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A pergunta inútil de Dezembro

por Pedro Correia, em 03.12.17

« Já começaste a fazer as compras de Natal»

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A pergunta inútil de Novembro

por Pedro Correia, em 05.11.17

« Não te aborrece que às seis já seja de noite»

 

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"Fogo amigo" contra Ronaldo

por Pedro Correia, em 24.10.17

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Dizem-me que as "redes sociais" cá do burgo se encheram nas últimas horas de tugas indignados a disparar sarcasmos em diversos tons contra Cristiano Ronaldo, ontem eleito pela quinta vez melhor profissional de futebol do mundo. Preferiam talvez o argentino Messi, como se o nosso compatriota não tivesse conquistado só neste último ano a Liga dos Campeões, o campeonato espanhol e o Mundial de clubes, além de ter integrado a selecção portuguesa que subiu ao pódio da Taça das Confederações.

É sina nossa: quando alguém cá nascido e aqui criado se destaca, erguendo-se acima da mediania, logo sente os conterrâneos a crivá-lo de "fogo amigo", com palavras quase tão mortíferas como punhais. A inveja é uma espécie de passatempo nacional exercido com prodigalidade. E quanto mais alto está o alvo, mais se enfurece a legião de detractores.

Uma das críticas recorrentes a Cristiano Ronaldo, no vespeiro das redes, relaciona-se com o idioma: acusam-no de ter um domínio insuficiente do português. Tomaram muitos destes anónimos internautas que o apontam de dedo em riste - analfabetos funcionais - exprimirem-se tão bem não apenas na nossa língua mas também em inglês e castelhano, como se expressa o mais célebre n.º 7 do futebol à escala planetária.

Por mim, gostaria de ver muitos dos nossos políticos, que mal chegam a Badajoz desatam logo a palrar "estrangeiro", comunicar em português perante plateias internacionais como ontem Ronaldo fez na gala da FIFA, recorrendo com orgulho ao idioma de Camões com o mundo a escutá-lo. Senti-me orgulhoso enquanto compatriota. E senti também orgulho pelo miúdo pobre do Funchal que subiu a pulso no desporto e na vida, à custa de muito talento, muito esforço e muito brio. Dando autênticas lições de tenacidade a milhões de meninos pobres que sonham conseguir o mesmo nos mais diversos recantos do planeta.

Tento imaginar os adeptos argentinos a torcer por Ronaldo enquanto lançam impropérios a Messi. Não consigo: esta é uma originalidade cá do torrão, nada transmissível. Padecemos de endémica alergia ao mérito enquanto prestamos tributo recorrente à mediocridade mais rasteira. Se existe sintoma do nosso atraso estrutural, no capítulo das mentalidades, é precisamente este. Que nos tem levado, geração após geração, a marcar golos consecutivos na própria baliza.

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Manchetes de antologia (1)

por Pedro Correia, em 20.10.17

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Salvo melhor opinião, a manchete de hoje do Correio dos Açores, que aqui reproduzo com a devida vénia, desrespeita alguns princípios básicos da técnica jornalística:

1. Evitar sobrecarregar um título com dados estatísticos;

2. O mais importante deve ser mencionado logo de início, não no fim;

3. Inútil usar 12 palavras quando bastariam cinco: "Perde testículo em Ponta Delgada".

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A fina flor da República

por Pedro Correia, em 13.10.17

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Cinco arguidos da Operação Marquês foram distinguidos por Presidentes da República:

 

Henrique Granadeiro. Ramalho Eanes condecorou-o com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo (1979).

José Sócrates. Recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique das mãos de Jorge Sampaio (2005).

Armando Vara. Agraciado por Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2005).

Helder Bataglia. Feito comendador da Ordem do Infante D. Henrique por Cavaco Silva (2007).

Zeinal Bava. Cavaco Silva atribuiu-lhe a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial (2014).

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A pergunta inútil de Outubro

por Pedro Correia, em 30.09.17

 

« Já reparaste que os dias estão mais pequenos»

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A pergunta inútil de Setembro

por Pedro Correia, em 03.09.17

 

« Então as férias foram boas»

 

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Flagrantes do país real

por Pedro Correia, em 25.08.17

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 Foto António José/Lusa

 

O País continua a arder pelo terceiro mês consecutivo. Há incêndios nomeadamente em Oleiros, Guarda, Sertã e Sabrosa, combatidos por 2254 bombeiros e 21 meios aéreos. Só ontem, mais seis bombeiros ficaram feridos - um deles em estado muito grave, forçando a sua evacuação para o hospital de Santa Maria, em Lisboa - e pelo menos oito habitações foram destruídas pelas chamas que vão cercando aldeias e devastando áreas florestais e agrícolas. A Polícia Judiciária já deteve 78 pessoas, número que quase duplica o do ano passado por esta altura. Não admira: segundo o presidente da Liga dos Bombeiros, "há mão humana em 98% dos incêndios e 80% têm origem criminosa".

A Comissão de Inquérito à tragédia de Pedrógão, que provocou 65 vítimas mortais, prossegue o seu pachorrento trabalho: as conclusões hão-de vir lá para o cair da folha outonal, passados os calores estivais e as eleições autárquicas. À espera que o tempo decorra, e que os fogos se apaguem naturalmente pela chuva que um dia há-de chegar, o Governo tarda em encarar de frente o problema, que exige medidas drásticas, incluindo a reposição das extintas equipas de guardas florestais e a formação de um corpo profissionalizado de bombeiros especializados no combate permanente a estes fogos. Não nos iludamos: está em curso uma calamidade ambiental e climática. Enfrentamos um autêntico atentado à segurança nacional, como bem acentuou Viriato Soromenho-Marques, aconselhando o Executivo a "decretar um longo estado de emergência nas áreas florestais".

Podemos esperar sentados: assim que os órgãos de informação se cansarem de vez de reportar o rasto destruidor dos incêndios no Portugal mais pobre e desprotegido, a Lisboa mediática retomará, festiva e faiscante, as prioridades tribais que a formatam durante quase todo o ano, em circuito fechado, ditadas pelo amiguismo travestido de jornalismo. Talvez por isto, os diários vendem cada vez menos e vários vão-se arrastando em dolorosa agonia, enquanto os noticiários televisivos perdem espectadores a ritmo acelerado.

O país profundo, o que não se movimenta no eixo Chiado-Príncipe Real nem tem protagonistas a monopolizar cabeçalhos e setas viradas para cima na imprensa, vai tentando a sorte e derrapando na estrada. Desde Janeiro, já se registaram em Portugal 81.124 acidentes rodoviários, com 320 mortos - mais 51 do que no período homólogo de 2016 - e 26.757 feridos. E nos primeiros seis meses de 2017 os portugueses perderam, em média, 3,1 milhões de euros por dia em apostas sem prémio no jogo legal.

Há anos assim, em que nos bate à porta o azar. Chamemos-lhe assim ou outra coisa qualquer.

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A pergunta inútil de Agosto

por Pedro Correia, em 05.08.17

« Já foste de férias ou ainda não»

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A pergunta inútil de Julho

por Pedro Correia, em 04.07.17

« Consegues dormir bem com tanto calor»

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A pergunta inútil de Junho

por Pedro Correia, em 05.06.17

« Já comeste sardinhas assadas»

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A hipocrisia

por Pedro Correia, em 15.05.17

 

Como sempre em Portugal, saltamos do oito para o oitenta - da indiferença total à lotação esgotada vai um curto passo. Canais de televisão que não mexeram um dedo para acompanhar o percurso da canção vencedora do Festival da Eurovisão em todo o processo que culminou com a final de Kiev, na noite de sábado, passaram a dedicar dezenas de minutos ao tema em sucessivos telediários mal soou a trombeta do triunfo.

