemplares que lhe fui pondo à frente com toda a lata do mundo.

Depois, convidei-o a voltar à livraria para passar pelas brasas num dos nossos cadeirões, prometendo que não o ia maçar nada, nada, nada. Mesmo nada.

A vida às vezes dá-nos cada presentão.

 

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Eu, em estado de comoção apocalíptica. 

 

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Os passarinhos também têm céu

por Pedro Correia, em 20.08.16

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O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!

Manuel Bandeira (1940)

 

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En garde!

por Ana Vidal, em 15.07.16

Schopenhauer tem uma frase extraordinária, qualquer coisa como isto (cito de cor): "Quando não tenho nada que me angustie, é isso mesmo que me angustia". Não é possível inverter-lhe o sentido. Quando nada conseguimos ver que nos anime, não será nunca o desânimo a fazê-lo. E, a somar aos de cada um, motivos de desânimo colectivo não nos faltam hoje em dia, múltiplos, imprevisíveis e cada vez mais sinistros. Não é preciso procurá-los, não é preciso imaginação ou patologia especiais para estarmos infelizes. A depressão é a marca de água do nosso tempo.

Vivo a tentar contrariar esta tendência generalizada, não quero deixar-me dominar por um pessimismo descrente de tudo, que me dobre ao meio e me paralise. Até quando o conseguirei, não sei. A lucidez é a maior inimiga da alegria, e nem sequer falo em felicidade. Mas recuso, pelo menos enquanto tiver forças para isso, depor armas perante os monstros que rondam diariamente. Faço-o com total consciência, teimosamente, sem o bálsamo que seria alhear-me da realidade. Às vezes preciso de algum malabarismo para iludir-me, outras sinto que o meu optimismo é quase ridículo. Há dias em que ando muito perto da rendição, mas nunca tão perto que não sacuda o pó e volte a levantar-me. O meu maior trunfo, o que me salva sempre? O humor.

Entre mim e o desânimo existe uma guerra antiga, jurada, declarada e sem tréguas. Que vença o melhor.

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Somos nós a pertencer aos livros

por Pedro Correia, em 31.05.16

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Não sei se convosco acontece o mesmo, mas eu tenho por hábito levar para férias alguns livros que já não voltam na bagagem. São livros mais velhos que tenciono ler apenas uma vez, acabando por deixá-los ficar nos hotéis por onde passo - leituras momentâneas, semelhantes a diversas pessoas com quem nos vamos cruzando vida fora. Chegam e partem.

É também uma forma de partilhar leituras: acho estimulante a ideia de imaginar que aquela janela que para mim ficou fechada tavez possa abrir-se inesperadamente para alguém que nunca conhecerei. Por cá temos pouco esse hábito: ainda sacralizamos o livro enquanto objecto - por vezes na proporção inversa à verdadeira atenção que lhe dispensamos. Ao contrário do que acontece por exemplo com alemães e britânicos, com um nível de alfabetização geral muito anterior e superior ao nosso.

 

Inciei esta tradição pessoal há 25 anos em Patong, na Tailândia. Levava para férias a Cabra-Cega, de Roger Vailland, e a Memória de Elefante, de António Lobo Antunes. Lidos os livros, antes de fazer as malas entreguei-os à pequena biblioteca pública local, inaugurando ali a secção de obras em português. Cinco anos depois, quando voltei à capital da ilha de Pukhet, revisitei o local: a Memória de Elefante não estava lá, mas o livro de Vailland que foi temporariamente meu permanecia na prateleira onde eu o deixara - sem outro livro em português.

Nem quero imaginar onde estará agora: Patong foi uma das povoações devastadas pelo brutal maremoto de 26 de Dezembro de 2004 no Sueste Asiático. É um daqueles locais onde só voltarei em pensamento.

 

Escrevo estas linhas no mesmo hotel algarvio onde há um ano passei um fim de semana alargado. Cá reencontrei no salão principal um livro que aqui deixei então - isolado título português em elegantes prateleiras cheias de volumes em alemão, inglês ou francês. Pego nele e vou à página final, onde sempre inscrevo a data e o local em que terminei a leitura: "Tavira, 1.5.2015". E mantenho-o na nova morada que passou a ter naquele dia. Continua sem a companhia de nenhum outro no nosso idioma.

E uma vez mais me interrogo: porque teremos tanta dificuldade em desapegar-nos de livros que foram nossa efémera companhia de férias em vez de lhes proporcionarmos novos leitores? Isto sempre me fez alguma confusão. Porque, em boa verdade, não somos donos deles. Na melhor das hipóteses, somos nós a pertencer aos livros. É pura ilusão pensarmos que eles nos pertencem.

 

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Pintores sem prazo de validade

por Pedro Correia, em 27.05.16

 

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Costureiras, quadro de Querubim Lapa (1949)

 

"Leva muito tempo tornarmo-nos jovens"

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O'Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (95 anos), Albert Bertelsen (94 anos), Júlio Pomar (90 anos), Leon Kossoff (89 anos), Manuel Cargaleiro (89 anos), João Abel Manta (87 anos), Arnulf Rainer (86 anos), Jasper Johns (86 anos), Nikias Skapinakis (85 anos) e Frank Auerbach (85 anos).

 

Lembrei-me disto há dias, ao saber que o grande Querubim Lapa se despediu de nós, com 90 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

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O fascínio da literatura

por Pedro Correia, em 21.05.16

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Até que ponto uma obra literária pode alterar um percurso humano? Não falta quem menorize o tema, mas eu incluo-me entre os que são capazes de acreditar que um livro pode mudar uma vida - ou até as vidas de milhões de pessoas. Acredito que alguém queira voar após ler Vol de Nuit, de Saint-Exupéry. Ou navegar depois de ler Lord Jim, de Conrad. Ou viajar a Ferrara só por ter lido O Jardim dos Finzi-Contini, de Giorgio Bassani. Ou conhecer Pamplona à boleia de Hemingway - e permanecer em Navarra para sempre.

São inúmeros os casos de livros que mudam uma vida. Napoleão - dizem - nunca mais foi o mesmo depois de ler O Príncipe, de Maquiavel. Pessoa imitou um dos seus autores favoritos, Poe, em parte da obra e grande parte da existência. Inácio de Loyola abandonou a carreira das armas ao ler uma biografia de Cristo. Marx, para o bem e para o mal, alterou as vidas de milhões de pessoas. E Nietzsche também - ao ponto de ter alucinado um certo cabo austríaco que combateu na I Guerra Mundial e usava um bigodinho ridículo. Ibsen influenciou legislação sobre os direitos das mulheres. Conan Doyle e Simenon marcaram tantos de tal forma que até personagens saídos da sua imaginação, como Sherlock Holmes e o comissário Maigret, se tornaram mais célebres do que os autores, gerando romagens a Baker Street em Londres e ao Boulevard Richard-Lenoir em Paris. Romeu e Julieta, figuras de papel, seduziram mais do que inúmeras pessoas de carne e osso. E já nem falo dos mundos que se descobrem em cada livro da Bíblia...
Sabemos sempre de onde partimos com um livro na mão. Mas somos incapazes de imaginar até onde ele nos conduz. É também isto - é sobretudo isto - que faz o fascínio da literatura.

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Não sei se também vos acontece

por Rui Rocha, em 20.05.16

Mas com esta coisa de pedir factura em qualquer lado às vezes dou por mim a marcar o código do cartão bancário e a dizer o número de contribuinte ao mesmo tempo. Em todo o caso, até ver tem corrido bem. Só troquei as voltas e revelei alto e bom som o pin do meu Visa em meia-dúzia de lojas e restaurantes de absoluta confiança.

