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Das culpas e exigências dos prestamistas

por José António Abreu, em 18.02.15

Há uma versão dos acontecimentos segundo a qual a culpa das dívidas dos Estados é de quem lhes emprestou o dinheiro. No fundo, uma acusação na linha das feitas aos bancos durante a crise do subprime, por - teoricamente escudados em produtos derivados - terem concedido empréstimos a pessoas sem rendimentos suficientes para pagar as prestações das casas que desejavam adquirir. Nesta linha de raciocínio, a Grécia, como Portugal, foi empurrada para o crescimento insustentável da sua dívida pública por todos aqueles - primeiro entidades privadas, depois as instituições constituintes da Troika - que lhe foram emprestando dinheiro. Pelo que - continuam os defensores desta teoria - é bem feito que tais prestamistas - usurários, mesmo - encaixem perdas pelo erro cometido. Não tenho problemas especiais em aceitar esta versão dos acontecimentos: a gestão do risco deve ser uma preocupação fundamental de qualquer empresa ou entidade, especialmente no sector financeiro (algo que a maioria das pessoas esquece quando confrontada com simulações pouco simpáticas de créditos ou seguros). No entanto, fazê-lo só pode levar a uma conclusão: não se deve emprestar a quem não tem (ou parece não ter) capacidade para pagar. Como - assumia-o a própria há um par de semanas e, de forma mais convoluta, assume-o ainda hoje  - é o caso da Grécia. Como - alguém duvida? - é o caso da Ucrânia. Como - houve um manifesto ainda há menos de um ano - muitos dizem ser o caso de Portugal. Vamos, pois, implementar proibições de concessão de crédito a países com dívidas públicas elevadas (digamos acima de 100% do PIB), de modo a limitar a acção dos especuladores? Vamos extinguir a Troika - e, de caminho, o FMI, inventado precisamente para emprestar dinheiro a países em situação crítica -, deixando cair (e desenrascar-se sozinho) quem tem de cair? Expurgado de exigências por parte de credores interessados em recuperar o dinheiro, o mundo ficará indubitavelmente um lugar muito mais bonito.

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O Munique ucraniano.

por Luís Menezes Leitão, em 16.02.15

Se há uma coisa que me deixa estupefacto é que como é que na União Europeia ninguém é responsabilizado pelo desastre a que conduzem políticas completamente disparatadas que os órgãos da União seguem acriticamente por pressão alemã com os resultados que estão à vista. Basta pensar que em Novembro de 2013 a Ucrânia era um estado democrático, que servia de tampão entre a Rússia e a União Europeia. Dividido entre uma zona ocidental, pró-europeia, e uma zona oriental, russófona, por vezes as eleições eram ganhas por um lado e outras vezes pelo outro, coisa que não perturbava o país, uma vez que os derrotados nessa eleição podiam calmamente esperar pela eleição seguinte.

 

A coisa mudou brutalmente em Novembro de 2013 quando uma manifestação ultra-nacionalista na Praça Maidan decidiu contestar a política do Presidente Ianukovich, eleito pelo Leste, e a sua recusa em assinar um acordo de associação com a União Europeia. Estranhamente a manifestação foi prontamente apoiada pela União Europeia, que não descansou enquanto não viu Ianukovich derrubado e em fuga, tendo rapidamente assinado o acordo de associação com o governo surgido da praça, cujo primeiro acto tinha sido proibir a língua russa no país. Acho que nenhum político europeu no seu juízo perfeito seria capaz de um disparate destes, mas na União Europeia há muito que o juízo anda a faltar

 

Como é óbvio, a Rússia não se ficou e anexou a Crimeia, vital para a sua frota do Mar Negro, e com uma esmagadora maioria de russos, e deu claro apoio às pretensões independentistas de Donetsk e Lugansk. O resultado foi uma violenta guerra civil na Ucrânia, e que nem uma tentativa de retorno à ordem constitucional, com a eleição de Poroshenko, conseguiu travar. Na verdade o Leste já não conseguiu participar nessa eleição e a tentativa de Poroshenko de submeter os rebeldes pela força das armas saudou-se num evidente fiasco para o desmoralizado exército.

 

O resultado foi este novo "acordo de Munique", agora em Minsk, que Merkel e Hollande, juntamente com Poroshenko, celebraram com Putin. Putin vence em toda a linha. A Ucrânia é obrigada a reconhecer a autonomia de Donetsk e Lugansk, incluindo a possibilidade de as mesmas terem relações directas com a Rússia. Estas regiões conservam os seus exércitos, já que só os combatentes estrangeiros devem abandonar a Ucrânia. E o exército ucraniano só voltará a ter controlo das suas fronteiras quando a Ucrânia alterar a sua constituição, reconhecendo a autonomia dessas regiões. Donetsk e Lugansk passaram assim a ter o mesmo estatuto da Ossétia do Sul e da Abkházia na Geórgia, sabendo-se que qualquer tentativa da Ucrânia para alterar o seu estatuto desencadeará uma intervenção semelhante à que a Rússia teve na Geórgia em 2008. Confesso que não acredito que Poroshenko consiga impor este acordo ao Parlamento ucraniano, pelo que só com uma ditadura na Ucrânia o acordo será respeitado. E duvido ainda mais que os rebeldes russófonos se fiquem, depois da vitória colossal que agora obtiveram, sabendo-se que agora basta um pequeno passo para ligar a sua região à Crimeia anexada pela Rússia. 

Em Munique Chamberlain também voltou para casa com um pedaço de papel que representava uma derrota colossal face a Hitler. Quando se viu o disparate que isso tinha sido, foi rapidamente substituído por Churchill. Merkel e Hollande também foram a Minsk, não sabe com que estatuto, mas obviamente em representação da União Europeia. Depois do resultado desastroso que trouxeram, não haverá condições para a União Europeia mudar estes protagonistas?

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O desconhecimento sobre a União Europeia.

por Luís Menezes Leitão, em 12.02.15

Eu dou plena razão a Paulo Almeida Sande: "Em todas as críticas sobre o euro há um défice profundo de entendimento sobre o que é a União Europeia (UE)". As pessoas deviam saber que a União Europeia tem um Presidente da Comissão, que é o Senhor Jean-Claude Juncker, que tem defendido as posições da União em forma totalmente independente dos Estados Membros. E tem também uma Alta Representante da União para a Política Externa e de Segurança Comum, a Senhora Federica Mogherini, que tem coordenado com elevado brilhantismo toda a política externa e de segurança comum na União Europeia.

 

Abaixo pode ver-se o mais recente sucesso da União Europeia, agora na obtenção de um acordo de paz na Ucrânia. Na fotografia são visíveis o Senhor Jean-Claude Juncker e a Senhora Federica Mogherini entre os presidentes russo e ucraniano depois da obtenção do acordo de paz na Ucrânia, que totalmente se deve ao trabalho exaustivo destes carismáticos dirigentes da União Europeia.

 

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Desperta, Europa

por Pedro Correia, em 06.02.15

Timothy Garton Ash no Guardian: «Este conflito armado [na Ucrânia] já provocou cerca de cinco mil mortos e mais de 500 mil desalojados. A Europa, preocupada com a Grécia e a zona euro, vai deixando outra Bósnia deflagrar à sua frente. Desperta, Europa. Se a História nos ensinou alguma coisa é que devemos travar Putin.»

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O xadrez de Putin

por Rui Herbon, em 01.09.14

Vladimir Putin joga xadrez na Ucrânia. Move peças e pensa na jogada seguinte, antecipa os movimentos do rival. Quer recompor o que em tempos foi o império dos czares e depois a poderosa União Soviética.

 

O problema mais sério da Rússia é a sua geografia. Um general de Catarina, a Grande, disse à imperatriz que a Rússia só estaria segura se de ambos os lados da fronteira houvesse soldados russos. Paradoxalmente, ou não, o país mais extenso sente-se inseguro. Por essa razão foi invadindo e conquistado territórios vizinhos.

 

Ao longo da sua história a Rússia foi vítima de sucessivas invasões de mongóis, suecos, prussianos, franceses e alemães. Os tártaros governaram o centro do seu território durante mais de dois séculos. Mas, como assinala Pushkin, ao contrário do que os árabes fizeram na Península, «não trouxeram a álgebra nem Aristóteles». A sua vulnerabilidade deixou à Rússia outro legado: o governo centralizado e autoritário, independentemente do regime. Como recorda Margaret MacMillan no seu livro sobre as causas da Grande Guerra, na história da Rússia descreve-se o povo russo, originário da Ucrânia, como «um povo em busca de um salvador». Um autor do século XII dizia que «toda a nossa terra é grandiosa e rica, mas carece de ordem. Alguém venha governar e reinar sobre nós».

 

O país mais extenso sente-se inseguro. A Ucrânia é para a Rússia o que Aachen foi para o império carolíngio ou o que Turin foi para a unidade italiana. Putin quer recuperar a Ucrânia. Ainda que lhe custe muito caro. Ainda que o poder se evapore. Este é o grande perigo de tudo quanto ocorre no leste desse país. A Rússia não quer estranhos num território que considera o núcleo fundacional de um grande império. Por isso Putin vai fazendo avançar as suas peças no tabuleiro com precisão de mestre. O problema é que estamos no mundo real, a lidar com seres humanos de carne e osso, e não com peças de madeira, vidro ou mármore.