Cidadãos que há muito se estavam nas tintas para eurofestivais soltam agora gritos de euforia, proclamando a “vitória de Portugal”, como se o destino da pátria estivesse em jogo. Políticos que nada fizeram nem fazem para instituir a educação musical no ensino público correm a colar-se à equipa vencedora, com o oportunismo de sempre.

 

Lamento, mas não alinho nestes coros colectivos nem me deixo iludir perante tamanha hipocrisia. A vitória na Eurovisão não foi “de Portugal”: foi de pessoas concretas. São essas que merecem os nossos parabéns. A Luísa Sobral, com talento e sensibilidade para conceber a letra e a música que estão a seduzir milhões de pessoas em todos os continentes. O Salvador Sobral, que tão bem interpretou a canção. O Luís Figueiredo, pianista e compositor de excepção, autor dos arranjos musicais que tanto valorizaram Amar Pelos Dois.

Não deixa de ser espantoso que os mesmos canais de televisão – incluindo a própria RTP – que promovem programas de formação e revelação de supostos novos talentos na música ligeira onde quase só se canta em mau inglês com dialecto americano sublinhem por estes dias a importância de se cantar em português. Como se só agora tivessem descoberto a musicalidade do nosso idioma – um facto tão notório desde as Cantigas de Amigo medievais até às trovas contemporâneas de um João Gilberto e um Caetano Veloso. Passando pela fabulosa lírica de Camões, toda ela digna de ser cantada.

 

Para serem consequentes, esses responsáveis televisivos que agora se derramam nos ecrãs a tecer loas à canção vitoriosa deviam anunciar desde já novos programas caça-talentos virados em exclusivo para a música portuguesa. Sob pena de toda esta euforia se esgotar num curto prazo e continuarmos a promover o tal “fogo de artifício” cénico de que muito bem falava o Salvador Sobral: miúdas e catraios aos saltinhos num palco, esganiçando-se em trinados num idioma de importação do qual mal conseguem arranhar uns refrões tontos, plastificados na forma e vazios de conteúdo.

Poupem-nos ao menos à retórica patrioteira. Para esse peditório não dou.

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A pergunta inútil de Maio

por Pedro Correia, em 07.05.17

 

« O dia 13 é feriado nacional »

 

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A pergunta inútil de Abril

por Pedro Correia, em 03.04.17

« Em que dia do mês calha a Páscoa »

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Nem Soares nem Ronaldo

por Pedro Correia, em 13.03.17

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 Aeroporto do Montijo, futuro complemento da Portela

 

Não sei por que motivo os aeroportos hão-de ser baptizados. Os dois melhores aeroportos que conheço, o de Singapura e o de Amesterdão, são conhecidos pelos seus nomes de origem, Changi e Schiphol respectivamente. O que nada lhes diminui o prestígio, antes pelo contrário. Nem deixam de ser concorridíssimos e prestigiadíssimos por causa disso.

Dar nomes de pessoas a aeroportos colide, além disso, com o princípio da igualdade. Porquê não fazer o mesmo a estações ferroviárias ou fluviais? Porque não chamar Diogo Cão ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos ou Fontes Pereira de Melo à gare de Santa Apolónia?

 

Sempre achei de tremendo mau gosto pôr o nome de Francisco Sá Carneiro ao aeroporto de Pedras Rubras – sabendo-se, como sabemos, que o ex-primeiro-ministro morreu a bordo de um avião precisamente quando se dirigia àquele destino.

Considero inqualificável que o aeroporto do Funchal passe a chamar-se Cristiano Ronaldo, alguém que nunca se distinguiu por proezas no domínio da aviação civil ou militar nem consta sequer que tenha brevet. Bem basta ter já, aos 32 anos, uma estátua erguida no Funchal que rivaliza com a do descobridor João Gonçalves Zarco.

E acho lamentável que o Presidente da República se tenha apressado a sugerir o nome de Mário Soares para designar o aeroporto do Montijo na hipótese de ser adaptado a voos civis como apoio ao da Portela, agora denominado Humberto Delgado.

 

Se os decisores políticos pusessem travão à demagogia e pensassem duas vezes antes de falar verificariam que existem duas enormes lacunas nesta matéria. Se a ideia é atribuir nomes de personalidades ilustres aos nossos aeroportos, ninguém tão prioritário do que os mais célebres aviadores portugueses de todos os tempos, protagonistas em 1922 da travessia aérea do Atlântico Sul.

Sim, refiro-me a Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924). Já serviram para designar ruas e avenidas, e até escolas, mas se quisermos continuar a atribuir nome de gente aos nossos aeroportos há que prestar-lhes esta homenagem. Eles merecem-na, muito antes de qualquer político passado ou presente – de D. Afonso Henriques a Marcelo Rebelo de Sousa.

Quanto aos futebolistas, por mais campeões que sejam, reservem-nos para os estádios: é lá que mostram o que sabem, é lá que merecem ter nomes e estátuas.

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A pergunta inútil de Março

por Pedro Correia, em 04.03.17

« Já viste como os dias estão a ficar maiores »

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Pensamento da semana

por Pedro Correia, em 17.02.17

 

No país do achismo, quem tem olho é tudólogo.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

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A pergunta inútil de Fevereiro

por Pedro Correia, em 04.02.17

« Vais mascarar-te de quê no Carnaval »

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A pergunta inútil de Janeiro

por Pedro Correia, em 03.01.17

« Entraste no novo ano com o pé direito »

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 25.10.16

«Os condutores que não respeitam os semáforos accionados pela velocidade esquecem que põem em perigo os peões, principalmente crianças. Será que eles não pensam, por exemplo, que não teriam tempo de travar, se uma criança lhe surja numa passadeira? É uma grande falta de respeito!
Mas mesmo não considerando o perigo, não há dúvida de que uma povoação fica bem mais aprazível e mais convidativa ao passeio a pé quando os carros andam devagar. Só isso já é razão para que se respeitem esses semáforos.»

 

Da nossa leitora Cristina Torrão. A propósito deste texto do José António Abreu.

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A pergunta inútil de Agosto

por Pedro Correia, em 08.08.16

 

« Então essas férias »

 

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Só somos eufóricos frente à TV

por Pedro Correia, em 14.06.16

Portugal estreou-se a empatar no Campeonato da Europa frente à modesta selecção da Islândia, um país com apenas 320 mil habitantes. Mas não é de futebol que vos quero falar: é do comportamento dos portugueses. Achei chocante o contraste entre a ruidosa euforia antes do jogo, perante as câmara televisivas, e depois do jogo, à frente das mesmas câmaras, e o pesado silêncio que se abateu sobre as bancadas durante todo o encontro.
Os jornalistas fartaram-se de repetir até à rouquidão que até parecia estarmos a "jogar em casa", mas ninguém deu por isso tal era o gelo emanado dos nossos compatriotas no estádio de Saint-Étiènne.

Ao ver aquilo, questionei-me: afinal vão ao futebol para quê?

Tudo em flagrante contraste com as escassas dúzias de islandeses, que fizeram a festa e deitaram os foguetes do princípio ao fim, apoiando uma das selecções mais modestas da Europa. Empataram, mas se tivessem perdido continuariam a festejar à mesma.

Até parece que os latinos são eles e não nós.

