Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um herói caído em desgraça

por Diogo Noivo, em 15.08.17

Alberto Casillas.jpg

 

Em Espanha, Alberto Casillas foi um herói para os manifestantes anti-tudo. No dia 25 de Setembro de 2012, jovens "indignados", pertencentes a movimentos anti-sistema, anti-globalização e a uma lista infindável de associações ditas cívicas, promoveram a iniciativa Rodea el Congreso ("Cerca o Parlamento", um mote que, como é bom de ver, jorra civismo por todo o lado). Houve excessos por parte dos manifestantes e a polícia espanhola não é famosa por ser meiga. Aqueles que não foram detidos procuraram refúgio. Os que entraram no bar El Prado, em Madrid, tiveram a protecção de Alberto Casillas Asenjo, um empregado de mesa que se meteu entre os manifestantes e o corpo de intervenção. Alberto disse à polícia não querer violar a lei, mas foi irredutível na defesa dos manifestantes que se encontravam dentro do bar, afirmando que não autorizaria um "massacre". As imagens do acto de bravura de Alberto tornaram-se virais. Os colectivos anti-tudo saudaram o herói e desdobraram-se em agradecimentos laudatórios nas redes sociais.

 

Passaram uns anos e Alberto Casillas voltou às notícias: em 2014, interrompeu um acto público, em Madrid, onde Pablo Iglesias, caudillo do Podemos, era o convidado principal. Iglesias, que assessorou o regime chavista e que dele conseguiu financiamento para criar o Podemos, entretinha-se a criticar a "casta", os políticos "de siempre". Alberto levantou a voz e perguntou ao líder do Podemos se não tinha vergonha de ter assessorado o regime venezuelano. "Mi esposa no puede comprar papel ni comida", disse Alberto, que tem a mulher e a filha a viverem na Venezuela. Alberto foi expulso da conferência. Ao regressar ao trabalho no bar El Prado, Alberto encontrou ameaças e insultos e, uns tempos depois, o desemprego.

Este ano, num outro acto público onde representantes do partido Izquierda Unida se deleitavam a branquear a manipulação eleitoral e o autoritarismo do regime de Nicolás Maduro, Alberto volta à carga para dizer que o rei vai nu. "Están matando a jóvenes!", gritou, incomodando a fina flor da extrema-esquerda espanhola. Acabou na rua.

 

A avaliar pelo que fez no passado e pelo que fez agora, Alberto deve ser um tipo decente. Parece ter o coração no sítio certo. No entanto, acabou proscrito por aqueles que o elevaram ao Olimpo. O crime de Alberto foi o de não entender que para a extrema-esquerda a violência policial num Estado de Direito é hedionda, mas quando perpetrada por um regime autoritário afim é uma defesa legítima da soberania nacional. Agora não o aplaudem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os pios dos ogres

por João André, em 14.08.17

Nos tempos de Chávez a Venezuela entrou num período de experiências de esquerda que foram resvalando em aceleração sempre constante para o autoritarismo. Chávez ia conseguindo manter uma semelhança de democracia à custa do seu carisma que lhe davam apoio de boa parte da população e o mantinham no poder, mesmo perante o desastre para onde ia fazendo o país avançar. Com Maduro a opção da "revolução bolivariana" passou a ser o despotismo directo que só por sorte (eu sei, eu sei...) ainda não deu em guerra civil.

 

Perante o que vamos vendo a Venezuela vai ficando cada vez mais isolada e provavelmente só Cuba ainda ia dando apoio ao regime (sinceramente não sigo o suficiente a situação). Era uma questão de tempo até Maduro cair de podre por pressão externa e interna (pelo menos asism o esperava). Depois veio Trump dizer que não excluía a opção militar para intervir na Venezuela.

 

Ainda não termos visto muitas reacções às declarações é simbólico de como os outros países da região vêem a actual situação venezuelana e da enorme falta de credibilidade que Trump conseguiu "construir" em 6 meses. No entanto, se voltar à carga, Trump poderá conseguir unir de tal forma a região em torno de Maduro que este julgará que Chávez lhe apareceu outra vez na forma de um passarinho a piar tweet tweet. Nem é de excluir que, se Maduro começar a executar pessoas e disser que são traficantes, Trump acabe por dar uma volta de 180 graus e arranje um novo best friend forever.

 

E, de permeio, os venezuelanos vão sofrendo de ogre a ogre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A fantochada da Venezuela.

por Luís Menezes Leitão, em 13.08.17

Acho que não houve ninguém que tenha descrito melhor o golpismo numa república sul-americana do que Hergé, com a sua inesquecível figura do General Tapioca. Mas a Venezuela chegou a um estado tal, com aquela assembleia constituinte, que já nem Hergé a conseguiria descrever num dos seus álbuns. Na verdade a tal "assembleia constituinte" deveria elaborar uma nova constituição, mas faz tudo menos isso, estando antes preocupada em legitimar a todo o custo a ditadura de Maduro. É assim que primeiro destitui a procuradora-geral do país e agora pretende alterar o calendário eleitoral das eleições regionais, antecipando-o em relação a uma data já marcada e com a qual os partidos já contavam. Mas o curioso é que o faz por unanimidade (!). Ou seja, naqueles 545 pseudo-deputados dessa pseudo-assembleia constituinte não se encontra uma única alminha que discorde das propostas que lá são apresentadas. Chamar-lhe assembleia de fantoches seria mais adequado. E, sinceramente, quando é que esta fantochada na Venezuela irá terminar?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A esquerda submissa e ajoelhada

por Pedro Correia, em 11.08.17

 

corbyn-melenchon[1].png

  

O bolivarismo - versão caribenha do socialismo real - andou todos estes anos a contaminar a esquerda clássica europeia, que persiste em nada extrair das lições da história. Jean-Luc Mélenchon, o líder da chamada "França Insumissa", chegou a proclamar que Nicolás Maduro lhe servia de "fonte de inspiração" - a tal ponto que, se desembarcasse no Palácio do Eliseu, prometia transformar Paris numa das capitais da exótica Aliança Bolivariana Pelos Povos das Nossas Américas, de braço dado com o ditador de Caracas. Na Venezuela, o candidato derrotado por Emmanuel Macron nas presidenciais francesas alinha com aqueles que esmagam os insubmissos, incapaz de condenar a repressão.

Do outro lado da Mancha, o mesmo tom. Jeremy Corbyn, o Mélenchon inglês, recusa condenar o regime tirânico do sucessor de Hugo Chávez, que só nos últimos quatro meses já provocou 127 vítimas mortais em protestos de rua contra o endurecimento da ditadura e levou a Comissão de Direitos Humanos da ONU a insurgir-se contra o  "uso generalizado e sistemático da violência e as detenções arbitrárias" de opositores na Venezuela.

Louve-se ao menos a coerência do líder trabalhista, derrotado por Theresa May nas recentes legislativas britânicas: nem mesmo desafiado por deputados e membros do Governo-sombra do seu próprio partido, renega a fidelidade ao regime de Caracas. Em 2013, Corbyn proclamou Chávez como "inspiração para todos quantos combatem o neoliberalismo e a austeridade". No ano seguinte, foi exibido na televisão pública venezuelana por um sorridente Maduro, que o apresentou como seu "amigo".

Submissa afinal, a "verdadeira esquerda". Herdeira directa das esquerdas que durante décadas entoaram hossanas a Estaline, Mao, Brejnev, Honecker, Enver Hoxha e Pol Pot - a esquerda que demoniza as vítimas e glorifica os carrascos, ajoelhando em perpétuo tributo aos piores déspotas que o mundo já conheceu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A democracia venezuelana

por Diogo Noivo, em 09.08.17

O Egipto de Hosni Mubarak era uma democracia. Bom, não era, mas se aplicarmos ao regime de Mubarak a bitola usada por alguns para analisar a Venezuela de Hugo Chávez, então o ditador egípcio era na verdade o chefe de um Executivo ampla e plenamente democrático. Os órfãos do chavismo que preservam alguma sanidade mental e uma dose mínima de vergonha - excluo, portanto, Boaventura Sousa Santos e o PCP - mostram-se incomodados com as cenas que nos chegam da Venezuela e, acto contínuo, dizem-nos que antes é que era bom, que antes não se manipulavam eleições, enfim, que Hugo Chávez era um democrata. Ora, se Chávez era um democrata, então Mubarak também o era.


No Egipto de Mubarak as eleições eram livres na medida em que raramente havia manipulação dos votos expressos em urna. De resto, alguns actos eleitorais foram monitorizados e validados por organizações internacionais independentes. O problema da liberdade eleitoral egípcia estava a montante, isto é, nos partidos e indivíduos a quem era permitido concorrer. O crivo eleitoral imposto pelo regime era de tal forma apertado (e viciado) que às eleições apenas se apresentavam o partido no poder e chamada "oposição leal". No Egipto de Mubarak as eleições eram livres porque a manipulação (opressão, na verdade) acontecia antes de os eleitores se deslocarem às urnas. Na Venezuela de Chávez a lógica era em tudo semelhante: os juízes dissidentes eram detidos, os empresários que destoavam do regime eram expropriados, os dirigentes sindicais que ousavam levantar a voz eram investigados, os órgãos de comunicação social livres eram encerrados, os recursos do Estado eram colocados ao serviço dos interesses políticos do líder e, como se isto não bastasse, fez-se uma Constituição favorável ao poder incumbente. Quando este é o terreno de jogo não há grande necessidade de manipular eleições. Por estes dois lustrosos exemplos de autoritarismo se vê que quando falamos em democracia não nos limitamos à exigência de actos eleitorais livres em stricto sensu.
 
Na Venezuela actual a manipulação é evidente, como é evidente o grotesco atentado às liberdades políticas dos cidadãos. Não há dúvidas - pelo menos, para os democratas - quanto ao carácter autoritário do regime de Maduro, criatura que as ruas de Caracas apelidam adequadamente de Maburro. No entanto, o agravar da crise política e humanitária em curso está a abrir espaço para a reabilitação de Hugo Chávez, um revisionismo que dificilmente teria sustentação se não fosse pela falta de memória colectiva. Hoje, como no passado chavista, a democracia venezuelana é uma aldeia Potemkin.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Há sempre alguém que diz não

por Pedro Correia, em 08.08.17

156711[1].jpg

 

1

Nicolás Maduro, confrontado com sondagens  cada vez mais negativas e um parlamento dominado pelas forças da oposição, lembrou-se de rasgar a Constituição mandada elaborar pelo seu antecessor, Hugo Chávez, e que vigorava apenas há 18 anos. Convocou por decreto uma Assembleia Constituinte sem prazo de vigência para esvaziar de funções a Assembleia Nacional e silenciar o que restava das vozes discordantes nos órgãos políticos de Caracas.

