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Breve história de um fim provisório

por Diogo Noivo, em 13.04.17

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No passado fim-de-semana a ETA entregou as armas. Ao contrário do que sucedeu com o IRA ou com as FARC, o desarmamento da ETA foi unilateral, sem contrapartidas. Foi uma rendição. A organização terrorista chega aos dias de hoje sem ter ganho nada: nem independência, nem a junção do País Basco a Navarra, nem a transferência de presos etarras para estabelecimentos prisionais bascos, nem a internacionalização do “conflito”, nem amnistias. Nada. Chega aos dias de hoje sem apoio popular - o pouco que existiu é agora negligenciável. A única coisa que conseguiu foi deixar um rasto de terror feito à custa de mais de 800 cadáveres. 

 

O estertor do terrorismo etarra faz-se de duas datas: 10 de Janeiro e 20 de Outubro de 2011. A 10 de Janeiro de 2011 a organização terrorista ETA anuncia um cessar-fogo "permanente, geral e verificável", três palavras que nunca estiveram juntas em anteriores interrupções de hostilidades. A 20 de Outubro do mesmo ano, a ETA anuncia o "cese definitivo", o fim. Para decretar o óbito de 40 anos de terror faltava apenas que a organização entregasse as armas e, depois, anunciasse oficialmente a sua dissolução. No passado fim-de-semana cumpriu-se a primeira etapa. Aguardamos o cumprimento da segunda.

 

O estado da arte deve-se a diferentes factores que, juntos, criaram a tempestade perfeita. Em primeiro lugar, um processo negocial, o terceiro em 40 anos de terror. Já trouxe ao DELITO a história desta negociação: Negociador (Borja Cobeaga, 2014) é a adaptação cinematográfica criativa do livro onde Jesús Eguiguren, o principal negociador, conta como conversas exploratórias entre ele, do Partido Socialista Basco, e Arnaldo Otegi, uma das figuras mais conhecidas e activas da esquerda abertzale, evoluíram para rondas negociais entre o Governo, a esquerda abertzale e a ETA. Este processo, à semelhança dos anteriores, fracassou. Ainda assim, conseguiu cavar as clivagens existentes na esquerda pró-etarra e, assim, afastar a estrutura partidária da estrutura terrorista. Além do filme e do livro, o processo é agora explicado em El fin de ETA (Justin Webster, 2016), um documentário notável, muitíssimo bem feito, disponível em Portugal no Netflix. Espero trazê-lo em breve ao DELITO.

Em segundo lugar, a pressão policial e judicial. No ano 2000, a ETA contava com cerca de 1000 operacionais; seis anos depois este número desceu para aproximadamente 50. A aplicação da lei foi essencial para que a imensa maioria dos terroristas com experiência operacional e política acabassem presos. O vazio de poder na cúpula da ETA foi então preenchido por jovens impreparados, muitos vindos directamente da kale borroka (guerrilha urbana), gente com manifesta inépcia política.

A nova liderança terrorista é o terceiro factor: o seu fanatismo exacerbado impediu-a de ver a realidade e de perceber que à medida que o tempo passava a organização ficava cada vez mais isolada. A ETA continuou a matar, visando com frequência vítimas de oportunidade, os mais fracos ou mais desprotegidos, pessoas como Isaías Carrasco. Mostrou que a única forma de fazer política que conhecia era matar.

 

Tudo indica que a ETA chegou felizmente ao fim. Porém, manda o conhecimento do modus operandi da organização que esperemos pelo anúncio oficial de dissolução. Recorde-se que a 30 de Dezembro de 2006, em pleno processo negocial, a ETA detonou um carro-bomba no Terminal 4 do aeroporto de Barajas, em Madrid, matando duas pessoas e destruindo por completo um bloco de estacionamento. Recorde-se também que em Outubro desse ano a ETA roubou cerca de 300 armas e munições na véspera do dia em que o Executivo espanhol levou o Caso Basco e representantes das forças políticas separatistas ao Parlamento Europeu. O Governo esforçava-se por encontrar soluções, arriscava muito do seu capital político ao abrir a porta à internacionalização do “conflito”, mas a ETA aproveitava o momento para se rearmar. Por último, recordemos que a ETA defendeu e aplicou aquilo a que chamou de “socialização do sofrimento”, um conceito mórbido segundo o qual a violência tinha de chegar a todos: políticos, polícias, jornalistas, professores, enfim, a todos os que se opunham publicamente à utilização da violência como instrumento de acção política.

Compreende-se, assim, o cepticismo de vários sectores da sociedade espanhola. Além do mais, existe o risco de que os partidos independentistas recuperem o legado político da ETA, ainda que sem recorrer ao terror. Se tal acontecer, será praticamente impossível sarar a chaga social aberta ao longo de 40 anos de terrorismo. Também por isso é importante que a ETA assuma publicamente a sua dissolução.

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Quando a democracia vence o terrorismo

por Diogo Noivo, em 10.04.17

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 Monumento a la Constitución, 21 de Outubro de 1983

 

O desarmamento da ETA chega tarde. 

Manda a prudência, o percurso desta organização terrorista e o sofrimento das vítimas que não lancemos foguetes. Pelo menos, para já. Tentarei escrever sobre o tema. Por ora, partilho uma magnífica fotogaleria do El País dedicada à luta cidadã. Estas imagens e o pequeno enquadramento histórico de cada uma delas é suficiente para perceber a inanidade de uma peça recente da SIC que chamou "luta armada" ao terrorismo e "grupo separatista" à ETA.

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Procurar razão

por Diogo Noivo, em 11.03.17

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Com apenas 16 anos de idade Gabriel Vidal “Baby” tornou-se o centro de todas as atenções em Espanha: foi o primeiro a ser condenado pela justiça daquele país na sequência da investigação aos atentados terroristas de 11 de Março de 2004, em Madrid.
Apodado “El Gitanillo” pelos órgãos de comunicação social, Gabriel pertencia à “trama asturiana”, um pequeno grupo de delinquentes de Avilês que se dedicavam ao tráfico de estupefacientes e a delitos comuns. Rufias de bairro que por ganância, por laxismo e por força de um habitual encolher de ombros acabaram por fornecer a jihadistas os explosivos que mataram 191 pessoas e feriram cerca de 1000 na capital espanhola. “Baby” foi quem transportou os explosivos das Astúrias até Madrid e os entregou à célula terrorista que cometeu o atentado.
Em Nos vemos en esta vida o en la otra, Manuel Jabois, jornalista e colunista no diário El País, usa a história de “Baby” como estribo para descrever os factos, os personagens e as ligações que culminaram no acto terrorista mais devastador ocorrido na Europa Ocidental. A partir de várias conversas com o jovem asturiano, as primeiras que “Baby” teve com um jornalista, Jabois mapeia o contexto difuso de uma rede composta por redes, destrinçando com clareza as fronteiras entre a pequena criminalidade e o terrorismo; ao mesmo tempo, expõe o papel crucial que a oportunidade, o acaso e a indiferença de gente que nada tem que ver com o terrorismo desempenharam neste atentado. Aqui como noutros casos, o fanatismo religioso é manifestamente curto para explicar a confluência de acontecimentos e de diferentes percursos de vida que acabam por desaguar em massacre.
O livro é um trabalho notável de reportagem, muitíssimo bem documentado e escrito, que faz as perguntas certas, mas que não se angustia quando as respostas são demasiado triviais ou mesmo estúpidas. Todos os ângulos da história, todos os intervenientes (o livro refere mais de 50), todos os momentos que antecederam o atentado são trabalhados com minúcia e talento para tentar explicar o que parece destituído de razão.
Hoje assinalam-se os 13 anos do atentado em Madrid. No ano passado, escrevi aqui no DELITO que "[h]abituada à chaga terrorista, Espanha combateu a barbárie sendo irredutível na defesa da normalidade democrática." Nos vemos en esta vida o en la otra é mais uma expressão dessa normalidade. Manuel Jabois investiga e escreve sem assumir as dores de ninguém, sem tomar partidos, mas sem esquecer que existem vítimas. O livro é um esforço intenso, mas sereno de compreensão de um marco nefasto na história contemporânea de Espanha. Foi uma das leituras mais interessantes e impressivas que fiz em 2016. Se há dia para o recomendar, e merece sê-lo, hoje é sem dúvida esse dia.

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Os inimigos do Natal

por Pedro Correia, em 24.12.16

Estimativas dos principais serviços de informações europeus apontam para a existência de 22 mil jiadistas que se infiltraram nas correntes migratórias e se movimentam hoje com desenvoltura no espaço Schengen, onde Portugal se insere. Um deles foi o tunisino que assassinou 12 pessoas em Berlim e atravessou sem o menor embaraço dois países antes de chegar a Milão, onde se envolveu num tiroteio com a polícia que lhe custou a vida.

Enquanto celebramos o espírito natalício e esta bonomia de costumes infelizmente odiada por grande parte da população do planeta, não tenhamos ilusões: os inimigos do Natal estão no meio de nós. Entrincheirados na sombra, fanáticos sequiosos de sangue, prontos a matar e a morrer.

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Pátria de violência e ódio

por Diogo Noivo, em 20.10.16

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A ETA, a esquerda abertzale e o regime fascista que ambas instituíram no País Basco sempre mereceram pouca atenção em Portugal, nuns casos por laxismo, noutros por conivência. Durante 40 anos, ser democrata e exercer o direito à liberdade de expressão foram, no País Basco, crimes de delito de opinião. O criminoso era penalizado com ameaças, quando não com a morte. Professores, escritores, cineastas, jornalistas, polícias, políticos e até humildes portageiros eram confrontados com uma escolha: aceitar uma liberdade timorata, mutilada e tutelada pela violência terrorista, ou fazer valer os seus direitos e ideias. Os que optaram pela segunda via assumiram um custo. Para os próprios e para as suas famílias.

O País Basco foi ao longo de quatro décadas uma região bizarra, em absoluta divergência da construção de liberdades no espaço europeu. Os verdadeiros criminosos saiam à rua, faziam as suas vidas com relativa impunidade, enquanto as vítimas viviam num regime de detenção, sob permanente escolta armada, impedidos de actos normais e quotidianos como ir ao cinema ou visitar um familiar quando bem lhes aprouvesse.