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Uma viagem na nossa terra

por Pedro Correia, em 02.06.16

 

«Antigamente, no tempo do Salazar, toda a gente vivia sem internet.»

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De vez em quando, sigo de relance uma telenovela portuguesa - daquelas que me garantem ter "imenso sucesso" e serem acompanhadas devotamente, noite após noite, por audiências dos mais diversos segmentos sociais.

Tendo sido espectador regular das primeiras telenovelas que se produziram em Portugal (Vila Faia, Origens, Chuva na Areia) e de algumas posteriores, como A Banqueira do Povo, sinto curiosidade em perceber a evolução do fenómeno. Mas facilmente me decepciono, por motivos que adiante explicarei. E volto a passar meses sem espreitar nenhuma.

 

Em primeiro lugar, há muito mais glamour do que havia nos tempos pioneiros da Vila Faia. Agora elas são quase todas muito novas, muito giras e muito produzidas. Não há caras feias, quase não se vislumbra ninguém com rugas e as variações geracionais dos protagonistas são mínimas. Não estamos perante um simulacro da realidade: estamos perante a sua distorção.

 

Em segundo lugar, vejo pouquíssimos actores - daqueles calejados em anos de trabalho nos palcos ou na tela. Os papéis parecem exigir apenas intérpretes muito jovens, de carinhas larocas, gente 'formada' nas passarelas da moda e não no Conservatório, numa espécie de Morangos com Açúcar em versão perpétua.

 

Em terceiro lugar, todas as personagens falam com sotaque de Lisboa - muito 'tá em vez de está, muito te'fone em vez de telefone, indo muito p'à praia em vez de seguirem para a praia. A direcção de actores que tão bem fez trabalhar sotaques e pronúncias na primeira telenovela da SIC, A Viúva do Enforcado, andou para trás de então para cá e hoje é possível escutarmos uma pretensa açoriana ou uma suposta portuense dizerem 'chtamoch em vez de estamos ou mêmo em vez de mesmo, como se fossem transplantadas do eixo Lisboa-Cascais.

Disparate? Pois é. Mas ninguém parece reparar. E dirigir actores dá trabalho, leva tempo e custa dinheiro: o melhor é não se pensar nisso.

 

 

Em quarto lugar, reparo que o verdadeiro protagonista é o sofá da sala. Vivem quase todos em casas com salas enormes, mobiladas com sofás a perder de vista, onde 80 por cento dos diálogos se desenrolam. Curiosamente, parecem morar todos em vivendas ou duplexes: se repararem com atenção, encontram sempre uma escadaria interna no décor. Outra curiosidade: não existem átrios, antecâmaras ou corredores: por mais luxuosa que seja a residência, entra-se directamente da porta da rua para a sala de estar. E ninguém parece reparar em tal incongruência.

 

Em quinto lugar, e apesar de quase todas as cenas ocorrerem dentro de portas, o guarda-roupa é sempre próprio de quem está fora. Nada de roupões, de T-shirts de alças, de pijamas, de calções, de pantufas ou chinelos. Elas estão sempre em casa de vestido e salto alto, eles jamais despem o casaco ou afrouxam sequer o nó da gravata. Todos são incapazes desse gesto tão comum (e para mim obrigatório) que é descalçar os sapatos da rua assim que entram em casa.

 

Em sexto lugar, abundam padres de sotaina e cabeção, à moda antiga, sopeiras fardadas e até mordomos de libré, como nos filmes ingleses dos anos 30. Nada mais démodé, em perfeito contraste com o tom pretensamente modernaço da maior parte das telenovelas.

 

Em sétimo lugar, é frequente ouvirmos os patrões tratar os empregados por tu, como se fossem todos antigos latifundiários alentejanos antes do 25 de Abril. Nada mais anacrónico.

 

Em oitavo lugar, é impressionante o número dos que não trabalham. Aliás, o mundo do trabalho está praticamente ausente das telenovelas. À luz do dia, as personagens passam o tempo a entrar e a sair das respectivas casas. Raras vezes o local de trabalho é ponto de encontro e são escassos os protagonistas que desenvolvem alguma actividade profissional credível. Há dias vi até um "jornalista" estendido no inevitável sofá a dizer à mulher ou namorada que acabara de escrever uma "crónica" que lhe dera imenso trabalho e estava já a pensar na "crónica" do dia seguinte embora estivesse com uma aflitiva falta de tema. É tocante esta forma como o quotidiano dos jornalistas surge nas novelas da TV - qualquer semelhança com a realidade não passa de coincidência.

 

 

Em nono lugar, os diálogos. Têm todos a espessura de uma banal troca de mensagens de telemóvel. Recentemente, ouvi numa telenovela da Globo a expressão "custar os olhos da cara" e achei quase insólito que surgisse num diálogo de ficção televisiva. Porque as telenovelas portuguesas só raras vezes - quase por descuido - recorrem às saborosíssimas e tão genuínas expressões idiomáticas da nossa língua, sedimentadas através das gerações: preferem os diálogos sincopados, cheios de termos monossilábicos, na concisa fraseologia lisboeta contemporânea, incapaz de ultrapassar uma centena de vocábulos.

Daí proliferarem diálogos do género:

- Como 'tás?

- 'Tou bem. E tu?

- Tudo OK. 'Bora lá?

- Fixe. 'Tou nessa.

Já para não falar no clássico dos clássicos do género: entra Beltrana na casa de Sicrano e diz: "Temos de falar". Como se vivêssemos num tempo anterior à invenção dos telefones.

 

Em décimo lugar, os nomes. Elas falam com eles e eles falam com elas debitando a todo o momento os nomes uns dos outros. Talvez para não se esquecerem como cada um se chama no meio de tanta personagem.

Mesmo que a interlocutora seja a melhor amiga:

- Tu gostas do Eduardo, Rita?

- Não tenho a certeza se o Eduardo é homem p'ra mim, Leonor.

Mesmo que se trate de um par de namorados já maduros:

- Podemos jantar amanhã, João? Vou buscar-te ao escritório.

- Não posso, Filipa. Amanhã é dia de eu estar com o meu filho Gonçalo.

Pormenor: o Gonçalo é filho único, o que torna absurda a invocação do nome. Se falássemos assim na vida quotidiana parecíamos uns tontinhos. Mas nestes diálogos telenovelescos ninguém parece estranhar.

 

Em décimo primeiro lugar, os pequenos-almoços. Só nas novelas televisivas há tempo, oportunidade, sincronia e paciência para todos os ocupantes da mesma casa tomarem a primeira refeição do dia pausadamente sentados em lautas mesas onde nunca faltam grandes jarros com sumos de frutas tropicais, como se estivessem hospedados em hotéis de luxo.

Ah, estas inesquecíveis cenas de pequeno-almoço: são um must divertidíssimo, embora absurdo, destas ficções que pretendem 'copiar' a realidade e afinal estão irremediavelmente longe dela.

Texto reeditado e ampliado

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Assim feia é que eu gosto de ti

por Pedro Correia, em 28.12.15

- Toma cuidado com os piropos: podem dar-te o passaporte para três anos no chilindró!

- Ficas descansada. Nunca me passaria pela mona gastar o meu dicionário de piropos numa abécula como tu.

- Olha quem fala! Já te viste ao espelho? Caganda frasco me saíste...

- E tu? És mesmum coiro...

- Quem desdenha quer comprar, ó boi-cavalo!

- É isso mesmo. Tens troco, trinca-espinhas?

- Vai-te catar, filho dumaganda égua! O que tu queres sei eu...

- Eheheh. Dá-me pica.