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Os sonâmbulos.

por Luís Menezes Leitão, em 29.08.14
Aproveitei este período de férias para ler o livro Os sonâmbulos (The Sleepwalkers), de Christopher Clark, que explica perfeitamente como a Europa se deixou de disparate em disparate arrastar para a guerra em 1914, que levou à destruição dos países envolvidos e à reformulação geopolítica do continente. O autor demonstra claramente como a causa próxima do conflito, o tiro disparado pelo sérvio bósnio Gravilo Princip, foi afinal o simples rastilho de uma guerra que foi desencadeada pela inconsciência dos governantes europeus, que se deixaram arrastar de escalada em escalada até à guerra total.  

 

É precisamente o que hoje se está a passar na Ucrânia. Sempre achei que a questão ucraniana tem que ser tratada com pinças, uma vez que é um estado dividido ao meio entre um ocidente pró-europeu e um leste pró-russo e cuja importância estratégica para a Rússia é absolutamente decisiva. Lenine dizia que os soviéticos podiam perder a cabeça mas não podiam perder a Ucrânia e Putin tem exactamente o mesmo posicionamento. Precisamente por isso desde a queda de Ianukovitch que me parece que tudo se encaminha para um confronto directo do Ocidente com a Rússia. A situação poderia ter sido evitada com a eleição de Poroshenko, mas este optou por esmagar a rebelião de Donetsk e Lugansk pela força das armas, lançando o exército ucraniano contra os rebeldes. Ora, era evidente que Putin não iria permitir o esmagamento dos rebeldes russos na Ucrânia, pelo que quanto mais vitórias Poroshenko tivesse no terreno, mais se tornaria inevitável a intervenção da Rússia. No fundo, a situação não é diferente da guerra da Coreia, em que a tomada de Pyongyang por McArthur arrastou imediatamente a China para o conflito, obrigando os EUA a voltar a recuar para sul do paralelo 38, uma vez que a única alternativa — e que foi proposta por McArthur — era uma guerra nuclear dos EUA com a China.

 

 

Neste momento, já é a própria diplomacia alemã a reconhecer que a situação na Ucrânia ameaça ficar fora de controlo. O que me espanta é que a diplomacia alemã não se tenha apercebido disso desde o início. Mais uma vez, o que isto lembra é 1914. O Kaiser e o Czar trocavam telegramas em que se tratavam carinhosamente por Willy e Nicky, enquanto arrastavam os seus países para o apocalipse.

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Verão de 2014

por Rui Herbon, em 25.08.14

A Europa está de férias: as auto-estradas de França registam engarrafamentos de quilómetros, as pessoas procuram o mar ou refugiam-se nas montanhas, muitos andam colados ao seu telemóvel procurando saber o que ocorre no mundo — vivem a realidade a golpe de títulos mediáticos. Quando começou a Grande Guerra, faz agora cem anos, o escritor austríaco Stephan Zweig encontrava-se de férias perto do porto belga de Ostende. Relatava que os turistas se deitavam na praia junto às suas barracas de cores vivas ou se banhavam no mar, as crianças faziam voar os seus papagaios, os jovens dançavam frente aos cafés ou no passeio junto ao muro do porto. Toda a gente se divertia amigavelmente. 

 

Escreve Margaret MacMillan no seu livro sobre as causas que levaram à guerra de 1914-18 que em Maio do ano anterior, no breve interlúdio entre as duas guerras balcânicas, os primos Jorge V de Inglaterra, Nicolau II da Rússia e Guilherme II da Alemanha se reuniam em Berlim para o casamento da única filha do kaiser. Nada fazia pressagiar que dentro de um ano estariam os três em guerra, uma guerra que ninguém queria e que toda a gente temia fatalmente. Tentou-se travar a Áustria para que não declarasse guerra à Sérvia após o atentado de Serajevo, pressionou-se a Rússia para que não entrasse no conflicto em aliança com a França e a Inglaterra. O que um punhado de homens quis evitar sucedeu de forma calamitosa para toda a Europa: mais de nove milhões de mortos. Ninguém o queria mas todos, inclusive a opinião pública, se entregaram àquela carnificina humana com entusiasmo. 

 

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Outras perspectivas

por João André, em 21.07.14

A tragédia na Ucrânia é enorme, infelizmente não se limita apenas aos passageiros de um avião. Não sei se será um dia possível saber exactamente o que se passou com este caso. Provavelmente os rebeldes receberam uns mísseis terra-ar, umas instruções básicas sobre como os utilizar, e pensaram estar a abater algum avião militar ucraniano. Isto não desculpa nada, mas é importante saber aquilo que se está de facto a passar, até porque os separatistas (ou as forças armadas ucranianas) não teriam, qualquer interesse em abater um avião de passageiros.

 

É uma tragédia, como escrevi, mas a pior é que vai ocorrendo directamente no terreno. Os ucranianos vão sendo usados pela Rússia e Europa num combate geoestratégico pela dominância política na região sem que alguém pense nas consequências que tal tem nas pessoas em si. Como em muitos outros conflitos do género, o monstro começa a querer pensar pela sua própria cabeça e a sair do controlo do dono. Penso ser esse o caso com os separatistas e Putin, que poderá ter cada vez menos controlo sobre eles. Do lado do governo ucraniano é possível que se mantenha unido para já, a ver vamos o que sucede no futuro.

 

Entretanto vamos esquecendo outras consequências enquanto a Europa sua num Verão morninho. Dentro de uns meses começará o frio, ligar-se-ão os aquecedores na Europa Central e ver-se-à que não vem calor nenhum. Não haverá gás. Nos países ricos comprar-se-à gás aos EUA. Nos outros morrerão pessoas. Na Ucrânia... bom, difícil pensar. E entretanto a Rússia irá ficando sem dinheiro e cada vez mais entranhada em si mesma.

 

Houve no passado quem avisasse para o risco de uma balcanização da Rússia. Putin e o dinheiro do petróleo e do gás natural conseguiram impedir esse efeito - até agora. Quando passam 100 anos do início da Guerra Mundial de 1914-1945, talvez não seja má ideia lembrar nos equívocos que a iniciaram ao fim de um longo período de paz.

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Um crime é sempre um crime

por Pedro Correia, em 18.07.14

Foto Dmitri Lovetsky/AP

 

Foi ontem cometido um bárbaro atentado no espaço aéreo da Ucrânia contra um Boeing 777 que assegurava o voo 17 da Malaysian Airlines. Com 298 pessoas a bordo.

Um acto repugnante, sem explicação cabal nem justificação possível. Cobarde e vil, sem atenuantes de qualquer espécie.

Uma violação das mais elementares regras civilizacionais que nos devia revoltar até às entranhas. Porque um crime é sempre um crime. Não há crimes de "esquerda" ou de "direita", que mereçam a nossa tolerância ou a nossa benévola "compreensão" consoante o quadrante ideológico em que nos colocarmos.

Equacionar a questão de forma neutra é já ser cúmplice dos terroristas.

Verifico entretanto que nem o disparo de um míssil contra um avião civil que voava a dez mil metros de altitude assassinando passageiros inocentes (incluindo cerca de 80 crianças, que nunca terão ouvido pronunciar a palavra política) comove certas almas. Pelo contrário: alguns dos nossos leitores, confontados perante esta carnificina, discorrem tranquilamente sobre geoestratégia, política energética e a as "culpas" do Ocidente.

Como se levitassem no reino das abstracções. Como se ontem não tivesse acontecido nada.
Isto diz muito sobre os tempos actuais. E sobre as mentalidades do nosso tempo.

 

Leitura complementar: Inquérito internacional urgente sobre a queda de Boeing, do José Milhazes.

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A guerra civil ucraniana.

por Luís Menezes Leitão, em 18.07.14

 

É extraordinário que se insista em não ver o que é há muito tempo óbvio: a Ucrânia está numa situação de guerra civil, com combates sem tréguas entre as forças governamentais e os rebeldes russos. Nos últimos tempos tornou-se claro que as ambições terrritoriais russas se limitavam à Crimeia, pelo que uma vez conquistada esta, Putin deixou de se interessar por uma intervenção militar na Ucrânia, tendo inclusivamente pedido ao Parlamento a anulação da autorização para esse efeito. Tal não significa, no entanto, ao contrário do que inicialmente julgou Poroshenko — e que o levou a desencadear uma ofensiva militar — que tivesse decidido abandonar os rebeldes russos à sua sorte. Na verdade, o que o abate do avião malaio demonstra é que Putin está a armar os rebeldes russos na Ucrânia. Efectivamente, mísseis terra-ar não se compram num supermercado, pelo que, quando estão na mão de rebeldes, significa que há um país estrangeiro que lhes está a fornecer armas, neste caso obviamente a Rússia. A Rússia parece assim querer repetir na Ucrânia a estratégia dos EUA no Afeganistão após a invasão soviética. Formalmente não se envolveram no conflito, mas foram armando até aos dentes os militantes mujahidin, levando a que a URSS acabasse por decidir sair do Afeganistão. O problema dessa estratégia é que a guerra fica sem uma estrutura de comando definida, tornando-se muito mais brutal, com consequências imprevisíveis. O Afeganistão acabou por se transformar num Estado taliban, que deu apoio ao ataque de Bin Laden aos EUA. Se na Ucrânia já se chega ao ponto de abater aviões civis, imagine-se o estado em que o país vai ficar se esta deriva continuar. E com a sua importância estratégica para o transporte de gás à Europa, bem podem os europeus literalmente ficar arrepiados com o que se seguirá.