A nuvem de chumbo que pairou sobre a Euskadi é hoje uma névoa rarefeita. Mas não se dissipou. No passado fim-de-semana, dois militares da Guardia Civil, que gozavam uma noite de folga na localidade navarra de Alsasua, foram brutalmente agredidos por cerca de 50 indivíduos pertencentes à esquerda abertzale. Os militares e as suas namoradas. Ser polícia no País Basco ainda é um crime. Ser amigo ou companheiro de um polícia é um crime por associação. Julgamento e pena são servidos de uma assentada pelos auto-denominados “representantes do povo basco” que, para além de carecerem de legitimidade democrática, nunca representaram nada nem ninguém.

O mais recente romance de Fernando Aramburu é, por isso, infelizmente oportuno. “Patria” acompanha a história de duas famílias separadas pelo medo e pela violência. Em cerca de 650 páginas, Aramburu abarca décadas de agressões, de gente subjugada, e fá-lo desde uma perspectiva pouco habitual: olhando para o quotidiano. O livro é um puzzle de ficção, cujas peças saíram de uma realidade dolente. O aparelho de repressão da ETA, os funerais, as tabernas onde se aprendia a odiar em conjunto, os arruaceiros e a cobardia são elementos que perpassam “Patria” do princípio ao fim, criando uma imagem tão impressionante como fidedigna. Em entrevista ao Babélia, o suplemento de cultura do El País, Fernando Aramburu afirma que a derrota literária da ETA continua pendente. Este livro é sem dúvida um valiosíssimo contributo para conseguir essa derrota e uma oportunidade para perceber que, durante décadas, houve na Europa das liberdades uma região agrilhoada por uma ditadura violenta e alimentada pelo ódio.

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O dia mais longo da minha vida

por Pedro Correia, em 11.09.16

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Faz hoje quinze anos ocorreu o dia mais longo nas vidas de muitos de nós. Uma data que poderia passar à História como o "dia da infâmia" se essa designação não tivesse sido escolhida por Franklin Roosevelt para reagir ao cobarde bombardamento de Pearl Harbor pela aviação nipónica, em 7 de Dezembro de 1941.

Parecia uma tranquila terça-feira de Verão como qualquer outra em Nova Iorque. Mas aquele 11 de Setembro de 2001 - quando o século XX terminou de vez e este século teve o seu verdadeiro início, afogado em estilhaços e cinzas - assinalava afinal uma fronteira histórica.

Daqui a centenas de anos os herdeiros dos nossos herdeiros evocarão esta data como nós hoje lembramos a queda de Constantinopla (29 de Maio de 1453, outra terça-feira) ou a tomada da Bastilha (14 de Julho de 1789, também numa terça-feira). Uma data que fez vacilar, talvez para sempre, as linhas divisórias que críamos imutáveis entre segurança e liberdade.

 

Naquela trágica manhã, as Torres Gémeas do World Trade Center - símbolos do orgulhoso poderio financeiro norte-americano que pareciam desafiar o céu com a sua aura de fortalezas inexpugnáveis - desmoronaram-se como pedras de dominó. E pressentimos logo ali que um pedaço da nossa existência mudaria para sempre. A era global tornava-se também na era do terror sem fronteiras nem barreiras, à mercê dos caprichos homicidas de uma guerra insidiosa que passou a ter por palco os mais inesperados e banais pontos do quotidiano de qualquer de nós. Uma estação ferroviária, um bar, um autocarro, um hotel, uma praia, uma avenida, um templo, um pátio de escola.

O casamento do mais impiedoso fanatismo ideológico com a tecnologia de vanguarda consumava-se ali, naquelas torres em chamas - prelúdio de muitos outros incêndios que devastariam tantos países na década e meia subsequente. Com múltiplos pontos negros em cidades mártires: Londres, Madrid, Paris, Istambul, Bombaim, Bagdade, Moscovo, Haifa, Jerusalém, Ancara, Beirute, Riade, Cabul, Grozni, Bruxelas, Tunes, Mombaça, Davao, Casablanca, Carachi, Charm el-Cheik, Amã, Mossul, Islamabade. E nas ilhas de Bali, Djerba e Mindanau. E na Península do Sinai. E no Quénia. E na Nigéria.

 

Estava em casa à hora do almoço e assisti a tudo na televisão, como aconteceu a tantos de nós. Logo acorri ao jornal, iintegrando-me numa das equipas de trabalho que se mantiveram em laboração contínua, produzindo sucessivas edições. Surgiria nas bancas um jornal diferente, praticamente sem outro tema: naquele dia, na redacção do Diário de Notícias, estávamos convictos de que não escrevíamos só para o leitor da manhã seguinte. Estávamos também a dar um contributo para o rascunho da História.

E sabíamos de algum modo que tudo seria diferente a partir daí.

 

Cerca das três da madrugada de 12 de Setembro, quando abandonei enfim as instalações do jornal e cruzei em ritmo fatigado as ruas circundantes, entretanto despovoadas, percorreu-me uma sensação de estranheza: havia calor mas senti frio. As imagens das vítimas indefesas de Nova Iorque, com os seus apelos lancinantes e as suas preces desesperadas, não me saíam da cabeça.

Ainda cá estão quinze anos depois.

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Mau jornalismo, bom jornalismo

por Pedro Correia, em 29.07.16

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Atentado de Bruxelas, a 22 de Março: 32 mortos e 300 feridos 

 

Nos dias que correm, qualquer assassino torna-se uma celebridade instantânea. Quanto mais repugnante é o crime praticado - seja o de Orlando, seja o de Nice, seja o de Saint-Etienne-du-Rouvray - mais garantida está a fama mediática dos criminosos.

A besta norueguesa que matou 77 pessoas em 2011 tem honras de wikipédia, o homicida da deputada trabalhista britânica Jo Cox recebe mais espaço na imprensa do que um galardoado com o Nobel, o atirador sanguinário que matou nove seres humanos em Munique é tratado por  "jovem" ou  "rapaz" por parte dos nossos benevolentes órgãos de informação - quase como se a chacina na capital da Baviera fosse uma espécie de rave party.

Começamos a ficar tão indiferentes que a existência de nove cadáveres já nos parece um número irrelevante.

 

O tratamento jornalístico do terrorismo abusa de dois males simétricos: confere projecção global a quem dispara, mata, fere, mutila e viola - favorecendo comportamentos miméticos de um incontável número de potenciais assassinos sequiosos dos seus 15 minutos de fama - enquanto silencia os nomes e esconde os rostos das vítimas. Como se elas nos envergonhassem.

O New York Times procedeu ao contrário: em vez de esmiuçar a biografia dos homicidas, farejar putativos "traumas" que os colocaram na senda do crime ou indagar supostas "questões sociais" como causa justificativa dos morticínios, o excelente diário norte-americano rompeu o tabu, falando dos mortos.

Quem eram, como se chamavam, que sonhos perseguiam, porque estavam à hora errada no local errado. Em paragens tão diversas como Bruxelas, Istambul, Lahore, Ummarari (Nigéria), Iskandaria (Iraque), Grand Bassam (Costa do Marfim), Ancara ou Peshawar.

 

Um total de 247 mortos em três continentes durante duas semanas no passado mês de Março. Pessoas de 26 nacionalidades, vítimas do terrorismo - 17 das quais sem ter sequer ultrapassado uma década de vida. A mais velha contava 84 anos, as mais novas - três - ficaram por nascer.

Outros números trágicos: 1168 pessoas perderam familiares muito próximos na barbárie daquelas duas semanas tão bem documentada no artigo do Times. Duzentas e onze ficaram sem pai ou sem mãe, 78 nunca mais viram o marido ou a mulher.

Pessoas que - estas sim - merecem ver o nome transcrito nos jornais.

Pessoas como nós, você que lê estas linhas ou eu que agora as escrevo. Possíveis vítimas de um acto terrorista num amanhã qualquer.

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Refugiados e terrorismo

por Diogo Noivo, em 28.07.16

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O Líbano é dos países que mais sofrem com a crise dos refugiados sírios. Acolhe cerca de 1,1 milhões de refugiados, o que significa que 1 em cada 5 habitantes é um migrante em fuga da guerra. É o Estado que, per capita, mais refugiados alberga. Em termos absolutos, e com base em dados do Alto Comissariado da ONU para os refugiados, só o Paquistão e a Turquia o ultrapassam. Assumindo que Portugal tem 11 milhões de habitantes, teríamos que receber 2.2 milhões de refugiados para enfrentar um desafio (político, económico, humanitário, de segurança) semelhante. Semelhante, não igual. Importa ter presente que o território libanês é aproximadamente um terço da área total do nosso Alentejo.

 

O quadro desenhado por estes números é avassalador e explica bem a atenção dada ao Líbano quando se fala de refugiados sírios. Essa atenção fez soar os alarmes quando, em Setembro de 2015, o Ministro da Educação libanês afirmou que cerca de 2% dos refugiados sírios são terroristas do auto-denominado Estado Islâmico. Não foi o ministro do Interior, o ministro da Defesa, o ministro dos Negócios Estrangeiros, nem tão-pouco o Primeiro-Ministro. Foi o ministro da Educação.  Felizmente, este governante libanês tinha pela frente um jornalista – e não um jornaleiro – que o inquiriu sobre a fonte da qual provinha essa percentagem. O ministro foi honesto. Poderia ter respondido “não posso revelar”, ou então “fontes seguras”, ou ainda “é uma estimativa preliminar das nossas Forças e Serviços de Segurança”. Mas não. O ministro disse abertamente que os 2% eram um “gut feeling”. Como nunca devemos permitir que os detalhes estraguem uma boa história, estes 2% continuam a circular pela imprensa e pelos blogues com o valor de dado científico. Claro, sempre que há um problema de segurança provocado por um refugiado, os 2% são inflacionados para 100%, mas isso já é tema para outro post. Por agora, importa perguntar se estes 2%, imaginando que são reais, justificam que se lance um anátema sobre os restantes 98%.

