Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Padronizados como nunca

por Teresa Ribeiro, em 23.08.17

Espero num lobby de uma torre de escritórios. À minha frente também esperam três raparigas que, não se conhecendo entre si, parecem coreografadas. Todas seguram o telemóvel, todas com unhas de gel, todas com pestanas postiças, todas com pernas traçadas, cabelos compridos e lisos e dentro da mesma faixa etária. Uma das portas do lobby dá para um gueto de fumadores onde de momento só se avistam homens e então reparo neles. Também com idades aproximadas, em grupos ou separados apresentam-se com fatos semelhantes, os mesmos modelos de sapatos, a mesma barba aparada. É certo que a moda masculina é mais monótona, mas talvez porque todo este cenário é enquadrado por tecnologia (eles também olham obsessivamente para o telemóvel enquanto fumam), ou porque falta um toque de humanidade em tudo isto, parece que estou a vê-los através de um ecrã. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Façam apps, não automóveis

por José António Abreu, em 10.03.17

2014: Facebook compra WhatsApp por 19 mil milhões de dólares.

2016: Microsoft compra LinkedIn por 26,2 mil milhões de dólares.

2016: Nissan compra 34% da Mitsubishi Motors por 2,2 mil milhões de dólares.

2017: Grupo PSA (Peugeot, Citroën, DS) compra a totalidade do braço europeu da GM (Opel e Vauxhall) por 2,3 mil milhões de dólares.

 

Note-se a diferença de valores. Num mundo de relações online, de expectativas e impaciências desmesuradas, de taxas de juro negativas, de dinheiro nascido da concessão de crédito, talvez seja natural que os bens tangíveis percam importância e que a riqueza (a global como a dos famigerados ricos-que-continuam-a-enriquecer) seja cada vez mais virtual - e volátil. A própria inflação transferiu-se dos bens transaccionáveis para as bolsas e, dentro destas, em especial para as empresas que poucos ou nenhuns bens físicos produzem. Compare-se a evolução dos principais índices bolsistas com a evolução da economia dos respectivos países e o resultado só pode suscitar preocupação. Que percentagem da riqueza mundial se perderia hoje com um - bastante provável, de resto - crash bolsista? Quanto dinheiro desapareceria com a assumpção da incapacidade de pagamento de tantas dívidas gigantescas, públicas como privadas?

Mas este mundo também tornou a riqueza mais acessível às pessoas com as ideias certas e a coragem de as levar por diante. No fim de contas, fazer uma app custa muito menos do que projectar, construir e comercializar um automóvel. Talvez este facto explique em parte a insatisfação (a raiva, mesmo) que grassa nos países ocidentais (e utilizo o termo de forma abrangente, não geográfica). Por muitos defeitos e distorções que existam, por muitas ameaças que se perspectivem, nunca ao longo da história das sociedades organizadas (e hierarquizadas) as oportunidades perdidas o foram por motivos tão auto-atribuíveis.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Falar claro sobre eutanásia

por Teresa Ribeiro, em 04.02.17

eutanasia.jpg

 

Tenho observado que quem argumenta contra a eutanásia tende a iludir três questões:

1. Ninguém obriga ninguém a fazê-lo. Tal como no caso da IVG, os profissionais de saúde que sejam contra têm o direito de se recusar a colaborar.

2. A decisão é do doente (e só considerada se reconhecidamente ele está de posse de todas as suas capacidades mentais)

3. Os casos em que a eutanásia é aplicável serão, naturalmente, objecto de rigorosa regulamentação, pelo que não se coloca a questão de tal servir para facilitar suicídios de pessoas que estão, por exemplo, simplesmente com uma depressão. 

Toda a argumentação que contorne estas três premissas não me parece intelectualmente honesta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Imaginemos uma fila para aquisição de bilhetes para um espectáculo muito concorrido e com os ingressos prestes a esgotar. Um idoso ou um portador de deficiência passa à frente de quem chegou primeiro?

Obviamente.

(...)

Porque é que o Governo entendeu legislar sobre esta matéria? Haverá uma generalizada falta de bom senso entre os portugueses? Porquê legislar e ter força de lei aquilo que por muitos é visto como bom senso?

A razão é exactamente essa. Esta é uma situação que é vista como bom senso e o bom senso como se costuma dizer é algo como o oxigénio ou o ar que respiramos: só sentimos a falta dele quando de facto não está lá.

Entrevista da Renascença à Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência. 

 

Houve um tempo em que a esquerda afirmava acreditar na bondade humana; hoje, prefere desconfiar, controlar e punir. Bom senso seria legislar sobre o essencial e deixar em paz tudo o resto. Mas não apenas organismos públicos diversos e secretarias de Estado para a «Inclusão» têm de justificar a sua duvidosa razão de ser como o Estado vive da imposição e do controlo de regras. Quanto mais existirem, mais Estado pode existir.

Repare-se que a lógica da secretária de Estado é extensível a quase tudo. O bom senso também recomenda que não se ande pelas ruas em fato de banho durante o Inverno, que não se vá engripado a locais onde esteja muita gente, que se ajudem indivíduos à procura da rua x ou da praça y, que se modere o humor diante de desconhecidos, que não se ingiram (e que não se disponibilizem) produtos com elevados teores de açúcar, gordura ou álcool. Mas será necessário legislar sobre estes assuntos?

