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É um mistério!

por Teresa Ribeiro, em 19.09.17

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Não é de agora, nos últimos anos observo o mesmo, nos mais variados sectores de actividade. As pessoas com mais de 50 anos parecem ter desaparecido do mapa. Muitas estarão desempregadas, ou com pré-reformas, mas por mais elevada que seja a percentagem dos que se encontram fora do mercado de trabalho, não explica esta ausência de cabelos brancos nas empresas. Aos 50 anos está-se ainda longe da idade da reforma, além de que o país está a envelhecer, portanto a percentagem de população activa dentro desta faixa etária só pode ser elevada.

Quando não havia tanto desequilíbrio populacional entre velhos e novos não se observava isto. É estranho. Onde estão eles? No front office é que não, claro está, mas mesmo nas fileiras mais discretas onde pára esta geração, porventura a mais invisível de sempre?!

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A greve boa e as greves más

por Pedro Correia, em 11.09.17

 

Ministro da Saúde avisa enfermeiros:

«Greve terá consequências disciplinares.»

 

Ministra da Justiça avisa magistrados:

«Não se começa uma negociação apontando para a bomba atómica.»

 

Secretária-geral adjunta do PS critica greve na Autoeuropa:

«Choca-me que não seja possível que os sindicatos possam dialogar com a comissão de trabalhadores e com a administração.»

 

Ministro dos Negócios Estrangeiros incentiva greve na PT:

«Se fosse trabalhador da PT também estava a fazer greve.»

 

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A (des)organização do trabalho

por Pedro Correia, em 16.12.16

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 Fotograma do filme Playtime, de Jacques Tati (1967)

 

Esta notícia de que o Governo espanhol equaciona a redução dos horários de trabalho, fixando as 18 horas como padrão do fim do dia laboral, demonstra até que ponto continuamos atrasados nestas matérias. Por cá, toda a discussão se centra nos aumentos periódicos da massa salarial, à revelia dos ganhos de produtividade, quando devíamos debater outras questões, não menos importantes. O incentivo ao teletrabalho, por exemplo. Ou a generalização dos horários flexíveis nas empresas, o que contribuiria para descongestionar o tráfego, encurtar as distâncias entre domicílios e empregos, e diminuir os níveis de poluição associados aos engarrafamentos rodoviários.

É o que já sucede em países como a Suécia, que tem vindo a adoptar com sucesso a jornada laboral de seis horas diárias, que permite uma conciliação exemplar entre o trabalho e a vida familiar, sem prejuízo da produtividade global. Pelo contrário, os especialistas acentuam que a motivação de um trabalhador é directamente proporcional à racionalização dos horários. Que o digam os executivos da Toyota, que em 2002 fixaram as seis horas diárias de trabalho na sua fábrica sueca em Gotemburgo: os lucros da empresa aumentaram 25% e ninguém equaciona um regresso ao horário anterior.

Entre nós, lamentavelmente, a revolução tecnológica continua dissociada da organização do trabalho. Trabalhamos em rede, com instrumentos sofisticados e uma rapidez de obtenção de dados inimaginável há duas décadas, mas este mundo digital do século XXI insere-se em absurdas rotinas laborais que remontam ao século XIX. Ter toda a gente concentrada nos mesmos espaços físicos em simultâneo, sujeita aos mesmos custos de contexto, é tão absurdo como o regresso às antiquadas máquinas de escrever e aos obsoletos telefones de disco.

Os pioneiros da era digital sonhavam com novas sociedades em que a redução do tempo de permanência nos postos de trabalho decorria naturalmente da rapidez das telecomunicações, ampliando a qualidade de vida. Hoje o mundo inteiro está para qualquer de nós à distância de um clique num dispositivo portátil. Com ganhos de eficiência garantidos – desde logo em tempo e dinheiro. Acontece que estas conquistas geraram por sua vez novas necessidades, numa voragem que parece não conhecer limites. Em vez da natural redução da vida laboral, que aliás em grande parte pode hoje ser desempenhada na casa de cada um, os horários reais alargam-se a níveis absurdos. Toda a gente continua a seguir os mesmos percursos casa-trabalho às mesmas horas, tornando cada vez mais caótico o fluxo do trânsito e cada vez mais generalizado o desperdício de tempo – que é, ninguém duvide, o bem mais precioso.

Gostaria de ver a nossa concertação social pelo menos tão ocupada a debater tudo isto como a discutir o aumento do salário mínimo. Se outro pretexto não existir, que sirva ao menos este: já se encontra na agenda política e empresarial espanhola. Quantos anos demorará a atravessar a fronteira?