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Não se esqueça...

por Helena Sacadura Cabral, em 14.05.16

Neste fim de semana  e nos próximos esteja atento e

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Um homem mata a mulher, de quem estava separado, e uma amiga dela, suicidando-se a seguir. Escassas semanas depois, a tragédia repete-se - com outro assassino e outras vítimas.

Aconteceu há três anos em Portugal. Mas podia ter sido ontem.

 

Não tardaram na altura os depoimentos televisivos a desresponsabilizar os actos criminosos. Há sempre teses socialmente correctas para justificar os actos mais repugnantes.

Um canal generalista abordou o assunto, com a seguinte legenda em letras maiúsculas: "Crise e problemas financeiros explicam depressão social". Enquanto a voz da jornalista procurava configurar a situação desta forma: "Um futuro sem esperança para um presente em crise".

Os crimes concretos, com vítimas concretas, diluem-se nesta amálgama de frases destinadas a "explicar" a inadmissível violência homicida por factores sociais e até políticos. E nestas ocasiões nunca faltam psiquiatras a conferir um atestado de respeitável validade à tese implícita de que o gatilho é premido pela "sociedade" e não pelos assassinos.

"Numa sociedade deprimida há uma grande falta de esperança, as pessoas não têm perspectiva de futuro. Esta desesperança pode levar algumas pessoas a atentar contra si e contra outros", explicava um psi.

"As situações de crise, com desemprego e endividamento, são fundamentais na saúde mental dos portugueses", justificava outro.

A voz da jornalista insistia: "O consumo de antidepressivos aumentou, os casos de depressão também."

 

Pasmo com tudo isto - incluindo a sugestão de relação directa entre o consumo de antidepressivos e a morte de mulheres às mãos de maridos e companheiros. Pasmo com a pseudo-modernidade a pretender "contextualizar" os mais bárbaros atavismos com palavras de compreensiva condescendência. Pasmo com este cíclico jogo de passa-culpas dotado de um pretenso aval científico.

Como se os algozes fossem vítimas e estas, para merecerem um mínimo de respeito público, tivessem de ser assassinadas segunda vez.

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Como se o tempo ficasse suspenso

por Pedro Correia, em 30.04.16

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Um pisa-papéis, um mata-borrão, um selo de correio: três inesperados objectos defronte de mim. Todos, na minha infância, tinham uso quotidiano. Tal como o tinteiro para caneta de aparo ou a lousa onde se escrevia a giz.

Passaram uns anos - mas parece ter decorrido uma eternidade. Estes objectos tornaram-se peças de museu e vários deles são hoje quase incompreensíveis para uma geração viciada em gadgets electrónicos, que nunca brincou ao pião ou não faz a menor ideia para que serve um dedal.

Tempos agitados, vertiginosos, de uma volatilidade estonteante. Os objectos mais familiares no quotidiano dos nossos avós pareciam vir desde os alvores da Humanidade, davam um toque de permanência num mundo que só era verdadeiramente sobressaltado por factores exógenos - uma guerra, um ano de más colheitas no campo, uma epidemia. Nada a ver com o frenesim actual, em que tudo é novidade - e em que o próprio conceito de novidade se vai alterando e adulterando em função da espuma dos dias. Os objectos que nos preenchem o quotidiano - como muitas palavras que usamos, como os nossos próprios laços afectivos - têm uma vida cada vez mais breve, um fôlego cada vez mais curto, um prazo de validade cada vez mais exíguo.

Pegue-se num livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço na era da incessante troca de mensagens telefónicas, onde o domínio vocabular é cada vez mais escasso e a abreviatura predomina? Consequência disso, o pensamento comprime-se, torna-se esquemático e utilitário, perde elasticidade e subtileza, passa a satisfazer apenas impulsos imediatos. Toda a elaboração teórica sedimentada por séculos de cultura no mundo ocidental se torna virtualmente incompreensível nestes dias em que o significado se subordina ao mais elementar significante.

                            

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Felizmente o sol ainda não é sintético e high tech. Este sol que entra no escritório pela frincha da janela é o mesmo que os nossos mais remotos antepassados contemplaram com espanto virginal à medida que se sucediam as estações e em relação ao qual vários povos acenderam altares votivos.

Com este sol oblíquo que me ilumina pego num corta-papéis - outro objecto que ficou sem uso - e vou abrindo lentamente dois livros que há muito tinha adormecidos na biblioteca: Sobre as Falésias de Mármore, de Ernst Jünger, e O Escravo, de Isaac Bashevis Singer.

As páginas desfolham-se com um vagar antigo enquanto regresso às tardes da minha infância noutro escritório, o do meu pai, enquanto executava exactamente a mesma operação a vários livros por inaugurar que ia encontrando nas estantes. Foi uma das primeiras tarefas graves e sérias, dignas de um adulto, que me lembro de executar no meu universo infantil. Uma tarefa que me ajudou a mergulhar, quase por acaso, no mundo dos livros.

Regresso a ela com o vagar de então, ocasionalmente revivido. Como se o tempo ficasse suspenso e os rumores do mundo mais não fossem do que um eco distante, dissolvido no ar do outro lado da porta.

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Dinis Rocha e Leonor Rocha receberam ontem prémios de excelência pelos seus resultados no 10° e 6° anos, respectivamente. Se um pai sente orgulho num momento destes? Sente muito, claro. Mas, ao mesmo tempo, uma nuvem de preocupação desenha-se no horizonte: que sequelas, que terríveis consequências enfrentarão ao longo das suas vidas por terem realizado exames no seu percurso escolar? É triste vê-los tão bem e saber que nenhum deles poderá já ser um cirurgião feliz.

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Não a percam jamais

por Bandeira, em 13.04.16

Amigos do serviço de urgência do Hospital de S. Francisco Xavier: Não me conheceis, nem isso importa; sou filho da velhinha que foi deixada ao vosso cuidado por dois diligentes bombeiros ao princípio da chuvosa noite de ontem, vítima de um desmaio e subsequente queda que lhe rasgou um corte feio na cabeça e fez perigar o recobro das intervenções duras que a senhora havia sofrido, semanas antes, noutro hospital. Durante todo o tempo que a minha velhinha passou no interior do vosso serviço, entre análises e exames de imagiologia, percebi – no fundo já o sabia – o quanto são duras as vossas tarefas, difícil o trato humano. Sempre que tenham de lidar com uma velhinha assustada, um alcoolizado violento, um acidentado grosseiro ou um adolescente em pânico, por favor sintam o meu respeito e admiração. Obrigado por terem tratado a minha velhinha como se fora a vossa velhinha; por esse vosso espírito estranhamente jubiloso que vos permite acumular lucidez para os momentos mais difíceis; e sobretudo pela vossa gentileza, a vossa incomensurável gentileza: não a percam jamais.

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Nunca deixar para amanhã

por Pedro Correia, em 12.04.16

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Aproveitar o tempo. Não adiar coisas importantes. Dar valor àquilo que realmente interessa. As mais relevantes lições de vida são quase sempre as mais simples. E tantas vezes são também as que menos seguimos.

Há dois meses, num domingo, rumei a Santarém em visita a uma tia-avó que há muito não via. Achei-a óptima, com uns saudáveis e bem-dispostos 92 anos. Passámos o dia inteiro à conversa, revendo fotografias antigas e contando saborosas histórias da família entre pessoas de três gerações diferentes mas unidas pelo mais perene dos laços - os laços de sangue.

No passado dia 2, um sábado, a pretexto do aniversário de um parente pertencente a outro ramo da família juntámo-nos quase todos os primos direitos residentes em Portugal num alegre almoço de convívio que se prolongou até depois das nove da noite - também com três gerações, sob o comando da querida tia que nos resta, na familiar casa de Tercena. Rimos, gargalhámos, cantámos em conjunto como há muito não acontecia. Soube-nos a pouco. No fim, combinámos todos: não deixaremos passar muito tempo até ao próximo encontro.

