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O herói da nova tragédia grega

por Pedro Correia, em 06.05.17

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Eu sei que as memórias andam fracas, mas gostava de saber se alguém ainda se lembra do delírio messiânico que acolheu a vitória eleitoral de Alexis Tsipras na Grécia, em Janeiro de 2015.

Os hossanas tributados durante meses em incontáveis serões televisivos cá no burgo e nas páginas da imprensa portuguesa não deixavam lugar a dúvidas: a "verdadeira esquerda" personificada pelo líder do Syriza iria enfim fazer peito às balas "neoliberais" disparadas de Bruxelas e Berlim proclamando o perdão unilateral da dívida.

"Não pagamos" era a palavra de ordem.

Meninas com pendor anti-sistema confessavam a sua ardorosa admiração pelo efémero ministro grego das Finanças e houve até quem se fizesse fotografar com ele em comícios. Cavalheiros com irrepreensível pedigree revolucionário apressaram-se a produzir epístolas aos indígenas lusos apontado Atenas como a nova capital das luzes europeias. Jornais sempre prontos a deixar-se embalar pelos ventos dominantes derreteram-se de fervor pelo farol helénico, que nos iluminava para o "fim da austeridade".

 

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"A vossa voz anulou a austeridade. A troika é passado", anunciou Tsipras à multidão reunida para ovacioná-lo a 25 de Janeiro de 2015, provocando uma corrente orgástica no rincão luso.

Nem a coligação logo estabelecida entre o Syriza e o Anel, representante da direita nacionalista, fez esmorecer os crentes. Nem sequer o apoio manifestado ao novo Executivo por Marine Le Pen e Nigel Farage, irmãos de fé eurofóbica, abrandou a prosa ditirâmbica daqueles que por cá já anteviam o PS a ser ultrapassado pelo Bloco, equivalente local do novo partido do poder entre os herdeiros espirituais de Sócrates (o genuíno).

Durante grande parte desse ano, enalteceu-se o experimentalismo político, a irresponsabilidade demagógica, o populismo mais rasteiro (incluindo as camisas sem gravata pour épater le bourgeois), a navegação à vista.

Tsipras, o "anti-Passos", era o novo ídolo das massas.

 

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Manuela Ferreira Leite e José Manuel Pureza irmanavam-se no louvor à "devolução da dignidade" do povo grego. "Pela Grécia passa a salvação da Europa", garantia Ana Gomes, insuflada de júbilo. "O Governo grego conseguiu dobrar a Alemanha", entusiasmou-se Freitas do Amaral. "A Alemanha teve de ceder", sorria Nicolau Santos. "A Grécia teve a coragem de resistir às pressões das potências europeias", celebrou André Freire.

"Viva a Grécia", gritou a escritora Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. Enquanto o pintor Leonel Moura constatava que "uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras" e do seu ministro das Finanças, por quem "muitas mulheres da Europa" andariam "perdidas de amores". Isabel Moreira, bem ao seu jeito, corroborava.

Boaventura de Sousa Santos, confirmando que de Coimbra também se observa o mundo, vislumbrou ali rasgos de odisseia homérica: "A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa."

 

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Alguém tem ouvido estas e outras boas almas que se derramavam em cânticos e louvores à "nova Atenas" voltar ao tema?

Certamente não. E provavelmente pelos motivos que surgem enumerados neste artigo do Guardian que nos mostra a verdadeira face da Grécia após dois anos e meio de Executivo Tsipras: mais cortes de pensões (18% até 2019), novos aumentos de impostos, novo pacote de privatizações em marcha, nem vestígio de perdão da dívida.

Tudo isto para travar in extremis  um quarto resgate de emergência e afastar o espectro da bancarrota num país que desde 2009 é incapaz de se financiar nos mercados internacionais e só nos primeiros dois meses de 2015 viu desaparecer cerca de 2,5 mil milhões de euros em depósitos bancários.

Em sete anos, o produto grego caiu 27% - mais do que o ocorrido nos EUA durante a Grande Depressão - e a dívida pública ascendeu a 180% do PIB. O desemprego, agora situado em 23,5%, não dá sinais de queda. Ninguém acredita que daqui a um ano, quando terminar a actual intervenção externa, o país recupere a soberania financeira, hoje hipotecada pelo Banco Central Europeu.

Afinal o Syriza não fazia parte da solução: faz parte do problema.

 

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Outra  greve geral já está marcada na Grécia, desta vez para o dia 17. Mas Tsipras, herói da nova tragédia helénica, resiste firme: continua a não usar gravata.

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Dois anos é muito tempo

por Pedro Correia, em 25.01.17

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Lembram-se? Faz hoje dois anos. O Syriza venceu por escassa margem a eleição legislativa na Grécia e foi quanto bastou para a Europa mediática - cada vez mais dissociada do pulsar real das sociedades - se erguer em hossanas ao suposto novo Ulisses que resgataria o povo helénico de todas as humilhações.

Por cá, o Jornal de Notícias concedeu uma rara manchete "editorializada" a um tema internacional proclamando: "Grécia - o princípio do fim da austeridade". O Público foi menos sucinto mas ainda mais crédulo no seu título garrafal da primeira página: "Grécia vira a página da austeridade e deixa Europa a fazer contas".

 

Numa interminável cascata verbal, sucediam-se as efusões de júbilo. "Pela Grécia passa a salvação da Europa", celebrava Ana Gomes. "Terminou a austeridade pura e dura na Grécia", sentenciou Freitas do Amaral. "A Grécia renasceu hoje", entusiasmou-se José Castro Caldas. "A Europa vai ter de ceder", ameaçava Nicolau Santos.

O pintor Leonel Moura, fazendo "análise política" pela via da estética, apontou como causa do triunfo eleitoral da esquerda radical grega "a boa imagem de Tsipras, reforçada agora pela de Varoufakis". Boaventura Sousa Santos, do alto da sua cátedra coimbrã, imaginou o líder do Syriza equiparado a Charles de Gaulle em 1944: "A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa." Já Catarina Martins, fiel aos clássicos, optou por parafrasear Marx: "Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo."

 

Eram os tempos da tenebrosa "senhora Merkel" que, qual vampira, nos sugava até à última gota de sangue. A mesma que, ao visitar Lisboa, foi crismada de assassina a nazi. "Queríamos queimar a Merkel viva", gritaram vozes num incendiário directo televisivo. Francisco Louçã, com o seu sofisticado vocabulário político, chamava-lhe "assaltante" e "pirata".

