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Deadwater

por Rui Rocha, em 21.04.17

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Em Maio de 2016, Mariana Mortágua publicou um artigo no JN em que, a propósito do caso Luaty Beirão, comparava as situações de Angola e da Venezuela. No texto, a Venezuela é apresentada como uma realidade em que foram cometidos erros e em que a democracia se degradou. Aliás, esta abordagem não é original no Bloco de Esquerda. Quando Fidel Castro morreu, o discurso foi semelhante. Catarina Martins afirmou na altura que "os erros não podem apagar a homenagem ao grande revolucionário". Os erros eram, no caso de Fidel, presume-se, mais de 50 anos de poder sem realização de eleições, violação dos mais elementares direitos individuais, perseguição, tortura, miséria e morte. Coisa pouca, portanto. No caso do texto de Mortágua a ideia central era então a de que, apesar dos tais erros, as situações de Venezuela e Angola não eram comparáveis. E Mortágua concluía, numa súplica, dizendo que não lhe pedissem "para confundir o que não era confundível ou que compreendesse os que se indignavam com Caracas mas toleravam Luanda". Pois bem. Face aos recentes desenvolvimentos da situação na Venezuela, é tempo para Mariana Mortágua responder a uma pergunta. As situações de Angola e Venezuela já são comparáveis? Ou tem ainda de se afundar mais o país na miséria, de se assistir a uma violação mais brutal dos direitos e da legalidade constitucional? É preciso morrer mais gente (quanta?) para que se ouça uma palavra de Mariana Mortágua, de Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, sobre a situação na Venezuela? É que parece evidente, Mariana Mortágua, que não nos podem pedir para compreender quem se indigna com Luanda (bem) mas tolera Caracas.

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Maduro pior que Mao

por Pedro Correia, em 03.08.16

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Pretendem alguns que a dramática situação em que mergulhou a Venezuela começou com Nicolás Maduro, que de algum modo tem desvirtuado a herança de Hugo Chávez. Isto não corresponde à verdade. Maduro, ex-condutor de autocarros e antigo dirigente sindical, é o prolongamento natural de Chávez e ascendeu ao poder por escolha "natural" do falecido mentor. A Venezuela actual não acordou da noite para o dia na mais confrangedora e lamentável miséria apesar de ser o país do mundo com mais reservas petrolíferas e ainda o segundo maior produtor de petróleo da América Latina.
Durante década e meia Chávez montou um sistema que distribuía aquilo que o país era incapaz de produzir, oferecendo um "estado social" assistencialista, assente em milhões de barris de petróleo, criando aos venezuelanos a ilusão de que tudo poderia ser conseguido sem esforço.
Durante década e meia, Chávez nada fez para diversificar a economia, não investiu no tecido produtivo os milhões que a Venezuela recebia de mão beijada da exploração do petróleo. Na própria indústria petrolífera não houve qualquer investimento: está hoje envelhecida, obsoleta, incapaz de aproveitar devidamente aquele precioso recurso natural. A corrupção contribuiu para esclerosar ainda mais um país que em quase tudo depende do petróleo quando podia ser auto-suficiente em produtos agrícolas e tem diversas outras riquezas - do subsolo ao turismo - por explorar.

Ao expropriar os circuitos de distribuição alimentar, estatizando-os, Chávez (e Maduro limitou-se a seguir-lhe o exemplo) paralisou um dos raros sectores da economia venezuelana que funcionavam. Um sector em que muitos portugueses e lusodescendentes desempenhavam um papel fundamental, com os seus pequenos comércios, sobretudo ao nível de padarias. Que têm vindo a fechar, desde logo por falta de farinha para fazer pão. E também pela total instabilidade dos preços: a Venezuela ostenta o nada invejável recorde mundial de inflação - que pode chegar aos 720% em 2016, segundo estimativas do FMI. E ainda pela insegurança galopante: Caracas é a capital do planeta com maior taxa de homicídios. Quase todos os crimes ficam impunes.
Assim que os preços do petróleo baixaram no mercado mundial, a realidade nua e crua do chavismo veio à tona. É dramática, como se vê: agora Maduro, numa espécie de recriação serôdia da China maoísta, quer mandar todos os habitantes da Venezuela em idade activa trabalhar pelo menos dois meses por ano nos campos - medida que abrange não apenas os funcionários públicos mas também os trabalhadores das empresas privadas, talvez para liquidar ainda mais depressa o que resta do sector privado no país.

Eis mais um passo de gigante no caminho do abismo. De Mao a pior.

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"socialismo do século XXI" não se limita a lesar pessoas, que buscam em desespero na vizinha Colômbia ou no fronteiro Brasil os alimentos básicos que deixaram de encontrar no seu país: também já condena os animais à morte. A começar por dezenas de bichos do jardim zoológico de Caracas, que vão morrendo de desnutrição e fome.

Tavez seja excessivo esperar reacções do  Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, amigos e aliados do chavismo-madurismo em Portugal. Mas aguardo pelo menos um enérgico protesto do PAN, tão preocupado com os preços das rações para animais por cá enquanto aves, coelhos, tapires e porcos do Vietname vão morrendo no zoo da capital venezuelana e tigres e leões se alimentam ali de mangas e abóboras - enquanto há.

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Venezuela: um desastre anunciado

por Pedro Correia, em 09.06.16

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4 de Dezembro de 2009:

«Um estado militarizado, armado até aos dentes nas zonas fronteiriças e que não consegue impor patamares mínimos de segurança dentro das suas próprias fronteiras. Um estado que não consegue abastecer devidamente os seus cidadãos de bens essenciais, como luz e água, apesar de ser o sexto maior produtor mundial de petróleo.»

 

25 de Janeiro de 2010:

«Cinco canais televisivos deixaram de transmitir, por decisão governamental. Como represália pela "violação da lei", segundo as autoridades de Caracas. Está consumado assim mais um passo no sentido da supressão da liberdade de expressão e da liberdade de informação na Venezuela.»

 

8 de Fevereiro de 2010:

«Chávez já "nacionalizou" actividades industriais, hipermercados, hotéis. Agora manda "expropriar" pequenas lojas no centro de Caracas. Ao vivo, em directo e a cores. Confirmando assim que, para ele, a propriedade privada vale zero e que as contas públicas devem ser administradas ao sabor dos caprichos momentâneos de um programa de televisão, com a irresponsabilidade de qualquer menino-bem a delapidar a fortuna do papá.»

 

23 de Agosto de 2010:

«Incapaz de assegurar a segurança nas ruas, Chávez procura em alternativa conseguir a "tranquilidade" nos escaparates dos quiosques - declarando guerra não ao crime, mas ao jornalismo que não se verga aos seus ditames.»

 

5 de Março de 2013:

«O chavismo ambiciona continuar sem Hugo Chávez. Mas não será a mesma coisa. O carisma não se transmite por decreto.»

 

21 de Fevereiro de 2014:

«O regime de Caracas continua a condenar os venezuelanos à pobreza endémica e aos maiores índices de criminalidade urbana do globo pela incompetente oligarquia "socialista" que pretende perpetuar o chavismo sem Hugo Chávez enquanto bens essenciais -- incluindo pão, leite, arroz, açúcar e até papel higiénico -- desaparecem durante semanas das prateleiras e a inflação galopa para níveis alucinantes.»

 

6 de Março de 2014:

«O civil Maduro, ex-sindicalista e antigo condutor de autocarros, permanecerá no poder até ao dia em que os militares permitirem, sendo cada vez mais provável que não concluirá o seu mandato.»

 

28 de Fevereiro de 2015:

«Na Venezuela de Maduro é assim: fecham-se canais de televisão e jornais críticos, transforma-se o poder judicial numa delegação do poder político, condena-se a população à maior penúria do continente americano. E prendem-se "preventivamente" os opositores políticos. Incluindo os que foram eleitos pela população.»

 

18 de Novembro de 2015:

«Num país devastado pela crise económica, com o produto interno a cair 7% no ano em curso, até os números oficiais da inflação são considerados segredos de Estado - talvez por se supor que seja a mais elevada do mundo, podendo chegar aos 300% em 2016.»

