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Tsipras? We don't know him

por Pedro Correia, em 28.07.17

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«La politique c'est, avant tout, l'interprétation des réalités

Charles de Gaulle (1958)

 

«Cometi erros... grande erros.»  Numa notável entrevista ao Guardian, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras - outrora «the global pinup of the far-left anti-establishment movement», para usar a saborosa expressão do jornal britânico - faz várias confissões. Estava impreparado ao assumir o poder, em Janeiro de 2015, não soube escolher as pessoas certas, foi confrontado com um panorama ainda mais sombrio do que esperava.

Hoje, com o seu país a registar tímidos progressos na frente económica, o antigo radical de esquerda não hesita em reconhecer que foi correcta a decisão de manter os compromissos assumidos pelo Estado grego perante as instituições políticas de Bruxelas e os pilares financeiros da eurozona - contrariando o que algumas vozes líricas apregoavam então e ainda apregoam por cá. E questiona, acertadamente: «Se abandonássemos a Europa íamos para onde? Para outra galáxia?»

De campeão da retórica anti-austeridade a gestor das mais severas medidas austeritárias de que há memória na Grécia: eis um governante que chegou a contar com uma ruidosa legião de adeptos lusitanos mas nunca mais voltou a ser mencionado nos círculos políticos e mediáticos em Portugal. Há um par de anos, muitos queriam fazer-se fotografar com ele. Hoje apagaram essas fotografias, eventualmente comprometedoras. «As coisas são o que são», costumava dizer o general de Gaulle: nada como a dura realidade para destronar os mitos.

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O herói da nova tragédia grega

por Pedro Correia, em 06.05.17

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1

Eu sei que as memórias andam fracas, mas gostava de saber se alguém ainda se lembra do delírio messiânico que acolheu a vitória eleitoral de Alexis Tsipras na Grécia, em Janeiro de 2015.

Os hossanas tributados durante meses em incontáveis serões televisivos cá no burgo e nas páginas da imprensa portuguesa não deixavam lugar a dúvidas: a "verdadeira esquerda" personificada pelo líder do Syriza iria enfim fazer peito às balas "neoliberais" disparadas de Bruxelas e Berlim proclamando o perdão unilateral da dívida.

"Não pagamos" era a palavra de ordem.

Meninas com pendor anti-sistema confessavam a sua ardorosa admiração pelo efémero ministro grego das Finanças e houve até quem se fizesse fotografar com ele em comícios. Cavalheiros com irrepreensível pedigree revolucionário apressaram-se a produzir epístolas aos indígenas lusos apontado Atenas como a nova capital das luzes europeias. Jornais sempre prontos a deixar-se embalar pelos ventos dominantes derreteram-se de fervor pelo farol helénico, que nos iluminava para o "fim da austeridade".

 

2

"A vossa voz anulou a austeridade. A troika é passado", anunciou Tsipras à multidão reunida para ovacioná-lo a 25 de Janeiro de 2015, provocando uma corrente orgástica no rincão luso.

Nem a coligação logo estabelecida entre o Syriza e o Anel, representante da direita nacionalista, fez esmorecer os crentes. Nem sequer o apoio manifestado ao novo Executivo por Marine Le Pen e Nigel Farage, irmãos de fé eurofóbica, abrandou a prosa ditirâmbica daqueles que por cá já anteviam o PS a ser ultrapassado pelo Bloco, equivalente local do novo partido do poder entre os herdeiros espirituais de Sócrates (o genuíno).

Durante grande parte desse ano, enalteceu-se o experimentalismo político, a irresponsabilidade demagógica, o populismo mais rasteiro (incluindo as camisas sem gravata pour épater le bourgeois), a navegação à vista.

Tsipras, o "anti-Passos", era o novo ídolo das massas.

 

3

Manuela Ferreira Leite e José Manuel Pureza irmanavam-se no louvor à "devolução da dignidade" do povo grego. "Pela Grécia passa a salvação da Europa", garantia Ana Gomes, insuflada de júbilo. "O Governo grego conseguiu dobrar a Alemanha", entusiasmou-se Freitas do Amaral. "A Alemanha teve de ceder", sorria Nicolau Santos. "A Grécia teve a coragem de resistir às pressões das potências europeias", celebrou André Freire.

"Viva a Grécia", gritou a escritora Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. Enquanto o pintor Leonel Moura constatava que "uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras" e do seu ministro das Finanças, por quem "muitas mulheres da Europa" andariam "perdidas de amores". Isabel Moreira, bem ao seu jeito, corroborava.

Boaventura de Sousa Santos, confirmando que de Coimbra também se observa o mundo, vislumbrou ali rasgos de odisseia homérica: "A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa."

 

4

Alguém tem ouvido estas e outras boas almas que se derramavam em cânticos e louvores à "nova Atenas" voltar ao tema?

Certamente não. E provavelmente pelos motivos que surgem enumerados neste artigo do Guardian que nos mostra a verdadeira face da Grécia após dois anos e meio de Executivo Tsipras: mais cortes de pensões (18% até 2019), novos aumentos de impostos, novo pacote de privatizações em marcha, nem vestígio de perdão da dívida.

Tudo isto para travar in extremis  um quarto resgate de emergência e afastar o espectro da bancarrota num país que desde 2009 é incapaz de se financiar nos mercados internacionais e só nos primeiros dois meses de 2015 viu desaparecer cerca de 2,5 mil milhões de euros em depósitos bancários.

Em sete anos, o produto grego caiu 27% - mais do que o ocorrido nos EUA durante a Grande Depressão - e a dívida pública ascendeu a 180% do PIB. O desemprego, agora situado em 23,5%, não dá sinais de queda. Ninguém acredita que daqui a um ano, quando terminar a actual intervenção externa, o país recupere a soberania financeira, hoje hipotecada pelo Banco Central Europeu.

Afinal o Syriza não fazia parte da solução: faz parte do problema.

 

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Outra  greve geral já está marcada na Grécia, desta vez para o dia 17. Mas Tsipras, herói da nova tragédia helénica, resiste firme: continua a não usar gravata.

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Em 2016, com quatro meses de antecedência, o primeiro-ministro britânico convocou um referendo prometido dois anos antes. Perdeu, afirmou que respeitaria a decisão dos britânicos e demitiu-se.

Em 2015, com oito dias de antecedência, o primeiro-ministro grego convocou um referendo nunca antes anunciado. Ganhou, afirmou que respeitaria a decisão dos gregos, fez o oposto e manteve-se no cargo.

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Já não entoam hossanas a Tsipras

por Pedro Correia, em 25.01.16

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Faz hoje um ano, a "verdadeira esquerda" triunfou na Grécia. Alexis Tsipras, líder do Syriza, proclamou em Atenas o fim da austeridade, provocando um coro de hossanas um pouco por toda a Europa.

Poucos pararam para pensar que nenhum líder político soluciona problemas financeiros com retórica inflamada. A razão cedia lugar à emoção, como ficou bem patente no dia seguinte em eufóricas manchetes de periódicos como o Jornal de Notícias e o Público. "Grécia - o princípio do fim da austeridade", anunciava o primeiro, em parangonas. "Grécia vira a página da austeridade e deixa a Europa a fazer contas", bradava o segundo, igualmente em letras garrafais.

 

Um ano depois, o que temos?

A austeridade afinal vigora na Grécia. Mais apertada que nunca, após um terceiro resgate no valor de 86 mil milhões de euros que Tsipras se viu forçado a aceitar para evitar in extremis a bancarrota do país, pondo de lado todas as bravatas que lhe haviam rendido votos e o aplauso acéfalo de pequenas e médias multidões de colunistas.

Doze meses exactos após a vitória eleitoral do Syriza, imitando qualquer social-democrata ou "neoliberal", a esquerda "revolucionária" helénica implora por investimento externo enquanto os gregos apertam cada vez mais o cinto. As pensões de reforma e benefícios sociais estão sujeitas a cortes que podem chegar aos 30%. E o IVA dos restaurantes e dos transportes subiu para 23%.