Mas as coisas mudaram. A "austeridade" não só não terminou na Grécia como se tornou ainda mais dura e draconiana, com um novo  programa de resgate e um referendo inútil que Tsipras convocou para logo o deitar para o lixo, para utilizar a elegante expressão da líder do Bloco de Esquerda.

O pintor Moura não voltou a pronunciar-se sobre os supostos atributos estéticos do duo Tsipras-Varoufakis, aliás desfeito numa das primeiras curvas do sinuoso caminho da governação que o Syriza tem experimentado. Um partido afinal igual aos outros mal segura as rédeas da governação, numa Europa hoje assolada por um sem-fim de novos problemas - do terrorismo às migrações maciças, passando pelo espectro da sua própria desagregação devido à onda dos populismos emergentes, quase todos de matriz identitária, parentes próximos dos que devastaram o continente noutras épocas, de péssima memória.

 

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 Varoufakui e Tsipras: um duo volatilizado

 

Com o espaço comunitário sob a ameaça da desagregação, na sequência do referendo britânico de Junho passado, e o cenário da tomada do poder por forças extremistas em França ou na Holanda, além da crescente tendência dos europeus de Leste para rejeitarem a política comunitária, sem esquecer as pulsões anti-imigratórias que já se estenderam à península escandinava, ninguém voltou a falar de Tsipras.

Varoufakis volatilizou-se.

A "segunda libertação da Europa" não passou de um sonho de uma noite de Inverno de um simpático sociólogo de Coimbra.

E Merkel tornou-se a última legítima herdeira da sólida aliança entre democratas-cristãos e sociais-democratas que garantiu sete décadas de paz, prosperidade e progresso ao continente europeu. Passou a ser elogiada por muitos que ainda há pouco a detestavam.

Não por acaso, é cada vez mais contestada em casa pelo populismo vociferante, em perfeita identificação com o ar dos tempos.

 

A vitória eleitoral do Syriza aconteceu apenas há dois anos mas parece ter ocorrido há uma eternidade. Comprovando que, quando se fala em política, o nosso planeta parece girar muito mais rapidamente em torno do seu eixo.

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A queda a pique do Syriza

por Pedro Correia, em 30.05.16

Sondagem confirma crepúsculo da ex-nova esperança da esquerda europeia.

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Já não entoam hossanas a Tsipras

por Pedro Correia, em 25.01.16

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Faz hoje um ano, a "verdadeira esquerda" triunfou na Grécia. Alexis Tsipras, líder do Syriza, proclamou em Atenas o fim da austeridade, provocando um coro de hossanas um pouco por toda a Europa.

Poucos pararam para pensar que nenhum líder político soluciona problemas financeiros com retórica inflamada. A razão cedia lugar à emoção, como ficou bem patente no dia seguinte em eufóricas manchetes de periódicos como o Jornal de Notícias e o Público. "Grécia - o princípio do fim da austeridade", anunciava o primeiro, em parangonas. "Grécia vira a página da austeridade e deixa a Europa a fazer contas", bradava o segundo, igualmente em letras garrafais.

 

Um ano depois, o que temos?

A austeridade afinal vigora na Grécia. Mais apertada que nunca, após um terceiro resgate no valor de 86 mil milhões de euros que Tsipras se viu forçado a aceitar para evitar in extremis a bancarrota do país, pondo de lado todas as bravatas que lhe haviam rendido votos e o aplauso acéfalo de pequenas e médias multidões de colunistas.

Doze meses exactos após a vitória eleitoral do Syriza, imitando qualquer social-democrata ou "neoliberal", a esquerda "revolucionária" helénica implora por investimento externo enquanto os gregos apertam cada vez mais o cinto. As pensões de reforma e benefícios sociais estão sujeitas a cortes que podem chegar aos 30%. E o IVA dos restaurantes e dos transportes subiu para 23%.

Intervindo perante os próceres da finança internacional na mais recente reunião do Fórum Económico Mundial em Davos, iniciativa antes diabolizada por servir de cobertura ao "capital especulativo", Tsipras anunciou sem pudor que Atenas "era parte do problema e agora quer fazer parte da solução". E, dando o dito por não dito, fez nova jura de equilíbrio das contas públicas enquanto acedia à tutela do FMI sobre as finanças gregas - algo que há um ano constituía um anátema para a sua base eleitoral de apoio.

Desde então o chefe do Executivo grego enfrentou duas greves gerais, violentas manifestações nas ruasruidosos protestos de um número crescente de cidadãos - incluindo  agricultores e  funcionários públicos - que se sentem  traídos pelas promessas que ficaram por cumprir. Incluindo o fim dos cortes salariais e da vaga de privatizações no país.

 

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Vale a pena recordar o que escreveram e disseram há um ano diversas personalidades que produzem opinião no espaço público português. Para se perceber até que ponto eram irreais as expectativas que depositavam neste resultado eleitoral.

E para se perceber também até que ponto as convicções pessoais, nomeadamente do foro ideológico, perturbam a capacidade de entender a realidade.

 

Ana Gomes: «Pela Grécia passa, antes, a salvação da Europa.»

António Costa: «Vitória do Syriza é um sinal de mudança que dá força para seguir na mesma linha.»

Boaventura de Sousa Santos: «A vitória do Syriza teve o sabor de uma segunda libertação da Europa.»

Catarina Martins: «Hoje vira-se uma página na Europa. Hoje começa-se a colocar a austeridade no caixote do lixo.»

Daniel Oliveira: «A vitória do Syriza é a única boa notícia que a Europa pode receber nos próximos meses.»

Freitas do Amaral: «Eles [governo grego] recuaram muito, mas a Alemanha recuou muito mais. (...) Terminou a austeridade pura e dura [na Grécia].»

José Castro Caldas: «A Grécia renasceu hoje. O medo falou e perdeu.»

José Vítor Malheiros: «A Grécia vai ter finalmente um Governo grego, composto por gregos que se preocupam com a vida dos cidadãos gregos.»

Leonel Moura: «Uma parte do sucesso do Syriza deve-se à boa imagem de Tsipras, reforçada agora pela de Varoufakis. Ao que parece muitas mulheres na Europa andam perdidas de amores por estes dois gregos.»