 

9 de Dezembro de 2015:

«A chamada “revolução” nunca diversificou as fontes produtivas do país, que permaneceu assente em barris de petróleo. Quando cada barril era exportado a 100 dólares americanos, Chávez entregou-se ao delírio assistencialista, prometendo tudo a todos – e concedendo, desde logo, petróleo gratuito aos “irmãos" cubanos. Agora, com cada barril a valer 34 dólares, é mais evidente que nunca como a pretensa prosperidade venezuelana assentava em pés de barro.»

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As manigâncias de um cadáver adiado

por Diogo Noivo, em 23.05.16

Albert Rivera preside ao partido político Ciudadanos. Institucionalista convicto, Rivera colocou o partido que lidera no centro do espectro político espanhol. Acusado de ser a “marca branca” do Partido Popular nas últimas legislativas, o Ciudadanos mostrou que entre democratas não há barricadas e pugnou por uma solução de governo estável e democrática. Quando Mariano Rajoy, presidente do Partido Popular e vencedor das eleições, recusou formar governo, o Ciudadanos estendeu a mão ao segundo partido mais votado, o Partido Socialista Obreiro Espanhol. Mais do que cargos ou prebendas, o importante era formar governo e garantir o respeito pelas instituições. Podemos gostar ou não de Albert Rivera. Podemos simpatizar ou não com as ideias do Ciudadanos, um partido inscrito na família política dos liberais europeus. Mas as credencias democráticas de Rivera e do Ciudadanos parecem-me indiscutíveis.

 

No entanto, no mundo insano do autoritarismo Chavista-Madurista, a história é outra: Albert Rivera é de “ultra direita”. Quando a realidade incomoda a narrativa do regime, muda-se a realidade. A forma de o fazer é simples e baseia-se no repertório do costume: comunicação social controlada, cátedras popularuchas na televisão, muita propaganda e atentar descaradamente contra o carácter e o bom nome de quem pensa de maneira diferente. Esta peça “noticiosa” da TeleSUR, canal de televisão sedeado em Caracas e patrocinado pelos regimes que partilham ala psiquiátrica com a Venezuela (Cuba, Equador, Nicarágua, Uruguai e Bolívia), é elucidativa do estado entrincheirado de um regime morto, mas que ainda não foi informado do próprio óbito.

 

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Maio, Maduro Maio

por Pedro Correia, em 20.05.16

Eu quando for grande quero ser funcionário público na Venezuela.

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As 35 horas são apenas o primeiro passo...

por José António Abreu, em 27.04.16

Venezuela à espera da chuva põe função pública a trabalhar dois dias por semana.

Ou a prova de como, sem as grilhetas da União Europeia, do euro ou da inexistência de petróleo, um dos paraísos do socialismo está cada vez melhor.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 27.02.16

En busca de la última barra de pan en Caracas. De Daniel Lozano, no El Mundo.

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Os dias incertos da Venezuela

por Pedro Correia, em 09.12.15

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 Dirigentes da oposição celebram vitória eleitoral em Caracas

 

I

Recebi com alegria a notícia do desfecho das eleições para a Assembleia Nacional venezuelana: estas legislativas - com a participação de 75% dos eleitores - foram a prova evidente do fracasso formal da chamada “revolução bolivariana”, que conduziu o país ao colapso económico e social.

Mas é uma alegria não isenta de preocupação. Porque, agora que se encontra quase moribundo, o regime chavista pode tornar-se ainda mais perigoso na tentativa desesperada de sobreviver.

 

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Retrato da "revolução bolivariana": gigantescas filas diárias no acesso aos supermercados

 

II

Apesar de ser o maior exportador de petróleo da América Latina, a Venezuela enfrenta a maior recessão do continente (entre -7% e -9% do PIB) e uma brutal crise de abastecimento dos bens de consumo essenciais – incluindo pão, arroz, leite e até papel higiénico. Tem igualmente uma das mais dramáticas taxas de violência urbana do planeta: em média ocorrem ali 20 mil homicídios por ano e cerca de 85% destes crimes acabam impunes – incluindo o assassínio do dirigente oposicionista Luis Manuel Díaz, morto no final de um comício em plena campanha eleitoral.

Também em matéria de direitos fundamentais o país tem recuado para índices preocupantes. Dezenas de opositores ao chavismo/madurismo estão detidos (incluindo Leopoldo López, o mais destacado dirigente da oposição), os mandatos de deputados e autarcas (como o do presidente da Câmara de Caracas, Antonio Ledezma) não afectos à “revolução” são suprimidos por via administrativa, quase todos os órgãos de informação independentes do Governo encerraram ou passaram a ser propriedade de simpatizantes do regime e o poder judicial tornou-se mero instrumento do poder Executivo, como bem demonstrou o  depoimento do procurador que instruiu o fraudulento processo de López, entretanto exilado nos Estados Unidos.

O descalabro acentuou-se em 2013, com a subida à presidência de Nicolás Maduro, ex-motorista de autocarros. Mas as características autoritárias do regime “bolivariano” foram desenhadas pelo seu flamejante antecessor, Hugo Chávez, promovido desde a morte a “comandante eterno" da revolução. O culto póstumo começou no próprio dia do falecimento do ex-tenente-coronel paraquedista: segundo a tese de Maduro, o cancro que vitimou Chávez foi provocado pelos "inimigos da revolução".

Com o maior despudor, Chávez expropriou cadeias de supermercados (a pretexto de combater a “sabotagem económica” e o açambarcamento de produtos) que não tardaram a exibir prateleiras vazias e ampliou o número de magistrados do Supremo Tribunal para contar com uma confortável maioria de juízes prontos a validar qualquer decisão emanada do Palácio de Miraflores.

 

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Hugo Chávez, o "comandante eterno": culto da personalidade além-túmulo

 

III

A chamada “revolução” nunca diversificou as fontes produtivas do país, que permaneceu assente em barris de petróleo.

Quando cada barril era exportado a 100 dólares americanos, Chávez entregou-se ao delírio assistencialista, prometendo tudo a todos – e concedendo, desde logo, petróleo gratuito aos “irmãos" cubanos.

Agora, com cada barril a valer 34 dólares, é mais evidente que nunca como a pretensa prosperidade venezuelana assenta em pés de barro. O bolívar desvalorizou-se a tal ponto que de manhã ninguém sabe quanto valerá à tarde. A inflação real ultrapassa os 200% - de nada valendo o Governo ter proibido a divulgação de estatísticas oficiais sobre a economia do país.

Os venezuelanos gastam incontáveis horas por dia em extensas filas para abastecimento de produtos alimentares básicos, sem nunca terem a certeza de poderem adquiri-los. Cerca de 35% da população do país vive na miséria. A retórica revolucionária perdeu o efeito hipnótico produzido durante anos em largos sementos sociais: a popularidade de Maduro caiu para 22% - a mais baixa de um dirigente do país desde que há registos deste género.

 

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 Diosdado Cabello, o odiado nº 2 do regime venezuelano e líder da sua ala militar

 

IV

Apesar de todas as campanhas intimidatórias, apesar das perseguições aos jornalistas independentes, apesar da presença obsessiva do Presidente nos ecrãs televisivos a debitar grandiloquentes frases de propaganda, apesar da ameaça de Maduro de que  poria a tropa na rua para salvaguardar as “conquistas revolucionárias”, os eleitores acabam de exibir um gigantesco cartão vermelho ao “bolivarismo”. Até em bastiões tradicionais da “revolução”, como a periferia de Caracas e Barinas, o Estado natal de Chávez.

A oposição conseguiu maioria qualificada de dois terços: 112 dos 167 deputados – o que poderá propiciar de imediato uma lei de amnistia para os presos políticos e, a médio prazo, levará à aprovação de leis orgânicas, referendos e reformas constitucionais.

Mas a Venezuela, não esqueçamos, é um país presidencialista. E dispõe de um férreo controlo das forças armadas, sob a tutela do odiado Diosdado Cabello, popularmente conhecido como a "mão negra" do regime. Presidente da Assembleia Nacional, Cabello diz-se disposto a “lutar” para manter este cargo, o segundo mais importante do país.

 

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 Maduro vai querer continuar a governar por decreto, ignorando o Parlamento

 

V

O actual Chefe do Estado – à semelhança do antecessor – tem governado por decreto, o que o dispensa de ouvir o Parlamento. Nestes dias que faltam até ao início da nova legislatura, em 5 de Janeiro, é bem provável que Maduro exija aos deputados ainda em funções que lhe  prorroguem os poderes especiais destinados a validar a sua governação à revelia da Assembleia Nacional. E nos próximos dias nomeará com carácter de urgência 12 novos juízes do Supremo, que avalizarão todos os decretos presidenciais.

