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Manobras de diversão

por José Navarro de Andrade, em 16.07.17

É um sintoma do espantoso subdesenvolvimento cultural português, exercido pela classes que se dizem letradas e atentas, que todos os problemas se discutam reduzindo-se a questões polí­ticas e, pior, abaixados à  politiquice do jogo partidário. É o velho aforismo: quando se tem um martelo, todos os problemas são pregos.

O caso da compra da TVI-PRISA pela PT-Altice, demonstra tragicamente os equí­vocos de semelhante tacanhez. Num desplante, mas nada despropositado para quem tem interesses corporativos a defender, o Senhor Primeiro Ministro António Costa colocou as interrogações a esta operação nos termos que mais lhe convêm. Dado o tom, foi logo a banda bradar grande charivari à porta da ERC, um organismo de momento letá¡rgico, mas de génese e funções ignóbeis (qualificação que terei todo o prazer em esmiuçar em circunstâncias mais alargadas).

E no entanto os grandes dilemas criados pelas intenções da PT-Altice colocam-se num plano muití­ssimo mais determinante, influente e alarmante, do que de a preocupação e conveniência táctica de saber quem ficará a mandar no alinhamento dos telejornais - "It's economics, stupid."

Era esperado que se a PT-Altice abocanhasse a TVI-PRISA, como numa queda em dominó, a NOS se fizesse à  SIC-IMPRESA. Postas as coisas em movimento a questão fundamental é só uma:

Como será a paisagem audiovisual portuguesa?

Decorrem imediatamente daqui dois assombros:

  1. Em que outro paí­s europeu (ou mesmo mundial) CINCO indústrias (a televisão aberta, a televisão por cabo, a Internet, as comunicações móveis e as comunicações fixas) ficam agregadas numa empresa? E se a NOS executar os seus propósitos acrescentem-se MAIS TRÊS: a exibição cinematográfica e a distribuição cinematográfica. E os direitos de futebol.
  2. Que liberdade de mercado, económica, comercial e de escolha se antevêem quando tantas áreas industriais de tamanha dimensão e incidência se limitam a um duopólio?

Enquanto a discussão não enveredar por este caminho é poeira nos olhos. Boa sorte.

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Talking Heads

por Diogo Noivo, em 21.06.17

Ontem à noite, um dos monitores na zona de entrega de bagagens do aeroporto de Lisboa estava sintonizado na RTP3. Na imagem, Pedro Adão e Silva, José Eduardo Martins e Ricardo Sá Fernandes. O monitor estava sem som, razão pela qual não ouvi o que foi dito. No entanto, lia-se no oráculo "porque falham as comunicações de emergência?". Dada a elevadíssima e reconhecida competência técnica dos intervenientes sobre a matéria em apreço, tenho a certeza que não ficou pergunta por responder ou pedra por virar, do SIRESP aos planos de prevenção. Aposto que até do mastoideu se falou.

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Que violência mostrar?

por Inês Pedrosa, em 17.05.17

Deve ou não um telejornal mostrar actos de violência? A resposta a esta questão é fundamental, e o que sobre ela decidirmos define uma ética. Há uma coerência de base exigível a qualquer sistema valorativo ou legal - valores ou leis arbitrárias representam o terror, a mais tenebrosa e incontrolável das imprevisibilidades. Estaline e Hitler usaram a prerrogativa da excepção contínua para manterem toda a gente - dos seus íntimos à população anónima - imóvel, obediente, submissa, incapaz de reacção, em permanente estado de aterrorização.

Alguns responderão um «não» curto e imediato, argumentando que violência desencadeia violência e que a exibição da violência tem o defeito suplementar de excitar o voyeurismo. Outros responderão um «sim» igualmente célere, enfatizando a necessidade de alertar os cidadãos, de os tornar mais atentos, precavidos e, se possível, interventivos, reduzindo, deste modo, a probabilidade de futuros actos violentos.

O argumento pacifista de que a visão da violência gera um acréscimo de violência depara-se com uma dificuldade essencial e intransponível: a violência que inunda a cultura - popular e erudita - do século XXI. Da mais permissiva televisão ao mais exigente cinema, o culto da violência é uma constante - para permanecermos no registo da imagem e, em particular, da imagem em movimento, mais irresistível e, por conseguinte, mais alienante do que as imagens estáticas ou as imagens mentais, desenhadas a partir da leitura ou da audição. Desde há muitos anos tenho vindo a anotar e a registar que a preocupação dos adultos com a protecção das crianças face ao mundo da pornografia é muito mais forte do que a de as proteger do universo da violência. Como se a violência fosse um dado adquirido - e até como se fosse útil às crianças o contacto com esse mundo, para as tornar mais resistentes e competitivas. A competição, não o esqueçamos, é o pilar universal da cultura contemporânea: do auto-denominado Estado Islâmico até ao mais aprazível dos estados nórdicos, a ideia de «superação» subjaz a tudo. Quando os pais dizem que só querem que os filhos sejam "mais" qualquer coisa do que eles próprios (felizes, ricos, inteligentes, etc) estão a criar neles uma ansiedade competitiva profunda: ninguém vale pelo que é, todos somos chamados a ser «mais» qualquer coisa do que os progenitores ou o vizinho do lado. A cultura da competição é uma cultura de violência.

O argumento belicista de que a visão da violência forma uma camada de protecção em relação a essa violência também não colhe: décadas de estudos têm provado que educação é exemplo, ou seja, que a violência é, de facto, contagiosa. Tudo está impregnado de violência, na nossa cultura de matriz cristã e católica, cujo símbolo icónico é um homem pregado numa cruz. Que muitos pais católicos coloquem esta imagem sobre o berço dos filhos recém-nascidos, eis uma forma de violência que sempre me incomodou. De resto, todas as religiões são férteis em fábulas de violência - porque o medo estimula a dependência, o acatamento e a crença. Acresce que a publicitação da violência provoca directamente o seu crescimento: o culto dos mártires, como o dos heróis, é auto-reprodutivo: cada mártir ou herói, sozinho, se bem propagandeado, gera centenas de outros. 

Não havendo uma forma ideal de lidar com este tema, creio que o mais sensato será adoptar um princípio misto, mas de contornos firmes e claros:os telejornais deverão mostrar os actos violentos, porque não os mostrar seria restringir o direito democrático à informação total. Os cidadãos têm direito a conhecer a fundo as questões sociais do mundo em que vivem, de modo a poderem tomar decisões informadas. Mas esses filmes nunca poderão expor o rosto das vítimas nem dos verdugos (porque a publicitação dos verdugos também os multiplica). Actos de tortura e extrema violência - por exemplo, as decapitações do ISIS, os enforcamentos no Irão ou a morte na cadeira eléctrica nos Estados Unidos - não devem ser mostrados ( mais uma vez, por uma questão de protecção da dignidade individual e também para não incrementar pulsões assassinas, mais comuns do que se imagina)  - mas devem ser narrados. Já tenho escrito várias vezes que deveria criar-se um consenso nos media quanto à não divulgação pública do nome de autores de massacres - para não lhes conceder essa fama póstuma que os engrandece aos olhos de outros. 

Virarmos a cabeça à violência ou apontarmos o dedo a quem a denuncia não me parece a forma correcta de lidar com este problema central do nosso tempo.

Acresce que há formas de violência psicológica praticadas diariamente pela comunicação social - a difamação através da insinuação, por exemplo - sobre as quais ninguém parece disposto a pensar seriamente: atira-se, na melhor das hipóteses, um "alegadamente" sobre o carácter de alguém cuja força e influência se pretende diminuir, e chama-se-lhe tudo, de ladrão a abusador. Com esta forma de violência as pessoas facilmente pactuam, caso a caso, ao sabor dos seus amores e ódios pessoais ou ideológicos, sem quererem entender que a questão de fundo é grave e afecta-nos a todos: trata-se do direito de cada um (vedeta ou não, político ou pastor) ao bom nome, à reserva da vida privada, à auto-determinação individual, à opinião e à liberdade. Seres moralmente moídos tornam-se presas dos poderes - e os poderes, sejam eles o 1º, o 4º ou o 5º, sabem-no bem.    

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Girls, Fleabag, Roth, Steiner e sexo

por José António Abreu, em 20.02.17

Há uns anos, ao ver os primeiros episódios da série Girls (tão recente e já tão imitada que até fica difícil recordar quão inovadora foi),  lembrei-me de O Animal Moribundo, de Philip Roth. A certa altura, o professor David Kepesh afirma:

Enquanto cresci, o homem não era emancipado no reino sexual. Era um homem de segunda apanha. Era um ladrão no reino sexual. Surripiávamos uma apalpadela. Roubávamos sexo. Adulávamos, suplicávamos, lisonjeávamos, insistíamos - todo o sexo exigia luta, tinha que ser disputado aos valores, senão à vontade da rapariga.

Mais tarde, referindo-se à actualidade (de 2001), acrescenta:

Aparecem antigas namoradas de há vinte e trinta anos. Algumas já se divorciaram numerosas vezes e outras têm andado tão ocupadas a afirmarem-se profissionalmente que nem tiveram a oportunidade de casar. As que ainda estão sós telefonam-me para se queixarem daqueles com quem se encontram. Os encontros são detestáveis, os relacionamentos são impossíveis, o sexo é um risco. Os homens são narcisistas, não têm sentido de humor, são doidos, obsessivos, autoritários, grosseiros, ou então são muito bem-parecidos, viris e cruelmente infiéis, efeminados, ou são impotentes, ou são simplesmente demasiado estúpidos. (*)

 

A abordagem da revolução sexual ocorrida na década de 1960 é quase sempre feita partindo da perspectiva feminina. Antes de qualquer outra análise, salienta-se o modo como a pílula e a evolução dos costumes libertaram as mulheres para o sexo sem (demasiados) receios. Mas a liberdade feminina também representou o fim da submissão masculina a qualquer tipo de compromisso. O facto de, ao longo das últimas décadas, as mulheres terem exigido e obtido não apenas o mesmo estatuto no que respeita ao sexo, mas poder total sobre os seus corpos - incluindo o de terminar gravidezes indesejadas - foi extraordinariamente libertador para os homens. O esforço de cortejar, apoiar, assumir responsabilidades tornou-se-lhes opcional, em especial quando favorecidos pelo sorteio genético (i.e., quando atraentes). Nem sequer as regras do politicamente correcto - em muitos sentidos, a prisão dos tempos actuais - os forçam ao que quer que seja: adquirida a igualdade, as mulheres perderam o direito a queixarem-se de terem sido iludidas. Durante séculos, no mundo «civilizado», os homens viram-se obrigados a conjugar instintos e convenções sociais. Agora, estão livres para dar largas ao egoísmo. Às acusações de insensibilidade, podem responder que se limitam a «dar espaço» às mulheres; que estão a «respeitar» a «autonomia» delas.

 

Nos primeiros tempos de Girls, esta realidade saltava à vista. Hannah desesperava com a passividade de Adam. Para ele, a relação apenas parecia existir enquanto decorria o acto sexual. Em todos os outros momentos, Hannah sentia-se esquecida: ele não telefonava, não respondia às mensagens, demonstrava indiferença quando a encontrava. Fleabag, uma série de 2016 produzida pela BBC e pela Amazon, escrita e interpretada por Phoebe Waller-Bridge, atinge um novo extremo. Apresenta uma mulher que parece vogar entre relações sexuais sem significado (mas não sem consequências), nas quais se submete (sem ser explicitamente forçada) a actos que tem dificuldade em racionalizar. Tudo estaria bem se não as usasse como forma de evitar enfrentar o vazio e a infelicidade que a dominam. Fleabag vai tão longe que se permite incluir um indivíduo nada atraente e bastante irritante no séquito de homens que não têm qualquer dificuldade em ir para a cama com ela.