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Hoje é tudo mais clean

por Teresa Ribeiro, em 11.12.16

 

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Não foi assim há tanto tempo, mas as cenas que a minha memória privilegiou dos meus primeiros tempos de estágio parecem saídas de um filme de época. Éramos talvez 50 num open space desconfortável de um edifício de traça industrial onde no piso térreo funcionava uma gráfica. Habituei-me desde os primeiros dias às excentricidades de alguns colegas. O Afonso, que antes de sair prendia com um cadeado a cadeira à secretária, o Vítor, que adorava pontapear com as suas botas da tropa os fundos metálicos das secretárias, fazendo ribombar pela redacção a expressão das suas frequentes fúrias, o Zé, que espantava a neura disparando fósforos acesos para o tecto (convém aqui explicar que o chão não tinha alcatifa).

Visto à distância parece o cenário de uma casa de doidos e no entanto aquele era um padrão tido como normal no meu meio profissional. Essa cultura que tolerava excessos e extravagâncias, acolhendo sem censura as peculiaridades de cada um, era, de resto, coisa antiga. O que então testemunhei foi o pálido resquício da loucura dos tempos em que os jornais se faziam madrugada fora e os turnos de fecho se rematavam com uns copos em noites de boémia.

Que antiga me sinto por ainda ter, fugazmente, entrevisto esse mundo. Reconheço que nesses tempos não havia o mesmo profissionalismo. Àquela garridice também se somava muito amadorismo, mas a alegria era incomparável. A alegria e a descontracção. Hoje quem toleraria ruidosas explosões de mau humor ou brincadeiras ridículas com fósforos no local de trabalho?

Com phones nas orelhas e olhos no ecrã do computador, podemos até atropelar velhinhas para acalmar os nervos sem ninguém perceber. De facto podemos ver, ouvir e fazer tudo o que quisermos sem arriscar uma nota dissonante para o exterior. E assim é tudo mais clean.

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Em defesa do bom ambiente de trabalho

por Rui Rocha, em 09.12.16

Peço antecipadamente desculpa pelo tema que aqui vos trago, mas a verdade é que ando há uma data de tempo com isto atravessado e se não desabafasse convosco, com quem iria desabafar, não é? O ponto é que, de há uns anos a esta parte, os especialistas na concepção e desenvolvimento dos espaços de trabalho embarcaram na moda do open-space. E não me refiro ao open-space do escritório propriamente dito (e sobre este também muito haveria a dizer), mas ao das casas de banho. Das casas de banho, perguntarão alguns, estupefactos. Efectivamente. Mas a casa de banho não tem divisórias, salvaguardando a necessária privacidade, perguntarão ainda os mesmos. O problema é esse. Sim, tem divisórias. Mas não, não salvaguardam a necessária privacidade. Vamos lá ver. Na primeira empresa onde trabalhei, cada casa de banho era separada do espaço exterior por paredes inteiras e honestas, paredes dignas desse nome, portanto . Mas já na segunda me deparei com a modernice das finas divisórias e portas suspensas que não chegam ao chão nem ao tecto. Consequência? Muito simples. Protege-se realmente a vista mas não os outros, e para o que aqui nos traz, relevantes sentidos. E a verdade é que aquilo que, graças a Deus, a vista não alcança, chega lamentavelmente ao ouvido e ao olfacto. Certo. Todos concordamos que há vantagem em termos organizações transparentes. Mas creio que todos concordaremos também que não há rigorosamente vantagem nenhuma em coincidirmos em casas de banho contíguas, separados apenas por uma incompleta e fina divisória, com o Bastos da Gestão Administrativa num dia em que o desgraçado sofre de prisão de ventre. E sim, as nossas organizações precisam de tornar-se cada vez menos hierárquicas e ágeis. Mas convenhamos. Nenhum de nós quer estar lado a lado com o Administrador do Pelouro, com apenas uma fina e incompleta divisória de permeio, no dia em que este descobre que, de véspera, jantou ovas de esturjão estragadas. O ponto é este: por muita abertura, descontracção e camaradagem que exista no local de trabalho, há dores, odores, manifestações de júbilo, alívio ou sofrimento, ruídos, gotejos, borbulhares, estalidos de fivelas, arrastares de cintos, que não devem ser partilhados. Há momentos da vida que devemos enfrentar rigorosamente sozinhos. E é estranho que querendo saber o menos possível de certas coisas mesmo no que diz respeito aos que nos são mais próximos, acabemos por ter acesso a informação involuntária, indesejada mas privilegiada relativamente ao Lopes da Tesouraria com quem nos cruzamos não mais de duas vezes por ano, uma delas no local errado. Nada, pois, contra a arquitectura da fluência. Tudo, portanto, contra a arquitectura da flatuência. Porque há coisas que comprometem irremediavelmente o ambiente de trabalho e, depois, não há team-building que as resolva. E isso, caros e pacientes leitores, é, do ponto de vista da motivação, uma merda. 

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Estágios não pagos

por João André, em 23.08.16

Nos EUA tenho notado que existe um debate constante acerca do pagamento a estagiários. Numa das perspectivas, os estagiários trabalhariam de graça, recebendo em troca a possibilidade de obterem experiência, conseguirem contactos e poder observar "como o mundo real funciona". Na outra perspectiva... bom, é tudo o mesmo mas os estagiários recebem um vencimento.