- Dá-te pica o quê, rafeirote?

- Seres tão... feia. Mas assim mesmo é que eu gosto de ti.

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Prazeres de Canelas

por Rui Rocha, em 17.11.14

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Prazeres sai da casa caiada na Rua do Frengo exactamente 30 minutos antes do início da missa. O nevoeiro da manhã esbate o contorno da sua silhueta austera que se move, em passos ligeiros, sobre o chão empedrado das ruelas do centro de Canelas. Veste-se sempre de forma modesta e decente. Mais ainda ao Domingo. A saia tapa o joelho e um pouco mais. A camisolinha de malha comprada na feira de Espinho cobre os braços e a parte de baixo do pesoço. Os sapatos são rasos, como devem ser. Não ambicioneis coisas altas, mas acomadai-vos às humildes, lera nas Escrituras. Dobra a última esquina antes de avistar a Igreja. Olha, como sempre faz, para a Rua do Padre Costa que se desenha à sua esquerda. Um santo, o Padre Costa. Merecia outro reconhecimento. Prazeres não consegue reprimir um suspiro que contém, na sua imensa fragilidade, uma infinita piedade por todas as malfeitorias sofridas, aqui, agora e sempre, pelos justos da Igreja. Retoma imediatamente a compostura. O dia não está para desfalecimentos. Apressa o passo apesar dos cansaços que lhe desafiam os movimentos. As camisolas pretas tinham dado mais trabalho do que previra. O mais difícil fora escolher frase. De tantas que lhe vieram à cabeça, Deus quis que acabasse por escolher aquela: Cristo foi traído – Quem o traiu retirou as consequências.  Direitinha ao Bispo do Porto: pega lá que já almoçastes. E o ensaio dos cantos… Minha Nossa Senhora! Mas, no final, a Laida, a Tona, a neta do Tobias e a Micas tinham decorado as falas: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. Os dados estão lançados. Vão ficar com as orelhas a arder, os vendidos que forem à missa. Quando chega ao adro da Igreja faltam dez minutos para a homilia. Um olhar em redor confirma que já lá estão os que devem estar. Com gestos rápidos, abre o saco de ginástica da Puma e distribui as camisolas. As do coro ensaiado também já estão prontinhas. A tensão sobe enquanto o nevoeiro se dissipa. Dois minutos depois, o gajo chega. Acompanhado pela GNR, todo borrado de medo mas a dar ares de galifão. Os vendidos entraram na Igreja a passo. Deus lhes perdoe. Ouvem-se vozes, afinadas e pias, em cântico: Peço-vos perdão pelos que não crêem, não adoram, não esperam e não amam. As camisolas já vestidas nos corpos dos que, na primeira fila, gritam e empurram. Prazeres sorri. Um trabalho bem feito. O melhor ainda está para vir. Não perdes pela demora galifão. Quarenta e cinco minutos depois, termina a missa. As mesmas camisolas, os mesmos cânticos. O padreca tenta sair, escoltado pela GNR. Prazeres vai buscar forças não sabe a que santo e grita-lhe com quantas forças o Senhor lhe dá: badalhoco, tem apresentação, corta o cabelo e a barba! A pequena cruz com um Cristo que traz ao peito salta e faz-lhe um lanho no pescoço. O padreca desaparece do adro no carro onde foi metido à pressa pela GNR. O resto do Domingo passa-se do jeito que Deus quer, interrompido aqui e ali pelo regozijo provocado pelas imagens do triunfo sobre o padre Albino que passam nos telejornais da RTP. O relógio da igreja bate as 10 da noite. Prazeres apressa de forma quase imperceptível as orações. Depois de assegurar que a porta do único quarto de cama da casa onde vive sozinha está fechada, dirige-se ao roupeiro onde guarda uma pequena caixa escondida num fundo falso de uma gaveta. Afasta o rosário que trouxe de uma viagem da paróquia à Terra Santa e, enquanto aconchega contra o peito uma fotografia do padre Roberto, murmura com a voz a tremer: ah meu sacana, que ainda me fazes perder...

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Portugueses ao volante

por Pedro Correia, em 25.10.14

Esta tarde, acesso à ponte 25 de Abril, sentido Almada-Lisboa.

Um veículo entra por lapso no corredor da Via Verde. Apercebendo-se disso ainda a distância considerável da portagem, o condutor tenta desviar para a faixa à sua direita, destinada às viaturas que não estão habilitadas com Via Verde ou Via Card.

Pensa, com alguma lógica, que por estarmos num sábado, este ser o fim de semana mais longo do ano (os relógios atrasam de madrugada, entrando no horário de Inverno) e a temperatura se manter mais amena do que em muitos dias de Verão não faltará uma alma benévola que lhe dispense uns metros de asfalto durante escassos segundos, tanto quanto necessita para aceder à rota da portagem.

Engana-se. Por gestos pede, roga, implora - sem sucesso.

Todos parecem ter demasiada pressa para lhe ceder lugar. Até que um matulão de palito ao canto da boca, conduzindo uma furgoneta, esboça um sinal equívoco que parece convidá-lo a entrar na fila.

Está no entanto apenas a divertir-se à sua custa: quando o automóvel se encaminha para ocupar o espaço momentaneamente vazio, a furgoneta acelera de repente e o matulão ri-se, fazendo-lhe um gesto obsceno.

Colado à traseira da furgoneta, sem conservar a elementar distância de segurança, segue um táxi. "Queres entrar, meu cabrão? Arreda lá para trás!", atira o fogareiro, dedo indicador espetado à retaguarda, esticando a cabeça para fora da janela.

Tudo acontece num instante: entusiasmado com o som da própria voz, o fogareiro deixa embater com estrondo o táxi na furgoneta imobilizada logo adiante. O matulão não tarda a sair para avaliar os estragos, sempre de palito nos beiços, e lá ficam ambos a discutir. Abrindo assim espaço, involuntariamente, para que o primeiro condutor aceda enfim à fila da portagem. Acabaram ambos por consumir ali largos minutos, no mínimo, quando não queriam desperdiçar uns segundos...

Testemunha incidental deste episódio, pus-me a reflectir uma vez mais sobre a falta dos mais elementares gestos de cortesia dos portugueses ao volante. Quantos daqueles que não permitiram passagem ao automóvel se indignariam com isso se as posições se invertessem? Quantos deles não se queixarão por vivermos numa sociedade onde são cada vez mais raros os pequenos gestos de tolerância cívica? E quantos não apregoarão a solidariedade em abstracto, mostrando-se incapazes de ser solidários nas mais ínfimas situações concretas?

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 15.06.14

«A miséria, material ou moral (ou ambas), não é exclusivo nosso. Menos ainda a que parece resultar não de uma fatalidade ultrapassando a sua vítima, mas de uma voluntária descida aos infernos. E esta existirá mesmo na mais perfeita sociedade.

Mas por cá desgraçadamente impera triunfante. Vai por exemplo do velho que vai morrendo na rua, ao adolescente cretino, vestido inenarravelmente, armado em estrela da bola e recusando militantemente o estudo e a cultura. Passa pelos cancros urbanísticos e pelas caravanas de buzina aos berros às tantas da noite, porque o clube marcou um golo (e isso, bem se sabe, está acima da lei). Existe no pai que atravessa com o filho ainda menino, fora da passadeira, com o sinal vermelho e enquanto cospe para o chão. Está no maço de tabaco, ou o que seja, que se atira para o chão como se fosse o mais banal, consagrado e inofensivo gesto. Manifesta-se no belo automóvel estacionado sobre o passeio, ou em segunda fila, à porta de casa ou da loja, com lugares perfeitamente legais apenas a uns minutos num passo tranquilo.