Os defensores da hemorragia legislativa acreditam que ela torna a sociedade mais justa e solidária. Na verdade, é mais provável que contribua para o aumento do nível de acrimónia. Em primeiro lugar, o excesso de legislação faz com que as pessoas sintam, justa ou injustamente, que os outros estão mais protegidos do que elas: há legislação conferindo privilégios a tantos grupos específicos e até a animais; que legislação se preocupa comigo? Em segundo, leva-as a sentirem-se menorizadas: ao Estado não basta informá-las de que determinado comportamento é preferível a outro; força-as a ele, plasmando-o em lei (a qual, reconheça-se - até um Estado gargantuesco tem limites -, fica muitas vezes por aplicar). Finalmente, converte gestos de boa vontade em imposições - e enquanto ceder voluntariamente o lugar numa fila gera satisfação, ser obrigado a fazê-lo dá azo a reservas e desconfianças. Não pode ser coincidência que, nas sociedades ocidentais, a leis cada mais «perfeitas» pareçam corresponder níveis de individualismo e de falta de cortesia cada vez mais elevados. Num ambiente em que todos os comportamentos se encontram legislados, a única liberdade reside no egoísmo.

É desta forma que, perante o aplauso de muitos e o silêncio indiferente, ignorante ou cobarde de muitos mais, o politicamente correcto se vai transformando em ditadura. Proíbem-se actos, proíbem-se palavras e, quando for possível ler pensamentos, proibir-se-ão todos os considerados impróprios. Sempre em nome de magníficos princípios, numa sociedade cada vez mais crispada.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Oposição criativa é isto

por Teresa Ribeiro, em 22.12.16

1e579a4ba4608ac77ea0032bcc9bacdd.jpg

 

Cada vez gosto mais deste "beau toujours" com cara de safado. É assim que se toureiam os mentecaptos que chegam ao poder. Bravo, Leo!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Hoje é tudo mais clean

por Teresa Ribeiro, em 11.12.16

 

29.jpg

 

Não foi assim há tanto tempo, mas as cenas que a minha memória privilegiou dos meus primeiros tempos de estágio parecem saídas de um filme de época. Éramos talvez 50 num open space desconfortável de um edifício de traça industrial onde no piso térreo funcionava uma gráfica. Habituei-me desde os primeiros dias às excentricidades de alguns colegas. O Afonso, que antes de sair prendia com um cadeado a cadeira à secretária, o Vítor, que adorava pontapear com as suas botas da tropa os fundos metálicos das secretárias, fazendo ribombar pela redacção a expressão das suas frequentes fúrias, o Zé, que espantava a neura disparando fósforos acesos para o tecto (convém aqui explicar que o chão não tinha alcatifa).

Visto à distância parece o cenário de uma casa de doidos e no entanto aquele era um padrão tido como normal no meu meio profissional. Essa cultura que tolerava excessos e extravagâncias, acolhendo sem censura as peculiaridades de cada um, era, de resto, coisa antiga. O que então testemunhei foi o pálido resquício da loucura dos tempos em que os jornais se faziam madrugada fora e os turnos de fecho se rematavam com uns copos em noites de boémia.

Que antiga me sinto por ainda ter, fugazmente, entrevisto esse mundo. Reconheço que nesses tempos não havia o mesmo profissionalismo. Àquela garridice também se somava muito amadorismo, mas a alegria era incomparável. A alegria e a descontracção. Hoje quem toleraria ruidosas explosões de mau humor ou brincadeiras ridículas com fósforos no local de trabalho?

Com phones nas orelhas e olhos no ecrã do computador, podemos até atropelar velhinhas para acalmar os nervos sem ninguém perceber. De facto podemos ver, ouvir e fazer tudo o que quisermos sem arriscar uma nota dissonante para o exterior. E assim é tudo mais clean.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sobre os direitos dos animais

por Teresa Ribeiro, em 19.05.16

animais-maus-tratos.jpg

 

Acho justa a classificação, face à lei, dos animais como "seres sensíveis", por duas razões: porque são, indiscutivelmente, seres e porque a experiência já me deu suficientes provas de que sentem.

A acrimónia que as iniciativas do PAN tem provocado espanta-me. Não falo dos caçadores e dos aficionados, pois esses, naturalmente, vêem a instituição de medidas de protecção animal como uma caixa de pandora que a prazo poderá ameaçar rituais que os apaixonam. Mas sei de muita gente que não se encaixa nesse perfil e mesmo assim trepa às paredes quando se fala de "direitos dos animais". Desde logo argumentam que os animais não são sujeito de Direito, logo não podem ter direitos. Entrincheiram-se nesta lógica e daqui não saem esquecendo que uma das principais funções da lei é criar fundamentos de justiça e contribuir para a civilidade num Estado de Direito.

Quem como eu tem acesso regular a informação sobre o que aparece em clínicas veterinárias e associações de proteção animal, só pode congratular-se com estas iniciativas, porque entendo que o sadismo, mesmo o que é exercido sobre animais, deve ser punido. Quem não quiser fazer como a avestruz veja no google, de preferência com o estômago vazio, o que acontece a alguns "animais de estimação".