A 14 de Março, Nicolau Breyner partiu sem pré-aviso: o País despediu-se de um dos mais populares actores de todos os tempos, uma das raras personalidades a quem podíamos chamar figura nacional sem qualquer favor. Durante semanas tinha pensado contactá-lo para lhe oferecer um exemplar do meu livro Presidenciáveis, que teve génese neste blogue. Ele é uma das 70 pessoas lá retratadas. Foi também a primeira a desaparecer. Jamais pensei que fosse tão cedo. E lamentarei sempre não lhe ter falado a tempo.

Nunca deixar nada de importante para amanhã. No fim de tudo acabamos por arrepender-nos apenas do que não fizemos.

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Abençoados 50!

por Helena Sacadura Cabral, em 20.03.16

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Há muito que defendo que a melhor parte da minha vida começou aos 50 anos, liberta de todos os constrangimentos que até aí me rodearam. Os amigos riem-se, mas reconhecem a verdade dos factos. Até àquela idade, apenas aprendi a viver e a utilizar as ferramentas de que dispunha. E, vá lá, a libertar-me de uns contrapesos que me andavam - sabe-se lá porquê - atrelados.

Acabo de ler na revista Sábado uma noticia em que se afirma que o índice de infelicidade dos britânicos só muda e começa a melhorar quando chegam aos 60. Os resultados foram revelados pelo Gabinete Nacional de Estatística do Reino Unido que interrogou 300mil adultos entre 2012 e 2015 sobre felicidade, satisfação e ansiedade.

Por mim, nem paga a peso de ouro eu voltava às décadas anteriores. Quando me lembro dos 30 e dos 40, lá para trás, até sinto calafrios...
Depois dos 50, e à excepção da morte de um filho, descobri o que sinto ser a felicidade e aquilo que ela nos pode proporcionar. Descobri, na verdade, quem sou e quem quero ser. Nesta idade está quase tudo definido quer na vida profissional quer na pessoal. E a liberdade ousa, finalmente, ser o que nunca foi... Como costumo dizer, abençoados 50 que me permitiram ver, sem óculos, muito bem tanto ao longe como ao perto!

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Palhaço Mau versus Padeiro

por Francisca Prieto, em 16.03.16

Hoje bem cedo, já andava o palhaço mau na rua. É dia de feira, de maneira que se preparou para a circulação acrescida de transeuntes, enchendo uma data de balões, com os quais se passeia para cá e para lá, à espera da primeira vítima.

O padeiro vislumbra-o ao longe e, num acesso de compaixão, pega num saco com quatro carcaças para lhe ir oferecer.

Desconfiado, o palhaço mau olha para dentro do saco e diz “bem, agradeço, mas faço notar que há uma série de dias que não me vem cumprimentar”. O padeiro, irritado com o reparo, responde “olha lá, tu estás aqui para o fundo da rua, em cascos de rolha. Deves estar a achar que és a minha avó e que eu tenho de atravessar a sala para te vir falar. Tá bem, tá.”

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O Palhaço Mau

por Francisca Prieto, em 14.03.16

Ali pelas redondezas da padaria do meu irmão, volta não volta, aparece o palhaço mau.

O palhaço mau é um homem na casa dos quarenta, avagabundado, que se apresenta de cabeleira colorida e gravata grandalhona, estrategicamente posicionado no meio de uma rua pedestre onde existem vários gabinetes de fisioterapia e consultórios de análises.

Sendo um palhaço madrugador, logo a partir das oito da manhã desata a atacar os pacientes em jejum que se deslocam às análises e, aproveitando-se dos seus estados de fraqueza, começa por pedir um sorriso “vá, dê lá um sorriso ao palhaço” e, depois de os desarmar, passa rapidamente para um “vá, venha de lá uma moedinha para o palhaço.

Eu e o meu irmão partilhamos um ódio figadal ao palhaço que, a quem tem a audácia de não lhe dar a moeda, desata a gritar impropérios até o desgraçado conseguir dobrar a esquina. No caso de quem vai à fisioterapia, muitas vezes de muletas, a cena torna-se um sofrimento não só para o transeunte, mas também para quem observa a lentidão do passo, directamente proporcional ao aumento do volume dos impropérios.

O meu irmão, tendo ali a padaria, é um vítima permanente do palhaço, mas para não criar má vizinhança, já concordou em oferecer-lhe pão. Volta não volta, o palhaço farta-se do pão e lá lhe crava uma moeda. Segue-se um diálogo do tipo “opá, uma moeda não pode ser. Se eu fosse dono de um banco dava-te uma moeda, mas sabes muito bem que sou padeiro. Tem lá paciência, mas só te posso dar pão”. O palhaço resignado, responde “bem, postas assim as coisas, então está bem”, e dá uma folga por mais umas semanas antes de voltar à carga: “então e um sumo, não me dás um sumo?”, o meu irmão irritado “um sumo????? tu achas que eu sou da Sumol ou quê? Toma lá uma vianinha e não me chateies mais”.

E lá volta o palhaço para a rua, assumindo o seu papel de porta voz do povo oprimido, gritando às pessoas frases emblemáticas, ao estilo Bloco de Esquerda: “pois, andas para aí de Porsche Cayenne, mas não dás uma moedinha ao palhaço”.

Ora no outro dia, tive de ir fazer análises. Em jejum e sem ter tomado o comprido da tiróide, fui levar a filharada à escola, não sem ter dado um apertão a um dos rapazes que me estava a responder torto, e sem ter tido de ouvir que se tinha perdido o livro de não sei o quê e que a culpa era minha (?). Estacionei o carro e, raismapartam que há manhãs em que uma pessoa não devia sair da cama, dou de caras com o palhaço mau.

Num acesso de egoísmo, ligado a um feroz instinto de sobrevivência, olhei para o lado e vi uma senhora a caminhar vagarosamente com uma muleta, de maneira que me imaginei a salvo.

Nada disso, levei com a cegarrega toda “um dia tão bonito e nem há um sorriso para o palhaço. Há gente assim, mal disposta logo às oito da manhã. Depois é isto, o despreeeeeeezo. Vão à missa, vão à missa, mas depois tratam as pessoas como se fossem cães” (e por aí fora até ao dobrar da esquina).

Depois, ainda não sei se aconteceu realmente ou se foi fruto de alguma alucinação provocada pelo jejum, resolvi voltar para trás, atirei-me ao gasganete do palhaço e fui-lhe aos fagotes. Assim, ele deitado no chão e eu tumba, tumba, tumba, seu palhaço comuna, estavas era a precisar de umas lambadas, seu idiota. E ele “pára, pára, pára” e eu “isso era o que tu querias, ó ovelha ranhosa dos Cardinali. A mim não me pedes mais moedinhas, ouviste? Nem a mim nem à senhora da muleta, estamos entendidos?” E ele, com a mãos perniciosas a tapar a cara, já me implorava misericórdia, jurando que nunca mais, nunca, nunca, nunca.

Foi cá um alivio.

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Meia-idade

por José António Abreu, em 11.03.16

No que me diz respeito, chegar perto dos cinquenta e começar a apreciar raparigas com idade para serem minhas filhas gera uma perturbação não mais do que ligeira. Pior é perceber que algumas delas são filhas de amigas e/ou colegas que fizeram - e, em muitos casos, ainda fazem - parte das minhas fantasias.

