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Faz-me espécie

por Sérgio de Almeida Correia, em 24.11.17

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Desligado como vou estando dos fait-divers da pátria, estranho cada vez mais algumas notícias que me vão chegando e que vou lendo aqui e ali. Não se tratam sequer de comentários de terceiros, mas de puros factos sobre os quais fico depois a matutar.

Mal refeito, se é que se refez, da desastrosa gestão política da desgraça dos incêndios, do caso do armamento de Tancos e da atribulada candidatura do Porto a sede da Agência Europeia do Medicamento, eis que o Governo tem agora entre mãos a trapalhada do Infarmed

O primeiro-ministro diz que a comunicação "não foi a melhor". Está no seu direito de ser caridoso. O presidente da Câmara Municipal do Porto, ao que parece também sem pensar muito, ficou todo contentinho com o anúncio da mudança, o que numa situação destas – refiro-me ao atabalhoamento que se manifesta na forma como tudo foi preparado e anunciado, bem como pelas reacções de descontentamento dos trabalhadores (outra coisa não seria de esperar) –, revela em todo o seu esplendor um provincianismo atávico, muito pouco condizente com a postura moderna, inovadora, refrescante que tem assumido e que eu julgava ser a dele. Uma vez mais estava enganado. Basta ver a linguagem utilizada por ele para se referir aos que criticam a decisão.

Como alguém diria, é lá com eles. A mim é-me neste momento indiferente que transfiram o Infarmed para o Porto, para o Faial ou para as Selvagens, desde que não me chateiem nem me venham cravar. Mas que tudo isto me faz cada vez mais espécie, muita, é inegável. E não me sentisse eu (ainda) tão português (que raio de condição esta que à distância me faz sofrer tanto só de ouvir pronunciá-lo e de saber que o sou) mandava-os a todos para as urtigas.  

Pior do que esta cegada do Infarmed só me lembro mesmo daquela das secretarias de Estado do Dr. Santana Lopes. Pensadas com os pés, espalhadas pelo país e com os motoristas a fazerem aos 500km quase todos os dias para irem a Lisboa buscar e levar chefes de gabinete, adjuntos e assessores foram rapidamente abandonadas sem que alguém tivesse feito as contas aos verdadeiros custos e aos benefícios.

Se há tempo para mudar o Infarmed, como foi dito, qual é que foi então a pressa em anunciar as coisas, ainda com tudo por pensar e resolver? Estavam com saudades do Garcia Pereira? Somos um caso perdido. E caro.

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Arranjem um canalizador

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.10.17

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O ar já estava pesado. A terra ficou ainda mais com o inferno que persiste, pelo que aquela frase não podia ser mais apropriada: ''aquela merda ainda não entupiu... ”

 

Não se pode dizer que não tivessem feito tudo para isso. 

Quanto ao país, bom, já estava há muito. E não sei se haverá alguém que consiga desentupi-lo nas próximas décadas.

Não há purificadores do ar que cheguem. Nem mesmo em Marte.

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Hato de solidariedade

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.08.17

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A cidade procura regressar à normalidade. Não será fácil. O lixo vai sendo recolhido pelo IACM, com uma mão da PSP, que por momentos pode dar alguma folga aos agentes que se especializaram na fiscalização de parquímetros e emissão de talões, e pelas brigadas de jovens voluntários, chineses, macaenses e também portugueses. Provavelmente haverá mais alguém a apoiar essa tarefa, pelo que não sei se a informação que tenho estará completa. E hoje, finalmente, o destacamento do Exército Popular de Libertação, que está aquartelado em Macau, veio para a rua ajudar a limpar a cidade. Os relatos que tenho ouvido e o que vi merece os maiores encómios.

E digo finalmente porque numa situação de catástrofe como a que estamos a viver o seu apoio devia ter chegado mais cedo. Confesso que não sei do que estiveram à espera, nem que pruridos poderão ter tido no pedido de ajuda.

O problema do lixo tem tendência a agravar-se. Mais a mais com a perspectiva de um segundo tufão para o próximo fim-de-semana. Se a isto se juntar a falta de bens essenciais e a circunstância de, desde ontem, se terem formado longa filas para abastecimento de combustíveis, de haver zonas da cidade que continuam sem electricidade e de a água ser inexistente em vários locais, começa a desenhar-se um cenário de aparecimento de epidemias.