Evidentemente não me refiro apenas à miséria que resulta de não ter que comer ou vestir. Tem muitas formas e convive muito bem - por vezes até partilha - com bolsos bem recheados.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto do José Navarro de Andrade.

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Empreendedorismo

por Rui Rocha, em 05.03.14

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Ecce homo lusitano

por Rui Rocha, em 19.02.14

Pelo visto, o restauro de esculturas do século XIX do Santuário de Nossa Senhora das Preces está a causar polémica. As opiniões dividem-se. Para André Remígio, administrador de um grupo de uma rede social que congrega conservadores e restauradores, esta situação "é mais grave que o caso da Dona Cecília" Giménez, em Espanha, que repintou por livre iniciativa um quadro do século XIX, sem habilitações para tal. Entretanto, Basílio Martins, tesoureiro da Irmandade da Nossa Senhora das Preces, entidade que gere o espaço, conta que está "satisfeito" com o trabalho de restauro, relembrando que "estava tudo estragado, com rachadelas, esculturas sem dedos e sem olhos". Por seu lado, Miguel Vieira Duque, responsável pelo trabalho de restauro, afirma que "o resultado final o enche de orgulho". Não tenho conhecimentos técnicos que me permitam ter uma opinião fundamentada. Mas que me perturba um bocado que uma imagem feminina restaurada tenha ficado com cara de Passos Coelho, isso não posso negar.

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Um doutor entre senhores

por Pedro Correia, em 30.01.14

 

Ouço uma personalidade com presença assídua nos ecrãs televisivos referir-se a várias figuras europeias. É curioso: são todas "senhoras" ou "senhores": os graus académicos -- correctos ou incorrectos -- tão em vigor entre nós desaparecem mal aludimos a gente de além-fronteiras. Mas subitamente a referida personalidade alude ao presidente da Comissão Europeia em termos diferentes dos utilizados para Angela Merkel, Van Rompuy, Mario Draghi, Martin Schultz ou François Hollande -- chamando-lhe "doutor Durão Barroso". Imporia a mais elementar uniformidade de critérios que, no caso de Barroso, o "doutor" desse lugar ao "senhor" reservado para todos os outros. Mas não: mesmo residente em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia continua a ter direito ao respeitinho lusitano.

Doutor é só ele. Senhores são todos os outros.

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O admirável mundo da 'vox pop'

por Pedro Correia, em 21.11.13

"Portugal não tem uma grande selecção."

"Paulo Bento é um treinador fraco tacticamente."

"Já chega de falar de Cristiano Ronaldo."

"O Cristiano não merece que falemos mais dele."

"Cristiano Ronaldo não é o melhor do mundo."

"Miguel Veloso é um jogador banalíssimo."

"O Nani não rende nada."

"Pepe não é português."

"O que é que Scolari fez em Portugal?"

 

Frases de "populares" escutadas durante a tarde de ontem na televisão

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No país das maravilhas

por Pedro Correia, em 29.10.13

Bernardino Soares coliga-se em Loures com o PSD

 

Assunção Cristas não quer portugueses com mais de dois cães por apartamento

 

Chefe de gabinete de Rui Rio manteve carteira profissional de jornalista durante 12 anos

 

Mulher processa Santa Casa da Misericórdia de Lisboa por estar viciada em "raspadinha"

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E, mesmo assim, creio que não ficaremos demasiado espantados.

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Quanto vale um insulto?

por Rui Rocha, em 13.06.13

Não sei se vos acontece o mesmo, mas a verdade é que procurei informar-me na televisão, nos jornais e nos blogues e continuo sem perceber exactamente o que se passou. E não, não me refiro à questão do pagamentos do subsídio de férias. Confesso que quanto a isso também cheguei a estar baralhado com aquela coisa do não há dinheiro que passou depois a há dinheiro mas a lei foi revogada pelo acórdão que tinha um parágrafo que colocava em vigor uma alínea de um decreto que suspendeu a vigência de já não sei bem o quê. Foi precisamente nesta parte do já não sei bem o quê que se fez luz no meu espírito: balelas! O pagamento do subsídio está dependente é do estado do tempo. O ministro Gaspar já explicou isto muito bem explicado a propósito do investimento. Se estiver bom tempo, o estado paga. Se chover, nada feito. O problema é que os franceses previram, há não muitos dias, que este Verão vai ser frio e chuvoso. E o ministro Gaspar não quer incorrer em qualquer tipo de precipitação. O certo é que já tínhamos a chuva molha-tolos. Agora temos ainda o tipo de explicação que também só os molha a eles. De qualquer forma, aos funcionários públicos só resta aguardar. Enquanto o ministro Gaspar vai ver se chove. Longe vão os tempos em que as remunerações eram postas à disposição dos seus destinatários de acordo com um ciclo pré-definido de pagamentos. Agora está tudo indexado ao ciclo da água. A verdade é que a este nível está tudo clarinho como... pois, adiante. E adiante para dizer que aquilo que realmente ainda não percebi é aquela coisa do insulto ao presidente. De entre todas as versões disponíveis, fico-me pela do I, até porque algum dia o I teria de servir para alguma coisa que não fosse apenas manter a Ana Sá Lopes ocupada e impedida de ir ao cabeleireiro. Ora, de acordo com o I, o Tribunal de Elvas terá dado como provado que Carlos Costal terá proferido insultos contra o chefe de Estado, tendo dito que Cavaco Silva era "malandro" e que devia ir "trabalhar". "Gatuno", "chulo" e "ladrão" foram outros dos qualificativos que o arguido procurou atribuir ao Presidente. Por tudo isto, a multa aplicada foi de 1300€. Confesso que, à primeira vista, não me parece muito. Vamos lá ver. É preciso ter em conta que se trata do mais alto magistrado  da nação, caramba (a propósito, talvez esteja na altura de abandonar este tipo de designação porque com a sorte que temos um dia o Marques Mendes ainda chega a Presidente e depois vai ser o caraças para descalçar a bota). E depois, foram 5 (cinco) insultos. Assim numa conta rápida, à moda do ministro Gaspar, sai a coisa a pouco mais de 200€ por cada um. Se isto é assim, quanto será para um deputado? Quanto custará, por exemplo, chamar nórdico ao Carlos Abreu Amorim? Deve sair baratíssimo, não é? Note-se que a coima por fumar em recintos fechados pode ascender a 750€. E que a de circular com velocidade entre 90 e 120km/hora fora das localidades pode chegar aos 300€. Ora, por muito que um tipo goste de fumar ou de carregar no pedal, digo que não deve dar o mesmo gozo. E, se quisermos ter uma ideia deste tipo de situação lá fora, basta termos presente que o cidadão espanhol Amadeo Martínez Inglés, militar retirado, foi condenado a pagar uma multa de 6.480€ por se ter referido a D. Juan Carlos como “último representante en España de la banda de borrachos, puteros, idiotas, descerebrados, cabrones, ninfómanas, vagos y maleantes”. Isto é, coisa de oito insultos que saem à razão de 800€ cada um. E ainda há quem diga que a vida é mais barata em Espanha. Em todo o caso, há aspectos em que não me sinto suficientemente esclarecido. A medida da multa é mesmo determinada à peça? Existe uma bandeirada mínima? Há insultos mais caros de que outros? Isto é, "gatuno" e "malandro" valem o mesmo? A partir de determinado número de insultos o preço mantém-se? É que se for assim, já estão a ver o potencial que isto tem... Imagine-se, por exemplo, que a partir de 10 insultos não se paga mais. Assim tipo 1500€ por 10 insultos e daí em diante bar aberto... Ora tudo isto são pontos que é urgente esclarecer. É que, para além do mais, estão a chegar as férias e um tipo tem de ter dados que lhe permitam escolher entre ir passar uns dias ao parque de campismo da Caparica ou, por uma vez, ter um gosto na vida.