 

 

Sejamos francos: nas últimas décadas, o sexo tornou-se um produto de consumo como qualquer outro; mais uma forma semidescartável de sentir algo, totalmente desligada de sentimentos profundos. Em 1975, Woody Allen afirmava: «O amor é a resposta, mas enquanto se espera pela resposta, o sexo coloca perguntas interessantes.» A resposta continuará a mesma, mas as perguntas parecem ter vindo a perder interesse. Se a consequência óbvia de tanto desejo de independência (por parte das mulheres como por parte dos homens) é a solidão, a consequência óbvia de tanto sexo (real, imaginado, visualizado em ecrãs e na rua) só pode ser a banalização do acto e dos termos que se lhe referem. Em Os Livros que Não Escrevi, George Steiner dedica um capítulo à linguagem do erotismo. Considera-a - como ao próprio acto - cada vez menos subtil, mais baseada nos códigos instituídos pelo cinema, pela televisão, pela publicidade. Escreve ainda: Será fascinante descobrir os novos factores de complexidade e os contributos enriquecedores que poderão vir das correntes feministas. Produziram já uma poesia poderosa e uma prosa acusadora. Poderá a sua política da sensibilidade ser causa de novas orientações e de uma criatividade nova nos dialectos do amor? Até ao momento, os indícios nesse sentido são marginais. O que parece prevalecer entre as mulheres emancipadas é a adaptação, quase desdenhosa, do que eram a obscenidade e a licenciosidade clandestina do discurso masculino.(**)

Talvez não apenas do discurso. Talvez de todo o comportamento. Sexualmente, as mulheres parecem-se cada vez mais com os homens. Mas isso - a acreditar em exemplos como Girls e Fleabag, eles próprios, será conveniente ressalvá-lo, provenientes da cultura cinematográfica e televisiva - não parece torná-las felizes. À liberdade, que neste campo tende a equivaler a quantidade, contrapõe-se a estandardização (nada é novo, pouco permanece tabu), e o novo poder masculino: um egoísmo assumido, que a igualdade torna inatacável.

Sobra a desilusão. Ou a busca de uma «novidade» cada vez mais extrema. Para mulheres, como para inúmeros homens, quando nada no sexo nem na linguagem do e sobre o sexo for misterioso, talvez actos como o que encerra o filme O Império dos Sentidos ou o que encerrou a vida do actor David Carradine (as referências do entretenimento são afinal úteis e variadas) constituam a única solução lógica.


____________________

(*) Edição Dom Quixote, 2006, p. 61 e 91, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues.

(**) Edição Gradiva, 2008, p. 132, tradução de Miguel Serras Pereira.

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Gorden Kaye (1941-2017)

por Diogo Noivo, em 24.01.17

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 Morreu o maior sex symbol da Britcom, protagonista de uma das melhores séries de televisão de sempre.

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A elegância no ódio

por Diogo Noivo, em 23.01.17

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Pedantes, cultos, sagazes e penas magníficas. Vistos desta forma, William Buckley e Gore Vidal eram faces da mesma moeda. Talvez por isso não se pudessem ver. Vidal era o enfant terrible liberal, um transgressor por vocação, convicção e prazer. Buckley era o poster boy da intelectualidade conservadora, um provocador elegante que defendia a política como arena de debate ideológico. Dois génios em lados opostos da barricada.
Em 1968, durante a campanha presidencial nos Estados Unidos da América, a ABC tinha de encontrar uma forma de se manter à tona, de captar audiências, aproximando-se das líderes de mercado CBS e NBC. É neste contexto que alguém na ABC se lembra de criar um modelo de debate entre comentadores, um frente-a-frente, no qual Gore Vidal se sentaria de um lado e William Buckley do outro. E assim nasceu um dos episódios mais marcantes da História do audiovisual e assim se criou uma inimizade lendária.

 

 

Os debates foram animais da sua época, muito embora não sejam conversas datadas. Para o bem e para o mal. É curioso ver como temas quentes nos Estados Unidos no final da década de 1960 continuam hoje a ocupar um lugar de destaque na agenda política e social desse país - a tensão racial é um dos vários exemplos possíveis. Mais curioso ainda é perceber como os argumentos aduzidos pouco ou nada mudaram. O que sim mudou foi a tarimba e o flâneur dos intervenientes. Eloquentes, mordazes e incisivos, Vidal e Buckley foram peças únicas. Único foi também o incidente ocorrido no último debate, um excesso que cavou o abismo que já separava os dois. Não estragarei a surpresa aos que não conhecem o caso e querem ver Best of Enemies, o documentário onde esta relação entre titãs é descrita e analisada.
Se há algo a retirar de Best of Enemies é que a inimizade, tal como o seu antónimo, exige uma atenção total e esmerada. Vidal era um cultor da língua, mas também do ódio. Mais do que um sentimento, o ódio era um compromisso tratado com tamanha elegância que quase foi elevado à categoria de virtude. Buckley era mais provocador do que amante de ódios, mas não deixou Vidal a detestar sozinho.
É verdade que o documentário tem falhas, algumas das quais analisadas com exagero (e talvez com algum ressabiamento) por Michael Lind no Politico, mas nem por isso é menos interessante. Narrado por John Litgow e por Kelsey Grammer, o documentário Best of Enemies prova que intelectuais públicos dignos desse nome não são matéria do domínio da ficção. Estreado em 2015 no Sundance Film Festival, Best of Enemies está disponível no Netflix.

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Sem rei nem roque

por Diogo Noivo, em 30.11.16

O Chefe de Estado espanhol, Filipe VI, discursou no parlamento português. No final da intervenção, houve aplausos de todos os deputados, menos na bancada do PCP, onde os parlamentares apenas se levantaram em sinal de respeito institucional. Os comunistas cumpriram o mínimo olímpico. A jogar num campeonato diferente, os deputados do Bloco de Esquerda permaneceram sentados. Nem aplausos nem cortesia. Nada.
A peça da SIC que deu nota deste episódio fala em evolução bloquista. E explicou porquê: por ocasião da visita oficial do anterior monarca espanhol, Juan Carlos I, os bloquistas não apareceram no hemiciclo; desta vez estavam lá. A jornalista da SIC vê nisto uma evolução.
Há dias, Fidel Castro mereceu todos os encómios possíveis por parte do Bloco, que nada disse sobre a sucessão de estilo dinástico entre Fidel e o seu irmão Raúl. Hoje, um Chefe de Estado vinculado a uma constituição democrática, que goza de um respaldo popular muito superior ao da constituição portuguesa, recebeu o tratamento político-institucional que se dá a um ditador. Julgo que a maioria dos democratas verão nisto uma fonte de vergonha alheia e até de algum asco. Mas a SIC vê uma evolução. Parece-me que para os lados de Carnaxide também há gente a limpar os pés às cortinas.

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Séries do ano (7) - Bloodline

por Diogo Noivo, em 01.11.16

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O filho pródigo a casa torna. Esta parábola, bem conhecida, é um conto de redenção. O guião de Bloodline mais não é do que uma revisitação muito capaz da história do filho pródigo, embora o desejo de redenção nesta série seja apenas o gatilho de um thriller em tom de melodrama familiar.
Danny Rayburn (excelente interpretação de Ben Mendelsohn) regressa a casa por ocasião do 45º aniversário de casamento dos pais. Robert Rayburn (Sam Shepard) e Sally Rayburn (Sissy Spacek) são os patriarcas, donos de um hotel de charme plantado numa praia de areia fina, na zona de Florida Keys. O regresso de Danny suscita desconforto imediato nos pais e nos irmãos. Após anos em paradeiro incerto, dedicados a uma vida de consumo de álcool e de estupefacientes, a chegada do filho pródigo é um elemento desestabilizador do clima de felicidade e de unidade do clã Rayburn. Os episódios avançam e vamos percebendo que o incómodo provocado pelo regresso de Danny não se deve tanto às falhas do próprio, mas sim ao passado traumático que a sua chegada desenterra.

 

 

O cenário paradisíaco de Florida Keys serve dois propósitos em Bloodline. Por um lado, acentua o ambiente de união e de felicidade do clã Rayburn. Por outro lado, torna mais vis e dolorosas a mentira e a violência que a tela de estabilidade familiar esconde. O sol e a praia apoiam o lado bom e sadio dos personagens, mas o calor e a humidade abrasadora abrem o caminho para os segredos e os pecados que teimam em não descansar.
A cadência da série obedece a um ritmo de drama, de verdades por revelar, e de ansiedade mal contida, um tom que desenha um mapa do passado fundamental para explicar o presente e que é revelado com parcimónia e com muita atenção aos timings exigidos a um bom thriller.
A fotografia em Bloodline lembra a magnífica primeira temporada da série policial True Detective e cria uma imagem entre o noir e o híper realismo, quase ao estilo documental. O elenco foi escolhido com zelo cirúrgico, onde para além de Sissy Spacek, de Ben Mendelsohn e de Sam Shepard, encontramos outros bons actores como John Leguizamo, Chloë Sevigny, e ainda Kyle Chandler e Linda Cardellini em interpretações muito superiores ao que nos habituaram.
Produzida pelo Netflix, Bloodline vai na segunda temporada. A terceira e última estreará no próximo ano. Se não viu ainda, vale a pena meter os episódios em dia para acompanhar o desfecho desta boa história em 2017.

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Séries do ano (6) - Penny Dreadful

por Diogo Noivo, em 25.10.16

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Ambientada na Londres dos finais do século XIX, Penny Dreadful junta sob o mesmo tecto ficcional personagens lendárias, produzidas pela literatura da época, como Dorian Grey, o Doutor Jeckill e o Mr. Hyde, Victor Frankenstein e as suas criaturas, e ainda figuras míticas saídas da pena de Bram Stoker, como Mina Harker, Dr. Seward, e Renfield. Nesta série de televisão, o Reino Unido do século XIX fornece os personagens e o ambiente cénico, mas também o título: “penny dreadful” foi o nome pejorativo dado à literatura popular publicada em pequenos fascículos e com periodicidade semanal, pequenos livrinhos vendidos por um 'penny'.
Muito embora reúna todos estes personagens temíveis num só guião, Penny Dreadful não é uma sucessão de episódios de terror puro, cheios de efeitos especiais, mas sim uma história dramática que explora os limites e as contradições de personagens que não inventou, mas aos quais soube dar novas cores sem os descaracterizar. Este ponto é aliás um dos aspectos mais fortes da série. As personagens são feitas de conflitos internos, de antagonismos íntimos, narrativamente explorados com inteligência, sem cair no lugar-comum do personagem atormentado, e respeitando a estrutura original das criaturas saídas da literatura do século XIX.

 

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Séries do ano (5) - 11.22.63

por Diogo Noivo, em 18.10.16

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Tudo começou em Lisboa. Porque foi a capital portuguesa a dar o nome a uma pequena localidade no Maine, nos Estados Unidos da América. Porque no liceu dessa localidade estudou Stephen King, célebre escritor de ficção científica e de histórias de terror, autor de grandes êxitos literários, alguns dos quais adaptados ao cinema com igual sucesso, como The Shining, Carrie, Stand By Me, The Shawshank Redemption e The Green Mile. E finalmente porque King escolheu Lisbon, no Maine, como palco de abertura de 11.22.63.

Esta minissérie, uma adaptação televisiva do livro homónimo, conta a história de Jake Epping (interpretado por James Franco), um professor no liceu Lisbon Falls – a escola onde Stephen King estudou – que viaja no tempo para evitar o assassinato de John Fitzgerald Kennedy. Daí o título: Kennedy é morto, em Dallas, no dia 22 de Novembro de 1963.

Mas comecemos pelo princípio. Al Templeton (Chris Cooper) é o proprietário de um diner onde, num canto esconso, existe um armário que nos leva a 1960, concretamente ao dia 21 de Outubro. Para Al, evitar a morte de Kennedy permitirá, graças ao efeito borboleta, resolver todos os males contemporâneos dos Estados Unidos da América, o que, consequentemente, será uma mais-valia para o mundo. É uma ideia muito discutível, mas, como estamos no domínio da ficção científica, aceita-se. Existem, contudo, dois problemas. Em primeiro lugar, o passado não gosta de ser perturbado e resiste. Em segundo lugar, sempre que se regressa do passado ao presente, o mundo faz reset, tudo volta ao mesmo. Logo, para que as mudanças produzidas no passado tenham um efeito duradouro, o agente de mudança tem que se sacrificar, permanecendo no passado para sempre. Templeton fez a viagem, permaneceu vários anos na década de 1960, mas como o passado penaliza quem o tenta modificar, desenvolve um cancro agressivo que o impede de completar a missão. Convence então o seu amigo de longa data Jake Epping para o substituir e salvar a História. Jake mostra-se reticente, mas Al tem um argumento de peso: independentemente do tempo transcorrido no passado, 3 semanas ou 3 anos, no momento presente passarão apenas 2 minutos – a dinâmica das viagens no tempo, ao bom estilo de Stephen King, fica envolta em mistério.

 

 

 

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Séries do ano (4) - Game of Thrones

por Diogo Noivo, em 11.10.16

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Game of Thrones é o José Sócrates das séries de televisão. Não que seja uma série ensimesmada, irascível, de estrutura ética e comportamento duvidosos (embora isto caracterize boa parte dos personagens de Game of Thrones), mas porque apenas suscita amor e ódio. Não há meio-termo. Contudo, e ao contrário do que sucede no caso do antigo Primeiro-Ministro, quanto mais se vê Game of Thrones mais se gosta.

