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Um crime.

por Luís Menezes Leitão, em 29.07.15

A esquerda nacional andava deslumbrada com Tsipras e Varoufakis. Como quando se zangam as comadres, sabem-se as verdades, ficou agora claro o que esses dois andavam a arquitectar desde o início: a saída do euro. Se a medida em si é legítima, parece óbvio que os meios não o eram. Estava em causa fazer um ataque informático à autoridade tributária, apreender as reservas em euros do banco central, que é independente do governo, e se necessário prender o seu governador. Temos aqui medidas ao puro estilo do PREC, que é o que actualmente se vive na Grécia. Isto em política tem um nome: golpe de Estado. E o mesmo é um crime em qualquer país do mundo. O Ministro que chamava terroristas aos seus parceiros do Eurogrupo, afinal comportava-se como um verdadeiro terrorista. Não admira por isso que se multipliquem as acções contra ele na Grécia. Mas se Varoufakis vier a ser preso, já se sabe que iremos ter uma peregrinação internacional de apoiantes a protestar, e a qualificá-lo como preso político. Coisa que nunca aconteceria ao desgraçado do governador do banco central, se por acaso o golpe de Estado tivesse tido sucesso. Como salientava Orwell, há sempre uns mais iguais que outros.

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Competências sobrestimadas

por Rui Rocha, em 19.07.15

Paizinho Krugman vem agora dizer  que sobrestimou a competência do governo grego. Pelo visto, não passava pela cabeça de Paizinho Krugman que Tsipras & Varoufakis não tivessem um plano de urgência para o caso de as negociações com os credores levarem a resultados inaceitáveis. Pois muito bem. O que eu gostaria realmente de saber é que tipo de plano poderia ser esse, dadas as circunstâncias. É que uma saída do euro e a sua substituição pelo dracma, ou coisa que o valha, pressuporia sempre a existência de reserervas cambiais significativas. E isso é coisa que a Grécia não tem. Ora é surpreendente que Paizinho Krugman (ou Varoufakis), proficientes como são em questões económicas, desconheçam a impossibilidade prática de a Grécia optar por moeda própria nesse cenário. Por isso, das duas uma: ou alguém anda aqui a enganar deliberadamente a opinião pública ou, então, teremos de concluir que não é só a competência do governo grego que tem sido sobrestimada.

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Pilatos Varoufakis

por Pedro Correia, em 15.07.15

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Despontou para a popularidade mundial - que lhe há-de trazer muitos proventos - graças a Alexis Tsipras, o líder do Syriza. Ministro das Finanças, encarou aparentemente sem um pingo de vergonha o facto de a Grécia ter entrado em incumprimento perante o FMI (o que equipara o país ao Sudão, ao Zimbábue e à Somália).

Entrou à campeão, proclamando a 30 de Janeiro: "A Grécia não reconhece a tróica como nossa interlocutora." Estava dado o tom.

Chamou "terroristas" aos credores e não conseguiu estabelecer uma relação de confiança com nenhum dos seus parceiros do Eurogrupo em sucessivas cimeiras falhadas que consumiram tempo e energias de todos. Chegou a dizer que preferia "cortar um braço" a assinar um acordo com as instituições europeias sem prévia reestruturação da dívida. Ordenou o encerramento dos bancos, impondo um drástico limite aos levantamentos: desde então têm dado volta ao mundo as imagens de milhares de gregos aguardando em longas filas junto aos multibancos para conseguir obter dinheiro, cada vez mais escasso.

 

Abandonou o Governo no pior momento, deixando Tsipras isolado. Marxista assumido, cedeu aos interesses da poderosa Igreja Ortodoxa, principal proprietária de bens e terrenos no país, isentos de impostos, e dos milionários armadores helénicos, que também gozam de imunidade fiscal. Foi incapaz de propor cortes drásticos ao orçamento militar no país europeu da NATO que consome maior fatia orçamental no sector da defesa. Nem sequer instituiu um organismo independente e credível para aferir as estatísticas oficiais - algo que nunca existiu na Grécia.