 

Ninguém duvida que um estagiário não oferece o mesmo valor a uma empresa que um profissional mais experiente (mesmo que apenas um tudo nada). Os estagiários recebem habitualmente as funções de base e mesmo quando são empregados em funções teoricamente em linha com as suas qualificações, acabam por fazer fotocópias, ir buscar café, transportar equipamento e observar. Observar muito.

 

Por outro lado um estagiário é um ser humano cujo tempo vale alguma coisa. Se a empresa contrata um estagiário, é porque coloca um valor, por pequeno que seja, nas funções do mesmo. Caso não o fizesse não precisaria dele, uma vez que apenas estariam a ocupar espaço e o tempo dos outros profissionais. Nesta lógica faz sentido que recebam um salário. Além disso, antes do início das funções não é certo que um estagiário vá de facto receber essa experiência valiosa que tanto é prometida. Se ficar encafuado num cubículo sem janelas a tirar fotocópias, certamente que isso não o enriquecerá. Para cúmulo, contratar um estagiário sem lhe pagar é um mau passo pela empresa: estão a investir (o tempo dos outros empregados) numa pessoa a quem não dão incentivos para se ligar à empresa nem para se valorizar (além de ter uma entrada extra no currículo).

 

Há no entanto um outro argumento contra os estágios não pagos: estão abertos essencialmente a quem tenha outras formas de rendimento. Ou os pais pagam, ou há outro trabalho com o qual se pode viver (neste caso ambos os trabalhos sofrem devido ao excesso de tempo neles). O primeiro caso será o mais comum e o pior, porque perpetua o ciclo dos conhecimentos. Quem tem conhecimentos consegue o tão desejado estágio para o filho e pode pagar esse custo e o filho, beneficiando disso, poderá fazer o mesmo para os seus filhos. É um ciclo vicioso que fecha portas a quem não tenha alternativas a trabalhar para poder sobreviver.

 

Claro que há quem quebre o ciclo. Normalmente são pessoas que trabalham 20 horas por dia e que depois vendem a sua história como um sucesso e um exemplo do que pode ser alcançado com trabalho duro. É verdade, mas pelo caminho provavelmente ficará a grande maioria que não aguentará tais exigências.

 

Não posso falar do caso português porque o conheço mal, mas por vezes tenho a sensação que está a piorar. Há quem se insurja contra os estágios não pagos, mas não é o meu caso. Eu revolto-me simplesmente com trabalho não pago. Os estágios são casos específicos que podem estar abrangidos por regulamentação especial (isentos de segurança social, menos impostos ou outros), mas que devem ser pagos como trabalho que são. Permitir que os jovens (a maioria destes estagiários) sejam usados desta forma não passa de um abuso do direito ao trabalho.

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É fazer as contas, como dizia outro

por Rui Rocha, em 06.06.16

Fazendo umas contas por alto, um ano tem cerca de 250 dias úteis. Se tivermos em conta que o direito a férias remuneradas corresponde a 22 dias por ano, sobram coisa de 228 dias úteis para trabalhar. A redução do horário de trabalho na função pública para 35 horas semanais corresponde a menos 1 hora de trabalho por dia. Isto é, o empregador Estado acaba de somar aos 22 dias úteis de férias normais mais uma "dispensa" equivalente a cerca de 28 dias por ano (1 hora x 228 dias de trabalho / 8 horas diárias de trabalho = 28,5). Exacto. É o que acabaram de ler e que repito para o caso de não ter ficado claro: é de uma medida equivalente a um acréscimo de 28 (vinte e oito) dias de férias anuais para cada funcionário público que estamos a falar.

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Igualdade de género nas organizações

por Rui Rocha, em 10.03.15

Digo que erram os que apontam a chegada de mulheres competentes aos mais altos cargos das empresas como momento que marcará a conquista da igualdade de oportunidades no mercado de trabalho. Na verdade, se quisermos fazer uma apreciação isenta, a igualdade só estará completamente concretizada quando tivermos mulheres incompetentes em posições muitíssimo relevantes das organizações.

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Colaboradores estagiários - à borla

por João André, em 23.10.14

A Teresa escreveu este post e lembrei-me deste texto sobre as ideias de alguns "empreendedores" "amaricanos" de ter gente a trabalhar de borla. É ideia praticada há muito em Portugal, onde o conceito de trabalhar para aquecer, apesar do nosso ameníssimo clima, pegou há já uns bons tempos. Normalmente o corolário acaba por ser a felicidade de novos trabalhadores em receber «pelo menos o salário mínimo».

 

Obviamente que visionários como Mark Cuban defendem a sua visão sob o conceito de "liberdade", onde cada pessoa deveria poder trabalhar de borla se o quisesse. Naturalmente que podemos encontrar gente de todos os tipos, mas desafio qualquer um a encontrar uma meia dúzia de pessoas entre o seu círculo de pessoas que estivessem dispostas a trabalhar sem nada receber. Não falo de voluntariado ou de causas, falo de trabalho a sério, com prazos, objectivos, horários e chefes.