Fui dos que, após meses de resistência, se converteu – à série, porque a José Sócrates creio que nem sob o efeito de psicotrópicos. Numa primeira abordagem, a série reúne todos os ingredientes que detesto em ficção: ambiente medieval, dragões, armaduras, batalhas épicas, solípedes com fartura, e mais uns quantos artifícios que parecem ter saído da mente de um miúdo pré-adolescente. Vistos os primeiros episódios, desenganei-me e integrei as fileiras da legião de fãs. Game of Thrones é uma série muito bem pensada e escrita, bem produzida, extraordinariamente bem interpretada, e com uma capacidade de prender o espectador quase insuperável.

O universo de Game of Thrones faz-se de um conjunto de reinos e de famílias em competição pelo poder. São ameaçados por perigos externos cuja gravidade, bem vistas as coisas, depende quase em exclusivo da solidez interna de quem é ameaçado. Há guerras de sucessão, umas naturais, outras forçadas. As alianças são tão essenciais quanto voláteis, uma vez que tudo se resume às relações de poder entre as forças em jogo. Na arena política de Game of Thrones, todos sabem que quem pelo poder mata, pelo poder morrerá. É só uma questão de tempo. Abreviando, a série é uma alegoria perfeita da vida política. Sobretudo, da vida em política.

 

Os galardões talvez convençam os cépticos. Os prémios valem o que valem, é certo, mas uma série não se torna a mais premiada na história dos Emmy por mero acaso. Game of Thrones conta já com 38 estatuetas (destronou Frasier), das quais duas são de Melhor Drama Televisivo (conseguidas em 2015 e 2016). Nesta categoria, o recorde está nas quatro estatuetas, um feito alcançado pelas séries Hill Street Blues/Balada de Hill Street, Mad Men e West Wing/Os Homens do Presidente. Game of Thrones tem mais duas temporadas previstas, logo ainda tem possibilidade de entrar nesta galeria de luxo. Caso o palmarés não chegue para persuadir os resistentes, olhemos então para avaliação dada pelas principais plataformas de televisão e cinema: a IMDb atribui à série uma pontuação de 9.5 em 10; a Rotten Tomatos fixa a apreciação em 94%.

A sétima temporada, que estreará no Verão do próximo ano, e a oitava e última temporada serão mais curtas do que as anteriores, com, respectivamente, sete e seis episódios (as temporadas anteriores contaram com 10). Com o fim anunciado, a HBO, a produtora de Game of Thrones, já apresentou uma sucessora: Westworld. Apesar da nova aposta ter argumentos de peso, como Jonathan Nolan (criador de Person of Interest, co-autor dos filmes Memento, The Dark Knight, The Dark Knight Rises e de Interstellar), Anthony Hopkins, Ed Harris e Sidse Babett Knudsen (actriz protagonista na magnífica série dinamarquesa Borgen), não será fácil replicar o fenómeno de audiências e de lealdade dos espectadores a uma série conseguido por Game of Thrones.

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Séries do ano (3) - The Night Of

por Diogo Noivo, em 04.10.16

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“Quando vamos ao cinema levantamos a cabeça; quando vemos televisão, baixamo-la”. Longe vão os tempos em que este aforismo de Jean-Luc Godard fazia algum sentido. A série The Night Of demonstra-o.

The Night Of é uma boa história, contada com calma. O ritmo da acção, que à primeira vista parecerá um convite à narcolepsia, é na verdade um dos aspectos mais fortes da série. O tempo que o formato televisivo oferece, e que falta ao cinema, pelo menos ao comercial, é aproveitado para construir personagens sólidas, para dar profundidade à história, para obrigar o espectador a pensar. 

O primeiro episódio dá-nos um homicídio com um suspeito mais do que provável. A partir daí, The Night Of centra-se na investigação do crime e sobretudo na defesa em tribunal do alegado criminoso, um jovem universitário de ascendência paquistanesa (interpretado por Riz Ahmed). O advogado de defesa, John Stone (uma interpretação brilhante de John Turturro), é uma figura burlesca, ainda que surpreendentemente verosímil, pouco habituada a casos desta envergadura. O papel foi inicialmente pensado para James Gandolfini, o actor principal em The Sopranos, de quem aliás partiu a ideia de fazer esta adaptação da série britânica Criminal Justice. Gandolfini chegou a filmar o episódio piloto, mas o destino interveio e este gigante morreu, vítima de um ataque cardíaco. A HBO pegou então no projecto e decidiu homenagear James Gandolfini atribuindo-lhe os créditos de produtor executivo a título póstumo.

 

Ao não ter pressa em desenrolar a acção, The Night Of permite-se criar e explorar um conjunto de pormenores simbólicos que, como todos os pormenores, são essenciais. Um deles, e para dar um exemplo, remeteu-me para “Burmese Days”, o primeiro livro escrito por George Orwell. O protagonista, John Flory, tem um sinal de nascimento na cara, uma mancha semelhante a uma equimose, que lhe cobre quase todo o lado esquerdo do rosto. É causa de timidez, de auto-repulsa. Quando Flory morre, a mancha desaparece, um fenómeno que Orwell usou para afirmar que a solidão, a dor e os pecados morrem com o corpo. O advogado de defesa em The Night Of não morre (perdoem-me o spoiler, prometo que não há mais), mas o eczema do qual padece serve um propósito narrativo semelhante ao usado por George Orwell.

A crítica recebeu The Night Of com louvores desmedidos e, desta vez, teve razão. A história é boa e bem contada, a fotografia é magistral (muito superior ao que se tem visto no cinema) e as interpretações são na sua maioria irrepreensíveis. Uma série a não perder.

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Parece que tudo nasceu ontem

por Pedro Correia, em 04.10.16

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 Hitchcock Apresenta, Get Smart, Holocausto e Moonlighting: algumas séries que a Rolling Stone esqueceu

 

Os americanos adoram fazer listas. Sobretudo listas dos “melhores de sempre”. Reduzem no entanto os melhores ao espaço geográfico em que se inserem, como se o mundo se confinasse às fronteiras dos Estados Unidos. Há tempos vi uma lista dos melhores de sempre na música – lista americana, claro – omitindo Piaf, Gardel e Jobim. Brel estava ausente e João Gilberto não morava lá.

Agora volta a surgir outra lista, que os jornais cá do burgo reproduziram sem um assomo de crítica. A Rolling Stone acaba de difundir, em juízo definitivo, quais considera as melhores séries e programas televisivos de todos os tempos. Aqui já não estamos só perante uma absurda redução da produção televisiva ao mundo anglo-americano: há também uma chocante falta de memória, inaceitável numa publicação com tantos pergaminhos.

 

É verdade que encontramos alguns clássicos televisivos de várias décadas: O Fugitivo, Star Trek, Columbo, All in the Family, Os Marretas, Dallas, Hill Street Blues, Os Trintões, Os Simpson  e Twins Peaks. Sem esquecer o fabuloso Circo Voador dos Monty Phyton e o imprescindível Fawlty Towers.

Também é verdade que no topo da lista figuram séries recentes de indiscutível qualidade – a começar pelos irrepetíveis Sopranos, que a encabeçam.

Mas 36 são dos últimos 15 anos, numa evidente desproporção temporal. E há até uma já de 2016 (a banal American Crime Story), o que diz muito dos critérios utilizados nesta classificação. Quem se propõe enumerar o que de melhor a televisão nos mostrou desde sempre não pode omitir algumas séries que aqui ficaram esquecidas. Do mítico Bonanza ao inesquecível Sim, Senhor Ministro – uma das melhores produções de sempre da BBC. Passando por Viver no Campo, Kung Fu, Holocausto, Homem Rico Homem Pobre, Ventos de Guerra e Moonlighting - Modelo e Detective.

Séries norte-americanas de culto como Alfred Hitchcock Apresenta não constam, o que é de pasmar. Tal como a britânica A Jóia da Coroa. E como foi possível deixar de fora títulos imperdíveis, como Reviver o Passado em Brideshead ou Smiley's People, que proporcionaram incursões televisivas a grandes actores do cinema como Laurence Olivier e Alec Guinness?

Ignorar o delirante Olho Vivo - Get Smart, onde Mel Brooks dava largas ao seu imparável sentido de humor, acentua a irrelevância desta lista, anunciada e difundida com tanta pompa e circunstância.

 

É um sinal dos tempos: parece que tudo nasceu ontem, parece que tudo quanto vem de trás migrou para parte incerta. Quanto mais recente melhor.

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Séries do ano (2) - Stranger Things

por Diogo Noivo, em 27.09.16

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Stranger Things é um regalo para quem viveu os anos oitenta, até para aqueles que, como eu, começaram a década de fraldas e a cheirar a pó de talco. Está lá tudo o que de bom foi produzido pelo cinema de mistério, de aventura e de terror nessa época gloriosa (um adjectivo que evidentemente não se aplica à moda capilar).

Esta série, produzida pelo Netflix, tem muito de E.T., muito de Os Goonies, bastante de Encontros Imediatos do Terceiro Grau, algo de Explorers e de Stand By Me, um pouco de Alien – O Oitavo Passageiro (que é de 1979, mas não é por um ano que nos vamos aborrecer e excluí-lo da década de 1980), um travo a Firestarter, um cheirinho a Pesadelo em Elm Street e, claro, uns apontamentos de Poltergeist e de The Shining. Julgo ter encontrado também referências a Carrie, mas não farei disso um ponto de honra. Na banda sonora há mais anos 80: muitos sintetizadores e miúdos a descobrir The Clash com as cassetes dos irmãos mais velhos.

O enredo, e sem revelar muito, centra-se em quatro miúdos irrequietos (jovens actores fantásticos), personagens que podiam perfeitamente ter saído de versões alternativas de E.T. ou de Os Goonies. Há também uma menina com capacidades psíquicas invulgares (actriz igualmente notável), muito mistério e acontecimentos paranormais. O monstro, no respeito estrito pela pauta dos filmes de terror dos anos 80, só é visto com nitidez lá para o final. Numa última menção aos personagens da série, Winona Ryder, actriz que nas décadas de 1980 e 1990 interpretava miúdas irreverentes, desempenha agora o papel de mãe de um dos rapazes.

 

O entusiasmo juvenil que Stranger Things suscita nos maduros que viveram os 80 é suficiente para nos distrair do quão batido é o guião da série. De facto, o argumento não é inovador. A série aproveita-se do mercado da nostalgia que capturou muitos trintões e quarentões, cuja proximidade à meia-idade porventura os (nos) torne totalmente complacentes com histórias requentadas, desde que ofereçam um passeio à infância e à adolescência. E aqui encontramos, a meu ver, a chave do sucesso de audiências: Stranger Things é muito competente na recuperação das imagens, dos sons, dos temas e dos golpes de asa do cinema dos anos 80, evitando com distinção o enorme risco de resvalar para o kitsch de uma feira de salvados. Em suma, ver Stranger Things foi um vício irrefreável.

Tal como boa parte dos filmes aos quais presta homenagem, Stranger Things é uma história sobre o fim da inocência, sobre a passagem à idade adulta e sobre os medos que nos acompanham nesse processo. A série acaba como deve ser, com um desenlace que se ocupa dos principais nós da história, e as pontas soltas que ficam são parte imprescindível de um bom guião de mistério. Por essa razão, temo o pior desde que soube que Stranger Things terá uma segunda temporada. Bem sei que a vida custa a ganhar e que a tentação para a explorar uma fórmula com sucesso comprovado é mais do que muita. Mas pode ser a receita para matar uma série com todas as condições para se assumir como referência de culto. Enfim, por ora, é ver a primeira e única temporada disponível e entregar-se nos braços da boa nostalgia.

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Séries do ano (1) - The Americans

por Diogo Noivo, em 20.09.16

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Graham Greene e John le Carré ensinaram-nos que o bom espião é aquele que passa desapercebido numa rua vazia. Às séries de televisão coloca-se o desafio inverso, o de sobressair num mercado sobrelotado e ruidoso. Infelizmente, The Americans não foi bem sucedida na missão pois recebeu uma atenção do público muito inferior à merecida, de tal forma que o blogue ‘Quinta Temporada’, do El País, a considera digna do rótulo “a melhor série que não estás a ver”.

The Americans relata a vida de Elizabeth (Keri Russel) e Philip Jennings (Matthew Rhys), dois espiões russos casados pelo KGB, que os infiltrou nos Estados Unidos da América em plena Guerra Fria. São membros do Directório S, um programa da espionagem soviética formado por agentes sem cobertura oficial, pessoas que à superfície têm vidas normais e aborrecidas, simples cidadãos americanos na aparência. Passando do pequeno ecrã para o mundo real, a existência deste tipo de espiões foi motivo de alerta nas Forças e Serviços de Segurança norte-americanos durante a Guerra Fria, embora o caso recente da rede de “ilegais” russos detidos em solo americano prove que este tipo de espionagem não é um anacronismo.