Há quem não tendo água consiga tomar banho em unidades hoteleiras. Outros contam com os amigos que têm água em casa e que sem mas abrem as portas para esse efeito. Solidariedade e entreajuda é coisa que não tem faltado entre os residentes. Sem água em casa há mais de 48 horas, e sem ter tido a possibilidade de armazenar alguma dada a forma como tudo aconteceu e a falta de informação veiculada pelas autoridades, vi-me obrigado a também ir encher baldes para a garagem do edifício onde resido. Eu e muitas centenas de outros. Como calculam não é a actividade mais agradável para fazer com 30.º C, com uma sensação térmica de 34.º C e uma humidade de 84%. Pouco passava da uma da manhã quando consegui concluir essa operação com sucesso, entre sorrisos de vizinhos e as inevitáveis críticas à incompetência que por aí grassa. E isto, note-se, num condomínio dito de "luxo", onde o abastecimento é feito em torneiras que estão numa sub-cave entre os Maserati, os Bentley e os muitos Mercedes aí estacionados. Contrastes que os últimos anos me têm habituado a ver, embora com eles não me conforme. 

O controlo sanitário é agora crucial. Numa terra que este ano viu aparecer ainda há poucos meses legionella num dos seus casinos mais modernos (outra vez a deficiente fiscalização e a poupança para se aumentar nos lucros, penso eu), com casos de dengue a acontecerem diariamente, com a ETAR de Macau em situação de ruptura e a descarregar milhares de metros cúbicos sem qualquer tratamento e com os vírus das aves sempre presentes, a probabilidade de ocorrência de epidemias nos próximos dias é cada vez maior. Depois não há o hábito de lavar regularmente as ruas (já houve, noutros tempos), nem os contentores de lixo. Esta tarde, quando saí do escritório para comer qualquer coisa, verifiquei que há passagens rodoviárias e pedonais subterrâneas que continuam com água até ao tecto. Águas paradas, lixo em barda, é evidente. E com elas animais rastejantes, roedores e voadores de várias espécies.

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Quem tem crianças tem trabalhos dobrados para lhes assegurar um mínimo, mas a situação dos animais também é motivo de preocupação. Ter um cão de raça é para muitos um sinal exterior de riqueza, apesar de por vezes os abandonarem e maltratarem das formas mais inimagináveis. Só que os cães têm de ir à rua, têm de fazer as suas necessidades fisiológicas. Ainda que os donos recolham os excrementos, sem limpeza e sem água, numa situação como a actual, o que podemos esperar?

Desconheço por que razão o Governo de Macau não pediu imediatamente ajuda a quem sabe lidar com situações desta dimensão, nomeadamente às autoridades da RPC. A última coisa de que Macau precisava era de doenças, de epidemias, de cólera, de dengue, de legionella e do que mais houver no catálogo.

Em situações de catástrofe é que se vê quem tem capacidade para liderar, coordenar, orientar e decidir. Por aqui, o que se vê - e para isso bastaria ter assistido à confrangedora conferência de imprensa de ontem que foi dada pelo Chefe do Executivo, mais três membros da sua equipa e alguns directores de serviços, para perceber o grau de impreparação de quem dirige e o quão desfasados se encontram da realidade - é que impera o atabalhoamento e a informação desencontrada e sem nexo. Ao desastre natural soma-se a tragédia da ausência de meios humanos e técnicos devidamente qualificados.

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Não deixa de ser estranho que o restabelecimento do fornecimento de água leve tanto tempo e que ainda não haja uma previsão de quando isso poderá acontecer. Porém, nos casinos não falta água. Obtive esta tarde confirmação de que para se manterem em operação os casinos andam a comprar camiões-cisterna de água. A pergunta que faço é se os casinos podem fazê-lo por que raio o Governo não o faz também, disponibilizando água em condições a todos os que dela necessitam? Tivesse havido um mínimo de preparação e de planificação – e eu já não peço um plano A e outro B – e ter-se-ia evitado que as consequências estivessem a ser tão nefastas.