 

Para ser claro sobre a minha posição: o trabalho não deve ser pago. O trabalho tem de ser pago. É uma obrigatoriedade no mundo moderno civilizado. Conceitos como o trabalho não pago deveriam desaparecer e ser classificados como aquilo que são: exploração. Os estágios não remunerados já são, a meu ver, um abuso, mas desde que haja vantagens reais para educação de um estudante (os quais têm que ser verificados pela instituição de ensino) e a instituição de acolhimento incorra com despesas extra (deslocamento, alojamento, eventuais custos extra com alimentação), até nem os rejeito de imediato.

 

O mundo está já excessivamente cheio de "colaboradores", "estagiários" e outros títulos que servem para esconder abusos da parte do sector empresarial. As melhores empresas para trabalhar são também frequentemente aquelas que obtêm maiores índices de produtividade. Infelizmente, enquanto existirem "tubarões" como Cuban por aí, a mentalidade feudal não desaparecerá.

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Luto de três dias decretado no Insurgente

por Rui Rocha, em 03.07.14

Alemanha vai ter salário mínimo de 8,5 euros por hora.

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O trabalho mais difícil do mundo!

por Helena Sacadura Cabral, em 20.04.14

 

O trabalho mais difícil do mundo pertence-nos. E nós honramo-lo. Agora que se aproxima o dia em que celebramos o trabalho destas grandes artesãs, saibamos agradecer-lhes. Porque, por muitas vezes que o façamos, nunca será demais! 

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Máquina do tempo

por João André, em 14.04.14
 
Imagine-se que um dia se inventava uma máquina do tempo. De um momento para o outro seria possível avançar ou recuar no tempo (e recuar é precisamente a ideia, claro está). Seria possível revisitar aquele dia fantástico de há 7 anos, ir ao concerto que se perdeu, passar mais um bocadinho de tempo com o avô, etc. Tudo óptimo? Nem por isso.

 

Imagine-se: seria também possível voltar três dias atrás e fazer aquele trabalho que nos foi pedido com urgência mas que, por falta de tempo, acabámos por entregar atrasado. Como sabemos, toda a gente quer tudo com urgência e, de preferência, para ontem. Com uma máquina do tempo isso seria possível. Seria possível entregar ontem o trabalho que nos foi pedido hoje para ontem. Seria até possível entregá-lo antes de ser pedido. Com máquinas no tempo o trabalho seria avançado a limites inimagináveis. Claro que o problema seria que as exigências mudariam. O trabalho deixaria de ser pedido para ontem e seria pedido para anteontem. Ou para o ano passado, é irrelevante. Os dias passariam a ter muito mais de 24 horas e seria necessário fazer tudo nesse espaço de tempo. A certa altura o dia seria preenchido na máquina do tempo para poder terminar o trabalho antes de ser pedido, passar tempo com a família, etc.

 

Como o manifestante na imagem acima indica, é irrelevante quando chegaria uma máquina do tempo. A ciência indica que seria ou pouco prática ou impossível. Não o sei. O que sei é que, pelo simples facto de ainda não termos visto qualquer visitante do futuro, parece-me certo que mesmo que a máquina do tempo venha a existir (ou já exista/tenha existido), o seu inventor provavelmente usa-a para fins puramente individuais. Para evitar ter mais trabalho e para, quem sabe, simplesmente ler.

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Hábitos de trabalho e família

por João André, em 08.04.14

Henrique assinou no Expresso um texto onde avança como razão para a baixa natalidade em Portugal o facto de os portugueses começarem a trabalhar, segundo ele, a «meio da manhã» em comparação com alemães e holandeses. Tivesse ele referido suecos, finlandeses ou japoneses e os meus comentários seriam menores. Trabalhando e vivendo eu em ambos os países, tenho maior familiaridade e decido comentar.

 

O primeiro ponto é simples: independentemente da hora a que se começa a trabalhar, o dia tem o mesmo número de horas em todos os países: 24 (talvez não na Coreia do Norte ou Venezuela, países de prodígios). Isso significa que se se trabalharem o mesmo número de horas sobra o mesmo tempo para a família. Deixemos no entanto este ponto de lado e olhemos para o resto dos argumentos que demonstram como a comparação é forçada.

 

O primeiro ponto é a geografia. Quem estiver interessado em ver as horas de nascer do sol nos três países pode usar este site. Seja como for, em países onde o sol nasce mais cedo(mais a Alemanha, menos a Holanda), é normal que se comece a trabalhar mais cedo.

 

Quanto ao hábito de chegar e começar a trabalhar de imediato, não sei onde trabalhou Raposo, mas não foi nas empresas onde eu ou os meus amigos trabalharam. Na Holanda o dia começa invariavelmente com o café e tem interrupções a meio da manhã e da tarde para outro (tudo entre 15 a 30 minutos). Os alemães começam também com um café mas mais curto. Compensam isto com um almoço mais longo que o de meia hora dos holandeses.