 

Regressando a The Americans, se a espionagem e o conflito entre mentalidades soviéticas e o capitalismo geram tensão suficiente para agarrar o espectador, o outro lado da história não lhe fica atrás. A gestão da vida quotidiana, sobretudo no que concerne à relação com os dois filhos, alheios à vida dupla dos pais (algo que não é um delírio criativo), confere uma densidade à série que muito a valoriza. O guião está bem estruturado, com tramas quase sempre bem urdidas, e é exímio ao agregar a ficção ao momento histórico da Guerra Fria, coordenando o desenrolar da acção com factos políticos relevantes da época, mas também com episódios marcantes da cultura popular americana, como por exemplo a exibição do telefilme The Day After (emitido a 20 de Novembro de 1983, pela ABC). É verdade que algumas das ramificações do estribo narrativo se relevam inconsequentes, mas nem por isso são rasas ou menos interessantes.

Criada por Joe Weisberg (um antigo funcionário da CIA) e por Joel Fields,The Americans começa com um ritmo ligeiro, que vai acelerando ao longo das temporadas, sem nunca perder a sobriedade que nos faz esquecer que se trata apenas de ficção. É uma série tão discreta quanto notável, e aqui sim faz jus aos espiões de Greene e Le Carré. Os dilemas morais que as séries contemporâneas exploram à saciedade são tratados sem exageros ou frivolidades dramáticas. A instabilidade moral é, em The Americans, uma parte grave mas normal na vida de um espião.

Com a chancela da FX, The Americans vai na quarta temporada e terminará com a sexta entrega, a emitir em 2018. Portanto, os interessados vão mais do que a tempo para meter os episódios em dia. Vale a pena.

 

NOTA: O ano ainda não terminou, mas em matéria de séries televisivas já é possível fazer um balanço. Durante as próximas semanas, à terça-feira, trarei ao DELITO as séries que, para mim, foram as melhores de 2016.

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Só lá faltou o Barbas

por Pedro Correia, em 09.09.16

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A TVI inaugurou esta semana um novo "formato": a entrevista sem contraditório. Anteontem, no seu canal de notícias, esta estação televisiva teve como convidado especial o presidente do Benfica. Durante uma hora e cinco minutos.

José Alberto Carvalho estava lá, em pé, a assistir com um sorrriso embevecido. Mas a entrevista foi conduzida por três adeptos do clube dos encarnados: Domingos Amaral, Pedro Ribeiro e Diamantino Miranda. Sentados ao lado do presidente da agremiação a que pertencem.

Nenhum deles integra os quadros da TVI, tanto quanto sei. E não faltam jornalistas por lá que bem poderiam exercer aquela função. Mas a direcção editorial optou por este original formato, que levou o ex-jogador encarnado Diamantino a dar o pontapé de saída com estas comoventes palavras: "Luís Filipe Vieira é conhecido, entre os benfiquistas e não só, como um dos presidentes - senão o único - que tem demonstrado um grande respeito pelos actuais jogadores e pelos antigos jogadores. E eu posso prová-lo."

Estava dado o tom à nova modalidade: a entrevista puxa-saco. Aguardo agora com interesse as futuras entrevistas da TVI 24. Quando lá tiver o presidente do Sporting, um painel de adeptos leoninos prontos a questionar Bruno de Carvalho. Quando lá for o líder do PSD, um trio de militantes sociais-democratas. Quando lá for o primeiro-ministro, só correligionários de António Costa.

Paz e sossego, conversa mole, solo de violino, manteiga no pão, mais sorrisos embevecidos: infotainment no seu melhor. Espero que da próxima vez seja também dado tempo de antena ao Barbas: porque não há-de ser ele um dos "entrevistadores" de Vieira? Se for preciso até lhe passam carteira profissional de jornalista.

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Quando dava formação a jovens candidatos a jornalistas, costumava fazer testes de elementar cultura geral a esses estagiários. Entre outras perguntas, pedia-lhes que me dissessem o nome da capital das Honduras. E logo ali ficava evidente quem tinha leituras e saberes acumulados, mesmo sem alguma vez lhe passar pela cabeça visitar Tegucigalpa.

Testes deste tipo pelos vistos prosseguem, com as perguntas mais diversas e nas ocasiões mais inesperadas. Por vezes até em directo nas televisões.

Juan Carlos Monedero, um dos fundadores do Podemos e presença habitual nas tertúlias televisivas em Espanha, lembrou-se há dias de perguntar a um jornalista, seu parceiro de painel num acalorado debate no programa Espejo Público, da Antena 3, se ele sabia o nome do Presidente da República de Portugal.

Estupefacção em estúdio: ninguém parecia ter ouvido alguma vez falar em Marcelo Rebelo de Sousa. E a própria apresentadora do programa - Susanna Griso, uma das mais conhecidas jornalistas da televisão espanhola - acabou mesmo por dizer: "Quase ninguém sabe como se chama o Presidente de Portugal."

Este momento lapidar de Espejo Público funciona como espelho, sim. Da gritante ignorância espanhola em relação ao nosso país e da chocante incultura dos tudólogos que pululam nos estúdios televisivos. Tanto lá como cá.

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Em política, o que aparece é

por Pedro Correia, em 21.07.16

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Eu gostaria de ver a política imitar o melhor do futebol. Afinal por cá vejo o futebol a imitar o pior da política. Não o futebol jogado, note-se. Refiro-me ao futebol falado. Ultimamente o espaço do comentário futebolístico nas televisões tem sido invadido por dirigentes, treinadores e funcionários de clubes, numa réplica do espaço habitual do comentário político, hoje parasitado por deputados de todos os partidos.

Tanto os comentadores-dirigentes como os comentadores-deputados são parte interessada em tudo quanto comentam. Cada frase que proferem deve ser entendida no contexto das suas ambições pessoais e das suas legítimas expectativas: a meritocracia em Portugal mede-se pelo número de aparições nos ecrãs televisivos, que funcionam como passaporte automático para patamares cada vez mais elevados.

Na política, nada disto é novo. Em 2002, Emídio Rangel convidou Pedro Santana Lopes e José Sócrates para formar um duo de comentadores na RTP: dois anos depois emergiam ambos como líderes dos dois principais partidos, tendo ascendido à chefia do Governo. Em 2007, pela inefável mão de Pacheco Pereira, António Costa iniciou-se como comentador regular da SIC Notícias: estava lançada a sua candidatura à liderança do PS. Em vez de mergulhar no Tejo, como sucedera a Marcelo Rebelo de Sousa em 1989, mergulhou na telepolítica. Terá engolido alguns sapos, mas pelo menos evitou engolir salmonelas.

De resto, o percurso do actual Presidente da República, construído essencialmente nas últimas duas décadas como comentador alternado de um canal privado e do canal público, confirma esta estreita ligação entre a ascensão política e os holofotes televisivos. Mas Marcelo é Marcelo - um caso à parte no plano comunicacional. Ouvi-lo era um hábito irresistível, por mais que discordássemos do seu tom ou do seu estilo.

Algo muito diferente é assistir ao penoso desfile de deputados que marcam os serões televisivos nos canais noticiosos. Com raras excepções, nada mais têm a debitar do que umas solenes vacuidades, confrangedoras na forma e despojadas de conteúdo. Tanto lhes faz, desde que consolidem o território na respectiva trincheira. Podem todos proclamar-se fiéis ao lema dos novos tempos: em política, o que aparece é.

Eu já evito escutá-los - desde logo porque sei tudo quanto dirão ainda antes de abrirem a boca. Mas não cesso de me espantar quando vejo que as televisões abdicam cada vez mais dos seus próprios comentadores para cederem tempo de antena à confraria dos deputados.

Agora está a acontecer algo semelhante no reduto do comentário futebolístico, cada vez mais confiado aos representantes das confrarias dos dirigentes e dos treinadores. Também aqui só quem aparece é. Saiba ou não saiba falar, tenha ou não tenha coisas originais para dizer, saiba distanciar-se ou não de rancores e ódios pessoais que lhe contaminem o discurso.

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Fora de série (balanço)

por Pedro Correia, em 21.06.16

Durante cinco semanas mantivemos aqui uma série colectiva de textos - mais uma, a juntar a várias outras publicadas no DELITO - intitulada Fora de Série. Precisamente sobre as séries, mais remotas ou mais recentes, que nos marcaram enquanto telespectadores.

Fica a recapitulação, em jeito de balanço:

 

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Competiu-me dar o pontapé de saída, a 15 de Maio. Escrevendo sobre ALL IN THE FAMILY / UMA FAMÍLIA ÀS DIREITAS.

 

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Seguiu-se o Luís Naves, a 16 de Maio. Com ESPAÇO 1999, um clássico televisivo de ficção científica.

 

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A primeira menina - e terceira autora - a chegar-se à frente foi a Marta Spínola, que escreveu a 17 de Maio. Sobre HILL STREET BLUES / A BALADA DE HILL STREET.

 

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A 18 de Maio, a Patrícia Reis trouxe-nos aqui outra série de boa memória: WE'LL MEET AGAIN.

 

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Também inesquecível é a série escolhida a 19 de Maio pelo Sérgio de Almeida Correia, número cinco deste lote: LA PIOVRA / O POLVO.

 

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A ficção científica regressou a 20 de Maio, desta vez pela pena do Luís Menezes Leitão, autor de um texto sobre STAR TREK / O CAMINHO DAS ESTRELAS.

 

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21 de Maio entrava em cena o João André, escrevendo sobre BLACKADDER.

 

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PIPI DAS MEIAS ALTAS, conhecida produção sueca, foi a série escolhida pela Isabel Mouzinho num texto aqui publicado a 22 de Maio.

 

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Originalidade: a mesma série - LES GALAPIATS / OS PEQUENOS VAGABUNDOS - mereceu dois textos, com pontos de vista muito diferentes, assinados pelo José Navarro de Andrade23 de Maio e pela Ana Vidal a 24 de Maio.

 

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O Diogo Noivo entrou em cena a 25 de Maio, com um texto sobre X FILES / FICHEIROS SECRETOS. Série que tem andado por aí outra vez, para satisfação de muitos nostálgicos...

 

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26 de Maio o Rui Rocha lembrou-nos LING CHUNG, um herói do Oriente.

 

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Veio então o João Campos, partilhando connosco a 27 de Maio as recordações que guarda de SLEDGE HAMMER!

 

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BONANZA, clássico dos clássicos, não podia faltar: passou por cá a 28 de Maio. Pela pena do Fernando Sousa.

 

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E OS SOPRANOS chegaram a 29 de Maio. Com a Teresa Ribeiro a lembrá-los cá no blogue.

 

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Foi então o momento de lembrar a série espanhola VERÃO AZUL, que marcou toda uma geração. Com texto da Francisca Prieto, publicado a 30 de Maio.

 

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Chegou depois DUARTE & COMPANHIA, pela mão do Alexandre Guerra. Um quase-clássico português, aqui lembrado a 31 de Maio.

 

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E quem não se lembra de MacGYVER? Também ele passou pelo DELITO, a 1 de Junho, recordado pela Ana Lima.

 

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Uma das mais hilariantes séries de sempre marcou igualmente presença cá no blogue: FAWLTY TOWERS, de que nos falou o José António Abreu a 2 de Junho.

 

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ERA UMA VEZ O ESPAÇO, série de animação, foi lembrada aqui a 3 de Junho pelo Adolfo Mesquita Nunes.

 

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Outra série de animação, NARANJITO / FUTEBOL EM ACÇÃO, mereceu destaque a 4 de Junho, num texto do António Manuel Venda.

 

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Chegou então o célebre SEINFELD, de que nos falou o José Maria Gui Pimentel a 11 de Junho.

 

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E a série encerrou a 19 de Junho com um texto da Ana Cláudia Vicente. Sobre SIX FEET UNDER / SETE PALMOS DE TERRA.

 

Vinte e três textos no total.

Espero que tenham gostado.

Não tardaremos a lançar nova série colectiva cá no blogue. Prometo dar notícias muito em breve.

 

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Quando terrorista parece turista

por Pedro Correia, em 17.06.16

«Hoje ninguém mais discute que, apesar de ser uma língua só, temos a variante brasileira e a variante portuguesa, iguais em quase tudo mas diferentes especialmente no vocabulário (o que é natural) e na pronúncia (como pode ser constatado em qualquer canal da TV portuguesa).

Na pronúncia portuguesa, há uma forte tendência de queda das vogais átonas. "Pelotão", na voz dos âncoras da RTP, soa como "plutão". Luís Fernando Veríssimo conta que assistiu a uma chamada sobre os atentados de Paris e demorou a perceber que o "turismo" de que tanto falavam era, na verdade, "terrorismo". Esse processo teve um impacto direto na pronúncia dos pronomes átonos, que lá ficaram anêmicos, praticamente reduzidos a uma mera consoante. Em "dá-me", por exemplo, o "me" é realizado como /m'/, em "devo-te", o "te" vira /t'/, literalmente uma cuspidinha.

