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E agora?

por Helena Sacadura Cabral, em 22.06.17
Terminaram os três dias de luto e o minuto de silêncio. Amanhã ou depois, os fogos terão eventualmente terminado. E ficará apenas a gente indispensável ao rescaldo dos mesmos. As televisões irão progressivamente voltando ao futebol e aos debates de arredonda mês. Por mais dois ou três dias ainda se citará o desastre.
Depois cada uma daquelas povoações ficará submergida num silêncio pesado, trágico, ensurdecedor. Os presidentes das câmaras virão a Lisboa tentar que se não esqueçam deles.
E no que resta de cada aldeia, algumas pessoas ficarão silenciosas à espera de que se lembrem delas. Outras irão, finalmente, cair em si e no drama de terem perdido tudo. Ficarão tristes e sem forças para reagir. Outras, ainda, irão para as Igrejas que restam, rezar ao Senhor.
E pouco mais se saberá desse pequeno mundo que, durante semana e meia, esteve sob os holofotes. Em compensação as "cabecinhas pensadoras", a elite que nos dirige, enfim, os especialistas, dedicar-se-ão a pensar o problema até ao próximo mês de Junho de 2018, porque há autárquicas e é preciso fechá-los num gabinete e calar o assunto.
E agora? Agora, é isto que se vai passar...

 

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O país atávico no país moderno

por Pedro Correia, em 21.06.17

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 Foto: Rafael Marchante/Reuters

 

O país das startups, da Web Summit, das ciclovias citadinas, do partido dos animais, dos chefs da moda, dos quarenta e tal novos hotéis lisboetas, despertou por estes dias para um horror atávico que o pôs no mapa da imprensa mundial pelos piores motivos. Desta vez não por ser um dos "mais bem guardados segredos turísticos" em foco nas publirreportagens de revistas elegantes mas por não conseguir poupar vidas humanas quando a inclemência da natureza - eventualmente associada à incompetência humana - lhe bate à porta.

É um país ainda demasiado semelhante ao das inundações de Novembro de 1967, tragédia sem nome que vitimou centenas de pessoas e nem a férrea censura salazarista conseguiu silenciar.

 

É o país modernaço, das dez mil rotundas e dos cento e cinquenta pavilhões municipais e dos dez estádios construídos de raiz ou totalmente remodelados para o Europeu de futebol. O país onde a palavra modernidade provoca contínuos suspirinhos de comoção. O país que continua demasiado dependente da bondade de estrangeiros para sustentar necessidades básicas e um número incontável de vícios. O país que quer continuar a atrair turistas enquanto descura o património histórico e reduz a cinzas boa parte do seu património natural.

Um país sempre tão sujeito à avaliação externa, submergido por estes dias com títulos como Portugal, a Country Helplessly Prone to Forest Fires (no New York Times), Portuguese wildfires: early warnings hindered by damaged phone lines (no Guardian), Le Portugal en proie aux incendies meurtriers (no Le Monde), Incendie au Portugal: après les larmes, la colère (no Figaro), Crecen las dudas sobre la gestión del incendio de Portugal (no El País), Caos en el mayor incendio de la historia de Portugal: 64 muertos, un avión fantasma y 27 aldeas evacuadas (no El Mundo).

 

São títulos que parecem falar-nos de outro país, assombrado pela impotência face à calamidade.

Mas não: falam-nos deste. Do nosso.

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Este país que arde

por Pedro Correia, em 20.06.17

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 Foto: Rafael Marchante/Reuters

 

António Costa tinha razão há um ano: "Não é por haver vento que há incêndios nem é por haver calor que há incêndios."

Nisto parece divergir da sua parceira de geringonça, Catarina Martins, que agora apela à dança da chuva, já esquecida do tempo em que o Bloco de Esquerda proibia outro Governo de  "encontrar justificação na meteorologia" para justificar a criminosa multiplicação dos fogos florestais.

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

O PS parece esquecido da pedagogia da responsabilidade política assumida por uma das suas figuras de referência, Jorge Coelho, que em 2001 anunciou a imediata demissão do cargo de ministro do Equipamento Social, mal foi conhecida a derrocada da ponte de Entre-os-Rios, causando a morte de 59 pessoas. Agora a tendência por cá é precisamente a inversa: a ministra da Administração Interna, que pelo segundo Verão consecutivo despertou tarde para a tragédia dos fogos, só surgiu em Pedrógão após o Presidente da República já estar no terreno e mesmo então pareceu mais preocupada em aparecer na televisão, afastando do caminho o secretário de Estado Jorge Gomes. Há pequenos gestos que dizem tudo sobre quem os pratica.

Não duvido que Constança Urbano de Sousa esteja com "o coração destroçado", como o seu colega da Agricultura, Capoulas Santos, e outros responsáveis governamentais que têm acorrido às televisões em evidente estratégia de contenção de danos, já com 64 óbitos confirmados naquele concelho.