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O declínio do Ocidente.

por Luís Menezes Leitão, em 18.06.14

 

Enquanto anda tudo entretido com o Mundial há alguma coisa de novo a Leste. Em primeiro lugar, depois dos seus sucessos na guerra civil síria, a Al-Qaeda ameaça agora tomar conta do Iraque, pretendendo construir desde já um Estado islâmico radical nesse território, denominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, na versão inglesa). Será algo absolutamente novo e que demonstrará uma derrota absoluta dos Estados Unidos na denominada guerra contra o terrorismo. Na verdade, o que era até há pouco tempo apenas uma organização terrorista, com recursos consideráveis, é certo, mas sem qualquer base territorial, pode a partir de agora começar a gerir um Estado, a partir de território sírio e iraquiano, iniciando a realização da sua ambição de reconstituir o califado. Trata-se de algo muito mais ameaçador do que qualquer Saddam Hussein, mas a verdade é que Barack Obama não se mostra disposto a nova intervenção militar no Iraque, preferindo deixar os iraquianos à sua sorte. Aposto que vão ser presa fácil para a Al-Qaeda e que em breve um país com a importância estratégica do Iraque estará a servir para o desenvolvimento do terrorismo.

 

 

Na Ucrânia as coisas não estão melhores. Poroshenko, legitimado pela sua vitória eleitoral e estimulado pelo apoio da União Europeia, achou que uma situação altamente complexa como a que herdou podia ser resolvida com uma simples bravata. Garantiu resolver a questão no Leste numa semana, através de uma ofensiva brutal contra os rebeldes russos. A iniciativa era ridícula, uma vez que a manutenção do Leste ucraniano depende muito mais de concessões aos rebeldes, depois da desconfiança criada pelo golpe de Estado, do que de uma ofensiva militar. Era evidente que a Rússia não toleraria um massacre dos rebeldes pró-russos. Mas a reacção de Putin, apesar de curiosamente contida, foi extremamente eficaz. Limitou-se a cortar o gás à Ucrânia, matando com isso dois coelhos de uma só cajadada. Efectivamente, não apenas a Ucrânia vai ser economicamente muito prejudicada, como especialmente a Europa vai morrer de frio no Inverno, o que seguramente lhe vai arrefecer os ímpetos de intervir em zonas que Putin considera de influência russa. Naturalmente que, depois dessa resposta, a Poroshenko nada mais restou do que ir negociar com Putin, engolindo assim a bravata inicial.

 

 

De tudo isto resulta que estamos a assistir neste século XXI a um profundo declínio do Ocidente, associado a um ressurgimento islâmico e ao regresso da Rússia. E neste aspecto ter uma União Europeia exclusivamente dominada pela Alemanha é altamente contraproducente. Uma União Europeia só poderia ter força se efectivamente congressasse os povos europeus. Mas hoje, quando os líderes europeus acham que podem ignorar os votos dos cidadãos e escolher o Presidente da Comissão numa canoa num lago sueco, parece evidente que a Europa está neste momento a meter muita água. Por este caminho arrisca-se a ir ao fundo.

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O conflito entre a União Europeia e a Rússia.

por Luís Menezes Leitão, em 15.05.14

 

A crise na Ucrânia evoluiu de tal forma que está em risco de ocorrer uma guerra civil prolongada, que só não levará a uma intervenção externa se a Rússia não quiser. Sempre achei que foi uma grande ingenuidade a União Europeia ter-se envolvido nesta questão com o apoio precipitado a um grupo de manifestantes, que desencadearam um golpe de Estado para depor um governo hostil à União Europeia. O resultado foi a sua substituição por um governo hostil à minoria russa, que desencadeou a sublevação das regiões do país em que esta minoria reside. Depois da Crimeia, são agora as regiões de Donetsk e Lugansk que decidem em referendo a secessão da Ucrânia. Actualmente bem se pode proclamar a ilegalidade destes referendos, mas esta proclamação soa a estranho vinda de um governo eleito numa praça, e sabendo-se que a própria Ucrânia se proclamou independente da URSS graças a um referendo.

 

Como bem salientou Gerhard Schröder, a União Europeia nunca poderia assinar um tratado de associação com um país tão dividido como a Ucrânia sem acautelar os interesses da minoria russa. Por vezes as pessoas vivem em países tão etnicamente unidos que não compreendem que noutros países há questões muito sensíveis com minorias, que se vêem como próximas de Estados vizinhos, e que não aceitam uma política hostil a esses Estados. Neste momento, na Ucrânia a Europa é sinónimo de Alemanha, e o actual Governo é visto como um Governo pró-alemão e hostil à Rússia, que até inclui grupos nacionalistas radicais, como o Sector Direito e o Swoboda. Aliás, a sua primeira decisão foi proibir a língua russa no país. Só uma grande insensatez dos actuais dirigentes europeus é que podia levar à assinatura de um Tratado de Associação com um governo destes. O resultado disto vai ser a implosão da Ucrânia, e provavelmente não se vai ficar por aqui, uma vez que a Moldávia pode ser o próximo país a ser objecto de uma revolta da população russa.

 

É preciso ter consciência de que neste momento há uma clara disputa de zonas de influência entre a Rússia e a União Europeia. Esta ambiciona estender a sua influência até às fronteiras da Rússia. Por sua vez a Rússia ambiciona construir uma união euro-asiática, onde manteria as suas tradicionais esferas de influência. Já houve guerras que começaram por menos.

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A guerra no horizonte.

por Luís Menezes Leitão, em 27.04.14

 

Os antigos romanos, com a sua infinita sabedoria, diziam: "Si vis pacem para bellum". Ou seja, se queres a paz, prepara-te para a guerra. Infelizmente, no entanto, o actual Ocidente perdeu totalmente essa perspectiva e arrisca-se a deixar desencadear uma guerra mundial, por total incapacidade de previsão e antecipação das consequências das decisões estratégicas que tomou.

 

Barack Obama, talvez confortado por a Academia de Estocolmo lhe ter dado o Nobel da Paz mal se sentou no cargo, apostou totalmente no isolacionismo americano, abandonando a postura intervencionista que desde Reagan sem excepção os Presidentes Norte-Americanos vinham seguindo. O resultado, como não poderia deixar de ser, foi o de que a América deixou de ser temida no mundo, sem deixar de ser odiada. Hoje, qualquer milícia pró-Rússia na Ucrânia acha que pode livremente tomar reféns, da mesma forma que os estudantes iranianos tomaram a Embaixada Norte-Americana em Teerão durante a presidência de Carter, que se mostrou incapaz de fazer fosse o que fosse. E como se isso não bastasse, o inenarrável Presidente da Coreia do Norte insulta o Presidente Norte-Americano, ao mesmo tempo que prepara mais testes nucleares, sabendo-se bem com que fim.

 

Quanto à União Europeia, que tem mostrado durante a crise financeira que tem muito pouco de união e ainda menos de europeia, limita-se a satisfazer os desejos de hegemonia de Berlim. Precisamente por isso mergulhou de cabeça na crise ucraniana apoiando precipitadamente um governo de extremistas formado na Praça Maidan, o que teve como contraponto a revolta das populações russas do país. Depois de a Rússia já ter anexado o que lhe interessava, ou seja a Crimeia, sem precisar de disparar um tiro, assiste-se a uma verdadeira guerra civil, em que de um lado estão os "terroristas" e do outro os "nazis", enquanto os desgraçados dos observadores da OSCE são mandados para uma zona de guerra observar não se sabe o quê, sendo logo feitos reféns e qualificados como prisioneiros de guerra, sem que ninguém tome qualquer medida de retaliação.

 

Enquanto na Ucrânia e na Coreia do Norte os sinais de guerra são cada vez mais ameaçadores, a resposta do Ocidente continua a ser ridícula. As agências de rating consideram a dívida da Rússia como lixo financeiro, julgando que em caso de guerra os investidores continuarão a comprar dívida como se nada se passasse e a seguir os prestimosos conselhos destas agências. O Governo interino da Ucrânia acusa a Rússia de querer a terceira guerra mundial. E Obama acusa a Rússia de não levantar um dedo para resolver a crise ucraniana. Quanto à Europa, amarrada pelo colete de forças do euro, não tem quaisquer condições de ter a mínima presença militar, assobiando agora para o lado do sarilho que causou na Ucrânia. Continuem com os cortes orçamentais, deixem os países europeus sem defesa, e vão ver aonde vamos parar.

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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia (III).

por Luís Menezes Leitão, em 11.04.14

 

Este texto do Pedro Correia e este texto do Luís Naves justificam que volte ao assunto do que considero ser a irresponsabilidade europeia na Ucrânia e cujo resultado está à vista de todos. É muito fácil demonizar a Rússia como agressor, mas tal implica esquecer o óbvio: que a União Europeia apoiou um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que incluía partidos fortemente hostis à minoria russa. Ora, era manifesto que esta não deixaria de pedir auxílio a Moscovo e que a Rússia não iria ficar quieta. Basta olhar para o mapa acima para perceber o risco de guerra civil que o golpe poderia causar, ainda mais quando estimulado por uma União Europeia que prometeu mundos e fundos à Ucrânia, os quais não tem para dar a Portugal ou à Grécia.

 

 

A comparação com a II Guerra Mundial, ao contrário do que se afirma é bem elucidativa. O mapa acima demonstra, ao contrário do que se julga, a força com que a Alemanha saiu do tratado de Versalhes. É que anteriormente tinha vários impérios em seu redor, e depois passou a ter pequenos Estados, que facilmente poderia influenciar. Kissinger já uma vez escreveu que o grande erro de Hitler foi ter estado obcecado em travar uma guerra enquanto era novo. Bastar-lhe-ia esperar e conseguiria o domínio alemão na Europa, não por força das armas mas pelo poder económico.