 

Onde Raposo tem alguma razão é na insistência da vida familiar. Há pressão da parte dos empregadores para não se trabalhar demais. Isso está ligado à pressão que recebem dos sindicatos e das regras dos contratos colectivos de trabalho. Os horários não são um objectivo em si, mas o resultado da influência dos sindicatos. Talvez Raposo pudesse dedicar um pouco mais de atenção a este aspecto. Seja como for, a maior parte dos meus colegas chegam ao escritório entre as 8 e as 8 e meia. Muitos fazem-no mais tarde.

 

E a razão para isso são os horários de jardins de infância e creches. É aqui que os horários são feitos. Se uma creche aceitar crianças até às 9, o trabalhador não terá incentivo para começar mais cedo. Se a criança tiver de chegar até às 8, então a coisa pia mais fino. O mesmo se passa com a hora de ir buscar os filhos.

 

E falta então a protecção às famílias que querem ter filhos. Na Alemanha e Holanda há (em modelos diferentes) protecção de emprego para os pais durante 2 a 3 anos após o nascimento. Isso ajuda a planear o crescimento da família. Por outro lado há maior pressão social para que as mães se mantenham em casa para cuidar dos filhos.

 

Como uma amiga minha referiu em resposta a estas  minhas objecções ao texto de Henrique Raposo, «resume-se tudo a isto: não sei em que país vive Raposo, mas não é em Portugal». No fundo trata-se de mais uma das inúmeras variações do famoso lá fora.

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Os rendimentos e a revolução tecnológica

por João André, em 21.01.14

A Economist desta semana traz um trabalho sobre o impacto da tecnologia no trabalho e nos rendimentos. O impacto em questão é o do poder dos computadores e da forma como vão tomando conta de tarefas que sempre vimos como sendo do domínio humano. No artigo,e ste impacto é equiparado ao da Revolução Industrial, sendo que a comparação mais comum é com a do desaparecimento dos tecelões em favor dos teares mecânicos.

 

O artigo aborda, do ponto de vista dos trabalhadores, dois aspectos: o primeiro é o desaparecimento (ou pelo menos redução drástica) de alguns postos de trabalho tradicionais; o outro é o impacto desta nova revolução tecnológica nos rendimentos dos trabalhadores. Sobre o segundo ponto, o artigo faz referência à dinâmica da Revolução Industrial, a qual indica que os primeiros ganhos do impacto da tecnologia são favoráveis às pessoas com rendimentos mais elevados, mas que depois os trabalhadores de rendimentos mais baixos tendem a ser favorecidos. Isto faz perfeitamente sentido na lógica que o artigo apresenta: quem tem rendimentos mais elevados são pessoas habitualmente com educação superior e como tal mais capazes de responder de imediato ao novo paradigma. Mais tarde, com a educação das pessoas de rendimentos mais baixos, também estas ganham. Simples e claro.

 

Há, contudo, um aspecto que me parece desprezado e esquecido nesta história. Aquando da Revolução Industrial, os trabalhadores deixaram o campo e migraram em massa para as cidades para poder trabalhar na indústria. Ou seja, saíram de zonas pouco povoadas e mudaram-se para zonas de elevada densidade populacional (e acabaram por a aumentar ainda mais). Dadas as condições miseráveis que estes trabalhadores inicialmente conheceram (salários baixos, insalubridade, sobrelotação, etc), os trabalhadores uniram-se e começaram a criar sindicatos para lutar pelos seus direitos. Isto não será "conversa de comunista", mas um facto histórico. Com o tempo, essa luta (que incluíram naturalmente melhor educação para os trabalhadores) acabou por melhorar as condições dos trabalhadores, nomeadamente os seus salários (o artigo faz uma pequena referência acerca dos movimentos sociais e políticos).

 

E é este o ponto que me parece falhar no artigo da Economist: a melhoria dos rendimentos não adveio apenas e só porque a educação melhorou ou porque faça parte da dinâmica natural de novos paradigmas. Adveio como resultado de um conjunto de circunstâncias, entre as quais a emergência dos sindicatos não foi - de longe - a menor. Ora, no presente caso as coisas provavelmente não se passarão da mesma forma. A tecnologia que permite esta nova revolução também impõe a separação física entre as pessoas. Se a Revolução Industrial colocou os trabalhadores em contacto uns com os outros, esta nova revolução promove essa separação. Seja porque é possível fazer o trabalho a partir de outras localizações, seja porque as empresas promovem a mobilidade, a verdade é que os trabalhadores cada vez passam pouco tempo uns com os outros. O resultado disto é que os laços de amizade, camaradagem ou simples confiança não são estabelecidos.