Intervindo perante os próceres da finança internacional na mais recente reunião do Fórum Económico Mundial em Davos, iniciativa antes diabolizada por servir de cobertura ao "capital especulativo", Tsipras anunciou sem pudor que Atenas "era parte do problema e agora quer fazer parte da solução". E, dando o dito por não dito, fez nova jura de equilíbrio das contas públicas enquanto acedia à tutela do FMI sobre as finanças gregas - algo que há um ano constituía um anátema para a sua base eleitoral de apoio.

Desde então o chefe do Executivo grego enfrentou duas greves gerais, violentas manifestações nas ruasruidosos protestos de um número crescente de cidadãos - incluindo  agricultores e  funcionários públicos - que se sentem  traídos pelas promessas que ficaram por cumprir. Incluindo o fim dos cortes salariais e da vaga de privatizações no país.

 

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Vale a pena recordar o que escreveram e disseram há um ano diversas personalidades que produzem opinião no espaço público português. Para se perceber até que ponto eram irreais as expectativas que depositavam neste resultado eleitoral.

E para se perceber também até que ponto as convicções pessoais, nomeadamente do foro ideológico, perturbam a capacidade de entender a realidade.

 

Ana Gomes: «Pela Grécia passa, antes, a salvação da Europa.»

António Costa: «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir na mesma linha.»

Boaventura de Sousa Santos: «A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa.»

Catarina Martins: «Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo.»

Daniel Oliveira: «A vitória do Syriza é a única boa notícia que a Europa pode receber nos próximos meses.»

Freitas do Amaral: «Eles [governo grego] recuaram muito, mas a Alemanha recuou muito mais. (...) Terminou a austeridade pura e dura [na Grécia].»

José Castro Caldas: «A Grécia renasceu hoje. O medo falou e perdeu.»

José Vítor Malheiros: «A Grécia vai ter finalmente um Governo grego, composto por gregos que se preocupam com a vida dos cidadãos gregos.»

Leonel Moura: «Uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras, reforçada agora pela de Varoufakis. Ao que parece muitas mulheres na Europa andam perdidas de amores por estes dois gregos.»

Nicolau Santos: «A Europa vai ter de ceder.»

Pedro Adão e Silva: «É uma transformação importante: deixou de haver uma hegemonia na forma como estava a ser governada a União Europeia.»

Pedro Bacelar de Vasconcelos: «A vitória do Syrisa lavrou a certidão de óbito de uma "política" que recusava admitir alternativas para a quebra da solidariedade europeia.»

Rui Tavares: «Os gregos abrem uma porta para a transformação das políticas da União Europeia.»

Viriato Soromenho-Marques: «A coragem da Grécia rasgou uma brecha no muro da insensatez.»

 

Um ano depois, todos estes ditirambos só podem provocar sorrisos amarelos - por estarem nos antípodas do que aconteceu. Os factos são teimosos, como Lenine nos ensinou.

Durante todo o dia, procurei ouvir novos hossanas a Tsipras. Apenas escutei um silêncio ensurdecedor.

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Um perigoso neoliberal

por Pedro Correia, em 03.10.15

Tsipras corta pensões, elimina subsídios e aumenta impostos na Grécia duas semanas após as eleições. Sem um sussurro de protesto dos indignadinhos em Portugal.

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Já só lhe falta usar gravata

por Pedro Correia, em 21.09.15

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A vitória de Alexis Tsipras nas legislativas de ontem na Grécia foi acolhida de forma muito diferente da que ocorreu a 25 de Janeiro, data da eleição anterior. Desta vez não houve manchetes eufóricas, proclamações festivas dos comentadores "isentos" nem a ridícula elevação do dirigente da esquerda radical grega ao estatuto de novo messias capaz de pôr fim às políticas de austeridade na Europa com a sua retórica populista.

Tsipras voltou a vencer - com menos um ponto percentual e menos quatro deputados do que há oito meses - num escrutínio marcado pelo galopante avanço da abstenção: 45% dos eleitores gregos viraram desta vez costas às urnas, quando em Janeiro esta percentagem se tinha quedado nos 34%. E acaba de revalidar a coligação com o partido da direita nacionalista e xenófoba Gregos Independentes que lhe tem servido de bengala. Beneficia do insólito bónus de 50 deputados propiciado pela lei eleitoral helénica ao partido vencedor (que tanto criticou quando estava na oposição) e da irrisória percentagem obtida pela ala fraccionista do Syriza, reunida em torno da Unidade Popular, uma nova formação de extrema-esquerda a que nem o ex-ministro Yanis Varoufakis conseguiu dar alento.

 

Desta vez as rolhas de espumante mantiveram-se nas garrafas. Percebe-se porquê. Tsipras rasgou o "inegociável" Programa de Salónica, que lhe serviu de bússola para se apresentar às urnas há oito meses com proclamações "anti-austeridade" contra uma União Europeia "dominada pela especulação financeira". Desse programa constava a suspensão unilateral do pagamento da dívida grega, o aumento do salário mínimo de 580 para 751 euros, um vasto pacote de nacionalizações, o alargamento dos quadros da administração pública e a redução da carga fiscal, entre outras medidas que chocavam com o Tratado Orçamental subscrito por Atenas.

Sabe-se o que aconteceu depois. A 5 de Julho, a coligação esquerdodireitista convocou um plebiscito-relâmpago que rejeitou as normas de contenção financeira ditadas por Bruxelas. Dias depois, no entanto, o primeiro-ministro aceitou um conjunto de medidas ainda mais severas, que enterravam de vez o programa eleitoral do Syriza. Medidas que incluíram um corte drástico de pensões (entre 30% e 70%), o aumento de impostos como o IVA e um amplo programa de privatizações de empresas estatais.

 

O Tsipras de Setembro nada tem a ver com o Tsipras de Janeiro: confrontado com um iminente cenário de bancarrota e a perspectiva de colapso do sistema financeiro, conduziu a Grécia ao terceiro resgate externo de emergência em cinco anos, recebendo um cheque de 86 mil milhões de euros cuja aplicação será escrutinada até ao último cêntimo pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu. Na melhor das hipóteses, resta-lhe ser o Passos Coelho helénico na legislatura que vai seguir-se, forçando os gregos ao maior aperto de cinto de que há memória.

Bastaram oito meses para silenciar os hossanas ao antigo herói da esquerda radical, agora forçado a praticar políticas decalcadas de qualquer cartilha "neoliberal". Já nada me espanta. Nem me surpreenderia até que um dia destes víssemos Tsipras de gravata.

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O factor grego

por Pedro Correia, em 28.07.15

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A errática actuação do executivo de coligação em Atenas formado em Janeiro pelo Syriza e o Anel - partidos com a eurofobia como único traço identitário comum - começa a ter reflexos nas intenções de voto um pouco por toda a Europa. A experiência de poder da chamada esquerda radical, confrontada com a iniludível crueza dos factos, tem decepcionado uma fatia imensa de apoiantes que ainda há seis meses estavam convictos de que havia uma "verdadeira alternativa" ao Tratado Orçamental na eurozona. E nem preciso de evocar aqui as citações que venho enumerando na minha série Grécia Antiga para ilustrar esta diferença abissal entre os doces desejos e a amarga realidade. Basta recomendar a leitura atenta desta excelente reflexão de Jorge Bateira, insuspeito de simpatias pelo pensamento liberal ou conservador.

"Quando convocou o referendo, Tsipras tinha a obrigação de aceitar o repto da direita e dizer ao povo grego que a experiência de longos meses de negociações falhadas o obrigava a concluir que um “não” implicava a provável expulsão de facto do euro através do BCE. O que se seguiu foi penoso e humilhante. Uma pesada derrota para a esquerda que ainda acreditava na mudança da UE por dentro, uma derrota que terá repercussões negativas nos resultados eleitorais do Podemos em Espanha", escreveu aquele economista, na passada sexta-feira, no jornal i.