 

Neville Chamberlain sabia perfeitamente disso, e acreditou ingenuamente que Hitler não precisava de uma guerra. Mas fê-lo por razões pragmáticas. Disse pura e simplesmente perante o ataque à Checoslováquia que, por muito que respeitasse a fraqueza de um Estado europeu perante um vizinho forte e poderoso, não podia envolver todo o Império Britânico numa guerra por esse motivo. A Inglaterra não estava disposta a uma guerra por causa da Checoslováquia, mas já estava por causa da Polónia. É assim que a guerra se inicia quando Hitler invade a Polónia, coisa que ele muito estranhou, pois quem queria combater no futuro era a URSS. E a intervenção da França e da Inglaterra na II Guerra foi um desastre, como se viu logo em Dunquerque, que levou a que a França fosse ocupada e logo a seguir a Inglaterra sistematicamente bombardeada. O que provocou a viragem na guerra foi a entrada dos EUA depois de Pearl Harbor e especialmente o ataque de Hitler à Rússia, que na altura pareceu um erro estratégico, mas que constituía o objectivo de Hitler desde o início. 

 

 

Ao contrário do que se refere, quem especialmente ganhou com a II Guerra foi a URSS, como se pode ver pelo mapa acima, que descreve a cortina de ferro de que Churchill se queixava, a qual aliás ainda foi prolongada com a adesão da Jugoslávia e da Albânia ao bloco comunista. A Inglaterra não só não conseguiu a libertação da Polónia, como também teve que dar o Império Britânico como perdido no momento simbólico em perdeu Singapura para o Japão, como Churchill também reconheceu. Já a URSS não cedeu um milímetro de território conquistado, empurrando a Polónia para Ocidente e dividindo a Alemanha. É assim que se dá por decisão dos EUA o ressurgimento alemão. Qualquer pessoa poderia olhar para este mapa e ver que não seria possível parar o avanço russo sem a Alemanha.

 

Quando se inicia a guerra da Coreia, o avanço comunista parecia imparável. Foi parado apenas por MacArthur, que com uma estratégia militar brilhante chegou a tomar Pyongyang. Só que isso desencadeou a entrada da China no conflito e ele viu que não podia derrotar o exército chinês. MacArthur pediu então a Truman para lançar bombas atómicas sobre a China, o que este recusou, por saber que isso implicava uma guerra nuclear com a Rússia. Na altura afirmou que a estratégia americana era limitar a guerra à península da Coreia e que MacArthur era demitido por não concordar com a estratégia. Ficou-se a saber que a URSS e a América travariam guerras ao domicílio mas não um conflito nuclear global. Mais uma estratégia de apaziguamento que não deixou libertar o quinto cavaleiro.

 

A excepção a esta regra era a Europa. Todos sabiam que não se podia ganhar uma guerra convencional na Europa contra o exército soviético, que em 36 horas podia ocupar todo o continente. Por isso ficou estabelecido que qualquer avanço russo teria como consequência uma resposta nuclear. Na altura foi dito que bastava um polícia da Alemanha de Leste perseguir um ladrão em Berlim Oeste, ou um carro de bombeiros do Leste vir ajudar a combater um incêndio em Berlim Oeste, para os EUA responderem com o nuclear. Kruschev dizia que Berlim eram os testículos do Ocidente, já que podia atacar em todo o mundo excepto em Berlim.

 

A queda do muro de Berlim permitiu a reunificação alemã e os governantes alemães, de Kohl a Merkel, não quiseram mais repetir o erro de Hitler. A conquista de influência já não precisava de ser militar, pois podia ser apenas económica. Só que isso podia implicar o desmantelamento de Estados, o que não deixaria de levar à guerra. Foi assim que a Europa, por influência alemã, apoiou a independência da Eslovénia e da Croácia, sabendo-se que a Sérvia iria reclamar os territórios ocupados pelos seus habitantes com uma inevitável guerra civil. Apoiou depois a indepedência do Kosovo, desde sempre um território sérvio, embora esmagadoramente ocupado por albaneses. A Rússia, tradicional aliada da Sérvia, e pela qual tinha travado uma guerra sangrenta em 1914, não reagiu.

 

Mas em 2008 tudo mudou. Quando a Geórgia decidiu pôr em causa a autonomia das suas províncias separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia a Rússia reagiu pela força militar, pelo que era óbvio que não deixaria de o fazer na Ucrânia. Por isso quando a União Europeia, especialmente por influência alemã, decidiu apoiar a colocação na Ucrânia de um governo hostil aos russos, Putin resolveu responder da mesma forma que a União Europeia tinha feito na Jugoslávia: apoiar a secessão de sucessivas regiões da Ucrânia, onde a população russa é considerável. Pelo caminho, propõe-se uma "federação", que depois facilmente se dissolve, como aconteceu na Jugoslávia.

 

É por isso que antes de a União Europeia se ter posto a apoiar golpes e governos extremistas na Ucrânia, devia considerar que a Rússia não é hoje a mesma que aceitou pacificamente o desmembramento da Jugoslávia e da Sérvia. A Rússia de hoje não vai abdicar de ter uma zona de influência própria e não vai aceitar a expansão da União Europeia para Leste. Quanto à União Europeia, o facto de ser um gigante económico não afecta o facto de continuar a ser um anão político, e pior ainda, um anão militar, que ainda por cima deixou de ter o guarda-chuva americano. Como bem escreveu Vasco Pulido Valente, "o Ocidente demonstrou ao mundo inteiro que recusa um novo conflito, na Ucrânia ou no pólo Norte: a América porque, ao fim de uma guerra perdida no Iraque e no Afeganistão, o eleitorado está maciçamente contra uma nova aventura; a Europa porque não tem dinheiro, nem poder militar para ameaçar ninguém (Obama até pediu que a França, a Inglaterra e a Alemanha investissem em armamento um pouco mais do que investem hoje)". Uma vez tive um encontro com um juiz do Supremo Tribunal Americano, que me confessou não acreditar na União Europeia, dizendo que a bandeira europeia só teria significado no dia em que aparecesse alguém disposto a dar o seu sangue por ela. A verdade é que continua a não haver ninguém disposto a esse sacrifício. Eu queria ver aqueles que agora criticam a Rússia pela sua intervenção na Ucrânia dispostos a alistarem-se num exército de defesa da Ucrânia contra a Rússia. No tempo da guerra civil espanhola houve muitos voluntários internacionais que combateram em Espanha. Hoje, não havendo nada disso, era preferível que a União Europeia tivesse algum sentido da realidade. Porque as pífias sanções económicas não assustam ninguém.

 

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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia (II).

por Luís Menezes Leitão, em 07.04.14

 

Como bem disse Vasco Pulido Valente sobre a crise na Ucrânia, "a América e a Europa saíram muito mal da suposta “confrontação” com Putin: sem unidade e sem iniciativa. Pior ainda: tão “apaziguadores” como os velhos de 1930, anunciaram em Bruxelas que reservam a sua verdadeira cólera para o caso de a Rússia persistir numa política de expansão, que Putin, por enquanto, rejeita. Mas que, se a confusão e a irresponsabilidade do Ocidente não acabarem depressa, não rejeitará sempre".

 

Está à vista de todos que o Ocidente hoje está num estado permanente de negação. A Alemanha entretém-se em mandar na Europa com base no seu incontestável poder económico, tendo reduzido à vassalagem todos os outros Estados membros. Julgou por isso que lhe bastaria apoiar o derrube do contestado Ianukovich para atrair também a Ucrânia definitivamente para a sua esfera de influência. E os órgãos da União Europeia foram totalmente atrás desta estratégia, sem perceber que assinar um acordo de associação com um Governo não legitimado nas urnas, e com a presença de extremistas, corria o risco de alienar totalmente o apoio da população russa, que não deixaria de pedir auxílio a Moscovo. Esta estratégia imponderada permitiu a Putin anexar a Crimeia num ápice, depois de uma pseudo-declaração de independência, cortando grande parte do acesso da Ucrânia ao mar. Agora é Donetsk que também ensaia uma pseudo-declaração de independência, naturalmente para cair logo a seguir nos braços da Rússia. Como já alguém previu "a Ucrânia só vai ficar com Kiev e com a parte ocidental. O resto é russo".

 

A Ucrânia era até há poucos meses um Estado perfeitamente viável que vivia em paz com todos os seus vizinhos. Hoje está a ser sucessivamente desmantelado, à vista de todos, perante uma Europa impotente para apagar o fogo que irresponsavelmente deixou atear. O mal da actual União Europeia é que os governantes habituaram-se a ir a despacho a Berlim, e não são capazes de fazer qualquer contraponto à estratégia alemã, por muito errada que ela seja. A Rússia pode ser muito mais pobre que a Alemanha mas tem uma força militar incomparavelmente superior, não havendo poder económico que resista ao soar dos canhões, especialmente quando o orçamento militar europeu foi cada vez mais reduzido. E não se pense que isto será um mero regresso à guerra fria. Esta guerra pode vir a ser muito quente, quase parecendo a situação de há cem anos. Neste momento basta uma centelha para deitar fogo à pólvora. 