Aqui no Brasil, porém, ocorreu exatamente o contrário: o sol dos trópicos fez muito bem às vogais, deixando gordos e saudáveis nossos pronomes.»

 

Cláudio Moreno, professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor d' O Prazer das Palavras, em artigo de opinião na revista Veja 

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A ideologia nas séries de TV

por Pedro Correia, em 14.06.16

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 CSI original (2000)

 

Os ditames da correcção política têm levado as séries televisivas norte-americanas a distanciar-se progressivamente da realidade, criando um universo paralelo que só existe na tela e nada tem a ver com o mundo real. Serve de entretenimento, claro. Mas em nenhum momento sentimos que existe ali a amálgama de sangue, suor e lágrimas correspondente à vida de todos os dias. E em poucos domínios isso se verifica tanto como nas séries policiais.

Senti isso recentemente, ao ver há meses pela primeira vez as duas temporadas iniciais (2000-02) do tão celebrado CSI: Crime Scene Investigation – o genuíno, o de Las Vegas. Uma série inovadora por focar aspectos científicos e tecnológicos relacionados com a perícia forense, aliás depois repetidos até à náusea por um enxame de imitações muito inferiores.

CSI entrelaça habilmente as vidas de vítimas, criminosos e funcionários do laboratório policial da cidade, ressaltando dessa amálgama um curioso mosaico social. O problema é vermos esse mosaico distorcido pela ideologia: os criminosos são na esmagadora maioria homens brancos, de 30 a 45 anos, pertencentes à classe média-alta ou ricos. Matam em regra por cupidez, ganância, inveja. Em mais de 40 episódios destas duas temporadas só por duas vezes vi criminosos oriundos das chamadas minorias étnicas.

Lamento, mas o mundo não é assim – um mundo enxameado de assassinos brancos e tendencialmente milionários, não muito novos nem velhos. Este padrão de criminoso socialmente correcto, mais do que os prodígios tecnológicos destinados a esboçar a identidade de um homicida a partir de um cabelo plantado num soalho, fazem de CSI um produto distorcido, embora estimável.

 

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 Um Crime, Um Castigo: a diferença francesa

 

Nada a ver por exemplo com uma excelente série policial francesa que revi em simultâneo, na RTP 2 – canal que deste modo cumpre a sua missão de serviço público ao proporcionar-nos o acesso a produções fora do âmbito da indústria norte-americana. Refiro-me a Um Crime, Um Castigo (originalmente intitulada Engrenages), realizada entre 2005 e 2014.

Ao contrário da equipa chefiada pelo biólogo Gil Grissom na noite de Las Vegas, a brigada que tem como líder a capitã Laure Berthaud lida com todo o género de criminosos: residentes e imigrantes, velhos e novos, homens e mulheres, vagabundos, prostitutas, chulos e drogados, pessoas de todas as cores, de todas as classes e todas as crenças ou descrenças. É gente que anda por aí, nas esquinas de avenidas, ruas e vielas. Gente comum, surgindo no ecrã sem o absurdo espartilho imposto por sucessivas exclusões étnicas, religiosas ou de género que abre um abismo entre a televisão e a vida real nos Estados Unidos.

Antes o panorama era diferente - algo bem demonstrado por séries como Hill Street Blues (1981-87)ainda realizadas longe das ameaças de boicotes e processos judiciais exercidas pelos influentes grupos de pressão que hoje condicionam os estúdios cinematográficos e televisivos norte-americanos, onde funcionam como comissões de censura prévia, impondo um monolítico padrão de mau – invariavelmente WASP [White, Anglo-Saxon, Protestant].

Os Sopranos (1999-2007) foi talvez a  última grande série norte-americana capaz de enfrentar com êxito estes poderosos lóbis que patrulham a escrita, realização e actuação televisiva nos Estados Unidos. Ali havia assassinos que “vinham de baixo”, falavam inglês com sotaque e matavam porque o mal é intrínseco à natureza humana, ao contrário do que apregoam os novos teólogos da ideologia socialmente correcta.

Que o digam Laure e os tenentes Gilou e Tintin: eles enfrentam marginais de carne e osso, não apenas as caricaturas de conveniência que a cartilha impõe.

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 Apresentadora da RAI3, com um dos seus célebres decotes/Foto actualizada

 

Segundo aquilo que se leu na imprensa, desde a semana passada que vigora um novo código de indumentária na RAI (televisão pública italiana), para que as suas pivots de informação tenham “uma imagem mais recatada, menos provocadora”. Decotes, vestidos justos e outros trajes que possam ser considerados mais arrojados estão proibidos. Em qualquer outra televisão pública europeia ou de outra parte do mundo esta medida até passaria despercebida e até poderia ser compreensível. Mas fazer isto na RAI é quase o mesmo que vestir uma tanga ao David de Miguel Ângelo. 

 

A Itália é um país fascinante a vários níveis e a RAI é também um pouco o espelho da realidade daquele país, com tudo o que tem de bom e de mau. A arte, a história, a cultura, a beleza, a elegância, o prazer, a gastronomia, a paisagem, tudo se conjuga de uma forma desorganizada, mas ao mesmo tempo irresistível. E com a política italiana passa-se o mesmo. Apesar de, por vezes, ser dominada por uma total ausência de ordem e lucidez, a verdade é que é impossível ficar-se indiferente ao que por lá se vai passando. De certa maneira, assemelha-se a uma arena romana que vai servindo para entreter o povo, onde tudo é possível, mesmo as maiores barbaridades, mas os aplausos não deixam de soar.

 

Em Itália tudo é vivido com intensidade, paixão e irracionalidade, para o melhor, mas também para o pior. Nada é inconsequente. Só em Itália se encontram fenómenos como o da deputada Cicciolina (hoje seria apenas uma pequena excentricidade, mas como explicar uma coisa destas ainda nos anos 80?) ou de Silvio Berlusconi (imagine-se, o político que se manteve durante mais tempo no cargo de primeiro-ministro desde a II GM). Ou nos anos mais recentes, o da ascensão meteórica de um palhaço (no sentido literal) na cena política transalpina. É por isso que o sistema político italiano é um autêntico laboratório. Em Itália tudo é possível e tudo é aceite com a maior das normalidade. Regras e normas ficam para os europeus "normais", já que os italianos preferem a incerteza do dia seguinte e a animação da anarquia sistémica. Mas, o curioso é que o sistema político italiano lá vai funcionando. À sua maneira, é certo.

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De vez em quando, sigo de relance uma telenovela portuguesa - daquelas que me garantem ter "imenso sucesso" e serem acompanhadas devotamente, noite após noite, por audiências dos mais diversos segmentos sociais.

Tendo sido espectador regular das primeiras telenovelas que se produziram em Portugal (Vila Faia, Origens, Chuva na Areia) e de algumas posteriores, como A Banqueira do Povo, sinto curiosidade em perceber a evolução do fenómeno. Mas facilmente me decepciono, por motivos que adiante explicarei. E volto a passar meses sem espreitar nenhuma.

 

Em primeiro lugar, há muito mais glamour do que havia nos tempos pioneiros da Vila Faia. Agora elas são quase todas muito novas, muito giras e muito produzidas. Não há caras feias, quase não se vislumbra ninguém com rugas e as variações geracionais dos protagonistas são mínimas. Não estamos perante um simulacro da realidade: estamos perante a sua distorção.

 

Em segundo lugar, vejo pouquíssimos actores - daqueles calejados em anos de trabalho nos palcos ou na tela. Os papéis parecem exigir apenas intérpretes muito jovens, de carinhas larocas, gente 'formada' nas passarelas da moda e não no Conservatório, numa espécie de Morangos com Açúcar em versão perpétua.

 

Em terceiro lugar, todas as personagens falam com sotaque de Lisboa - muito 'tá em vez de está, muito te'fone em vez de telefone, indo muito p'à praia em vez de seguirem para a praia. A direcção de actores que tão bem fez trabalhar sotaques e pronúncias na primeira telenovela da SIC, A Viúva do Enforcado, andou para trás de então para cá e hoje é possível escutarmos uma pretensa açoriana ou uma suposta portuense dizerem 'chtamoch em vez de estamos ou mêmo em vez de mesmo, como se fossem transplantadas do eixo Lisboa-Cascais.

Disparate? Pois é. Mas ninguém parece reparar. E dirigir actores dá trabalho, leva tempo e custa dinheiro: o melhor é não se pensar nisso.

 

 

Em quarto lugar, reparo que o verdadeiro protagonista é o sofá da sala. Vivem quase todos em casas com salas enormes, mobiladas com sofás a perder de vista, onde 80 por cento dos diálogos se desenrolam. Curiosamente, parecem morar todos em vivendas ou duplexes: se repararem com atenção, encontram sempre uma escadaria interna no décor. Outra curiosidade: não existem átrios, antecâmaras ou corredores: por mais luxuosa que seja a residência, entra-se directamente da porta da rua para a sala de estar. E ninguém parece reparar em tal incongruência.

 

Em quinto lugar, e apesar de quase todas as cenas ocorrerem dentro de portas, o guarda-roupa é sempre próprio de quem está fora. Nada de roupões, de T-shirts de alças, de pijamas, de calções, de pantufas ou chinelos. Elas estão sempre em casa de vestido e salto alto, eles jamais despem o casaco ou afrouxam sequer o nó da gravata. Todos são incapazes desse gesto tão comum (e para mim obrigatório) que é descalçar os sapatos da rua assim que entram em casa.

 

Em sexto lugar, abundam padres de sotaina e cabeção, à moda antiga, sopeiras fardadas e até mordomos de libré, como nos filmes ingleses dos anos 30. Nada mais démodé, em perfeito contraste com o tom pretensamente modernaço da maior parte das telenovelas.

 

Em sétimo lugar, é frequente ouvirmos os patrões tratar os empregados por tu, como se fossem todos antigos latifundiários alentejanos antes do 25 de Abril. Nada mais anacrónico.

 

Em oitavo lugar, é impressionante o número dos que não trabalham. Aliás, o mundo do trabalho está praticamente ausente das telenovelas. À luz do dia, as personagens passam o tempo a entrar e a sair das respectivas casas. Raras vezes o local de trabalho é ponto de encontro e são escassos os protagonistas que desenvolvem alguma actividade profissional credível. Há dias vi até um "jornalista" estendido no inevitável sofá a dizer à mulher ou namorada que acabara de escrever uma "crónica" que lhe dera imenso trabalho e estava já a pensar na "crónica" do dia seguinte embora estivesse com uma aflitiva falta de tema. É tocante esta forma como o quotidiano dos jornalistas surge nas novelas da TV - qualquer semelhança com a realidade não passa de coincidência.

 

 

Em nono lugar, os diálogos. Têm todos a espessura de uma banal troca de mensagens de telemóvel. Recentemente, ouvi numa telenovela da Globo a expressão "custar os olhos da cara" e achei quase insólito que surgisse num diálogo de ficção televisiva. Porque as telenovelas portuguesas só raras vezes - quase por descuido - recorrem às saborosíssimas e tão genuínas expressões idiomáticas da nossa língua, sedimentadas através das gerações: preferem os diálogos sincopados, cheios de termos monossilábicos, na concisa fraseologia lisboeta contemporânea, incapaz de ultrapassar uma centena de vocábulos.

Daí proliferarem diálogos do género:

- Como 'tás?

- 'Tou bem. E tu?

- Tudo OK. 'Bora lá?

- Fixe. 'Tou nessa.

Já para não falar no clássico dos clássicos do género: entra Beltrana na casa de Sicrano e diz: "Temos de falar". Como se vivêssemos num tempo anterior à invenção dos telefones.

 

Em décimo lugar, os nomes. Elas falam com eles e eles falam com elas debitando a todo o momento os nomes uns dos outros. Talvez para não se esquecerem como cada um se chama no meio de tanta personagem.

Mesmo que a interlocutora seja a melhor amiga:

- Tu gostas do Eduardo, Rita?

- Não tenho a certeza se o Eduardo é homem p'ra mim, Leonor.

Mesmo que se trate de um par de namorados já maduros:

- Podemos jantar amanhã, João? Vou buscar-te ao escritório.

- Não posso, Filipa. Amanhã é dia de eu estar com o meu filho Gonçalo.

Pormenor: o Gonçalo é filho único, o que torna absurda a invocação do nome. Se falássemos assim na vida quotidiana parecíamos uns tontinhos. Mas nestes diálogos telenovelescos ninguém parece estranhar.