Nicolau Santos: «A Europa vai ter de ceder.»

Pedro Adão e Silva: «É uma transformação importante: deixou de haver uma hegemonia na forma como estava a ser governada a União Europeia.»

Pedro Bacelar de Vasconcelos: «A vitória do Syrisa lavrou a certidão de óbito de uma "política" que recusava admitir alternativas para a quebra da solidariedade europeia.»

Rui Tavares: «Os gregos abrem uma porta para a transformação das políticas da União Europeia.»

Viriato Soromenho-Marques: «A coragem da Grécia rasgou uma brecha no muro da insensatez.»

 

Um ano depois, todos estes ditirambos só podem provocar sorrisos amarelos - por estarem nos antípodas do que aconteceu. Os factos são teimosos, como Lenine nos ensinou.

Durante todo o dia, procurei ouvir novos hossanas a Tsipras. Apenas escutei um silêncio ensurdecedor.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 15.07.15

«O Syriza levou a Grécia para uma situação ainda pior do que o país estava há poucos meses.»

Augusto Santos Silva, esta noite, em entrevista à RTP i

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Saída de sendeiro.

por Luís Menezes Leitão, em 14.07.15

 

Depois de tantas bravatas, referendos, e discursos demagógicos, Tsipras acabou por se render à dura realidade, aceitando para a Grécia condições muito piores do que aquelas que tinha há seis meses. Graças ao Syriza, a Grécia deixou praticamente de ser um Estado soberano, não passando agora de um protectorado europeu, sendo obrigada a criar um fundo com os bens do seu Estado, que fica afecto como garantia aos credores. E o que choca é que esta alternativa é bem capaz de ser a menos má pois, se este acordo não fosse aceite, a Grécia seria obrigada a abandonar o euro, declarar a bancarrota e afundar-se numa inflação galopante.

 

Mas esta terrível situação por que os gregos agora passam, devido à irresponsabilidade do governo que elegeram, deveria servir de lição para os partidos de esquerda que em Portugal defendem políticas semelhantes, como desde sempre o Bloco de Esquerda e agora o PS de António Costa. É que quem quer defender o alívio da austeridade tem que estar preparado desde o início para propor aos eleitores a saída do euro, como aliás já o fazem o PCP e o MRPP. Porque dentro do euro não é possível qualquer fuga às suas regras, nem os outros Estados-membros aceitarão que permaneça no clube quem não as quer cumprir. E perante esta evidência não vale a pena contrapor a soberania nacional, e a vontade democrática do povo expressa num referendo convocado à pressão. É que só é soberano quem não precisa do dinheiro dos outros. Quem precisa, mais vale deixar-se de bravatas disparatadas. Porque corre-se o risco de às entradas de leão se seguirem as saídas de sendeiro. Como foi agora o caso do Syriza.

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Os indomáveis

por Pedro Correia, em 11.07.15

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«Sim, cometemos erros nestes cinco meses.»

Alexis Tsipras, esta madrugada, no Parlamento de Atenas

 

O Syriza chegou ao poder em Janeiro, festejado por toda a "verdadeira esquerda europeia". E também por representantes da "verdadeira direita" - a de Marine Le Pen, em França, e de Nick Farage, no Reino Unido.

Em clima de bravatas eurofóbicas, Alexis Tsipras e o seu flamejante ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, prometeram aos gregos aquilo que jamais lhes poderiam dar: um programa expansionista, que aumentava em 11,7 mil milhões de euros a despesa pública.

Foram ovacionados. Lá e .

 

Nesse momento a Grécia tinha acabado de sair de uma profunda recessão: equilibrara o seu saldo primário, apresentava uma leve recuperação económica (o produto cresceu 0,8% em 2014) e segundo as estimativas do Fundo Monetário Internacional o PIB do país aumentaria 2,5% no ano em curso.

Seguiram-se doze cimeiras europeias que não produziram resultados práticos, excepto os quatro meses de extensão do programa de assistência alcançado por Atenas a troco de mera retórica. E seguiram-se novas bravatas, que culminaram no inenarrável referendo plebiscitário de 5 de Julho, em que Tsipras voltou a defraudar os eleitores.

Prometendo-lhes algo que não estava em condições mínimas de lhes dar.

 

Nessa altura a Grécia já se tornara o primeiro país da NATO a suspender pagamentos ao FMI (deixando por transferir 3,5 mil milhões de euros a 30 de Junho).

Nessa altura, sem capacidade de financiamento, já Atenas se vira forçada a impor medidas drásticas de controlo de capitais.

Nessa altura já os bancos gregos estavam fechados compulsivamente após cinco meses de descapitalização contínua: mais de 40 mil milhões em depósitos voaram do sistema financeiro desde que Tsipras tomou posse.

Nessa altura já a maioria dos estabelecimentos exigia o pagamento em dinheiro vivo e pelo menos 20% das caixas multibanco estavam sem liquidez para remunerar os 60 euros diários de levantamento permitidos a cada cidadão.

 

O plebiscito abortou um acordo esboçado com as instituições europeias. Que daria luz verde a um terceiro programa de assistência financeira ao país a troco de reformas que mal ultrapassariam os 7 mil milhões de euros.

A 5 de Julho a maioria dos gregos votou sim. Foi uma vitória de Pirro do primeiro-ministro, como na altura escrevi aqui.

Três dias depois, já com Varoufakis fora de cena, o novo ministro das Finanças, Euclidis Tsakalotos, dirigiu uma carta à Comissão Europeia e ao Banco Central Europeu com um pedido formal de resgate. A troco de cortes estruturais na despesa pública que nunca serão inferiores a 14 mil milhões de euros.

Se antes tivessem procurado alcançar este consenso, a que só agora chegam em situação desesperada, teriam obtido contrapartidas menos duras.

 

O terceiro programa de resgate em cinco anos à Grécia deverá totalizar 53 mil milhões de euros e amarra os cidadãos helénicos a três anos de "austeridade" suplementar.

A mesma "austeridade" que Tsipras, na noite de 25 de Janeiro, afirmou triunfalmente ter terminado na Grécia.

 

As reformas começam quando o dinheiro acaba.

E, sem dinheiro, também as bravatas chegam ao fim.