Foi uma autêntica farsa eleitoral, ocorrida num cenário sangrento, com dez mortos confirmados só nesse fim de semana e a capital venezuelana transformada numa cidade sob custódia militar. Sem debates, sem verdadeira campanha, com o recolher obrigatório imposto nas ruas por millhares de polícias armados até aos dentes, milícias paramilitares e até membros das forças armadas contendo o menor sinal de protesto. Com os círculos eleitorais desenhados de forma a que as regiões do interior, mais facilmente domáveis, faziam eleger quase tantos representantes como as grandes metrópoles, onde se concentra a maioria da população e o essencial da oposição. E um terço dos 545 lugares reservados à "constituinte" ocupados desde logo por putativos representantes de segmentos económicos e sociais, todos pró-governo, ao jeito da defunta Câmara Corporativa salazarista.

 

2

Nesse dia ocorreu a mais grosseira fraude eleitoral de que há memória este século em toda a América Latina. A tal ponto que a própria empresa internacional responsável pelo sistema eleitoral venezuelano denunciou publicamente a manipulação de pelo menos um milhão de votos, anunciados pelo regime mas afinal nunca entrados nas urnas. E a própria procuradora-geral da República, designada para esse cargo durante a vigência do mandato de Chávez, em 2007, anunciou a abertura de um rigoroso inquérito para apurar a extensão da fraude, recusando validar os resultados.

Pagou por isso: chamaram-lhe "traidora" e, apesar de o seu mandato só terminar por lei em 2021, tornou-se de imediato um alvo a abater. Desde logo, viu o inquérito às eleições invalidado pelo Supremo Tribunal, que nunca proferiu qualquer acórdão desfavorável a Maduro e é integralmente composto por um séquito de fiéis ao sucessor de Chávez, alguns dos quais nunca foram magistrados. Começando pelo presidente Maikel Moreno, ex-quadro da polícia política (a Sebin, equivalente à tenebrosa Stasi da antiga Alemanha comunista) que esteve dois anos preso pelo assassínio de uma mulher. Facto nada irrelevante, mesmo num país onde em 2016 se registaram 28.479 homicídios, 98% mantidos impunes.

A investigação à fraude, obviamente, nunca se fará.

 

3

Os crimes violentos em Caracas, a segunda cidade mais perigosa do planeta, tornaram-se parte integrante da paisagem urbana - agravando um quotidiano afectado pela persistente falta de víveres e de medicamentos. São como "uma epidemia fora de controlo", como a descreve uma jornalista do El País. Mas Maduro e a clique militar que o sustenta no poder parecem exclusivamente preocupados em dar combate a quem lhes faça frente.

Não admira, por isso, que mal foi anunciada a contabilidade oficial de votos a Sebin tenha detido dois dos principais resistentes à fúria repressora do regime: Leopoldo LópezAntonio Ledezma foi retirados à força de suas casas pouco após a meia-noite, contrariando as leis vigentes no país, e conduzidos ao sinistro presídio militar de Ramo Verde, onde se concentra a maioria dos cerca de 600 presos políticos do país.

Luisa Ortega, a corajosa procuradora-geral, foi  destituída pela amestrada Constituinte logo no primeiro dia dos trabalhos, "por unanimidade e aclamação", ao estilo da velha União Soviética. Sem inquirição prévia, sem processo, sem o exercício de qualquer contraditório. Acusam-na, absurdamente, de "cumplicidade com a insurreição armada" num país onde todas as armas estão em poder do aparelho repressivo do Estado ou das máfias do crime.

Autarcas eleitos por voto directo são hoje perseguidos pelo obediente Supremo apenas pelo facto de pertencerem a partidos da oposição. Como Ramón Muchacho, alcaide de Chacao, recém-condenado a 15 meses de prisão e destituição de funções públicas. Que "crime" cometeu? "Não acatou a proibição de encerrar ruas durante manifestações contra o Governo." É o quarto autarca opositor condenado nas últimas semanas, após Gustavo Marcano (de Lechería), Alfredo Ramos (de Iribarren), Carlos García (de Mérida) e José Barreras (de Cabudare).

Um cenário kafkiano que teve como única vantagem retirar os últimos vestígios de postiço verniz democrático a Maduro, agora convertido sem rodeios em ditador. Ameaça retirar a imunidade parlamentar aos deputados da oposição na Assembleia Nacional, agora esvaziada de poderes. Profere contínuas ameaças ao que resta da comunicação social independente. Manda encercerar juízes que ousaram desafiá-lo.

 

4

Já ninguém se preocupa sequer em ocultar o quadro de nepotismo, bem evidente no facto de a mulher de Maduro, Cilia Flores, o filho do casal - Nicolasito Maduro, de apenas 27 anos - e o ajudante de campo do Presidente figurarem entre os 545 constituintes. É um regime que se fecha em círculos cada vez mais concêntricos, incapaz de conviver com opiniões adversas.

Ser jornalista na Venezuela é arriscar a vida. Dois dias após a consumação da farsa eleitoral, um jornalista do diário independente El Nuevo País, José Daniel Hernández Sequera, foi encontrado morto. Outro jovem jornalista, Miguel Castillo, foi assassinado em Maio enquanto cobria uma acção de protesto, enquanto os directores do El Nuevo País  e da revista Zeta eram detidos sem culpa formada. "Maduro faz tudo para silenciar as vozes independentes nos media", denuncia a organização internacional Repórteres Sem Fronteiras.

Ser jovem na Venezuela é perigoso quando se protesta contra o regime. A Procuradoria-Geral da República definiu o perfil médio dos 109 mortos em manifestações entre 1 de Abril e 27 de Julho: estudantes do sexo masculino com 27 anos. A mesma idade de Nicolasito, já em pleno tirocínio para um dia suceder ao pai.

 

5

Ser venezuelano no país de Maduro é estar condenado à emigração por motivos políticos e sociais. A rede de organizações católicas da América Latina e Caraíbas para as Migrações e Refugiados acaba de denunciar um êxodo “sem precedentes” da população venezuelana para países vizinhos.

Ser cidadão de corpo inteiro na Venezuela, nos dias que correm, requer desassombro moral e coragem física. Segundo a ONU, o regime pratica a tortura e recorre ao "uso generalizado e sistemático de força excessiva" para dobrar quem protesta.

E no entanto na Venezuela de hoje, tal como no Portugal salazarista e em tantos outros países que estiveram e estão ainda submetidos a ditaduras, há felizmente sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 07.08.17

«A tentação totalitária existe. Desmonta-se com facilidade o mito de que certas eleições não são, na realidade, hologramas. A propagandeada por Nicolás Maduro na Venezuela (aplaudida em Portugal por quem parece preferir um regime onde a paz e o pão são hoje miragens) é uma das grandes mentiras contadas aos crédulos e aos idiotas úteis. Quando Maduro perdeu as eleições legislativas de forma clara, começou a congeminar uma solução milagrosa para se manter no poder. Sem a bênção dos preços altos do petróleo para abençoar a sua deriva totalitária, Maduro tirou uma carta marcada da manga: criou a farsa de uma Assembleia Constituinte para tirar legitimidade ao Parlamento eleito. Nesse aspecto, Trump é um perfeito aliado para Maduro, porque assim tenta aparecer como uma ovelha prestes a ser abatida por um carniceiro sem escrúpulos. Se Portugal tem de ser sensato na relação com a Venezuela, não pode fingir que não se passa nada.»

Fernando Sobral, no Jornal de Negócios

Autoria e outros dados (tags, etc)

Chove em Caracas

por Pedro Correia, em 07.08.17

file_20121109104835[1].jpg

 

«O Conselho Nacional Eleitoral [CNE, venezuelano] anunciou domingo [30 de Julho] que o madurismo conseguira 8.089.320 votos, apesar das estimativas da oposição (2,5 milhões de votantes) e da Procuradoria-Geral da República, que duvida de que tenham votado mais de três milhões de pessoas. A agência Reuters assegurou, citando fontes internas do CNE, que hora e meia antes do encerramento oficial das urnas só tinham votado 3,7 milhões de venezuelanos, um valor que coincide com a sondagem à boca das urnas realizada pela empresa Torino Capital.»

Flag_of_Venezuela[1].jpg

 «Vinte técnicos da Smartmatic abandonaram o país em 48 horas, receando passar a engrossar a lista de 620 presos políticos confinados às masmorras de Maduro. As mesmas semanas onde regressaram, esta semana, o líder opositor Leopoldo López e o alcaide metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma. As suas detenções, de madrugada e com violência no segundo caso, confirmaram que o regime não recua nem um milímetro na estratégia de radicalizar a revolução.»

maduro2[1].jpg

«Luis Emilio Rondón, o único membro não-chavista do CNE, denunciou, tal como técnicos eleitorais, a falta de controlo e a ausência de tinta indelével para marcar o dedo dos votantes, bem como a autorização dada à última hora para se votar em qualquer mesa de voto do município. Era impossível, desta forma, evitar o voto múltiplo. O sistema permite que uma pessoa vote cinco vezes antes de a bloquear. Só a presença de testemunhas da oposição o teria impedido.»

Flag_of_Venezuela[1].jpg

«As eleições para a Constituinte passam a encabeçar a lista de escândalos eleitorais na América Latina. "Confirma-se a maior fraude eleitoral da história da América Latina, em percentagem e em milhões de votantes", atacou Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos. (...) Seria necessária  uma auditoria para determinar a participação verdadeira. A mesma auditoria que o regime já rejeitou.»

rtx24qbf[1].jpg

«O drama venezuelano ganha contornos trágicos, devido ao banho de sangue que custou a vida a 16 pessoas durante o fim de semana. Desde o início dos protestos, houve 121 vítimas mortais e 2000 feridos. Os detidos já ultrapassam a barreira dos 5000, boa parte julgados em tribunais militares sem quaisquer garantias.» 