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Ucrânia: a irresponsabilidade europeia.

por Luís Menezes Leitão, em 27.03.14

 

Ao contrário do que sustenta o Pedro Correia, parece-me evidente, como aqui escrevi, que o comportamento da União Europeia na crise ucraniana foi de uma gigantesca irresponsabilidade, especialmente devido à excessiva influência alemã na Europa. Como é óbvio, tal não implica considerar que a Rússia não tenha sido agressora neste âmbito, mas quem conhecesse um mínimo de lógica geopolítica sabia que isso iria acontecer e poderia e deveria tê-lo evitado. É isso o que se faz todos os dias na arena internacional onde, por muito que gostássemos, as coisas não são a preto e branco, e todos sabem que não se pode alterar o status quo sem haver consequências, podendo as coisas ficar muito piores.

 

Kissinger referiu que, durante a presidência de Nixon, os EUA foram avisados pela URSS de que poderia haver um litígio com a China. Em linguagem diplomática, isso significa que preparavam uma guerra, tendo tido a imediata resposta de que os EUA não ficariam indiferentes perante um ataque à China, o que levou a que a guerra não tivesse ocorrido. Em 1990 Saddam Hussein perguntou à embaixadora dos EUA o que pensava de um litígio entre o Iraque e o Kuwait tendo tido como resposta de que os EUA não tinham opinião sobre litígios entre países árabes. Naturalmente que o Kuwait foi invadido e os EUA viram-se obrigados a travar uma guerra com muitos mais custos neste âmbito.

 

Hoje sabe-se que os EUA, depois da crise e com a presidência Obama, deixaram de estar disponíveis para ser o polícia do mundo. Sabe-se também que a dissolução da URSS criou um seriíssimo problema de populações russas espalhadas pelas antigas repúblicas soviéticas, cuja protecção foi assumida por Moscovo, e que têm vivido de forma mais ou menos autónoma em relação ao país onde estão. Quando em 2008 a Geórgia decidiu ocupar pela força as suas regiões da Ossétia do Sul e da Abkházia, de maioria russa, teve imediatamente uma invasão da Rússia, tendo ficado bem claro para todos que a Rússia não deixaria de agir em defesa das suas populações, estivessem elas onde estivessem. E argumentar que a maioria era outra antes das deportações da época soviética, como sucedia com os tártaros na Crimeia, é anunciar que pode haver novas deportações, agora de russos. Só que não é possível fazê-lo sem entrar em guerra com a Rússia, como esta já deixou bem claro.

 

Todos sabiam isto quando começou a crise ucraniana. Ora, Ianukovich podia ser um bandido, mas fora eleito democraticamente, com os votos das populações russas, podendo ter sido substituído nas eleições subsequentes. Apenas porque ele tomou a decisão de não assinar o acordo com a União Europeia, foi deposto num putsch à antiga, e substituído por um governo de extremistas, formado na Praça Maidan, que declarou ilegal o uso da língua russa no país. Como é óbvio, esta atitude poderia atirar a Ucrânia para a guerra civil, pois é claramente uma declaração de guerra aos russófonos, dizendo-lhe que os seus votos já não contam pois o governo passa a ser eleito na praça. Alguém imagina que as populações russas não reagiriam e que a Rússia ficaria quieta? Imagine-se o que teria sido se em Portugal em 1975 dissessem ao resto do país que os governos iam passar a ser formados por uma manifestação de extremistas no Terreiro do Paço. O norte do país não aceitaria e o leste da Ucrânia também hoje não o admite, como se vê por esta manifestação em Donetsk.

 

O bom senso implicaria que a União Europeia tivesse imediatamente dito que o novo governo não era reconhecido e que só assinaria o acordo de associação com um governo democraticamente eleito por todo o país. Foram a correr reconhecer o novo Governo, prometeram mundos e fundos aos novos governantes, e já assinaram o acordo, só que já não sabem com que Ucrânia. É por isso evidente que a actuação europeia foi de uma enorme irresponsabilidade. Se isso não desculpa a invasão russa, também não deve levar a que não se apurem as responsabilidades europeias por este desastre. Desastre de que ainda só vimos o princípio, pois parece-me que a procissão ainda vai no adro. 

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Se a globalização torna mais difícil aos regimes de cariz autoritário esconderem os benefícios da democracia (actualmente tão pouco valorizados por quem deles goza), também lhes é útil em momentos de confronto político: no dilema entre proteger interesses económicos e fazer respeitar princípios, as democracias são sempre as primeiras a sacrificar os princípios.

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Putin mau, Putin bom

por Pedro Correia, em 12.03.14

 

Não há nada como mostrar músculo para ganhar popularidade. Ainda há um mês, Vladimir Putin recebia críticas de vários quadrantes pelas suas detestáveis tendências autocráticas que o levaram a promulgar leis discriminatórias dos homossexuais, banindo-os dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi -- os mais caros de sempre, orçados em 51 mil milhões de dólares (10 mil milhões acima das Olimpíadas de 2008 em Pequim).

Bastou-lhe invadir um país soberano, à margem do direito internacional e das regras de convivência civilizada entre países soberanos, para calar certas vozes críticas. Por estes dias tenho reparado no silêncio de alguns: tão indignados com Putin há um mês, tão complacentes com Putin agora.

Dizia Woody Allen, com irresistível ironia, que evitava ouvir Wagner para não sentir a tentação de invadir a Polónia. Apetece perguntar que música o autocrata russo gosta de escutar -- e também alguns dos que agora o apoiam, nem que seja apenas através do silêncio conivente perante a agressão russa à Ucrânia. 

Foto AP/Valentina Petrova

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Contra a lei de Talião

por Pedro Correia, em 10.03.14

 

 

Depois da Ucrânia, a Moldávia. Depois da Moldávia, os estados bálticos: o direito internacional pode ser hoje violado a todo o momento, na Crimeia ou noutro quadrante, porque já houve muitas violações no passado. Fantástica tese, que vou vendo repetida até por gente que me habituou a argumentar com inteligência noutras ocasiões.

Subjaz a este raciocínio que não devemos colher qualquer ensinamento dos erros -- e até dos crimes -- anteriormente cometidos. Esta visão do mundo que justifica as arbitrariedades presentes pela ocorrência de arbitrariedades passadas condena a Humanidade a uma eterna pena de Talião: olho por olho, dente por dente. E absolve de antemão futuros agressores, alegando que também eles terão sido vítimas. Ou, se não foram eles, terão sido os pais. Ou os avós.

Nada é para mim tão inaceitável como esta equivalência moral que alguns pretendem estabelecer entre quem agride e quem é agredido. Com estas premissas será sempre possível justificar as maiores atrocidades -- em qualquer época, em qualquer lugar.

A civilização começa no preciso momento em que recusamos com firmeza a lei de Talião e nos demarcamos sem ambiguidades de todos quantos a praticam, seja sob que pretexto for.

Foto Reuters

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Ucrânia: a história repete-se? (III)

por Luís Menezes Leitão, em 10.03.14

 

Há exactamente 75 anos, nas fronteiras da Checoslováquia, proclamava-se: "Camaradas alemães dos sudetas: a hora da libertação chegou. As nossas tropas preparam-se para colocar a vossa região sob a égide do Reich". Para as pessoas de etnia alemã, era o tempo da alegria. Para os checos, o da tristeza e das lágrimas. Mas, ao contrário do que se esperava, Hitler não parou nos sudetas. Ocupou Praga e declarou a todo o mundo que a Checoslováquia tinha deixado de existir. Ninguém se atreveu, no entanto, a contestar o poderio alemão. Apenas Churchill tinha avisado: "A crença de que se consegue a paz na Europa lançando aos lobos um pequeno Estado é um erro fatal".

 

 

Hoje os russos da Crimeia festejam a sua primavera russa, há tanto aguardada, ansiando pelo regresso à Mãe-Pátria da qual tinham sido separados em 1954. E as tropas russas lá estão para garantir que ninguém se oporá a esse desejo. E efectivamente ninguém parece ter capacidade para se opor. A União Europeia não existe politicamente, e está dependente do fornecimento do gás russo. Quanto aos Estados Unidos, acham que é um problema europeu, e não estão dispostos a intervir no mesmo, por muito que isso lese a União Europeia. Como disse a assistente do Secretário de Estado, Victoria Nuland, ao embaixador dos EUA na Crimeia "fuck the European Union".

 

Putin tem assim o caminho aberto para a anexação da Crimeia. Resta saber se vai parar por aí. Hitler não parou. Pensou naturalmente que se tinha conseguido obter os territórios checos, apenas devido a uma população levemente maioritária de alemães nos sudetas, o que o impedia de reivindicar Danzig, que tinha em 1939 uma população de 95% de alemães? Putin pode perfeitamente pensar o mesmo. Afinal, a Transnístria não fica assim tão longe e a Moldávia é muito mais fácil de vergar que a Ucrânia. Aguarda-se pelas cenas dos próximos capítulos.

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Sobre a Ucrânia (3)

por Pedro Correia, em 09.03.14

Ucrânia: a grande questão. Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

"Homenzinhos verdinhos" alargam influência na Crimeia. Do José Milhazes, no Da Rússia.

Úteis lições da História. De João Ferreira do Amaral, no 31 da Armada.

Jugocrânia. Do Luciano Amaral, na Crise Crónica.