 

E a verdade é que sem confiança nenhuma luta do tipo sindical terá sucesso. Um trabalhador vê-se essencialmente perante o Dilema do Prisioneiro: sem confiança que os seus colegas tomem parte, terá menos incentivos para lutar por direitos. Os sindicatos poderão beneficiar da tecnologia no que diz respeito ao número de adesões, mas a separação física não ajuda à organização de uma greve (por exemplo, uma vez que continua a ser a principal arma negocial de um sindicato). Sem esta forma de pressão, é improvável que os rendimentos dos trabalhadores beneficiem a prazo, pelo menos ao nível do que se passou após a Revolução Industrial. Certamente que a educação ajudará e não há dúvida que o talento será sempre bem remunerado, mas a esmagadora maioria dos trabalhadores não é talentosa: é simplesmente mediana.

 

O resultado, a meu ver, será um aprofundar do fosso entre ricos e pobres. Poderão existir mecanismos inovadores que os sindicatos (ou seus sucedâneos facebookianos) criem, mas do meu ponto de vista está tudo dependente das relações interpessoais de confiança. Estas, ao invés das tecnologias, dos métodos de trabalho ou das fábricas, não mudam facilmente: existem como resultado de evoluções biológicas e sociais ao longo de muitos séculos e possuem inércia a mais.

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66 anos para que reforma?

por Patrícia Reis, em 19.12.13

Aqui onde estou chove.

Leio as notícias no computador, abençoada internet (para umas coisas, não tanto para outras), e fico a saber que a reforma será então aos 66 anos.

Até eu chegar aos 50, decerto que passará para os 70. E assim sempre em frente até eu morrer sem reforma.

Como desconto desde os 17 anos, tenho 43, não sou de nenhum partido, não sou da maçonaria ou do opus dei, tenho por garantido que não terei reforma ou um emprego com um ordenado estrambólico.

A opção por ter uma empresa - mínima, mas de saúde controlada - deve-se à maternidade. Trabalhava uma média de 16 horas por dia nos jornais. Perdi algumas gravidez (não há plural). Pensei que tinha de mudar de vida se queria uma família e assim fiz. Fui para a Marie Claire, engravidei, tive um filho antes do tempo e, depois da baixa, no dia em que voltei, o dono da Marie Claire em Portugal, um senhor chamado Carlos Barbosa, acho que agora é presidente do ACP, decidiu fechar a porta à revista e inviabilizar o negócio entre a casa-mãe francesa e o grupo Lusomundo.

Fomos para a rua. Valeu-nos o sindicato dos jornalistas e a directora, Inês Pedrosa, que foi incansável.

Depois desta experiência, estive na Elle em part-time durante um ano e uns meses nos projectos especiais do jornal Público. A seguir, por causa da Expo98 (fiz a pesquisa em 1989 que deu origem ao primeiro documento oficial sobre a exposição), comecei a 004 com mais 4 pessoas. Ao fim de seis meses, fiquei com a empresa nos braços, sem saber mais do que sabia: sabia de jornais, de fechar páginas, de escrever e entrevistas.

Aprendi sobre impostos e pagamentos por conta, subsídios e muito sobre a natureza humana, ainda hoje aprendo, felizmente.

Nunca pensei que queria um emprego. Queria, e quero, trabalhar. Ponto.

Nunca pensei na reforma e chapa ganha é chapa gasta.

Os miúdos cresceram e eu consegui apanhá-los na escola às 16h20 durante anos. O mais novo só foi para a escola com três anos. É certo que nasceu numa sexta-feira e, por causa de uma exposição, na segunda seguinte estava a trabalhar comigo na Cordoaria.Quem tem uma empresa não tem 22 dias úteis de férias, não tem feriados ou fins-de-semana. Tem dias.

A reforma passou para os 66 anos. Ok.

Não faço ideia se vivo até lá, quem sabe?, posso morrer a qualquer momento.

O que me importa não é maldizer os políticos e as decisões, nada disso. Devo, aliás, dizer que me enerva muito quando se despreza o sistema político só com fel e não se contribui com uma ideia, uma acção. Dizer mal é tão fácil, não é?

Os meus filhos não querem ir viver para fora. Mesmo que não tenham reforma. Querem mudar o mundo. E eu, aos 43 anos, não quero mudar o mundo, mas acho possível ir mudando o país. Ter uma cultura de empresa saudável. Acabar com as bestas com aquelas coisas de plástico de matar moscas e mosquitos. Acho possível ser justo. Escrever e refilar para todas as entidades e, muitas vezes, para espanto de várias almas, ver mudanças, ter respostas.

Em resumo? Quem está à beira da reforma não terá grande simpatia, nenhuma simpatia, por este post e tem a minha compreensão. Quem tem menos idade do que eu, faria melhor em estar-se nas tintas com este tipo de decisão e continuar a trabalhar. É o que vou fazer.  

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Tenho de aprender...

por Helena Sacadura Cabral, em 16.12.13

Tenho um grande defeito que vou tentar corrigir em 2014: não sei preguiçar. E eu julgo que também há um direito saudável à preguiça, desde que tenhamos trabalhado o que devíamos.