As leis servem para, à falta de melhor, nos civilizar. Já li que "a sensibilidade não se decreta por lei". Nada mais falso. As leis também educam, porque criam massa crítica, e sobretudo funcionam como aceleradores de bons costumes, que o digam as mulheres que num passado recente nem sequer podiam votar ou abrir uma empresa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A palavra eu vence a palavra nós

por Pedro Correia, em 19.03.16

selfie1[1].jpg

 

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito.

Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou um banco em crise. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.

Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O início da era pós-impostos

por José António Abreu, em 22.02.16

O BE quer alargar a aplicação da tarifa social de energia, que neste momento beneficia cerca de 120 mil pessoas. A ideia é dar acesso automático à tarifa social a todos os beneficiários do abono de família do 1º e 2º escalões, complemento social de idosos, pensão social de invalidez ou de velhice, subsidio social de desemprego e rendimento social de inserção. O partido liderado por Catarina Martins propõe ainda que os custos desta tarifa passem a ser integralmente suportados pela EDP Produção, deixando de onerar o Estado em cerca de seis milhões de euros.

 

Há um momento na descida para a paralisia económica em que ao Estado já não basta cobrar impostos. A solução? Colocar empresas privadas a garantir o pagamento de benefícios sociais. Como a mentalidade da «verdadeira esquerda» (Bloco, PCP, actual PS) exclui o conceito de relação causa-efeito, fazê-lo não implica obrigar essas empresas a distribuir os custos da medida por todos os seus clientes ainda não suficientemente pobres para terem eles mesmos direito aos benefícios mas apenas diminuir-lhes o nível «obsceno» de lucros (é sabido: para a esquerda, uma empresa privada ou tem lucros obscenos ou gestão criminosa). Começa-se pela EDP, entidade fornecedora de um bem que muitos, consciente ou inconscientemente, acham que devia ser gratuito (ei, a electricidade é uma espécie de download, certo?) e que todos apreciam odiar. E abre-se caminho para ir mais longe. Para, sei lá, tornar obrigação do Continente, do Pingo Doce e do Lidl a distribuição mensal de cento e tal mil cabazes de compras; para tornar obrigação da Galp, da BP e da Repsol a oferta mensal do combustível correspondente a cento e tal mil depósitos; para tornar obrigação da McDonald's, da Pizza Hut e da H3 a entrega mensal de dez (ou talvez quinze) vezes cento e tal mil menus; para tornar obrigação da Fidelidade, da Tranquilidade e da Allianz a subscrição anual de cento e tal mil apólices de seguro; para tornar obrigação da MEO, da NOS e da Vodafone a disponibilização de cento e tal mil pacotes de telemóvel, televisão e internet (sem período de fidelização); para tornar obrigação da Zara, da Cortefiel e da H&M o fornecimento de cento e tal mil vales de trezentos euros em roupa e calçado (bastará por estação, que os beneficiários da medida não pertencem à esquerda-caviar); para tornar obrigação da Mota-Engil, da Teixeira Duarte e da Soares da Costa a construção e oferta de cento e tal mil habitações (mantenhamos os pés na terra e digamos em cinco anos). Ou, melhor ainda, por que não obrigar que todas as empresas privadas desviem cinco (e, mais tarde, dez) por cento da facturação para apoios que o Estado, gordo e deficitário (pudera), será cada vez mais incapaz de providenciar?

O maravilhoso país que emergirá de toda esta consciência social é, evidentemente, um país sem competitividade mas também sem empresas privadas. No fundo - e aqui se encontra afinal uma relação de causa-efeito bem delineada -, o sonho da esquerda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Em nome de que vida?

por Teresa Ribeiro, em 17.02.16

eutanásia.jpg

 

Como é óbvio, para quem defende a eutanásia e o suicídio assistido, o que está em causa é o direito a acabar com o sofrimento, quando é reconhecidamente atroz e irreversível. Quem é contra, defendendo o princípio da inviolabilidade da vida, certamente não o ignora. Então porque há-de invocar invariavelmente o recurso aos cuidados paliativos como uma alternativa, sabendo que nos casos limite, em que a questão da eutanásia e do suicídio assistido se colocam, a medicina não consegue reduzir o sofrimento para níveis suportáveis?

Não posso respeitar quem recorre a argumentos falaciosos para defender o seu ponto de vista. Quem se opõe à legalização da eutanásia deve ter coragem para assumir que o que defende pode ser de uma tremenda crueldade para alguns. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O futebol e a fuga de cérebros

por João André, em 02.02.16

Ontem andava a tentar fazer o apanhado das notícias do dia e surgiram duas notícias em simultâneo e que de certa forma se fundiram (coisas de ouvir noticiários televisivos quando se lêem jornais online): a notícia sobre as transferências de futebol e sobre as fugas e movimentos de cérebros. Inicialmente não compreendi por que razão juntei os dois temas, mas após reflexão tive uma ideia meio louca. Passo a explicá-la.

 

No futebol, quando um jogador termina o contrato, pode transferir-se para outro clube sem que o clube que deixa tenha que ser compensado. Isto está de acordo com as regras de um mercado laboral livre e é perfeitamente correcto. Há algumas regras em certos países (por exemplo na Inglaterra) onde o clube que adquire o jogador tem que pagar uma compensação ao clube que o forma. Uma regra semelhante existe no caso de transferências durante contratos, em que 5% do valor da transferência é pago aos clubes envolvidos na formação do jogador até este ter 23 anos de idade. É a chamada "contribuição de solidariedade".