 

Não abundam estudos recentes que analisem a relação entre terrorismo e refugiados. Porém, os trabalhos existentes descartam qualquer relação entre estes dois fenómenos. Mais, as estatísticas disponíveis reforçam essa conclusão: os Estados Unidos da América acolheram 784.000 refugiados desde o dia 11 de Setembro de 2011; destes, apenas 3 foram detidos por envolvimento em actividades terroristas. Se formos mais abrangentes e incluirmos todo o tipo de criminalidade, os resultados não diferem muito: na Alemanha, entre 2014 e 2015, os crimes cometidos por refugiados aumentaram 79%, sendo certo que nesse mesmo período o número de refugiados aumentou 440%.

Estes números não explicam a associação, que se vai lendo e ouvindo, entre terrorismo e refugiados. Mas há outros que talvez sim. Um estudo de opinião, realizado pelo Pew Research Center, sugere que a relação entre violência terrorista e vagas de refugiados é produto de preconceitos e de apofenia (percepção de padrões e relações com base em informação aleatória ou inconclusiva).

 

Enfim, nada disto interessa. Como escreveu Peter Pomerantsev na revista Granta, vivemos num mundo pós-facto, onde imperam as “tecno-fantasias” ao alcance de um click, suficientemente diversificadas para validar toda e qualquer convicção pessoal. A realidade, mais do que acessória, é um incómodo. Testemunhos como o de Matilde, sobrinha da nossa Francisca Prieto, serão caridade inocente. Testemunhos como o de Helena Araújo, no Destreza das Dúvidas, serão propaganda. Como será propaganda o caso notável de Mohamed Al Uattar, um médico sírio a exercer no centro de saúde de Estremoz. Trabalhou na Cruz Vermelha, colabora com o INEM e presta assistência na CERCI, o que, segundo os detractores do Islão, será certamente uma estratégia rebuscada do autoproclamado Estado Islâmico para meter Portugal de burqa.

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A guerra irrelevante

por Diogo Noivo, em 27.07.16

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Comunicado no qual o auto-denominado Estado Islâmico assume a autoria do atentado na Normandia – imagem SITE intelligence group

 

A barbárie terrorista voltou a atacar França, desta vez numa igreja na Normandia. O acto vil e sanguinário foi reivindicado pelo autoproclamado Estado Islâmico (EI), que em comunicado louvou os “soldados” responsáveis pelo atentado. Para o EI, estes terroristas não eram súbditos de Alá, não eram insurgentes, nem mártires. Ou talvez fossem tudo isto, mas eram sobretudo soldados.

Esta linguagem é, entre outros factores, um dos aspectos essenciais para demonstrar o quão errado é enquadrar o combate ao terrorismo nos moldes de uma guerra. Podemos combatê-lo com a alma e a determinação de guerreiros, mas falar em “guerra contra o terrorismo” não só é irrelevante do ponto de vista operacional, como oferece legitimação política às organizações que pretendemos eliminar. Hoje, como no passado, o terrorismo é um crime que pretende içar-se a um patamar de igualdade política com os Estados. Não lhe façamos esse favor.

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Mais um atentado.

por Luís Menezes Leitão, em 26.07.16

Hoje foi mais um atentado, agora em Rouen, em relação a um padre que rezava a missa, e que foi degolado por assaltantes pertencentes ao Estado Islâmico, em frente aos seus fiéis. Um acto de barbárie e ódio só comparável aos tempos do nazismo. Mas pelos vistos na Europa vai tudo continuar em estado de negação. Até quando os dirigentes europeus persistirão em ignorar que a Europa vive uma verdadeira guerra religiosa, declarada por fanáticos, que não hesitarão em combater até á morte contra os valores europeus? Ontem as pessoas em França tinham medo de ir a espectáculos públicos. Hoje passaram a ter medo de entrar numa igreja. Lentamente o Estado Islâmico vai destruindo a Europa, perante a complacência dos governantes europeus.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 25.07.16

«Algumas estrelas do comentário padecem de curto-circuito neuronal. Só isso pode explicar as reacções estapafúrdias aos acontecimentos de Munique: primeiro, quando se imaginava que se tratava de uma réplica de Paris ou Nice, pedindo ao público para não cair na ‘esparrela da islamofobia’; depois, vislumbrando na identidade alemã do assassino uma filiação (que não se comprovou) de extrema–direita, dando largas à homilia do costume sobre o perigo do liberalismo. Não passa por nenhuma dessas pobres cabeças que a reacção contra o terrorismo só pode ser a condenação.

Tal como o nazismo e o comunismo exigiam uma dimensão global para os seus territórios, também o islamismo reivindica todo o planisfério como raio de acção. Ainda não havia identidade do maluquinho de Munique, já o Estado Islâmico matava 80 no Afeganistão e deixava assinatura. Mas o Afeganistão é longe, pensam os mesmos que escreveram que não se podem condenar Boko Haram com argumentos ocidentais, para não ‘diabolizar’ África. O mundo está perigoso, mas os neurónios do relativismo já eram perigosos há muito.»

Francisco José Viegas, no Correio da Manhã

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Os que "compreendem" o terror

por Pedro Correia, em 22.07.16

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Um brutal morticínio em Nice, há oito dias, provocou 84 mortos e 330 feridos. Hoje é Munique que está em estado de choque: um novo atentado terrorista, desta vez num centro comercial, terá causado dezena e meia de vítimas mortais. O estado de emergência foi decretado na capital da Baviera, a rede de transportes públicos está suspensa e a chanceler Angela Merkel convocou uma reunião extraordinária do Governo alemão.

Vivemos dias e noites de pesadelo um pouco por toda a Europa. O espectro do terror já se instalou no quotidiano do continente. O nosso modo de vida alterou-se - e assim permanecerá por muito tempo.

Nenhum país está imune a ele.  

 

Nem a França, que se opôs tenazmente à invasão do Iraque em 2003, nem a Alemanha, que tem estado na primeira linha do auxílio humanitário aos refugiados sírios e nunca enviou forças militares para o Médio Oriente. O que basta para desmentir qualquer alegação política para os actos criminosos e contraria certos Savonarolas sempre prontos a exigir a expiação dos pecados do Ocidente enquanto supostos porta-vozes da boa consciência europeia.

Savonarolas como Boaventura Sousa Santos, que enquanto estávamos todos ainda sob o efeito do choque provocado pelas rajadas homicidas no Charlie Hebdo escrevia estas inacreditáveis linhas no Público: "A extrema agressividade do Ocidente tem causado a morte de muitos milhares de civis inocentes (quase todos muçulmanos) e tem sujeitado a níveis de tortura de uma violência inacreditável jovens muçulmanos contra os quais as suspeitas são meramente especulativas, como consta do recente relatório presente ao Congresso norte-americano. É sabido que muitos jovens islâmicos radicais declaram que a sua radicalização nasceu da revolta contra tanta violência impune."

Savonarolas como Pablo Iglesias, que horas após a tragédia de Nice justificava com frios argumentos políticos o brutal assassínio que indignou o mundo: "O que alimenta o Daeh é a situação catastrófica no Iraque e a guerra na Síria. A Europa nem sempre actuou com sensatez nem com sentido estratégico nestes conflitos, que de algum modo constituem o combustível que alimenta o Estado Islâmico."

 

A história da "destruição do Iraque", sempre invocada quando há atentados terroristas na Europa, equivale a dizer que as vítimas inocentes destes atentados "estavam mesmo a pedi-las".

Equivale também a considerar vítimas os assassinos. Porque estarão apenas a vingar o que os desprezíveis dirigentes ocidentais fizeram ao Iraque.

Essa é a lógica hitleriana do olho por olho, dente por dente. Hitler conquistou metade da Europa, espezinhando-a e escravizando-a, para vingar as humilhações sofridas pela Alemanha no Tratado de Versalhes. Alegava ele. E muitos concordaram.

 

Quando estabelecemos uma espécie de equivalência moral entre carrascos e vítimas os nossos padrões éticos invertem-se. Se este princípio do "olho por olho" fosse válido na comunidade internacional, os japoneses deviam lançar bombas nucleares em duas cidades americanas e o Estado de Israel devia executar seis milhões de alemães em câmaras de gás.

Os Savonarolas estariam na primeira fila a compreender e caucionar tais gestos.

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As jihads

por Diogo Noivo, em 20.07.16

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Assistimos quase diariamente a indivíduos que se dizem muçulmanos evocar conceitos e práticas do Islão para cometer ou justificar atrocidades indizíveis. Esta atitude, para além de merecer um repúdio sem paliativos, deve convidar-nos a um esforço de escrutínio pois só compreendendo a ameaça poderemos encontrar formas para a eliminar. Vejamos os exemplos da jihad e do suicídio, práticas que o terrorismo contemporâneo colocou sob o foco da atenção mediática – e que, curiosamente, tanto os terroristas como os detractores do Islão vêem como dogmas religiosos.

 

Ao contrário da convicção comum, a palavra jihad é pré-islâmica. No idioma árabe moderno, esta palavra abrange um amplo espectro semântico, que vai da «luta de classes» ao conflito clássico entre o que é novo e o que é antigo. No Corão e nas demais fontes religiosas, a jihad assume duas formas: a jihad maior (jihad al-akbar) e a jihad menor (jihad al-ashgar). A jihad maior consiste no esforço reflexão e auto-crítica que qualquer crente deve empreender com vista a tornar-se um melhor muçulmano. Por sua vez, na jihad menor cabe a conversão dos não-crentes – o esforço de proselitismo comum à generalidade das religiões – e a defesa da comunidade muçulmana face a uma agressão externa. A importância de cada uma destas duas facetas da jihad, bem como a maneira como foram interpretadas, variou enormemente ao longo da História em função do contexto político vivido e consoante a região em causa. Assim, aquilo que os extremos (islâmicos e anti-islâmicos) dizem ser um dogma indeclinável é na verdade um conceito heterodoxo bastante sensível à vida social e política em cada momento.