Nada disto apaga a memória da controversa extinção do Corpo Nacional da Guarda Florestal, ocorrida em 2005, quando o actual primeiro-ministro ocupava a tutela da Administração Interna. Extinção que o Executivo confirmou há um ano, contra todas as evidências de que a GNR está muito longe de ser uma entidade vocacionada para assegurar a vigilância das florestas, e quando já era sabido que Portugal tinha metade da área ardida na totalidade dos 28 Estados membros da União Europeia.

 

Continuamos a andar de passo trocado neste país que gasta anualmente 80% dos recursos nesta área disponíveis no combate aos fogos e destina apenas 20% da verba à prevenção, enquanto vê arder 250 milhões de euros também por ano.

Um país que possui um Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios cujo último relatório bienal conhecido é referente a 2009/2010: segundo noticia o Público, a avaliação de 2011/2012 só hoje será divulgada pelo Ministério da Agricultura, sob a pressão dos últimos acontecimentos.

Um país que tem um pacote legislativo sobre florestas adormecido há meses numa comissão parlamentar.

Um país que tem um órgão com um nome tão pomposo quanto inúteis parecem ser as suas funções: o Grupo de Trabalho para o Acompanhamento da Temática dos Incêndios Florestais foi criado em Outubro de 2016, após os fogos florestais do Verão passado, e desde então só reuniu cinco vezes sem nada ter anunciado.

 

Este país que arde torna-se cada vez mais desigual: dividido entre uma faixa litoral superpovoada e um interior cada vez mais deserto, cada vez mais pobre, cada vez mais esquecido.

Um interior que em certos casos começa a 30 quilómetros das praias da moda, cheias de restaurantes caros e turistas endinheirados, onde o sol não queima: apenas bronzeia.

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A dor da gente não sai no jornal

por Pedro Correia, em 19.06.17

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 Foto Miguel A. Lopes/Expresso

 

Há a impreparação, claro: muitos desses jornalistas atirados por caprichos da agenda "a cobrir o incêndio lá para as Beiras" numa redacção de Lisboa não fazem a menor ideia onde fica Pedrógão Grande. Os órgãos de informação para os quais trabalham - muitos com vínculos precários - também não fazem, nem querem saber: ao longo do ano o pobre Portugal do interior só surge na notícia quando lá ocorre uma desgraça.

Há o uso e abuso dos lugares-comuns, como é óbvio. "O ar é irrespirável"; "o cenário é indescritível"; "as chamas lavram" - não é possível encontrarem outro verbo sem recorrerem a esta pobre metáfora tão mal aplicada? Nada que admire: a exigência é cada vez menor também a este nível. Como podia ser de outra forma quando tantas chefias exercem o primado da incompetência?

Há o inevitável estrelato da profissão, que nesta fugaz incursão pelo País esquecido chega a ser obsceno ao fazer da tragédia um espectáculo para cativar audiências: ei-lo há dois dias a disparar redundâncias junto às cinzas ainda fumegantes com o mesmo alvoroço e a mesma incontinência verbal de quem cobre uma campanha política ou um "evento" social.

Mas o pior é a incapacidade revelada por tantos jornalistas de descolarem da agenda política. Muitos - felizmente não todos - estão ali mais preocupados com "a chegada a qualquer momento" do Presidente da República, do primeiro-ministro ou da ministra da Administração Interna. Indiferentes à desgraça alheia, como se deambulassem pelos Passos Perdidos do Palácio de São Bento. Oiço-os neste frenesim institucionalista e logo me vêm à memória aqueles versos da cantiga do Chico Buarque, que hoje faz 73 anos: "A dor da gente não sai no jornal".

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Em Portugal a culpa morre sempre solteira.

por Luís Menezes Leitão, em 19.06.17

Se há alguma coisa que caracteriza Portugal é o facto de neste país a culpa morrer sempre solteira. Não é por isso de estranhar que, perante a tragédia de Pedrógão Grande, o Presidente diga que se fez "o máximo que se poderia ter feito" e que "não era possível fazer mais". Em Portugal nunca é possível fazer nada para prevenir tragédias e por isso não vale a pena procurar responsáveis. Se uma ponte cair em Portugal, matando 59 pessoas, a culpa nunca é de quem tirou abusivamente areia do rio junto à ponte, de quem não vigiou o estado da ponte, ou de quem não ordenou a sua reparação, apesar de ter sido avisado para o efeito. Não! A culpa é de o leito do rio estar demasiado baixo e de ter ocorrido uma cheia grande.

 

Da mesma forma, se um incêndio em Pedrógão Grande matar 62 pessoas, sendo que algumas delas morreram presas numa estrada, a culpa não é de quem não tomou providências perante o alastrar da tragédia, designadamente cortando a estrada. Não, a culpa é do raio que destruiu a árvore seca, causando o incêndio. Que em pleno séc. XXI, com os meios de vigilância por satélite que existem, um raio seja susceptível de causar tantos danos, é algo que não impressiona. As tragédias são sempre inevitáveis, e só nos resta aguardar que não venha outra ainda pior.

 

É por isso que ao contrário do Rui Rocha, eu só posso aplaudir as declarações de Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal de contas, há que salvaguardar a estabilidade política a todo o custo. Não nos devemos esquecer de que há 16 anos houve um Ministro que, perante a tragédia de Entre-os-Rios, teve o acto impensado de se demitir. Felizmente que desta vez estamos livres de que aconteça algo semelhante. 