Tocou no ponto certo - como aliás ficou bem evidente logo dois dias depois, na sondagem divulgada este domingo no El País  sobre as intenções de voto dos espanhóis nas próximas legislativas. Os números demonstram uma queda abrupta do Podemos: dez pontos percentuais num semestre (28,2% em Janeiro, 18,1% em Julho) e mais de três pontos num só mês (em Junho tinham 21,5%).

 

Questões de âmbito interno ajudarão a explicar este recuo da esquerda radical espanhola, que há 14 meses irrompeu na cena política conquistando mais de um milhão de votos nas europeias. Com um líder telegénico, Pablo Iglesias, e um programa que mistura marxismo e populismo em doses bem estudadas, o Podemos prometeu "revolucionar" a política espanhola e pôr fim à "casta" dominada pelas duas maiores famílias ideológicas, a conservadora e a socialista. No início de 2015 chegou a liderar as intenções de voto.

A queda entretanto registada explica-se em grande parte pelo factor grego, que não deixará de ter também repercussões em Portugal. Nada mais natural, atendendo ao desvario estratégico do executivo de Atenas - que, sabe-se agora, chegou a ter preparado um  plano de abandono unilateral da eurozona que despenharia fatalmente a Grécia no caos financeiro.

Um plano que não avançou, por um lado, devido à escassez de reservas monetárias do país e, por outro, devido ao bom-senso revelado por Moscovo e Pequim: em ambas as capitais, Tsipras e o seu ex-protegido Yanis Varoufakis escutaram palavras cheias de realismo político. A Grécia falida não vale um conflito global com o Ocidente. Sobretudo agora, que a Rússia mergulha na recessão e a queda das bolsas chinesas começa a alarmar o planeta financeiro.

 

Entretanto já se anuncia um novo pacote de austeridade ainda antes de entrar em vigor o terceiro resgate de emergência à Grécia. Tornando ainda mais longínqua aquela demagógica proclamação de Tsipras na noite de 25 de Janeiro, enquanto celebrava a vitória eleitoral: "Vamos deixar a austeridade!"

Palavras prontamente desmentidas pelos factos.

Por tudo isto, o factor grego continuará a pesar na opinião europeia. E ajudará a determinar o desfecho das próximas contendas eleitorais no continente - queiram ou não queiram todos quantos ainda há pouco apontavam o Syriza como bóia salvadora.

Alguns já perceberam que andaram a aplaudir meros vendedores de ilusões. E talvez subscrevam agora o diagnóstico certeiro de Jorge Bateira: "A derrota do governo grego foi causada, em última instância, por uma cegueira ideológica que o impediu de perceber o significado do impasse em que caiu e de, a partir daí, mobilizar o povo grego para a aceitação das implicações últimas da recusa da austeridade."

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O cavalo de Tróia do euro.

por Luís Menezes Leitão, em 27.07.15

Há dias escrevi aqui que me parecia que a situação na Grécia tinha atingido uma irracionalidade de tal ordem, que não se sabia o que o governo grego pretendia. O tempo levou a descobrir que, com ou mais ou menos planos rocambolescos, o que ele pretendeu desde o início foi a saída do euro e o regresso ao dracma. Tsipras parece por isso Hamlet, de quem se dizia que estava numa verdadeira loucura, mas havia método nisso ("Though this be madness, yet there is method in't").

 

Efectivamente, Atenas só não saiu do euro porque não teve apoio externo para o fazer. O problema de um país adoptar uma moeda própria é que ninguém a aceita no estrangeiro. Por isso, em ordem a poder manter o pagamento dos bens importados, esse país tem que antes de tudo ter uma reserva grande de divisas. Ora, a Grécia não tinha quaisquer reservas. Correu por isso literalmente seca e meca para as arranjar. Tsipras pediu auxílio aos EUA, à Rússia, à China e até ao Irão, para obter um financiamento que lhe permitisse sair do euro. De todos estes países ouviu um sonoro e terminante não. Pode haver desavenças com a Europa, mas a nenhum destes Estados interessava contribuir para o colapso da zona euro. Por isso Krugman, um dos maiores apoiantes do Grexit, acabou a chamar incompetente ao governo grego.

 

Rejeitado por todos, Tsipras voltou, qual filho pródigo, para os braços do Eurogrupo. Mas voltou sem qualquer convicção, referindo que um dia a batalha vai dar frutos. Parece que estamos assim perante a velha estratégia leninista de dar dois passos atrás para dar um passo em frente.

 

Em qualquer caso, não parece que as feridas tenham ficado minimamente saradas e que Tsipras tenha desistido dos seus intentos. A Grécia é por isso hoje o cavalo de Tróia do euro, de onde os seus soldados estão preparados para sair a qualquer momento, voltando a fazer colapsar a cidadela.

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Competências sobrestimadas

por Rui Rocha, em 19.07.15

Paizinho Krugman vem agora dizer  que sobrestimou a competência do governo grego. Pelo visto, não passava pela cabeça de Paizinho Krugman que Tsipras & Varoufakis não tivessem um plano de urgência para o caso de as negociações com os credores levarem a resultados inaceitáveis. Pois muito bem. O que eu gostaria realmente de saber é que tipo de plano poderia ser esse, dadas as circunstâncias. É que uma saída do euro e a sua substituição pelo dracma, ou coisa que o valha, pressuporia sempre a existência de reserervas cambiais significativas. E isso é coisa que a Grécia não tem. Ora é surpreendente que Paizinho Krugman (ou Varoufakis), proficientes como são em questões económicas, desconheçam a impossibilidade prática de a Grécia optar por moeda própria nesse cenário. Por isso, das duas uma: ou alguém anda aqui a enganar deliberadamente a opinião pública ou, então, teremos de concluir que não é só a competência do governo grego que tem sido sobrestimada.

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O avião oficial de Tsipras

por Pedro Correia, em 16.07.15

«La última vez que Mariano Rajoy vio a su homólogo Alexis Tsipras antes de esta desastrosa semana fue el pasado día 26 cuando presenció cómo despegaba a toda pastilla de Bruselas el avión oficial del griego. Ya se lo había dicho el primer ministro portugués, Pedro Passos Coelho: "Para que veas. Yo no tengo avión oficial por los recortes, pero Alexis sí lo mantiene". Lo llamativo esa tarde era la rapidez con que la que Tsipras - que suele propinar largas y mitineras ruedas de prensa - se largaba. Lo que tramaba era convocar un referéndum para hacer fuerza negociadora que puede terminar siendo su sepultura política.»

Carlos Segovia, no El Mundo

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Manicómio em autogestão

por Pedro Correia, em 16.07.15

Dez dias depois do referendo que convocou para dizer "não" à austeridade, obtendo quase 62% nas urnas, Alexis Pirro Tsipras fez há minutos aprovar no Parlamento grego um documento que impõe à Grécia um pacote austeritário muito mais severo. Esse pacote, em que o próprio Tsipras diz não acreditar, corresponde à terceira intervenção financeira externa de emergência no país e foi validado por 229 votos favoráveis, com apenas 64 contra e seis abstenções. Resumindo e abreviando: o "não" de 5 de Julho passa a "sim" a 15 de Julho com o aval de 79% dos deputados. O primeiro-ministro obteve mais apoio da oposição do que dos parlamentares que só em teoria apoiam o Governo.

Por estes dias, a Grécia parece um manicómio em autogestão. Como se dizia do velho Portugal revolucionário de 1975.

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Grécia: leituras recomendadas

por Pedro Correia, em 11.07.15

A vitória da austeridade? De José Guinote, no Vias de Facto.