Flag_of_Venezuela[1].jpg

«Na Venezuela a crise política decorre em paralelo com o vertiginoso descalabro económico. Os economistas asseguram que a inflação está prestes a superar a barreira dos quatro dígitos para se converter em hiperinflação, depois de o Fundo Monetário Internacional ter alertado que o PIB cairá 12% este ano. A escassez e a escalada dos preços pulverizaram a algibeira dos venezuelanos e lançaram centenas de milhares num êxodo forçado, incluindo os portugueses.»

maduro2[1].jpg

«O assunto do dia em Caracas, para lá da manipulação das eleições, é outra escalada: o dólar no mercado negro disparou para a estratosfera económica. Há um ano, uma nota verde americana valia mil bolívares no mercado paralelo. Na semana passada caiu a barreira histórica dos 10 mil bolívares por um dólar. Ontem a cotação em Caracas era de 17.900 bolívares.»

Flag_of_Venezuela[1].jpg

«Entre os 545 delegados constituintes inclui-se a mulher de Maduro, Cilia Flores. Com ela estão os nomes de quase sempre: o radical Diosdado Cabello; os ex-ministros Delcy Rodríguez, Iris Varela, Aristóbulo Istúriz, Adán Chávez, Carmen Meléndez e Ricardo Molina, entre muitos outros. Na Constituinte estarão também duas promesssas de grande "brilho": o filho do Presidente, Nicolás Maduro Guerra, e o seu ajudante de campo, o tenente Juan Escalona. Como de costume na revolução, fica quase tudo em casa.»

 

Trechos dos artigos de Daniel Lozano - correspondente na Venezuela - publicados este sábado no Expresso. Sublinhados meus.

 

images[9].jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

Interferências

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.08.17

"We have noted that the National Constituent Assembly election in Venezuela was held smoothly on the whole"

 

Não me digam que uma frase destas, proferida pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, não é uma interferência da R.P.C. nos assuntos internos da Venezuela.

Traduzindo isto por miúdos, a China considera que eleições que decorreram num clima de intimidação da oposição, com manipulação da comunicação social e dos votos e com violência nas ruas contra os opositores do regime chavista, constituem um processo que decorreu com normalidade.

E se assim é, então também deve considerar como normal que uma manifestação tão descarada de apoio a Maduro e ao governo venezuelano não seja vista como uma interferência nos assuntos internos da Venezuela.

Tomo boa nota do que se disse porque se amanhã outros países se pronunciarem sobre as eleições que se venham a realizar em Hong Kong ou Macau, por exemplo, dizendo, imagine-se, que os processos em geral correram mal, que houve intimidação às candidaturas não alinhadas com Beijing, que houve censura e controlo da informação, que as autoridades locais confundiram o direito à informação, o exercício da liberdade de imprensa e o direito de expressar livremente uma opinião sobre as candidaturas com mera propaganda política, para além de ameaças várias à mistura, manifestando-se preocupação pela forma como os processos venham a decorrer, isso também não será considerado como uma interferência nos assuntos internos chineses, certo?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Farsantes

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.08.17

US-sanctions-Venezuelas-Maduro-over-weekend-electi

O chavismo vai de vento em popa. Após a morte de Hugo Chávez, o seu sucessor, com mais ou menos malabarismos e golpadas várias, tratou de se manter no poder, mais a sua clique de biltres, arruinando o pouco que ainda funcionava na Venezuela, espalhando a miséria e a morte e instaurando o caos.

Maduro bem pode vociferar contra o imperalismo e o capitalismo, e contar com o apoio dos Jerónimos que por esse mundo fora aplaudem o caos, a violência revolucionária e a "democracia" bolivariana, enquanto aquele vai prendendo os dirigentes da oposição com modos próprios dos jagunços da PIDE ou da angolana DISA e a horas em que a polícia portuguesa não pode entrar em casa dos arguidos.

Nada disso me faz confusão, habituado como estou a ver emigrantes de países pobres a labutarem em países socialistas durante doze, catorze e mais horas por dia, todos os dias da semana, incluindo nos dias de descanso, sem direito ao pagamento de horas extraordinárias e não havendo sindicatos que lhes valham, e sem que com isso os camaradas do PCP se cheguem à frente para protestarem contra as violações dos direitos humanos ou em defesa desses desgraçados.

O que me faz confusão, isso sim, é que um revolucionário bolivariano, pretensamente ao serviço do povo do seu país, fique zangado com o facto dos Estados Unidos da América, o Grande Satã, como lhes chamava o Ayatollah Komeini, precise de ter parte dos seus bens na meca do capitalismo e da sociedade do consumo.

Em vez de encenar e berrar como um chanfrado contra o outro pobre de espírito que determinou o congelamento dos seus bens, Maduro devia ter começado por esclarecer o povo venezuelano, ele e os outros bolivarianos, como Nestor Luis Reverol Torres, ministro do Interior, da Justiça e da Paz, Carlos Alfredo Perez Ampueda, director nacional da polícia bolivariana, Sérgio José Rivero Marcano, comandante geral da Guarda Nacional Bolivariana, e Jesús Rafael Suárez Chourio, comandante-geral do exército, se têm bens imóveis ou móveis naquele país, se têm contas bancárias pessoais em US dólares e, neste caso, para que as querem, visto que os bens que foram objecto de congelamento foram os seus bens pessoais, não os bens do país.

Isso é que eu gostaria de lhes ter ouvido. Porque se não têm bens nos EUA não se deviam importar com o congelamento, por um lado, mas também porque essa seria a primeira coisa que eu faria se fosse um revolucionário bolivariano sério e honesto. E fá-lo-ia com toda a frontalidade e transparência para que o povo da Venezuela não fosse pensar que eu, revolucionário exemplar, servidor da revolução, andava a safar-me com o dinheiro do petróleo, como se fosse um vulgar Noriega, um Pinochet, um desses generais comissionistas angolanos ou um bandoleiro do narcotráfico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Simples

por Rui Rocha, em 02.08.17

A vantagem de acontecimentos como os da Venezuela é tornar as escolhas muito simples. Ou estás do lado da decência, ou estás do lado dos filhos da puta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A morte saiu à rua

por Pedro Correia, em 01.08.17

 

Balanço trágico dos últimos quatro meses na Venezuela, sujeita à fúria homicida da Guarda Nacional Bolivariana e das milícias armadas pelo regime: 121 mortos, 1958 feridos (dez só na  farsa eleitoral de anteontem) e mais de cinco mil opositores encarcerados.

Apesar destes quatro meses de grosseiras violações dos direitos humanos, como estas dramáticas imagens do assassínio do estudante David Vallenilla documentam, o PCP volta a colocar-se ao lado das forças repressoras. Desta vez num comunicado oficial do partido, depois de o jornal Avante! ter publicado um panegírico ao ditador de Caracas que poderia ter sido produzido por qualquer serventuário do próprio Nicolás Maduro.

Esta é a natureza de classe dos comunistas: enalterecem todas as tiranias que tenham como chancela a foice e o martelo e obedeçam ao jugo dos chamados "partidos irmãos". Da despótica China, onde vigora o capitalismo mais impiedoso e brutal, à ilha de Cuba, submetida há seis décadas ao punho de ferro da família Castro, passando pelo demencial totalitarismo norte-coreano, assente num imenso arsenal de guerra.

Uma vez mais, o PCP coloca-se ao lado da rica e poderosa oligarquia venezuelana, corrompida pelas redes do narcotráfico, ignorando a dor concreta dos cidadãos comuns, condenados a viver num país onde faltam os bens mais essenciais apesar de possuir as maiores reservas petrolíferas do planeta. Nenhum partido se atreve a falar tanto em nome do povo enquanto aplaude com tamanho vigor quem silencia e oprime o povo.

David José Vallenilla tinha 22 anos e manifestava-se em defesa da liberdade severamente reprimida na Venezuela. Faltavam-lhe escassas semanas para obter o diploma de Enfemagem. Foi abatido a sangue-frio a 22 de Junho, à queima-roupa, por um dos esbirros fardados de Maduro. Como se tivesse sido condenado a um pelotão de fuzilamento.

Custa-me acreditar que imagens como estas não causem sequer um leve sobressalto de indignação aos militantes e simpatizantes do PCP.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A ditadura

por Pedro Correia, em 28.07.17

15011856963978[1].jpg

 

O Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela, nomeado por juízes escolhidos a dedo pelo Presidente Nicolás Maduro, sentenciou que  é legítimo o despedimento de funcionários públicos ou trabalhadores de empresas públicas que tenham manifestado satisfação ou alegria - ainda que de forma "alegórica" - pela morte do ex-chefe do Estado, Hugo Chávez, falecido a 5 de Março de 2013 mas ainda considerado "líder máximo da revolução bolivariana".

O acórdão, votado por unanimidade, valida o despedimento  - legitimado no tribunal de primeira instância - de um funcionário da empresa estatal de telecomunicações Movilnet que revelou "falta de respeito e da compostura que todo o trabalhador deve demonstrar no seu labor quotidiano" ao ter "celebrado [a morte de Chávez] de forma alegórica, dentro do seu posto de trabalho, frente aos seus companheiros de trabalho e pessoal subalterno".

Estamos perante uma evidente "ruptura da ordem constitucional", como alertou a própria procuradora-geral venezuelana Luisa Ortega, oriunda das fileiras do chavismo. A ruptura chega ao ponto de Maduro pretender impor ao país um novo texto constitucional, rasgando o de 1999, produzido durante o mandato do seu antecessor.

Infiltrando-se em todos os aspectos do quotidiano, a tirania vigente pretende impor-se pelo medo num país carcomido pela corrupção que tem a maior taxa de inflação do planeta, viu o produto nacional bruto cair quase 20% em 2016 e a mortalidade infantil subir 30% desde 2015, e onde é raro o dia em que não seja assassinado pelo menos um simpatizante da oposição, abatido pelas forças da (des)ordem. Há mais de 400 presos políticos nos cárceres venezuelanos. O direito de manifestação, que custou 112 vítimas mortais nos últimos quatro meses, foi já oficialmente banido por decreto presidencial. De tal maneira que um cidadão pacífico se arrisca a ser detido pela temível polícia política apenas por tocar violino na rua como forma de protesto.

A Venezuela chavista é hoje um país sem esperança, sem pão, sem medicamentos, sem trabalho, sem esperança e sem liberdade. Uma ditadura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Venezuela: Estado da Arte

por Diogo Noivo, em 21.07.17

"Es totalmente falso que en Venezuela haya una lucha entre izquierda revolucionaria y derecha fascista; el régimen venezolano está enfrentado a una coalición de fuerzas esencialmente de centro que incluye a partidos, líderes, organizaciones sociales e intelectuales de izquierda que creen en la democracia y el mercado. Lo que está en juego en Venezuela es el futuro del centrismo político en Latinoamérica, porque en esta ocasión, las fuerzas democráticas no son compañeros de viaje de extremistas ni de derecha, ni de izquierda. La derrota del extremismo abre la posibilidad de alcanzar una mayor madurez democrática en el continente."