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Crimeia, a coutada do novo czar

por Pedro Correia, em 07.03.14

 

Por enquanto as televisões, que filmam com crescentes precauções para evitarem ser alvos de represálias, ainda conseguem mostrar-nos fragmentos do que se passa na Crimeia ocupada manu militari por tropa russa sem insígnias: quem ousar por estes dias manifestar-se a favor da ligação à Ucrânia nas ruas de Simferopol é logo arrastado por bandos de jagunços incapazes de conviver com opiniões "dissidentes". Impossível ver ali sequer desfraldada uma bandeira ucraniana, confirmando-se não existirem condições mínimas de liberdade para realizar uma campanha referendária. Como pode haver um referendo minimamente credível sem campanha? E como pode realizar-se já no dia 16 -- ou seja, daqui a cinco dias úteis -- uma consulta popular com 30 mil militares e paramilitares russos a impor às urnas a vontade das armas?

Estes jagunços são todos homens e têm especial predilecção por agredir mulheres perante a passividade da tropa ocupante russa, que serve de guarda pretoriana às manifestações locais pró-Moscovo. Algo que dá que pensar, em vésperas de comemoração do Dia Internacional da Mulher. Não por acaso, a enviada especial da CNN à Crimeia viu-se hoje impedida de sair do hotel em reportagem.

Pior sorte teve o enviado das Nações Unidas: Robert Serry foi ameaçado por milícias armadas e forçado a rumar ao aeroporto. Isto enquanto o chefe do Governo da região autónoma, ferozmente pró-russo, chama "traidores" aos defensores da soberania ucraniana na península -- deixando assim bem evidente que não existem garantias de imparcialidade das autoridades locais para promoverem o referendo. Observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa foram impedidos de entrar na Crimeia, pelo segundo dia consecutivo, por elementos das forças especiais russas ali plantados como vigilantes de uma coutada -- a coutada particular do novo czar Vladimir Putin, que pretende anexar a Crimeia à maneira dos vetustos senhores feudais, exímios praticantes do direito de pernada.

 

Eis uma versão revista e actualizada da Lebensraum hitleriana: onde houver comunidades russas, Moscovo estenderá o seu domínio de fuzis em riste -- à revelia do direito internacional, que garante a integridade territorial e o exercício da soberania dos Estados cuja independência é reconhecida pela ONU. Mandando às malvas os direitos das minorias étnicas, tal como sucede na Rússia com as minorias sexuais.

Ao contrário do que pretendem alguns admiradores do presente exercício de musculatura do Kremlin, a Crimeia é um mosaico de línguas e etnias. Onde vivem russos (58%), ucranianos (24%) e tártaros (12%), entre habitantes de outras origens. E muito mais tártaros ali existiriam se nas décadas de 30 e 40 Estaline não tivesse sujeitado grande parte desta população a deportações em massa para a Sibéria e as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Menor para ceder mais "espaço vital" ao neocolonialismo russo.

 

Nada me surpreende em tudo isto excepto o aplauso basbaque de alguns autoproclamados "progressistas" à política de canhoneira do Kremlin. Tão velha como a mais antiga lei que remonta aos confins da História: a do mais forte.

A comovida homenagem que certo "progresso" faz ao retrocesso civilizacional nunca deixará de me espantar.

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Ucrânia: a história repete-se? (II)

por Luís Menezes Leitão, em 07.03.14

 

Depois do que aqui escrevi, a situação na Ucrânia evoluiu num sentido que parece ir conduzir à inevitável divisão do país, com uma parte do seu território, senão anexado, pelo menos sob tutela da Rússia. Efectivamente, a invenção da "democracia espartana" que passava por eleger um Governo na praça Maidan não passou de uma declaração de guerra aos ucranianos orientais. Depois de estes terem permitido com os seus votos a eleição de Ianukovich, as novas vanguardas revolucionárias pró-europeias declararam que esses votos deixavam de contar. Depois dessa declaração, é evidente que a Ucrânia oriental não reconheceria o novo regime, ao contrário do que precipitadamente fez a União Europeia. Quanto à Crimeia, esta sempre foi um terrritório russo, tendo sido "oferecido" à Ucrânia por Kruschev em 1954, oferta que o Parlamento Russo já tinha anulado logo após o fim da URSS, sem no entanto fazer de imediato a competente reivindicação territorial. Com a queda de Ianukovitch é evidente que a Crimeia faria a imediata secessão da Ucrânia, a que se poderão seguir os restantes territórios orientais. A partilha da Ucrânia está assim hoje em cima da mesa.

 

Em qualquer caso, parece evidente que o isolacionismo americano, instituído pela presidência de Obama, está a permitir um claro ressurgimento da Rússia. Ao contrário do que foi dito, não se trata, porém, de um regresso à guerra fria, como pretendem os saudosistas do back in the USSR. A Rússia de hoje não pretende criar um estado multi-nacional, através da expansão de uma ideologia pelo mundo. A Rússia de hoje pretende unir sob a sua bandeira os russos que vivem fora das suas fronteiras. É por isso que já tivemos a ocupação das províncias russófonas na Geórgia, e amanhã poderemos assistir à reivindicação da Transnístria na Moldávia ou mesmo à intervenção para protecção das minorias russas nos Estados Bálticos. A Rússia intervirá para proteger os russos, onde quer que eles se encontrem. E perante uns Estados Unidos distantes e uma União Europeia cada vez mais enredada nas suas próprias contradições, nada parece haver que a afaste desse objectivo. 2014 parece definitivamente uma reedição de 1914. A Europa, sem disso se aperceber, está a provocar o seu apocalipse. 

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Uma visão sobre a situação na Ucrânia

por João André, em 05.03.14

Antes de mais a ressalva: não sou especialista nem na Rússia nem na Ucrânia. Nunca lhes estudei a história nem as sociedades. Saberei talvez um pouco mais que o cidadão comum sobre os dois países e os seus povos, mas será apenas como "dano colateral" de certas incidências de vida. Conheço razoavelmente bem a personalidade dos eslavos em geral (e não especificamente de ucranianos e russos) devido às muitas amizades que tenho. Alguns desses amigos favorecem a Rússia, outros a Ucrânia, outros culpam toda a gente e outros estão-se completamente nas tintas. Feito o esclarecimento, fica a minha visão (longa).

 

Enquanto portugueses temos a visão dos países como territórios algo imutáveis, como entidades que são fundadas, poderão perder a sua independência por uns 60 anos mas que terão aquele desenho definido e inultrapassável. Talvez seja por isso que não nos enfurecemos quando vemos o país a perder soberania, mas isso é reflexão para outra altura. Os eslavos têm uma visão diferente: o país é aquele espaço físico onde vivem e que tem fronteiras policiadas e vigiadas e (geralmente) respeitadas mas que poderá não existir nessa forma por mais que uns 20 a 50 anos. Já a nação é um conceito diferente, que se prende à língua, à religião, ao sangue, às tradições e à história. Perceber esta distinção é fundamental para tentar entender aquilo que se passa na Ucrânia, ainda antes de tentar entender (dentro do possível) as acções de Putin.

 

Como já muita gente explicou, a Ucrânia é uma mistura de povos e é uma região fronteiriça (a mais habitualmente referida origem para o nome da Ucrânia indica que significa "na fronteira") onde vários impérios foram procurar novos territórios. É por isso que tem uma mistura de ucranianos e russos, os quais se distinguem através das linhas referidas acima. Apesar disso, esta distinção torna-se ainda mais ténue na Ucrânia: a língua, por exemplo, não é ainda um factor de diferenciação assim tão forte. Há muitos ucranianos não-russos que têm o russo como língua materna. O campeão da Alemanha, Vitali Klitchko é um deles. É resultado da acção russo-soviética que impôs a superioridade da Rússia a todos os seus estados. Aliás, não é por acaso que aquando do desmembramento da URSS e da CEI, que muitos desportistas ucranianos tiveram a opção de competir por outros países, sendo que alguns dos que o fizeram até nem eram "russos".

 

Quando a revolução ucraniana, sem pai nem mãe fora da Maidan, triunfou em expulsar Ianucovitch, muita gente ficou sem saber o que compreender. Os eslavos gostam de seguir cegamente os líderes em cavalos brancos. Em Maidan os líderes eram eles próprios e a única coisa que (per)seguiam era o fantasma de alguém detestado. Quando ele caiu, apareceram vários cavaleiros no horizonte, mas nenhum deles inspira muita confiança - pelo menos para já. No vazio de poder instalado, alguns arrivistas decidiram marcar presença tratando de ódios antigos: um deles os russos, os quais eram protegidos pelo regime cleptómano de Ianucovitch. Vai daí e avança-se com uma lei para remover o russo da lista de línguas oficiais das zonas de maioria russa.

 

Pelas razões que mencionei acima, e vendo algumas Banderas (sem gralha) em Maidan, os russos (que como bons eslavos têm uma memória colectiva muito longa e selectiva) viram a lei como a primeira salva de um ataque contra eles. Mesmo sem alguma vez tendo colocado os meus pés em terra ucraniana, penso que não exagerarei ao dizer que imaginariam já os soldados a caminhar em direcção a eles para os deportar ou assassinar. Perante esta situação, e porque o pânico ganha rapidamente uma vida muito própria, os russos ucranianos pediram de imediato auxílio aos seus "irmãos" do outro lado da fronteira.

 

E aqui trago à acção Vladimir Putin. Putin tem poder porque poderia ter sido ele próprio o Príncipe de Maquiavel, porque tem o dinheiro do petróleo e gás a apoiá-lo e porque compreende (ou compreendeu no passado, actualmente tenho dúvidas) o pensamento do russo comum. O russo comum, mais uma vez tal como os outros eslavos, tem uma memória selectiva que o faz lembrar as glórias do passado. Enquanto Portugal olha para o passado e vê o fracasso, o russo olha para o passado e vê o sucesso. O português vê o sucesso e pensa: foi bom enquanto durou. O russo vê o sucesso e pensa: é o nosso direito natural. Putin percebe-o e é por isso que mesmo num país autocrático, com liberdades cada vez mais reduzidas, com carências cada vez mais evidentes e que os petro-rublos já não maquilham, continua a ter um poder inigualável. Putin faz os russos pensarem que não estão tão mal - no palco mundial - como no passado e isso vale quase tanto para um russo como liberdade ou pão.