"Saída ordenada". De Vital Moreira, na Causa Nossa.

A táctica do Syriza. De F. Penim Redondo, no Dote Come.

Guião para ler as horas até domingo. De Francisco Louçã, no Tudo Menos Economia.

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Os indomáveis

por Pedro Correia, em 11.07.15

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«Sim, cometemos erros nestes cinco meses.»

Alexis Tsipras, esta madrugada, no Parlamento de Atenas

 

O Syriza chegou ao poder em Janeiro, festejado por toda a "verdadeira esquerda europeia". E também por representantes da "verdadeira direita" - a de Marine Le Pen, em França, e de Nick Farage, no Reino Unido.

Em clima de bravatas eurofóbicas, Alexis Tsipras e o seu flamejante ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, prometeram aos gregos aquilo que jamais lhes poderiam dar: um programa expansionista, que aumentava em 11,7 mil milhões de euros a despesa pública.

Foram ovacionados. Lá e .

 

Nesse momento a Grécia tinha acabado de sair de uma profunda recessão: equilibrara o seu saldo primário, apresentava uma leve recuperação económica (o produto cresceu 0,8% em 2014) e segundo as estimativas do Fundo Monetário Internacional o PIB do país aumentaria 2,5% no ano em curso.

Seguiram-se doze cimeiras europeias que não produziram resultados práticos, excepto os quatro meses de extensão do programa de assistência alcançado por Atenas a troco de mera retórica. E seguiram-se novas bravatas, que culminaram no inenarrável referendo plebiscitário de 5 de Julho, em que Tsipras voltou a defraudar os eleitores.

Prometendo-lhes algo que não estava em condições mínimas de lhes dar.

 

Nessa altura a Grécia já se tornara o primeiro país da NATO a suspender pagamentos ao FMI (deixando por transferir 3,5 mil milhões de euros a 30 de Junho).

Nessa altura, sem capacidade de financiamento, já Atenas se vira forçada a impor medidas drásticas de controlo de capitais.

Nessa altura já os bancos gregos estavam fechados compulsivamente após cinco meses de descapitalização contínua: mais de 40 mil milhões em depósitos voaram do sistema financeiro desde que Tsipras tomou posse.

Nessa altura já a maioria dos estabelecimentos exigia o pagamento em dinheiro vivo e pelo menos 20% das caixas multibanco estavam sem liquidez para remunerar os 60 euros diários de levantamento permitidos a cada cidadão.

 

O plebiscito abortou um acordo esboçado com as instituições europeias. Que daria luz verde a um terceiro programa de assistência financeira ao país a troco de reformas que mal ultrapassariam os 7 mil milhões de euros.

A 5 de Julho a maioria dos gregos votou sim. Foi uma vitória de Pirro do primeiro-ministro, como na altura escrevi aqui.

Três dias depois, já com Varoufakis fora de cena, o novo ministro das Finanças, Euclidis Tsakalotos, dirigiu uma carta à Comissão Europeia e ao Banco Central Europeu com um pedido formal de resgate. A troco de cortes estruturais na despesa pública que nunca serão inferiores a 14 mil milhões de euros.

Se antes tivessem procurado alcançar este consenso, a que só agora chegam em situação desesperada, teriam obtido contrapartidas menos duras.

 

O terceiro programa de resgate em cinco anos à Grécia deverá totalizar 53 mil milhões de euros e amarra os cidadãos helénicos a três anos de "austeridade" suplementar.

A mesma "austeridade" que Tsipras, na noite de 25 de Janeiro, afirmou triunfalmente ter terminado na Grécia.

 

As reformas começam quando o dinheiro acaba.

E, sem dinheiro, também as bravatas chegam ao fim.

Falando na longa madrugada de hoje aos deputados, Tsipras reconheceu que a Grécia vive num «ambiente económico de asfixia sem precedentes».

O terceiro pedido de assistência à Grécia em cinco anos foi aprovado no Parlamento de Atenas. Com 251 votos a favor, 32 votos contra, oito abstenções e a ausência de sete parlamentares da ala mais extremista do Syriza. Varoufakis foi um dos que se ausentaram.

Suprema ironia: valeu ao partido maioritário o apoio da Nova Democracia e do Pasok para conseguir luz verde do hemiciclo.

Falta agora a validação do pacote financeiro no Eurogrupo, no Conselho Europeu que reunirá de emergência amanhã e em pelo menos seis parlamentos nacionais, que poderão ratificá-lo ou chumbá-lo. Incluindo o Parlamento alemão.

 

Oiço agora alguns dizer - contra todas as evidências - que os governantes do Syriza "não cederam".

Pois não.

Só cederam no aumento do IVA (subida de 13% para 23% nos restaurantes).

E na questão das pensões (as do regime contributivo ficarão congeladas até 2021).

E no aumento da idade da reforma (dos 65 para os 67 anos).

E nas privatizações, que afinal vão por diante (portos do Pireu e de Salónica e redes de aeroportos regionais, nomeadamente).

E no imposto da propriedade, que será mantido.

E no quadro de mobilidade da função pública, que verá enfim a luz do dia.

E na exigência de condicionarem as reformas à reestruturação da dívida.

E na garantia aos cidadãos gregos que não haveria novas medidas de austeridade.

Mas quase não cederam nos cortes das despesas para as forças armadas. Os generais gregos podem dormir tranquilos no país europeu da NATO que tem maior ratio de militares por habitante e reserva maior fatia do seu orçamento para a defesa: 2,2%, correspondentes a 4,7 mil milhões de euros anuais.

Afinal só terão um corte de 300 milhõezitos nos próximos dois anos...

 

São indomáveis.

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O vencedor.

por Luís Menezes Leitão, em 10.07.15

Temos que reconhecer que Tsipras é um vencedor nato, tendo conseguido vergar totalmente os credores. Depois de inicialmente ter tido um sucesso retumbante ao conseguir que a troika se passasse a chamar as instituições, venceu estrondosamente o referendo que rejeitou um pacote de austeridade proposto pelo Eurogrupo. Com isto conseguiu aceitar agora um pacote de austeridade ainda pior. Como Tsipras sempre salientou "hoje a democracia vence o medo". Os gregos que o digam.

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Alexis Pirro

por Pedro Correia, em 06.07.15

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Vitória clara de Alexis Tsipras, ufanam-se alguns "analistas" comentando o sufrágio de ontem na Grécia. Num  plebiscito com uma pergunta absurda, que já estava ultrapassada pelos acontecimentos no preciso momento em que foi impressa nos boletins de voto, numa campanha-relâmpago onde não houve tempo para um debate sério e esclarecedor, com os adeptos do "sim" quase remetidos à clandestinidade perante a maciça propaganda governamental favorável ao "não".

Que vitória?

Com a economia em derrocada, os bancos falidos, a recessão a regressar em força (após o país ter crescido 0,8% em 2014), a necessidade absoluta de financiamento externo de emergência para fazer face às despesas mais elementares e o espectro de uma saída descontrolada do euro se no próximo dia 20 falhar o pagamento de 3,5 mil milhões de euros ao Banco Central Europeu. E - na melhor das hipóteses - um terceiro resgate a caminho, sujeito ao crivo prévio dos parlamentos nacionais dos restantes países da eurozona, tão respeitáveis como o de Atenas.

Pirro era grego. E também ficou célebre pelas vitórias que alcançou.

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Just for the record

por Rui Rocha, em 05.07.15

Em caso de vitória do não no referendo na Grécia (o que me parece extremamente improvável, mas logo veremos e o povo é soberano), o Syriza prometeu: 1) afastamento do cenário grexit; 2) acordo com os credores em 48 horas; 3) bancos abertos na terça-feira; 4) ausência de qualquer tipo de bail-in sobre os depositantes. Tsipras, entretanto, não referiu em concreto a possibilidade de unicórnios sobrevoarem a Acrópole a partir da noite de Domingo, mas supõe-se que essa será a surpresa reservada para um eventual discurso da vitória.