 

"El supuesto marxista era que la Revolución Bolivariana lograría el desarrollo de las fuerzas productivas, pero, al igual que en Cuba, lo que hubo fue destrucción de las fuerzas productivas. Los bolivarianos hicieron retroceder la producción de petróleo y despilfarraron los ingresos más altos que ha tenido Venezuela en toda su historia."

 

Joaquín Villalobos, "Lo que queda de Venezuela", El País - 21.07.2017

Autoria e outros dados (tags, etc)

Venezuela: repressão e silêncio

por Pedro Correia, em 07.07.17

cc060717x012f10_crop1499300857620.jpg_258117318[1]

 Hordas de apoiantes de Maduro assaltando o Parlamento em Caracas

 

O regime proto-ditatorial de Nicolás Maduro, que tem espezinhado todas as liberdade cívicas na Venezuela e conduzido o país a extremos de indigência e miséria, foi ainda mais longe esta quarta-feira ao permitir que milícias paramilitares, armadas até aos dentes, invadissem o Parlamento de Caracas e agredissem selvaticamente diversos deputados da oposição, funcionários e vários jornalistas.

Foi mais um passo rumo à transformação total do "socialismo" venezuelano numa tirania pura e dura. Desde Abril, 90 manifestantes anti-Maduro foram assassinados pelas chamadas "força da ordem" só porque protestavam pacificamente na rua contra o regime. Há dois meses, a Amnistia Internacional alertava o mundo contra a "caça às bruxas" desencadeada em Caracas contra políticos da oposição, incluindo governadores e deputados. Enquanto os esbirros armados pelo regime reprimem a todo o momento o que resta da liberdade de manifestação num país que tem uma das taxas de  inflação mais elevadas do planeta e o segundo maior registo de homicídios per capita do hemisfério ocidental.

 

No seu relatório anual de 2016 sobre os atentados à liberdade de imprensa no mundo, a prestigiada organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) alertava: «Na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro possui as suas próprias artimanhas para combater os media: aquisições realizadas por amigos seus (como nos casos do jornal El Universal e do canal Globovisión) seguidas de vagas de despedimentos, asfixia da imprensa pela supressão do acesso ao papel de impressão, o que já conduziu ao encerramento de 22 jornais, ou ainda uma lei que criminaliza todo o  conteúdo que possa "questionar a autoridade legítima constituída".»

Em apenas um ano, sem surpresa, a Venezuela baixou da 117.ª posição para o 139.º lugar - num total de 180 países - na Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa dos RSF.

 

Espero sinceramente que o Sindicato dos Jornalistas, sempre tão atento às ameaças internacionais à liberdade de imprensa, se pronuncie - com idêntica celeridade à que teve no chamado "caso" Sebastião Pereira - sobre as mais recentes agressões aos profissionais da informação na Venezuela. Tal como fez a 3 de Julho, quando visou o Presidente norte-americano Donald Trump, e nesse mesmo dia ao insurgir-se contra as medidas censórias registadas em Hong Kong.

A minha expectativa é grande, embora não se fundamente em precedentes dignos de registo. Consultando o sítio do Sindicato dos Jornalistas, verifica-se que as mais recentes alusões à Venezuela remontam a 2010. Muito antes da chegada de Maduro à presidência do país, portanto.

Desde então, silêncio.

 

Mas vou esperar. Sentado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Ofereçam-lhes mas é um vôo para a Venezuela!

por Luís Menezes Leitão, em 06.07.17

Ontem, quando passei de carro na Avenida da Liberdade, assisti a um enorme aparato policial, com carros de polícia no corredor central. Depois reparei que se tratava de uma manifestação de apoio ao inenarrável Maduro, não por acaso no dia em que alguns dos seus jagunços tinham tentado assaltar o parlamento do país, exercendo violência sobre os deputados. Depois de todas as notícias sobre a gravidade do que se está a passar na Venezuela, pelos vistos ainda há 200 alminhas em Portugal que acham que se deve apoiar Maduro e a sua tirania. Como são apenas 200, proponho que se arranje rapidamente um avião que leve todos estes manifestantes com um bilhete só de ida para a Venezuela. Assim, os manifestantes poderão experimentar as delícias do regime de Maduro e talvez no regresso o avião pudesse trazer alguns portugueses que desejam sair de lá. Isso sim, era verdadeiro serviço público.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Deadwater

por Rui Rocha, em 21.04.17

tanque.jpg 

Em Maio de 2016, Mariana Mortágua publicou um artigo no JN em que, a propósito do caso Luaty Beirão, comparava as situações de Angola e da Venezuela. No texto, a Venezuela é apresentada como uma realidade em que foram cometidos erros e em que a democracia se degradou. Aliás, esta abordagem não é original no Bloco de Esquerda. Quando Fidel Castro morreu, o discurso foi semelhante. Catarina Martins afirmou na altura que "os erros não podem apagar a homenagem ao grande revolucionário". Os erros eram, no caso de Fidel, presume-se, mais de 50 anos de poder sem realização de eleições, violação dos mais elementares direitos individuais, perseguição, tortura, miséria e morte. Coisa pouca, portanto. No caso do texto de Mortágua a ideia central era então a de que, apesar dos tais erros, as situações de Venezuela e Angola não eram comparáveis. E Mortágua concluía, numa súplica, dizendo que não lhe pedissem "para confundir o que não era confundível ou que compreendesse os que se indignavam com Caracas mas toleravam Luanda". Pois bem. Face aos recentes desenvolvimentos da situação na Venezuela, é tempo para Mariana Mortágua responder a uma pergunta. As situações de Angola e Venezuela já são comparáveis? Ou tem ainda de se afundar mais o país na miséria, de se assistir a uma violação mais brutal dos direitos e da legalidade constitucional? É preciso morrer mais gente (quanta?) para que se ouça uma palavra de Mariana Mortágua, de Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, sobre a situação na Venezuela? É que parece evidente, Mariana Mortágua, que não nos podem pedir para compreender quem se indigna com Luanda (bem) mas tolera Caracas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Maduro pior que Mao

por Pedro Correia, em 03.08.16

19645389_DPGry[1].jpg

 

Pretendem alguns que a dramática situação em que mergulhou a Venezuela começou com Nicolás Maduro, que de algum modo tem desvirtuado a herança de Hugo Chávez. Isto não corresponde à verdade. Maduro, ex-condutor de autocarros e antigo dirigente sindical, é o prolongamento natural de Chávez e ascendeu ao poder por escolha "natural" do falecido mentor. A Venezuela actual não acordou da noite para o dia na mais confrangedora e lamentável miséria apesar de ser o país do mundo com mais reservas petrolíferas e ainda o segundo maior produtor de petróleo da América Latina.
Durante década e meia Chávez montou um sistema que distribuía aquilo que o país era incapaz de produzir, oferecendo um "estado social" assistencialista, assente em milhões de barris de petróleo, criando aos venezuelanos a ilusão de que tudo poderia ser conseguido sem esforço.
Durante década e meia, Chávez nada fez para diversificar a economia, não investiu no tecido produtivo os milhões que a Venezuela recebia de mão beijada da exploração do petróleo. Na própria indústria petrolífera não houve qualquer investimento: está hoje envelhecida, obsoleta, incapaz de aproveitar devidamente aquele precioso recurso natural. A corrupção contribuiu para esclerosar ainda mais um país que em quase tudo depende do petróleo quando podia ser auto-suficiente em produtos agrícolas e tem diversas outras riquezas - do subsolo ao turismo - por explorar.

Ao expropriar os circuitos de distribuição alimentar, estatizando-os, Chávez (e Maduro limitou-se a seguir-lhe o exemplo) paralisou um dos raros sectores da economia venezuelana que funcionavam. Um sector em que muitos portugueses e lusodescendentes desempenhavam um papel fundamental, com os seus pequenos comércios, sobretudo ao nível de padarias. Que têm vindo a fechar, desde logo por falta de farinha para fazer pão. E também pela total instabilidade dos preços: a Venezuela ostenta o nada invejável recorde mundial de inflação - que pode chegar aos 720% em 2016, segundo estimativas do FMI. E ainda pela insegurança galopante: Caracas é a capital do planeta com maior taxa de homicídios. Quase todos os crimes ficam impunes.
Assim que os preços do petróleo baixaram no mercado mundial, a realidade nua e crua do chavismo veio à tona. É dramática, como se vê: agora Maduro, numa espécie de recriação serôdia da China maoísta, quer mandar todos os habitantes da Venezuela em idade activa trabalhar pelo menos dois meses por ano nos campos - medida que abrange não apenas os funcionários públicos mas também os trabalhadores das empresas privadas, talvez para liquidar ainda mais depressa o que resta do sector privado no país.

Eis mais um passo de gigante no caminho do abismo. De Mao a pior.

Autoria e outros dados (tags, etc)

el-presidente-venezolano-nicolas-maduro-en-el-acto

 

"socialismo do século XXI" não se limita a lesar pessoas, que buscam em desespero na vizinha Colômbia ou no fronteiro Brasil os alimentos básicos que deixaram de encontrar no seu país: também já condena os animais à morte. A começar por dezenas de bichos do jardim zoológico de Caracas, que vão morrendo de desnutrição e fome.

Tavez seja excessivo esperar reacções do  Bloco de Esquerda e do Partido Comunista, amigos e aliados do chavismo-madurismo em Portugal. Mas aguardo pelo menos um enérgico protesto do PAN, tão preocupado com os preços das rações para animais por cá enquanto aves, coelhos, tapires e porcos do Vietname vão morrendo no zoo da capital venezuelana e tigres e leões se alimentam ali de mangas e abóboras - enquanto há.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Venezuela: um desastre anunciado

por Pedro Correia, em 09.06.16

maduro-chavez[1].jpg

 

4 de Dezembro de 2009:

«Um estado militarizado, armado até aos dentes nas zonas fronteiriças e que não consegue impor patamares mínimos de segurança dentro das suas próprias fronteiras. Um estado que não consegue abastecer devidamente os seus cidadãos de bens essenciais, como luz e água, apesar de ser o sexto maior produtor mundial de petróleo.»