Esta é a dura realidade que temos de enfrentar numa cidade e numa região que se apresentava com o quarto PIB/per capita do mundo, à frente da Suíça, mas onde as condições de vida têm piorado a olhos vistos de ano para ano e sem que haja gente com capacidade de intervenção e de decisão que coloque cobro a esta situação. Inclusivamente, ontem, na conferência de imprensa foi referido que algumas coisas serão resolvidas quando o responsável pelas Obras Públicas e Transportes regressar a Macau, visto encontrar-se ausente. Então, e não há ninguém que o substitua transitoriamente perante este cenário? E que dê respostas? Haverá maior declaração de incapacidade do que esta?

Ainda há pouco fiquei a saber que mais uma família foi encontrada morta dentro da sua viatura num parque de estacionamento. Como é possível levar-se tanto tempo para tirar a água dos silos? Que preparação tem sido dada para se enfrentarem situações desta índole? Há falta de equipamentos? Porque não os compraram antes da desgraça acontecer? Para que serve o dinheiro do jogo se não servir para melhorar a qualidade de vida dos residentes e assegurar-lhes condições de segurança e de saúde para momentos destes?

Devo, aliás, dizer que esperava nesta altura já ter ouvido alguma coisa da boca dos senhores dos casinos. Queriam renovações automáticas de concessões e subconcessões mas até agora moita carrasco. Macau, o jogo, proporcionou-lhes ganharem aquilo com que nunca sonharam, nem mesmo com Las Vegas. São milhões e milhões que diariamente entram nos seus cofres e nos do Governo de Macau. E se há milhões para pagar campanhas presidenciais nos Estados Unidos da América, para andar a fazer brilharetes noutras paragens, não há ninguém que se chegue à frente para ajudar a população de Macau nesta hora de aflição? Se compram água para os casinos, comprem também mais alguns camiões, que serão amendoins nas suas contas, para ajudarem a população e minorarem a desgraça, colmatando a falta de apoio de quem governa para acudir ao essencial e satisfazer a tempo e horas as carências básicas da população. Não lhes peço que abasteçam o mercado de vidros para substituírem os que se partiram nas casas, nas lojas e nos carros, mas ao menos que tratem da água já que a concessionária e os responsáveis do governo não conseguem fazê-lo.

Sem uma intervenção externa, rápida e eficaz, sem uma luz que ilumine estes maiorais inchados e seus capatazes, nos próximos dias tudo poderá acontecer. Os crentes e os que não o sendo souberem rezar que rezem. Pauzinhos de incenso também pode ser que ajude. Os outros que ajudem no que puderem. Este povo não tem culpa de ser tratado de forma tão canhestra. Merecia melhor.

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(Actualização: este texto foi escrito e publicado ontem. O que esta manhã (26/08/2017) se escreve no editorial do South China Morning Post e as reportagens que podem ser vistas no site do jornal só confirmam o que se escreveu) 

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Entrava pelos olhos

por Sérgio de Almeida Correia, em 28.07.17

"Nunca vi uma direcção capaz de organizar uma campanha política em torno de zero de fundamentos, a propósito de um tema como a morte das pessoas. 

Os partidos da oposição deviam pedir desculpa por se terem enganado e terem corrido atrás de uma especulação para a qual não havia o menor fundamento. São erros de táctica juntos a um erro de estratégia que não tem volta. O homem que teve o infeliz episódio dos suicídios devia pensar, não é duas vezes, dez vezes antes de voltar a falar em coisas deste tipo."  

 

"Dá ideia de que o número de 64 mortos não era suficiente. É uma coisa perfeitamente impensável que nos últimos dias se tenha alimentado esta discussão, que ainda por cima era assente numa especulação, (...) especulação que nos últimos dias foi sendo alimentada pelos partidos da oposição. (...) De facto, é surrealista a oposição achar que nos tempos que correm, como dia Marcelo Rebelo de Sousa, numa país que é democrático, não pode ser comparado, como muitas pessoas têm feito, com as cheias de 65 [67]. Nós não vivemos no Estado Novo, vivemos numa democracia (...). Não faz sentido nenhum pensar que o Governo tinha uma lista escondida de mortos. (...) Então quantos mortos é que o PSD precisava para levar o caso à Assembleia da República para ter o seu debate urgente? (...) É isso que o PSD e o CDS estão a discutir? Eu acho que o Governo cometeu muitos erros (...). O Governo pode ter errado, mas a oposição consegue, é uma habilidade deles, não capitalizar com os erros do Governo, embora este caso não se preste a capitalizações. E é nisto que eu acho que o PSD e o CDS cometeram um erro de morte, que é pensar que podiam ter tido vantagens partidárias de uma tragédia destas. (...) É errado do ponto de vista ético e político. (...) É o grau zero da política."  