As suas primeiras declarações públicas, de resto, não auguram nada de bom. Foi incapaz de felicitar a oposição pela vitória eleitoral. E promete vetar desde já as leis que lhe cheguem do Parlamento - a começar pela lei da amnistia. "Por cada medida que a Assembleia venha a tomar, reagiremos de forma constitucional, revolucionária e sobretudo socialista", assegurou Maduro, em plena fuga para a frente.

Interessa-lhe tudo menos a expressão da vontade popular.

Daí a minha preocupação, apesar da alegria que sinto pela vitória eleitoral das forças antichavistas na Venezuela.

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Em perfeito delírio

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.12.15

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(AP/Adriana Cubillos)

 

O comunicado emitido pelo PCP, um dos partidos que sustentam a maioria parlamentar do XXI Governo, sobre o resultado as eleições parlamentares venezuelas fez-me recuar algumas décadas. O mesmo povo que deu dezassete vitórias eleitorais às "forças progressistas e revolucionárias", algumas com acusações de fraude à mistura e violência contra os opositores políticos, resolveu, desta vez, esmagá-las nas urnas com um resultado que não deixou dúvidas a ninguém.  

Do comunicado do PCP não se percebe como poderão aquelas forças, agora e até ver limitadas ao reduto presidencial e já sem o suporte das Forças Armadas, reverter a situação e encontrar "as soluções que defendam o processo revolucionário bolivariano e as suas históricas conquistas". Não se compreende, aliás, a que conquistas se refere o PCP, se ao uso intensivo de fatos-de-treino, alguns de conceituadas marcas capitalistas, se à proliferação de filas e senhas de racionamento para acesso a bens de consumo essenciais - há dias numa reportagem televisiva uma cidadã queixava-se de há quatro meses não conseguir obter um pacote de leite - ou, ainda, se ao recurso ao nepotismo de Estado para garantir a ascensão social e a qualidade de vida dos "revolucionários" ligados ao poder chavista e madurista.

Não podendo a Venezuela mudar de povo, para grande desgosto do PCP, em especial depois da presidente do CNE (Consejo Nacional Electoral) ter saudado a demonstração de civismo e felicitado "al pueblo por la escogencia de sus representantes" e do ministro da Defesa ter afirmado que "[h]a sido un proceso impecable", a solidariedade que manifesta servirá de muito pouco para impedir o afastamento definitivo de Maduro e da sua gente.

Leva sempre tempo, mas mais uma vez se provou que o poder não está na ponta de uma espingarda. Ainda que contra a vontade do PCP, que ainda não se apercebeu de que os calendários não pararam em 8 de Novembro de 1989, a democracia continua a fazer o seu caminho. Nos próximos meses se saberá por que trilhos seguirá.

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Democracia à venezuelana

por Pedro Correia, em 18.11.15

Hugo Chavez-Nicolas Maduro-Fidel Ernesto Vasquez

 

"Para que querem chegar à Assembleia Nacional? Para negar os recursos ao povo? Eu não vou deixar." Nos intervalos dos seus diálogos com Hugo Chávez que lhe aparece em forma de passarinho, o Presidente da Venezuela - que governa por decreto, evitando submeter-se ao escrutínio do Parlamento - mostra à comunidade internacional qual o caminho mais curto para transformar de vez o país em ditadura.

"Na Venezuela existe uma tirania arbitrária", diz sem papas na língua o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González. Sabe do que fala: num país devastado pela crise económica, com o produto interno a cair 7% no ano em curso, até os números oficiais da inflação são considerados segredos de Estado - talvez por se supor que seja a mais elevada do mundo, podendo chegar aos 300% em 2016. No momento em que as sondagens mais credíveis dão um avanço de mais de 30 pontos percentuais nas urnas à oposição.

Este sim, é um presidente gangster. Por sinal muito aplaudido por alguns do lado de cá do Atlântico.

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Entretanto, do outro lado do Atlântico...

por José António Abreu, em 10.03.15

Colocando em prática uma intenção expressa há meses, o governo venezuelano vai começar a instalar leitores de impressões digitais nos supermercados, de modo a limitar o consumo dos cidadãos.

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A esquerda cega e surda

por Pedro Correia, em 28.02.15

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 Boris Nemtsov, opositor de Putin, ontem assassinado no centro de Moscovo

 

Na Rússia de Putin é assim: esmaga-se o pluralismo, segregam-se as minorias religiosas, discriminam-se os homossexuais, silenciam-se os jornalistas incómodos, armam-se milícias para invadir países estrangeiros, anexa-se a Crimeia à margem do direito internacional. E matam-se os opositores políticos, a dois passos do Kremlin, com quatro tiros nas costas.

Na Venezuela de Maduro é assim: fecham-se canais de televisão e jornais críticos, transforma-se o poder judicial numa delegação do poder político, condena-se a população à maior penúria do continente americano. E prendem-se "preventivamente" os opositores políticos. Incluindo os que foram  eleitos pela população.

Rússia e Venezuela: duas lamentáveis manchas no mapa político internacional. Que continuam, apesar disso, a merecer o aplauso e o apoio de uma certa esquerda, que integra o bloco da  Esquerda Unitária Europeia no Parlamento Europeu. Uma esquerda cega e surda aos sinais dos tempos e à inapelável evidência dos factos.

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Encantos da economia-modelo para Tsipras e seus fãs

por José António Abreu, em 13.02.15

Dólar valoriza 327% em relação ao bolívar venezuelano, numa das três (!) cotações oficiais.

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Não há lei da rolha que resista

por Pedro Correia, em 06.12.14

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Bem pode António Costa tentar impor a lei da rolha no PS quanto ao caso Sócrates. Do estabelecimento prisional onde se encontra, o ex-primeiro-ministro tudo faz para contrariar este desígnio. Assumindo o máximo protagonismo de que há memória entre nós num cidadão em regime de prisão preventiva, insiste em captar para si próprio a luz dos holofotes. Não para se defender das acusações que lhe são imputadas - e em parte tornadas públicas no acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que sustenta a legalidade da sua detenção - mas para acusar indiscriminadamente tudo e todos. Ministério Público, jornalistas, polícia, professores e o juiz Carlos Alexandre. Para apontar o dedo acusador ao Estado de Direito.

 

Imaginando-se na condição de preso político em ditadura - ele que tem todas as garantias processuais conferidas pela legislação produzida durante o seu mandato como chefe do Governo, ao contrário do que sucede com os opositores políticos na Venezuela, onde vigora um regime que ele tanto admira. Opositores como Leopoldo López, sujeito desde Fevereiro a um duríssimo regime de prisão preventiva, impedido de receber visitas dos próprios familiares e sem data marcada para julgamento num país onde a magistratura funciona hoje como mero braço punitivo do poder político.

Como escreve o Luís Rosa, em editorial no jornal i, «José Sócrates quase que se deve ver como um Nelson Mandela - ou tantos outros homens políticos que afrontaram verdadeiras ditaduras totalitárias em nome da liberdade, da igualdade de direitos e de uma sociedade próspera e justa. Não cabe na cabeça de um mitómano como Sócrates que esse tipo de comparação seja insultuosa para a memória dos verdadeiros combatentes contra todas as ditaduras que existiram e continuam a existir por esse mundo fora».

 

Segundo o princípio dos vasos comunicantes, quanto mais Sócrates se esforça por preencher as atenções mediáticas mais se esvazia o capital político de António Costa potenciado pela sua recente eleição como secretário-geral do PS. Imaginar, neste contexto, que as duas realidades funcionarão daqui por diante em compartimentos estanques é pura estultícia.

Razão tem pois Sérgio Sousa Pinto, um dos novos membros do Secretariado socialista, em declarar hoje sem rodeios em entrevista ao i: «Caso Sócrates prejudica objectivamente o PS.»

Como um eucalipto voraz que seca tudo à sua volta.

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A "democracia" venezuelana (2)

por Pedro Correia, em 07.04.14

Mais assassínios políticos.

Mais repressão.

Mais detenções de opositores.

Mais manipulação da justiça pelo poder político.

Mais escassez de produtos básicos.

Mais recurso à tropa para travar protestos.