Falando na longa madrugada de hoje aos deputados, Tsipras reconheceu que a Grécia vive num «ambiente económico de asfixia sem precedentes».

O terceiro pedido de assistência à Grécia em cinco anos foi aprovado no Parlamento de Atenas. Com 251 votos a favor, 32 votos contra, oito abstenções e a ausência de sete parlamentares da ala mais extremista do Syriza. Varoufakis foi um dos que se ausentaram.

Suprema ironia: valeu ao partido maioritário o apoio da Nova Democracia e do Pasok para conseguir luz verde do hemiciclo.

Falta agora a validação do pacote financeiro no Eurogrupo, no Conselho Europeu que reunirá de emergência amanhã e em pelo menos seis parlamentos nacionais, que poderão ratificá-lo ou chumbá-lo. Incluindo o Parlamento alemão.

 

Oiço agora alguns dizer - contra todas as evidências - que os governantes do Syriza "não cederam".

Pois não.

Só cederam no aumento do IVA (subida de 13% para 23% nos restaurantes).

E na questão das pensões (as do regime contributivo ficarão congeladas até 2021).

E no aumento da idade da reforma (dos 65 para os 67 anos).

E nas privatizações, que afinal vão por diante (portos do Pireu e de Salónica e redes de aeroportos regionais, nomeadamente).

E no imposto da propriedade, que será mantido.

E no quadro de mobilidade da função pública, que verá enfim a luz do dia.

E na exigência de condicionarem as reformas à reestruturação da dívida.

E na garantia aos cidadãos gregos que não haveria novas medidas de austeridade.

Mas quase não cederam nos cortes das despesas para as forças armadas. Os generais gregos podem dormir tranquilos no país europeu da NATO que tem maior ratio de militares por habitante e reserva maior fatia do seu orçamento para a defesa: 2,2%, correspondentes a 4,7 mil milhões de euros anuais.

Afinal só terão um corte de 300 milhõezitos nos próximos dois anos...

 

São indomáveis.

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Frases de 2015 (25)

por Pedro Correia, em 06.07.15

«O PS, como sabemos, não é o Syriza.»

António Costa, hoje

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Os garotos

por Rui Herbon, em 03.07.15

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Os países não podem ser governados em estado de permanente excitação. É possível adoptar a estratégia da fuga para a frente a curto prazo, com gestos, slogans e propaganda que satisfaçam num momento concreto a maioria dos cidadãos, mas nem as grandes revoluções se conseguiram instalar na retórica da política-ficção de modo indefinido. Fazer política à margem da realidade é uma farsa inaceitável. Não é sério celebrar eleições em Fevereiro (que sufragaram uma política que, por ser contrária à defendida pela generalidade dos países da União, que nunca a aceitariam, implicava o incumprimento e a saída do euro) e convocar um referendo em Julho, a correr, porque o governo eleito não tem coragem para tomar decisões (a democracia, dizia Max Weber, é um instrumento para escolher os encarregados de adoptar as decisões supostamente justas e definir contra-pesos para limitar os seus excessos) e nem sequer soube gerir os problemas que afectavam muito dolorosamente a maioria dos gregos (a economia estava a crescer antes da tomada de posse do governo do Syriza).

 

Há dias Alexis Tsipras aceitava o núcleo duro das exigências dos credores. Poucos dias antes tinha abandonado as negociações e convocado, à noite e sem avisar ninguém, um referendo. Não se entende como, apesar de querer negociar, continua a apoiar o «Não» no referendo, cuja pergunta está totalmente ultrapassada, pois refere-se a documentos que, não tendo havido acordo até terça-feira passada, deixam de estar em vigor; e os seus ministros, à falta de argumentos, continuam a usar a demagogia: «campanha de terror contra a Grécia», «conspiração para derrubar um governo de esquerda» e por aí fora. Resumindo: a culpa é dos outros. Sempre que se empreende uma política baseada na ficção, alheia às leis vigentes e à realidade palpável, responsabiliza-se o suposto adversário ou inimigo pelos males pátrios. É essa a táctica secular de ditadores e populistas de meia-tigela (que são sempre aprendizes dos primeiros).

 

Os plebiscitos precipitados são jogos com cartas marcadas. Putin (oh, o amigo Putin) fê-lo na Crimeia, e Tsipras quer transferir para os gregos uma responsabilidade que é sua. A leviandade tem um preço demasiado elevado em política, que não é um jogo para garotos.

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O melhor é ir levantando o cacau

por Rui Herbon, em 30.06.15

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Póquer grego

por Rui Herbon, em 25.06.15

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Cumpriram-se cem anos desde que as nações da Europa foram para a guerra porque os planos dos estados maiores não coincidiam com os dos governos e políticos. Cada um ia por sua conta. Os políticos não entendiam o que os militares tramavam, e quando quiseram deter a marcha para a loucura que foi a Grande Guerra já era tarde. Durante quatro anos os governos dependeram da sorte dos seus exércitos, até que a Conferência de Paris, em 1919, construiu uma nova Europa sobre milhões de mortos. Começava um período de confrontações e de mudanças que desenharam novas fronteiras sobre as cinzas dos impérios caídos.

 

Salvando todas as distâncias e mudando os países e os seus actores, poder-se-ia afirmar que o mundo da política e o dos mercados, da finança e dos agentes económicos perderam o contacto. A Europa e a Grécia esticam a corda das suas relações até ao ponto de se contemplar a possibilidade da segunda abandonar a zona euro. O BCE, o FMI e a Comissão Europeia - a troika - são quem detém a iniciativa, sob o controlo à distância do governo alemão, dos bancos europeus e dos investidores que pretendem logicamente recuperar as suas aplicações na Grécia. Um jogo muito perigoso. A ruptura seria um desastre para os gregos, mas a Europa não sairia ilesa. A maioria dos gregos quer permanecer na zona euro, mas o governo de Tsipras pede ajuda a Merkel para que os salve sem fazer as reformas imprescindíveis no país. Levamos muitos meses de negociações tensas em que por vezes, de parte a parte, se recorreu a linguagem de taberna.