 

E foi aqui que comecei a pensar se um sistema destes não seria interessante para o mercado laboral em geral. Aviso desde já que não sei que consequências teria nem como poderia ser implementado. A ideia seria simples: quando um profissional fosse trabalhar para outro país que não o da sua formação profissional (não necessariamente o da sua nacionalidade), o país de acolhimento poderia pagar uma compensação ao país de formação. Esta deveria estar dependente do número de anos de escolaridade e do nível da mesma. Um doutorado em física levaria a uma compensação diferente da de um electricista. Essa compensação deveria ter lugar uma única vez - aquando da entrada do profissional no país de acolhimento - mas poderia ser repetida se este profissional voltasse a mudar de país. O pagamento deveria ser feito pelo empregador (o próprio no caso de empregados por conta própria) mas até um montante máximo. Os valores deveriam ser tais que pudessem levar a uma compensação real para o país formador mas não tão elevados que dificultassem a empregabilidade dos profissionais.

 

Sei que esta ideia apresenta desde logo a dificuldade de se configurar como mais uma taxa para empresas e ser desde logo um obstáculo à empregabilidade. É essa a minha maior dificuldade com ela. Parto apenas do princípio que uma empresa que recrute um profissional fora do seu país o faz por ter necessidade, por não lhe ser possível encontrar profissionais adequados dentro do mercado interno. É o que vemos, por exemplo, no mercado da saúde inglês ou mercado tecnológico alemão, onde as empresas têm que ir recrutar ao estrangeiro.

 

A medida seria uma forma de entregar alguma compensação aos países que formaram as pessoas e incentivar a educação. Desta forma os custos na educação não seriam vistos como completamente a fundo perdido e permitiria aos países reinvestirem esses fundos no seu país.

 

Os principais riscos para os países recrutadores seriam os obstáculos ao mercado de trabalho. Para o país de formação o maior risco seria ser transformado num exportador de mão de obra em prejuízo do desenvolvimento do próprio país. Em termos morais, ainda que pudesse potencialmente ajudar a corrigir assimetrias, seria o risco de transformar os profissionais num produto que possa ser comercializado.

 

Como escrevi acima, a ideia é meio louca e consigo imaginá-la atacada à esquerda, direita e centro. Nem faço ideia se alguém alguma vez a propôs no passado. Confesso no entanto que estaria muito interessado em ler alguma análise teórica à implementação da mesma. Haverá algum economista interessado? Basta um agradecimento no artigo final e um convite para a cerimónia em Estocolmo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Passo a passo

por Teresa Ribeiro, em 08.01.16

 

naom_568cf8f4d3a96.jpg

 

Depois dos hijabs serão os nikabs e depois dos nikabs as burkas a inspirar os estilistas ocidentais? Todos sabemos que estas vestes não são  inocentes. Foram concebidas por homens que segregam mulheres e agora temos que levar com isto, com dress codes humilhantes a desfilar nas passerelles das nossas mecas da moda? Era só o que faltava! 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Natal com o Menino Jesus

por José António Abreu, em 24.12.15

WP_20151224_p.jpg

A fé na qual me educaram foi-se esvaindo na racionalidade (na minha racionalidade) e na indiferença (não acredito mas, acima de tudo, não penso no assunto). Ainda assim, incomoda-me o carácter cada vez mais laico do Natal. Incomodam-me os esforços que se fazem para extrair dele a religião, alegando respeitos para com quem não deveria ter motivos para se sentir desrespeitado: a matriz de um país - feita também da religião que, mal e bem, o foi construindo - não deveria agredir quando celebrada, apenas quando imposta. A substituição progressiva mas inexorável do Menino Jesus pelo Pai Natal (e eu acho piada à figura acolhedora e transbordante de bonomia do Pai Natal), o frenesi consumista, a repetição anual de reportagens televisivas ocas, os actos formais de prazer duvidoso (os presentes que se compram porque tem de ser, os sublimes jantares de empresa), as manifestações de cariz turístico-comercial que se tornam lugar de semi-indiferente peregrinação (quantas vilas-Natal há hoje em dia?), parecem-me tentativas desesperadas para encontrar um sentido para a quadra, fora daquele que ela possui há séculos. Tentativas inglórias, como seria de esperar: cada vez mais as pessoas julgam pueris os seus esforços e se sentem mais isoladas.

Expurgamos a religião do Natal, esquecendo (ou ignorando) que quase todas as nossas celebrações estão ligadas a ela: a Páscoa, os dias de Todos-os-Santos e de Finados, até esse momento de origem pagã, o Carnaval, último excesso antes da Quaresma. E, na verdade, é melhor quando assim ocorre. Os feriados religiosos têm uma densidade, um peso histórico, social, identitário, que nenhum dos restantes consegue atingir, ainda que pretendam celebrar o país (25 de Abril, 10 de Junho, 5 de Outubro, 1 de Dezembro) ou direitos conquistados (1 de Maio). Não é preciso celebrar a religião para aceitar que o Natal deve ser celebrado com ela. Basta saber aceitar a história e os valores que formam uma verdadeira comunidade: desde logo, a «inclusão» e a «tolerância» de que tanto se fala. Permitam-me pois que os votos de um ateu (creio) sejam de um Santo Natal para todos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quando a má consciência se torna viral