Quando iniciou funções, a Comissão Europeia previa para 2015 um crescimento de 2,5% da economia helénica. Quando abandonou o executivo, a mesma entidade antevia uma queda de 4% do produto grego para este ano.

A todo o momento pensou nele - e só nele. Quando surgia com o seu cachecol Burberry e a sua potente motorizada. E quando se submeteu voluntariamente a uma glamorosa sessão fotográfica para a ultra-burguesa revista Paris Match.

 

Durante cinco meses pavoneou-se perante as luzes da ribalta. Quando Tsipras precisou dele numa semana em que a Grécia resvalou perigosamente o abismo, desertou. Imitou Pilatos, invocando estar "de férias com a filha" para faltar à crucial votação parlamentar que mandatou o primeiro-ministro a negociar o destino das finanças gregas com as instituições europeias.

Agora, como se nunca tivesse passado pelo Governo, apressa-se a mandar bitaites. Dizendo coisas como esta: "O projecto de integração europeia foi ferido de morte." Ou esta: "O que saiu da cimeira foi uma completa anulação da soberania grega", transformando o país num "vassalo do Eurogrupo."

Facas espetadas nas costas de Tsipras. No pior momento possível.

 

E ainda há por aí quem seja capaz de elogiar Yanis Varoufakis...

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Uma semana sem Varoufakis

por Pedro Correia, em 13.07.15

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Demitiu-se pela calada da noite e saiu de cena. Faz hoje uma semana.

 

Foi talvez o único momento discreto da brevíssima carreira de Yanis Varoufakis como ministro das Finanças do governo de coligação grego, empossado no final de Janeiro. Enquanto esteve em funções, agiu como uma pop star, entre ovações entusiásticas de alguns comentadores que lhe foram dando crédito.

Por cá, Nicolau Santos aplaudiu-o por ter vindo "estilhaçar o consenso instalado" - algo que não costuma ser apontado como mérito de um titular da pasta das Finanças.  Ana Gomes enalteceu-o por ter "afinfado murros nos talibãs austeritários"(sic). Leonor Moura empolgou-se com a sua "boa imagem". Rui Tavares foi lapidar: "Varoufakis está do lado da civilização." Isabel Moreira, com exemplar poder de síntese, condensou tudo numa frase: "O ministro das Finanças grego é sexy, porra!»

 

O director-adjunto do Expresso tinha razão: elefante em loja de porcelanas, Varoufakis "estilhaçou o consenso instalado". Ao ponto de chamar "terroristas" aos credores da Grécia, parceiros de Atenas no Conselho Europeu. E de gravar secretamente reuniões de alto nível em Bruxelas, talvez já a pensar num futuro livro de memórias que lhe traga ainda mais fama e proveito.

Despediu-se bem ao seu jeito, admitindo na véspera da demissão um "acordo em 24 horas" com as instituições europeias, por efeito de uma inesperada varinha mágica, mal o não ganhasse o referendo plebiscitário convocado por Alexis Tsipras para se legitimar dentro de um partido que ameaçava partir-se em cacos.

Nada disso aconteceu, como era de supor. Mas Varoufakis já não estava em funções para ser confrontado com mais esta bombástica declaração que se limitou a produzir ruído mediático. E foi um dos 17 deputados do Syriza que furaram a disciplina de voto, recusando aprovar o terceiro pedido de assistência financeira da Grécia às instituições europeias. Nessa madrugada de sábado, ele estava longe da sala das sessões do Parlamento. De férias com a filha.

 

Seduzido pelas luzes da ribalta, que produzem um efeito viciante, há-de voltar em breve. Integrando-se no circuito internacional dos conferencistas de luxo, a percorrer os continentes pago a 50 mil euros por palestra. Ensinando ao mundo como se levantam as finanças de um Estado.