 

25 de Janeiro de 2010:

«Cinco canais televisivos deixaram de transmitir, por decisão governamental. Como represália pela "violação da lei", segundo as autoridades de Caracas. Está consumado assim mais um passo no sentido da supressão da liberdade de expressão e da liberdade de informação na Venezuela.»

 

8 de Fevereiro de 2010:

«Chávez já "nacionalizou" actividades industriais, hipermercados, hotéis. Agora manda "expropriar" pequenas lojas no centro de Caracas. Ao vivo, em directo e a cores. Confirmando assim que, para ele, a propriedade privada vale zero e que as contas públicas devem ser administradas ao sabor dos caprichos momentâneos de um programa de televisão, com a irresponsabilidade de qualquer menino-bem a delapidar a fortuna do papá.»

 

23 de Agosto de 2010:

«Incapaz de assegurar a segurança nas ruas, Chávez procura em alternativa conseguir a "tranquilidade" nos escaparates dos quiosques - declarando guerra não ao crime, mas ao jornalismo que não se verga aos seus ditames.»

 

5 de Março de 2013:

«O chavismo ambiciona continuar sem Hugo Chávez. Mas não será a mesma coisa. O carisma não se transmite por decreto.»

 

21 de Fevereiro de 2014:

«O regime de Caracas continua a condenar os venezuelanos à pobreza endémica e aos maiores índices de criminalidade urbana do globo pela incompetente oligarquia "socialista" que pretende perpetuar o chavismo sem Hugo Chávez enquanto bens essenciais -- incluindo pão, leite, arroz, açúcar e até papel higiénico -- desaparecem durante semanas das prateleiras e a inflação galopa para níveis alucinantes.»

 

6 de Março de 2014:

«O civil Maduro, ex-sindicalista e antigo condutor de autocarros, permanecerá no poder até ao dia em que os militares permitirem, sendo cada vez mais provável que não concluirá o seu mandato.»

 

28 de Fevereiro de 2015:

«Na Venezuela de Maduro é assim: fecham-se canais de televisão e jornais críticos, transforma-se o poder judicial numa delegação do poder político, condena-se a população à maior penúria do continente americano. E prendem-se "preventivamente" os opositores políticos. Incluindo os que foram eleitos pela população.»

 

18 de Novembro de 2015:

«Num país devastado pela crise económica, com o produto interno a cair 7% no ano em curso, até os números oficiais da inflação são considerados segredos de Estado - talvez por se supor que seja a mais elevada do mundo, podendo chegar aos 300% em 2016.»

 

9 de Dezembro de 2015:

«A chamada “revolução” nunca diversificou as fontes produtivas do país, que permaneceu assente em barris de petróleo. Quando cada barril era exportado a 100 dólares americanos, Chávez entregou-se ao delírio assistencialista, prometendo tudo a todos – e concedendo, desde logo, petróleo gratuito aos “irmãos" cubanos. Agora, com cada barril a valer 34 dólares, é mais evidente que nunca como a pretensa prosperidade venezuelana assentava em pés de barro.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

As manigâncias de um cadáver adiado

por Diogo Noivo, em 23.05.16

Albert Rivera preside ao partido político Ciudadanos. Institucionalista convicto, Rivera colocou o partido que lidera no centro do espectro político espanhol. Acusado de ser a “marca branca” do Partido Popular nas últimas legislativas, o Ciudadanos mostrou que entre democratas não há barricadas e pugnou por uma solução de governo estável e democrática. Quando Mariano Rajoy, presidente do Partido Popular e vencedor das eleições, recusou formar governo, o Ciudadanos estendeu a mão ao segundo partido mais votado, o Partido Socialista Obreiro Espanhol. Mais do que cargos ou prebendas, o importante era formar governo e garantir o respeito pelas instituições. Podemos gostar ou não de Albert Rivera. Podemos simpatizar ou não com as ideias do Ciudadanos, um partido inscrito na família política dos liberais europeus. Mas as credencias democráticas de Rivera e do Ciudadanos parecem-me indiscutíveis.

 

No entanto, no mundo insano do autoritarismo Chavista-Madurista, a história é outra: Albert Rivera é de “ultra direita”. Quando a realidade incomoda a narrativa do regime, muda-se a realidade. A forma de o fazer é simples e baseia-se no repertório do costume: comunicação social controlada, cátedras popularuchas na televisão, muita propaganda e atentar descaradamente contra o carácter e o bom nome de quem pensa de maneira diferente. Esta peça “noticiosa” da TeleSUR, canal de televisão sedeado em Caracas e patrocinado pelos regimes que partilham ala psiquiátrica com a Venezuela (Cuba, Equador, Nicarágua, Uruguai e Bolívia), é elucidativa do estado entrincheirado de um regime morto, mas que ainda não foi informado do próprio óbito.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Maio, Maduro Maio

por Pedro Correia, em 20.05.16

Eu quando for grande quero ser funcionário público na Venezuela.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As 35 horas são apenas o primeiro passo...

por José António Abreu, em 27.04.16

Venezuela à espera da chuva põe função pública a trabalhar dois dias por semana.

Ou a prova de como, sem as grilhetas da União Europeia, do euro ou da inexistência de petróleo, um dos paraísos do socialismo está cada vez melhor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 27.02.16

En busca de la última barra de pan en Caracas. De Daniel Lozano, no El Mundo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os dias incertos da Venezuela

por Pedro Correia, em 09.12.15

elecciones-en-venezuela-2126894h350[1].jpg

 Dirigentes da oposição celebram vitória eleitoral em Caracas

 

I

Recebi com alegria a notícia do desfecho das eleições para a Assembleia Nacional venezuelana: estas legislativas - com a participação de 75% dos eleitores - foram a prova evidente do fracasso formal da chamada “revolução bolivariana”, que conduziu o país ao colapso económico e social.

Mas é uma alegria não isenta de preocupação. Porque, agora que se encontra quase moribundo, o regime chavista pode tornar-se ainda mais perigoso na tentativa desesperada de sobreviver.

 

venezuela-compra-harina-cola-compressor[1].jpg

Retrato da "revolução bolivariana": gigantescas filas diárias no acesso aos supermercados

 

II

Apesar de ser o maior exportador de petróleo da América Latina, a Venezuela enfrenta a maior recessão do continente (entre -7% e -9% do PIB) e uma brutal crise de abastecimento dos bens de consumo essenciais – incluindo pão, arroz, leite e até papel higiénico. Tem igualmente uma das mais dramáticas taxas de violência urbana do planeta: em média ocorrem ali 20 mil homicídios por ano e cerca de 85% destes crimes acabam impunes – incluindo o assassínio do dirigente oposicionista Luis Manuel Díaz, morto no final de um comício em plena campanha eleitoral.

Também em matéria de direitos fundamentais o país tem recuado para índices preocupantes. Dezenas de opositores ao chavismo/madurismo estão detidos (incluindo Leopoldo López, o mais destacado dirigente da oposição), os mandatos de deputados e autarcas (como o do presidente da Câmara de Caracas, Antonio Ledezma) não afectos à “revolução” são suprimidos por via administrativa, quase todos os órgãos de informação independentes do Governo encerraram ou passaram a ser propriedade de simpatizantes do regime e o poder judicial tornou-se mero instrumento do poder Executivo, como bem demonstrou o  depoimento do procurador que instruiu o fraudulento processo de López, entretanto exilado nos Estados Unidos.

O descalabro acentuou-se em 2013, com a subida à presidência de Nicolás Maduro, ex-motorista de autocarros. Mas as características autoritárias do regime “bolivariano” foram desenhadas pelo seu flamejante antecessor, Hugo Chávez, promovido desde a morte a “comandante eterno" da revolução. O culto póstumo começou no próprio dia do falecimento do ex-tenente-coronel paraquedista: segundo a tese de Maduro, o cancro que vitimou Chávez foi provocado pelos "inimigos da revolução".

Com o maior despudor, Chávez expropriou cadeias de supermercados (a pretexto de combater a “sabotagem económica” e o açambarcamento de produtos) que não tardaram a exibir prateleiras vazias e ampliou o número de magistrados do Supremo Tribunal para contar com uma confortável maioria de juízes prontos a validar qualquer decisão emanada do Palácio de Miraflores.

 

29c371a3-3fd6-43a2-b274-c08ad65ac451[1].jpg

Hugo Chávez, o "comandante eterno": culto da personalidade além-túmulo

 

III

A chamada “revolução” nunca diversificou as fontes produtivas do país, que permaneceu assente em barris de petróleo.

Quando cada barril era exportado a 100 dólares americanos, Chávez entregou-se ao delírio assistencialista, prometendo tudo a todos – e concedendo, desde logo, petróleo gratuito aos “irmãos" cubanos.

Agora, com cada barril a valer 34 dólares, é mais evidente que nunca como a pretensa prosperidade venezuelana assenta em pés de barro. O bolívar desvalorizou-se a tal ponto que de manhã ninguém sabe quanto valerá à tarde. A inflação real ultrapassa os 200% - de nada valendo o Governo ter proibido a divulgação de estatísticas oficiais sobre a economia do país.

Os venezuelanos gastam incontáveis horas por dia em extensas filas para abastecimento de produtos alimentares básicos, sem nunca terem a certeza de poderem adquiri-los. Cerca de 35% da população do país vive na miséria. A retórica revolucionária perdeu o efeito hipnótico produzido durante anos em largos sementos sociais: a popularidade de Maduro caiu para 22% - a mais baixa de um dirigente do país desde que há registos deste género.

 

clubbing-with-diosdado[1].jpg

 Diosdado Cabello, o odiado nº 2 do regime venezuelano e líder da sua ala militar

 

IV

Apesar de todas as campanhas intimidatórias, apesar das perseguições aos jornalistas independentes, apesar da presença obsessiva do Presidente nos ecrãs televisivos a debitar grandiloquentes frases de propaganda, apesar da ameaça de Maduro de que  poria a tropa na rua para salvaguardar as “conquistas revolucionárias”, os eleitores acabam de exibir um gigantesco cartão vermelho ao “bolivarismo”. Até em bastiões tradicionais da “revolução”, como a periferia de Caracas e Barinas, o Estado natal de Chávez.

A oposição conseguiu maioria qualificada de dois terços: 112 dos 167 deputados – o que poderá propiciar de imediato uma lei de amnistia para os presos políticos e, a médio prazo, levará à aprovação de leis orgânicas, referendos e reformas constitucionais.

Mas a Venezuela, não esqueçamos, é um país presidencialista. E dispõe de um férreo controlo das forças armadas, sob a tutela do odiado Diosdado Cabello, popularmente conhecido como a "mão negra" do regime. Presidente da Assembleia Nacional, Cabello diz-se disposto a “lutar” para manter este cargo, o segundo mais importante do país.