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Mal-entendido

por Sérgio de Almeida Correia, em 17.05.17

Às vezes, um mal-entendido é um problema de comunicação. De outras vezes é um problema de inteligência, de iliteracia ou de ignorância. Mas a pior de todas as situações é a que acontece quando um mal-entendido é tudo isso. Isto é, um problema de comunicação, de inteligência, de iliteracia e de ignorância. Aí é o caos.

Não há nada que torne reversível o efeito multiplicador do desastre.

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O estado da arte

por Ana Vidal, em 15.06.16

O problema dos humoristas em Portugal é que são como o estado islâmico: auto-proclamam-se. Alguns, como é o caso de Rui Sinel de Cordes, vão mais longe ainda nesse fascínio e trocam graças por mísseis e bombas contra um público que, evidentemente, não reage como eles gostariam. Não percebem os auto-proclamados humoristas que escolheram a mais difícil e ingrata de todas as artes, e que fazer rir muitos é para muito poucos. E quando isso não acontece, quando fatalmente constatam o fiasco, reagem como onze virgens ofendidas e vão fazer humor, enormes e injustiçados, para o seu micro-público amante de cintos de explosivos.

 

Não percebem também outra coisa muito básica: o direito à liberdade de expressão que lhes permite violentar todas as fronteiras (as dos outros, claro) é o mesmíssimo direito que assiste a esses outros para os crucificarem depois em praça pública. A mesma praça pública, aliás, e com a mesma violência.

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Um bumbum trabalhador

por Sérgio de Almeida Correia, em 26.04.16

"Isso tudo está acontecendo porque quem não mama, chora. O povo entende bem o que quero dizer."

 

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Brasil despedaçado

por Sérgio de Almeida Correia, em 21.04.16

O título deste post pertence ao autor do artigo que a edição brasileira do El Pais deu à estampa e é de um dos mais lúcidos cronistas do Brasil. Sem meias-palavras, directo, cru, dilacerante, tal como tem sido o Brasil dos últimos meses, o Luiz Ruffato deixou o terrível retrato de um país e de uma classe dirigente. A ler. 

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De bandeirinha sem norte

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.03.16

Temos a mesma posição global em toda a discussão do Orçamento: rejeição total de todas as normas, porque a aprovação do orçamento é da inteira responsabilidade deste Governo e dos seus parceiros” - Leitão Amaro, deputado do PSD

 

E como rejeitavam abstiveram-se. Em resultado disso, as alterações foram aprovadas. Se estivesse de acordo o PSD teria votado contra, é evidente. Assim, parece-me lógico e perfeitamente coerente que se abstenham. Com o que deixaram passar as ajudas à Grécia e à Turquia, contra as quais já se tinham manifestado e desafiado a esquerda a aprovar. Se continuarem assim, o Governo não tem com que se preocupar e irá durar quatro mais quatro anos. Depois logo se verá como estaremos.

Enfim, tristezas.

Como diz o povo, entradas de leão para saídas de sendeiro. Compreende-se, pois, que com uma oposição alimentada pela irracionalidade de meia dúzia de zelosos pancrácios, Cristas queira agora descolar do PSD e crescer à custa do seu antigo parceiro de coligação. E que António Costa continue a rir-se enquanto leva a água ao seu moinho.

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Confusões

por Sérgio de Almeida Correia, em 08.03.16

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(Global Imagens)

O Prof. Cavaco Silva, Presidente da República ainda em funções, resolveu assinalar o final do seu mandato com uma visita à nobre e honrada Vila de Cascais.

Os naturais e residentes de Cascais estão-lhe naturalmente agradecidos por esse gesto em final de mandato, em especial porque teve com a sua acção um papel relevante na recuperação de uma parte importante do património histórico e cultural da vila e esse é um ponto que não deverá ser esquecido. Nem esquecido nem confundido com aquela que foi a sua postura ao longo dos seus mandatos.