 

Têm sido os dados e números esgrimidos pelas autoridades monetárias e financeiras a ditar as decisões políticas. Mas do que a Grécia precisa, depois de um resgate financeiro, é de um resgate económico. Claro que a eleição de um governo de esquerda socialista tornou mais complicada a relação com a troika. O governo helénico pede mais euros para não entrar em bancarrota; a Europa contrapõe que só se Atenas apresentar reformas credíveis que, na prática, terão efeitos negativos na vida da população. É este o nó górdio. Do lado europeu fala-se com a linguagem da austeridade; do grego com uma certa petulância ideológica que não apresenta um indício de reformismo. É perigoso jogar com linguagens distintas simplificando conceitos e mesclando situações. Podem o euro e a Europa seguir em frente deixando cair a Grécia? Ninguém sabe. Mas a própria chanceler alemã já advertiu que se o euro cair, cai a Europa.

 

Convém também recordar que uma das razões para a criação da Aliança Atlântica, em 1949, foi a incapacidade do Reino Unido e da França para defenderem a segurança da Grécia e da Turquia, numa altura em que diversos países europeus (Checoslováquia, Polónia, Hungria) caíam sob o controlo da União Soviética de Estaline. A doutrina Truman nasceu precisamente para defender a zona de influência ocidental definida na Conferência de Yalta. Os encontros de Tsipras com Putin contém uma mensagem inequívoca, ainda que neste momento a Rússia não esteja em condições de prestar ajuda a ninguém. Mas convém contemplar a crise grega também de um ponto de vista geopolítico.

 

Há que encontrar uma saída para a crise através de acordos de longo prazo. A confiança é tão frágil, e os planos da Grécia para reestruturar a sua dívida tão pouco convincentes, que esta partida de póquer pode acabar com o triunfo do forte e a humilhação do fraco, que buscaria alianças alternativas. Aos gregos, em qualquer caso, esperam-lhes tempos míseros, porque há muitos anos que o país vivia num delírio financeiro que contemplava inclusive o completo falseamento das contas nacionais. Mas não devemos esquecer que por vezes um problema menor é a acendalha para um grande incêndio. Como há cem anos.

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Grécia antiga (21)

por Pedro Correia, em 10.06.15

«A escolha dos gregos deve ser objecto de ponderação muito séria por parte de todos os responsáveis europeus e não objecto de desprezo como se se tratasse de decisões próprias de inimputáveis. Na verdade, constituiria um contributo positivo para toda a Europa, se essa ponderação ajudasse a introduzir preocupações de natureza social e também a eliminar fantasias na análise da realidade, tal como, por exemplo, aquela que acredita numa milagrosa recuperação apenas com base no valor do défice, como se uma abóbora sem pevides, por um toque de uma varinha mágica, se transformasse numa carruagem reluzente.»

Manuela Ferreira Leite, no Expresso (31 de Janeiro de 2015)

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Grécia antiga (10)

por Pedro Correia, em 26.05.15

«A vitória do Syriza poderá ter consequências muito positivas para a Europa - sobretudo nos países do Sul da Europa submetidos aos ditames da Europa do Norte. Será uma viragem difícil mas indispensável para os povos reconquistarem a sua soberania democrática - e tomarem nas suas mãos o seu futuro e o seu destino, em liberdade.»

Alfredo Barroso, no i (23 de Janeiro de 2015)

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O novo Syriza.

por Luís Menezes Leitão, em 21.05.15

 

Sempre calculei que uma vitória de António Costa no PS implicasse uma viragem desse partido à esquerda. Nunca pensei é que essa viragem fosse tão radical. Começou com o apoio à candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa, um candidato claramente na extrema esquerda do espectro político. Agora o caminho prossegue com a apresentação das políticas do PS. Conforme revelou num encontro em que também participei, António Costa propõe o regresso ao congelamento das rendas, o que obviamente vai afastar qualquer investimento privado na área da recuperação de imóveis para arrendamento. Nada que preocupe António Costa, que propõe em contrapartida um investimento público de 1.300 mihões de euros na reabilitação urbana. Para isso propõe-se desbaratar 10% do Fundo de Estabilização da Segurança Social, pondo ainda mais em risco as reformas dos portugueses.

 

Para além disso, António Costa é contra a austeridade e até pede uma maioria clara para combater o FMI. Para esse efeito propõe-se continuar a gastar à tripa forra, com argumentos de grande profundidade, como o de que na saúde gastar menos não é gastar melhor. Por  esse motivo, também a função pública regressa naturalmente às 35 horas de trabalho, uma vez que não se justifica fazer poupanças em horas extraordinárias, já que o Estado tem muito dinheiro para gastar. E com isso chega à conclusão extraordinária de que o seu programa tem mais despesa, mas também menos despesa, assim como mais receita mas também menos receita. António Costa tem tão boa imprensa que ninguém lhe perguntou o resultado final aritmético deste exercício. Mas se calhar também ouviria uma resposta semelhante às de outros socialistas célebres como a de que "é fazer as contas" ou de que "há mais vida para além do orçamento". Eu digo-lhe, no entanto, desde já que não há hipótese nenhuma de um imposto sucessório compensar qualquer descida no IRS. Mas também não é isso o que está em causa, uma vez que a sua proposta de alteração da progressividade significa antes aumentar o IRS.

 

Se António Costa ganhar as eleições vamos ter seguramente a repetição da política do Syriza em Portugal, que tão brilhantes resultados está a ter na Grécia. Na Europa já perceberam isso muito bem.

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O PS seguidor do Syriza.

por Luís Menezes Leitão, em 19.03.15

Bem pode o Bloco de Esquerda andar eufórico com o governo do Syriza na Grécia. Como bem se salientou aqui, a proximidade do Syriza é afinal com o PS, como se pode ver por este cartaz de propaganda de Alexis Tsipras em que, à boa maneira estalinista, João Semedo é apagado da fotografia para ficarem apenas Mário Soares e o próprio Tsipras. Precisamente por isso as propostas do Syriza já têm seguidores no PS. Depois de Varoufakis ter prometido que iria criar brigadas de turistas, domésticas e estudantes para fiscalizar as fugas ao fisco, agora a Câmara de Lisboa, liderada por António Costa, vai também criar uma brigada de voluntários para fiscalizar o lixo mal colocado nos contentoresLes beaux esprits se rencontrent.

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Leituras recomendadas

por Pedro Correia, em 27.02.15

Syriza dumps Marx for Blair. De Robert Peston, na BBC.

 

Syriza's scattergun. Na Economist.