E não faltará também então quem acorra a escutá-lo, pronto a beber-lhe a sabedoria.

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Vrumvrum Fakis

por Rui Rocha, em 06.07.15

VAROUFAS.jpg

 

Yanis Varoufakis abandona o Ministério das Finanças, depois de apresentar a demissão. Varoufakis com capacete, preocupado consigo próprio. Acompanha-o a sua mulher, Danai. Sem capacete. Como ela, durante os últimos meses, a Grécia. 

 

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Oxi, Yanis

por Pedro Correia, em 06.07.15

Se os gregos soubessem que a primeira consequência política do plebiscito de ontem seria a  demissão do ministro das Finanças, teriam dito ainda com mais entusiasmo oxi nas urnas. Felizmente o senhor sai de cena com os dois braços intactos: vão dar-lhe agora muito jeito para nadar em seco.

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Homem ao mar!

por Luís Menezes Leitão, em 06.07.15

Foi patético ver ontem as inúmeras reacções de júbilo ao não no referendo grego, com imensas pessoas a salientar que tinha sido uma vitória da democracia e da dignidade da Grécia. O meu primeiro pensamento foi logo: "Esperem pela pancada, que vai começar já às primeiras horas da manhã". Na verdade, o único político europeu que disse uma coisa acertada foi Martin Schulz, o líder do parlamento europeu que por acaso era o candidato dos socialistas a presidente da Comissão: "A Grécia vai precisar de ajuda humanitária". Efectivamente, o Syriza arrastou a Grécia para uma hecatombe cujas consequências vão começar a ver-se já de seguida.

 

Está à vista que a primeira vítima desta hecatombe foi o "clown" que o iluminado Tsipras resolveu escolher para seu Ministro das Finanças. Yanis Varoufakis, a estrela mediática, que ainda ontem se gabava de que, depois do não no referendo, poderia conseguir um novo acordo no eurogrupo em 24 horas, afinal nem mais um minuto teve para continuar no cargo. Pode agora regressar às suas aulas, que já conseguiu o seu lugar na história económica. Efectivamente, seguramente que daqui a muitos anos ainda se há de falar do desastre em que a sua teoria dos jogos fez cair o seu país. O que ele fez foi pôr a Grécia a jogar à roleta russa com uma metralhadora pesada.

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Os garotos

por Rui Herbon, em 03.07.15

MINISTROS-GREGOS2.jpg

Os países não podem ser governados em estado de permanente excitação. É possível adoptar a estratégia da fuga para a frente a curto prazo, com gestos, slogans e propaganda que satisfaçam num momento concreto a maioria dos cidadãos, mas nem as grandes revoluções se conseguiram instalar na retórica da política-ficção de modo indefinido. Fazer política à margem da realidade é uma farsa inaceitável. Não é sério celebrar eleições em Fevereiro (que sufragaram uma política que, por ser contrária à defendida pela generalidade dos países da União, que nunca a aceitariam, implicava o incumprimento e a saída do euro) e convocar um referendo em Julho, a correr, porque o governo eleito não tem coragem para tomar decisões (a democracia, dizia Max Weber, é um instrumento para escolher os encarregados de adoptar as decisões supostamente justas e definir contra-pesos para limitar os seus excessos) e nem sequer soube gerir os problemas que afectavam muito dolorosamente a maioria dos gregos (a economia estava a crescer antes da tomada de posse do governo do Syriza).