 

Em décimo primeiro lugar, os pequenos-almoços. Só nas novelas televisivas há tempo, oportunidade, sincronia e paciência para todos os ocupantes da mesma casa tomarem a primeira refeição do dia pausadamente sentados em lautas mesas onde nunca faltam grandes jarros com sumos de frutas tropicais, como se estivessem hospedados em hotéis de luxo.

Ah, estas inesquecíveis cenas de pequeno-almoço: são um must divertidíssimo, embora absurdo, destas ficções que pretendem 'copiar' a realidade e afinal estão irremediavelmente longe dela.

Texto reeditado e ampliado

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E se fosse consigo?

por Ana Vidal, em 19.05.16

Acredito, sem ironias, que Catarina Martins tenha mesmo sido apanhada por acaso no programa "E se fosse consigo?". Por que havemos de pensar sempre o pior das pessoas em todas as situações?

Mas, já que as figuras públicas entraram na dança, tenho uma sugestão para a Conceição Lino: inverter os papéis. Num próximo programa, pôr como actores um político e um jornalista conhecidos à chapada num jardim público (assim de repente, lembrei-me de João Soares e Augusto Seabra, ou Sócrates e um jornalista do Correio da Manhã) e ver as reacções dos transeuntes. Tenho genuína curiosidade de saber se alguém iria separá-los, dar-lhes lições de civismo ou... ajudar à festa.

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Os mesmos de sempre

por Pedro Correia, em 03.04.16

São sempre os mesmos comentadores, ano após ano, década após década. Desfilam nos canais de sempre debitando as mais esforçadas banalidades de que são capazes. Nos últimos dois dias, ouvi sete (não exagero) sublinharem, com ênfase de La Palice, que "o futuro de Passos Coelho está dependente da boa ou má prestação do governo de António Costa".

Cada um que comparece no ecrã copia sem pudor o que o anterior disse. Falam longos minutos, horas, dias, meses. Dizendo coisas profundíssimas, como a frase que mencionei acima. Antes de começarem a falar já adivinho tudo quanto vão dizer - às vezes palavra por palavra.

Falam de política reclamando "reformas", "inovação", "golpes de asa". Sem perceberem que a verdadeira reforma, a maior inovação, o mais genuíno golpe de asa dos canais que os acolhem com aparente carácter vitalício seria removê-los e pôr outros no lugar deles. Outros que dissessem coisas que talvez nos surpreendessem, que talvez nos dessem pistas interessantes, que talvez nos pusessem a pensar.

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Terapia

por Francisca Prieto, em 15.02.16

Apesar de não costumar assistir a ficção portuguesa, comecei a ver na diagonal a Terapia, na RTP1, por ser amiga de uma das actrizes. Três episódios mais tarde, ainda nem se vislumbrava no ecrã um cabelo da tal amiga, e já estava rendida à série. Ao invés do registo noveleiro a que a televisão portuguesa nos tem habituado, em Terapia assistimos a um registo muito próximo do universo cinematográfico. Com a particularidade de ser um formato que exige excelência do trabalho dos actores, porque é disso que se trata: de dissecar a alma humana até ao seu fio mais descarnado. E ninguém aguentaria assistir a minutos sem fim de texto, em grande plano, se este não fosse muito bem interpretado.

No primeiro episódio, a Soraia Chaves aguenta-se bem, mas num papel ingrato: o de mulher destrambelhada que se faz valer pela sedução (já a tínhamos visto fazer isto, e bem, pelo que não nos caem os queixos).

É no segundo episódio que nos rendemos com um Alex interpretado pelo Nuno Lopes, que nos diverte, ao mesmo tempo que nos esmurra o estômago. E ao longo de todas as terças feiras, a personagem vai ganhando cada vez mais corpo, ao ponto de a dissociarmos do actor. Tão bom, mas tão bom, que é imperdível.

Depois, quando liguei a televisão na primeira quarta feira da série, dei com uma adolescente chamada Catarina Rebelo que me fez entregar os pontos. O raio da miúda é tão bem malcriada que estamos sempre à espera de ver quando é que o Virgílio Castelo perde a paciência.

A minha amiga aparece mais à frente, como mulher do Virgílio Castelo, o psiquiatra de serviço. Primeiro de mansinho, em cenas curtas, mas depois, às sextas feiras, com mais protagonismo, durante as sessões de terapia de casal com a Ana Zannati (impecavelmente igual a si própria, num desempenho tranquilíssimo).

Ora eu estava habituada a ver esta minha amiga noutro tipo de registo. Concretamente no de Manoel de Oliveira, onde fazia de senhora do Douro, ou descia dos céus feita ninfa no meio da guerra colonial, ou então era uma freira, ou até uma rapariga pobre do Raul Brandão, a falar francês pelo filme fora. Sempre tudo muito devagarinho e com olhares enigmáticos.

Sempre bem, sempre em obras de eleição, mas num universo etéreo, como se fosse fora do mundo.

Era-me muito difícil avaliar o seu trabalho de actriz porque ficava invariavelmente desconcertada. Tinha sempre a sensação de que aquela senhora era uma espécie de sósia da minha amiga a quem digo montes de disparates sem qualquer cerimónia, e isto, de alguma maneira, não fazia sentido.
Na sexta feira passada quando a vi, na Terapia, fiquei banzada. Provavelmente porque a personagem se move num universo que me é mais próximo, pela primeira vez consegui olhar para a Leonor actriz sem que fosse através de uma cortina de organza. Deparei-me com uma força extraordinária, que se movimenta pelo texto fora (e que difícil que era o raio do texto e que violenta era a tensão do momento cénico) e que derruba tudo, com uma fluidez irrepreensível e uma linguagem corporal de se lhe tirar o chapéu.

Parabéns à direcção de actores, parabéns aos actores e, se me permitem, uma grande salva de palmas à minha amiga de quem tanto me orgulho.

 

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Está tudo explicado, bolas!

por Sérgio de Almeida Correia, em 13.11.15

Um país que tem um programa destes na televisão é um país profundamente doente, um país de alienados e anormais. A situação política é um reflexo da popularidade e longevidade de programas como este. E de alguns ainda piores.  

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Até o microfone treme

por Pedro Correia, em 17.09.15

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Não vi o jogo, mas conservei a música de fundo. Não era Mozart, nem a Callas, nem sequer Ella Fitzgerald

Era o que se arranjava: Luís Freitas Lobo.

Enquanto trabalhava, mantive ontem o som da partida Dínamo de Kiev-Futebol Clube do Porto, transmitida pela Sport TV: forneceu a atmosfera ideal para me me concentrar naquilo que fazia.

Freitas Lobo é muito mais do que um comentador do esférico: é um verdadeiro poeta da pantalha, artífice da metáfora, ourives do rendilhado oral.

Fala de futebol como se discorresse sobre física quântica. Ficamos a perceber o mesmo: nada. Mas não deixamos de admirar aquela catarata de palavras com o seu cunho inconfundível.

 

Aqui estão algumas das suas pérolas, que fui escrevinhando enquanto o escutava de costas para a televisão: 

«O Porto neste início de encontro define uma zona de pressão média-baixa.»

«Lopetegui não pediu largura a André André, pede-lhe que apareça por dentro a pegar na bola.»

«O jogador russo já lhe tinha ganho a frente.»

«O Porto baixou a zona de pressão.»

«Embora jogando com dois pivôs, há sempre a possibilidade de um deles bascular um pouco para fazer essa cobertura.» 

«André André procura sempre associar-se a outras linhas, juntando as pontas do meio-campo.»

«É uma transição individual, feita apenas por um jogador em posse, sem a ligação colectiva que a equipa deve ter nessa construção mais apoiada.»

«Ruben Neves tem que esticar o jogo mais rapidamente no flanco.»

«André André adapta-se a tudo isto com a sua intensidade e qualidade de interpretação dos espaços.»

 

Outros diriam: por qué no te callas? Mas eu não. Considero aliás que Lobo está para a bola como algumas divas estão para a ópera: com ele ao leme, até o microfone treme. De reconhecimento e emoção.

Só lamento que actue em transição individual, feita apenas por um jogador em posse, sem a ligação colectiva que a equipa deve ter nessa construção mais apoiada.

Signifique isto o que significar.

Também aqui

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Política-(mau)espectáculo

por José António Abreu, em 24.07.15

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De pé em frente a um palanque vazio. Perguntas de eleitores que divagam e se repetem antes de chegarem ao ponto de interrogação. Vídeos e musiquinhas com letras tão profundas quanto aforismos de telenovela. Deslocação do entrevistado para vários pontos do cenário, sem justificação aparente, de que resultam problemas com a iluminação. Bloqueio da imagem do entrevistado por colocação do entrevistador diante da câmara. Acompanhamento do entrevistado «à saída», com mais uma pergunta e uma resposta a meio do caminho, em posição totalmente forçada. Questões extra no cenário habitual dos noticiários, antecedidas da transmissão da entrada do entrevistado no estúdio e da colocação do microfone na sua roupa. Cumprimentos pouco naturais para aqui, despedidas artificiais para ali.

Só me conseguia lembrar do gestor do canal televisivo na série Borgen que insistia em transformar as entrevistas e os debates políticos em espectáculos. Com uma diferença: na ficção dinamarquesa, alguém tinha o bom senso de recusar o ridículo; na realidade portuguesa, ele é abraçado entusiasticamente.

 

(Imagem recolhida no site da TVI24.)

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Um mau serviço ao feminismo

por José Maria Gui Pimentel, em 10.06.15

O programa Barca do Inferno surgiu no outono  passado com o objectivo louvável de interromper a monotonia machista no comentário político em Portugal. Infelizmente, acabou por ter o efeito inverso, num equilíbrio progressivamente cada vez mais insustentável, que culminou com a saída de Manuela Moura Guedes, esta semana. 

O primeiro episódio foi -- perdoem-me  a franqueza -- dos melhores momentos de humor em televisão nos últimos anos. Três das quatro participantes no painel sentiam visivelmente o peso do desafio, e nem por um momento deixavam penetrar um grama de trivialidade nas respectivas declarações. Completamente descompassada, Marta Gautier -- cuja presença no programa é incompreensível -- surgia ao seu estilo, com comentários non-sense do ponto de vista das companheiras de painel e absolutamente desfasada da actualidade política da semana. A interacção era absolutamente hilariante e, numa primeira emissão, teve a virtude de disfarçar parcialmente a acrimónia visceral existente entre as participantes, que se uniram para zurzir numa desprevenida Marta Gautier. Esta última não viu alternativa senão deixar um programa em que nunca deveria ter entrado. 

O painel foi, então, completado com Sofia Vala Rocha, que se juntou a Manuela Moura Guedes à direita, para fazer frente a Isabel Moreira e Raquel Varela, às quais competia representar a esquerda no painel. E, aqui, o programa transitou -- sem passar pela casa de partida -- para um espectáculo crescentemente desconfortável para o espectador, com um destilar progressivo de animosidades mútuas e insultos muito para além da esfera política.

É difícil dizer em quem começou o azedume, se bem que logo no primeiro programa Isabel Moreira e Manuela Moura Guedes tenham surgido com uma agressividade inesperada (esforço-me aqui para resistir a uma familiar metáfora mais machista), sobretudo tratando-se da primeira emissão. O estilo de ambas faria adivinhar um confronto difícil, mas o resultado esteve muito para lá de um combate meramente duro. Rapidamente, o painel ficou dividido entre esquerda e direita, com o debate a dar lugar a uma tentativa permanente de rebaixamento do adversário.

Em suma, o resultado do programa dá muito que pensar em relação ao caminho para o necessário reequilíbrio do debate político. Afastando-nos -- embora partindo -- deste caso em concreto, preocupa que uma mulher possa entender que a agressividade e a sisudez sejam condições essenciais para ser levada a sério no debate político. Não devia ser, nem (julgo) o é. É muito curioso, de resto, o contraste com outros programas do género, que se desenrolam muitas vezes durante largos minutos sem os intervenientes levantarem a voz.

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Excertos do Graham Norton Show (7)

por José António Abreu, em 18.03.15

Star Wars contra Star Trek.

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A política pura e dura na televisão.

por Luís Menezes Leitão, em 17.03.15

À semelhança da Teresa também eu estou a acompanhar com muito interesse Os Influentes, depois já ter feito o mesmo com a Borgen. Onde já não a acompanho é na relevância dada à actual House of Cards, a meu ver mais uma cópia americana de má qualidade de uma extraordinária série da BBC, a House of Cards, que passou em 1995. Bem podem ter as mesmas iniciais (FU), e Kevin Spacey ter o talento a que já nos habituou, mas a meu ver Frank Underwood nunca baterá Francis Urquhart.