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A "democracia" venezuelana

por Pedro Correia, em 03.04.14

Presidente autorizado a governar por decreto durante 12 meses. / 295 horas de aparições presidenciais na televisão só num semestre: em média, mais de hora e meia por dia. / Deputada da oposição vê revogado o mandato popular que recebeu das urnas. / Presidente da câmara de San Cristóbal, capital estadual e a sétima maior cidade do país, destituído e detido por recusar reprimir manifestantes. / Outro autarca eleito por voto popular - Enzo Scarano, de San Diego -- condenado a dez meses de prisão efectiva pelo mesmo motivo. / Jornais em risco de fechar por falta de papel. / 2118 detenções em 56 dias de brutal repressão política. / 39 mortos e 559 feridos nestes dois meses. / Jovem grávida assassinada. / Indignação popular passa a ser criminalizada. / Direito à manifestação é severamente restringido. / Militares usados para reprimir protestos. / Infecções respiratórias aumentam 30% devido ao abuso de gás lacrimogéneo. / Presidente exige que os proprietários vendam imóveis aos inquilinos. / Amnistia Internacional denuncia meia centena de casos de tortura.

 

Eis a "democracia" venezuelana em todo o seu esplendor.

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Maduro, a tropa e a ave canora

por Pedro Correia, em 06.03.14

 

Um ano após a sua morte física, Hugo Chávez devia reaparecer ao seu herdeiro político, o incompetente Nicolás Maduro, e dar-lhe uma séria reprimenda. Desta vez não em forma de passarinho mas de outro animal, menos delicado. Porque o caricato sucessor do pai da "revolução bolivariana" nada mais tem feito do que agravar a situação da Venezuela, embora possa alegar a seu favor o facto de que o país já caminhava para o abismo no momento em que ele iniciou funções no Palácio de Miraflores, a 8 de Março de 2013.

A verdade é que a Venezuela, primeira exportadora de petróleo da América Latina e detentora das segundas maiores reservas de gás natural do hemisfério ocidental, está em regressão contínua: ninguém ignora que os protestos de rua -- violentamente reprimidos pelas "forças da ordem", incapazes de travar o passo aos gangues do crime -- resultam de genuínos sentimentos de indignação. Os trabalhadores vêem o poder de compra devorado pela inflação, que ascende a 56,2% -- a pior cifra mundial, sete pontos percentuais acima da Síria, país há três anos em guerra. As donas de casa passam horas em filas nas lojas, muitas vezes em vão porque o sistema de abastecimento alimentar entrou em colapso desde que Maduro incentivou uma onda de "assaltos populares" a supermercados (o que até já mereceu críticas de Mário Soares). Os estudantes indignam-se justamente com os prolongados apagões nas principais cidades, incluindo Caracas, devido à falta de investimento e manutenção na rede eléctrica por um Estado confrontado com o crescimento da economia paralela e um défice correspondente a 11,5% do PIB.

 

 

Bem-vindos ao "socialismo do século XXI", onde o Governo legisla por decreto, sem prestar contas ao Parlamento: encontramos aqui, aplicada ao vivo, a receita que já provou ser uma via directa para a ruína económica e social noutros quadrantes, condimentada com o tempero caribenho propício a estas paragens.

Caracas é hoje a capital mais violenta do planeta. No país de Maduro, uma pessoa é assassinada a cada 20 minutos. Há 68 homicídios por dia e a esmagadora maioria dos crimes permanece impune, como sucedeu com o recente assassínio de Monica Spear, Miss Venezuela 2004. A acção repressiva do Governo vira-se não contra as estruturas do crime organizado mas contra as reclamações da pericilitante classe média urbana que nas últimas três semanas tem acorrido às ruas em manifestações contra o sucessor de Chávez enfrentando as balas disparadas pela polícia anti-motins ou por membros das milícias pró-Maduro, inspiradas no modelo cubano. O balanço é trágico: 19 mortos e 318 feridos.

Todos os canais de televisão que davam voz ao líder da oposição, Enrique Capriles, deixaram de emitir por verem os alvarás revogados ou passaram a entoar loas ao Executivo bolivariano na sequência de alterações às respectivas estruturas accionistas. O sinal de acesso à internet é cortado com frequência pelo Governo, apostado em travar também as críticas nas redes sociais. Um Governo que mudou radicalmente o tecido económico do país, desencadeando mais de mil nacionalizações de empresas, tornando-as ineficazes. Correram mundo as imagens de pilhagens de televisores de plasma em lojas de artigos electrónicos, sob o olhar complacente da polícia, enquanto milhares de venezuelanos acorriam em vão a outros estabelecimentos em busca de papel higiénico.

 

 

Muitas das grandes empresas nacionalizadas estão hoje nas mãos de membros da oligarquia militar, que na prática conduz os destinos da Venezuela. São militares sete ministros de Maduro (incluindo o das Finanças e o do Interior), o presidente do Parlamento, Diosdado Cabello, 11 dos 23 governadores estaduais e muitos embaixadores (incluindo o representante diplomático da Venezuela em Lisboa, um general aposentado). Todos camaradas de armas do falecido Chávez, que lhes aumentou o soldo e os cumulou de benesses para refrear qualquer intuito golpista. O civil Maduro, ex-sindicalista e antigo condutor de autocarros, permanecerá no poder até ao dia em que os militares permitirem, sendo cada vez mais provável que não concluirá o seu mandato.

A partir desse dia ficará mais disponível para escutar os chilreados de um passarinho gentil que lhe assobiará aos ouvidos, com todos os seus recursos de ave canora, aquele estribilho tão familiar e tão mavioso: "Socialismo o muerte!"

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Aqui escrevem os comunistas puros e duros. Sem punhos de renda, como antes da queda do Muro de Berlim. Com linguagem típica de Guerra Fria. Querem derrubar nas ruas o Governo português, que recusam qualificar de democrático, aplicando a cartilha marxista-leninista sobre "violência revolucionária". Enquanto se enfurecem ao ver as ruas da Ucrânia e da Venezuela encherem-se de protestos do povo, a quem não hesitam em chamar fascista.

 

Sobre Portugal:

«Urge apressar o derrubamento deste governo de máscara democrática que é na prática uma ditadura do capital.»

Sobre a Ucrânia:

«Uma vaga de anticomunismo selvagem varre grande parte da Ucrânia. Na capital e nas cidades da Ucrânia Ocidental, organizações de extrema-direita praticam crimes abjetos, perante a passividade do exército e das polícias. Desde o III Reich nazi que não acontecia algo comparável na Europa. O fascismo exibe na Ucrânia, com arrogância desafiadora, a sua face hedionda.»

Sobre Portugal:

«Anima-me a convicção de que o povo português, ao reencontrar-se com a História, volte em breve a assumir-se como sujeito. O aumento torrencial das lutas sociais e da combatividade das massas reforça a esperança de que os trabalhadores, liderados pela CGTP, se mobilizem para enfrentar e afastar do poder os que hoje os oprimem, roubam e humilham.»

Sobre a Venezuela:

«Uma campanha de desinformação, que envolve os grandes media dos EUA e da União Europeia, transmite diariamente a imagem de uma Venezuela onde a violência se tornou endémica, manifestações pacíficas seriam reprimidas, a escassez de produtos essenciais aumenta, a inflação disparou e a crise económica se aprofunda. Ocultam a realidade. Quem promove a violência é a extrema-direita, quem incendiou lojas da Mision Mercal que vende ao povo mercadorias a preços reduzidos, quem saqueia supermercados é essa oposição neofascista que se apresenta como "democrática".»

Sobre Portugal:

«A demissão deste governo, que há muito já deveria ter ocorrido, torna-se cada dia mais urgente. Não é previsível que Cavaco Silva assuma – como não assumiu outros – o dever constitucional de o fazer. Está nas mãos e na luta do povo realizar essa tarefa essencial de saneamento político e democrático.»

Sobre a Ucrânia:

«Os desmandos e violências em curso dos grupos fascistas são inquietantes. Nas cidades que controlam destruíram estátuas de Lenine, ilegalizaram o Partido das Regiões (que apoiava o Presidente) e o Partido Comunista da Ucrânia e em alguns casos fecharam as suas sedes. É transparente que o fascismo ucraniano exibe o seu rosto hediondo.»