 

Tal como a jihad, o suicídio está longe de ser consensual na doutrina e na jurisprudência islâmica. O historiador Bernard Lewis afirma não existir qualquer fundamento doutrinário ou legal no Islão que valide os autores morais e materiais dos atentados de 11 de Setembro de 2001, nos Estados Unidos da América. A opinião de Lewis é especialmente interessante pois, para além de ser um dos mais conceituados estudiosos do mundo islâmico (e, na minha modesta opinião, um dos melhores), foi ele quem cunhou a ideia de «choque das civilizações», mais tarde desenvolvida e popularizada por Samuel Huntington. Lewis, que confere à História e à tradição um peso substancial na observação do mundo árabe, e por isso é frequentemente acusado de ser partidário da "excepção árabe"*, demonstra que, de acordo com os cânones do Islão, a violência contra mulheres e crianças é expressamente proibida. Por outro lado, refere Lewis, o suicídio é um pecado punido com a condenação eterna do pecador à repetição incessante do seu acto. Assim, e sendo muito resumido, de acordo com Bernard Lewis este e outros atentados, para além de crimes hediondos, são também actos de blasfémia do ponto de vista islâmico, já que os suicídios e a violência são perpetrados em nome de Alá.

 

As evocações religiosas apresentadas por jihadistas para legitimar o terror em nome de Alá têm objectivos essencialmente políticos e resultam de uma leitura deturpada e sectária do Islão (motivada por ignorância ou por oportunismo), o que faz desta religião uma espécie de teste de Rorschach: a interpretação diz-nos mais sobre o intérprete do que propriamente sobre aquilo que é interpretado.

 

 * Por vezes designada “casulo árabe” ou “maleita árabe”. Segundo esta linha de argumentação, os antecedentes históricos do povo árabe e a herança doutrinária do Islão impedem o aparecimento de formas de governo democráticas. Por outras palavras, há um atavismo no espaço geo-linguístico composto pelo Norte de África e pelo Médio Oriente que é contrário às liberdades individuais e à participação política dos cidadãos.

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Nada está garantido

por Pedro Correia, em 15.07.16

Ontem à noite, enquanto acompanhava as chocantes notícias da chacina em Nice - que provocou já 84 mortos, incluindo dez crianças, e 202 feridos, 52 dos quais em estado crítico -, ia-me interrogando sobre até quando iremos assistir impávidos a estes contínuos actos de terror. E lembrei as palavras sofridas de Albert Camus reagindo em 1957 ao terrorismo "nacionalista" na Argélia, que matava inocentes em nome da justiça anticolonial. Questionava-se ele (e cito de cor): "Neste momento, em Argel, explode um autocarro. A minha mãe pode ir nesse autocarro. Se isto é justiça, ponho a minha mãe à frente da justiça."
Milhares de vozes, por essa Europa fora, ecoarão esta ideia nas semanas mais próximas, nos meses mais próximos, nos anos mais próximos. Em crescendo, sempre em crescendo. Escrevo estas linhas enquanto se anuncia um golpe de Estado na Turquia - algo inimaginável às portas da Europa, em pleno século XXI, ainda bem há pouco tempo. Tanto quanto me recordo, o anterior golpe militar em Ancara ocorrera em 1980.
Os optimistas antropológicos que concebem a cronologia histórica como uma sucessão de avanços inabaláveis sofrem de acentuada miopia. Se algo a História nos ensina é isto: nunca há conquistas inteiramente adquiridas. Nem precisamos de recuar mais longe do que o sangrento século XX para aprendermos esta elementar lição.

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Guerra contra o terrorismo

por Diogo Noivo, em 15.07.16

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O terrorismo é, por definição, uma táctica. No entanto, quando aplicado de forma exclusiva e reiterada, como sucede no caso do jihadismo, a literatura especializada é consensual na validação da natureza estratégica do terror. Seja táctica ou estratégia, a verdade é que o terrorismo não tem ideias próprias, isto é, serve diferentes agendas e propósitos que apenas dependem de quem a ele recorre. Da construção de sociedades marxistas, passando pela independência de Estados, até a criação de um califado global, o terrorismo serviu várias causas, todas elas políticas. Assim sendo, e sem sair da esfera conceptual, a declaração de guerra ao terrorismo é um empreendimento oco. Por um lado, as tácticas e as estratégias têm uma longevidade centenária, sobrevivendo sempre a quem as usa, e o terrorismo é disso um exemplo. Por outro lado, mais do que combater o terrorismo, o que se pretende é o combate às ideias e aos objectivos daqueles que recorrem ao terror. Abreviando, da mesma forma que é absurdo declarar guerra à guerrilha ou aos assassinatos selectivos, não faz sentido declarar guerra ao terrorismo.

 

Porém, a segurança de pessoas e bens requer pragmatismo e respostas firmes. Face à ameaça comummente designada como jihadismo, algo tem que ser feito. A barbárie inenarrável provocada pelo terror exige contundência. Em grande medida, é este o argumento do nosso Luís Menezes Leitão e de tantos outros que, de forma justa e compreensível, exigem o fim da ameaça. É compreensível, mas está por demonstrar que seja eficaz.

 

Se seleccionarmos uma amostra cronológica ampla, que vá por exemplo do Irgun (1931-1948, considerada a primeira organização terrorista moderna) até aos dias de hoje, veremos que são raríssimos os grupos terroristas que se identificam como tal. Na sua maioria, apresentam-se como soldados/guerrilheiros ao serviço de uma causa e de um povo. Quando um Estado declara guerra a uma organização terrorista está implicitamente (e admito que inadvertidamente) a outorgar-lhe o estatuto de inimigo legítimo. Por outras palavras, o Estado concede à organização terrorista aquilo que ela mais procura: legitimação por parte do Estado/s visado/s. O combate a organizações terroristas é – ou dever ser – sobretudo político. É perfeitamente possível empregar Forças Armadas e meios militares no combate à ameaça, sem com isso oferecer reconhecimento político ao inimigo.  

 

No momento actual, e tendo o autoproclamado Estado Islâmico (EI) como objecto de análise, a dimensão política reveste-se de uma importância capital. Ao longo dos últimos meses, o EI tem perdido o controlo de parcelas de território muito significativas e os problemas financeiros da organização são cada vez mais notórios. Como sempre ocorreu com todas as organizações terroristas modernas, é nos momentos de maior fragilidade que as campanhas de terror são intensificadas. As vagas de atentados e a acumulação de cadáveres na rua são um instrumento poderoso para contrariar a imagem pública de declínio.  Não se trata de uma estratégia nova. A título de exemplo, já em 1998 um dos mais conceituados analistas do fenómeno terrorista assinalava esta tendência. Hoje, os atentados aos quais infelizmente assistimos resumem-se a isto. Aliás, a Europol, nos relatórios TE-SAT, justifica a elevada probabilidade de atentados terroristas na Europa precisamente com a fragilidade territorial e financeira do EI.

 

Ainda que possamos deitar mão aos mais temíveis e poderosos instrumentos de guerra para combater a ameaça terrorista, convém que no plano político este esforço continue a ser enquadrado como um combate a uma forma de criminalidade. Uma forma nefasta e especialmente gravosa, mas ainda assim criminalidade.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 15.07.16

«Não será possível manter os padrões actuais de liberdade, tolerância e pluralismo numa sociedade sacudida por matanças regulares de cidadãos. Um dia, esse será o problema que a maior parte dos cidadãos quererá ver tratado, e não a arqueologia da guerra do Iraque ou os confortos devidos aos imigrantes. Um dia, o público ocidental esperará que a polícia tudo faça, incluindo o que agora é inaceitável, para limitar os riscos, de modo que nunca mais se saiba que um terrorista era, afinal, conhecido das autoridades, que nada fizeram ou puderam fazer.»

Rui Ramos, no Observador

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Alerta de terrorismo: mais um lobo solitário

por Diogo Noivo, em 22.06.16

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Para J.B., o Ocidente é um alvo a abater. Trata-se de um mundo de hedonismo, divorciado dos valores que estruturam as sociedades puras e justas. O Ocidente está confortavelmente deitado nos braços da promiscuidade sexual e do consumo rápido, fácil e acrítico, um espaço onde a indecência vagueia com um à vontade mefistofélico. Perante tamanha ignomínia, o exercício de crítica é timorato e confunde-se com complacência. A J.B. não lhe restava outro caminho que não fosse a mais elevada forma de sacrifício: oferecer-se como mártir, levando consigo o maior número possível de vidas imorais. Contudo, foi detido a tempo pela polícia belga. Quando analisaram o engenho explosivo que levava à cintura, os elementos policiais depararam-se com um novo e grotesco instrumento de terror: sal e bolachas. Sim, leu bem. Este jihadista pretendia rebentar o mundo que odeia usando sal e bolachas. A candura idiota deste indivíduo transporta uma carga cómica capaz de ressuscitar os grandes nomes do humor, de Benny Hill a Badaró.

 

A informação disponível é escassa, mas tudo indica que J.B. contactou as autoridades locais no início do mês afirmando ter contactos com organizações terroristas que o incentivavam a juntar-se às fileiras jihadistas na Síria. Mas nenhuma se perfilou para reivindicar esta admirável tentativa de atentado. Faltou o módico de competência que infelizmente não faltou ao alienado responsável pela matança em Orlando. É a rotina habitual na maioria dos casos de lobos solitários: indivíduos com sérios distúrbios mentais cometem actos de violência em nome de um terrorismo que não entendem e com o qual não têm qualquer relação. Se há um mínimo de mestria, há uma longa lista de organizações a reivindicar a barbárie. Caso contrário, o demente fica a falar sozinho.

 

O mais curioso nestes casos é que os detractores do Islão obedecem ao mesmo padrão de comportamento. Se há um mínimo olímpico de competência no atentado, mesmo que estejamos perante de um caso óbvio de psicopatia, são rápidos a rotular o Islão como uma fé de violência, de intransigência, de sectarismo. Os factos são acessórios para a defesa do seu argumento. No entanto, quando a inépcia do terrorista roça o absurdo, os militantes anti-Islão disfarçam a sua indignação, sendo incapazes de reconhecer que aquilo que é comummente designado como jihadismo pouco tem que ver com Islão e encerra realidades muito diferentes que não se prestam a leituras imediatistas.

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Lobos Solitários e Aves Raras

por Diogo Noivo, em 15.06.16

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Omar Marteen, terrorista responsável pelo recente atentado em Orlando, nos Estados Unidos da América

 

À primeira vista, o terrorismo dos lobos solitários parece ser um inimigo formidável. Se o criminoso não pertence a qualquer organização, se age única e exclusivamente por conta própria, então é praticamente impossível às Forças e Serviços de Segurança identificar os sinais de alerta que permitem antecipar e impedir atentados.