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A música pop e a idade

por José António Abreu, em 26.01.16

O meu consumo de música pop começou a declinar por volta dos vinte anos e qualquer coisa, cerca de meados dos anos oitenta, e aos trinta a minha ignorância na matéria já atingia proporções cósmicas. Uma desgraça para alguém que, em tempos de pré-adolescência, sabia de cor os nomes de todos os membros de muitos grupos rock, inclusive alguns que, por pudor, não ousaria hoje nomear. Ainda tentei algumas vezes, sem muita convicção, e a conselho de amigos, ouvir coisas novas, mas, tirando uma vez ou outra, não percebi ou não me interessou. Continuei a ouvir, é claro, de tempos a tempos, música que ouvia em tempos passados (os Beatles ou os Kinks, ou os RoxyMusic, por exemplo) e certas coisas novas feitas pelas pessoas que eu costumava ouvir: Leonard Cohen, Zappa, LouReed às vezes, algum Dylan – e David Bowie, em primeiro lugar. Não se nasce impunemente em 1960.

Suponho que, com estes ou outros nomes, é uma experiência comum. As pessoas crescem, esquecem, envelhecem, e depois já é tarde demais para voltar a aprender um entusiasmo ou outro.

Paulo Tunhas, no Observador.

 

Será uma experiência comum mas baralha-me há muito. Estou ciente do poder da inércia mas estranho a capitulação. Percebo que se vão adquirindo outros gostos (raras pessoas ouvem A Love Supreme, de John Coltrane, ou a oitava sinfonia de Mahler aos dezoito anos) mas confunde-me que isso suceda através de um processo de substituição. Para mais, quando este é incompleto: não se abandonam os gostos da juventude, apenas se prescinde de ganhar outros.

Nada disto ocorre no cinema: muitos podem preferir os filmes do tempo em que cresceram, ou mesmo os «clássicos», mas nenhum fã de cinema se recusa a assistir e, quando entende adequado, a elogiar os actuais. (Pelo contrário: ficar preso a filmes «antigos» é visto com estranheza.) Não ocorre também na literatura: mesmo quem pensa que todas as grandes histórias já foram escritas não se sente impelido, por desagrado ou inércia, a evitar as obras de autores contemporâneos. Em qualquer arte, conhecer trabalhos do passado (e, em particular, os que marcaram a evolução dessa arte) evita gritos extemporâneos de originalidade mas não obriga ao desinteresse. As obras que descobrimos na juventude são com frequência as mais marcantes mas não têm o poder de se impor como exclusivas. Excepto na música pop/rock.

Precisamente: falamos de música pop/rock, argumentarão alguns. Por já não constituírem desafio suficiente, filmes e livros de certos géneros também se vão abandonando com a idade, mantendo-se apenas uma relação cúmplice com aqueles que nos encantaram na juventude. Talvez. Mas será a boa música pop/rock assim tão simples e evidente? Eu arrisco dizer que pelo contrário. Que há nela uma dificuldade especial, maior do que a existente na literatura e no cinema contemporâneos, que a torna problemática para todos aqueles a quem (desculpem lá) a idade entorpece. A melhor música pop/rock recusa-se não por ser básica e repetitiva mas por - de forma algo similar à música «clássica» contemporânea - ainda conseguir ser estranha. No cinema e na literatura, a estranheza instintiva, quase epidérmica, já é rara. Tristam Shandy tem um quarto de milénio. O monólogo de Molly Bloom (depois dele, será possível estranhar alguma coisa na literatura?) aproxima-se do século. No cinema, Un Chien Andalou surgiu há quase noventa anos e depois do surrealismo de Buñuel tivemos muitos outros, incluindo o de David Lynch. O minimalismo e o grau de exigência de Bergman e Dreyer prepararam-nos para quase todos os filmes «lentos» que vieram depois e a sequência final do 2001: Odisseia no Espaço não nos permite grande surpresa quando assistimos a The Tree of Life, de Terrence Malick. Mas a música pop/rock tem uma história relativamente curta e a estranheza ainda é frequente. De tal modo que, muitas vezes, a renúncia é temporária: há bandas que são postas de lado à primeira audição mas que, anos depois, mais ou menos entradas na consciência colectiva (para não escrever no cânone do pop/rock), já se apreciam. No fundo, o que os Animal Collective (novo álbum dentro de dias) faziam por volta de 2010 não era substancialmente diferente do que David Bowie ou os Velvet Underground levavam a cabo por volta de 1970, os Joy Division por volta de 1980 ou os Nirvana por volta de 1990: moldavam sons e palavras em canções que primeiro se estranham e depois se entranham. Todavia, embora certamente recordados de quão incompreensível lhes era na adolescência a indiferença (quando não a hostilidade) dos seus pais em relação à música que ouviam, poucos «adultos» actuais se dispuseram a prestar-lhes atenção. Talvez dentro de mais uns anos.

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Em busca

por António Manuel Venda, em 18.01.16

Quase toda a manhã. Um dos bosques da família. Em busca da sebe maior da casa. Duas pequenas centopeias agarram-se às raízes do folhadeiro, parecendo não querer deixá-lo sair do bosque. Como se não tivessem folhadeiro suficiente por lá... Não largam. Vêm comigo, e nem as mãos me cobiçam para umas picadas quase de cócegas. As duas, rainhas das raízes. Imagino que ficarão a conhecer a sebe. Passado um tempo. A sebe enorme. Elas também enormes. Terei de contar com elas nessa altura.

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Tudo o que trouxe

por António Manuel Venda, em 10.01.16

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Tudo o que trouxe dali da montanha. A folhagem. Há raposas, e javalis, e escalavardos. Mas a raposa vermelha não veio dali. Em tempos o meu filho mais velho deu-lhe forma na escola para a oferecer. A mim. O dia do pai. Um tempo tão longínquo... Quantos anos terá a pequena raposa?

 

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Uma manhã do mundo

por António Manuel Venda, em 09.01.16

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Viva 2015, Venha daí 2016

por Francisca Prieto, em 28.12.15

2014 tinha sido um ano horribilis, de maneira que me lancei a 2015 decidida a fazer uma pega de caras à vida, das que nos dão direito a duas voltas à arena no final do espectáculo e uma saída em ombros.

Não posso ter a pretensão de achar que cheguei efectivamente a sair pela porta grande, até porque vários acontecimentos menos felizes se foram sucedendo durante o ano que passou, mas foi um ano em que cumpri com brio um par de objectivos que estavam dentro da gaveta e que nunca pensei que viessem a ver a luz do dia.

Um deles foi a abertura de uma livraria solidária, que tem crescido a olhos vistos e que não só me dá todos os dias o prazer de estar a trabalhar para uma causa, como me fez conhecer dezenas de pessoas extraordinárias, desde os voluntários que fazem turnos, a pessoas que doam parte do seu espólio livreiro ou outros que não se importam de passar tardes a limpar o pó ou a carregar caixotes. De igual forma, adoro os clientes que já se tornaram amigos ou os que visitam pela primeira vez o espaço e que ficam maravilhados pela boa energia que dali emana. Sinto, por tudo isto, que foi um ano riquíssimo em termos de trabalho e de relacionamento humano.

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O outro grande sonho cumprido foi uma viagem ao Peru e à Bolívia, acompanhada por uma irmã e por um grupo de gente cheia de genica e de sentido de humor. Nem consigo explicar como pode ser divertido viajar com uma irmã adulta durante quase três semanas.

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É quase impossível que 2016 me traga dois acontecimentos com este nível de superlatividade. Mas se for um ano de consolidação, já me sinto muito grata. Venham então de lá esses ossos, seu 2016.

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Velório

por Francisca Prieto, em 15.12.15

Vestida de anjo. Fato de baptizado onde não faltava uma primorosa touca alva a contrastar com a tez mulata. Deitada. Imóvel porque morrera na véspera. Uma boneca de porcelana que hesitávamos tocar pelo medo de admitir que de uma criança se tratava.