por Teresa Ribeiro, em 30.11.15

É impossível ficar indiferente a este vídeo natalício, da cadeia de supermercados alemã Edeka. A maioria de nós lá saberá porquê...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Empreendedorismo 2

por Teresa Ribeiro, em 31.08.15

Foram cinco os empreendedores cujo percurso, por razões profissionais, acompanhei de perto. Ao primeiro faltou-lhe carácter. Quando o seu projecto começou a falhar não hesitou em roubar a própria empresa para se pôr a salvo antes de declarar falência. O segundo revelava o que de  pior podemos identificar no perfil de um típico self made man. Era desconfiado, intolerante e prepotente. Ao longo de décadas, foram muitos os que passaram pela sua empresa, mas poucos os que gostaram de lá trabalhar. Resistiu décadas no mercado, mas sucumbiu à crise. Está agora em processo de falência.

O terceiro foi pioneiro em vários projectos. Tinha boas ideias, mas faltava-lhe talento para a gestão. Após diversas tentativas falhadas desistiu de trabalhar por conta própria. O quarto, um homem que ganhou muito dinheiro na especulação bolsista, decidiu investir num negócio que lhe desse visibilidade e prestígio para o qual não tinha a menor preparação. Correu-lhe mal. Para sobreviver não olhou a meios e se acabou por falir não foi à falta de bajular gente com dinheiro e influência, mas nem assim escapou ao seu destino.

O quinto é, em todos os aspectos, uma pessoa extraordinária. Admiro-lhe o carácter, a perseverança, a criatividade, o optimismo e a paixão que põe em tudo o que faz, mas é um peixinho num aquário de tubarões. A ética granjeia-lhe respeito mas não o ajuda a evoluir num mercado minado por lobbies que só deixam crescer quem tem cartão partidário ou um apelido que pertença à nossa PSI 20 social. São estes D. Quixotes que dão bom nome a uma raça de gente tão diferente entre si.

Empreendedores são como os chapéus: há muitos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Empreendedorismo 1

por Teresa Ribeiro, em 27.08.15

O equívoco em relação à expressão empreendedorismo, tão incensada por este governo,  é que ficou colada à ideia de sucesso. Mas em rigor um empreendedor é alguém que tem ideias de negócio e que arrisca. Pode ser um mitómano sem qualquer talento para gestão e transacções comerciais, pode ser um vigarista (os grandes vigaristas são bons empreendedores), pode ser um azarado que aposta sempre no cavalo errado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

GOLDENERGY - Nem a morte nos separa

por Teresa Ribeiro, em 13.08.15

Pouco tempo antes de morrer, a minha tia Ivone, de 92 anos, achou por bem informar-me que um dia tinha sido abordada, à porta de casa, por "umas meninas muito simpáticas" que a fizeram assinar um papel. Só não sabia era dizer qual era o assunto e se tinha ficado com uma cópia.

Quando ela deixou este mundo, coube-me a mim tratar da sua ex-vidinha terrena e foi então que descobri, no meio da papelada, uma factura da Goldenergy, empresa de distribuição de gás e electricidade, ainda recente no mercado. Lembrei-me logo da conversa sobre as "meninas muito simpáticas" e imaginei como devem ter salivado ao verem diante de si uma idosa confusa e solitária, ávida de uns minutos de atenção.

Soube entretanto que a nóvel empresa está sediada em Vila Real e tem um único balcão de atendimento em Lisboa, na loja do cidadão. Assim que me foi possível entregar os documentos comprovativos do óbito rumei às Laranjeiras para cancelar o contrato e foi aí que deparei com a primeira bizarria: a bicha que aguardava atendimento superava as homéricas bichas da Segurança Social. Era um sinal inquietante, mas como o meu objectivo era rescindir, não me preocupei.

Fiz mal. Esta cena passou-se no final do ano passado e a Goldenergy não desiste da minha tia nem por nada. Consegui, depois de muita insistência, que lhe selassem o contador, mas nem assim. Não sei se no céu também se cozinha e toma duche de água quente, a verdade é que  já estamos em Agosto, o gás cá em baixo foi cortado em Março, e as contas dela não páram de crescer. Na última factura que recebi, onde a Goldenergy ameaça cortar o gás que já cortou, a conta chega quase aos 500 euros!  

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da lamúria

por Teresa Ribeiro, em 10.08.15

Desabafar é bom. Ninguém contesta. Tem um efeito terapêutico e até há uma classe de profissionais - os psicólogos - que vive disso.

Já queixarmo-nos é mau. Diz que é doentio. Segundo a nóvel cultura passista, é um traço de identidade nacional que nos desclassifica e como não há português que suporte identificar-se com o que mais se critica nos portugueses, este considerando caiu fundo na consciência colectiva. Logo se ergueram vozes aqui e ali contra a lamúria, esse vergonhoso desporto lusitano. Eu, que não tenho a veleidade de me considerar imune às modas, também passei a ter mais cuidado e quando sinto um impulso irresistível para partilhar o que me perturba o espírito, termino sempre com um pensamento positivo, do género "não há-de ser nada", que é para ficar bem claro que não me estou a lamentar, estou é a desabafar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Olhares

por José António Abreu, em 26.07.15

Pode ser apenas a minha leitura (uma distorção que, adiantada a ressalva, julgo coerente com o meu tipo de pessimismo) mas as crianças parecem-me ter um olhar cada vez mais adulto. Ou antes: cada vez mais parecido com o de muitos adultos actuais, começando pelo dos progenitores. Um olhar onde o desejo se cristaliza, se torna permanente em vez de intermitente, e a ameaça da tristeza é submergida pelo pânico do aborrecimento.