 

Quando Ianucovitch indicou que poderia aceitar a proposta europeia, Putin (que, como referido neste artigo, tem uma visão de soma-zero da geopolítica) colocou imediatamente pressão sobre a Ucrânia para evitar aquilo que via como perda de poder e perda de face. Quando Ianucovitch fugiu, Putin inicialmente esperou para ver. Quando a lei acima mencionada passou, Putin soube que tinha de agir: não para proteger os seus "irmãos" russos, mas para passar a ideia à sua população que o estaria a fazer. É também nesta perspectiva que tem que se entender a propaganda russa na Rússia, muito mais agressiva que aquela que tenta passar para fora do país. Tem que passar a mensagem que está a proteger a Mãe Rússia, a Rodina.

 

Outro aspecto fundamental a lembrar é o facto de ser na Crimeia que a Rússia tem a sua base naval do Mar Negro. Perdê-la seria um golpe duríssimo em termos estratégicos e um enorme problema em termos tácticos (imagine-se a quantidade de infraestrutura que poderia estar subitamente disponível para inspecção por parte de estrageiros). O pior golpe seria, mais uma vez, na imagem da Rússia. Ao perder um símbolo do seu poder militar, Putin estaria a demonstrar fraqueza interna. Isso seria o equivalente a perder o poder de todo. Putin, como se depreende pela sua história pessoal, nunca estaria na disposição de o aceitar. As suas soluções para os problemas interno são sempre as mesmas: dinheiro do petróleo e força. Com o dinheiro a ser rejeitado (e a não poder ser oferecido de novo - na sua lógica pessoal), sobrava a força. Daí o avanço para a Crimeia.

 

Putin tem uma fraca percepção de certos aspectos da realidade moderna, especialmente da força da internet e da forma como esta permite que a informação flua. Vê-a, com tiques de espião, como um truque dos seus inimigos - e por extensão da Rússia também - para desestabilizar o país. Por isso não percebe de imediato que a sua propaganda é transparente. Compreende no entanto que não pode recuar sem obter certas concessões. Por isso, e porque como um bom jogador de xadrez precisa de dar oportunidade ao adversário para mover as suas peças, espera agora para ver o que o Ocidente - e a Ucrânia - lhe oferecem.

 

Tenho uma visão singular destas crises geopolíticas: qualquer solução pacífica é preferível à guerra. Ou, por outra, uma má paz é preferível à melhor guerra. Assim sendo, o Ocidente deveria simplesmente abster-se de atiçar mais a fogueira. Não deve, de maneira nenhuma, recuar no seu apoio à revolução ucraniana - sob pena de perder outro país - mas deve aconselhar prudência. O melhor a fazer agora seria a Ucrânia reconhecer o erro da lei que retira o estatuto de segunda língua ao russo e sublinhar que respeita a população russa da Crimeia como russos e como sendo parte integral da Ucrânia. Ao mesmo tempo, deveria reafirmar o respeito pelo acordo que permite a presença naval russa. Note-se que Putin rejeita que os soldados na Ucrânia sejam soldados regulares russos. Isto não é - na minha perspectiva - simples propaganda. É, antes de mais, uma jogada que lhe permite retirar os soldados sem que alguma vez tenha invadido o país. É essencialmente uma jogada legal, mais que qualquer outra coisa. Isso dá espaço de manobra à Rússia, à Ucrânia e ao Ocidente.

 

Com o tempo Putin terá de sair. Talvez acossado pelas multidões de alcatrão e penas nas mãos - à semelhança do fantoche Ianucovitch - ou talvez por pressão ocidental. Seja como for, este não é o momento para forçar essa saída. Porque Putin, como qualquer animal acossado, pode tornar-se perigoso. E as principais vítimas seriam os ucranianos, independentemente de que lado linguístico estejam.

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a sério?

por Patrícia Reis, em 04.03.14

Obama diz que Putin não engana ninguém.

Na televisão, um jovem estudante ucraniano, a viver em Portugal tenta explicar a razão pela qual um conflito terá repercussões no ocidente. A jornalista ignora e pergunta se são muitos os que se manifestaram em frente à embaixada russa.

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Sobre a Ucrânia (2)

por Pedro Correia, em 03.03.14

Desinformação para justificar erro de cálculo russo. Do José Milhazes, no Da Rússia

Outros tempos. Do Luís Naves, no Fragmentário.

As invasões boas. Do Rui Bebiano, n' A Terceira Noite.

Um luxo ao alcance de poucos. Do Paulo Gorjão, na Bloguítica.

"Events, dear boy, events!" De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

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Sobre a Ucrânia

por Pedro Correia, em 03.03.14

Le Monde:

«Appelons les choses par leur nom: la Russie vient de s'emparer de la Crimée, territoire appartenant à l'Ukraine. Elle l'a fait par la force, au mépris du droit international et de tous les traités qu'elle a elle-même signés. C'est un acte de guerre froide. Il est signé Vladimir Poutine.»

 

New York Times:

«The United States and the European Union have few effective levers short of military force, which is not an option, to compel President Putin of Russia to back down, but they must make clear to him that he has stepped far outside the bounds of civilized behavior, and that this carries a steep price in international standing and in economic relations.»

 

El País:

«En escenarios tan volátiles y emocionalmente cargados, cualquier incidente puede desencadenar una situación fuera de control. Nada es más urgente, en línea con lo advertido ayer por Washington y la OTAN, que Moscú deje de pretender obtener ventaja de los acontecimientos. Putin debe hacer buena su promesa de cooperar con Occidente para atajar la crisis de Ucrania.»

 

Corriere della Sera:

«Le acrobazie di Putin, per quanto brillanti, non possono nascondere la distanza che separa una rivolta popolare da un intervento armato. Non possono mascherare quella che da parte russa è una reazione ampiamente prevedibile, ma non per questo meno inaccettabile.»

 

Guardian:

«The scale of the Kremlin's duplicity is breathtaking, but hardly a shock. Mr Putin's Russia, lest we forget, is a country where human rights are trampled on, pro-democracy demonstrators frequently beaten up or jailed, reporters can be murdered, newspapers shut down and inquisitive foreign journalists harassed and expelled.»

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A chamada

por Rui Rocha, em 03.03.14

 

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Alguém sabe como se diz Lebensraum em russo?

por Pedro Correia, em 02.03.14

O espaço vital russófono e russófilo, tal como é entendido por Vladimir Putin, faz evocar as piores recordações do século XX na Europa.

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Crimeia

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.03.14

O problema ficou resolvido em Yalta. Quem não perceber isto, salvo o devido respeito, não percebe nada de História. Nem de política.

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O golpe mau e o golpe bom

por Pedro Correia, em 28.02.14

O PCP, em sintonia com a Rússia de Putin, condena firmemente aquilo a que chama "autêntico golpe de Estado" na Ucrânia. Mas houve um tempo em que os comunistas portugueses apoiavam golpes de Estado. O de 19 de Agosto de 1991, por exemplo -- tentativa desesperada da velha guarda soviética de travar o passo às reformas de Mikhail Gorbatchov, resistindo a todo o preço ao desmoronamento da ditadura. Três dias depois, a golpada malogrou-se. E a obsoleta União Soviética recebeu aí o seu dobre a finados.

"Quando um dos meus colegas da rádio me comunicou que o Partido Comunista Português tinha anunciado o seu apoio ao golpe, não senti espanto, mas alívio, porque eu já não fazia parte dessa organização. Caso contrário, talvez tivesse morrido de vergonha ao confirmar que a miopia política dos dirigentes comunistas portugueses era bem maior do que eu imaginava. Depois caiu a noite trágica de 19 para 20 de Agosto, quando os tanques esmagaram mortalmente três jovens que lhes tentaram cortar o caminho para a Casa Branca, lugar onde se encontrava Boris Ieltsin", lembrou José Milhazes no seu blogue, Da Rússia.

Vinte anos depois, o PCP ainda chorava a "desagregação da URSS", confirmando nada ter aprendido. Nem com os próprios erros nem com as lições da História. Não admira por isso que os comunistas portugueses sejam os últimos defensores do indefensável: a Coreia do Norte, governada há sete décadas com punho de ferro pela dinastia Kim, monarquia vermelha que continua a merecer um indecoroso aplauso do "partido irmão".

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Enquanto a presumível futura presidente vai a tratamentos talvez nalguma clínica do Bundestag, outro candidato tem em casa a mais alta condecoração civil alemã. Pelo meio, a populaça da praça decidiu suspender a democracia e optar por processos revolucionários que bolcheviques e SA's não desdenhariam. O próximo passo, imagino, será um enforcamento público, talvez juntamente com alguma amante.

 

A coisa ainda poderá correr bem, mas a cada dia duvido mais.

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Aqui escrevem os comunistas puros e duros. Sem punhos de renda, como antes da queda do Muro de Berlim. Com linguagem típica de Guerra Fria. Querem derrubar nas ruas o Governo português, que recusam qualificar de democrático, aplicando a cartilha marxista-leninista sobre "violência revolucionária". Enquanto se enfurecem ao ver as ruas da Ucrânia e da Venezuela encherem-se de protestos do povo, a quem não hesitam em chamar fascista.