 

Este quadro faz os encantos dos profissionais do “especialismo em terrorismo” que povoam o espaço mediático (e algumas universidades). Para estes “analistas”, cuja condição de “especialista” vive da existência e, sobretudo, da complexidade da ameaça, os lobos solitários oferecem uma passagem com destino à ribalta. Espontâneos nas suas motivações e na decisão de actuar, os lobos solitários são uma ameaça invisível até ao momento em que é demasiado tarde e, por isso, garantem ao “especialismo” horas nos plateaux de televisão, umas quantas páginas nos jornais e, com sorte, um convite para integrar um grupo de trabalho sob a égide de Sua Excelência o Ministro de-qualquer-coisa. Como não podia deixar de ser, este terrorismo voluntarista é para os “analistas” uma prova da omnipresença e, consequentemente, do êxito jihadista.

 

A realidade, como quase sempre, é mais ponderada e faz o favor de não complicar muito as coisas. Nunca se refere que a matilha de lobos solitários conta com um importante contingente de perturbações mentais e de inépcia. Aliás, parece haver por parte destes indivíduos uma obsessão pelo absurdo que, não fosse a barbárie dos actos cometidos, seria motivo de escárnio.

 

Veja-se, por exemplo, o caso do jovem Mohammad Taheri-Azar que, em nome de Alá, decidiu usar o carro para atropelar o maior número possível de colegas na Universidade de North Carolina. Em carta escrita na prisão, Taheri-Azar admitiu que preferia ter-se alistado nas fileiras de mujahideen a combater no Afeganistão e no Iraque, mas foi dissuadido pelas dificuldades em obter os vistos necessários. Admitiu igualmente que preferia ter usado uma arma de fogo na universidade, mas foi demovido pelo calvário burocrático necessário à aquisição de uma Glock. Como ironizou Charles Kurzman, Taheri-Azar terá sido o primeiro terrorista na História a ser dissuadido por políticas de controlo de armamento. Numa palavra, vaudeville.

 

O autor do atentado em Orlando parece encaixar no perfil de demência. Disse à polícia ser membro do Estado Islâmico, mas também de outras organizações terroristas, como o Hizbullah ou o al-Qaeda que, por mero acaso, são inimigos declarados do ISIS. Afirmou odiar homossexuais, embora fosse frequentador do bar gay onde levou a cabo a matança. Segundo testemunhas, Omar Mateen era um habitué do  bar em apreço, onde procurava companhia masculina, para além de ser utilizador de chats dedicados a encontros homossexuais. Em suma, se não fosse pela carnificina produzida, o autor dos atentados de Orlando não passaria de um imbecil com perturbações evidentes.

 

Aliás, verifica-se um fenómeno curioso na sequência deste tipo de atentados: se há um módico de competência – na óptica do terrorista, claro está – perfilam-se de imediato uma miríade de organizações a reivindicar o atentado; se, pelo contrário, a acção é trôpega, ninguém vem a terreiro. Com base na informação disponível, Barack Obama tem razão.

 

Se os lobos solitários nada têm que ver com organizações jihadistas e dado que a maioria demonstra um desconhecimento confrangedor sobre a causa pela qual afirmam lutar, é evidente que qualquer ligação entre isto e Islão é abusiva. A ameaça terrorista é real e deve merecer a maior atenção. Por isso mesmo é fundamental que saibamos indentificar os alvos. 

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Obama e o atentado de Orlando

por José António Abreu, em 14.06.16

A resposta timorata de Barack Obama ao atentado terrorista de Orlando, evitando relacioná-lo com o Islamismo radical e parecendo atribui-lo exclusivamente à perturbação de uma única pessoa, parece demonstrar que ele ainda não entendeu ser componente essencial do modus operandi do Daesh no Ocidente (e em particular nos Estados Unidos, geograficamente distante dos países onde tem presença militar) o uso de indivíduos perturbados a cujas vidas confere sentido. Ainda que tal não seja verdade e os cuidados de linguagem procurem apenas - por razões tácticas e/ou de convicção - evitar a ideia de que existe uma guerra de civilizações, há momentos em que, não apenas por respeito às vítimas e aos seus familiares, mas também por necessidade de garantir aos cidadãos que se está consciente do grau e das características da ameaça, a ambiguidade é um erro. Estranhamente, Hollande percebeu-o. Obama, não. Donald Trump já está a capitalizar.

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 10.04.16

«Acho abusivo justificar o terrorismo apenas com a invasão do Iraque, que aliás, em 2010, estava em vias de pacificação.
Mas em relação aos "jovens perdidos na vida e nos subúrbios", por que raio é que isso tem de levar ao terrorismo jiadista? Também houve milhares de portugueses em bidonvilles, também há centenas de milhares de oriundos da Indochina nos subúrbios de Paris, e no entanto não consta que andem a queimar centenas de carros ou a entrar em redes extremistas.

Os subúrbios não serão grande coisa, mas se uns são de fugir, outros são relativamente normais e só se degradaram precisamente graças ao vandalismo desses "jovens". E estamos a falar de países onde o estado social atinge a sua mais alta dimensão, portanto não me venham falar de abandono por parte das entidades públicas. Seria melhor se os seus pais tivessem ficado por Argel, Bamako ou Conakry?

Mais uma vez surge a culpa de "nós, ocidentais". E porque não metem "eles" a mão na consciência e esperam que os outros resolvam todos os seus problemas?»

 

Do nosso leitor João Pedro. A propósito deste meu texto.

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Terrorismo

por Pedro Correia, em 05.04.16

O primeiro passo para perdermos a guerra contra o terrorismo é tratarmos os assassinos como vítimas.

Um assassino não é uma vítima. Um assassino é um assassino.

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Repugnante

por Pedro Correia, em 01.04.16

Tão certo como as andorinhas regressarem pela Primavera, quando ocorre mais um atentado terrorista na Europa, é haver de imediato quem mencione a invasão do Iraque como leitmotiv ou invoque putativas motivações ideológicas dos homicidas para lá da pura lógica do terror ou culpe o enquadramento social como potenciador dos sentimentos de "revolta". Acontece invariavelmente: nunca falta alguém a "compreender" e até a desculpar os autores dos morticínios.
É a mesma lógica que levava os nazis a justificar todas as atrocidades em nome das "humilhações" impostas à Alemanha pelas potências vencedoras da I Guerra Mundial - o que levou muito boa gente, na altura, a "compreendê-los".

 

Exemplos? No próprio dia 22, logo após os atentados de Bruxelas que já provocaram 35 vítimas mortais, houve nas caixas de comentários do DELITO quem raciocinasse assim.

"Os loucos estão cá dentro e bem organizados. Antes de tudo deveriam aqueles que destruíram o Iraque, pedirem desculpas a eles e ao mundo, pelo erro que cometeram e a partir daí conversarem", escreveu um leitor comentando este texto do Luís Menezes Leitão. "Não me parece que nos queiram impor valores ou religião. Os factos revelam-nos o contrário. Nós é que invadimos, destruímos e matamos para alegadamente impor a nossa democracia e outros valores", escreveu outro, comentando este texto do João André.

Mais um (ou seria o mesmo?), no dia seguinte, anotou isto, comentando um texto meu: "Por que razão até hoje os senhores que destruíram o Iraque ainda não tiveram a hombridade de pedir perdão àqueles a quem tiraram o chão? Pois é, é isto que todos esquecem, mas eles não esqueceram e têm bem presente os desvarios dos ocidentais."

 

Nada mais repugnante do que este simulacro de equivalência moral entre assassinos e assassinados perante crimes concretos, esta insensibilidade face às vítimas concretas, quando o sangue ainda mal acabou de secar.

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Contra os terroristas, informar, informar(-nos)

por João André, em 27.03.16

Trabalho em na Bélgica, e vivo na Holanda. Isso significa que todos os dias atravesso a fronteira. Depois dos atentados da semana passada, comecei a ver que para entrar na Holanda havia engarrafamentos de 10 km a provocar attrasos de uma hora. Consequência dos controlos fronteiriços impostos pelas autoridades holandesas. Ao mesmo tempo as estações de Maastricht e Leuven estiveram fechadas por causa de embalagens abandonadas (talvez tenha havido outros casos nos dois países, mas estes conheço melhor). Também me chegou aos ouvidos que uma auto-estrada belga foi encerrada temporariamente porque estaria uma embalagem à beira da estrada.

 

Casa roubada, trancas à porta. É a natureza humana. Depois dos atentados, mesmo sendo inútil, tomam-se medidas excepcionais para tentar evitar que se repitam. Não adianta muito, claro. Os bombistas eram suicidas - não deixaram embalagens abandonadas, e eu nunca me atrasei porque o Google Maps me deu alternativas onde não existiam engarrafamentos - logo, sem controlos fronteiriços. Isso não impede que se tente, até porque é necessário para tentar transmitir a imagem de se estar a fazer qualquer coisa.

 

Por isso não concordo com uma linha que seja do Luís neste post. A polícia belga está a usar imensos recursos nas suas buscas por possíveis cúmplices dos terroristas. Está simultaneamente a procurar outras possíveis células. Não tem neste momento condições para deslocar forças que protejam os muitos milhares que certamente surgiriam numa manifestação permitida. Com os mil que surgiram já houve problemas. Imaginemos com uns 20, 30 ou 100 mil. Além disso há a simples questão de bom senso: se a polícia tem informações que ainda existirão terroristas não identificados, activos e livres, uma tal manifestação seria o mesmo que abrir um camião de mel numa zona de ursos.

 

Já quanto à referência a Alberto Gonçalves, fiquei de início de pé atrás. Confesso que não gosto de o ler. Normalmente prefiro as cartas da Maya, uma literatura infinitamente mais inteligente. Decidi dar o benefício da dúvida e agora, depois de dois lexotans, posso concluir que é o monte de esterco habitual. Desde a imbecilidade inicial sobre "terrorismo islâmico" ser um pleonasmo até ao facto de não perceber absolutamente nada sobre o que, por exemplo, serão medidas que recaem sobre a população afectada (mostrar solidariedade, o elogio pontual do trabalho das autoridades, etc) e aquilo que poderão ser medidas de combate aos terroristas. Alberto Gonçalves, o burro idiota (estes sim, pleonasmos), não percebe aquilo sobre que escreve (sic) e ainda aproveita para demonstrar a sua intolerância. Volto assim à minha dieta e não o lerei nos próximos anos, a bem da minha saúde mental.