 

Actualizado às 14.43. Afinal, parece que o prazo para acordo com os credores era pouco ambicioso:

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Lex talionis

por Rui Rocha, em 03.07.15

Os que louvam Tsipras, omitindo que este enganou os eleitores gregos ao prometer o que sabia não estar nas suas mãos cumprir, deviam ser obrigados a fazer campanha por Passos Coelho.

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Os garotos

por Rui Herbon, em 03.07.15

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Os países não podem ser governados em estado de permanente excitação. É possível adoptar a estratégia da fuga para a frente a curto prazo, com gestos, slogans e propaganda que satisfaçam num momento concreto a maioria dos cidadãos, mas nem as grandes revoluções se conseguiram instalar na retórica da política-ficção de modo indefinido. Fazer política à margem da realidade é uma farsa inaceitável. Não é sério celebrar eleições em Fevereiro (que sufragaram uma política que, por ser contrária à defendida pela generalidade dos países da União, que nunca a aceitariam, implicava o incumprimento e a saída do euro) e convocar um referendo em Julho, a correr, porque o governo eleito não tem coragem para tomar decisões (a democracia, dizia Max Weber, é um instrumento para escolher os encarregados de adoptar as decisões supostamente justas e definir contra-pesos para limitar os seus excessos) e nem sequer soube gerir os problemas que afectavam muito dolorosamente a maioria dos gregos (a economia estava a crescer antes da tomada de posse do governo do Syriza).

 

Há dias Alexis Tsipras aceitava o núcleo duro das exigências dos credores. Poucos dias antes tinha abandonado as negociações e convocado, à noite e sem avisar ninguém, um referendo. Não se entende como, apesar de querer negociar, continua a apoiar o «Não» no referendo, cuja pergunta está totalmente ultrapassada, pois refere-se a documentos que, não tendo havido acordo até terça-feira passada, deixam de estar em vigor; e os seus ministros, à falta de argumentos, continuam a usar a demagogia: «campanha de terror contra a Grécia», «conspiração para derrubar um governo de esquerda» e por aí fora. Resumindo: a culpa é dos outros. Sempre que se empreende uma política baseada na ficção, alheia às leis vigentes e à realidade palpável, responsabiliza-se o suposto adversário ou inimigo pelos males pátrios. É essa a táctica secular de ditadores e populistas de meia-tigela (que são sempre aprendizes dos primeiros).

 

Os plebiscitos precipitados são jogos com cartas marcadas. Putin (oh, o amigo Putin) fê-lo na Crimeia, e Tsipras quer transferir para os gregos uma responsabilidade que é sua. A leviandade tem um preço demasiado elevado em política, que não é um jogo para garotos.

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Cai o pano

por Sérgio de Almeida Correia, em 02.07.15

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Se a convocação do referendo por parte de Alex Tsipras podia ser compreendida à luz das regras democráticas, a que os Estados dominantes da União Europeia têm fugido sempre que possível quando se trata de confrontar as suas decisões com a vontade dos povos, já o mesmo será difícil de dizer da errância de que tem dado mostras. Seguramente que não é fácil gerir um país na situação grega, sendo certo que o estado a que a Grécia chegou não foi fruto da irresponsabilidade dele ou de Varoufakis, mas sim de um conjunto de factores que vão da irresponsabilidade dos governos anteriores, tanto do PASOK como da Nova Democracia, que foram encanando a perna à rã, aldrabando as contas aos credores e disfarçando reformas, como foi também da ganância dos agiotas que, podendo ir acompanhando o que não ia sendo feito permitiram o arrastamento da situação através de sucessivos financiamentos, enquanto viam o défice crescer e as reformas necessárias eram trocadas por juros cada vez mais altos.

Para quem foi fustigado ao longo de meia dúzia de anos com sucessivos, e cada vez mais gravosos, pacotes de austeridade, com o dinheiro, as poupanças e as pensões de reforma a desaparecerem, o apelo do Syriza e a folha limpa que os seus líderes apresentavam em termos governativos aparecia como uma janela de esperança.

Volvidos estes meses é a própria esperança que se esvai. O pouco capital de credibilidade que ainda poderia possuir, Tsipras alienou-o da forma mais tonta e grotesca que se poderia imaginar. Porque em atenção às propostas que levaram o Syriza ao poder, se era legítimo que o referendo fosse convocado, independentemente do facto de isso já dever ter sido feito há mais tempo, isto é, logo que se apercebeu de que não conseguia lograr os seus intentos e que a continuação da negociação implicaria a rejeição do contrato eleitoral, não poderia fazê-lo revelando a incoerência de apelar ao voto no “não” e, ao mesmo tempo, continuar a negociar os termos da capitulação que entretanto aceitara. Para quê uma nova carta depois de dizer não aos credores e de ter anunciado o referendo?

Tsipras e o Syriza perderam a credibilidade. E, mais do que isso, perderam a razão. Que era não só a deles mas também a do povo grego, entregando-o à sua sorte, que em caso de vitória do “sim” no referendo, a meu ver previsível nas actuais circunstâncias, será igualmente a misericórdia dos credores. O desfecho, na linha da tradição dramática grega, não podia ser mais trágico.

Para a dignidade de um povo a vergonha do enxovalho por incompetência e espalhanço do mandatário é bem pior do que uma situação de incumprimento por carência objectiva de meios. Pode ser que a lição possa servir a outros, incluindo aos portugueses.

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O abismo grego

por Pedro Correia, em 01.07.15

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A irresponsabilidade, o experimentalismo extremo e a navegação à vista estão a debilitar de forma irreversível o Governo grego: com o país ainda formalmente inserido na União Europeia, a coligação Syriza-Anel conseguiu rebaixá-lo ao nível de um Sudão ou um Zimbábue, que também falharam o cumprimento das suas obrigações financeiras.

Os bancos gregos estão encerrados. E a população deixou de dispor sequer da liberdade de utilizar o seu dinheiro devido à proibição governamental de levantamentos diários superiores a 60 euros nas caixas multibanco, aliás em grande parte já descapitalizadas.

Se a situação era má quando o actual executivo tomou posse, em Janeiro, agora é péssima: a Grécia prossegue no caminho para o abismo enquanto alguns basbaques cá do burgo - cada vez menos, valha a verdade - ainda se atrevem a vitoriar Tsipras e Varoufakis, condutores de um comboio desgovernado.

Incapaz de conseguir financiamento autónomo, sem o menor prestígio internacional e com as suas próprias hostes divididas, o ainda primeiro-ministro grego ensaia agora uma nova fuga em frente levando a referendo no domingo uma pergunta que se tornou absurda: «Deverá ser aceite o projecto de acordo que foi apresentado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional no Eurogrupo em 25 de Junho?»

O "projecto de acordo" a que a pergunta alude caducou assim que Atenas entrou em incumprimento. De qualquer modo, responda como responder o eleitorado, resta ver até que ponto Tsipras e Varoufakis serão capazes de ultrapassar o assombroso nível de incompetência que vêm demonstrando.

Nisso, pelo menos, ninguém deve subestimá-los.