 

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 22.02.15

«O primeiro erro do Syriza, que acabou por conduzi-lo direitinho ao acordo político de sexta-feira passada (em que Atenas cedeu em quase tudo) foi uma avaliação errada do equilíbrio de forças europeu. Tsipras acreditou que iria encontrar um clima suficientemente aberto às suas reivindicações. Descobriu rapidamente que as pancadinhas nas costas que recebeu em Roma ou em Paris não significavam qualquer apoio político ao seu programa. Com Hollande ou sem Hollande, a França guia a sua política europeia pela necessidade de manter uma parceria com Berlim, iludindo a sua própria fraqueza.»

(...)

«O novíssimo governo de Atenas deixou-se isolar em meia dúzia de dias. Ainda recalcitrou. Ainda ameaçou com a China e a Rússia. Acabou por optar por um comportamento muito mais razoável que lhe garante o apoio financeiro da Europa (o que falta ainda receber do segundo resgate) e lhe dá margem de manobra para levar a Bruxelas o seu próprio programa de reformas, já na próxima segunda-feira. Ganhou a semântica (a palavra troika foi substituída pelas "instituições"). Em contrapartida, aceitou que as dívidas são para pagar, que o seu novo programa será negociado com Bruxelas, que as medidas de socorro social serão neutras financeiramente e que, embora de forma flexível, as metas são para cumprir. Na verdade, não tinha outro remédio. Não consegue financiar-se nos mercados. Sem o apoio do BCE ao seu sistema bancário e o dinheiro europeu para as despesas do Estado, o caminho para o default seria inevitável. Imagina-se a corrida aos depósitos na próxima segunda-feira se não tivesse havido acordo.»

Teresa de Sousa, no Público

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Renaming the Troika into Institutions, the Memorandum of Understanding into   Agreement and the lenders into partners, you do not change the previous situations as in the case renaming meat into fish.

Of course, you cannot change the vote of the Greek people at the elections of January 25, 2015.

The people voted in favor of what SYRIZA promised: to remove the austerity which is not the only strategy of the oligarchic Germany and the other EU countries, but also the strategy of the Greek oligarchy.

To remove the Memoranda and the Troika, abolish all laws of austerity.

The next day after the elections, we abolish per law the Troika and its consequences.

Now a month has passed and the promises have not turned into practice.

Pity. and pity, again.

On my part, I APOLOGIZE to the Greek people because I have contributed to this illusion.”

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Elemento do Syriza no Porto, em mensagem a Passos Coelho: Aprende a nadar, que a maré se vai levantar. Porque, mais cedo ou mais tarde, a liberdade vai passar por aqui.

 

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Respiração assistida

por Pedro Correia, em 21.02.15

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A economia grega ganhou ontem, in extremis, quatro meses suplementares de respiração assistida, quando se torna bem evidente que não consegue recapitalizar-se nos mercados financeiros.


Neste processo, que tem dominado as manchetes no continente, várias promessas eleitorais do Syriza já ficaram pelo caminho:
- Fim do programa de assistência externa;

- Conferência europeia para a supressão parcial da dívida;

- Obtenção de ajuda financeira sem contrapartida em austeridade;
- Dívida remanescente indexada à taxa do crescimento económico;
- Moratória para o serviço da dívida;
- Reposição do salário mínimo;
- Electricidade grátis para 300 mil famílias;
- Aumento do investimento público em 4 mil milhões de euros;
- Exigência à Alemanha do pagamento de indemnizações de guerra.

Tudo isto decorre num cenário de rápida deterioração do sistema financeiro helénico.

Desde Dezembro, voaram dos bancos gregos cerca de 25 mil milhões de euros em depósitos. Só nos últimos dois dias foram levantados mil milhões de euros.
Confrontado com gravíssimos problemas de tesouraria e a quebra acentuada das receitas fiscais, sem acesso a vias de financiamento autónomo, o executivo de Atenas cedeu a todas as exigências da Alemanha apesar das bravatas para consumo propagandístico interno, replicadas pelos partidos congéneres que persistem em confundir desejos com a realidade.

E agora?

A Grécia tem um prazo de 72 horas para apresentar um plano de novas medidas de contenção financeira que deverá merecer o aval do Banco Central Europeu, da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional. E terá que se reger pelo memorando assinado em 2012 pela antiga coligação governamental.

Os parceiros europeus não deixaram lugar a dúvidas: o ajustamento orçamental em Atenas é matéria inegociável.

Recapitulemos: o que dizia Alexis Tsipras antes das recentes legislativas, entre bravatas eleiçoeiras sobre "soberania nacional"?
Que com ele no governo os credores deixariam de ditar as regras.
Mas nada mudou de essencial.

Eis os factos.
Prejudicam a retórica ideológica dominante nos debates cá do burgo, é certo. Mas têm uma força imparável. Superior a toda a retórica, por mais torrencial que seja.

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O Syrizicídio

por Rui Rocha, em 21.02.15

É óbvio que o entendimento alcançado entre o Eurogrupo e a Grécia representa uma vitória do governo de Atenas no domínio da semântica e uma cedência em toda a linha em termos substanciais. Mas o aspecto mais relevante do acordo nem sequer é esse. De facto, ao contrário do que aconteceu em momentos anteriores, não é a Troika, perdão, não são as Instituições que impõem um pacote de remédios ao país. Pelo contrário, como explicou o Ministro Varoufakis com incontida satisfação, é agora o próprio governo grego quem apresentará uma proposta de medidas que são a contrapartida da assitência financeira temporária. Isto mostra que as palavras de Juncker eram sinceras e que a Troika, digo, as Instituições aprenderam a lição. Agora já não há pecados contra a dignidade dos povos, nem imposições humilhantes. É o próprio governo grego, no exercício da sua soberania, que toma a iniciativa de apresentar sugestões que contrariam as promessas eleitorais na base das quais foi eleito. E que celebra o facto como um grande sucesso. Não há, note-se, qualquer agressão exterior. Há, isso sim, liberdade de escolher e propor as medidas. A mesma que o escorpião tem quando, acossado pelo fogo, espeta no seu corpo uma dose de veneno. O Syriza ainda não percebeu, mas comete assim um suicídio financeiramente assistido. Estamos, na verdade, perante um verdadeiro Syrizicídio.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 06.02.15

«O que me confunde é que a União Europeia nada tenha a obstar a um Governo composto exclusivamente por homens [na Grécia]. Não custa um euro defender esse direito democrático evidente a uma representação governativa que cumpra os mínimos olímpicos, já não digo de paridade, mas pelo menos de justiça social. Mais extraordinário ainda é que tanta gente se apresse a dizer que isso agora não interessa nada, "é secundário", "irrelevante", "se calhar são elas que não querem". (...) Fossem os rapazes do Syriza de direita, engravatados e menos dotados pela natureza, estas mesmas vozes bradariam contra o escândalo da discriminação das mulheres. Sendo de esquerda, bonitinhos e pregadores de um amanhã cantante, vale tudo.»