 

Há por fim um aspecto que é essencial entender: há sempre razões para os terroristas decidirem um dia enfiar um cinto de explosivos e matarem tanta gente quanto possível enquanto se suicidam. Não é por serem muçulmanos, não é por serem árabes, não é por serem loucos e criminosos, não é por serem - nem que por uns momentos - absolutamente desumanos. É por isto tudo e por muito mais. No penúltimo parágrafo, Alberto Gonçalves parece ter um momento de lucidez (terá o editor escrito isso?) e contradiz tudo aquilo que escreveu atrás. Os terroristas são-no por diversas razões, incluindo o local onde cresceram, as mensagens a que foram expostos, a percepção dos eventos que vão tendo, etc. Ignorá-lo e ignorar as vozes que o apontam - mesmo que apontem a sua razão como sendo "a única" - é perpetuar o problema.

 

Não sei resolver a questão. Se o soubesse posso garantir que o escreveria aqui para que pudesse ser devidamente ignorado. Sei no entanto que as razões para esta explosão se encontram no nosso presente e no nosso passado. Encontram-se nos cruzados de há mil anos e nos modernos (ou pelo menos percebidos como tal) que estupidamente ignoraram o xadrez geopolítico da região. Estão na pobreza de quem sofre todos os dias e na riqueza de quem lhes dá os meios para se irem explodir. Estão em muitos mais pontos que muita gente bastante mais informada e inteligente que eu já apontou. Mas não estão nem no post do Luís nem no artigo de AG (à excepção do momento out of body do parágrafo atrás).

 

Há muito que se sabe que informação é necessária para vencer guerras. Muita gente julga que bastam bombas ou um estado policial. Enquanto estes últimos dominarem, a guerra continuará a ser vencida pelos terroristas.

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Um tributo merecido

por Diogo Noivo, em 23.03.16

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Pobreza gera terrorismo. Sempre que somos abalroados por actos de uma brutalidade indizível como os de ontem, há sempre alguém que levanta o braço para dizer que este tipo de violência tem as suas raízes na precariedade, nas desigualdades e, em geral, na pobreza. Desta vez, foi Miguel Tiago, deputado do PCP, a assumir a causa, designando pobreza sob a forma de “política de direita”. O post entretanto foi apagado, o que demoveu o Sérgio de o comentar. Ainda assim, e dado o assunto, acho que se justificam dois ou três apontamentos.

 

Embora recorrente, o argumento que associa pobreza a terrorismo carece de fundamento. Aliás, nunca teve qualquer sustentação. A literatura que aborda o referido lugar-comum é vasta (veja-se, a título de exemplo, estas páginas, estas ou ainda estas) e, como tal, é difícil resumi-la aqui. No entanto, repare-se que os ideólogos e os líderes do jihadismo – Hassan al-Banna, Osama Bin-Laden, Ayman al-Zawahiri, entre outros – são, em regra, oriundos da classe média-alta ou mesmo dos sectores mais privilegiados das sociedades que os viram crescer. Note-se igualmente que muitos dos que executam atentados, por vezes estando até disponíveis para abdicar da própria vida – Mohammed Atta (célula do 11 de Setembro), Umar Farouk Abdulmutallab (underwear bomber), entre outros –, pertencem a estratos socioeconómicos não muito diferentes daqueles que os lideram. Isto para não abordar o óbvio: se existisse um vínculo de causalidade entre terrorismo e miséria, países como o Congo, a África do Sul, Cuba ou a Venezuela seriam viveiros de actividade jihadista. E, para não deixar pontas soltas, se quisermos olhar para o fenómeno através de uma amostra cronológica mais ampla, veremos que organizações terroristas como o Baader Meinhof, a ETA ou as Brigate Rosse tornam ainda mais difícil estabelecer uma ligação entre violência e pobreza (embora a ligação entre extrema-esquerda e terrorismo se torne mais fácil). Abreviando, não há relação entre terrorismo e pobreza.

 

Mas este argumento gasto, para além de infundado, é ainda insultuoso. Dele resulta que em todo o pobre há um terrorista em potência. Talvez alguém tenha explicado isto a Miguel Tiago e, por essa razão, o post tenha desaparecido.

 

Em Teoria Geral da Estupidez Humana, Vítor J. Rodrigues diz-nos que, nos dias de hoje, a estupidez consiste numa resistência estóica à inteligência. Dada a enorme difusão de conhecimento, e a facilidade em aceder a esse conhecimento, a estupidez é produto de um esforço notório. Escreve Vítor J. Rodrigues que “a exuberância dos fenómenos estupidológicos, a sua extrema variedade, a riqueza das suas realizações ou a elegância dos seus refinamentos [esta última parte, evidentemente, não se aplica a Miguel Tiago], tudo nos faz encontrar na estupidez mais, muito mais do que uma vacuidade, uma ausência de inteligência”. Por esta razão, e apenas por esta razão, importa prestar algum tributo a Miguel Tiago.

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Evaporou-se?

por Sérgio de Almeida Correia, em 23.03.16

Logo agora que eu me preparava para entender o "contexto" e comentar, o post desapareceu. Assim não vale, é batota.

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 23.03.16

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A chacina que ontem enlutou Bruxelas, numa nova série de atentados meticulosamente preparados por extremistas islâmicos que provocaram pelo menos 31 mortos e 250 feridos, força-nos desde logo a emitir uma palavra de pesar pelas vítimas. Pessoas inocentes que estavam no local errado à hora errada.

Podia ser eu, que escrevo estas linhas.

Podia ser qualquer de vós.

 

No entanto, como o João e o Diogo já sublinharam, por maior que seja o nosso pesar há que resistir à tentação de apelar desde já ao reforço das medidas securitárias, destinadas a transformar o continente europeu numa ilha-fortaleza.

É evidente que a segurança não pode ser menosprezada. Isto implica combater alguns tabus, nomeadamente o menosprezo que a esquerda radical no seu vozear demagógico dedica aos serviços de informações, vitais para prevenir atentados terroristas em larga escala.

Mas o combate ao terrorismo não pode servir de pretexto para novas restrições às liberdades que custaram tanto a erguer nesta Europa durante séculos dilacerada por massacres e guerras.

 

A troca de parcelas destas liberdades pela segurança total - sempre ilusória, sempre inalcançável - constitui um falso dilema. Porque a segurança, tal como a concebemos nas democracias liberais, é inseparavel da liberdade.

Um mundo cada vez menos livre é também um mundo cada vez mais inseguro.

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A defesa da normalidade

por Diogo Noivo, em 22.03.16

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A morte chegou entre as 7h37 e as 7h41 da manhã. Em plena hora de ponta, os assassinos detonaram 10 dos 13 engenhos explosivos colocados em 12 carruagens de 4 comboios. Há avaliações que estimam o custo mínimo directo dos danos produzidos em cerca de €211 milhões. Porém, nada foi mais impressionante do que o estrago contabilizado em sangue: 191 mortos e mais de 1800 feridos. Na sua maioria, as vítimas cumpriam a rotina de entrar na cidade para ir trabalhar. Refiro-me evidentemente aos atentados de 11 de Março de 2004, em Madrid, cujo 12º aniversário se assinalou este mês. Creio ser ainda o atentado mais devastador ocorrido na Europa Ocidental – superado em vítimas mortais apenas pelo atentado de Lockerbie, em Dezembro de 1988, com 270 mortos.


Choraram-se os mortos, cuidaram-se os feridos, apoiou-se o luto das famílias e até foram tiradas consequências políticas (se justa ou injustamente é um assunto que, embora interessante, pouco importa agora). Não houve marchas onde Chefes de Estado e de Governo se atropelaram para aparecer na fotografia. Não houve tão pouco movimentos e ondas de indignação do tipo Je Suis. Sobretudo, não houve estados de excepção de razoabilidade dúbia, não houve cessação de liberdades fundamentais, nem derivas legislativas securitárias. Habituada à chaga terrorista, Espanha combateu a barbárie sendo irredutível na defesa da normalidade democrática.


Como escrevi em tempos aqui no DELITO, é objectivo declarado de todas as organizações terroristas forçar o Estado a abdicar da sua superioridade política e moral. Por outras palavras, um dos propósitos da acção terrorista é o de obrigar o Estado visado a prescindir dos valores e procedimentos nos quais se funda e, dessa forma, faze-lo descer ao nível de quem comete actos terroristas. Se a ameaça terrorista constitui um perigo que não pode ser desvalorizado, também a forma como as sociedades e os Estados democráticos respondem à ameaça representa um desafio que não se deve prestar a ligeirezas nem a bravatas.

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Uma posição pessoal contra a deriva populista

por João André, em 22.03.16

Hoje de manhã, a caminho do trabalho, vi um carro da polícia a seguir em direcção a Bruxelas. Vinha a ouvir música e não ouvi notícias. Soube depois pelos meus colegas dos ataques. Telefonei de imediato a uma pessoa que é quase família e que trabalha no Parlamento Europeu. Tinha estado na estação de metro apenas 20 minutos antes e a filha deveria apanhar o avião mais tarde. Soube por ela que toda a gente estava bem, inclusive os amigos comuns que vivem em Bruxelas.

 

Apesar de ainda viver na Holanda, trabalho na Bélgica e considero mudar-me para Bruxelas em breve. Isto serve apenas para dizer que não estou emocionalmente descomprometido com a situação, que está também a afectar vários dos meus colegas.

 

Espero no entanto que estes ataques não levem os políticos a darem a vitória aos terroristas. Espero que não levem os britânicos a decidirem votar a favor da saída de UE; que não levem a uma viragem isolacionista e anti-asilo na Alemanha; que não empurrem Geert Wilders e outros populistas (xenófobos convictos ou de ocasião) aos governos dos seus países.