Não é o mesmo que o descanso. É diferente, porque eu posso descansar a fazer um trabalho diverso do habitual, se isso me der prazer.

Aquilo de que falo é mesmo de não fazer nada, não pensar nada, não me ocupar de nada. A família critica-me e diz que sou uma workaholic. Eu reconheço que é verdade e com a morte do meu filho já consegui alterar muito o meu ritmo de vida. Passei a "ver" e a "ouvir" melhor e a saber "desligar". Foram grandes, enormes progressos mesmo. Mas ainda não sei "parar" pelo simples prazer de o fazer. Vai ser o meu projecto para o Novo Ano, antes que os que nos governam se adiantem...

Sinto que é importante aprender a fazê-lo, para poder dar o devido valor ao trabalho. É que este, em mim, é tão natural que nem me dou conta de que a vida é muito mais do que ele, e também é preguiça. Da saudável, da que não rouba nada a ninguém e apenas representa um lado justo da vida. A ver vamos se conseguirei... 

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No reino dos eufemismos

por Pedro Correia, em 29.11.13

 

Acabo de ouvir num canal televisivo que uma determinada empresa construtora "rescindiu com 300 colaboradores". Está tudo errado nesta frase. No espírito e na letra. O mundo laboral parece ter sido liofilizado no discurso jornalístico corrente. Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Trabalho, palavra bíblica. "Bem basta a cada dia o seu trabalho", diz Jesus no Sermão da Montanha. Reescrita à luz da novilíngua dominante, quem trabalha deixou de ser trabalhador: é "funcionário" ou, de modo ainda mais eufemístico, "colaborador". Pela mesma lógica, não pode ser despedido mas "dispensado". Ou, de modo ainda mais eufemístico, alguma Alta Entidade da corporação empresarial "prescinde" dos seus serviços. Ou da sua colaboração.

Sempre me ensinaram que o discurso jornalístico, para ser eficaz e competente, devia descodificar todo o jargão encriptado, que obscurece a mensagem em vez de a tornar transparente. Nos dias que correm, sucede precisamente ao contrário: o jornalismo abdica demasiadas vezes de clarificar a mensagem, obscurecendo-a por cumplicidade activa com as "fontes" ou por mera preguiça intelectual.

No reino dos eufemismos, não se trabalha: "colabora-se". E ninguém é despedido: há apenas quem "cesse funções" ou veja os seus préstimos "prescindidos" por alguma entidade empregadora em fase de "reestruturação" ou "reavaliação" das potencialidades do mercado. Mas as coisas são o que são, mesmo que as palavras ardilosas procurem camuflar uma realidade nua e crua.

A empresa construtora despediu 300 trabalhadores. Assim mesmo, ponto final. A realidade, só por si, já é suficientemente dura. Não juntemos ao drama do despedimento a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

 

Texto reeditado. Publicado originalmente no DELITO DE OPINIÃO a 28 de Maio de 2012

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40 horas

por Rui Rocha, em 04.05.13

De entre todos os sacrifícios pedidos e suportados nos últimos anos, este de aumentar o horário de trabalho da função pública para 40 horas de trabalho semanais parece ser dos mais suportáveis. Trabalhar mais tempo pode não ser agradável mas, nos tempos que correm, é o menor dos males. Para além disso, é uma solução difícil de contestar tendo presente o princípio constitucional da igualdade tantas vezes invocado nos últimos tempos. Mais, se até agora alguns acusavam os funcionários públicos de viverm numa realidade à parte e de não serem solidários, por exemplo, com as centenas de milhares de trabalhadores do sector privado que foram empurrados para o desemprego, isso agora mudou. De facto, nunca se ouviram tantas declarações de servidores públicos e seus representantes tão genuinamente preocupados com o desemprego como as que, a propósito deste aumento de horário, foram proferidas nos últimos dias. 

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Emerge uma concepção da empresa e do trabalho como lugares e espaços de cooperação. Trata-se, se quisermos, da visão simétrica da que resulta da  luta de classes marxista. Marx estava, é claro, enganado. Falta, na sua análise redutora e para dar só alguns exemplos, e se nos quisermos manter apenas na dinâmica do conflito, a perspectiva da luta entre o norte e o sul, entre insiders e outsiders do mercado de trabalho e o sentido da ironia histórica que viria a deslocar o epicentro da luta de classes como ele a entendia para a China. E, se quisermos ir mais longe, a percepção dos múltiplos sentimentos e formas de ser humanas que não se explicam na estreiteza da ideologia, seja ela marxista ou outra. Entre as quais se incluem o altruísmo, a solidariedade, a compaixão, o egoísmo e outras virtudes e vícios, adquiridos ou de fabrico, que dão origem a lutas sem classe. Muitas vezes, a lutas sem classe mesmo nenhuma que são capazes de minar as relações entre pessoas estejam elas ligadas por uma qualquer hierarquia ou sejam pares de uma mesma função. Mas, se isto é assim, deve admitir-se que a dita concepção da empresa como local de cooperação é igualmente falaciosa pelas exactas e mesmas razões. Aliás, para perceber que assim é, basta levar as consequências do argumento até ao fim. No tempo das empresas colaborativas, dizem, não faz sentido ver consagrado o direito à greve que, pela sua natureza conflitual, está completamente ultrapassado. Pois muito bem. Demos então todos os passos em frente ao mesmo tempo. E expurguemos da legislação do trabalho, também, a possibilidade de despedimento individual com justa causa. Pois se a empresa é local de cooperação... No fundo, o que temos de concluir, para marxistas e teóricos da cooperação, é que podes saber tudo sobre os vários pilares da sociologia. Mas, se não te conheces a ti mesmo, com todas os teus méritos, defeitos e limitações, isso é sinal de que ainda não sabes nada do mundo.