 

Há dias Alexis Tsipras aceitava o núcleo duro das exigências dos credores. Poucos dias antes tinha abandonado as negociações e convocado, à noite e sem avisar ninguém, um referendo. Não se entende como, apesar de querer negociar, continua a apoiar o «Não» no referendo, cuja pergunta está totalmente ultrapassada, pois refere-se a documentos que, não tendo havido acordo até terça-feira passada, deixam de estar em vigor; e os seus ministros, à falta de argumentos, continuam a usar a demagogia: «campanha de terror contra a Grécia», «conspiração para derrubar um governo de esquerda» e por aí fora. Resumindo: a culpa é dos outros. Sempre que se empreende uma política baseada na ficção, alheia às leis vigentes e à realidade palpável, responsabiliza-se o suposto adversário ou inimigo pelos males pátrios. É essa a táctica secular de ditadores e populistas de meia-tigela (que são sempre aprendizes dos primeiros).

 

Os plebiscitos precipitados são jogos com cartas marcadas. Putin (oh, o amigo Putin) fê-lo na Crimeia, e Tsipras quer transferir para os gregos uma responsabilidade que é sua. A leviandade tem um preço demasiado elevado em política, que não é um jogo para garotos.

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O abismo grego

por Pedro Correia, em 01.07.15

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A irresponsabilidade, o experimentalismo extremo e a navegação à vista estão a debilitar de forma irreversível o Governo grego: com o país ainda formalmente inserido na União Europeia, a coligação Syriza-Anel conseguiu rebaixá-lo ao nível de um Sudão ou um Zimbábue, que também falharam o cumprimento das suas obrigações financeiras.

Os bancos gregos estão encerrados. E a população deixou de dispor sequer da liberdade de utilizar o seu dinheiro devido à proibição governamental de levantamentos diários superiores a 60 euros nas caixas multibanco, aliás em grande parte já descapitalizadas.

Se a situação era má quando o actual executivo tomou posse, em Janeiro, agora é péssima: a Grécia prossegue no caminho para o abismo enquanto alguns basbaques cá do burgo - cada vez menos, valha a verdade - ainda se atrevem a vitoriar Tsipras e Varoufakis, condutores de um comboio desgovernado.

Incapaz de conseguir financiamento autónomo, sem o menor prestígio internacional e com as suas próprias hostes divididas, o ainda primeiro-ministro grego ensaia agora uma nova fuga em frente levando a referendo no domingo uma pergunta que se tornou absurda: «Deverá ser aceite o projecto de acordo que foi apresentado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional no Eurogrupo em 25 de Junho?»

O "projecto de acordo" a que a pergunta alude caducou assim que Atenas entrou em incumprimento. De qualquer modo, responda como responder o eleitorado, resta ver até que ponto Tsipras e Varoufakis serão capazes de ultrapassar o assombroso nível de incompetência que vêm demonstrando.

Nisso, pelo menos, ninguém deve subestimá-los.

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Coerências (auxiliar de memória para os fãs)

por José António Abreu, em 29.06.15

Varoufakis afastou a possibilidade de um referendo aos termos do acordo dizendo que seria efectivamente um voto à manutenção do euro como moeda.

«Seria injusto para os cidadãos gregos terem de tomar uma posição sobre o assunto, respondendo com um sim ou um não», disse ele.

19.05.2015. Tradução minha.

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Calma que o homem sabe o que faz

por Rui Rocha, em 28.06.15

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Pescadinha

por José António Abreu, em 28.06.15

Falando acerca disto após o Eurogrupo, o loquaz ministro das finanças da Grécia, Yannis Varoufakis, tombou em incoerências. A recusa dos ministros em aprovar uma extensão do programa, disse ele, causou «danos permanentes à credibilidade da UE». Porquê? Porque havia uma «muito elevada probabilidade» de que os gregos ignorassem o governo e aprovassem a proposta dos credores. A Grécia, parecia estar a argumentar o Sr. Varoufakis, merecia ainda mais uma extensão do programa para dar tempo ao governo para aconselhar os eleitores a rejeitar os seus termos porque esse conselho poderia bem ser rejeitado.

The Economist. Tradução minha.