 

Adenda: Leiam esta entrevista a Carlos Neto, professor da Faculdade de Motricidade Humana, no Observador; não tem directamente a ver com o olhar das crianças mas, ainda assim, tem tudo a ver.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Outras lições nórdicas

por José António Abreu, em 25.07.15

Alexander Stubb, o ministro das Finanças finlandês, esteve em destaque durante a sequência de reuniões do Eurogrupo sobre a questão grega. Interventivo, adepto do Twitter, sem papas na língua a reflectir as reservas dos seus concidadãos (diz-se, ainda assim, ter sido bastante mais comedido nas declarações em inglês do que nas que emitiu em finlandês), merece-me esta nota por algo que pouca atenção despertou em Portugal.

Cai-Göran Alexander Stubb foi deputado ao Parlamento Europeu entre 2004 e 2008, ministro dos negócios estrangeiros entre 2008 e 2011 e ministro dos assuntos europeus e do comércio externo entre 2011 e 2014. Em Junho desse ano, Jyrki Katainen, líder do partido de Stubb e primeiro-ministro, demitiu-se. Stubb assumiu ambos os cargos. Nas eleições de Maio último, o seu partido obteve apenas o segundo lugar no número de votos e o terceiro no número de assentos no Parlamento. Na sequência das negociações que se seguiram para a formação do governo, Stubb transitou do lugar de primeiro-ministro para o de ministro das finanças.

Não estou a ver um político português fazer algo similar. Aceitar este tipo de «despromoção» num país em que até se tornou regra a demissão do líder do principal partido derrotado. Sinais de falta de maturidade democrática, dirão alguns. Certo. Mas não apenas dos políticos e não apenas «democrática»; também «social». O líder derrotado demite-se e nunca faria o que Stubb fez por muito mais do que vaidade pessoal ou crença genuína de ser essa a melhor solução para o país. Fá-lo também porque, de outro modo, perderia o respeito dos portugueses. E isto permite extrapolar para áreas que não a da política. Permite compreender como Passos está certo ao salientar o estigma que, em Portugal, tende a cair sobre os desempregados (sobre quem perde o emprego). Os portugueses gostam de discursos empolgados acerca de respeito e de solidariedade, oferecem empenhadamente um quilo de arroz ou de massa nas campanhas do Banco Alimentar contra a Fome mas, raspada a camada superficial de verniz, estão longe de constituir uma sociedade respeitadora do esforço, do risco pessoal e da consequência mais negativa destes: o ocasional insucesso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da tristeza

por Teresa Ribeiro, em 09.07.15

Nos tempos que correm vigoram leis de comportamento muito rígidas. Quem faz questão de alinhar o pensamento pelas tendências da moda Primavera/ Verão e Outono/ Inverno dos últimos anos não pode ser pessimista, nem velho, nem inseguro, nem piegas, nem triste. De todos estes ditames o que mais me incomoda é o que proibe a tristeza.

No esforço por sermos optimistas até reconheço um efeito terapêutico. É assim uma espécie de pilates para a amígdala. A negação do envelhecimento, não sendo das atitudes mentais mais saudáveis, tem efeitos colaterais coloridos que não trazem mal ao mundo. O combate à insegurança e à pieguice admito que pode fazer muito pelo nosso tónus emocional, mas a tristeza, senhores? A tristeza é uma necessidade. E é uma necessidade porque representa sempre um luto. O luto de uma alegria que nunca se chegou a ter ou que se perdeu.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Longe demais

por Teresa Ribeiro, em 07.07.15

emigrar-660x330[1].jpg

 

As pessoas deixam rasto. Os animais sabem-no bem. Os animais e as mães. As boxers que ficaram esquecidas na roupa suja, a caneca ainda com um resto de leite, a cama desfeita, o rasto morno da ausência sente-se no ar.

O som dos passos e da voz, que é a brisa do corpo, o doce marulhar que assinala a presença de gente que se ama, quando desaparecem alteram o sentido das coisas. O quarto desarrumado, antes cheio e vibrante passa a ter apenas destroços, farrapos de objectos sem utilidade, ao passo que as não-coisas ganham importância: o lugar onde esteve a mala, o lugar onde se sentou, o sítio que...

As memórias, essas horrorosas que servem para tapar os buracos da existência, vão saindo do armário ordenadas, à medida que o tempo avança depois de uma despedida. Aos poucos ocupam os seus lugares, substituindo o real pelo imaginário e um filho passa a ser o que é durante quase todos os dias do ano: o retrato de um filho, ou a imagem via skype de um filho. Algo assim. Inodoro, intangível, pixelizado. De palpável fica aquela dor enquistada e a inveja das famílias que crescem juntas, que podem dar-se ao luxo de crescerem juntas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas - 8

por Teresa Ribeiro, em 20.06.15

No elevador:

- Ontem anunciei aos meus filhos que ia ficar sem emprego. E sabes como é que reagiram?