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Os portugueses pelo mundo

por Rui Rocha, em 12.06.13

Uma das características mais intrigantes do modo de ser lusitano é a busca incessante de casos de sucesso de compatriotas por esse mundo fora. Não há meio de comunicação social que se preze que não tenha uma referência diára a situações tão extraordinárias como a do padeiro do Marco de Canaveses que saiu de casa aos  cinco anos e tem agora, quarenta e quatro anos e três meses decorridos, uma considerável fortuna pessoal em Aracaju, no estado brasileiro de Sergipe. É claro que tal sucesso se deve exclusivamente aos 60 meses que o dito passou exposto aos ventos continentais vindos da terra quente transmontana, à proximidade do Douro vinhateiro e, é justo dizê-lo, ao copito de jeropiga que a mãe lhe deu a fazer de mata-bicho e ao par de estaladas diário que o pai lhe propinava para lhe enrijecer o espírito e as carnes. É evidente que os outros 531 meses que passou fora do solo pátrio são um pormenor insignificante. Todos sabemos que é de pequenino que se torce o pepino. E quando, por excepção, passa um dia em que não se destaca um português, logo aparecem mais dois ou três. Se não forem cidadãos portugueses de papel passado, serão sobrinhos de um tio que namorou com a neta de uma portuguesa de Macieira de Rates. Se não for no Panamá, há-de ser mais para lá. Se não for um beirão, pode ser um cão. Quem não sente um calafrio quando houve o ino nacional? Quem não se arrepia quando toma consciência que Obama, esse mesmo, nos momentos em que analisa os registos diários de actividade que o Google lhe envia, tem a seus pés Bo, um cão de água português? Quem não se comove ao imaginá-lo, ao cãopatriota, na nobre tarefa de marcar território pelos cantos da Sala Oval? Nestas coisas, o futebol tem sempre uma palavra a dizer. Veja-se o caso do Chelsea. Para os meios de comunicação social, o Chelsea não é dos sócios, nem do Abramovich, nem dos gasodutos. O Chelsea é de Paulo Ferreira e de Hilário que têm, juntos, mais tempo de banco que o Ricardo Salgado. O Mónaco, por exemplo, não é do Alberto nem da Stephanie. Agora, é o Mónaco de Moutinho. E de Ricardo Carvalho. Que já não vê bola desde que a Nívea deixou de fazer publicidade na praia. E o Traktor é de Toni. Sim, que no Irão mandam os portugueses que lá estão. Significa isto que não há insucessos portugueses na frente internacional? Claro que há. Mas os insucessos são colectivos e as histórias de glória são individuais. Camané Alves de Jesus, algarvio da Foia, emigrou para a Suiça, conquistou nos anos cinquenta a loira Jacqueline Desmarets ao som dos Olhos Castanhos do Francisco José e tem hoje uma rede de lavandarias na região de Grenoble. Em contrapartida, são sempre portugueses não identificados que dormem na estação de Genebra. Jesus ganhou de letra ao Fenerbache, mas foi o Benfica que perdeu com o Chelsea. O que é curioso nisto tudo é que estes portugueses  que reluzem nos quatro cantos do mundo e também nos da Sala Oval, eram, antes de emigrarerem, uns sacanas, uns cretinos ou, na melhor das hipóteses, uns borra-botas. Tirando o Ferreira Fernandes, de quem quase toda a gente diz bem, a única hipótese de um português ter sucesso em Portugal é ter feito merda. Veja-se o caso do Futre e da conferência de imprensa dos chineses. Veja-se o caso da Sara Norte. Aliás, a Sara Norte reúne mesmo todas as condições de sucesso. Fez merda e esteve presa no estrangeiro. Veja-se o caso do Jorge Jesus. Repare-se que o Vítor Pereira ganhou o campeonato, mas não serve. Vai para o Al Ahly. O Jesus fica e aumentam-lhe o ordenado. Porque fez merda. O outro vai para o Al Ahly e já vem. Mas quando vier, traz a aura de ter ganho a taça das cidades com praças viradas para Meca, coisa que lhe vai tornar o currículo muito mais valioso. E o mesmo se passa com Cláudio Braga. De acordo com o JN, trata-se de um treinador português que faz carreira nos melhores clubes da Holanda. Nada mais, nada menos. Da Holanda, esse país com um campeonato interno verdadeiramente portentoso em que o jogos costumam acabar com resultados que, por cá, só vemos no hóquei em patins. Pois bem, se lermos a notícia, veremos que o homem treina os sub-17 do Utrecht. Uma espécie de Marítimo lá do sítio. Ora, o treinador dos sub-17 do Marítimo cá do sítio nunca  merecerá tal destaque. Porquê? Porque está cá e não está na Holanda. A única hipótese de ter reconhecimento é sair. Ou ficar a fazer merda. Ir a Marrocos buscar um carregamento de droga ou beber uns copos antes de uma conferência de imprensa. É por isso que a diáspora portuguesa não é bem isso. É muito mais uma síndroma de internodeficiência congénita que só se cura com várias doses de os portugueses pelo mundo. O Benfica, por exemplo, tem sofrido muito com a doença. Sabendo que os portugueses internamente não têm sucesso a menos que façam merda, constitui a sua equipa à base de brasileiros e de sérvios. Todavia, fica com um treinador português com muito sucesso no país (isto é, que fez merda) e por isso não ganha nada. Quando chega lá fora, faltam-lhe portugueses para ter sucesso (e sabemos como os portugueses são bons a ter sucesso lá fora) e por isso continua sem ganhar. É claro que tal situação está muito mais ligada com o modo de ser português, do que com qualquer maldição do pobre do Bela Guttman que, se bem se recordam, era estrangeiro.

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O Lello não tem paralello

por Rui Rocha, em 22.05.13

 

Pensar antes de falar, diziam os antigos. Pensar antes de tuitar, dir-se-á por estes dias. É um conselho válido para muitos. De Carlos Abreu Amorim a José Lello. No caso de Abreu Amorim, o que parece verdadeiramente relevante não é o exagero, o descontrolo do momento, o comentário irreflectido, a eventual ofensa. É a natureza tão básica que se revela sob a fina capa de polimento dos cursos e dos discursos. Uma tristeza. No de Lello, a coisa é mais grave. Lello, por natureza, é incapaz de pensar antes de falar. Ou depois.  E, para dizer tudo, o que os portugueses deveriam querer, indepententemente do que possam pensar sobre Passos Coelho, era verem-se livres de Lello e do que ele representa. Verem-se livres dele vivo. Que a morte não se deseja a ninguém. Nem a brincar. Se sobrar um nadinha de vergonha, resta agora ao PS retirar a confiança política a Lello. E demiti-lo de todos os cargos de que possa ser demitido. Se sobrar, repito, um nadinha de vergonha. E se os meandros do financiamento partidário de que Lello foi responsável no PS permitirem uma decisão razoável e independente. Isto é, se o PS não estiver vergado a uma ditadura lellillista.