 

51e305afbde61ade4fe4540bf5293d8a[1].jpg

 Maduro vai querer continuar a governar por decreto, ignorando o Parlamento

 

V

O actual Chefe do Estado – à semelhança do antecessor – tem governado por decreto, o que o dispensa de ouvir o Parlamento. Nestes dias que faltam até ao início da nova legislatura, em 5 de Janeiro, é bem provável que Maduro exija aos deputados ainda em funções que lhe  prorroguem os poderes especiais destinados a validar a sua governação à revelia da Assembleia Nacional. E nos próximos dias nomeará com carácter de urgência 12 novos juízes do Supremo, que avalizarão todos os decretos presidenciais.

As suas primeiras declarações públicas, de resto, não auguram nada de bom. Foi incapaz de felicitar a oposição pela vitória eleitoral. E promete vetar desde já as leis que lhe cheguem do Parlamento - a começar pela lei da amnistia. "Por cada medida que a Assembleia venha a tomar, reagiremos de forma constitucional, revolucionária e sobretudo socialista", assegurou Maduro, em plena fuga para a frente.

Interessa-lhe tudo menos a expressão da vontade popular.

Daí a minha preocupação, apesar da alegria que sinto pela vitória eleitoral das forças antichavistas na Venezuela.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em perfeito delírio

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.12.15

Electores-hacen-fila-ejercer-Venezuela_LPRIMA20151

(AP/Adriana Cubillos)

 

O comunicado emitido pelo PCP, um dos partidos que sustentam a maioria parlamentar do XXI Governo, sobre o resultado as eleições parlamentares venezuelas fez-me recuar algumas décadas. O mesmo povo que deu dezassete vitórias eleitorais às "forças progressistas e revolucionárias", algumas com acusações de fraude à mistura e violência contra os opositores políticos, resolveu, desta vez, esmagá-las nas urnas com um resultado que não deixou dúvidas a ninguém.  

Do comunicado do PCP não se percebe como poderão aquelas forças, agora e até ver limitadas ao reduto presidencial e já sem o suporte das Forças Armadas, reverter a situação e encontrar "as soluções que defendam o processo revolucionário bolivariano e as suas históricas conquistas". Não se compreende, aliás, a que conquistas se refere o PCP, se ao uso intensivo de fatos-de-treino, alguns de conceituadas marcas capitalistas, se à proliferação de filas e senhas de racionamento para acesso a bens de consumo essenciais - há dias numa reportagem televisiva uma cidadã queixava-se de há quatro meses não conseguir obter um pacote de leite - ou, ainda, se ao recurso ao nepotismo de Estado para garantir a ascensão social e a qualidade de vida dos "revolucionários" ligados ao poder chavista e madurista.

Não podendo a Venezuela mudar de povo, para grande desgosto do PCP, em especial depois da presidente do CNE (Consejo Nacional Electoral) ter saudado a demonstração de civismo e felicitado "al pueblo por la escogencia de sus representantes" e do ministro da Defesa ter afirmado que "[h]a sido un proceso impecable", a solidariedade que manifesta servirá de muito pouco para impedir o afastamento definitivo de Maduro e da sua gente.

Leva sempre tempo, mas mais uma vez se provou que o poder não está na ponta de uma espingarda. Ainda que contra a vontade do PCP, que ainda não se apercebeu de que os calendários não pararam em 8 de Novembro de 1989, a democracia continua a fazer o seu caminho. Nos próximos meses se saberá por que trilhos seguirá.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Democracia à venezuelana

por Pedro Correia, em 18.11.15

Hugo Chavez-Nicolas Maduro-Fidel Ernesto Vasquez

 

"Para que querem chegar à Assembleia Nacional? Para negar os recursos ao povo? Eu não vou deixar." Nos intervalos dos seus diálogos com Hugo Chávez que lhe aparece em forma de passarinho, o Presidente da Venezuela - que governa por decreto, evitando submeter-se ao escrutínio do Parlamento - mostra à comunidade internacional qual o caminho mais curto para transformar de vez o país em ditadura.

"Na Venezuela existe uma tirania arbitrária", diz sem papas na língua o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González. Sabe do que fala: num país devastado pela crise económica, com o produto interno a cair 7% no ano em curso, até os números oficiais da inflação são considerados segredos de Estado - talvez por se supor que seja a mais elevada do mundo, podendo chegar aos 300% em 2016. No momento em que as sondagens mais credíveis dão um avanço de mais de 30 pontos percentuais nas urnas à oposição.

Este sim, é um presidente gangster. Por sinal muito aplaudido por alguns do lado de cá do Atlântico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Entretanto, do outro lado do Atlântico...

por José António Abreu, em 10.03.15

Colocando em prática uma intenção expressa há meses, o governo venezuelano vai começar a instalar leitores de impressões digitais nos supermercados, de modo a limitar o consumo dos cidadãos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A esquerda cega e surda

por Pedro Correia, em 28.02.15

12012313-khbF-U10622705795M9C-1024x683@GP-Web[1].j

 Boris Nemtsov, opositor de Putin, ontem assassinado no centro de Moscovo

 

Na Rússia de Putin é assim: esmaga-se o pluralismo, segregam-se as minorias religiosas, discriminam-se os homossexuais, silenciam-se os jornalistas incómodos, armam-se milícias para invadir países estrangeiros, anexa-se a Crimeia à margem do direito internacional. E matam-se os opositores políticos, a dois passos do Kremlin, com quatro tiros nas costas.

Na Venezuela de Maduro é assim: fecham-se canais de televisão e jornais críticos, transforma-se o poder judicial numa delegação do poder político, condena-se a população à maior penúria do continente americano. E prendem-se "preventivamente" os opositores políticos. Incluindo os que foram  eleitos pela população.

Rússia e Venezuela: duas lamentáveis manchas no mapa político internacional. Que continuam, apesar disso, a merecer o aplauso e o apoio de uma certa esquerda, que integra o bloco da  Esquerda Unitária Europeia no Parlamento Europeu. Uma esquerda cega e surda aos sinais dos tempos e à inapelável evidência dos factos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Encantos da economia-modelo para Tsipras e seus fãs

por José António Abreu, em 13.02.15

Dólar valoriza 327% em relação ao bolívar venezuelano, numa das três (!) cotações oficiais.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não há lei da rolha que resista

por Pedro Correia, em 06.12.14

374770[1].jpg

 

Bem pode António Costa tentar impor a lei da rolha no PS quanto ao caso Sócrates. Do estabelecimento prisional onde se encontra, o ex-primeiro-ministro tudo faz para contrariar este desígnio. Assumindo o máximo protagonismo de que há memória entre nós num cidadão em regime de prisão preventiva, insiste em captar para si próprio a luz dos holofotes. Não para se defender das acusações que lhe são imputadas - e em parte tornadas públicas no acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que sustenta a legalidade da sua detenção - mas para acusar indiscriminadamente tudo e todos. Ministério Público, jornalistas, polícia, professores e o juiz Carlos Alexandre. Para apontar o dedo acusador ao Estado de Direito.

 

Imaginando-se na condição de preso político em ditadura - ele que tem todas as garantias processuais conferidas pela legislação produzida durante o seu mandato como chefe do Governo, ao contrário do que sucede com os opositores políticos na Venezuela, onde vigora um regime que ele tanto admira. Opositores como Leopoldo López, sujeito desde Fevereiro a um duríssimo regime de prisão preventiva, impedido de receber visitas dos próprios familiares e sem data marcada para julgamento num país onde a magistratura funciona hoje como mero braço punitivo do poder político.

Como escreve o Luís Rosa, em editorial no jornal i, «José Sócrates quase que se deve ver como um Nelson Mandela - ou tantos outros homens políticos que afrontaram verdadeiras ditaduras totalitárias em nome da liberdade, da igualdade de direitos e de uma sociedade próspera e justa. Não cabe na cabeça de um mitómano como Sócrates que esse tipo de comparação seja insultuosa para a memória dos verdadeiros combatentes contra todas as ditaduras que existiram e continuam a existir por esse mundo fora».

 

Segundo o princípio dos vasos comunicantes, quanto mais Sócrates se esforça por preencher as atenções mediáticas mais se esvazia o capital político de António Costa potenciado pela sua recente eleição como secretário-geral do PS. Imaginar, neste contexto, que as duas realidades funcionarão daqui por diante em compartimentos estanques é pura estultícia.

Razão tem pois Sérgio Sousa Pinto, um dos novos membros do Secretariado socialista, em declarar hoje sem rodeios em entrevista ao i: «Caso Sócrates prejudica objectivamente o PS.»

Como um eucalipto voraz que seca tudo à sua volta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A "democracia" venezuelana (2)

por Pedro Correia, em 07.04.14

Mais assassínios políticos.

Mais repressão.

Mais detenções de opositores.

Mais manipulação da justiça pelo poder político.

Mais escassez de produtos básicos.

Mais recurso à tropa para travar protestos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A "democracia" venezuelana

por Pedro Correia, em 03.04.14

Presidente autorizado a governar por decreto durante 12 meses. / 295 horas de aparições presidenciais na televisão só num semestre: em média, mais de hora e meia por dia. / Deputada da oposição vê revogado o mandato popular que recebeu das urnas. / Presidente da câmara de San Cristóbal, capital estadual e a sétima maior cidade do país, destituído e detido por recusar reprimir manifestantes. / Outro autarca eleito por voto popular - Enzo Scarano, de San Diego -- condenado a dez meses de prisão efectiva pelo mesmo motivo. / Jornais em risco de fechar por falta de papel. / 2118 detenções em 56 dias de brutal repressão política. / 39 mortos e 559 feridos nestes dois meses. / Jovem grávida assassinada. / Indignação popular passa a ser criminalizada. / Direito à manifestação é severamente restringido. / Militares usados para reprimir protestos. / Infecções respiratórias aumentam 30% devido ao abuso de gás lacrimogéneo. / Presidente exige que os proprietários vendam imóveis aos inquilinos. / Amnistia Internacional denuncia meia centena de casos de tortura.