 

Sobre Portugal:

«Urge apressar o derrubamento deste governo de máscara democrática que é na prática uma ditadura do capital.»

Sobre a Ucrânia:

«Uma vaga de anticomunismo selvagem varre grande parte da Ucrânia. Na capital e nas cidades da Ucrânia Ocidental, organizações de extrema-direita praticam crimes abjetos, perante a passividade do exército e das polícias. Desde o III Reich nazi que não acontecia algo comparável na Europa. O fascismo exibe na Ucrânia, com arrogância desafiadora, a sua face hedionda.»

Sobre Portugal:

«Anima-me a convicção de que o povo português, ao reencontrar-se com a História, volte em breve a assumir-se como sujeito. O aumento torrencial das lutas sociais e da combatividade das massas reforça a esperança de que os trabalhadores, liderados pela CGTP, se mobilizem para enfrentar e afastar do poder os que hoje os oprimem, roubam e humilham.»

Sobre a Venezuela:

«Uma campanha de desinformação, que envolve os grandes media dos EUA e da União Europeia, transmite diariamente a imagem de uma Venezuela onde a violência se tornou endémica, manifestações pacíficas seriam reprimidas, a escassez de produtos essenciais aumenta, a inflação disparou e a crise económica se aprofunda. Ocultam a realidade. Quem promove a violência é a extrema-direita, quem incendiou lojas da Mision Mercal que vende ao povo mercadorias a preços reduzidos, quem saqueia supermercados é essa oposição neofascista que se apresenta como "democrática".»

Sobre Portugal:

«A demissão deste governo, que há muito já deveria ter ocorrido, torna-se cada dia mais urgente. Não é previsível que Cavaco Silva assuma – como não assumiu outros – o dever constitucional de o fazer. Está nas mãos e na luta do povo realizar essa tarefa essencial de saneamento político e democrático.»

Sobre a Ucrânia:

«Os desmandos e violências em curso dos grupos fascistas são inquietantes. Nas cidades que controlam destruíram estátuas de Lenine, ilegalizaram o Partido das Regiões (que apoiava o Presidente) e o Partido Comunista da Ucrânia e em alguns casos fecharam as suas sedes. É transparente que o fascismo ucraniano exibe o seu rosto hediondo.»

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Ventos da Ucrânia

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.02.14

"The Ukrainians are free, how long will we Chinese have to wait?"

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Os "indignados" são "fascistas"

por Pedro Correia, em 22.02.14

Anadaram anos a proclamar: "Todos na rua". Elogiando, entre exclamações de júbilo, as grandes manifestações populares de "indignados" no Brasil e na Turquia, por exemplo. Já sem falar em Portugal. Porque "é na rua que se consegue mudar a realidade".

No entanto, agora que o povo desceu à rua na Ucrânia já não há gritos de incentivo à insurreição geral. Pelo contrário, reina por ali o temor de que os protestos em Kiev sejam "aproveitados pelas grandes potências para instaurar um regime autoritário piloto na Ucrânia".

Nuns quadrantes, o povo na rua é genuinamente "indignado". Mas na Ucrânia é "fascista". Devia ter ficado em casa em vez de sair à rua. "Quem está a apoiar as milícias fascistas?", interroga-se um temeroso João Labrincha no 5 Dias, que por estes dias está irreconhecível. Chega-se ali ao ponto de haver quem se arrepie por ter visto "manifestantes a dar na polícia" em Kiev. Pela mesma voz que há poucos meses bradava de indignação contra a "força desproporcional" da polícia em Lisboa.

Nas caixas de comentários daquele blogue, vai-se ainda mais longe. Com um horror quase patológico de ver o povo na rua, escreve alguém: "O que se está a passar na Ucrânia faz parte dos objectivos do domínio global por parte do imperialismo. Nada a ver com direitos humanos, democracia ou coisa que se pareça."

Assim se atinge o patamar supremo do cinismo em matéria de opiniões políticas: chamar-se "indignados" a quem protesta nuns países e "fascistas" a quem protesta noutros, consoante conveniências ideológicas ou de trincheira.

Quem assim procede parece que nunca leu Brecht, que tem uns versos aplicáveis à situação actual da Ucrânia: "O povo perdeu a confiança do governo / E só à custa de esforços redobrados / Poderá recuperá-la. Mas não seria / Mais simples para o governo / Dissolver o povo / E eleger outro?"

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Ja som Ukrajinec

por Pedro Correia, em 22.02.14

 

Na Ucrânia, por estes dias, não se luta apenas nas ruas e nas praças. As batalhas da propaganda política também são decisivas, com o recurso às novas tecnologias. Este vídeo, por exemplo, teve rápida difusão mundial: já recebeu 3,5 milhões de visualizações.

Dois minutos: não é preciso mais. Uma jovem chamada Yulia difunde a mensagem, clara e directa, recorrendo à técnica do vivo televisivo: "Queremos ser livres".

É quanto basta para o essencial ficar dito. E para o eco se propagar: "Ja som Ukrajinec".

Um marco na luta contra o Governo de Kiev. E uma lição de eficácia comunicacional também.

Publicado também aqui

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Ucrânia: A história repete-se?

por Luís Menezes Leitão, em 20.02.14

Foto: Louisa GouliamaK/AFP 

 

As esperanças da Ucrânia à independência e até a uma eventual integração na União Europeia estão hoje reduzidas a cinzas. Tristemente isto parece ser o destino histórico do povo ucraniano. A dissolução da URSS, a que assistimos a partir de 1991, parece ter sido apenas um compasso de espera que permitisse a reconstituição do Império Russo, a que Vladimir Putin se tem dedicado com enorme esmero. O curioso é que parece estar-se a repetir ao inverso o que ocorreu no início do século XX em que a dissolução do Império Russo em 1917 parece ter sido apenas um ensaio que permitisse a construção da URSS. Em ambos os casos a Ucrânia não consegue escapar à órbita russa.

 

Após a revolução de Fevereiro de 1917, Lenine apareceu a apoiar as aspirações de autonomia da Ucrânia, criticando o governo de Kerenski por as procurar travar. Quando chegou ao poder, a ambição de parar a guerra com a Alemanha levou-o a assinar o tratado de Brest-Litovsk que, reconhecendo uma independência formal da Ucrânia, na prática a entregava aos alemães. A subsequente derrota da Alemanha permitiu-lhe a recuperação dos territórios entregues, tendo exigido durante a guerra civil que se seguiu uma defesa intransigente da Ucrânia. Ficou nessa altura célebre uma frase que terá proferido: "Se perdermos a Ucrânia, perdemos a nossa cabeça".

 

Sob a tutela de Estaline, a Ucrânia foi absolutamente massacrada, tendo sido objecto de um dos mais esquecidos genocídios da história, o Holodomor. Efectivamente, mal assume o poder Estaline decide quebrar quaisquer aspirações independentistas dos ucranianos. No Inverno de 1932-1933, decide mesmo esmagar a população pela fome estimando-se que cerca de 10 milhões de ucranianos tenham morrido de fome, como é aqui recordado. Estaline explicaria a sua decisão através de uma citação que ficou tristemente célebre: "A morte resolve todos os problemas. Sem o homem não há problema".

 

Crianças ucranianas na grande fome de 1932-1933 

 

A Ucrânia foi nessa altura objecto igualmente da cobiça de outro torcionário. Conforme Hitler escreveu no Mein Kampf, considerava seu objectivo de vida recuperar para a Alemanha todos os territórios que o Kaiser tinha obtido em Brest-Litovsk, incluindo naturalmente a Ucrânia. Por isso, logo após que conseguiu vencer na frente ocidental europeia, atacou a União Soviética, chegando a ocupar a Ucrânia. Depois de Estalinegrado, os soviéticos esmagaram a Alemanha, ficando claro que iriam dar as cartas no pós-guerra. Por decisão de Estaline, a Ucrânia foi logo admitida nas Nações Unidas, juntamente com a URSS e a Bielorússia, apenas para efeito de ter três votos na Assembleia Geral. Tal facilitou, no entanto, a independência ucraniana aquando da dissolução da URSS pois já era membro da ONU.

 

Após a independência, a Ucrânia tem vivido numa hesitação entre a esfera de influência da União Europeia e a da Rússia, que normalmente se reflecte numa correspondente divisão do seu território entre um ocidente mais pró-Europa e um oriente mais pró-Rússia. Parece, no entanto, que agora o todo-poderoso Senhor do Kremlin quer cortar quaisquer veleidades pró-Europa, nem que para isso tenha que efectuar um brutal massacre da população, na esteira de Estaline. A União Europeia é que parece assistir impotente a isto, tendo-se limitado a aprovar umas sanções simbólicas quando os mortos já atingiam a centena. Na verdade, nada pode fazer. Além do enorme armamento de que a Rússia dispõe, há a enorme dependência que a Ucrânia e vários Estados Europeus têm do gás russo. Depois da intervenção na Geórgia em 2008, a reconstrução do Império Russo vai de vento em popa. 

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Ucrânia também é Europa

por Pedro Correia, em 19.02.14

 

"Há um sonho que vos une, gente da Praça Maidan, e esse sonho é a Europa. Não aquela Europa cansada de si própria, que duvida da sua vocação e do seu sentido, mas uma Europa apaixonada, efervescente, heróica."

Da mensagem dirigida por Bernard-Henri Lévy aos manifestantes de Kiev, cidade em chamas

Foto Associated Press

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