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Excertos do Graham Norton Show (6)

por José António Abreu, em 17.03.15

Seth MacFarlane explica a origem das vozes de algumas personagens da série Family Guy e adapta a mensagem do filme Taken, na qual a personagem interpretada por Liam Neeson ameaça os raptores da filha, à voz do sapo Cocas, dos Marretas.

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A moda da política sem filtros na TV

por Teresa Ribeiro, em 17.03.15

 

 

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Nunca vi, em tão pouco tempo, estrearem na televisão tantas séries sobre os bastidores da política. Dos EUA veio a viciante House of Cards, da Dinamarca, a Borgen e agora passa na RTP2 a primeira temporada da série francesa Os Influentes (no original, Les Hommes de L'Ombre).

Todas excelentes, e de sucesso internacional, reflectem uma tendência ditada pelo impacto público das primeiras produções do género. Ignoro se foi House of Cards a acender o rastilho, mas o que me interessa é perceber porque só recentemente os jogos de poder, tão velhos como o mundo, passaram a receber este tratamento laboratorial. Filmes documentais ou ficcionais sobre política e políticos existem desde os primórdios do cinema. Da propaganda aos filmes de causas, pensávamos já ter visto tudo, mas afinal faltava a versão hard-core.

"- Daqui a uma semana acaba tudo.

 - Não tem planos?

 - Nada. Fico na reserva da República. Sabe o que é um reservista? É o tipo que chamam à últma hora quando não há pessoas suficientes para agitar as águas.

 - Proponho-lhe algo mais gratificante.

 - E melhor pago? Isso também conta. O meu nível de vida vai ser reduzido.

 - O que lhe proponho é legal e simples. Quando deixar de ser Primeiro-Ministro contrato-o como advogado para defnder os interesses da empresa.

 - Adorava aceitar a proposta, mas não sou advogado.

 - Todos os parlamentares podem ser. Demora exactamente três semanas, basta-lhe prestar juramento.

 - E defendo quem? O quê?

 - As emendas que lhe sugerir para levar à Assembleia.

 - Não é clientela.

 - Explico de outra maneira. Como advogado parlamentar não pode apresentar emendas em nome dos seus clientes. Mas pode fazê-lo a favor dos meus. Intervém por conta da empresa que age em nome dos clientes. É muito simples.

 - É legal?

 - Evidentemente. É por agirem com absoluta legalidade que muitos parlamentares são também advogados. Quando explicam as escusas para intervir em comissões às quais pertencem, provam a sua honestidade.

 - A menos que peçam a colegas para agirem em seu nome.

 - Ou apresentem conselhos de agências como a minha. Tudo isso permite apagar as ligações entre um projecto-lei e o deputado que o defende. Não existe nenhum conflito de interesses aparente entre as partes.

 - Conhecia a prática mas nunca pensei nessas subtilezas.

 - Se aceitar a minha proposta contrato-o como advogado com o salário de um Primeiro Ministro." - este é um exemplo (retirado do episódio 6) de um dos excelentes diálogos que podemos seguir em Os Influentes.

A novidade nestas produções é a exposição total. Nenhum detalhe é esquecido. Quem nunca passou pelos bastidores da política pode agora fazê-lo em casa, sentado no sofá. O papel decisivo dos spin doctors na intriga política, a extraordinária importância que se dá, quando se trabalha a um nível muito profissional, a pormenores como a largura do tampo da mesa que vai estar em estúdio para um debate televisivo, a promiscuidade entre assessores e jornalistas e consequente instrumentalização da Comunicação Social, a apropriação da mensagem política pelo marketing, a transformação de candidatos em produtos, os golpes da baixa política, tráfico de influências, conflitos de interesses, corrupção, tudo se desvenda.

A House of Cards falta-lhe a contenção europeia. A luta pelo poder do protagonista, Frank Underwood (Kevin Spacey interpreta-o tão bem que se arrisca a ficar para sempre com este personagem colado à pele), embora fortemente inspirada na realidade cede a exigências comerciais e até morais. Exagerando na amoralidade da política - Frank já teve que semear alguns cadáveres na sua ascensão ao Nirvana - a série, ao mesmo tempo que atrai nos EUA audiências que gostam de acção, não fere as susceptibilidades de um público mainstream que apesar de tudo prefere uma barreira protectora de ficção à volta das suas instituições. Não por acaso, Obama já disse publicamente que é fã desta série. Prova maior de que é confortável para o meio que pretende retratar.

Mas desviei-me do ponto. Porquê isto agora? Penso que se trata de uma questão de percepção de maturidades. A crise das democracias revelou eleitorados cada vez mais difíceis de conquistar, porque tal como nos casamentos gastos, já não têm mais nada a aprender com o outro. Sabem tudo, não vão em conversas. Sabem demais. Daí os níveis crescentes de abstenção, o desinteresse.

Já não há nada a esconder, nem os podres, que escândalo a escândalo, se foram derramando nos jornais, por isso por que não desocultar segredos de polichinelo e partilhá-los na praça pública? Alguém ligado aos media um dia pensou nisto. Pensou que podia fazer da fonte das nossas frustrações cívicas um sucesso mediático. E acertou em cheio. Seguir estas séries é catárctico. Estávamos mesmo a pedi-las.

 

Foto de: Os Influentes

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Excertos do Graham Norton Show (5)

por José António Abreu, em 16.03.15

Anne Hathaway ensina como fingir o efeito de gravidade zero. Decididamente, os filmes têm efeitos especiais cada vez mais complexos.

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Excertos do Graham Norton Show (4)

por José António Abreu, em 13.03.15

Keira Knigthley e Samuel L. Jackson falam de expressões e cenas de sexo. Gosto do momento em que ele refere ser conveniente pedir antecipadamente desculpa às actrizes para a eventualidade de se ficar excitado e também para a eventualidade de não se ficar excitado.

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Excertos do Graham Norton Show (3)

por José António Abreu, em 12.03.15

Emma Thompson desafia Lenny Kravitz a provar que o corpo que surge na capa do álbum é mesmo o dele. Hugh Grant mantém a fleuma.

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Excertos do Graham Norton Show (2)

por José António Abreu, em 11.03.15

Meryl Streep («I was looking for an excuse all night») reage a elogio de Mark Ruffalo.

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Excertos do Graham Norton Show (1)

por José António Abreu, em 10.03.15

Sir David Attenborough, 88 anos de idade bem conservados, flirtando com Jessica Chastain (como o entendo).

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Chamam-lhe informação...

por José António Abreu, em 22.02.15

Há pouco mais de uma hora, no Jornal da Tarde, a TVI noticiou que Fernando Alonso sofreu um acidente esta manhã, nos treinos para o Grande Prémio de Espanha. Isto quando o campeonato de Fórmula 1 ainda nem começou (trata-se de uma sessão de testes de pré-temporada). Talvez seja preferível os canais de televisão generalistas limitarem-se a falar de futebol, tema para o qual parecem dispor de várias centenas de especialistas.

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Borgen: descubra as diferenças

por Teresa Ribeiro, em 27.01.15

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Também eu ando a seguir Borgen com o maior interesse. Desde que me apaixonei por The Killing, a primeira série dinamarquesa da minha vida, que fiquei atenta ao que nos chega dessa proveniência, sobretudo se vier com o selo de garantia da produtora DR, que assina estes dois produtos de excelência.

The Killing transportava-nos pelos trilhos obscuros do crime, sem concessões ao que por deformação da excessiva exposição às séries americanas do género estabelecemos como norma: gente gira, muita acção, diálogos curtos e assertivos, heróis para nos seduzir e fidelizar. Em vez de fogo de artifício oferecia-nos uma aproximação à realidade que nos colava à cadeira.

Borgen, que é sobre política, seduz-nos também por esse realismo, suportado como em The Killing por interpretações excepcionais. Não vou adiantar-me mais sobre a série, pois no Delito já foi enaltecida mais que uma vez. Se volto ao assunto é porque a surpresa de ver, de episódio para episódio, expostas situações entre políticos, jornalistas e assessores que nos são familiares me levou a procurar as diferenças. Entre a Dinamarca, que está permanentemente no topo do ranking dos países com melhor qualidade de vida, e Portugal afinal só pode haver diferenças.

Através de Borgen, as que melhor se observam passam ao lado da trama política. Um contraste que salta à vista é o estilo de vida da protagonista, mãe de dois filhos menores e que no início da série ainda vemos casada. Apesar de ser primeira-ministra e mulher de um professor universitário, a sua vida familiar decorre dentro de padrões que entre nós só são expectáveis numa vulgar família de classe média. O casal não tem empregada e divide entre si as tarefas domésticas. Não há mordomias, nem luxos, é tudo muito frugal.

Já se sabia que na escandinávia até se vêem ministros a ir para o trabalho de bicicleta. A cultura é outra. Os governantes consideram-se a si próprios funcionários públicos e são legalmente tratados como tal, mas Borgen despertou-me a curiosidade. Uma pesquisa levou-me a um estudo comparativo da autoria do jornalista Gustavo Sampaio, publicado no seu livro "Os Privilegiados". Uma pesquisa que revela até que ponto é falacioso o argumento de que os políticos em Portugal são mal pagos e têm uma vida dura. Ora tomem nota:

 

Na Dinamarca os membros do parlamento são obrigados a receber um vencimento base, acrescido de ajudas de custo pelas funções que desempenham (cá, os políticos podem optar entre as pensões que recebiam e o vencimento, como fizeram Cavaco Silva e Assunção Esteves).

O vencimento base de um membro do parlamento dinamarquês é de 600 998 coroas dinamarquesas/ ano (cerca de 80 605€). Repartido pelos 12 meses corresponde a cerca de 6717€/ mês, mais do dobro do vencimento base de um deputado português em regime de exclusividade (3271, 32€/ mês). Porém, os deputados portugueses recebem subsídio de Natal e de férias e a carga fiscal dinamarquesa é mais elevada (em 2012 a taxa máxima era de 56,6%, enquanto que em Portugal foi de 49%).

Na Dinamarca os abonos suplementares limitam-se a uma verba destinada a ajudas de custo: 665,54€/ mês, livres de impostos. Em Portugal há ajudas de custo para os deputados que residem fora da Grande Lisboa (69,19€/dia). Nos casos mais extremos as ajudas de custo podem ultrapassar os 2000€/mês, ao que se acrescentam as despesas de representação (que não estão previstas na Dinamarca). Um deputado português, em regime de exclusividade  aufere 334,24€/mês em despesas de representação, mas a verba pode ser maior conforme os cargos que exerce.

Ao contrário dos dinamarqueses, os deputados portugueses têm direito a ser compensados pelas despesas de transporte, que são pagas ao Km. Na Dinamarca os membros do parlamento recebem passes para transportes públicos.

Descontados os impostos e somados os valores das ajudas de custo, os deputados dinamarqueses auferem entre 3500€ e os 4500€. A remuneração dos deputados portugueses depende de mais variáveis, mas um deputado em regime de exclusividade que resida fora da Grande Lisboa poderá receber 5534,58€ ilíquidos/mês, não muito menos que o rendimento ilíquido dos dinamarqueses: 7382,69€/mês. Em termos líquidos, a diferença é ainda menor, devido à carga fiscal na Dinamarca ser mais elevada.

The last but not the least: Os ex-políticos dinamarqueses não têm direito a pensões suplementares nem a reformas antecipadas, nem à contagem de anos a dobrar para efeitos de aposentação. Reformam-se como toda a gente aos 65 anos e têm os mesmos benefícios que qualquer outro funcionário público. Na Dinamarca também não existem subvenções vitalícias.

Tal como em Portugal, os deputados dinamarqueses podem acumular as suas funções com outras actividades remuneradas, só que isso não acontece muito, porque em regra não têm tempo. Quanto a ex-ministros integrarem conselhos de administração de empresas de sectores que tutelaram enquanto governantes está fora de questão, embora não haja lei que o impeça.

Pois, não é preciso escavar muito para descobrir as diferenças.

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Perigo

por José António Abreu, em 20.01.15

Sabes, Raylan, eu aprendi a pensar sem discutir comigo mesmo.

Boyd Crowder, vilão da série televisiva Justified.

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Blogue da Semana

por Ana Cláudia Vicente, em 05.01.15

A sugestão que hoje vos trago não está em linha há muito tempo. Chama-se TV Walk With Me. Como o mote deixa entender, ali se fala do bom e do mau de um dos mais simples vícios do nosso tempo: a  televisão. E da nossa vida a par dela.

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Elas na TV

por Patrícia Reis, em 19.10.14

Há cerca de dez anos, era comum lerem-se entrevistas a actrizes norte-americanas sobre a falta de papéis interessantes. Hoje, as actrizes têm papéis interessantes e estão a mudar a face de uma certa forma de se fazer televisão. Há dez anos, fazer televisão não era considerado prestigiante. Hoje, é um caminho.