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Venezuela trágica

por Pedro Correia, em 21.02.14

 

Esta imagem está a correr mundo. A imagem de uma tragédia pessoal que simboliza a tragédia de um povo. E de um regime, o de Caracas, que apesar de ser o nono exportador mundial de petróleo continua a condenar os venezuelanos à pobreza endémica e aos maiores índices de criminalidade urbana do globo pela incompetente oligarquia "socialista" que pretende perpetuar o chavismo sem Hugo Chávez enquanto bens essenciais -- incluindo pão, leite, arroz, açúcar e até papel higiénico -- desaparecem durante semanas das prateleiras e a inflação galopa para níveis alucinantes.

Génesis Carmona tinha apenas 22 anos, frequentava o curso universitário de Gestão e em 2013 fora eleita Miss Turismo do estado de Carabobo, na Venezuela. Manifestava-se numa avenida da cidade de Valencia, junto à mãe e aos irmãos, contra o executivo de Nicolás Maduro quando foi alvejada com um tiro na cabeça. Outros oito manifestantes ficaram feridos, também a tiro.

Um amigo conduziu-a rapidamente numa motorizada a uma clínica da cidade, situada a 170 quilómetros da capital venezuelana. Mas nada havia a fazer: a jovem morreu horas mais tarde, sem recuperar a consciência. "Quantas tragédias como esta teremos de sofrer até que as coisas mudem?", diz um tio da estudante, citado pelo diário El Universal. Enquanto o escritor venezuelano Antonio López Ortega, em artigo hoje publicado no El País, condena sem reservas a "repressão da juventude venezuelana" levada à prática pelos herdeiros de Chávez.

Génesis foi assassinada por exercer um direito cívico. Assassinada por ter dito não a um regime que muitos dos seus compatriotas consideram iníquo. Assassinada por ter ousado reclamar contra o Governo num país onde a liberdade começa a ser um bem tão escasso como o pão.

 

Leitura complementar:

Estado de São Paulo - Morte de Miss em protesto contra Governo acentua divisão na Venezuela

Guardian - Venezuela sends troops to border region as violence escalates

El País - Aumenta la persecución política en Venezuela tras las protestas

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Um Pai Natal de bigode

por Rui Rocha, em 14.12.13

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O carisma na esquerda sul-americana

por João André, em 11.11.13

Estava no fim de semana a ver na Euronews a notícia sobre a tomada de uma cadeia de electrodomésticos pelo exército venezuelano quando me ocorreu um pensamento revolucionário: Maduro não durará no poder. Esta observação poderá ser discutível (e, por quem tenha vontade, discutida), mas baseia-se numa única palavra: carisma. Maduro não o tem, tanto como o seu mentor Chávez o possuía a rodos. Não quero com isto defender Chávez, apenas faço uma observação compreensível por um qualquer não-Sheldon Cooper: Chávez tinha aquele tipo de personalidade que faz com que as atrocidades que lhe saíam da boca sejam menos atrozes.

 

Esse pensamento levou-me a outra reflexão (assumo, não muito profunda) sobre Cuba, Fidel e Raúl Castro e aos pontos de contacto com a Venezuela. Os regimes autoritários e ditatoriais (especialmente) de esquerda latino-americanos dependem em larga medida de um culto da personalidade que tem que se apoiar numa pesonalidade carismática do líder supremo (nesta análise muito básica vejo a influência de Tito). Em Cuba existiu durante muito tempo a personalidade de Fidel para sustentr o regime. Saindo Fidel de cena entrou Raúl, que sabe não ter o carisma do irmão e, inteligentemente, decidiu entreabrir um poucochinho a porta para a liberdade (pelo menos comercial). Não muito, note-se que Fidel ainda está vivo e de tempos a tempos pode enviar uma arenga pelo Granma. Apenas e só o necessário para compensar o facto de ser o outro Castro (o nome vai ajudando). No dia em que sair de cena, e assumindo que o seu sucessor não terá o mesmo carisma dos Castro, ou o regime se abre ainda mais ou acabará por cair.

 

Na Venezuela Maduro ainda não o percebeu. Maduro pode querer imitar Chávez, mas sem o carisma deste acabará por perder o apoio popular que o sustenta (com ajuda do petróleo e da máquina do Estado). Ou Maduro muda de rumo (o que se me afigura improvável) ou acabará por cair em eleições ou por força de um golpe. O que me parece certo é que não se aguentará - e isso seria (possivelmente) bom para os venezuelanos.

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A revolução não será televisionada

por Rui Rocha, em 10.11.13

Em todo o caso, e pelo sim pelo não, os venezuelanos estão precavidos com equipamentos LCD:

 

 

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Fantasia de Natal

por Rui Rocha, em 08.11.13

Não, não. O palhaço foi com os reis magos ao circo:

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No Natal, castanhas e vinho

por Rui Rocha, em 05.11.13

Maduro decreta que o Natal na Venezuela é em Novembro.

 

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As frases mais famosas de Chávez, agora a partir do Céu, numa série de desenhos animados "oficiais" emitidos pela televisão venezuelana:

 

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Todo o bom socialista deve mamar

por Rui Rocha, em 16.06.13

La Asamblea Nacional de Venezuela contempla prohibir el uso de biberones a través de una reforma legislativa como una medida para estimular la lactancia materna, dijo una diputada del partido oficialista.

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A Venezuela enfrenta um problema de escassez severa de papel higiénico. Lida assim, sem o necessário enquadramento, a notícia cheira mal. Felizmente, o poder instalado em Caracas, com a legitimidade reforçada de ter sido democraticamente eleito nas urnas e de Nicolas Maduro ter sido declarado vencedor, ainda antes do acto eleitoral, pelo defunto Hugo Chávez que apareceu sob a forma de um passarinho para lhe anunciar a vitória, já apresentou uma explicação para a situação. Note-se, entretanto, que estas aparições de pássaros, passarinhos, cucos e outras aves de arribação são muito frequentes em países socialistas. Não há muito tempo, creio recordar, um grou voou três vezes em redor da estátua de Kim-Jong-il durante as cerimónias fúnebres do querido líder. E, ainda a propósito, será oportuno notar que a relação do comunismo/socialismo com o papel higiénico é, por assim dizer, algo enrolada, circunstância que também os cubanos têm tido oportunidade de constatar. De qualquer forma, o que importa é que o governo de Nicolas Maduro tem, como já referi,  uma explicação para esta situação incómoda.  Pelo visto, tudo está relacionado com o facto de os venezuelanos comerem agora muito mais, graças aos benefícios da revolução socialista. E como, em princípio, tudo o que entra sai, não é difícil perceber a origem do problema. Digo que temos neste caso, quando menos, fortes indícios de currelação entre as variáveis. É claro que a oposição venezuelana foi lesta a pôr em causa o argumento mas ocorre-me que isso se possa dever..., enfim, a guerras intestinas. Em todo o caso, a situação não deixa de ter a sua ironia. Marx identificou o problema capitalista do excesso de produção. É curioso notar que nos sistemas comunistas/socialistas esse problema também parece existir. O output é que é diferente. Para além disso, no caso do capitalismo, o excesso de produção provoca uma crise. No do comunismo/socialismo o que temos é um desarranjo.  Aqui chegados, creio que existem condições para identificarmos alguns traços comuns dos países comunistas/socialistas. Desde logo, temos sinais evidentes de recorrência de aparições de passarada. Depois, constata-se que o comunismo/socialismo acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar...hmmm... o tal output. E que essa circunstância afecta muito o stock de papel higiénico disponível. Por último, mesmo que tomemos por boa a garantia de Jerónimo de Sousa de que os comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço, é justo reconhecer que continuam a ser muito dados a histórias infantis e a argumentos de...hmmm... output.

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Bem pode limpar as mãos à parede

por Rui Rocha, em 18.05.13

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, anunciou que o país irá importar 50 milhões de rolos de papel higiénico.

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O pequeno-almoço do Figo saiu mais barato

por Rui Rocha, em 13.04.13

Maradona habria cobrado 2 millones de dólares para apoyar a Maduro.