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É urgente tomar medidas

por Helena Sacadura Cabral, em 20.04.15

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O naufrágio da madrugada de domingo, a 70 milhas da costa líbia, constitui uma tragédia de proporções aterradoras. Quer sejam 700 ou 950 os ocupantes da embarcação naufragada, como diz a imprensa e garantem os 28 sobreviventes, o horror permanece.

A resolução deste problema exige, creio, medidas em duas frentes distintas. Umas no destino e outras na origem. No destino urge que a Europa unida tome medidas, porque a Itália não pode arcar sozinha com um problema que respeita a todos nós. Na origem criando condições para que estes seres humanos não procurem uma morte certa. E aqui é mais difícil intervir porque há questões de soberania e de diplomacia que são difíceis de ultrapassar. O que é impossível é continuar a fingir que não vemos este drama.

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Uma vivência pessoal do tsunami de 2004

por João André, em 28.12.14

Faz agora dez anos estava eu a completar um ano de doutoramento e vida na Holanda. Chegada a época de Natal segui para Portugal, como de costume. Foi entre a família que ouvi falar do tsunami na Indonésia. Na altura não lhe prestei muita atenção. Um tsunami era algo que me tinha impressionado na altura da descrição do terramoto de Lisboa de 1755, mas tinha sido no passado, com construções mais fracas e limitado na destruição a uma cidade. Na forma como o imaginava com as primeiras informações disponíveis, este tsunami provavelmente seria uma tragédia para as pessoas na cidade afectada mas não mais.

 

Passadas umas horas começaram a chegar as informações que seria bastante mais grave. Muitos milhares estariam em risco. O tsunami teria atingido uma enorme frente costeira e atingido mais do que "simplesmente" a Indonésia. Com o tempo ficou claro que centenas de milhares de pessoas teriam morrido. Era uma tragédia enorme, uma das maiores alguma vez registadas. Era, no entanto, mais uma tragédia no outro lado do mundo, que me provocava pena e pouco mais. Não existia a sensação de proximidade.

 

Foi no dia 29, salvo erro, que tudo mudou. Nesse dia recebi - eu e os restantes membros do grupo de investigação - um e-mail que indicava que o Saiful, um nosso colega indonésio, tinha partido para a Indonésia em busca da família, a qual incluía a mulher e a filha de um ano de idade. Sem disso termos noção, o Saiful vinha precisamente da província de Aceh, a mais afectada pelo tsunami. Naquele momento a tragédia deixou de ser algo que tinha afectado um enorme grupo de pessoas a meio mundo de distância para afectar alguém que conhecíamos e com quem convivíamos todos os dias.

 

Depois da sua partida, não recebemos quaisquer notícias do Saiful por vários dias. Não sabíamos se teria conseguido chegar à zona afectada ou se teria encontrado os membros da família. A espera era angustiante, especialmente à medida que os vídeos iam chegando às nossas televisões.

 

Passados uns dias recebi um SMS do Saiful. Tinha pedido a um australiano para o enviar. Dizia que estava bem e que tinha encontrado a mulher e a filha e que o resto da família dele estava bem. Daria mais informações quando pudesse. Mais umas semanas e o Saiful estava finalmente de volta. Trazia a mulher e a filha e uma história de enorme sorte. A mulher e a filha tinham sido apanhadas pelas vagas, mas foram salvas por um vizinho que as puxara para a sua casa e as acolheu (bem como a muitas outras pessoas) no telhado da sua casa. O resto da família do Saiful tinha sobrevivido graças a um funeral: tinham-se deslocado ao interior do país, mais elevado, para as cerimónias fúnebres. Apenas um primo, que tinha ficado a trabalhar, tinha morrido. Perante as tragédias em volta o Saiful tinha tido bafejado pela fortuna.

 

Era no entanto uma sorte relativa. A filha ficou naturalmente traumatizada pela experiência e ficava em pânico perante ruídos súbitos ou movimentos rápidos. Quando o Saiful teve o segundo filho explicou-me que a filha acordava a gritar quando o irmão chorava à noite. Demorou vários anos a habituar-se a essas experiências e, quando o Saiful terminou o doutoramento e regressou à Indonésia para ser professor na universidade local, a filha insistia que não queria regressar. Não compreendia o porquê, mas associava instintivamente o local a algo de mau.

 

Falei recentemente com o Saiful. Tem uma vida calma e simples na Indonésia. Construiu a sua vida e ajudou a família a reconstruir as suas. A filha é agora uma criança - quase adolescente - feliz, mas que fica ainda algo carregada quando o tema passa pelo mar e ondas. Pelo que descreve, a zona onde vive é um repositório de esperança e tristeza. Um local onde o passado e o futuro convivem diariamente e o presente é apenas um ponto de passagem.

 

Não posso de forma nenhuma imaginar aquilo que as pessoas que estavam nas zonas afectadas ou lá tinham família terão sentido. Esta foi no entanto uma tragédia que, por uma vez, me afectou um pouco de forma pessoal. Isso torna-a também como menos irreal aos meus olhos.

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