 

Eis a "democracia" venezuelana em todo o seu esplendor.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Maduro, a tropa e a ave canora

por Pedro Correia, em 06.03.14

 

Um ano após a sua morte física, Hugo Chávez devia reaparecer ao seu herdeiro político, o incompetente Nicolás Maduro, e dar-lhe uma séria reprimenda. Desta vez não em forma de passarinho mas de outro animal, menos delicado. Porque o caricato sucessor do pai da "revolução bolivariana" nada mais tem feito do que agravar a situação da Venezuela, embora possa alegar a seu favor o facto de que o país já caminhava para o abismo no momento em que ele iniciou funções no Palácio de Miraflores, a 8 de Março de 2013.

A verdade é que a Venezuela, primeira exportadora de petróleo da América Latina e detentora das segundas maiores reservas de gás natural do hemisfério ocidental, está em regressão contínua: ninguém ignora que os protestos de rua -- violentamente reprimidos pelas "forças da ordem", incapazes de travar o passo aos gangues do crime -- resultam de genuínos sentimentos de indignação. Os trabalhadores vêem o poder de compra devorado pela inflação, que ascende a 56,2% -- a pior cifra mundial, sete pontos percentuais acima da Síria, país há três anos em guerra. As donas de casa passam horas em filas nas lojas, muitas vezes em vão porque o sistema de abastecimento alimentar entrou em colapso desde que Maduro incentivou uma onda de "assaltos populares" a supermercados (o que até já mereceu críticas de Mário Soares). Os estudantes indignam-se justamente com os prolongados apagões nas principais cidades, incluindo Caracas, devido à falta de investimento e manutenção na rede eléctrica por um Estado confrontado com o crescimento da economia paralela e um défice correspondente a 11,5% do PIB.

 

 

Bem-vindos ao "socialismo do século XXI", onde o Governo legisla por decreto, sem prestar contas ao Parlamento: encontramos aqui, aplicada ao vivo, a receita que já provou ser uma via directa para a ruína económica e social noutros quadrantes, condimentada com o tempero caribenho propício a estas paragens.

Caracas é hoje a capital mais violenta do planeta. No país de Maduro, uma pessoa é assassinada a cada 20 minutos. Há 68 homicídios por dia e a esmagadora maioria dos crimes permanece impune, como sucedeu com o recente assassínio de Monica Spear, Miss Venezuela 2004. A acção repressiva do Governo vira-se não contra as estruturas do crime organizado mas contra as reclamações da pericilitante classe média urbana que nas últimas três semanas tem acorrido às ruas em manifestações contra o sucessor de Chávez enfrentando as balas disparadas pela polícia anti-motins ou por membros das milícias pró-Maduro, inspiradas no modelo cubano. O balanço é trágico: 19 mortos e 318 feridos.

Todos os canais de televisão que davam voz ao líder da oposição, Enrique Capriles, deixaram de emitir por verem os alvarás revogados ou passaram a entoar loas ao Executivo bolivariano na sequência de alterações às respectivas estruturas accionistas. O sinal de acesso à internet é cortado com frequência pelo Governo, apostado em travar também as críticas nas redes sociais. Um Governo que mudou radicalmente o tecido económico do país, desencadeando mais de mil nacionalizações de empresas, tornando-as ineficazes. Correram mundo as imagens de pilhagens de televisores de plasma em lojas de artigos electrónicos, sob o olhar complacente da polícia, enquanto milhares de venezuelanos acorriam em vão a outros estabelecimentos em busca de papel higiénico.

 

 

Muitas das grandes empresas nacionalizadas estão hoje nas mãos de membros da oligarquia militar, que na prática conduz os destinos da Venezuela. São militares sete ministros de Maduro (incluindo o das Finanças e o do Interior), o presidente do Parlamento, Diosdado Cabello, 11 dos 23 governadores estaduais e muitos embaixadores (incluindo o representante diplomático da Venezuela em Lisboa, um general aposentado). Todos camaradas de armas do falecido Chávez, que lhes aumentou o soldo e os cumulou de benesses para refrear qualquer intuito golpista. O civil Maduro, ex-sindicalista e antigo condutor de autocarros, permanecerá no poder até ao dia em que os militares permitirem, sendo cada vez mais provável que não concluirá o seu mandato.

A partir desse dia ficará mais disponível para escutar os chilreados de um passarinho gentil que lhe assobiará aos ouvidos, com todos os seus recursos de ave canora, aquele estribilho tão familiar e tão mavioso: "Socialismo o muerte!"

Autoria e outros dados (tags, etc)

Aqui escrevem os comunistas puros e duros. Sem punhos de renda, como antes da queda do Muro de Berlim. Com linguagem típica de Guerra Fria. Querem derrubar nas ruas o Governo português, que recusam qualificar de democrático, aplicando a cartilha marxista-leninista sobre "violência revolucionária". Enquanto se enfurecem ao ver as ruas da Ucrânia e da Venezuela encherem-se de protestos do povo, a quem não hesitam em chamar fascista.

 

Sobre Portugal:

«Urge apressar o derrubamento deste governo de máscara democrática que é na prática uma ditadura do capital.»

Sobre a Ucrânia:

«Uma vaga de anticomunismo selvagem varre grande parte da Ucrânia. Na capital e nas cidades da Ucrânia Ocidental, organizações de extrema-direita praticam crimes abjetos, perante a passividade do exército e das polícias. Desde o III Reich nazi que não acontecia algo comparável na Europa. O fascismo exibe na Ucrânia, com arrogância desafiadora, a sua face hedionda.»

Sobre Portugal:

«Anima-me a convicção de que o povo português, ao reencontrar-se com a História, volte em breve a assumir-se como sujeito. O aumento torrencial das lutas sociais e da combatividade das massas reforça a esperança de que os trabalhadores, liderados pela CGTP, se mobilizem para enfrentar e afastar do poder os que hoje os oprimem, roubam e humilham.»

Sobre a Venezuela:

«Uma campanha de desinformação, que envolve os grandes media dos EUA e da União Europeia, transmite diariamente a imagem de uma Venezuela onde a violência se tornou endémica, manifestações pacíficas seriam reprimidas, a escassez de produtos essenciais aumenta, a inflação disparou e a crise económica se aprofunda. Ocultam a realidade. Quem promove a violência é a extrema-direita, quem incendiou lojas da Mision Mercal que vende ao povo mercadorias a preços reduzidos, quem saqueia supermercados é essa oposição neofascista que se apresenta como "democrática".»

Sobre Portugal:

«A demissão deste governo, que há muito já deveria ter ocorrido, torna-se cada dia mais urgente. Não é previsível que Cavaco Silva assuma – como não assumiu outros – o dever constitucional de o fazer. Está nas mãos e na luta do povo realizar essa tarefa essencial de saneamento político e democrático.»

Sobre a Ucrânia:

«Os desmandos e violências em curso dos grupos fascistas são inquietantes. Nas cidades que controlam destruíram estátuas de Lenine, ilegalizaram o Partido das Regiões (que apoiava o Presidente) e o Partido Comunista da Ucrânia e em alguns casos fecharam as suas sedes. É transparente que o fascismo ucraniano exibe o seu rosto hediondo.»

Autoria e outros dados (tags, etc)

Venezuela trágica

por Pedro Correia, em 21.02.14

 

Esta imagem está a correr mundo. A imagem de uma tragédia pessoal que simboliza a tragédia de um povo. E de um regime, o de Caracas, que apesar de ser o nono exportador mundial de petróleo continua a condenar os venezuelanos à pobreza endémica e aos maiores índices de criminalidade urbana do globo pela incompetente oligarquia "socialista" que pretende perpetuar o chavismo sem Hugo Chávez enquanto bens essenciais -- incluindo pão, leite, arroz, açúcar e até papel higiénico -- desaparecem durante semanas das prateleiras e a inflação galopa para níveis alucinantes.

Génesis Carmona tinha apenas 22 anos, frequentava o curso universitário de Gestão e em 2013 fora eleita Miss Turismo do estado de Carabobo, na Venezuela. Manifestava-se numa avenida da cidade de Valencia, junto à mãe e aos irmãos, contra o executivo de Nicolás Maduro quando foi alvejada com um tiro na cabeça. Outros oito manifestantes ficaram feridos, também a tiro.

Um amigo conduziu-a rapidamente numa motorizada a uma clínica da cidade, situada a 170 quilómetros da capital venezuelana. Mas nada havia a fazer: a jovem morreu horas mais tarde, sem recuperar a consciência. "Quantas tragédias como esta teremos de sofrer até que as coisas mudem?", diz um tio da estudante, citado pelo diário El Universal. Enquanto o escritor venezuelano Antonio López Ortega, em artigo hoje publicado no El País, condena sem reservas a "repressão da juventude venezuelana" levada à prática pelos herdeiros de Chávez.

Génesis foi assassinada por exercer um direito cívico. Assassinada por ter dito não a um regime que muitos dos seus compatriotas consideram iníquo. Assassinada por ter ousado reclamar contra o Governo num país onde a liberdade começa a ser um bem tão escasso como o pão.

 

Leitura complementar:

Estado de São Paulo - Morte de Miss em protesto contra Governo acentua divisão na Venezuela

Guardian - Venezuela sends troops to border region as violence escalates

El País - Aumenta la persecución política en Venezuela tras las protestas

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um Pai Natal de bigode

por Rui Rocha, em 14.12.13

Autoria e outros dados (tags, etc)

O carisma na esquerda sul-americana

por João André, em 11.11.13

Estava no fim de semana a ver na Euronews a notícia sobre a tomada de uma cadeia de electrodomésticos pelo exército venezuelano quando me ocorreu um pensamento revolucionário: Maduro não durará no poder. Esta observação poderá ser discutível (e, por quem tenha vontade, discutida), mas baseia-se numa única palavra: carisma. Maduro não o tem, tanto como o seu mentor Chávez o possuía a rodos. Não quero com isto defender Chávez, apenas faço uma observação compreensível por um qualquer não-Sheldon Cooper: Chávez tinha aquele tipo de personalidade que faz com que as atrocidades que lhe saíam da boca sejam menos atrozes.

 

Esse pensamento levou-me a outra reflexão (assumo, não muito profunda) sobre Cuba, Fidel e Raúl Castro e aos pontos de contacto com a Venezuela. Os regimes autoritários e ditatoriais (especialmente) de esquerda latino-americanos dependem em larga medida de um culto da personalidade que tem que se apoiar numa pesonalidade carismática do líder supremo (nesta análise muito básica vejo a influência de Tito). Em Cuba existiu durante muito tempo a personalidade de Fidel para sustentr o regime. Saindo Fidel de cena entrou Raúl, que sabe não ter o carisma do irmão e, inteligentemente, decidiu entreabrir um poucochinho a porta para a liberdade (pelo menos comercial). Não muito, note-se que Fidel ainda está vivo e de tempos a tempos pode enviar uma arenga pelo Granma. Apenas e só o necessário para compensar o facto de ser o outro Castro (o nome vai ajudando). No dia em que sair de cena, e assumindo que o seu sucessor não terá o mesmo carisma dos Castro, ou o regime se abre ainda mais ou acabará por cair.