Escrevo isto porque essa confusão entre interesses próprios, interesses de grupo e o interesse nacional esteve sempre patente e voltou a acontecer na sua última intervenção pública antes de ceder o lugar ao Prof. Marcelo Rebelo de Sousa.

Disse o Prof. Cavaco Silva, e só ele saberá porque teve necessidade de vincá-lo nessa ocasião, que agiu sempre de acordo com a Constituição e de acordo com o superior interesse nacional.

Os factos que de todos são conhecidos desmentem-no em toda a linha. Basta pensar em alguns episódios como os relativos à aprovação dos últimos Orçamentos de Estado, cujos custos para o país em termos políticos, de coesão social, paz e solidariedade intergeracional acabariam por se revelar elevadíssimos e pelos quais ainda iremos pagar durante muitos anos, para se perceber que com excepção dele, de Passos Coelho e do seu anfitrião de ontem, poucos mais no País duvidavam das múltiplas inconstitucionalidades com que contemporizou e que o Tribunal Constitucional se encarregou de ir sublinhando. Ou recordar o mal esclarecido e lamentável caso das escutas, que deverá servir de exemplo à acção de futuros Presidentes para que não se repita. Ou, ainda, as condecorações aos seus correligionários políticos, ou as declarações omissivas que fez sobre as suas relações com o universo SLN/BPN, ou a confiança que deu até ao último minuto a quem não era merecedor dela (Dias Loureiro no Conselho de Estado), ou as queixas que fez sobre o seu nível de rendimentos para poder ter uma vida normal, estas últimas ofensivas da dignidade de milhões de portugueses, para se perceber que o interesse nacional foi no seu espírito e postura institucional objecto de múltiplas e recorrentes confusões.

Se alguma dúvida houvesse sobre a confusão que o Presidente cessante sempre fez entre o interesse nacional e os interesses da sua família ideológica ficariam dissipadas pelo encomiástico discurso de despedida que o anfitrião, vice-Presidente do PSD, resolveu fazer.

Sabendo-se o que hoje se sabe, olhando para os níveis sofríveis de popularidade do Presidente cessante e para tudo o que foi acontecendo, que não pode ser disfarçado pelo convite que lhe foi dirigido para presidir a uma reunião do Conselho de Ministros, só para conforto ideológico e alívio da consciência do homenageado se poderia dizer o que se disse. Como caricatura da acção do Prof. Cavaco Silva enquanto inquilino de Belém seria difícil encontrar palavras mais acertadas.

Aliás, isso acaba por ser inteiramente compreensível e, aqui sim, transparente quando se vê o Prof. Cavaco Silva terminar os seus mandatos como Presidente da República da mesma forma como os iniciou e conduziu: agarrado à sua família ideológica, enfiado numa trincheira com os seus acólitos, a exaltar e justificar a sua própria acção, recebendo os aplausos dos correligionários e confrades.

Para imagem do "superior interesse nacional" esta cena não poderia ser mais apropriada. Uma lástima e mais uma confusão que poderia ter sido evitada neste final de mandato.

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Começar de novo

por Sérgio de Almeida Correia, em 07.03.16

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Num país que continua a ter meio milhão de analfabetos, isto é, gente que não sabe ler nem escrever, a desastrada (e inaceitável) intervenção do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior na Assembleia da República pode ter muitas explicações. A começar pelo nervosismo. Essa será uma parte da história mas que, apesar de tudo, não a tornará desculpável.

A um primeiro-ministro que conjugava o verbo haver no plural junta-se agora um ministro que diz "interviu", em vez de interveio, e "tinhemos", em vez de tenhamos. O currículo do ministro pode ser o melhor do mundo, mas não há acordo ortográfico nem reforma educativa que remedeie o que aconteceu.

O ideal era voltarmos todos à Cartilha de João de Deus, a uma edição actualizada e aumentada, e que as televisões organizassem alguns concursos que, em vez de mostrarem analfabetos a dizerem asneiras e a exibirem os cus e as mamas à hora do jantar, ou que ande a perguntar aos concorrentes o preço dos electrodomésticos, os obrigasse a responder a questões sobre a cultura e a língua portuguesa. Um concurso que atribuísse prémios chorudos, em euros, e levasse os concorrentes a estudarem os tempos verbais, os advérbios, os pronomes e a fazerem provas de composição, talvez pudesse operar milagres. E, quem sabe, se até não poderia contar com o patrocínio do Presidente da República eleito e das fundações que por aí temos para levar todo o país a reaprender a ler, a escrever e a dizer. Eu também; que com estes exemplos que nos chegam em cada dia que passa vou desaprendendo e esquecendo o pouco que me ensinaram.