Shonda Rimes (produtora) é uma das protagonistas da mudança. Começou com a Anatomia de Grey (o nome deriva do apelido da personagem que faz voz off e conta a história, Meredith Grey, interpretada por Ellen Pompeo), depois Scandall (com Olivia Pope - a actriz Keira Washington - a dar cartas no mundo da política e da espionagem) e agora surge com How to get away with murder ( Viola Davis a fazer de Annalise Keating, advogada e professora). Além destas séries, podemos ainda ver (abençoado cabo e internet) Madam Secretary (Tea Leoni na Casa Branca, Bess McCord) e Segurança Nacional (Claire Danes a fazer de Carrie Mathison e a lutar na CIA para que o mundo seja mais... qualquer coisa).

O mais pertinente não será entrar na discussão sobre o género, será reconhecer que é possível entregar a actrizes, produtoras, guionistas, todas com com enorme qualidade, séries de televisão que conseguem ter boa audiência e que reflectem o mundo na perspectiva das mulheres. Os maridos (personagens!) podem, ou não, sentir-se ameaçados com o poder que as mulheres têm; os filhos podem compreender ou nem por isso; os receios e as expectativas não são menores por serem personagens mulheres. As personagens prinicipais, mulheres, têm poder, são más, são boas, são interessantes. E a televisão, de acordo com os homens cá da casa, torna-se mais apelativa.

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Mulheres ao debate

por Patrícia Reis, em 11.10.14

A RTP Informação decidiu promover um programa de comentário sobre a actualidade com um painel de mulheres. E, como está na moda, um humorista para dar cartas serve de moderador (!?)

Nada contra.

A primeira emissão - Manuela Moura Guedes, Marta Guatier, Raquel Varela, Isabel Moreira - foi de tal forma fraca que a primeira baixa apresentou-se ontem: a actriz e psicóloga, Marta Gautier anunciou a sua retirada.

O programa chama-se Barco do Inferno e diz que é para continuar.

Nada contra.

Não compreendo sequer os comentários nas redes sociais sobre o "clube do bolinha ao contrário". Não vejo mal nenhum, pelo contrário, em ter a perspectiva das mulheres. Há anos que temos programas semanais com comentadores maioritariamente homens.

Nada contra, atenção!

Discutir, debater, analisar é saudável e há mulheres que o podem fazer com inteligência.

Escolher um bom painel é como escolher uma equipa para a seleccção nacional, dizia-me um senhor há dias.

Pode ser que sim. Escolher é sempre difícil. Perceber as dinâmicas também. As posições, políticas ou outras, também têm o seu papel neste tipo de programa. A formação ou experiência, diria, é crucial.

Vamos ver o que a Barca do Inferno nos dará no futuro.

E, para terminar, ficai com Gil Vicente que, sendo homem, tinha umas coisas para dizer.

“Corregedor – Ó arrais dos gloriosos,
passai-nos neste batel!
Anjo – Oh, pragas pera papel
pera as almas odiosos!
Como vindes preciosos,
sendo filhos da ciência!
Corregedor – Oh, habetatis, clemência
e passai-nos como vossos!
Parvo – Hou, homem dos breviários,
rapinastis coelhorum
et pernis perdigotorum
e mijais nos campanários!”

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Ljubomir Stanisic

por Helena Sacadura Cabral, em 19.09.14
O nome é difícil de pronunciar, mas mais difícil ainda é não ficar rendido ao programa de culinária que ele conduz no canal de cabo 24 Kitchen, que se chama Papa Quilómetros. Trata-se de Ljubomir Stanisic, considerado um dos Chef's sensação do momento. 
Depois do programa “Masterchef” e de ter lançado o seu próprio livro, oferece-nos agora na televisão um programa no qual não só investiga como descobre os segredos e as tradições das iguarias nacionais. 
Mas faz mais. Ao percorrer o país em todos os sentidos, presta um serviço digno de registo ao turismo nacional, já que confeciona as suas receitas quase sempre no meio natural, entre paisagens lindíssimas.
Com uma história de vida que, sendo curta – nasceu a 8 de Junho de 1978 em Sarajevo –, é ao mesmo tempo longa, porque começa num sonho de criança cuja musa é Rose, a sua mãe, que apesar de cozinhar batatas todos os dias, conseguiu fazer com que nenhum deles fosse igual ao outro. Quem sabe se não terá sido este o estímulo para a sua imparável criatividade?
Em Belgrado estudou na Universidade Popular Bazidar Adzila e inicia uma carreira que o levaria, no seu país, a sub chefe da Padaria e Pastelaria Skadarilija.
Mas a guerra leva-lo-ia a fugir e, depois de várias peripécias, a vir parar na tranquilidade do Gerês. Mais tarde encontraria Vitor Sobral, com quem fica até que, já bem mais seguro de si, decide forjar o seu destino, com um notável percurso pessoal e profissional, que acumula merecidos prémios.
Será no 100 Maneiras em Cascais que a sua carreira dá um salto e a página do livro da sua vida se vira definitivamente para o sucesso. Sabe internacionalizar-se e anda um ano inteiro com a família, numa auto caravana a tentar descobrir os segredos gastronómicos do velho continente.
Volta, abre mais dois restaurantes com o mesmo nome – o Bistrot e o Nacional - e torna-se um fenómeno televisivo ao qual a Fox International Channels irá, com o seu Papa Quilómetros, dar uma nova dimensão de internacionalização.
Para os amantes de cozinha, ver um estrangeiro falar a nossa língua como muitos de nós não falamos e a dar a conhecer a nossa história, a nossa gastronomia e o nosso país, é motivo de orgulho. E um prazer para quem, como eu, vê na confecção dos alimentos, uma forma de partilha de amizades.

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O retorno

por Helena Sacadura Cabral, em 29.08.14

Judite de Sousa voltou ontem ao ecrã da TVI, com uma entrevista a Cristiano Ronaldo. As marcas da dor pela qual passou - e passa - estão bem visíveis. Não no rosto, ou no vestuário, impecáveis. Mas no olhar e na voz porque, esses, não há tecnologia que disfarce. Pelo contrário, intensifica-os.

Nunca escondi a minha admiração por Cristiano Ronaldo. Pelo homem que veio menino sozinho para Lisboa traçar o seu futuro, pelo desportista que fez mais pelo nome de Portugal do que muitos "emproados" que a tal se outorgam e pelo chefe de família em que se transformou. Mas, sobretudo, por esse orgulho de ser quem é, de ser português e de nunca renegar as suas origens. Não é pouco, no mundo actual. O resto são floreados.

A primeira parte da longa entrevista referiu-se, sobretudo, à vida profissional. Não sendo especialista na matéria, julgo que Cristiano respondeu sabiamente às perguntas que lhe foram feitas. Já não é, mais, o jovem que cometeu alguns erros. É um homem que soube tirar deles as devidas lições e que os não nega. 

Tocou, aliás, numa matéria muito importante: a ideia que cada um tem de si próprio. Para dizer que precisa de se considerar o melhor para fazer o que faz, mas que isso não implica que ele seja o melhor. Só esta resposta merecia, por si só, uma entrevista. A ele Cristiano e a muitos de nós.

Judite esteve bem. Triste, mas boa profissional. Hoje veremos, ao que sei, a parte afectiva e familiar do nosso craque. Da qual falarei amanhã, se a matéria o justificar.

Mas dei por bem empregue o tempo que passei junto ao televisor. É que a conversa valeu muito mais do que os medíocres debates televisivos a que, por norma, estamos sujeitos.

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A morte em directo

por Pedro Correia, em 22.08.14

 

Foi o primeiro filme de grande impacto que nos mostra um estadista assassinado quase em directo. Aconteceu a 9 de Outubro de 1934, em Marselha, momentos após o desembarque na segunda maior cidade francesa do Rei Alexandre da Jugoslávia. O cortejo automóvel em que seguia, ao lado do ministro francês dos Negócios Estrangeiros, rodara poucas centenas de metros quando o monarca foi assassinado à queima-roupa por um anarquista búlgaro, no banco traseiro de uma viatura parcialmente aberta.

Tudo aconteceu a curtíssima distância de um operador de câmara da Pathé, que colhia imagens para um cinejornal (precursor dos telejornais naquela época). O facto de o motorista ter também morrido de imediato, com o pé pressionando o travão do automóvel, facilitou a recolha de imagens, que não tardaram a dar a volta ao mundo, exibidas nas salas de cinema.

Tudo isto aconteceu, note-se, três décadas antes de outro magnicídio com imagens captadas em directo: o do presidente norte-americano John Kennedy, em 22 de Novembro de 1963. Apesar de haver dezenas de fotorrepórteres e operadores de câmara profissionais no local, apenas um cineasta amador, chamado Abraham Zapruder, captou o preciso instante em que o crânio do inquilino da Casa Branca era estilhaçado pelo terceiro tiro disparado da mortífera carabina de Lee Harvey Oswald.

Vinte e seis segundos que a América jamais esquecerá. Mas que só foram vistos na íntegra em 1975: na altura, as imagens foram consideradas demasiado chocantes para serem exibidas na televisão.

 

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Uma certa morbidez

por Helena Sacadura Cabral, em 20.08.14
Uma malfadada intoxicação alimentar - gosto de comer e julgo, sempre, que nada me faz mal - atirou-me para chá e torradas em frente a um telejornal que eu já deveria saber, por experiência, que só agrava ou mesmo provoca qualquer mal incipiente que possamos ter. Foi o caso.
Durante dois terços do jornal de um dos canais noticiosos, assisti a todo o tipo de desgraças: um jornalista americano degolado, um homem que queimara com água fervente a filha bébé porque ela não parava de chorar, um incêndio que matara pai e filho, que já se encontravam litigados em tribunal, a guerra na Crimeia e na Síria, os bombardeamentos na faixa de Gaza, a eventualidade do Papa Francisco abdicar, enfim, até a venda do Hospital da Luz a um grupo mexicano. 
Pergunto: teremos todos de saber, ao pormenor - com fotos dramáticas -, estas notícias? Não chegará, já, a carga dos problemas nacionais para acinzentarem a nossa vida? Não haverá um editor que saiba distinguir o trigo do joio, o essencial do acessório?
Todo este apelo à violência não gerará mais violência?! Não haverá estatutos editoriais que ponham um limite a esta exploração do miserabilismo?
Só posso dizer que estamos a caminhar para uma sociedade cada vez mais alucinada e mais mórbida e que uma certa comunicação social tem grande responsabilidade nisso!

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O comentário da semana

por Pedro Correia, em 17.08.14

«Ou um conhecido programa televisivo de intriga futeboleira - uma espécie de tempo de antena, de viveiro ou incubadora, para o período de gestação, reserva ou travessia de deserto de ex-futuros-políticos-dirigentes-de-clubes-ou-partidários-bastonários-e-afins -, não tivesse ontem começado (o programa e, parece, a "temporada" dessa crucial peça formativa de cidadania; foi então um momento solene no devir da Pátria) com a questão do BES e seus efeitos sobre o jogo e as suas "jogadas".

Um programa, julgo saber, mas deverei do que vi estar enganado, onde o tema é o futebol. Salvo meu novo erro, uma modalidade desportiva e não um ramo da actividade bancária.

Estava aqui, ao computador, distante do que debitava o televisor. Quando dei por aquilo, entre repulsa e atordoamento (porque espanto não poderia ser: nem quanto a programas alegadamente sobre futebol - àquela hora e dia são-no em todos os canais da chamada "informação" -, nem quanto "à captura", como agora se diz, do futebol pelo dinheiro), e antes de mudar o canal - desligar o televisor, na verdade - apercebi-me da desvergonha. Fosse pela legenda, em rodapé da imagem, fosse pela tentativa de graça, algo hipócrita, de um dos tudólogos da bola de serviço, ameaçando, após calorosas saudações a um outro tudólogo da bola, novo naquele serviço, abandonar o programa, por nele (e veja-se!) se abordar o BES e não o futebol.

Palhaçadas de senhores doutores (todos, claro, que ao futebol interessa, na sua estratégia de domínio incondicional das mentes, apresentar-se como coisa em que os instruídos, talvez cultos e bem-amaneirados, se curvam em idolatria perante os ignorantes sem modos, cobertos de tatuagens, penteados bizarros, roupa e acessórios chocantes e muitos "póssamos", "fáçamos", "tênhamos" e similares; o povinho, que há que manter calmo, em suma).

Que o povo gosta. Muito.

Ainda vamos pagar - explicitamente, entenda-se, porque indirectamente... - os resgates de alguns clubes. E está muito bem assim e nem podia ser de outra maneira.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste meu texto.

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