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A vitória de Tsipras

por Rui Rocha, em 28.06.15

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Showdown na Grécia

por Rui Rocha, em 27.06.15

Na noite de 25 de Janeiro de 2015, Alexis Tsipras chegou sorridente ao átrio da Universidade de Atenas. Antes de alcançar o púlpito onde proferiu o discurso da vitória, sorriu, acenou e deu vários abraços pelo caminho. «Hoje o povo helénico escreveu História e deixou a austeridade para trás». Uma história de «esperança». «A vossa voz anulou a austeridade. A troika é passado», disse aos milhares de gregos que o esperavam na capital. Em 27 de Junho de 2015, Alexis Tsipras comunicou ao país a decisão de convocar um referendo. Chegou, finalmente, o momento de o primeiro-ministro grego mostrar as cartas que tinha na mão. E não há, face a estes factos, duas leituras. É evidente que o Syriza apresentou aos eleitores um programa que não podia cumprir. Utilizou o desespero dos gregos para os iludir com promessas e palavras vãs. Ao remeter agora a decisão sobre o acordo com as instituições para a decisão popular, Tsipras assume o fracasso do seu confronto com os credores e a inconsistência da sua proposta política. Pelo meio, ficam mais de cinco meses de governação que teve como único resultado uma enorme sangria  da economia, do sistema bancário e das finanças gregas. A comparação entre o que foi dito em Janeiro e o resultado obtido em final de Junho é brutal: a esperança dos gregos concretizou-se na possibilidade de decidir entre a fome e a vontade de comer. Muitos sublinham constantemente que a Grécia foi o berço da democracia. A realidade encarrega-se agora de nos recordar que foi também ali que nasceu a demagogia.

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Póquer grego

por Rui Herbon, em 25.06.15

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Cumpriram-se cem anos desde que as nações da Europa foram para a guerra porque os planos dos estados maiores não coincidiam com os dos governos e políticos. Cada um ia por sua conta. Os políticos não entendiam o que os militares tramavam, e quando quiseram deter a marcha para a loucura que foi a Grande Guerra já era tarde. Durante quatro anos os governos dependeram da sorte dos seus exércitos, até que a Conferência de Paris, em 1919, construiu uma nova Europa sobre milhões de mortos. Começava um período de confrontações e de mudanças que desenharam novas fronteiras sobre as cinzas dos impérios caídos.

 

Salvando todas as distâncias e mudando os países e os seus actores, poder-se-ia afirmar que o mundo da política e o dos mercados, da finança e dos agentes económicos perderam o contacto. A Europa e a Grécia esticam a corda das suas relações até ao ponto de se contemplar a possibilidade da segunda abandonar a zona euro. O BCE, o FMI e a Comissão Europeia - a troika - são quem detém a iniciativa, sob o controlo à distância do governo alemão, dos bancos europeus e dos investidores que pretendem logicamente recuperar as suas aplicações na Grécia. Um jogo muito perigoso. A ruptura seria um desastre para os gregos, mas a Europa não sairia ilesa. A maioria dos gregos quer permanecer na zona euro, mas o governo de Tsipras pede ajuda a Merkel para que os salve sem fazer as reformas imprescindíveis no país. Levamos muitos meses de negociações tensas em que por vezes, de parte a parte, se recorreu a linguagem de taberna.

 

Têm sido os dados e números esgrimidos pelas autoridades monetárias e financeiras a ditar as decisões políticas. Mas do que a Grécia precisa, depois de um resgate financeiro, é de um resgate económico. Claro que a eleição de um governo de esquerda socialista tornou mais complicada a relação com a troika. O governo helénico pede mais euros para não entrar em bancarrota; a Europa contrapõe que só se Atenas apresentar reformas credíveis que, na prática, terão efeitos negativos na vida da população. É este o nó górdio. Do lado europeu fala-se com a linguagem da austeridade; do grego com uma certa petulância ideológica que não apresenta um indício de reformismo. É perigoso jogar com linguagens distintas simplificando conceitos e mesclando situações. Podem o euro e a Europa seguir em frente deixando cair a Grécia? Ninguém sabe. Mas a própria chanceler alemã já advertiu que se o euro cair, cai a Europa.

 

Convém também recordar que uma das razões para a criação da Aliança Atlântica, em 1949, foi a incapacidade do Reino Unido e da França para defenderem a segurança da Grécia e da Turquia, numa altura em que diversos países europeus (Checoslováquia, Polónia, Hungria) caíam sob o controlo da União Soviética de Estaline. A doutrina Truman nasceu precisamente para defender a zona de influência ocidental definida na Conferência de Yalta. Os encontros de Tsipras com Putin contém uma mensagem inequívoca, ainda que neste momento a Rússia não esteja em condições de prestar ajuda a ninguém. Mas convém contemplar a crise grega também de um ponto de vista geopolítico.

 

Há que encontrar uma saída para a crise através de acordos de longo prazo. A confiança é tão frágil, e os planos da Grécia para reestruturar a sua dívida tão pouco convincentes, que esta partida de póquer pode acabar com o triunfo do forte e a humilhação do fraco, que buscaria alianças alternativas. Aos gregos, em qualquer caso, esperam-lhes tempos míseros, porque há muitos anos que o país vivia num delírio financeiro que contemplava inclusive o completo falseamento das contas nacionais. Mas não devemos esquecer que por vezes um problema menor é a acendalha para um grande incêndio. Como há cem anos.

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O sonho helénico

por Helena Sacadura Cabral, em 23.06.15

O novo caderno de encargos do governo Tsipras assentará basicamente nos pontos abaixo discriminados:

1.aumento da idade de reforma para 67 anos;

2.fim imediato das pré-reformas;

3.extinção dos suplementos às reformas mais baixas;

4.aumento das contribuições dos pensionistas para terem acesso à Saúde (5%);

5.aumento da TSU (3,9%) para os patrões;

6.aumento do IVA por intermédio da passagem de diversos produtos da taxa mínima para a máxima;

7.aumento do IRC de 26% para 29%;

8.corte de 200 milhões de euros na Defesa;

9.introdução de um imposto de 12% nos lucros das empresas com lucros iguais ou superiores a meio milhão de euros;

10.introdução de um imposto sobre iates privados;

11.aumento do excedente orçamental primário no PIB. 

O povo grego vai ser, assim, submetido a um novo plano de austeridade. Que os portugueses bem conhecem. Todavia nada está seguro, visto que o Parlamento nacional ainda não aprovou tais medidas. Mas que elas representam uma certa desilusão, isso, ninguém duvida. Não era este o sonho helénico. 

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O eixo Espanha-Portugal

por Luís Menezes Leitão, em 01.03.15

Numa reunião do comité central do Syriza, o presidente desse partido Alexis Tsipras, afirmou o seguinte: "Descobrimos um eixo de poderes liderado pelos governos de Espanha e de Portugal que, por motivos políticos óbvios, tentou levar a Grécia para o lado, para o abismo durante todas as negociações". E acrescentou que "o plano deles era e é desgastar-nos, derrubar o nosso governo ou levar o nosso Executivo a uma rendição incondicional antes que o nosso trabalho comece a dar frutos e que o exemplo da Grécia afecte outros países, sobretudo antes das eleições em Espanha". Trata-se de liguagem tipicamente partidária, para consumo interno do Syriza, mas que não deixa de ter um fundo de verdade. Afinal de contas não foi a imprensa alemã que noticiou que Maria Luís Albuquerque tinha pedido a Schaeuble para ser duro em relação à Grécia?

 

Portugal e Espanha ficaram obviamente ofendidíssimos com as acusações de Alexis Tsipras. E para assegurar que não formam eixo nenhum, resolveram enviar um protesto conjunto em carta assinada por ambos — importam-se de repetir? — destinada aos presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e do Conselho Europeu, Donald Tusk. Presumo assim que estejam cortadas as relações diplomáticas com a Grécia, pois caso contrário seria de esperar que o protesto fosse enviado por via diplomática a este país. Claro que é altamente original governos protestarem por declarações feitas num encontro partidário, mas a confusão é tanta que já ninguém conhece as regras.

 

Em qualquer caso, esta reacção conjunta demonstra claramente que afinal Tsipras estava cheio de razão. Há, de facto, presentemente um eixo Espanha-Portugal. O que demonstra a falta que estão a fazer as comemorações do 1º de Dezembro no nosso país.