Pai e mãe angolanos, retornados, imigrados, sei lá. Conformados na inconformidade de ter tido uma filha que primeiro foi deficiente e que depois ficou doente. Felizes por ela ter existido, inconsoláveis por ter partido.

Perguntaram-me, da Associação de Trissomia 21, se podia dar um salto ao velório. Que os pais, que sabiam qual seria o desfecho da leucemia da filha, só precisavam de a sentir honrada.

Não sabia que podia fazer com que alguém que não conhecia se sentisse honrado mas, na dúvida, corri à margem sul para dar um abraço a esta família.

Apresentei-me e, mesmo sem me conhecerem, ficaram desconcertantemente gratos pela presença.

Saí eu a sentir-me honrada, depois de testemunhar aquilo que já sabia: que o desgosto da morte de um filho é o desgosto da morte de um filho. A ninguém importa se era considerado deficiente.

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Um dia destes

por António Manuel Venda, em 06.12.15

Na cidade com os meus quatro filhos. O pequenino Rodrigo ao colo. Pela mão a pequena Francisca. E junto de mim a Madalena e o Bernardo. Todos tão bonitos, contrastando comigo. Um casal já idoso não deixava de olhar para nós. «Grande trabalho!», acabou por dizer-me o homem, como se me conhecesse desde sempre. Mas eu nunca o tinha visto. Almoçámos no restaurante de um pequeno hotel. Mais um casal, desta vez os empregados, por sinal um bocado estranhos. Cada um à sua maneira. A mulher estranha numa simpatia a disfarçar uma natural antipatia. O homem estranho nem vou agora dizer por quê. Os dois capricharam em tratar-nos com desprezo, quando numa mesa ao lado um casal espanhol tinha a mais pequena das duas filhas sempre aos berros e a chorar. E a empregada, enquanto nós íamos esperando, atarefava-se a levar brinquedos para a mesa, enquanto dizia «não ai próblema». Cheguei a propor aos meus filhos que não voltássemos lá, mas o mais velho disse que devíamos voltar, pois a comida era boa. Ficámos de voltar, claro, até porque a antipatia não tira pedaço nenhum e nós podemos bem com a antipatia daqueles dois e sabemos como almoçar descansados.

Mais tarde, já nas bombas de gasolina, no café, outro casal. Não a meter-se mas a ser tema de conversa numa mesa próxima. Nem imagino os pormenores da conversa. Mas era de um casal que se falava. A voz de uma das pessoas entrava-me estridente pelos ouvidos. Falava-se de um casal. Só que havia dúvidas. Lá nessa mesa. Dúvidas sobre a mulher. Até que bem em frente de mim um tipo com ar de desgraçado se meteu a dar palpites. Não, essa não. Essa é a mulher do Stalin, desse aí é mas é a irmã. Não percebi a reacção dos outros. O desgraçado insistiu que era a mulher do Stalin, que afinal do outro era, precisamente, a irmã, tia dos filhos dele. Dei comigo a pensar que na capital religiosa da pátria do nosso comunismo aquilo só podia fazer sentido. Costuma inclusive passar por mim um Lenine, já na zona rural. Tipo de fixações, parece-me. Sempre a mesma roupa, sempre o mesmo pó na bicicleta a motor, sempre o mesmo cão calado na caixa de madeira atada na parte de trás – da bicicleta, não a dele. Sempre a mesma caixa, claro.

 

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Quando a má consciência se torna viral

por Teresa Ribeiro, em 30.11.15

É impossível ficar indiferente a este vídeo natalício, da cadeia de supermercados alemã Edeka. A maioria de nós lá saberá porquê...

 

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Os blogues e a vida real

por José António Abreu, em 28.11.15

Começa-se sem saber bem no que vai dar. Mantêm-se imensas ilusões mas temem-se a indiferença e o desprezo, bem como a incapacidade de estar à altura da tarefa. Responde-se de forma desajeitada às primeiras - e memoráveis - pessoas que estabelecem relação. Quem chega mais tarde obtém uma realidade parcial. Tentar descobrir o que ficou para trás pode reforçar -  ou fazer desvanecer - a atracção mas dá trabalho e poucos o fazem. Quase sem dados concretos elaboram-se imagens e verdades, que permanecem apesar de serem  desmentidas uma e outra vez. Há quem fique pouco tempo e, desinteressado quando não desiludido, logo desapareça. Há quem se empenhe - aconselhe, critique, procure moldar - e resista durante períodos surpreendentemente longos. Há o cansaço que, de um lado e do outro, se instala e as pausas que urge introduzir. Há os erros, as hesitações, as desilusões, os entusiasmos repentinos, as discussões estimulantes e as discussões cansativas - pelo momento, pelo tom mas, acima de tudo, por já terem ocorrido inúmeras vezes. Há afinidades que se referem com frequência e ódios de estimação que também se referem com frequência mas em tom completamente diferente. Há a passagem do tempo e a ideia de que se tem afinal menos controlo, menos originalidade e menos relevância do que era suposto.

Os blogues não são a vida real mas arranjamos sempre forma de tudo parecer a vida real. Talvez por a consciência - esse factor que nos diferencia dos restantes animais - nos permitir intuir que, em grande medida, a vida real é uma ficção.

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Mais que uma música, mais que um vídeo

por Tiago Mota Saraiva, em 19.11.15

 

Solo andata - Canzoniere Grecanico Salentino

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O que parte dos que nos ficam

por Ana Cláudia Vicente, em 01.11.15

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 [Wassily Kandinsky, Toussaint, 1911]

Há qualquer coisa valiosa nisto de nos importarmos fundamentalmente com o mesmo de modos tão diferentes. Pensei-o ao ler o post sentido da Isabel. E apeteceu-me falar do outro viver a morte que ela enuncia. Eu vivo desse outro modo os que nos ficam depois de partirem. Presto culto aos mortos. Esses ritos, mais velhos que a nossa própria espécie, gestos agora feitos da limpeza de uma pedra, da deposição de uma flor, de uma oração, a mim fazem-me sentir ligada ao que é ancestralmente humano.

É um sentimento bastante primário, e de certa forma comunitário: lembro os meus e os que conheci não só por estes dias, mas nestes de outra maneira; lembro também os que pelos mesmos dias ou nas mesmas horas viveram noutro tempo coisa semelhante. E sim, há algo escuro e perturbador nessa religação. Também o há na meditação física e metafísica que ela oferece. Olhar o que parte dos que nos ficam pode ser isso - uma outra maneira de os deixar viver em nós.

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Survivors

por Francisca Prieto, em 12.10.15

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Amor e água limpa

por José António Abreu, em 22.09.15

O que é que nos fazia pensar que, se alguém não nos consegue amar, é porque está magoado, deficiente, com algum tipo de disfunção? E nos casos em que nos substituem por um deus, ou uma virgem em pranto, ou o rosto de Cristo num pano sagrado - aí tratamo-los por doidos. Iludidos. Regressivos. Estamos tão convencidos da nossa própria bondade, e da bondade do nosso amor, que não suportamos acreditar que haja algo que seja mais digno de amor do que nós, mais digno de devoção. Os cartões de felicitações dizem muitas vezes que toda a gente merece amor. Não. Toda a gente merece água limpa. Nem toda a gente merece amor a toda a hora.

Zadie Smith, Dentes Brancos. Edição D. Quixote (2002), tradução de Manuel Cintra.

 

Pois não. Mas dói, aceitá-lo. E recusar fazê-lo talvez constitua parte do que nos faz humanos. Como, de resto, desejar amar.