 

Espero que isso não aconteça porque sei que quem sofrerá com isso não serão os terroristas, mas antes aqueles que deles fogem e os próprios europeus, que verão as suas liberdades reduzidas e os pilares da sociedade cada vez mais erodidos. Os números de refugiados poderão até diminuir - o que é discutível: continuarão a vir, a morrer no caminho e a entrar, apenas terão mais dificuldades - mas os terroristas, que usam identidades falsas, viajam de avião ou são recrutados nos próprios países alvo, continuarão a agir como até agora.

 

Não tenho soluções para o problema, ao contrário da matilha de comentadores que irão agora ser ouvidos ou lidos em todos os meios de comunicação social. Tenho apenas um desejo, uma ilusão, se quiserem: que quaisquer que sejam as medidas que se irão seguir, as nossas liberdades e os nossos valores sejam mantidos corajosa e estoicamente, porque é nisto que assenta a nossa sociedade. Nesta discussão, que fique claro onde me posiciono.

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Lobos e cordeiros

por Diogo Noivo, em 02.03.16

Assinalam-se na próxima semana os 8 anos da morte de Isaías Carrasco. É normal que o nome não seja familiar. Não era um político célebre nem uma vedeta televisiva. Era tão simplesmente um portageiro espanhol. Em 2009 escrevi sobre ele no Público:

 

Isaías Carrasco foi vereador do PSOE em Mondagrón-Arrasate, um bastião do movimento etarra. Em dado momento, retirou-se da vida política e regressou à sua anterior profissão: portageiro numa via rodoviária basca. Esta actividade profissional impunha-lhe uma vida modesta. Decidiu, uma vez abandonado o cargo público, prescindir da escolta armada a que tinha direito. No dia 7 de Março de 2008, quando saía de casa acompanhado pela mulher e pela filha, foi assassinado a tiro por um comando da ETA.”

 

O assassinato de Isaías Carrasco foi a maneira vil e tirânica encontrada pela ETA de participar nas eleições legislativas que ocorreram naquele ano. Aliás, assassinatos selectivos e engenhos explosivos sempre foram para a organização terrorista ETA procedimentos equivalentes ao que representa o voto para os democratas.

Esta morte foi recordada no debate de investidura de hoje, em Madrid. O secretário-geral do PSOE, Pedro Sánchez, viu-se obrigado a recordar a Pablo Iglesias que os etarras são terroristas e não, como afirmou o líder do Podemos nesse mesmo debate, “presos políticos”. Esta e outras intervenções de Iglesias põem em evidência que a prosápia popular (e populista) do Podemos oculta uma identidade política que não é compatível com os valores e princípios que fundam o Estado de Direito Democrático. Ao contrário do que por vezes se ouve e lê, o facto de um partido aceitar resultados eleitorais não faz dele uma organização com convicções democráticas.

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Je vous salue, Daesh

por Diogo Noivo, em 11.02.16

Quando uma acção de violência gera efeitos psicológicos desproporcionados face aos danos materiais que provoca adquire peculiaridades próprias daquilo que se designa por terrorismo. Este preceito, enunciado por Raymond Aron em Paix et guerre entre la nations, deve ser entendido em conjunto com outro: é objectivo declarado de todas as organizações terroristas forçar o Estado a abdicar da sua superioridade política e moral. Por outras palavras, um dos propósitos da acção terrorista é o de obrigar o Estado visado a prescindir dos valores e procedimentos nos quais se funda e, dessa forma, faze-lo descer ao nível de quem comete actos terroristas. A adopção de medidas restritivas de liberdades individuais, bem como descontinuar princípios estruturantes de um Estado de Direito Democrático, jogam directamente a favor daqueles que, através da violência terrorista, procuram alterar o nosso modo de vida.

O Governo de François Hollande tem dado provas inequívocas de não entender isto e tudo o resto. À imposição de um Estado de Emergência, cuja necessidade ainda está por demonstrar, junta-se agora uma revisão constitucional para retirar a nacionalidade a terroristas. Se o princípio é errado e favorece a propaganda jihadista, torna-se preocupante quando a redacção da norma poderá prestar-se a interpretações extensivas, dando ao governo de turno uma discricionariedade tremenda. Ou seja, Hollande cede à pressão psicológica do terror e pouco a pouco vai abrindo mão da superioridade política e moral do Estado. Tudo o que não se deve fazer.

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A história evidentemente não oferece lições simples e prontas a usar. Mas isto não significa que nada se possa aprender com ela. Um primeiro dado fundamental da história do terrorismo é que este falha a maior parte das vezes. Os peritos em terrorismo dividem-se em muitos aspectos, mas a maioria concorda que boa parte das campanhas terroristas podem ter um forte efeito perturbador e mediático, mas fracassaram no sentido de que não levaram à mudança política pretendida. Pelo contrário, frequentemente legitimaram uma resposta forte à ameaça terrorista, que pode ser mais ameaçadora para as liberdades do que o terrorismo propriamente dito.

Bruno Cardoso Reis no Observador.

 

[NOTA] Porque estamos em Portugal, eis a desgraçada “declaração de interesses”: O Bruno Cardoso Reis colaborou com enorme generosidade num livro sobre segurança do qual sou co-editor. O modesto canhenho teve um parto difícil e trabalhoso, mas espero que em breve esteja nos escaparates.

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A luta pela verdadeira jihad

por Diogo Noivo, em 12.01.16

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Aparentemente, Gaza é o mais recente palco das antigas e recorrentes lutas fratricidas entre jihadistas. Num artigo publicado na New York Review of Books, Sarah Helm relata o conflito entre o Hamas e o auto-denominado Estado Islâmico – ou Daesh, preferência do nosso Pedro Correia –, uma disputa que pode empurrar a região para uma espiral de violência com consequências imprevisíveis.

O desafio não é novo para o Hamas. Em 2009 publiquei um artigo [download] onde, entre outros aspectos, analiso o conflito entre o Hamas e a organização jihadista Jund Ansar Allah (JAA). Numa primeira fase, não apenas por afinidade ideológica, mas também por convergência de interesses, o Hamas contemporizou com vários grupos jihadistas, entre os quais o JAA, um pequeno grupo próximo da al-Qaeda. Quando este último, para além de atacar Israel, pôs em causa a autoridade política e as credenciais islamistas do Hamas, o assunto acabou em banho de sangue. Naquela altura o Hamas saiu vitorioso. Fazendo fé no relato de Sarah Helm, a história repetiu-se na transigência e pode estar prestes a repetir-se no desfecho sangrento. Acontece que o Daesh, ao contrário do JAA, não é uma pequena organização e, por isso, está por saber quem sairá vencedor.

Há, contudo, uma curiosidade que creio valer a pena mencionar. Dá-se a ironia de que o Hamas esteja a ser vítima do seu próprio veneno. Durante anos, sempre que a Fatah/Autoridade Palestiniana iniciava negociações com Tel Aviv, terroristas do Hamas lançavam rockets contra Israel, dinamitando assim qualquer hipótese de diálogo. Agora que o Hamas tem responsabilidades de governo e parece estar disposto a dialogar com Israel, são os grupos pró-Daesh a recorrer à velha táctica bombista do Hamas. A vida na oposição é sempre mais inconsequente.

Ainda que o chamado “islamismo radical” seja frequentemente entendido de maneira indiferenciada, como um todo coerente e homogéneo, a verdade é que existem profundas diferenças entre as várias organizações e movimentos que se inscrevem no espaço do radicalismo de inspiração islâmica. É essa diversidade que explica o habitual arremesso de acusações de apostasia e de conduta herética entre radicais, especialmente entre aqueles que seguem a via terrorista. Deserções, conspirações e cisões são marca identitárias do jihadismo contemporâneo, o que nos deve obrigar a reflectir sobre a tão propalada ideia de uma frente jihadista comum contra o Ocidente. Aqui, como na maior parte das coisas, a realidade insiste em ser mais complexa.

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Não há guerras de sofá

por Rui Herbon, em 05.12.15

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A reacção à matança de Paris foi a intensificação por parte dos Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e Israel dos bombardeamentos sobre o território controlado pelo Daesh. É uma estupidez, porque cada país o faz por sua conta, sem que haja um mínimo de coordenação, o que reduz a eficácia operacional e aumenta a morte de inocentes, viveiro de ressentimentos que os fanáticos tão bem sabem explorar. O Ocidente tem que assumir que estamos em guerra contra forças obscuras que por onde passam semeiam a morte e o ódio com o fim de estabelecer um califado que nos transportaria de volta à Idade Média. A guerra é o fracasso da diplomacia e do diálogo, mas quando se entra num conflito em que o inimigo é difuso ao ponto de viver entre nós, o bombardeamento indiscriminado não é solução. Por que razão os Estados Unidos e a Europa não exercem uma diplomacia musculada sobre países aliados como a Arábia Saudita e o Qatar para que intervenham como actores principais no conflito, denunciem o Estado Islâmico e deixem de financiá-lo directa ou indirectamente? Ou a aliança limita-se à troca de petróleo por armamento?

 

Os bombardeamentos ordenados desde Washington, Moscovo, Paris, Londres e Jerusalém podem ter um custo material elevado, mas não comportam riscos pessoais e, concomitantemente, políticos; antes pelo contrário: a popularidade de Hollande, por exemplo, subiu 22%. Só que esta guerra não se vai ganhar com mais bombardeamentos, mas com mais inteligência e coordenação; e com a participação dos supostos aliados na zona. E com milhares de soldados no terreno. A guerra cómoda não existe.

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Isto não vai ser fácil

por Rui Rocha, em 21.11.15

De um lado, temos um bando de tresloucados que não hesitam em rebentar-se à bomba. Do outro, um exército de infantaria que se encarniça em retuites com a hashtag JeSuisChien.

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Imagino a consternação dos familiares dos refugiados sírios que chegaram a Portugal quando souberam que a mãe do terrorista é da Póvoa de Lanhoso.

 

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Ler (sobre o massacre em Paris)

por Pedro Correia, em 16.11.15

Paris sous l' attaque. Do João Pedro Pimenta, n' A Ágora.

La Palice. Do Luís Novaes Tito, n' A Barbearia do Senhor Luís.

La nausée. De António Araújo, no Malomil.

A guerra explicada às criancinhas. De Vítor Cunha, no Blasfémias.

Paris. De Francisco Seixas da Costa, no Duas ou Três Coisas.

Medo. Da Cristina Nobre Soares, no Em Linha Recta.