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Hugo Chávez no conclave

por jpt, em 14.03.13


[Bonecos de Chávez são vendidos nesta terça-feira (12) nas ruas de Caracas (Foto: Ronaldo Schemidt/AFP)]

 

Para Nicolás Maduro, Presidente em exercício da Venezuela, o falecido Presidente Hugo Chávez terá tido alguma influência na eleição de um Papa argentino. “Nós sabemos que o nosso comandante subiu até às alturas, que está em frente de Cristo. Alguma coisa influenciou para que tenha sido escolhido um Papa sul-americano, alguma mão nova chegou a Cristo e lhe disse: chegou a hora da América do Sul. Assim nos parece”, disse Maduro em declarações transmitidas pela televisão oficial venezuelana. (nos jornais)

 

Em Portugal Boaventura Sousa Santos escreve um texto sobre Chavez de verdadeira ciência política, debruçando-se sobre a "química" chaveziana, base do seu poder, o socialismo de XXI. Culmina BSS com uma crítica aos políticos democratas (capitalistas) europeus, pois quando morrem não são chorados em sofrimento popular. Constate-se a mudança neste o teórico socialista: não só o sufrágio universal é insuficiente, as eleições não legitimam o poder, como também as "arruadas", antes tão convocadas, são insuficientes. Agora o critério de validade progressista, da legitimidade política, transitou para a dimensão dos rios de lágrimas apaixonadas (pre mortem e post mortem) que os políticos causam. O "condoímento" é o condimento desta teoria? 

 

Os bloguistas e leitores desta esquerda pós-iluminista (e defensora da teocracia iraniana - já agora, quantas lágrimas de pesar colherá Ahmadinejad?) "linkam" e "laicam". Os intelectuais apoiam. Os académicos apoiam. E, mais do que tudo, citam e referenciam. A imprensa remunera. O XXI português, o seu discurso político, resplandece. Deve ser da "química" do "carisma". 

 

Poderosa química, até alquímica. Pois, e como diz o lugar-tenente de Chavez, até Cristo, lá no sagrado Alto, lhe é sensível. Têm então os crentes, os praticantes e até os infiéis, um Papa Chaveziano.

 

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O herói

por José António Abreu, em 12.03.13

Tendo já decorrido uns dias sobre o acontecimento, permito-me correr o risco de chatear os fãs: no que respeita à imagem para a posteridade, a morte de Hugo Chávez foi o melhor que lhe podia ter ocorrido. Outros, ainda que menos demagogos e mais capazes, verão a bomba-relógio que constitui a economia da Venezuela rebentar-lhes nas mãos enquanto Chávez permanecerá o herói que governava contra os grandes interesses e a favor dos mais pobres.

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Havendo sido cego, agora vejo

por Pedro Correia, em 10.03.13

 

Esta fotografia da agência France-Presse é candidata desde já a uma das imagens do ano. Por nos mostrar um extremista islâmico, que sonha com a dura lei alcorânica vigorando no mundo inteiro, ao lado do caixão do presidente da Venezuela, tendo a poucos metros a imagem de Cristo na cruz, símbolo supremo de uma religião que Mahmud Ahmadinejad combate com tenaz proselitismo.

Ironia das ironias. Um assumido marxista, amigo e aliado de todos os comunistas que restam em postos dirigentes no planeta, conseguiu este quase-milagre durante as honras fúnebres que lhe foram prestadas como devoto da mensagem cristã: o fanático que negou o Holocausto, quis riscar Israel do mapa, considerou o 11 de Setembro uma "enorme mentira" e se gaba de não haver homossexuais no Irão prestou homenagem ao amigo Hugo Chávez na Academia Militar, em Caracas, numa cerimónia presidida pelo bispo de San Cristóbal, Mario Moronta, que leu trechos do Evangelho de São João. Segundo relata a imprensa, Ahmadinejad era o líder estrangeiro mais comovido, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara.

Se há fotos que são notícia, por falarem mais que mil discursos, esta é uma delas. "Havendo sido cego, agora vejo" - como se lê precisamente no Evangelho de João.

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Alguns apontamentos sobre Chávez

por Rui Rocha, em 06.03.13

Uma análise isenta sobre o percurso político de Chávez deve ter presente alguns aspectos essenciais. Desde logo, o ponto de partida. Os protagonistas que o precederam deixaram o país mergulhado na corrupção, a braços com uma profunda crise política, económica e social e com níveis de desigualdade absolutamente escandalosos, num processo que terminou no impeachment de Carlos Andrés Pérez. O sucesso da proposta chavista deve-se, para além das óbvias manobras e golpes de manipulação das regras democráticas, ao falhanço estrepitoso das forças políticas mais à direita. Não encontraram, antes de Chávez, propostas políticas credíveis e, depois, não souberam resgatar-se do passado nem foram capazes de apresentar alternativas de renovação. Muitos anos passaram até que esse espectro político encontrasse, com Capriles, um projecto percebido como sério pelos eleitores. Depois, o balanço não pode ficar pela apresentação, a seco, da evolução dos indicadores económicos e sociais do chavismo. É preciso, contextualizá-los, antes de mais, com a subida vertiginosa do preço de matérias-primas como o petróleo que beneficiaram muito a Venezuela. E é necessário, sobretudo, perceber que o sucesso em certos indicadores não justifica, em caso algum, práticas anti-democráticas de caudilhismo, manipulação da realidade e repressão da libedade de expressão. Caso contrário, teríamos de reconhecer que certas experiências totalitárias, que condenamos com justificadas razões, deveriam ser reabilitadas em função de algum sucesso económico que tivessem promovido. Por último, não se pode deixar em claro o aproveitamento grotesco que Chávez e os seus putativos sucessores fizeram da doença e da morte, utilizando-a como arma de arremesso político e de legitimação das suas aspirações. O sofrimento e a perda, independentemente da simpatia que temos ou não pela pessoa e pelo político, devem ser respeitados. Ponto é que essa contenção inclua também o próprio e os que lhe estão próximos. 

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Venezuela sem Chávez

por Pedro Correia, em 05.03.13

 

Líder carismático, populista, demagogo, irresponsável, herdeiro espiritual de Simón Bolívar, comandante, socialista, cristão, revolucionário, "Mussolini tropical", comunista.

Ou "ilusionista", como dele disse Gabriel García Márquez.

Puseram-lhe todos os rótulos, chamaram-lhe todos os nomes, bajularam-no de mil formas. Hugo Chávez, que se deu a conhecer ao mundo inicialmente como oficial golpista, vindo mais tarde a candidatar-se a umas presidenciais que venceu, alterou a Constituição de modo a fazer-se eleger sem limite de mandato.

Tinha uma insaciável sede de poder.

Fez mil juras de morte a Washington, sem deixar de ser um dos quatro maiores fornecedores internacionais de petróleo aos Estados Unidos, e prometeu levar a sua "revolução bolivariana" e o "socialismo do século XXI" aos quatro cantos da América Latina.

 

Mas o destino foi-lhe cruel: não chegou a tomar posse do terceiro mandato presidencial, conquistado nas urnas a 7 de Outubro, quando já se encontrava gravemente doente. Desde 11 de Dezembro, dia em que aterrou em Cuba para uma operação de emergência, nunca mais surgiu em público nem os venezuelanos voltaram a escutar-lhe a voz. Durante o ano passado, já havia passado 106 dias na ilha que os irmãos Castro governam desde 1959 e vários ministros acompanharam-no nestes 11 périplos a Havana, onde chegou a despachar e a assinar decretos.

Ocupava o Palácio de Miraflores desde 1999. E ocupava quase todo o palco mediático do país, com as suas intermináveis arengas aos venezuelanos, várias das quais transmitidas em todos os canais televisivos e radiofónicos por imposição legal: só no mês de Julho de 2012, foram 4260 minutos.

Nas presidenciais do ano passado, com a sua entourage obcecada em esconder dos eleitores o verdadeiro estado clínico do recandidato, recusou qualquer debate com o opositor, Henrique Capriles, trocando o argumento civilizado pelo insulto, habitual arma dos fracos.

Foi uma campanha inútil para uma eleição igualmente inútil. Uma desesperada jogada do chavismo para perpetuar uma liderança que prometia estender-se por mais 18 anos não chegou sequer a cumprir o acto de posse, primeira formalidade indispensável para exercer o cargo.

 

Os últimos meses processaram-se num macabro teatro de sombras em Caracas. Com encenações de todo o tipo, incluindo a exibição de uma sorridente fotografia do antigo tenente-coronel paraquedista rodeado das filhas no leito hospitalar enquanto se entoavam loas à "recuperação" do moribundo.

Chávez morreu há poucas horas - vítima de um cancro que lhe terá sido inoculado pelos "inimigos da revolução", como admite o vice-presidente e putativo sucessor do caudilho, Nicolás Maduro, prometendo uma minuciosa "análise científica" para confirmar tão patética tese.