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Então não vai à campanha?!

por Helena Sacadura Cabral, em 21.09.15
Se há comportamento pessoal de que me orgulho é o de nunca me ter envolvido nas actividades políticas dos meus dois filhos. Nunca ninguém me viu numa posse, numa campanha, num comício, numa homenagem. Faço uma rigorosíssima distinção entre o que é vida familiar e vida profissional de qualquer de nós.
Amo os meus filhos e não me furtei nunca à sua presença na minha vida, suportando as consequências de ser mãe deles. Mas sempre foi claro entre nós que esse seria o preço a pagar por cada um desejar ser o que é e como é. E, quando um filho me acompanha a um cinema, um teatro, um almoço ou um jantar, tento passar o mais despercebida possível. Foi, aliás, o que também tentei fazer com o pai deles, quando do seu já muito longínquo tempo de frenesim político.
Pois apesar disto tudo ser bem conhecido, acabam de me perguntar se, à semelhança do que se prevê para outros candidatos, eu não iria aparecer na campanha eleitoral?
Fiquei tão atónita com a questão que só me saiu como resposta a frase "certamente que a senhora não me conhece e não sabe com quem está a falar, senão já saberia a resposta". 
A interlocutora ainda tentou esclarecer-me da razão da pergunta. Mas eu gentilmente disse-lhe que não estava interessada em saber os meandros da mesma e, com delicadeza, desliguei o telefone. Ele há com cada pergunta mais idiota! 

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Eu, refugiado

por Rui Rocha, em 10.09.15

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Foi há quarenta anos. Não me lembro de tudo. E não sei se me lembro de memória minha, ou se são imagens construídas sobre histórias que fui ouvindo. Lembro-me (ou contaram-me?) das ventoinhas nos tectos, dos flamingos, dos mosquiteiros, das noites quentes na Restinga com frascos cheios de pão que serviam de engodo para os peixes. Lembro-mo do nome do Calita, amigo de brincadeiras, mas não me lembro da cara dele. Lembro-me do meu cavalo de pau numa varanda porque ainda tenho ali uma fotografia que confirma que o tive. Lembro-me, e disso lembro-me, num lampejo, de subir a Colina da Saudade ao fim da tarde, na Opel, com o meu pai, para irmos buscar a minha mãe ao Liceu onde ensinava. Não me lembro se depois fomos ao Kurika da Etelvina e do Santos, que mais tarde tiveram a Residencial Paradouro na Almirante Reis em Lisboa, comer o meu bife: Etelva, quero o meu bife. Mas é provável que tenhamos ido, como íamos tantas vezes. E lembro-me, ai como me lembro, de ter dores de barriga e de pedir à minha mãe para me levar ao Pinto Coelho, o médico do Lobito. E lembro-me de uma viagem pela estrada do Kubal em que vimos os Xinganges. E do Carnaval em que as lavadeiras me arrancaram dos braços desconfiados da minha mãe para dançaram comigo. Lembro-me de nomes mas já não sei o que tinham dentro deles: o Hotel Terminus, a Catumbela. E Benguela onde o avô Rocha tivera a recauchutagem e onde morava o Oliveira Makeiro. Mas já não sei se era o Oliveira Makeiro que andava na rua de pijama ou se era outro de que já não me lembro. Lembro-me que o tio Fernando e a tia Lina ainda ficaram. Que vieram umas semanas mais tarde. Que a Carina, que a tia Lina carregava então na barriga, nasceu ainda lá e ficou deficiente profunda por falta de assistência no parto. Lembro-me de ouvir contar que muitos vieram em traineras. Que outros fugiram para  a África do Sul. Que alguns partiram em paquetes. Talvez no Príncipe Perfeito que uns tempos antes o meu pai me levara a ver no Porto do Lobito. Lembro-me de ouvir o Miguel, que uma tarde me levou de bicicleta aos musseques antes de me devolver, já anoitecendo, aos braços nervosos da minha mãe, falar dos comícios do Agostinho Neto e do Savimbi. O Savimbi falava bem. Sabia várias línguas. O Agostinho Neto? Xi, Patrão, pergunta não: O Agostinho Neto estava bêbedo nos comício do Lobito, pá. Lembro-me de a minha mãe contar que uma noite, alta madrugada, se levantou para atirar pela janela fora os crachás do MPLA, da UNITA e da FNLA que o Lúcio Lara, do MPLA, uma irmã (assim se chamavam entre si os simpatizantes do Holden Roberto) e o Jonas Malheiro da Unita do Lobito me tinham dado. Tinham dito à minha mãe que as milícias de um partido e dos outros entravam pelas casas dentro e obrigavam os proprietários a engolir os crachás dos adversários. Lembro-me que eu era pelo Holden Roberto porque gostava de ouvir-lhe o nome. E que era da UNITA porque gostava de dizer kwacha e do MPLA, apesar do Agostinho Neto estar bêbedo no comício, porque o Lúcio Lara me dava crachás bonitos. Lembro-me, ou ter-me-ão contado, desse dia em que carregámos meia-dúzia de malas para o aeroporto do Lobito. Do meu pai a correr para o Dakota para nos meter lá dentro. De o ver tropeçar e cair no meio da pista e de o ver levantar-se agarrado à mão. Do barulho dos motores do Dakota já a sobrevoar o Lobito, o meu pai ao meu lado com o braço ao peito, amparado por um lenço castanho e vermelho. Do barulho das rajadas de metralhadora e dos morteiros enquanto o Dakota subia. O mesmo barulho que já tinha ouvido quando tropas portuguesas respondiam do telhado do prédio onde vivíamos às FAPLA que estavam no Terreiro do Pó. Ou será que o barulho das rajadas de metralhadora e de morteiros foi quando levantámos, dois dias depois, de Luanda? Lembro-me que o meu pai veio só para nos trazer para Portugal, mas que tinha intenção de voltar a Angola. E que nunca mais voltou. Lembro-me que o Jumbo (era um Jumbo, não era?) levantou de Luanda e uma hora depois voltou para trás por ter uma avaria. Lembro-me da cara do meu pai que sabia que em Luanda nos esperavam outra vez metralhadoras e morteiros. Lembro-me de não saber dar nome à cara do meu pai mas sei agora que era pavor. Por mim, pela minha mãe. Por ele. Lembro-me de dormir no Aeroporto de Luanda em cima de uma mala enquanto esperávamos por outro avião para a metrópole. E dos morteiros e das metralhadoras. Ou será que tinha sido no Lobito? Lembro-me de dormirmos dezenas de crianças num quarto de hotel em Lisboa no dia em que conseguimos chegar. Lembro-me que as malas se perderam. E que com elas se perdeu o pouco que ainda tínhamos. Com excepção de um frigorífico, de um bar com incrustações de madrepérola e de duas arcas em cânfora que chegaram de barco umas semanas mais tarde. O frigorífico que foi nosso ainda durante muitos anos já em Braga. E as arcas e o bar que ainda tenho lá em baixo na garagem. Lembro-me de chorar, ai como me lembro, porque numa das malas iam um casaco e umas calças, ambos de ganga, e um outro conjunto igual mas de sarja branca, de que gostava muito. Lembro-me do frio de Agosto quando saímos do nevoeiro do dia seguinte para bater à porta, sem nada nas mãos, da casa da avó Palmira em Silvalde. Lembro-me, ou foi o meu pai que me contou, do peso do falhanço que lhe vergava os ombros. Do pé atrás de muitos que nos receberam. Da desconfiança. Dos olhares contrariados. Dos sussurros sobre nós mesmo quando estávamos com família. Dos passos que se afastaram quando esperávamos, pelo menos, um sorriso. Da diferança de costumes. De não ter para onde voltar e de estar num lugar onde não nos queriam. De nos chamarem retornados e da raiva ou do desdém com que o faziam. Lembro-me que ser retornado era uma etiqueta que nos pesava. Que nos definia para lá de sermos boas ou más pessoas. Os de cá tinham uma família. Um passado. Coisas boas ou más que tinham feito. Nós não. Éramos só retornados. E de o meu pai responder sempre que não era retornado mas refugiado porque não tinha nascido . E que eu também tinha nascido . Lembro-me e não guardo rancor. Percebo os medos, os receios, as frustrações dos que já estão onde outros chegam. Da angústia da perda do pouco ou nada que se tem. Da injustiça de haver  quem passasse muito mal sem nunca ter sido ajudado e de ter de se ajudar quem chega sem ser convidado. Mas não percebo que os que estão não percebam o que é fugir da guerra, ficar sem nada, chegar de mão estendida, chegar com a vida falhada. Que não percebam as crianças. Não percebo a facilidade das soluções simples, dos discursos de trincheira. Do certo e do errado que nunca trocam de lado. Não percebo, não percebo. E não percebo porque me lembro. Ou porque me contaram coisas de que ainda me lembro.