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Alexis Chávez ou seguindo o modelo à risca

por José António Abreu, em 28.02.15

Passos elevado à condição de «grande satã» Bush é que não lembrava ao diabo.

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Penso rápido (65)

por Pedro Correia, em 18.02.15

Há uma contradição aparentemente insanável entre o que o Syriza  proclama e o que o Syriza faz. Enquanto proclama o desejo de manter a Grécia no euro (correspondendo aliás à opinião largamente maioritária no país, cerca de 74%) começa a fazer tudo, e em passo rápido, para que o país abandone o sistema monetário europeu com as primeiras medidas de carácter populista já anunciadas em ruptura com os compromissos assumidos ao receber o fundo de resgate (aumento do salário mínimo, electricidade gratuita para cerca de um milhão de pessoas, restituição do subsídio de Natal, abolição das taxas moderadoras, medicamentos gratuitos e passes de transportes também gratuitos para desempregados, renacionalizações de empresas privatizadas ou em fase de privatização, tudo envolvido num pacote que agravaria o défice orçamental grego em nove pontos percentuais).
A intenção, por enquanto inconfessável, parece evidente: apontar mais tarde o dedo acusador às instituições comunitárias, acusando-as de responsabilidade directa na ruptura da Grécia com o euro.
Tudo demasiado previsível. Estamos perante rudimentares aprendizes de Maquiavel. Só receio que o povo grego acabe por sofrer ainda mais com isto. E nós com ele.

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Razão e emoção.

por Luís Menezes Leitão, em 12.02.15

Como bem se demonstra neste artigo a única decisão racional possível implicaria o Eurogrupo chegar a acordo com a Grécia, atribuindo-lhe condições mais favoráveis de pagamento da dívida para poder permanecer na zona euro. Essa situação evitaria que a Grécia se aproximasse da esfera de influência russa, o que é essencial numa altura em que estamos a um passo da guerra total na Ucrânia.

 

Não me parece, porém, que tal vá acontecer, especialmente porque as decisões políticas nem sempre são racionais, podendo ser ditadas por uma forte carga emocional. Foi assim, por exemplo, que os Estados Unidos encararam a revolução cubana, onde um grupo de guerrilheiros derrubou o regime pró-americano de Fulgêncio Baptista, visto internamente como um simples capataz dos EUA. Desde o início, os EUA adoptaram uma política de total intransigência em relação a Fidel Castro, o que teve como único resultado que Cuba se atirou para a esfera de influência soviética, passando os EUA a ter um regime pró-soviético a 120 km das suas costas. Cuba quase atirou os EUA para uma guerra nuclear e só agora, passados mais de 60 anos, os dois países voltaram a ter uma aproximação.

 

Mas a revolução cubana teve também um efeito altamente pernicioso no ocidente, devido à grande influência que teve na sua juventude.   Che Guevara e Fidel Castro transformaram-se em ícones mundiais da juventude, levando a uma contestação sem precedentes nas democracias ocidentais. Nos EUA assistiu-se às gigantescas manifestações contra a guerra no Vietname e na Europa culminou com o Maio de 68, que até provocou a renúncia de De Gaulle no ano seguinte. Curiosamente, enquanto toda a juventude europeia olhava fascinada para Cuba, a URSS esmagava tranquilamente a primavera de Praga. Na altura dizia-se que o ocidente atravessava uma época de depressão nervosa, da qual só sairia com o governo de Thatcher no Reino Unido e com a presidência de Reagan nos EUA, essenciais para a vitória na guerra fria.

 

A Europa atravessa um período semelhante de emoções à flor da pele. Há muito tempo que costumo ver em viagens à Alemanha cartazes a dizer: "os gregos que paguem sozinhos as suas dívidas" ou "os resgates do euro põem em causa as nossas pensões", num país que deveria estar a cantar loas aos ganhos líquidos que está a ter com o euro. Em Portugal Passos Coelho também se pôs a criticar as propostas gregas, porque sabe que, se forem satisfeitas, ele será posto em causa por não ter feito exigências semelhantes. E agora até Cavaco Silva saiu da sua torre de marfim para falar dos muitos milhões que Portugal emprestou à Grécia, numa atitude totalmente imprópria de um Chefe de Estado.

 

Curiosamente, não me parece que o governo grego esteja minimamente preocupado com esta falta de acordo. Dá-me aliás a ideia que as constantes viagens de Tsipras e Varoufakis não se destinam minimamente a influenciar os seus inimigos europeus, perdão, os seus parceiros europeus para que cheguem a acordo com a Grécia. A ideia parece-me ser antes a de influenciar a opinião pública europeia, que se tem multiplicado em manifestações de apoio aos gregos. As declarações públicas de Schäuble e agora de Cavaco Silva parecem-me assim uma tentativa frustrada para combater a simpatia com que a iniciativa grega está a ser vista pelas populações europeias. Neste enquadramento, a estratégia de Tsipras parece clara: o homem que chamou Ernesto ao seu filho, em homenagem a Che Guevara, quer realizar o velho sonho de Otelo e ser o Fidel Castro da Europa. Já esteve mais longe de o conseguir.

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O primeiro muro derrubado pelo Syriza

por Rui Rocha, em 30.01.15

O primeiro muro derrubado pelo Syriza não é, ao contrário do que dizem, o da austeridade. Esse é um jogo de tabuleiro em que se estão ainda a fazer os movimentos iniciais. Mas, entretanto, está aberta uma brecha de significativa dimensão na paz podre do rame-rame político. Independentemente das consequências das medidas aprovadas pelo governo de Tsipras, há um facto incontornável: estão a ser cumpridos na frente interna os aspectos essenciais do programa apresentado a sufrágio. Não há muitos por aí que possam orgulhar-se de tal coisa. O curioso é que este primeiro impacto provoca danos sobretudo à esquerda. Não propriamente à direita, uma vez que a distância do discurso esbate a viabilidade da comparação. Nem, naturalmente, às áreas da esquerda que genuinamente assumem uma agenda próxima da defendida pelo Syriza. Mas, claramente, naquela zona da esquerda povoada por passageiros de circunstância que tentaram aproveitar de forma oportunista a onda Syriza. O problema para estes é que fica cada vez mais evidente que, apesar das proclamações de circunstância e da tralha demagógica em que se vão entretendo, jamais seriam capazes de concretizar decisões como as que o novo governo grego aprovou nos últimos dias. Não faltará por aí quem vá tentar passar entre os pingos da chuva nos próximos dias.

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 Panos Kammenos e Alexis Tsipras

 

Nascido em 1974, Alexis Tsipras é filho do Maio de 68. Que consagrou esta palavra de ordem: «A imaginação ao poder: exige o impossível.»

Em Atenas, a imaginação chegou ao poder. Por via das urnas -- algo nunca antes acontecido -- e graças ao bónus de meia centena de deputados possibilitado por uma excêntrica lei eleitoral que transforma 99 lugares no parlamento em 149, uma federação de 12 partidos da esquerda radical acaba de formar governo com uma força política da direita xenófoba e eurofóbica. Numa bizarra simbiose de nacionalismo e populismo, em que o discurso contra o "estrangeiro" inflama as gargantas e os espíritos como fogo em palha. Distorcendo aliás a mensagem original do Maio de 68, que era internacionalista e manifestava um desdém absoluto pelo conceito de "soberania nacional".

Mas cumpre questionar: que soberania efectiva existe num país que mentiu aos seus parceiros sobre o volume real do défice das contas públicas, desbaratou milhares de milhões de euros em fundos estruturais lançados na maior "economia paralela" da União Europeia, detém ainda hoje o lamentável recorde de campeão europeu na fuga aos impostos e vive desde 2010 graças ao balão de oxigénio de 240 mil milhões de euros de auxílio de emergência destinado a travar in extremis a declaração de bancarrota?