Inês Pedrosa, no Sol

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O primeiro muro derrubado pelo Syriza

por Rui Rocha, em 30.01.15

O primeiro muro derrubado pelo Syriza não é, ao contrário do que dizem, o da austeridade. Esse é um jogo de tabuleiro em que se estão ainda a fazer os movimentos iniciais. Mas, entretanto, está aberta uma brecha de significativa dimensão na paz podre do rame-rame político. Independentemente das consequências das medidas aprovadas pelo governo de Tsipras, há um facto incontornável: estão a ser cumpridos na frente interna os aspectos essenciais do programa apresentado a sufrágio. Não há muitos por aí que possam orgulhar-se de tal coisa. O curioso é que este primeiro impacto provoca danos sobretudo à esquerda. Não propriamente à direita, uma vez que a distância do discurso esbate a viabilidade da comparação. Nem, naturalmente, às áreas da esquerda que genuinamente assumem uma agenda próxima da defendida pelo Syriza. Mas, claramente, naquela zona da esquerda povoada por passageiros de circunstância que tentaram aproveitar de forma oportunista a onda Syriza. O problema para estes é que fica cada vez mais evidente que, apesar das proclamações de circunstância e da tralha demagógica em que se vão entretendo, jamais seriam capazes de concretizar decisões como as que o novo governo grego aprovou nos últimos dias. Não faltará por aí quem vá tentar passar entre os pingos da chuva nos próximos dias.

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Aprender grego

por Pedro Correia, em 29.01.15

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Com o entusiasmo em torno da vitória do Syriza, há quem tenha começado a aprender grego. Eu já sei duas palavras: Peristera Batziana.

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 Panos Kammenos e Alexis Tsipras

 

Nascido em 1974, Alexis Tsipras é filho do Maio de 68. Que consagrou esta palavra de ordem: «A imaginação ao poder: exige o impossível.»

Em Atenas, a imaginação chegou ao poder. Por via das urnas -- algo nunca antes acontecido -- e graças ao bónus de meia centena de deputados possibilitado por uma excêntrica lei eleitoral que transforma 99 lugares no parlamento em 149, uma federação de 12 partidos da esquerda radical acaba de formar governo com uma força política da direita xenófoba e eurofóbica. Numa bizarra simbiose de nacionalismo e populismo, em que o discurso contra o "estrangeiro" inflama as gargantas e os espíritos como fogo em palha. Distorcendo aliás a mensagem original do Maio de 68, que era internacionalista e manifestava um desdém absoluto pelo conceito de "soberania nacional".

Mas cumpre questionar: que soberania efectiva existe num país que mentiu aos seus parceiros sobre o volume real do défice das contas públicas, desbaratou milhares de milhões de euros em fundos estruturais lançados na maior "economia paralela" da União Europeia, detém ainda hoje o lamentável recorde de campeão europeu na fuga aos impostos e vive desde 2010 graças ao balão de oxigénio de 240 mil milhões de euros de auxílio de emergência destinado a travar in extremis a declaração de bancarrota?

 

Tendo chegado a imaginação ao poder, na insólita coligação de extremos simétricos protagonizada por Tsipras e Panos Kammenos, líder dos Gregos Independentes (ANEL), o novo chefe do executivo de Atenas trata agora de exigir o impossível: suprimir os compromissos estabelecidos com as entidades credoras. Cessam de imediato as privatizações em curso, o salário mínimo sobe 28% por decreto (passando de 586 para 751 euros), são readmitidos os funcionários públicos entretanto despedidos, estabelece-se um tecto de 12 mil euros de rendimento anual para isenção de imposto, suprimem-se as taxas moderadoras na saúde e lança-se um vasto pacote de medidas assistencialistas avaliado em 11,7 mil milhões de euros - ou seja, 6,5% do PIB helénico. O equivalente à soma dos depósitos que já voaram este mês dos bancos gregos.

Na prática, Atenas rasga o Tratado de Maastricht, que criou o sistema monetário europeu estabelecendo um conjunto de direitos e deveres aos estados signatários, e o Tratado Orçamental, que impõe limites à expansão do endividamento na UE. Lança assim novas achas na imensa fogueira da dívida pública grega ao prometer um pacote de gastos desmesurados com dinheiro que não tem. Exigindo o impossível com a sonora retórica da esquerda pura aliada à vibrante oratória da direita dura num país que representa menos de 2% do PIB comunitário.

«Os contribuintes da UE acabarão por pagar», consideram os arautos da nova coligação esquerdo-direitista de Atenas, unidos na aversão ao estrangeiro -- uma coligação contra naturam, que reúne todos os ingredientes indispensáveis para não funcionar. Porque congrega o pior dos dois hemisférios políticos numa mescla de bravatas populistas e ressentimento ideológico que ameaça acelerar o colapso das finanças públicas num país recém-saído de seis anos de recessão.

 

«Não sou ateniense nem grego, mas cidadão do mundo», ensinou Sócrates há 25 séculos. Este lema contraria o essencial da doutrina programática do novo executivo Tsipras-Kammenos, alicerçada no combate aos aliados externos transformados em inimigos para efeitos de propaganda política. Receio que, na atmosfera de irreprimível demagogia agora reinante em Atenas, sejam cada vez menos os que optem por seguir a sensata voz da sabedoria milenar.