 

* a fotografia é do Público.

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Mais espaço...

por Helena Sacadura Cabral, em 06.09.15

Por norma diz-se que a idade traz mais sabedoria e mais conhecimento. Comigo, isso não acontece. Quanto mais envelheço mais consciência tenho do que não sei. E também me importo menos com o facto, já que quer o acessório quer o essencial, tambem vão mudando.
Assim, não personifico o ditado que afirma "quanto mais velhos somos, mais coisas sabemos". No meu caso, o que vou aprendendo substitui o que já sabia e deixou de ter interesse. Assim, em termos de quantidade, não haverá grande variação. Em termos de qualidade terei algum benefício com a permanente actualização.
Mas aqui surge uma outra variável, que respeita à capacidade que cada um tem de absorver coisas novas. E este é o cerne da questão. Há novidades para as quais não tenho, hoje, a mínima aptência ou interesse. Logo passo-lhes ao lado, não chegando sequer a dar-lhes forma de conhecimento. O que me torna menos sábia, mas mais saudável.
Os últimos meses e em particular estes dias que nos separam de 4 de Outubro, constituem a prova do que acabo de dizer. São tão desinteressantes, que nem sequer banham as minhas margens. Assim, fico com muito mais espaço mental livre para aprender coisas novas e de maior utilidade. Trata-se, sem dúvida, de uma das poucas vantagens do envelhecimento. É que aprendemos a ser muitíssimo mais selectivos relativamente a tudo o que nos pretendem impingir!

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Divagações de praia 2

por Teresa Ribeiro, em 29.08.15

passos-na-areia-[1].jpg

 

O meu pai era um homem de hábitos. As suas rotinas eram cultivadas com cuidados de jardineiro e nem as férias lhe alteravam o seu modo de vida circular, feito de perpétuos regressos. De manhã, praia, à tarde mata, à noite a esplanada no centro da vila. Parava no mesmo café, de preferência sentado à mesma mesa, para ser atendido pelo empregado do costume e sempre, sempre na Caparica, a praia da sua vida, que conheceu eram os dois tão novos. Ele ainda com a barba mal semeada, ela também uma mocinha púbere, de beleza selvagem, com dunas a perder de vista e uma mata cerrada onde consta que os foragidos da cadeia da Trafaria se iam esconder para nunca mais serem vistos.

O seu conservadorismo extremo exasperava-me, o amor pela rotina confundia-me. Mas como tantas vezes acontece com os filhos, nem sequer tentava percebê-lo. Gostava de coleccionar tudo: moedas, selos, canetas, isqueiros, agendas, cinzeiros, búzios, caixas de fósforos, canivetes, porta-chaves, canecas, miniaturas de monumentos, postais. Sim, era um exagero. Aquele prazer em ter revelava um Tio Patinhas obcecado não por dinheiro, mas pelo acto de colectar em si mesmo. Como se tivesse medo que algo lhe fugisse, que as coisas lhe fugissem.

Infantilizou-me. Em vez de me emendar, esforçava-se para que eu perpetuasse os disparates que dizia em pequena. Fez o mesmo com os netos. Era uma forma de nos reter, de iludir a passagem do tempo para continuar a ter-nos como só se têm as crianças.

Quando eu viajava, sofria. E se o avião caísse? E se o mundo me tragasse? Não percebia a minha paixão por viagens. Dizia que para viajar bastava-lhe passar os olhos pela colecção de postais. Numa ocasião regressou mais cedo de uma viagem de serviço a Paris, que não conhecia, só porque estava de chuva e não tinha levado chapéu. Um excêntrico, o meu pai.

Tinha cinco anos quando o meteram num navio. Fez Luanda-Lisboa na companhia de uma estranha. Nesse tempo não se tentava explicar nada às crianças. Deixou para trás os pais, os irmãos e a terra onde nascera sem perceber o que se estava a passar. Havia uma razão plausível, mas não a conheceu em tempo útil.

Foi esta a sua viagem inaugural. Dos cafezais a perder de vista para um apartamento do bairro das colónias, em Lisboa. Só voltaria a ver os pais aos 18 anos e Angola muito mais tarde, já adulto. 

Nunca me falou, nunca falava disto, soube-o pela minha mãe. Há cinco anos, quando um avc lhe fez as malas e lhe deu uma guia de marcha para não mais voltar, na consulta da urgência, quando lhe perguntaram "onde mora?", respondeu: "No Uíge".

Faria este mês 87 anos.

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Divagações de praia

por Teresa Ribeiro, em 08.08.15

passos-na-areia-[1].jpg

 

Na infância o tempo, se formos a ver, é bem preenchido. Há muitas coisas, todas novas ou pelo menos não suficientemente velhas, que nos distraiem. Quando somos pequenos o vagar sente-se, mas não incomoda, ao passo que na adolescência, se os planetas não se alinham segundo as nossas expectativas pode ser uma tragédia quando sobra demasiado tempo para pensar.

Desperdicei-o tanto na adolescência. Eu agora tão ciosa dele e nessa época como eu o esbanjava, a sonhar acordada. Mão na mão de artistas de cinema, a treinar beijos fogosos na curva dos cotovelos, a esconder-me do mundo, amuada, quando um amor não me correspondia. Ao contrário dos dias intermináveis da infância, passados serenamente num andar de Lisboa sem vista para o Tejo, os da adolescência consumiam-me de impaciência. Queria tanto e tudo e tão depressa, que era um sofrimento ter de esperar daquela maneira pela vida.

Passei metade da adolescência nos cafés a armar, de SG Filtro nos dedos e bica escaldada  na mesa, a antecipar cenas de filmes que não vinham. Sitiada por miúdos borbulhentos que ainda se entretinham a fazer concursos de arrotos, ou gente demasiado adulta para me compreender, fui a princesa da torre, desdenhosa e chata - uma "desinfeliz", como dizia a minha mãe, só para me arreliar - até ao dia em que finalmente percebi que o tempo era um bem escasso.

Foi então que decidi. Da janela deitei a longa trança que entretecera durante esses anos perdidos de tertúlias parvas, planos fugazes, consumições gratuitas e foi por ela mesmo que desci. Descobri pouco depois que, não sendo uma estrada de tijolo amarelo, a realidade tinha a grande virtude de poder ser vivida e que afinal melhor que beijar Warren Beatty ou o não menos distante galã do meu bairro, era trocar de pastilha elástica com o Chico. Mas só eu sei o que andei para aí chegar!

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Olhares

por José António Abreu, em 26.07.15

Pode ser apenas a minha leitura (uma distorção que, adiantada a ressalva, julgo coerente com o meu tipo de pessimismo) mas as crianças parecem-me ter um olhar cada vez mais adulto. Ou antes: cada vez mais parecido com o de muitos adultos actuais, começando pelo dos progenitores. Um olhar onde o desejo se cristaliza, se torna permanente em vez de intermitente, e a ameaça da tristeza é submergida pelo pânico do aborrecimento.