- Como?

- Parecia que estavam combinados. Trocaram olhares, deram um pulo e gritaram: "Yes!!!"

- Tadinhos. Mal te viam...

- Pois.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas - 7

por Teresa Ribeiro, em 17.06.15

Ao telefone:

 

- Então e o Sebastião, já melhorou?

- Tive que ir outra vez com ele à clínica, mas disseram-me para não me preocupar, que isto agora vai com o tempo.

- Com mais uns miminhos ele arrebita, vais ver.

- Tem passado todas as noites comigo.

- E o Luís não se chateia?

- Diz que ele ressona, nunca está quieto e larga muito pêlo. Mas já o pus à vontade. Se quiser, que vá dormir para o sofá.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas - 6

por Teresa Ribeiro, em 16.06.15

Na esplanada:

- Agora, quando eu e o João estamos juntos quase não falamos.

- Isso não é bom.

- A questão é que não sei. Às vezes sinto-me bem por não ter que puxar assunto.

- Ah, então não é bom, é óptimo. Significa que já são íntimos.

- Não sei se é intimidade, se é desinteresse.

- Mas quando estão calados ficam aborrecidos?

- Não. Ficamos a jogar no telemóvel.

- Então não percebo qual é o teu problema.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas 5

por Teresa Ribeiro, em 14.06.15

No restaurante:

- Dantes dizia-se "ele é mulherengo, mas tem bom carácter". Agora diz-se "ele tem bom carácter mas é mulherengo".

- Ainda se pratica o relativismo o moral.

- Sim, mas já não se perdoa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Efeitos perversos da cultura azul cueca

por Teresa Ribeiro, em 10.06.15

Ela está reformada, agora não faz nada. Como a reforma é curta, dispensou a mulher a dias, de modo que para se ocupar limpa e arruma a casa, faz as compras, o almoço, o jantar e apoia a filha, que trabalha muito, ajudando as netas a fazer os trabalhos da escola e acompanhando-as ao ballet.

Ele também se reformou. Agora passa o tempo a dormir e a ver televisão. Ainda apareceu algumas vezes nos jantares de confraternização que os colegas organizam todos os meses, mas depois chateou-se. As piadas eram sempre as mesmas, as recordações partilhadas iguais. A verdade é que já não lhe apetece sair de casa. Os médicos diagnosticaram-lhe há pouco tempo uma depressão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O estado da arte da Arte?

por Ana Lima, em 13.05.15

Arte hoje.jpg

 Cartoon

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um travesti de democracia

por Rui Herbon, em 25.04.15

quote-democracy-feeds-on-argument-on-the-discussio

 

A ideia de que podemos saber e contar tudo acerca de outro ser humano é o pior pesadelo do mundo moderno. A submissão da fragilidade pessoal ao olho alheio devora tudo e revela uma perda de sensibilidade, da capacidade de se colocar no lugar do outro, do escrutinado. Há uma cegueira moral generalizada, que implica uma atitude de indiferença perante o que sucede ao nosso redor, desde logo política e socialmente, enquanto aumenta o olhar crítico – invejoso, ressabiado, maledicente, não empático – sobre os demais. É o primado do próprio: o mundo visto exclusivamente de acordo com o Eu.

 

Um dos traços da modernidade é a perda da sensibilidade para respeitar a intimidade do outro, os seus pequenos recantos reservados, as suas ideias sobre qualquer realidade. Há que pôr a nu o adversário, catalogá-lo, enviá-lo para as estantes dos armazéns construídos pelos fabricantes de rótulos. Não se admitem matizes; apenas preto e branco. Não são tempos de valorizar as complexidades humanas, individuais e colectivas.

 

Os fabricantes de rótulos não perdem tempo. Etiquetam rápida e liminarmente personagens públicas ou privadas, livros, autores, instituições. Não se discute o conteúdo; apenas o rótulo que se lhes coloca. Quem incomoda é devidamente rotulado, empacotado e tirado do circuito – neutralizado.

 

Não há só uma fábrica de rótulos; existem em todos os quadrantes políticos e sociais. Mas há umas mais poderosas que outras. Todas trabalham com afã, segundo as suas possibilidades e a sua infra-estrutura. É o triunfo da democracia de opinião (ainda por cima desinformada e/ou dirigida) sobre a democracia participativa, baseada na complexidade da vida e dos factos que a acompanham. Estas visões transformam o adversário em inimigo e dificultam a convivência política e social; colocam a ficção acima da realidade.

 

A democracia não se define pela realização de eleições; estas são a consequência de um conceito mais profundo: nunca seres humanos livres pensarão todos da mesma maneira, daí a necessidade de aferir e balancear essas correntes mediante o escrutínio eleitoral, respeitando as diversas opiniões, mesmo as minoritárias, para que a democracia não se converta na ditadura da maioria. Quando o que se observa generalizadamente, nas caixas de comentário de jornais e blogues, nas redes sociais, nas conversas de café, nos debates entre políticos, até no parlamento, é o desprezo (ou até o ódio) por quem pensa diferente, rotulado com uma parafernália de epítetos e visto como encarnação do Mal, facilmente se conclui que o regime – sinal dos tempos mas também por culpa de todos e cada um – se transformou num travesti de democracia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bullying, disse ela

por Teresa Ribeiro, em 19.04.15

E disse bem. Só que não estamos sequer a falar de um episódio passado entre crianças, ou adolescentes, ou gente rude. Não, isto aconteceu num hospital, por ordem de gestores hospitalares e com a colaboração de médicos. Ficámos também a saber que não foi caso único. A moda pegou no Serviço Nacional de Saúde.