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Sobre o joelho.

por Luís Menezes Leitão, em 18.06.15

A Grécia precisa urgentemente  de um empréstimo de 7,2 mil milhões de euros. Já declarou que não vai pagar os empréstimos que lhe foram concedidos pelo FMI. Apesar disso, acha que os credores lhe vão fazer esse empréstimo, sem se comprometer com quaisquer reformas que sejam. Tudo graças ao seu brilhante Ministro das Finanças, que antes era um "economista acidental" e agora é um "político relutante". Tão relutante que nem sequer está apegado ao seu gabinete, preferindo assumir-se como a estrela mediática que é, e passear de mota e casaco de couro. Mas o Ministro das Finanças fala a verdade, ao assumir que "a Grécia não precisa de liquidez, está é insolvente. E não há empréstimo que a cure". Mas então o que pode salvar a Grécia? Não é o investimento dos outros, mas "a generosidade do espírito". O Ministro das Finanças grego é um optimista e até acha que vai "consertar o euro". Deve ser isso o que está fazer, sentado no chão do parlamento grego a trabalhar sobre o joelho. Porque de facto o que a sua actuação tem demonstrado ao longo destes meses é o seu total amadorismo e a sua absoluta impreparação, que os gregos vão pagar caro. E então o "político relutante" voltará calmamente aos meios académicos, deixando atrás de si uma verdadeira tragédia grega. A política é uma coisa demasiado séria para ser entregue a amadores.

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O melhor é chamar o Varoufakis

por Pedro Correia, em 09.06.15

PS está em falência técnica: passivo é maior que o activo e resultado líquido de 2014 foi negativo.

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Grécia antiga (12)

por Pedro Correia, em 28.05.15

«O ministro das Finanças grego é sexy, porra!»

Isabel Moreira no Facebook (2 de Fevereiro de 2015)

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Pelo visto, o extraordinário Yannis Varoufakis, depois de ter sido remetido a uma posição mais recatada nas negociações com a troika, digo com as instituições, tem agora mais tempo para se dedicar à reflexão sobre medidas originais para dar a volta à situação grega. O próximo coelho a saltar-lhe da carola poderá bem ser, ao que se diz, uma amnistia fiscal para os concidadãos que declarem a existência de depósitos no estrangeiro. À primeira vista, a coisa pode causar algum estupor: mas então não eram Varoufakis e o Syriza a luzinha que nos alumia, o símbolo da mudança da própria Europa, os percursores de um novo caminho que seria trilhado cantando hossanas por vultos da dimensão de António Costa, Mário Soares (Tsipras, de quem sou amigo), Catarina Martins, Boaventura Sousa Santos e outros subscritores de manifestos e participantes em iniciativas cidadãs, foruns, plataformas, movimentos e iniciativas? Não estarão, perguntarão muitos, Varoufakis e o Syriza a abastardar a sua linha política, a vender-se ao capital (iiiiiiiih!), a trair os ideais de esquerda, a renegar os valores da alternativa, ó horror, a roer a corda? É que, se bem virmos, dirão os mesmos, não deve ser o grego comum, o grego vítima da crise humanitária, o grego esmagado pela Merkel, o titular típico dessas (ler a partir de agora com os dentes cerrados e expressão a meio caminho entre a raiva e o nojo, como faz o Louçã) cooooontas no estrrrrrangeirrro oooonde cerrrrtamente se acumularrrrrão grroooossos capitaiiiiiis subtrrrraídos aos impoooostos e ao pooovo (dar agora um gritinho de indignação e voltar a ler normalmente)... Mas dizer isso é, lamento, ter vistas curtas. A genialidade da medida está aqui: vinda da cabeça de qualquer outro perigoso governante de qualquer outra geografia, a amnistia fiscal é compadrio com o capital, com os tubarões, com os especuladores e agiotas, é favorecimento de amigos; vinda da cebeça pelada de Varoufakis, a amnistia fiscal tem o objectivo de favorecer os inimigos. Isto é, apela à paz no mundo e promove a concórdia. A amnistia fiscal pensada por Varoufakis é como a baixa da TSU dita por Costa: bebe da pureza dos ideais do homem novo e solidário. Quanto ao trabalhinho de casa, é só isto: procurar no Google declarações de camaradas do Bloco de Esquerda sobre amnistias fiscais e imagens de abracinhos ao Tsipras.