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Não concordo

por Sérgio de Almeida Correia, em 04.12.15

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 (Miguel Baltazar/Negócios)

 

"O Governo é legítimo e não podemos continuar a falar dele como ilegítimo”

 

Penso que a senhora não está a ver bem o problema. Poder podem. E até penso que o ideal era deixá-los continuarem a discutir essa questão até à exaustão, até todos perderem o pio. Os que contestam a legitimidade do Governo e os que o apoiam e lhes dão o troco.

Porque a avaliar pelo debate da moção de rejeição do programa do Governo, pela compostura nas bancadas da oposição, pelas risadas, os apartes, o gozo, o palavrório das interpelações e o nível da linguagem da rapaziada das jotas, até parecia que tinham regressado todos às lutas académicas. Por momentos vi o Telmo Correia a discursar num dos anfiteatros da Faculdade de Direito de Lisboa, numa Assembleia de Representantes, nos idos de 80, a falar para a malta e a pedir uma recontagem dos votos do Costa e do Apolinário. E depois o chumbo da moção, os aplausos e a risada geral.

Um espectáculo que os portugueses devem ter sumamente apreciado, e comentado, enquanto emborcavam uma lambreta e comiam uns tremoços no Café do Zé. 

É sempre bom voltar à adolescência, é sempre bom recordar velhos tempos. 

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E depois de votar

por Patrícia Reis, em 25.05.14

 

O  meu filho mais velho votou hoje pela primeira. Consciente do que fazia. Informado. A escola onde votámos estava vazia. A abstenção parece que vai vencer, mais uma vez, estas eleições. É muito triste. Depois pergunto-me: será que a minha avó sabe exactamente o que faz um deputado europeu? Que responsabilidades tem? Que diferença faz? Talvez não. Como ela, existirão muitos, digo eu. Culpa dos partidos e, mea culpa solidária com quem é da profissão, dos jornalistas. Os americanos aprenderam o sistema político que têm com uma série televisiva, "Os Homens do Presidente". Os europeus também agradeceram essa oportunidade. Cá quem explica o quê? Neste dias, apesar de me saber longe das redacções, penso que gostaria de voltar ao jornalismo. É um sentimento que dura um nanosegundo. Vejo os jornais e tenho pena. Vejo os jornais na televisão - começam com o Palito (um caso triste, claro, mas há destes todos os dias no CM e no JN) e depois as malas dos jogadores do país vizinho. As grelhas televisivas são iguais, é a contra-programação e o serviço público está nas mãos de comentadores que, há anos, vivem disso: comentar. À saída da escola onde votámos estavam dois bombeiros, um homem, uma mulher. Tinham uma maca e estavam a fazer um peditório para os Bombeiros de Moscavide. Eu tirei uma nota do bolso. A maca estava cheia de moedas. Tive vergonha de ter uma nota para dar. É triste? Sim, é a minha tristeza. 

 

(Sérgio, desculpa repetir a tua imagem, mas é tão certeira que não resisto)

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da fragilidade da amizade

por Patrícia Reis, em 17.12.13

Há uma amiga que se fará à estrada, rumo a Faro, para se "despedir do homem que foi a grande referência da sua vida".

O pai.

Estou tão longe, o céu está carregado de nuvens, não se vêem os morros, as favelas parecem presépios e a ideia está tão gasta que me mete pena só de a escrever.

Ser amigo é cuidar. É estar. É ouvir. Ser amigo é saber ser amigo. É perceber a fragilidade do outro e dizer-lhe que é uma rocha. É mostrar-lhe as brechas quando se sente uma rocha. Ser amigo é difícil, a mais complexa forma de amor. A melhor.

A minha amiga vai perder o pai.

No ano passado, perdi o meu avô. Outros perderam amigos, familiares, filhos, vizinhos. É a vida, dizem.

É pena que a vida seja isto.

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