 

O chavismo ambiciona continuar sem Hugo Chávez. Mas não será a mesma coisa. O carisma não se transmite por decreto.

Cai o pano sobre o teatro de sombras: Chávez, com as suas mil contradições, não governará até 2031 como um semideus idolatrado pelas massas, odiado visceralmente por numerosos inimigos políticos e tendo ao seu dispor um impressionante aparelho de propaganda, bem remunerado com as receitas do petróleo.

Era apenas humano, demasiado humano na evidência dos seus defeitos e virtudes. Como qualquer de nós, afinal.

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Na Venezuela não há cortes na despesa

por Rui Rocha, em 09.02.13

O governo local anunciou uma desvalorização do bolívar face ao dólar. Entretanto, se ler num jornal de referência (sei lá, o Expresso, por exemplo) que a desvalorização é de cerca de 32%, faça as suas próprias contas. Na verdade, se 4,3 bolívares valiam 1 dólar e 6,3 bolívares vão passar a valer o mesmo dólar a partir de 13 de Fevereiro, a conta correcta seria, não sei, digo eu: 2/4,3x100. Isto é, 46%. Mas também é verdade que, ao contrário de Nicolau Santos, não frequentei a BSSE (Batista da Silva School of Economics).

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A incontornável decadência da CIA

por Rui Rocha, em 08.01.12

Longe vão os tempos em que a CIA infligia pesados danos aos opositores do imperialismo americano. Não é que a rapaziada da agência não se empenhe nas diversas acções empreendidas. O problema é que estas são cada vez menos eficazes. O último exemplo é a desesperada tentativa de provocar cancro a diversos líderes incómodos do continente americano que Hugo Chávez, sempre o primeiro a desmascarar as piores intenções de Washington, intuiu há não muito tempo. O problema é que a coisa não correu nada bem. Ora vejamos. O cancro provocado a Dilma surgiu ainda antes de esta ser eleita. O cancro de Lula, por seu turno, foi diagnosticado já depois de este ter sido substituído por Dilma. Ou seja, o cancro de Dilma surgiu antes de tempo e o de Lula fora de prazo. Um falhanço. Agora, é Cristina Kirchner que, tendo sido vítima da cabala, acaba por declarar que afinal não tinha cancro. Um desastre para a CIA, claro. Espera aí, dirão alguns. Então e o cancro do Chávez não conta, não é essa uma evidência de que os serviços secretos americanos ainda conseguem atingir os seus objectivos em alguns casos? Digo que não. Vejamos. Chávez foi eleito em 1998. Isto é, está há 13 anos em exercício de funções. Não sei se percebem, mas num país democrático um líder dificilmente aguenta mais de 10 anos no poder. Até Sócrates, esse génio da governação, foi despachado para Paris ao fim de 6 anos. Quer isto dizer que, a terem corrido as coisas normalmente, Chávez já não estaria no poder há um bom par de anos. Ora, mais um atraso na activação das células cancerígenas não é resultado de que a CIA se possa orgulhar, pois não? Enfim, o essencial é que Chávez se mantenha atento. Quanto ao mais, haja saúde.

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Está lá? Muammar? Sou eu, o Hugo!

por João Carvalho, em 03.03.11

O olhar arguto não engana: Hugo Chávez apresentou ontem uma proposta de mediação de paz para a Líbia e continua em contacto telefónico com Muammar Kadhafi, no mesmo dia em que este usou a sua aviação militar contra os revoltosos na cidade de Brega.

Enquanto Kadhafi demonstra pela força o apreço que tem pelo "seu" povo, talvez fosse melhor Chávez não gastar os parcos neurónios em falinhas mansas com o tirano líbio e ir assistir ao desenrolar dos acontecimentos in loco para ver se apanha a ideia. Que tal mandá-lo abaixo de Brega?

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Os dois amigos da família Kadhafi

por Pedro Correia, em 27.02.11

                           

 

Uma família entra em guerra contra um povo inteiro. Não hesita em virar os fuzis contra cidadãos desarmados. Perde o apoio da sua própria rede diplomática. Vê a bandeira que arriou voltar a ser hasteada nos mastros. Recebe a censura generalizada da comunidade internacional - incluindo o voto unânime do Conselho de Segurança das Nações Unidas, arriscando-se a responder perante o Tribunal de Haia por violação grosseira do direito internacional.

A acção criminosa desta família que acumulou milhões ao longo de quatro décadas no poder tem a reprovação do mundo inteiro? Nem por isso. Hugo Chávez e Daniel Ortega estão solidários com ela. O que diz tudo sobre um e outro.

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Notícias do mundo

por Pedro Correia, em 21.12.10

Liberdade de expressão reforçada na Venezuela socialista.

 

Regime de Pequim cada vez mais aberto ao exterior.

 

Democracia consolida-se na Bielorrússia.

 

Prosperidade sem precedentes em Cuba.

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A jornalista incómoda

por Pedro Correia, em 01.10.10

 

Hugo Chávez em directo, ao vivo e a cores: uma jornalista que lhe faz uma pergunta incómoda numa conferência de imprensa é "ignorante" e "vive na lua". No caso, foi a jornalista Angelina Flores, correspondente em Caracas da Rádio França Internacional e da emissora RCN, da Colômbia. A pergunta foi esta: "Como se explica que com uma diferença de só 100 mil votos [em mais de 15 milhões], a oposição tenha obtido menos 37 deputados [33 após o apuramento dos resultados finais, 65 contra 98 num Parlamento de 165 deputados] do que o oficialismo [chavista]?" A jornalista ficou sem resposta após a longa arenga do Presidente, incapaz de explicar como as recentes alterações à lei eleitoral venezuelana fizeram aumentar a correspondência entre votos e mandatos apenas nas zonas do país onde Chávez recebe mais apoio.

O 'atrevimento' levou o Ministério da Informação venezuelano a emitir um comunicado em que pede aos correspondentes estrangeiros para "não actuarem como mais um elemento político". Angelina tornou-se entretanto uma atracção no youtube: o vídeo da conferência de imprensa já recebeu 700 mil visitas. Vale a pena.

 

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Há quem chame "socialismo" a isto

por Pedro Correia, em 31.08.10

A Venezuela é hoje mais perigosa do que o Iraque. Uma conclusão do New York Times. Vale a pena ler.

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"Saúde psíquica e moral"

por Pedro Correia, em 23.08.10

 

A Venezuela vai a caminho dos 20 mil homicídios anuais, 95% dos quais permanecem impunes. Caracas, 11 anos após a subida ao poder de Hugo Chávez, é hoje a capital com mais assassínios no planeta. Mas a "justiça" venezuelana - braço do poder político - está preocupada com jornais como El Nacional, que abordam este tema com o destaque que consideram apropriado. Leia-se esta participação do Ministério Público chavista contra o jornal: está lá tudo. A começar pela apregoada preocupação com a "saúde psíquica e moral" dos cidadãos, que tanto soa aos eufemismos salazaristas para impor a censura à imprensa. Chávez, incapaz de assegurar a segurança nas ruas, procura em alternativa conseguir a "tranquilidade" nos escaparates dos quiosques - declarando guerra não ao crime, mas ao jornalismo que não se verga aos seus ditames.