 

Nota: o autor é contra amnistias fiscais em geral, abrindo excepção apenas para as que forem ou tenham sido propostas por Varoufakis ou por governos do Partido Socialista português.

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A queda de um anjo.

por Luís Menezes Leitão, em 28.04.15

Sempre estive contra a ideia de atirar a Grécia às feras, como parece ser o objectivo de Schäuble, para o que conta com o entusiástico apoio de Maria Luís Albuquerque. No entanto, também sempre achei que Yanis Varoufakis tinha uma visão demasiado simplista dos problemas da Grécia, aliada a uma enorme falta de credibilidade, que era ainda mais acentuada pelo visual que ostentava. Um Ministro das Finanças de qualquer país deve saber que existe um dress code que deve ser adoptado em reuniões internacionais, sob pena de ficar com a imagem de ser o palhaço do grupo. Da mesma forma, um Ministro das Finanças deve saber que nessas reuniões se apresentam propostas concretas e estudadas e não ideias vagas sobre os problemas. E muito menos se apresentam propostas estapafúrdias, como a de colocar turistas, domésticas e estudantes a vigiar os impostos pagos pelos gregos. Há um limite para o amadorismo e para as boas intenções, das quais diz o povo que está o inferno cheio. Se a própria bolsa grega entra em euforia com a despromoção do Ministro das Finanças, está tudo dito. Varoufakis quis comportar-se como um anjinho no Eurogrupo. Como todos os anjos, o seu destino só podia ser a queda.

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O Varoufakis nunca leu o Tintin.

por Luís Menezes Leitão, em 15.03.15

Se o tivesse feito, não precisava de se declarar agora arrependido da entrevista que deu. Há muito que saberia que não se pode dar entrevistas à Paris Flash, perdão Paris Match.

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A esquerda caviar.

por Luís Menezes Leitão, em 14.03.15

Há muito tempo que a esquerda tem um problema complicado com a exibição pelos seus partidários de uma vida de luxo e glamour, ao mesmo tempo que defendem a igualdade e a distribuição da riqueza. Surge assim a expressão "esquerda caviar", para designar a hipocrisia dessas posições, normalmente aplicável especificamente à extrema-esquerda, uma vez que os comunistas são muito mais cautelosos em evitar fazer essas figuras. Álvaro Cunhal vivia uma vida de completo mistério e declarava sempre que era modestamente pago no partido. Lembro-me de, numa entrevista, ele ter declarado descontraidamente que ganhava vinte contos mensais (hoje 100 euros) apesar de ser visível que o fato que trazia vestido custava mais do que isso. Por esse motivo Veiga de Oliveira caiu em desgraça no PCP apenas por ter declarado numa entrevista que o prato de que mais gostava era a lagosta. Hoje Jerónimo de Sousa alinha pelo mesmo diapasão e os militantes comunistas continuam a fazer questão em não exibir luxos. Curiosamente esse mesmo padrão é observado pela direcção mais à esquerda que alguma vez existiu no partido trabalhista inglês, agora liderado por Ed Miliband, o Red Ed. É assim que o mesmo, que é dono de uma casa de três milhões de euros, até conseguiu esconder a cozinha numa entrevista que deu, tendo-se feito fotografar na sua segunda cozinha, em ordem a parecer que vivia num apartamento modesto.