 

Tendo chegado a imaginação ao poder, na insólita coligação de extremos simétricos protagonizada por Tsipras e Panos Kammenos, líder dos Gregos Independentes (ANEL), o novo chefe do executivo de Atenas trata agora de exigir o impossível: suprimir os compromissos estabelecidos com as entidades credoras. Cessam de imediato as privatizações em curso, o salário mínimo sobe 28% por decreto (passando de 586 para 751 euros), são readmitidos os funcionários públicos entretanto despedidos, estabelece-se um tecto de 12 mil euros de rendimento anual para isenção de imposto, suprimem-se as taxas moderadoras na saúde e lança-se um vasto pacote de medidas assistencialistas avaliado em 11,7 mil milhões de euros - ou seja, 6,5% do PIB helénico. O equivalente à soma dos depósitos que já voaram este mês dos bancos gregos.

Na prática, Atenas rasga o Tratado de Maastricht, que criou o sistema monetário europeu estabelecendo um conjunto de direitos e deveres aos estados signatários, e o Tratado Orçamental, que impõe limites à expansão do endividamento na UE. Lança assim novas achas na imensa fogueira da dívida pública grega ao prometer um pacote de gastos desmesurados com dinheiro que não tem. Exigindo o impossível com a sonora retórica da esquerda pura aliada à vibrante oratória da direita dura num país que representa menos de 2% do PIB comunitário.

«Os contribuintes da UE acabarão por pagar», consideram os arautos da nova coligação esquerdo-direitista de Atenas, unidos na aversão ao estrangeiro -- uma coligação contra naturam, que reúne todos os ingredientes indispensáveis para não funcionar. Porque congrega o pior dos dois hemisférios políticos numa mescla de bravatas populistas e ressentimento ideológico que ameaça acelerar o colapso das finanças públicas num país recém-saído de seis anos de recessão.

 

«Não sou ateniense nem grego, mas cidadão do mundo», ensinou Sócrates há 25 séculos. Este lema contraria o essencial da doutrina programática do novo executivo Tsipras-Kammenos, alicerçada no combate aos aliados externos transformados em inimigos para efeitos de propaganda política. Receio que, na atmosfera de irreprimível demagogia agora reinante em Atenas, sejam cada vez menos os que optem por seguir a sensata voz da sabedoria milenar.

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E depois há aquele provérbio chinês

por José Navarro de Andrade, em 29.01.15

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Menina não entra

por Pedro Correia, em 28.01.15

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Em Atenas, o recém-empossado  Governo encabeçado por Alexis Tsipras evitou embarcar em modernices: do novo elenco ministerial não consta uma só mulher, com quotas ou sem quotas.

Aqui está um tema em que a esquerda radical difere claramente da esquerda moderada de ZapateroRenzi e  Manuel Valls, que formaram governos "paritários" em Madrid (2004), Roma e Paris (2014).

Aguardo as primeiras críticas, ainda que tímidas, de grupos feministas ao executivo de coligação entre o Syriza e a direita nacionalista. Aguardo sobretudo uma reacção enérgica do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas, que já em 2009 reclamava um "governo mais feminino" a José Sócrates. E um protesto muito sonoro de Ana Gomes, aliás pioneira nestas reivindicações.

Tsipras é até capaz de reconsiderar.

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A viragem grega.

por Luís Menezes Leitão, em 28.01.15

Contrariando as perspectivas optimistas de rendição de Tsipras às posições de Merkel, os primeiros sinais que vêm da Grécia são muito elucidativos. Primeiro, o facto de o primeiro acto de Tsipras ter sido homenagear os gregos vítimas do nazismo, numa clara mensagem para Merkel que se prepara para levantar a questão das indemnizações não cobradas à Alemanha após a guerra. Logo de seguida Tsipras tem uma reunião com o embaixador russo, e nesse mesmo dia a Grécia bloqueia uma declaração conjunta dos países da União Europeia sobre a Rússia. Tsipras mostra assim urbi et orbi que o seu coração pende muito mais para Moscovo do que para Berlim. Tal pode significar uma alteração do posicionamento geo-estratégico da Grécia, um país da Nato com uma posição fulcral no Mediterrãneo Oriental, e que pode agora assumir-se como o cavalo de Tróia de Putin dentro da União Europeia.

 

No plano económico as primeiras medidas de Tsipras assemelham-se às do PREC: fim das privatizações, electricidade gratuita para 300.000 gregos e salário mínimo nos 751 euros. Os danos que isto vai causar na competitividade da economia grega são evidentes. Mas não me parece que isso preocupe os actuais governantes gregos. No Portugal de 1974 também o salário mínimo foi colocado em valores tão elevados que em termos reais nunca mais foram atingidos, o que, juntamente com as intervenções nas empresas, arrasou completamente a economia. Mas isso não fez perder um segundo de sono aos homens sem sono e muito menos a Vasco Gonçalves. Os dirigentes comunistas não se costumam preocupar com a saúde da economia capitalista e muito menos com os mercados, que já fizeram os juros gregos disparar e a bolsa cair a pique. Recorde-se que Mao-Tsé-Tung dizia: "Está um caos total debaixo dos céus. A situação é excelente".

 

O que me aborrece é que tudo isto era previsível e poderia ter sido evitado se não fosse a incompetência total na gestão da crise europeia por parte de Merkel e Barroso, naturalmente apoiados por Passos Coelho que acha tudo isto um conto de crianças. Mas os contos de crianças também ensinam algumas coisas: uma delas é que os génios podem ser perigosos quando são libertados da garrafa.

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Vamos então a coisas concretas

por Rui Rocha, em 26.01.15

O Tsipras manda fechar Guantánamo ou não?

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A grande ilusão.

por Luís Menezes Leitão, em 26.01.15

Perante a vitória mais que previsível do Syriza, imensos comentadores esforçaram-se por salientar que iria ficar tudo na mesma, com Angela Merkel a continuar a mandar na Grécia e Alexis Tsipras a vergar-se às posições alemães. No fundo é a repetição do velho TINA (There is no alternative) que até na Alemanha levou à criação de um partido radical Alternativ für Deutschland, que defende a saída imediata da Alemanha do euro. Parece-me um colossal erro de perspectiva. Tsipras é ambicioso, tem convicções ideológicas marcadas, tanto assim que até deu ao filho o nome do Che, e não vai querer ficar na história como o Hollande grego. Se seguir um padrão, será o de Lenine, que não hesitou em repudiar os compromissos russos, alegando que o novo estado soviético não tinha que os cumprir. E não me parece que neste momento os gregos encarassem mal uma declaração de bancarrota, pois provavelmente chegaram ao ponto em que acham que nada pode ficar pior do que já está. Os primeiros sinais que chegam, com Tsipras a proclamar que a austeridade acabou, e os eurocratas habituais a dizer que a Grécia tem que cumprir os seus compromissos levam a concluir que a ruptura é inevitável. Desiludam-se assim aqueles que julgam que tudo vai ficar na mesma.

 

Outros julgam, porém, que a bancarrota grega e a saída da Grécia do euro pode até ser positiva para os outros Estados-Membros que já se resguardaram para esta situação. Mais uma grande ilusão. A bancarrota grega terá um impacto mundial tão elevado que fará a queda do Lehman Brothers parecer uma brincadeira. E o resultado, a curto ou a médio prazo, será o descrédito do euro, com muito especulador a apostar qual é o próximo país a sair, com Portugal em excelente lugar na lista de apostas. 

 

Dir-se-á que tudo isto é irracional e que uma negociação séria permitirá limar arestas. Mas a verdade é que o comportamento dos Estados nem sempre é racional. Em 1914 ninguém de bom senso acreditaria que um crime político pudesse arrastar o continente europeu para uma guerra, mas de um momento para outro foi isso o que se passou. Em 2015 corremos o risco de assistir a uma bancarrota grega com ondas de choque inevitáveis em todo o continente. E julgo que agora é tarde para a evitar.

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