 

Adenda: Leiam esta entrevista a Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana, no Observador; não tem directamente a ver com o olhar das crianças mas, ainda assim, tem tudo a ver.

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Admissão

por José António Abreu, em 15.07.15

Gosto de pensar que sou pessimista. Na realidade, como a maioria dos portugueses, sou apenas um optimista envergonhado.

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Stabat Mater

por Ana Vidal, em 13.07.15

471446.jpg

Olho esta imagem e vejo nela dois seres humanos sorridentes, cúmplices, felizes. Uma mãe orgulhosa, que parece dizer “vejam como o meu filho é o rapazinho mais bonito do mundo”, e uma criança amada, sentindo-se segura sob a asa protectora da mãe. O eterno quadro da maternidade feliz, que inspira ternura e nos resgata, como nenhum outro, dos nossos piores receios sobre a pantanosa natureza humana, sempre tão cheia de surpresas.

 

E no entanto, esta imagem apresenta-nos os protagonistas de uma das mais lancinantes notícias dos últimos dias. Uma história que não pode deixar de marcar-nos profundamente, tenhamos ou não filhos: Ji’Aire Lee, o menino de três anos que nos sorri na fotografia, morreu de hipotermia e desidratação no baloiço de um parque infantil em Maryland (EUA), após ter sido empurrado ininterruptamente durante quarenta e oito horas pela mãe, Romechia Simms. Não sabemos muito sobre as causas deste acto desesperado, a não ser que Romechia é uma sem-abrigo com aparentes problemas mentais.

 

Sabemos também que James Lee, o pai da criança, pedira recentemente a custódia judicial do filho por achar que a sua ex-mulher não tinha condições para cuidar dele, apesar de reconhecer que ela “não é uma mãe incapaz” e que nunca faria mal ao filho de forma consciente. Todos os que a conhecem têm a mesma opinião, a de que é boa pessoa e amava o filho, e a autópsia confirma a ausência de quaisquer indícios de maus-tratos.

 

Especulando, eu diria que esta mulher perdeu tudo o que a podia manter equilibrada e ligada a uma realidade considerada “normal”, atropelada pela voracidade de uma sociedade que exige sucesso a todo o preço e sacrifica implacavelmente os seus mais frágeis, os que se revelam incapazes de corresponder ao padrão. O último elo que ligava Romechia a essa normalidade era o filho, uma criança saudável e feliz que representava, muito provavelmente, o seu único sucesso. Mas a frustração de nada poder dar-lhe, aliada à notícia de que ia perdê-lo, deve ter abalado violentamente o que sobrava ainda da sua sanidade mental. Restou nela apenas o mais recôndito e ancestral dos instintos, a única coisa que podia e sabia fazer melhor do que ninguém pelo filho: embalá-lo. E foi esse gesto de ternura, automático e repetido até à exaustão, que acabou por matá-lo.

 

O terrível simbolismo desta história deveria fazer-nos pensar muito seriamente no modelo de sociedade que criámos para nós.

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Anything for love - a voz dos leitores

por Leonor Barros, em 11.07.15

A propósito do meu post, a nossa leitora Kika deixou esta sugestão. Muito obrigada. 

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Contraste

por José António Abreu, em 08.07.15

No centro comercial: homem e mulher com aspecto gótico levam pela mão uma miúda (quatro, cinco anos no máximo) vestida como uma princesinha de conto de fadas.

Fico a vê-los afastarem-se. Por instantes, sinto estar a observar uma cena de um filme dos bons velhos tempos de Tim Burton. Há ternura no contraste. Como se a miúda lhes tivesse caído no colo de surpresa, vinda de um universo paralelo ao deles, e procurassem ainda a forma adequada de reagir. Ou, melhor, como se tanto ela como eles viessem de universos paralelos a este e se tivessem juntado para tentar navegá-lo.

Depois de abandonarem o meu campo de visão ponho-me a pensar mais a sério. Será possível que uma miúda daquela idade já tenha capacidade para recusar o exemplo dos progenitores e impor um aspecto tão distinto do deles? Neste caso, quão desconcertante (todos os pais se imaginam modelos para os filhos) será para eles? Ou será desejo dos pais mantê-la num mundo de encanto e inocência, em que claramente não acreditam, até tão tarde quanto possível? E constituirá o exagero uma tentativa de compensar essa falta de crença?

Ou então - a minha faceta racional e mais do que um nadinha cínica estraga-me sempre as divagações - são apenas tios e sobrinha.

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Incertezas

por Isabel Mouzinho, em 22.06.15

Nunca acreditara realmente que as coisas, todas as coisas, pudessem julgar-se garantidas, ou definitivas, nem na predestinação, ou naquela ideia um pouco pueril de que algures no mundo havia alguém que lhe estaria destinado, uma espécie de alma gémea, conceito que na verdade nunca tinha conseguido entender. O que seria uma "alma gémea"? Soava-lhe sempre à imagem de si ao espelho, algo parecido com "mais do mesmo" e, por isso, profundamente desinteressante.

Acreditava, sim, nos encontros fortuitos e nas almas e corpos que de repente  se aproximam e se fundem no inexplicável que é o amor, na repentina falta de domínio sobre a vontade e na explosão dos sentidos, em momentos perfeitos de desejos à solta e de entrega incondicional e inteira, rendição do corpo e da alma tornadas inevitáveis e urgentes, não deixando querer nem pensar mais nada, porque, em momentos assim, nada mais importa.

Sabia que havia certos olhares a que era impossível dizer não, como sabia que havia feridas que demoram a cicatrizar e recordações que doem para sempre. Conhecia a falta de olhos, de risos e de corpos, e os suores frios de certas febres que se devem a males da alma, mais do que do corpo. Conhecia a amargura e a solidão das noites em que tremia de frio por dentro e a saudade lhe doía demais, quando não sentia no ar o cheiro de um perfume que lhe era familiar, nem  as mãos que desatavam vontades, à deriva pelo seu corpo em sobressalto, descontrolado em arrepios estremecidos de prazer, e em gestos  e palavras transbordantes de ternura.

Mas  sabia, também, que o mundo continuava a girar, que os dias e as noites se sucediam inexoráveis, e às vezes voltava até a sentir o coração a acelerar em alvoroço, como numa paixão de vinte anos, na luz de outros olhares que despertavam vontades súbitas, inesperadas e incertas, fugazes ou duradouras, que  lhe pareciam muito e outras vezes coisa nenhuma, que lhe apetecia provar  em pequenos sorvos, como uma bebida que se vai saboreando devagar, ou beber de um trago, como quem é tomado de assalto pelo desejo de saciedade e de tudo a acontecer de novo como se fosse a primeira vez e a doce inquietação do desejo estivesse de volta, dissolvendo e mantendo incertezas.

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Geografias do desejo

por José António Abreu, em 20.06.15

Os noruegueses eram idolatrados. Mais do que ele realmente queria ser, porque eram idolatrados não pelo seu valor enquanto indivíduos mas pela sua desejada nacionalidade.

Dag Solstad, Novel 11, Book 18. Tradução minha  partir da versão inglesa de Sverre Lyngstad.

 

O narrador do livro refere-se à sensação que encontrou na Lituânia mas julgo que ela pode ser estendida a vários outros países. Sendo que, em pelo menos um deles, quando se debate o assunto é obrigatório esconjurar a ameaça de depressão com um comentário imediato sobre as vantagens do Sol e das temperaturas amenas.

 

 

(A lista mais recente de países felizes demonstra - novamente - que o Sol não apenas não dá felicidade como até pode ter o efeito contrário. Algo que, acrescente-se, não me surpreende.)

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