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Una os pontos

por Rui Rocha, em 05.05.13

1 - Homem pagou conta de supermercado com nota de 30 euros.

2 - Seguro diz que já tem ministro das finanças para apresentar a Cavaco.

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Portuguese sayings

por Rui Rocha, em 01.05.13

We are swallowing living swaps.

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  1. Tribunal Constitucional adia decisão devido às condições atmosféricas adversas.

  2. Tó Zé Seguro envia à Troika redacção sobre as férias da Páscoa.

  3. Vale e Azevedo inicia espaço de comentário político em horário nobre.

  4. Papa Francisco distribui milhares de notas de 20 euros aos peregrinos reunidos na Praça de S. Pedro.

  5. Jorge Jesus afirma que Benfica continua empenhado em vencer ambas as três competições em que está envolvido.

  6. Passos Coelho discorre sobre os custos de oportunidade.

  7. Vítor Gaspar apresenta cenário macroeconómico baseado no restabelecimento de Hugo Chávez e na estabilidade do sistema bancário de Chipre.

  8. Relvas convida o Hélio para liderar a Direcção Geral de Mobilidade Terrestre.

  9. Sócrates pede renegociação dos prazos e condições de pagamento do empréstimo que contraiu para estudar em Paris.

  10. No âmbito do seu plano de reestruturação, a RTP passa a emitir em formato 4:3 o que implicará uma poupança de vários milhões de pixeis anuais.

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Um bispo voando sobre um ninho de cucos

por Rui Rocha, em 10.03.13

Está um pobre de Cristo com os olhos e os ouvidos postos no Vaticano, sempre em estado de prontidão, à espera de um sinal do Espírito Santo, de uma manifestação do Divino, de uma inspiração do Altíssimo, e eis que a roda dos milagres aponta, pasme-se, para Bragança. Ali nos fazendo ver não um, mas uma catrefada deles. O primeiro consistiu, nada mais, nada menos, no facto de o Bispo de Bragança-Miranda ter voado. Literalmente, não na acepção mística. E sem bater as asinhas. Não muito, é certo. Coisa de 2 ou 3 metros, dizem os que viram e não foram poucos. O segundo no de D. José Cordeiro ter saído ileso de uma aterragem que, tudo somado, teve os seus melindres. O terceiro, mas seguramente not the least, no de o representante do Gabinete de Comunicação da Diocese ser o padre Fernando Calado. O quarto no de este, apesar disso, ter falado. Na ocasião, para esclarecer integralmente o assunto. O quinto no de o nosso Cordeiro de Deus, apesar de toda a pobreza e contrição que prega e vai recomendado, ter encontrado financiamento suficiente para se fazer transportar num Passat CC, sabendo nós, louvado seja o Senhor, ao preço a que está o dinheiro. O sexto no de o voo do Bispo contribuir decisivamente para a revitalização do sector automóvel potuguês. Se formos a ver, foi o Clio do leigo para a sucata e o Volkwagen do Bispo para o estaleiro. Tudo material que fica carecido de substituição. O sétimo no de a Sagrada Família, utilizando como  utilizava, um burro como meio de transporte, sem ABS, airbags ou rodas direccionais, ter conseguido sempre escapar a qualquer acidente. O último no de se terem salvo do embate um ninho de cucos e os seus condóminos, coisa que, não sendo verdade, ajuda muito a compor o título.

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Da fuga de cérebros

por Rui Rocha, em 05.03.13


Lili Caneças diz-se "farta" da crise e decidiu sair do país para viver uma aventura além-fronteiras. "Propuseram-me ficar à frente de galerias de arte", revela ao IN' a socialite, que vai morar em Los Angeles.

 

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Gaspar afirma que Portugal tem povo de marinheiros capaz de superar as maiores tormentas.

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Que se linche o teu irmão

por Pedro Correia, em 01.03.13

Por muito menos, este senhor proclamou-se vítima de um linchamento. Agora, estando sob mira pública um irmão na fé, e sem o menor assomo de caridade cristã, ei-lo a acender a fogueira num tema onde todas as precauções são devidas sendo a natureza humana o que é e tendo provocado os assassínios de carácter que já provocou. Repare-se no nível intelectual desta argumentação: "Ouvi que ele tinha tido um comportamento dessa ordem." E desta, que inverte o ónus da prova: "Não possuo quaisquer elementos que provem que isso não é verdade."

Se não é linchamento, imita bem. Sobretudo após o categórico desmentido do visado, a quem não pode ser negado o direito à defesa. E do louvável acto de contrição já assumido por outro interveniente na polémica.

Merece forte penitência por tão ruim pecado, senhor bispo.

 

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A tua própria casa bem poderia ser o reduto último da calma e do sossego. Mas, como bem sabes, isso é praticamente impossível enquanto não tomares a decisão de entaipar portas e janelas e de, sobretudo, desligar definitivamente a internet, o rádio e a televisão. Até ao dia em que o fizeres, arriscas-te a topar, como ainda ontem aconteceu, com Isaltino de Morais e Não Menos Virtudes na tua própria sala, ali bem ao lado do retrato do teu avô Matias. Que só não se arruinou quando foi presidente da junta por teimar em ajudar alguns mais carenciados à custa do seu próprio bolso porque a tua avó Palmira lhe pôs os pontos nos is e, como isso não fosse suficiente, as malas à porta. É assim por tua única responsabilidade que tens de o ouvir, a ele Isaltino, que sempre verás esteja ou não a fumar, atrás de um charuto, a explicar que não, que quatro milhões de euros para estátuas no Parque dos Poetas não são por aí além e que o povo precisa de espaços ao ar livre para gozar a vida e a cultura. A ele, a esse mesmo, que enquanto investe os recursos públicos na nobre missão de dar destaque ao elemento água, esgota quantos recursos existem para cá de Alfa Centauro com o não menos louvável intuito de desviar os costados de um espaço razoavelmente confinado. E tu, e só tu, és o responsável por o veres já na gruta, não aquela onde os seus quarenta colegas escondiam o tesouro do Ali Babá, mas na de Camões, a afivelar o riso com que se vai burlando de ti e dos outros dez milhões de papalvos. Claro que tudo isto já era suficiente. Mas ainda tens direito a que o serviço impudico de televisão te informe, para isso o pagas, que já com a lua a aparecer, José Fanha declamou não sei o quê, pasme-se que não acompanhado de bandoleiros, mas de um bandolim. E que o Represas também lá esteve, rebentando o dique para dar corpo à "Bunda Engraçada" do Drummond e entoar o Amor é Fogo do Camões. Tudo isto ainda antes de se ter dado início ao espectáculo de luz na Fonte Cibernética. É claro que não era por aqui necessário que os políticos corruptos se suicidassem, como fazem alguns no Japão. Mas também não existe nenhum motivo que justifique que um tipo seja obrigado a quase morrer de vergonha por os ver, impávidos impunes, a laurear a pevide na televisão.

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Tu e os outros 2 vão aparecer na TV

por Pedro Correia, em 02.02.13

"A manifestação de indignados convocada para este sábado em várias cidades do país acabou por ter pouca expressão. Foi na cidade do Porto que se concentrou o maior número de pessoas, frente à câmara municipal, mesmo assim não chegaram a ser cem participantes. Em Coimbra ou Portimão a adesão foi também fraca, assim como em Lisboa, onde estiveram apenas três pessoas. E foram as mesmas três que se mantiveram na praça dos Restauradores, das três às quatro da tarde.»