 

Na Venezuela Maduro ainda não o percebeu. Maduro pode querer imitar Chávez, mas sem o carisma deste acabará por perder o apoio popular que o sustenta (com ajuda do petróleo e da máquina do Estado). Ou Maduro muda de rumo (o que se me afigura improvável) ou acabará por cair em eleições ou por força de um golpe. O que me parece certo é que não se aguentará - e isso seria (possivelmente) bom para os venezuelanos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A revolução não será televisionada

por Rui Rocha, em 10.11.13

Em todo o caso, e pelo sim pelo não, os venezuelanos estão precavidos com equipamentos LCD:

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fantasia de Natal

por Rui Rocha, em 08.11.13

Não, não. O palhaço foi com os reis magos ao circo:

Autoria e outros dados (tags, etc)

No Natal, castanhas e vinho

por Rui Rocha, em 05.11.13

Maduro decreta que o Natal na Venezuela é em Novembro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

As frases mais famosas de Chávez, agora a partir do Céu, numa série de desenhos animados "oficiais" emitidos pela televisão venezuelana:

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Todo o bom socialista deve mamar

por Rui Rocha, em 16.06.13

La Asamblea Nacional de Venezuela contempla prohibir el uso de biberones a través de una reforma legislativa como una medida para estimular la lactancia materna, dijo una diputada del partido oficialista.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Venezuela enfrenta um problema de escassez severa de papel higiénico. Lida assim, sem o necessário enquadramento, a notícia cheira mal. Felizmente, o poder instalado em Caracas, com a legitimidade reforçada de ter sido democraticamente eleito nas urnas e de Nicolas Maduro ter sido declarado vencedor, ainda antes do acto eleitoral, pelo defunto Hugo Chávez que apareceu sob a forma de um passarinho para lhe anunciar a vitória, já apresentou uma explicação para a situação. Note-se, entretanto, que estas aparições de pássaros, passarinhos, cucos e outras aves de arribação são muito frequentes em países socialistas. Não há muito tempo, creio recordar, um grou voou três vezes em redor da estátua de Kim-Jong-il durante as cerimónias fúnebres do querido líder. E, ainda a propósito, será oportuno notar que a relação do comunismo/socialismo com o papel higiénico é, por assim dizer, algo enrolada, circunstância que também os cubanos têm tido oportunidade de constatar. De qualquer forma, o que importa é que o governo de Nicolas Maduro tem, como já referi,  uma explicação para esta situação incómoda.  Pelo visto, tudo está relacionado com o facto de os venezuelanos comerem agora muito mais, graças aos benefícios da revolução socialista. E como, em princípio, tudo o que entra sai, não é difícil perceber a origem do problema. Digo que temos neste caso, quando menos, fortes indícios de currelação entre as variáveis. É claro que a oposição venezuelana foi lesta a pôr em causa o argumento mas ocorre-me que isso se possa dever..., enfim, a guerras intestinas. Em todo o caso, a situação não deixa de ter a sua ironia. Marx identificou o problema capitalista do excesso de produção. É curioso notar que nos sistemas comunistas/socialistas esse problema também parece existir. O output é que é diferente. Para além disso, no caso do capitalismo, o excesso de produção provoca uma crise. No do comunismo/socialismo o que temos é um desarranjo.  Aqui chegados, creio que existem condições para identificarmos alguns traços comuns dos países comunistas/socialistas. Desde logo, temos sinais evidentes de recorrência de aparições de passarada. Depois, constata-se que o comunismo/socialismo acaba, mais cedo ou mais tarde, por dar...hmmm... o tal output. E que essa circunstância afecta muito o stock de papel higiénico disponível. Por último, mesmo que tomemos por boa a garantia de Jerónimo de Sousa de que os comunistas não comem criancinhas ao pequeno almoço, é justo reconhecer que continuam a ser muito dados a histórias infantis e a argumentos de...hmmm... output.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bem pode limpar as mãos à parede

por Rui Rocha, em 18.05.13

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, anunciou que o país irá importar 50 milhões de rolos de papel higiénico.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O pequeno-almoço do Figo saiu mais barato

por Rui Rocha, em 13.04.13

Maradona habria cobrado 2 millones de dólares para apoyar a Maduro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Hugo Chávez no conclave

por jpt, em 14.03.13


[Bonecos de Chávez são vendidos nesta terça-feira (12) nas ruas de Caracas (Foto: Ronaldo Schemidt/AFP)]

 

Para Nicolás Maduro, Presidente em exercício da Venezuela, o falecido Presidente Hugo Chávez terá tido alguma influência na eleição de um Papa argentino. “Nós sabemos que o nosso comandante subiu até às alturas, que está em frente de Cristo. Alguma coisa influenciou para que tenha sido escolhido um Papa sul-americano, alguma mão nova chegou a Cristo e lhe disse: chegou a hora da América do Sul. Assim nos parece”, disse Maduro em declarações transmitidas pela televisão oficial venezuelana. (nos jornais)

 

Em Portugal Boaventura Sousa Santos escreve um texto sobre Chavez de verdadeira ciência política, debruçando-se sobre a "química" chaveziana, base do seu poder, o socialismo de XXI. Culmina BSS com uma crítica aos políticos democratas (capitalistas) europeus, pois quando morrem não são chorados em sofrimento popular. Constate-se a mudança neste o teórico socialista: não só o sufrágio universal é insuficiente, as eleições não legitimam o poder, como também as "arruadas", antes tão convocadas, são insuficientes. Agora o critério de validade progressista, da legitimidade política, transitou para a dimensão dos rios de lágrimas apaixonadas (pre mortem e post mortem) que os políticos causam. O "condoímento" é o condimento desta teoria? 

 

Os bloguistas e leitores desta esquerda pós-iluminista (e defensora da teocracia iraniana - já agora, quantas lágrimas de pesar colherá Ahmadinejad?) "linkam" e "laicam". Os intelectuais apoiam. Os académicos apoiam. E, mais do que tudo, citam e referenciam. A imprensa remunera. O XXI português, o seu discurso político, resplandece. Deve ser da "química" do "carisma". 

 

Poderosa química, até alquímica. Pois, e como diz o lugar-tenente de Chavez, até Cristo, lá no sagrado Alto, lhe é sensível. Têm então os crentes, os praticantes e até os infiéis, um Papa Chaveziano.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O herói

por José António Abreu, em 12.03.13

Tendo já decorrido uns dias sobre o acontecimento, permito-me correr o risco de chatear os fãs: no que respeita à imagem para a posteridade, a morte de Hugo Chávez foi o melhor que lhe podia ter ocorrido. Outros, ainda que menos demagogos e mais capazes, verão a bomba-relógio que constitui a economia da Venezuela rebentar-lhes nas mãos enquanto Chávez permanecerá o herói que governava contra os grandes interesses e a favor dos mais pobres.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Havendo sido cego, agora vejo

por Pedro Correia, em 10.03.13

 

Esta fotografia da agência France-Presse é candidata desde já a uma das imagens do ano. Por nos mostrar um extremista islâmico, que sonha com a dura lei alcorânica vigorando no mundo inteiro, ao lado do caixão do presidente da Venezuela, tendo a poucos metros a imagem de Cristo na cruz, símbolo supremo de uma religião que Mahmud Ahmadinejad combate com tenaz proselitismo.

Ironia das ironias. Um assumido marxista, amigo e aliado de todos os comunistas que restam em postos dirigentes no planeta, conseguiu este quase-milagre durante as honras fúnebres que lhe foram prestadas como devoto da mensagem cristã: o fanático que negou o Holocausto, quis riscar Israel do mapa, considerou o 11 de Setembro uma "enorme mentira" e se gaba de não haver homossexuais no Irão prestou homenagem ao amigo Hugo Chávez na Academia Militar, em Caracas, numa cerimónia presidida pelo bispo de San Cristóbal, Mario Moronta, que leu trechos do Evangelho de São João. Segundo relata a imprensa, Ahmadinejad era o líder estrangeiro mais comovido, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara.

Se há fotos que são notícia, por falarem mais que mil discursos, esta é uma delas. "Havendo sido cego, agora vejo" - como se lê precisamente no Evangelho de João.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Alguns apontamentos sobre Chávez

por Rui Rocha, em 06.03.13

Uma análise isenta sobre o percurso político de Chávez deve ter presente alguns aspectos essenciais. Desde logo, o ponto de partida. Os protagonistas que o precederam deixaram o país mergulhado na corrupção, a braços com uma profunda crise política, económica e social e com níveis de desigualdade absolutamente escandalosos, num processo que terminou no impeachment de Carlos Andrés Pérez. O sucesso da proposta chavista deve-se, para além das óbvias manobras e golpes de manipulação das regras democráticas, ao falhanço estrepitoso das forças políticas mais à direita. Não encontraram, antes de Chávez, propostas políticas credíveis e, depois, não souberam resgatar-se do passado nem foram capazes de apresentar alternativas de renovação. Muitos anos passaram até que esse espectro político encontrasse, com Capriles, um projecto percebido como sério pelos eleitores. Depois, o balanço não pode ficar pela apresentação, a seco, da evolução dos indicadores económicos e sociais do chavismo. É preciso, contextualizá-los, antes de mais, com a subida vertiginosa do preço de matérias-primas como o petróleo que beneficiaram muito a Venezuela. E é necessário, sobretudo, perceber que o sucesso em certos indicadores não justifica, em caso algum, práticas anti-democráticas de caudilhismo, manipulação da realidade e repressão da libedade de expressão. Caso contrário, teríamos de reconhecer que certas experiências totalitárias, que condenamos com justificadas razões, deveriam ser reabilitadas em função de algum sucesso económico que tivessem promovido. Por último, não se pode deixar em claro o aproveitamento grotesco que Chávez e os seus putativos sucessores fizeram da doença e da morte, utilizando-a como arma de arremesso político e de legitimação das suas aspirações. O sofrimento e a perda, independentemente da simpatia que temos ou não pela pessoa e pelo político, devem ser respeitados. Ponto é que essa contenção inclua também o próprio e os que lhe estão próximos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D