Pelo contrário, a extrema-esquerda não tem qualquer problema em ostentar os denominados "sinais exteriores de riqueza" e até faz gala em os exibir. É assim que Yanis Varoufakis, que já mostrava descaradamente o seu cachecol Burberry nas reuniões do Eurogrupo, faz-se agora fotografar para a Paris Match no seu magnífico apartamento em Atenas com vista para a Acrópole, degustando um opíparo jantar, bem regado a vinho branco, a que se seguiu uma sessão de piano.

Se me perguntarem qual das reacções prefiro, confesso que acho a atitude de Varoufakis bastante mais descontraída do que a de Miliband, até pela inveja que seguramente causa em meio mundo. O problema é que ninguém acredita na crise humanitária na Grécia e na necessidade de o Eurogrupo avançar rapidamente com dinheiro quando vê o estilo de vida adoptado pelo Ministro das Finanças grego. Tudo isto demonstra o amadorismo com que o novo governo grego está a trabalhar, não tendo sido sequer capaz de montar uma estratégia de comunicação que evitasse fazer estas figuras. É que por este andar a tragédia grega — que é verdadeira - corre o risco de parecer afinal uma comédia.

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Já se sabe: os alemães não têm sentido de humor

por José António Abreu, em 01.03.15

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Nomeadamente, as do casaco:

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Sobre a posição de Maria Luís Albuquerque

por José António Abreu, em 21.02.15

Ao vivo e com a passagem dos dias, ele vai ficando menos sexy. Acontece a quase todos.

 

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O apocalipse da Grécia.

por Luís Menezes Leitão, em 02.02.15

O termo grego αποκάλυψις (etimologicamente "tirar o véu") significa "revelação". Devido ao livro atribuído ao apóstolo João, que descrevia as suas visões escatológicas na ilha de Patmos, a expressão "apocalipse" passou a também a ser usada para designar o fim do mundo. E em certo sentido, a polissemia até se justifica, uma vez que há revelações tão dramáticas que delas só pode resultar a catástrofe generalizada. É por isso que até na Bíblia avisadamente o Rei David diz: "Põe deveras uma guarda à minha boca, ó Jeová. Põe deveras uma sentinela sobre a porta dos meus lábios" (Salmos, 141, 3).

 

Parece-me que algumas revelações deste tipo andam a ser feitas pelo novo Ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis. Segundo se pode ler aqui o Ministro é iconoclasta, criativo, não quer guerra, não faz bluff, e gosta de rir de si próprio. De facto, o referido Ministro parece ser uma pessoa muito simpática, vai continuar a ser um conhecido blogger,  e até podemos simpatizar com a forma desarmante com que responde a uma entrevista séria da BBC. A questão é que um Ministro das Finanças tem que ter muito cuidado com o que diz, o que não parece ser o caso deste, e as suas declarações podem vir a ter consequências muito sérias.

 

Vejamos o que diz o Ministro das Finanças nessa entrevista: Que não quer a extensão do programa de resgate, nem receber mais dinheiro da troika, porque o problema da Grécia não é um problema de falta de liquidez, mas sim um problema de insolvência. Eu por acaso estou de acordo com ele e acho que meio mundo também está. Só que esse meio mundo não ocupa o cargo de Ministro das Finanças da Grécia, porque uma declaração dessas vinda do Ministro das Finanças grego tem um significado óbvio: que a Grécia se prepara para declarar imediatamente a bancarrota. É a solução óbvia porque até já tem saldo primário para o poder fazer, uma vez que eliminando o pagamento dos juros consegue sustentar-se internamente.

 

Só que uma declaração de default de um Estado não se faz com pré-avisos desta ordem. Faz-se de forma súbita, acompanhado de medidas de congelamento imediato de todas as contas bancárias e de controlo das saídas de capitais. Porque depois de o Ministro das Finanças fazer estas declarações não me parece que haja um único castiçal que fique na Grécia ou que sobre um cêntimo nas contas dos bancos gregos. Na verdade, esta revelação do Ministro das Finanças é mesmo o apocalipse da Grécia, pelo menos no que ao sistema monetário europeu diz respeito.

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