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E depois há aquele provérbio chinês

por José Navarro de Andrade, em 29.01.15

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 27.01.15

«Agora, todos são e todos querem ser Syriza. Mesmo partidos como o Partido Socialista celebram alegremente a vitória da esquerda fingindo que não percebem que essa vitória também foi construída contra os partidos do centro, os que nos trouxeram - a todos, portugueses e gregos - até esta insustentável situação. Não, não somos todos Charlie. E também não somos todos Syriza. Felizmente. Sim, felizmente porque, no limite, quer o Charlie quer o Syriza lutam não para que sejamos todos uma e única mesma coisa, qual neo-carneirada penteadinha, mas para que possamos optar, ter alternativas, discordar. Hoje sou portuguesa.»

Joana Amaral Dias, no Correio da Manhã

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A coligação dos extremos.

por Luís Menezes Leitão, em 27.01.15

Antes mesmo de saber da coligação que viria a ser formada na Grécia, já tinha aqui escrito que o apoio de Marine Le Pen a Alexis Tsipras demonstrava a facilidade com que os partidos extremistas se aliam se estiver em causa o combate ao seu inimigo comum que é o projecto europeu. Toda a gente aposta que Tsipras vai chegar a acordo com Merkel, achando que esta no máximo lhe vai dar alguns amendoins para o calar, o que Tsipras anunciará como uma vitória, salvando assim a face. Não creio que isso aconteça. Da mesma forma que Fidel Castro preferiu aguentar um embargo americano que só agora termina, e que foi desastroso para Cuba, a ceder um milímetro que fosse aos Estados Unidos, Tsipras preferirá a catástrofe à continuação da humilhação da Grécia. E neste aspecto a escolha dos Gregos Independentes (ANEL) como parceiro de coligação, um partido de extrema-direita nacionalista e xenófobo, em lugar dos partidos de esquerda moderada, é elucidativa. No combate à troika e à própria União Europeia, quando o SYRIZA disser "mata", o ANEL dirá "esfola". As revoluções precisam de inimigos e o ódio que esta política europeia atiçou na Grécia é demasiado elevado para que se pense que vai tudo acabar em bem. Oxalá me engane.

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Back to basics

por Pedro Correia, em 26.01.15

Por vezes, no meio da balbúrdia comunicacional, há que fazer um ponto de ordem. É tempo de ser feito relativamente à Grécia: Syriza é um acrónimo de Coligação da Esquerda Radical. Uma esquerda situada muito à esquerda da chamada "esquerda" social-democrata ou trabalhista, a cuja família pertence o Partido Socialista português. E que nada tem a ver também com a família comunista europeia, de que um dos expoentes é o nosso PCP.

Por outras palavras: o equivalente ao PS na Grécia é o PASOK, que nas legislativas de ontem não recolheu mais de 5%. E o o Partido Comunista grego, homólogo do  PCP, quedou-se nos 5,5%.

"O sucesso tem muitos pais, mas a derrota é órfã", dizia John F. Kennedy. Bem sabemos que é assim. Mas convém não abusar. Por muito que, por cá, socialistas de vários matizes -- de Ana Gomes a Isabel Moreira, de Inês de Medeiros a Elisa Ferreira,  passando por Manuel Alegre -- celebrem a vitória eleitoral do Syriza como se fosse um triunfo da sua própria família política, há que dizer com toda a clareza que isso é um enorme equívoco.

Quem venceu as legislativas na Grécia não foi a esquerda reformista: foi a esquerda radical. O que faz toda a diferença.

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A grande ilusão.

por Luís Menezes Leitão, em 26.01.15

Perante a vitória mais que previsível do Syriza, imensos comentadores esforçaram-se por salientar que iria ficar tudo na mesma, com Angela Merkel a continuar a mandar na Grécia e Alexis Tsipras a vergar-se às posições alemães. No fundo é a repetição do velho TINA (There is no alternative) que até na Alemanha levou à criação de um partido radical Alternativ für Deutschland, que defende a saída imediata da Alemanha do euro. Parece-me um colossal erro de perspectiva. Tsipras é ambicioso, tem convicções ideológicas marcadas, tanto assim que até deu ao filho o nome do Che, e não vai querer ficar na história como o Hollande grego. Se seguir um padrão, será o de Lenine, que não hesitou em repudiar os compromissos russos, alegando que o novo estado soviético não tinha que os cumprir. E não me parece que neste momento os gregos encarassem mal uma declaração de bancarrota, pois provavelmente chegaram ao ponto em que acham que nada pode ficar pior do que já está. Os primeiros sinais que chegam, com Tsipras a proclamar que a austeridade acabou, e os eurocratas habituais a dizer que a Grécia tem que cumprir os seus compromissos levam a concluir que a ruptura é inevitável. Desiludam-se assim aqueles que julgam que tudo vai ficar na mesma.

 

Outros julgam, porém, que a bancarrota grega e a saída da Grécia do euro pode até ser positiva para os outros Estados-Membros que já se resguardaram para esta situação. Mais uma grande ilusão. A bancarrota grega terá um impacto mundial tão elevado que fará a queda do Lehman Brothers parecer uma brincadeira. E o resultado, a curto ou a médio prazo, será o descrédito do euro, com muito especulador a apostar qual é o próximo país a sair, com Portugal em excelente lugar na lista de apostas. 

 

Dir-se-á que tudo isto é irracional e que uma negociação séria permitirá limar arestas. Mas a verdade é que o comportamento dos Estados nem sempre é racional. Em 1914 ninguém de bom senso acreditaria que um crime político pudesse arrastar o continente europeu para uma guerra, mas de um momento para outro foi isso o que se passou. Em 2015 corremos o risco de assistir a uma bancarrota grega com ondas de choque inevitáveis em todo o continente. E julgo que agora é tarde para a evitar.

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Quem é mais Syriza?

por André Couto, em 25.01.15

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Começou a disputa sobre quem é mais Syriza. A análise dos factos é fácil: apenas o Bloco de Esquerda pode reclamar ser camarada político de luta reconhecido na Grécia. Ainda assim, em Portugal, não consegue unir o que o Syriza uniu na Grécia. Nos últimos meses muito menos. Para além dos laços de sangue a vitória do Syriza é, também, de todos aqueles que têm lutado por uma mudança política na Europa, não interessando o partido político, até porque muitos são independentes. Esta noite, por exemplo, vibro com o Syriza como amanhã com o Benfica. A mudança na Europa, uma nova confiança e agenda, não é propriedade de ninguém, é de todos os que a desejam, anseiam e lutam por ela há muitos anos.

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