Notícia do Jornal da Noite da SIC

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De vez em quando, sigo de relance uma telenovela portuguesa - daquelas que me garantem ter "imenso sucesso" e serem acompanhadas devotamente, noite após noite, por audiências dos mais diversos segmentos sociais.

Tendo sido espectador regular das primeiras telenovelas que se produziram em Portugal - Vila Faia, Origens, Chuva na Areia -, sinto curiosidade em perceber a evolução do fenómeno. Mas facilmente me decepciono. E volto a passar meses sem espreitar nenhuma.

 

Em primeiro lugar, há muito mais glamour do que havia nos tempos pioneiros da Vila Faia. Agora elas são quase todas muito novas, muito giras e muito produzidas. Não há caras feias, quase não se vislumbra ninguém com rugas e as variações geracionais dos protagonistas são mínimas. Não estamos perante um simulacro da realidade: estamos perante a sua distorção.

 

Em segundo lugar, vejo pouquíssimos actores - daqueles calejados em anos de trabalho nos palcos ou na tela. Os papéis parecem exigir apenas intérpretes muito jovens, de carinhas larocas, gente 'formada' nas passarelas da moda e não no Conservatório, numa espécie de Morangos com Açúcar em versão perpétua.

 

Em terceiro lugar, todas as personagens falam com sotaque de Lisboa - muito 'tá em vez de está, muito te'fone em vez de telefone. A direcção de actores que tão bem fez trabalhar sotaques e pronúncias na primeira telenovela da SIC, A Viúva do Enforcado, andou para trás de então para cá e hoje é possível escutarmos uma pretensa açoriana ou uma suposta portuense dizer 'chtamoch em vez de estamos ou mêmo em vez de mesmo, como se fosse transplantada do eixo Lisboa-Cascais.

Disparate? Pois é. Mas ninguém parece reparar. E dirigir actores dá trabalho, leva tempo e custa dinheiro: o melhor é não se pensar nisso.

 

 

Em quarto lugar, reparo que o verdadeiro protagonista é o sofá da sala. Vivem quase todos em casas com salas enormes, mobiladas com sofás a perder de vista, onde 80 por cento dos diálogos se desenrolam. Curiosamente, parecem morar todos em vivendas ou duplexes: se repararem com atenção, encontram sempre uma escadaria interna no décor. Outra curiosidade: não existem átrios, antecâmaras ou corredores: por mais luxuosa que seja a residência, entra-se directamente da porta da rua para a sala de estar.

 

Em quinto lugar, e apesar de quase todas as cenas ocorrerem dentro de portas, o guarda-roupa é sempre próprio de quem está fora. Nada de roupões, de T-shirts de alças, de pijamas, de calções, de pantufas ou chinelos. Elas estão sempre em casa de vestido e salto alto, eles jamais despem o casaco ou afrouxam sequer o nó da gravata. Todos são incapazes desse gesto tão comum (e para mim obrigatório) que é descalçar os sapatos da rua assim que entram em casa.

 

Em sexto lugar, abundam padres de sotaina e cabeção, à moda antiga, sopeiras fardadas e até mordomos de libré, como nos filmes ingleses dos anos 30. Nada mais démodé, em perfeito contraste com o tom pretensamente modernaço da maior parte das telenovelas.

 

Em sétimo lugar, é frequente ouvirmos os patrões tratar os empregados por tu, como se fossem todos antigos latifundiários alentejanos antes do 25 de Abril. Nada mais anacrónico.

 

Em oitavo lugar, é impressionante o número dos que não trabalham. Aliás, o mundo do trabalho está praticamente ausente das telenovelas. À luz do dia, as personagens passam o tempo a entrar e a sair das respectivas casas. Raras vezes o local de trabalho é ponto de encontro e são escassos os protagonistas que desenvolvem alguma actividade profissional credível. Há dias vi até um "jornalista" estendido no inevitável sofá a dizer à mulher ou namorada que acabara de escrever uma "crónica" que lhe dera imenso trabalho e estava já a pensar na "crónica" do dia seguinte embora estivesse com uma aflitiva falta de tema. É tocante esta forma como o quotidiano dos jornalistas surge nas novelas da TV - qualquer semelhança com a realidade não passa de coincidência.

 

 

Em nono lugar, os diálogos. Têm todos a espessura de uma banal troca de mensagens de telemóvel. Recentemente, ouvi numa telenovela da Globo a expressão "custar os olhos da cara" e achei quase insólito que surgisse num diálogo de ficção televisiva. Porque as telenovelas portuguesas só raras vezes - quase por descuido - recorrem às saborosíssimas e tão genuínas expressões idiomáticas do nosso idioma, sedimentadas através das gerações: preferem os diálogos sincopados, cheios de termos monossilábicos, na concisa fraseologia lisboeta contemporânea, incapaz de ultrapassar uma centena de vocábulos.

Daí proliferarem diálogos do género:

- Como 'tás?

- 'Tou bem. E tu?

- Tudo OK. 'Bora lá?

- Fixe. 'Tou nessa.

Já para não falar no clássico dos clássicos do género: entra Beltrana na casa de Sicrano e diz: "Temos de falar".

 

Em décimo lugar, os pequenos-almoços. Só nas novelas televisivas há tempo, oportunidade, sincronia e paciência para todos os ocupantes da mesma casa tomarem a primeira refeição do dia pausadamente sentados em lautas mesas onde nunca faltam grandes jarros com sumos de frutas tropicais, como se estivessem hospedados em hotéis de luxo.

Ah, estas inesquecíveis cenas de pequeno-almoço: são um must divertidíssimo, embora absurdo, destas ficções que pretendem 'copiar' a realidade e afinal estão irremediavelmente longe dela.

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Ich bin ein Berliner.

por Luís Menezes Leitão, em 11.11.12

Sinceramente não sei como qualificar este vídeo. É a todos os títulos revoltante. Em primeiro lugar a manipulação óbvia, como o  dizer que a idade da reforma na Alemanha é de 61,7 anos, quando é de 67 anos,  ou fazer referência à tributação de Portugal no Orçamento para 2013, que ainda não foi aplicada, ou à eliminação de feriados em Portugal que só vigora no próximo ano. Depois a tentativa de responsabilizar a Alemanha pelos gastos disparatados que fizemos, como os submarinos, a rede de carros eléctricos, ou os estádios do Euro 2004, a pretexto de que foram contratados alemães para o efeito. Os fornecedores têm alguma culpa do endividamento em que caem os seus compradores? Depois temos a comparação disparatada entre a queda do muro de Berlim e a presente situação em Portugal, que só faz lembrar aos alemães quanto lhes custou a integração da RDA. E, por último, o estilo subserviente do filme como se fazer palhaçadas tornasse os nossos credores mais complacentes.

 

Se este filme passasse na Alemanha, acho que os alemães ficariam com uma ideia ainda pior de Portugal do que a que já têm. Eu pelo menos fiquei. Foi por isso um favor que nos fizeram que o vídeo não tivesse passado. Há certas pessoas em Portugal que no meio da tragédia ainda conseguem praticar a farsa.

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Sede interminável

por Pedro Correia, em 18.07.12

- E para beber, o que deseja?

- Uma cola.

- Não temos. Só Pepsi. Pode ser?

- Pode. Pepsi também é cola.

- Como disse?

- Nada...

- E deseja a Pepsi fresca?

- Claro.

- Gelo e limão?

- Limão, não. Só gelo.

- Não deseja limão?

- Não. Só gelo.

- E quantas pedras?

- Duas ou três.

- Uma palhinha?

- Não é preciso. Detesto palhinha.

- Como disse?

- Nada...

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