Surrealismo... De Rita Carreira, n' A Destreza das Dúvidas.

Popper e Cristo em Paris. De Pedro Norton, no Escrever é Triste.

Ser e fazer tudo aquilo que eles detestam. Da Daniela Major, no Aventar.

Carry on. Do Luís M. Jorge, na Vida Breve.

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Algo por que lutar - a outra faceta da Humanidade

por José António Abreu, em 16.11.15

Mas, mais do que o terror, Isobel alonga-se a descrever quem lhe fez bem naquela noite de mal-querer; a agradecer aos seus “heróis” — como lhes chama. E os agradecimentos vão todos “para o homem que (…) colocou a sua vida em perigo para tapar a minha cabeça enquanto eu chorava; para o casal que trocou palavras de amor e me fez acreditar que há bondade no mundo; para o polícia que conseguiu resgatar centenas de pessoas; para os desconhecidos que me ergueram da estrada e me consolaram durante 45 minutos, numa altura em que me convenci de que o rapaz que amo tinha morrido; (…) para a mulher que abriu a porta da sua casa aos sobreviventes; para o amigo que (…) foi comprar-me roupas novas, para que não tivesse de usar este top manchado de sangue.” E termina: “Vocês fazem-me acreditar que este mundo pode ser melhor. Para que isto não volte a acontecer.”

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 16.11.15

Os argumentos do terrorismo. De Francisco Seixas da Costa.

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Penso rápido (77)

por Pedro Correia, em 16.11.15

O primeiro combate ao terrorismo começa na linguagem. Não chamar "estado islâmico" ao Daesh, por exemplo.

Porque aquilo não é Estado algum: é um bando terrorista que se apropriou ilegitimamente de largas faixas de território no norte de África e no Médio Oriente, onde mutila, tortura e mata todos os "infiéis", submete as mulheres a uma opressão tirânica e tem provocado danos irreparáveis ao património cultural da Humanidade.

Além disso só por macabra ironia estes terroristas podem intitular-se islâmicos: o maior número das suas vítimas professa essa mesma fé.

Ao chamar-lhes "estado islâmico" estamos a perder a primeira batalha, reconhecendo ao bando criminoso um estatuto que não tem nem nunca terá. Porque nesta guerra também as palavras equivalem a munições.

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Pardon my french

por Rui Rocha, em 15.11.15

Choque de civilizações uma porra. O que temos é uma civilização a ser atacada pela barbárie.

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Tu, o guardião das fronteiras

por Rui Rocha, em 15.11.15

Pensa numa sala de espectáculos. Por exemplo, o Bataclan, em Paris. Pode ser? Agora, imagina que, por absurdo que possa parecer, durante um concerto, o Bataclan é tomado de assalto por terroristas. Estão lá dentro terroristas, três ou quatro, e muitos inocentes. Imagina agora que te cabe a ti tomar uma decisão sobre uma questão fundamental: em nome da segurança dos que estão cá fora, podes mandar fechar as portas e manter uns e outros lá dentro, abandonando-os à sua sorte. Uma decisão terrível, não é? Pois é precisamente essa a decisão que queres que seja tomada quando defendes que se fechem as fronteiras da Europa aos refugiados.

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"However, a U.S. intelligence official told CBS News the Syrian passport might be fake. The official said the passport did not contain the correct numbers for a legitimate Syrian passport and the picture did not match the name."

 

Isto é, impõe-se prudência na análise dos factos. Há pelo menos as seguintes possibilidades: a) o terrorista utilizou um passaporte falso para entrar na Grécia; b) o FBI tinha informação prévia sobre a fotografia ou o nome e estes não batem certo com os dados do passaporte; c) o refugiado vendeu o passaporte ou este foi-lhe roubado; d) o passaporte pode ou não pertencer ao terrorista. 

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Alá nada tem a ver com isto

por Pedro Correia, em 15.11.15

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Membros do grupo fundamentalista Boko Haram, responsável por milhares de mortes na Nigéria

 

Sou incapaz de diluir a responsabilidade individual dos homicidas em factores étnicos, culturais, sociais ou religiosos.

Um "crime passional" (expressão detestável) pode ser avaliado por factores externos: solidão, ciúme, depressão, desemprego, exclusão social. Podemos tentar "compreender" a vertente externa do crime. E, se formos advogados de quem cometeu esse crime, até talvez devamos invocar tudo isso como possível atenuante em tribunal.
Nada apaga, no entanto, a componente do livre-arbítrio. É o grande trunfo - e também o grande fardo - da condição humana.

Isto ficou, de resto, plasmado na jurisprudência internacional nos célebres julgamentos de Nuremberga que julgaram os responsáveis pelos crimes cometidos durante o regime totalitário hitleriano. A linha defensiva dos réus era invariável: todos tinham agido em obediência a ordens superiores, como se a responsabilidade de cada um estivesse diluída numa espécie de imperativo categórico ditado pelas forças do mal.
O tribunal rejeitou esta tese - e muito bem, condenando a generalidade dos réus a duras penas. Foi uma conquista civilizacional do direito que não deve ser revertida nestes tempos de barbárie à solta em tantos locais - de  Paris a Beirute, sem esquecer Ancara, passando pelos crimes hediondos que têm sido cometidos pelas hordas fundamentalistas do  Boko Haram na Nigéria. Nenhuma "exclusão social" ou "marginalização" de qualquer espécie justifica o comportamento daqueles que degolam, lançam a bomba ou comprimem o gatilho.

Alá nada tem a ver com isto. É tudo humano, demasiado humano, por vezes insuportavelmente humano.

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O terrorismo alimenta-se do ódio. Uma Europa que acolhe refugiados fura o cerco do ressentimento, dá exemplo de solidariedade. Não há nada mais devastador para o discurso dos sanguinários. Um passaporte de um refugiado sírio no local de um dos ataques nada nos diz sobre a forma como lá chegou. Quem mata inocentes com gélida indiferença, também leva consigo um passaporte forjado, roubado, para instigar no lado dos bons a irracionalidade que lhe convém. E ainda que se comprove que alguém se infiltrou para abusar da boa vontade dos que recebem, continua a ser fundamental não fazer o jogo do terror. Ainda aí é preciso separar o trigo do joio, não tomar a árvore pela floresta. Vencer é, para começar, resistir ao alarmismo e às conclusões precipitadas.

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Falar claro

por Pedro Correia, em 14.11.15

Oiço nas televisões chamar terroristas aos terroristas. Nem sempre acontece, por isso apetece-me sublinhar o facto. Não há nada como falar claro.

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Um dos aspectos mais perturbadores de alguns testemunhos vistos nas televisões é o da incapacidade que temos para reconhecer a barbárie quando nos cruzamos com ela. Uma das pessoas referia que esperou uns momentos para ver se as balas eram a sério. Outra dizia que lhe parecia estar a assistir a um filme. Esta é simultaneamente a melhor homenagem que podemos fazer àquilo a que chamamos Ocidente e a nota que revela a nossa maior fragilidade. Há, certamente, violência nas nossas sociedades. Mas essa violência é marginal nas nossas vidas. Marginal no sentido que não toma conta do nosso dia-a-dia. Marginal no sentido de que a consideramos inadmissível. Em geral, para nós, "parisienses", a violência é a dos filmes. A dos filmes a que assistimos desde crianças e que os nossos pais, para nos sossegarem, nos diziam que era a fingir. Como eram a fingir os tiros que dávamos uns aos outros nas lutas de índios e cowboys com que entretínhamos as tardes dos Verões em que éramos meninos. Ou as pistolas de fulminantes que tu e eu tivemos ou as Nerfs que demos aos nossos filhos. Temos a felicidade (tivemos?) de viver num tempo e numa época em que a violência é (foi?) de tal forma distante e inofensiva que fizemos dela parte das nossas ficções e brincadeiras.É por isso que estamos tão indefesos quando ela nos rebenta à porta de casa. Não acreditamos, sequer, que seja possível. Viola não só as nossas regras, os nossos códigos, como, sobretudo, a nossa experiência de vida. Não é por acaso que alguns de nós só se apercebem da gravidade real da situação, ou melhor, da grave realidade que ela tem, quando constatamos, chocados, que hoje em Paris, por causa dos maus, nos fecharam a Disneylandia.

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Pesadelo

por Pedro Correia, em 14.11.15

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O pior atentado cometido em território francês desde a II Guerra Mundial.

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 14.11.15

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Este é o maior problema da Europa actual: a liberdade seriamente condicionada pelos seus mais encarniçados inimigos. Paris, outrora Cidade-Luz, é hoje cidade ensanguentada pelo fanatismo mais extremista.

Somos todos, a partir de agora, um pouco menos livres. E trocaremos cada vez mais parcelas de liberdade em troca de segurança. Dilema ilusório. Porque nos alicerces da nossa civilização - que o terrorismo islâmico combate sem tréguas - liberdade e segurança são conceitos indissociáveis. Um não faz sentido sem o outro.

Hoje estamos todos mais inseguros e menos livres. É um dia de júbilo para os cultores da barbárie, que não estão algures em parte incerta.

Estão aqui, no meio de nós.

Texto reeditado

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É na política que somos todos

por Tiago Mota Saraiva, em 14.11.15

Hoje choca-nos. Sentimo-nos próximo. Reconhecemos as ruas de Paris e aquelas expressões de pânico parecem-nos familiares. Procuramos contactar quem conhecemos em Paris. Apetece-nos prestar solidariedade. Uma solidariedade que de pouco vale às vítimas - os mortos, sobreviventes e todos os que lhes estão próximos. 
É no campo da política que podemos agir. É aí que somos todos.
Perceba-se, de uma vez por todas, que mais policiamento e controlo não é garante que não volte acontecer. Abordar o problema desta forma apenas nos garante que acontecerão novos massacres cada vez com mais perdas do lado dos que passeiam na rua.
Este também é o tempo de mandar calar todos os que levantam dúvidas sobre os motivos da crise dos refugiados. É disto que fogem.
Repito, o que podemos fazer é agir politicamente. Contribuir para a paz e não espalhar a guerra. Hoje é um bom dia para avaliar as consequências da guerra ao terror, da existência da NATO e do papel que tem tido na escalada desta guerra.

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