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Minijobs

por Rui Rocha, em 03.09.12

Os minijobs alemães são um daqueles temas que regressa periodicamente à discussão pública. Os minijobs são uma relação laboral atípica que apresenta como características essenciais a isenção de contribuições para a Segurança Social e de pagamento de impostos a cargo do trabalhador (as obrigações da entidade patronal mantêm-se) nos casos em que a remuneração não supera 400€ mensais. Apresentados como a grande medida que permitiu concretizar o milagre da recuperação do emprego na Alemanha, é natural que sejam discutidos em reputadíssimos fóruns académicos lusitanos. Entre estes conta-se, naturalmente, a prestigiadíssima Universidade de Verão do PSD. Antes que cresça o entusiasmo pela solução, importa considerar alguns aspectos que têm a sua importância. Desde logo, a experiência alemã demonstra que os minijobs estão ligados a trabalho com baixa qualificação (limpezas industriais, restauração, grande distribuição, tarefas auxiliares no sector hospitalar, etc). Por outro lado, uma análise mais fria do aparente milagre de criação de emprego alemão poderá levar ao correspondente arrefecimento do entusiasmo. Na verdade, uma boa parte do aumento dos empregos disponíveis poderá ter ficado a dever-se à legalização de situações de emprego não declarado pré-existente e à conversão de falso auto-emprego. Mais, uma parte significativa dos novos empregos corresponde a situações de 2º emprego. Isto é, trabalhadores com primeiro emprego normal e correspondentes contribuições e protecção social, aproveitam a abertura legal para fazer mais umas horas, aumentando o seu rendimento líquido com o minijob não sujeito a descontos para a Segurança Social. Por último, importa responder a uma questão fundamental. Tendo em conta que o salário médio na Alemanha rondará os 3.500€ mensais e que 400€ do minijob representam, portanto, pouco mais de 10% do salário médio alemão, qual seria o valor a pagar pelo minijob em Portugal: os mesmos 400€ ou, num raciocínio de proporcionalidade relativamente à realidade alemã, cerca de 10% do salário médio português? É que se a resposta for a primeira, minijobs já cá nós temos, com cerca de 500.000 trabalhadores mais ou menos indiferenciados a receberem o salário mínimo (já isentos de IRS, embora sujeitos a contribuição para a Segurança Social). Se a resposta for a segunda, e se tivermos em conta que o salário médio português ronda os 800€ mensais, estamos a falar de uma remuneração de cerca de 80€ por mês… Importava pois que os entusiastas da medida esclarecessem este ponto para sabermos exactamente do que estão a falar.

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  • A taxa de desemprego subiu para 14,9%;
  • A taxa de desemprego jovem subiu para 36,6%;
  • Foi aprovado o novo "Plano para a criação de emprego - Impulso Jovem", através do qual 344 milhões de euros estarão a serviço da precariedade e do patrocínio de uma ilusão de emprego para os milhares de jovens que sabem que regressam ao desemprego 18 meses depois;
  • Despedimento por inadaptação mais abrangente;
  • Corte nas horas extraordinárias;
  • Compensação no despedimento sofreu cortes;
  • Redução de um a três dias de férias e menos quatro feriados, ou seja mais uma semana e pouco de trabalho sem qualquer compensação;
  • Subsídios de maternidade sofre corte de 14%;
  • No sector imobiliários foram aumentadas as rendas e a facilidade dos despejos;
  • Na Justiça foi decidido o encerramento de múltiplos Tribunais do interior com critérios questionáveis e acima de tudo mal explicados;
  • Ainda na Justiça vai haver lugar a julgamentos sumários em 48 horas numa gritante diminuição de garantias e segurança jurídica;
  • Os portugueses têm menos poder de compras que os gregos e, já agora, que os restantes cidadãos europeus;
  • 70.000 portugueses emigram por ano, a maioria dos quais é jovem;
  • Três votos a favor e dois contra ilibaram o Ministro Miguel Relvas da acusação de pressões ilicitas que ficou mais do que provada. Entretanto a jornalista Maria José Oliveira demitiu-se misteriosamente e apresentou, contra o Público, uma queixa na Comissão Nacional de Protecção de dados por violação de endereço electrónico;
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