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A esquerda latino-americana comete um erro trágico ao deixar-se atrair por políticos caudilhistas, que fazem do populismo a sua imagem de marca e usam o nacionalismo exacerbado como estribilho seguro para se perpetuarem no poder. Este erro de proporções históricas começou com o apoio dado por amplos sectores de esquerda, nas décadas de 40 e 50, a figuras como Juan Domingo Perón (na Argentina) e Getúlio Vargas (no Brasil), por sinal oriundas da direita mais radical, e prolonga-se na actual onda de entusiasmo em torno do demagogo Hugo Chávez e de vários dos seus epígonos menores, como Evo Morales. Chávez, o mais desbragado populista do nosso tempo, faz lembrar o que H. L. Mencken dizia de Harry Truman: “Se a maioria da população fosse composta por canibais, ele prometeria missionários gratuitos, engordados à custa do contribuinte.” Isto já para não falar em Fidel Castro, que transformou Cuba num imenso beco sem saída. Alfabetizados, os cubanos que nada têm para ler, além do jornal do partido e as enjoativas prédicas do eterno "comandante”? “Os cubanos sabem ler e escrever, mas são praticamente analfabetos digitais. Apenas 2% da população tem acesso (censurado) à internet, contra 25% na Costa Rica”, como revelava recentemente a revista Veja.
A esquerda populista e radical, que congrega a retórica socialista com políticas assistencialistas dependentes de astronómicos fundos estatais, vocifera contra Washington, o que agrada também à extrema-direita. Mas esta retórica não ilude uma questão essencial: a destruição progressiva do frágil tecido empresarial e da massa crítica em países como a Bolívia e a Venezuela augura tempos muito difíceis para o subcontinente americano que fala português e espanhol. Chávez e Morales produziram profundas alterações constitucionais destinadas a centralizar ainda mais o poder destes “homens providenciais” em nome das “conquistas do socialismo”. Daqui à subalternização da democracia e do estrangulamento da sociedade civil vai um curto passo. Em Cuba passou-se o mesmo, com os resultados que se sabem: entre 1989 e 1998 o salário real médio dos cubanos caiu 44%. O número de famílias pobres na Venezuela aumentou 18% desde que Chávez assumiu o poder, há 11 anos.
Há uma lição fundamental que a História contemporânea nos ensina: a democracia política é indissociável do desenvolvimento económico. Mas a democracia ultrapassa o plano meramente instrumental, ligado à criação de riqueza: é um valor político essencial, não devendo ser desgraduada em nome do populismo. A esquerda chilena (com Michelle Bachelet) percebeu isto e segue o seu caminho autónomo, com inegável maturidade. A outra, tão festejada por certos comentadores cá do burgo, prossegue na via do abismo com o cardápio do costume: nacionalização dos principais sectores produtivos, “reforma agrária” destinada a colectivizar a miséria nos campos, asfixia das empresas privadas e criação de uma gigantesca classe de funcionários que parasita o erário público. Em África, cinco décadas de aplicação destas receitas geraram corrupção, fome, doença e penúria: não falta quem lhe chame o “continente perdido”. A América Latina não pode seguir o mesmo trilho. Para tanto, é fundamental que a esquerda saiba distinguir o trigo do joio, não caucinando novas receitas para o desastre.

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Tão inimigos que eles eram

por João Carvalho, em 31.05.10

Ontem, entre Caracas e Lisboa, José Sócrates fez um stop over na Madeira. Nada de especial. Apenas saudades. Alberto João Jardim só tem olhinhos para ele, que anda tão precisado de levantar o ego.

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Um é imbecil, o outro também

por Pedro Correia, em 18.03.10

Sean Penn, embevecido com Hugo Chávez, quer meter na prisão todos os jornalistas que ousarem chamar ditador ao manda-chuva de Caracas. Miguel Bosé justifica a ditadura cubana sob o argumento de que em todos os países do mundo existe repressão. Dizem-se ambos de esquerda.

Eis um perfeito par de imbecis.

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Gonçalvismo em Caracas

por Pedro Correia, em 08.02.10

 

Já "nacionalizou" actividades industriais, hipermercados, hotéis. Agora manda "expropriar" pequenas lojas no centro de Caracas. Ao vivo, em directo e a cores. Confirmando assim que, para ele, a propriedade privada vale zero e que as contas públicas devem ser administradas ao sabor dos caprichos momentâneos de um programa de televisão, com a irresponsabilidade de qualquer menino-bem a delapidar a fortuna do papá. É Hugo Chávez, claro - who else? Ele diz-se inspirado por Simón Bolívar. A mim parece-me, muito mais prosaicamente, um discípulo de Vasco Gonçalves.

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Venezuela: a lei do silêncio

por Pedro Correia, em 25.01.10

 

Imaginem, por momentos, que Aníbal Cavaco Silva, apoiado nos deputados do putativo 'bloco central' e com a suave aquiescência do primeiro-ministro, fazia aprovar na Assembleia da República uma lei destinada a impor aos canais de televisão, em sinal aberto e por cabo, as transmissões integrais dos discursos presidenciais sob pena de perderem o direito à existência. Imaginem, por momentos, que essa mesma lei - além de forçar a aparição de Cavaco na pantalha - determinava os conteúdos concretos desses canais, incluindo a interdição de mais de duas horas consecutivas de telenovelas, a proibição de mais de um intervalo para publicidade por programa e a difusão obrigatória do hino nacional duas vezes por dia.

Imaginem se uma coisa destas sucedesse em Portugal. Inacreditável, não? Mas o inacreditável por vezes acontece. O cenário acima descrito acaba de concretizar-se na Venezuela de Hugo Chávez: cinco canais televisivos - Radio Televisión Internanacional, Ritmo Son, Momentum, América TV, American Network e TV Chile - deixaram de transmitir, por decisão governamental. Como represália pela "violação da lei", segundo as autoridades de Caracas. Está consumado assim mais um passo no sentido da supressão da liberdade de expressão e da liberdade de informação na Venezuela.

Imaginem por momentos se uma coisa destas tivesse sucedido em Portugal.

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Caracas: muito crime e pouca luz

por Pedro Correia, em 04.12.09

Caracas, a capital do "socialismo do século XXI" que Hugo Chávez pretende exportar para todo o planeta, sob o cognome de 'V Internacional', ostenta o duvidoso título de segunda cidade mais perigosa do mundo, com uma taxa de 96 homicídios por cada cem mil habitantes - cinco vezes mais do que em São Paulo, no Brasil. Pior só mesmo a tenebrosa Ciudad Juárez, no México, que tem sido palco de sangrentas guerras entre bandos de narcotraficantes com a ambição de monopolizar o tráfico de cocaína para os Estados Unidos. O coronel que não consegue pacificar Caracas faz apelos públicos à guerra contra a vizinha Colômbia, institui "milícias populares" segundo o modelo cubano e impõe um nova Lei de Incorporação Militar que estabelece o dever de cumprir 12 meses de serviço militar a todos os cidadãos do seu país entre os 18 e os 60 anos. Um estado militarizado, armado até aos dentes nas zonas fronteiriças que não consegue impor patamares mínimos de segurança dentro das suas próprias fronteiras. Um estado que não consegue abastecer devidamente os seus cidadãos de bens essenciais, como luz e água, apesar de ser o sexto maior produtor mundial de petróleo.

Indiferente à crise social, indiferente à crise económica, Chávez sonha ser um novo Simón Bolívar. Com uma considerável diferença de escala: enquanto Bolívar libertou a América espanhola no início do século XIX, ele quer "libertar" o mundo neste início do século XXI, mobilizando a "esquerda verdadeira" contra o "capitalismo" e o "imperalismo", que lhe compram o petróleo. Segundo as previsões, 2009 deverá chegar ao fim com um número superior a três mil homicídios na capital venezuelana - só num fim de semana de Outubro registaram-se ali 65 mortes violentas.

"Andar pela bela cidade de Caracas dá medo", escreveu Pablo López Guelli, em reportagem publicada no portal de notícias da Globo. Um retrato fidedigno do "socialismo do século XXI", prestes a alastrar aos cinco continentes sob os alvores da V Internacional. A História repete-se, como ensinava Marx: primeiro como tragédia, depois como farsa. Com Chávez, chegámos à fase da farsa em todo o seu universal esplendor.

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Ahmadinejad e o amigo de Caracas

por Pedro Correia, em 18.06.09

 

 A gigantesca fraude eleitoral no Irão, seguida da brutal repressão contra os opositores do regime que já provocou oito mortos, estão a chocar o mundo. Todos deploram a prepotência da ditadura teocrática que tem vindo a expulsar os repórteres estrangeiros e proibiu até a captação de imagens na rua por telemóveis. Todos? Todos não. De Caracas chegou entretanto um comunicado de felicitações de Hugo Chávez, que se afirma feliz pela "grande vitória" do presidente fantoche Ahmadinejad enquanto dispara as habituais críticas contra os "porta-vozes do imperalismo".

Há certas atitudes que dispensam qualificativos: são suficientemente expressivas para falar por si. É o caso desta mensagem de solidaridariedade manifestada por Chávez aos déspotas de Teerão, que se arrisca a ter o efeito contrário do pretendido. Vinda de quem vem, constitui afinal um incentivo suplementar à mobilização cívica de largos milhares de iranianos que arriscam a própria vida na rua em defesa da liberdade.

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