Pelos vistos é assim que querem acabar com as mamas no Estado. Alguém lhes explique o que é uma metáfora e já agora o que é a decência. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Escutas - 4

por Teresa Ribeiro, em 18.04.15

No metro

- Eu bem podia pôr um anúncio a pedir emprego numa dessas páginas em que as pessoas se oferecem para ter relacionamentos: "Jovem licenciada em Biologia bem parecida solteira e sem filhos deseja casar-se com a profissão a qualquer preço".

- Eheheh! Experimenta. Hoje em dia valorizam muito a criatividade.

- É fora da caixa, não achas?

- Totalmente fora da caixa!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Isto sim, é notícia

por Teresa Ribeiro, em 16.04.15

CEO diminui ordenado em 90% para aumentar (desculpem o anacronismo)... trabalhadores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Jornalista durante duas horas

por José António Abreu, em 09.04.15

Blogue_EncontroFFMS2.jpg

Rui Moreira surge apenas para almoçar e é mais alto do que parece na TV. José Alberto Carvalho está na plateia desde o início e é mais baixo do que parece na TV. Na mesa, Nuno Garoupa afiança que «o Porto é o início desta saída de Lisboa», Pedro Magalhães fala no «lado escuro e no lado claro da tecnologia» e David Lopes debruça-se sobre uma das frases expostas nas paredes (Login, logo existo?) enquanto ao seu lado, muito adequadamente, os outros dois usam os smartphones pousados sobre a mesa. No que me diz respeito, não sei bem o que estou aqui a fazer.

 

A culpa é do Pedro Correia. Contactado para saber se o Delito gostaria de estar presente na conferência de imprensa de apresentação do quarto encontro da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), a realizar no Porto no dia 12 de Junho, perguntou-me se estaria disposto a ir. Nos breves e inconsequentes devaneios que em adolescente tive com a profissão de jornalista entravam mais visões de Cary Grant em His Girl Friday (e de súbito apetece-me falar sobre Rosalind Russell mas vou resistir ou não escrevo mais nada sobre a conferência) e de Robert Redford em Os Homens do Presidente (também havia Dustin Hoffman mas eu identificava-me mais com o gajo giro) do que de almas penadas, precárias e mal pagas sentadas em cadeiras desconfortáveis recolhendo informação previamente formatada para lhes evitar esforços cerebrais e – mais inconveniente – assomos de curiosidade. Ainda assim, respondi-lhe que iria. Afinal, respeito o trabalho e as ideias de Nuno Garoupa, de quem li O Governo da Justiça, e de Pedro Magalhães, que costumava ler no Margens de Erro (notícia em primeira mão: ele promete reactivá-lo antes das legislativas). Além disso, haveria almoço.

 

E lá fui então hoje assistir à conferência de imprensa na Casa da Música, no preciso dia em que se iniciam as comemorações dos seus dez anos de actividade (uma «feliz coincidência», segundo David Lopes, da Comissão Executiva da FFMS). O tema do Quarto Encontro da Fundação (o primeiro fora de Lisboa – daí a frase de Garoupa) é: Admirável Mundo Novo: o Futuro Chegou Cedo Demais? Como seria de esperar, no pequeno auditório do espaço CiberMúsica (ciber, estão a ver? Tudo é pensado ao mínimo detalhe) houve referências a Aldous Huxley, que, graças a tecnologias outrora impensáveis mas hoje banais, surgiu mesmo no ecrã (evidentemente, havia um ecrã), no excerto de uma entrevista de 1958. Infelizmente (até a tecnologia comprovada tende a falhar nos momentos mais inconvenientes), a qualidade sonora correspondia mais a uma entrevista efectuada nos tempos da grafonola, quase nada se entendendo, mas Pedro Magalhães prometeu que os problemas estarão resolvidos no encontro, a realizar na maior e – todos o sabem – acusticamente perfeita sala Suggia. Por sorte ou competência (em Portugal, costuma ser a primeira; neste caso, é possível que seja a segunda), na documentação em papel (esse meio obsoleto) a frase lê-se sem problemas e até se encontra traduzida: O que eu acho é que não devemos ser apanhados de surpresa pelo avanço da nossa tecnologia. Isto aconteceu vezes sem conta na História com o avanço tecnológico, que por sua vez muda as condições sociais, e de repente as pessoas encontram-se em situações que não anteciparam e a fazer todo tipo de coisas que, afinal, nunca quiseram fazer. Ou seja, por muito que eu ande para aqui a divagar, o tema é sério e actual. Genericamente, o encontro será constituído por quatro blocos, versando sobre:

- A «pegada digital» que deixamos online, as questões dos comportamentos e da privacidade;

- As consequências das evoluções tecnológicas nas áreas da bioengenharia, da cibernética, da inteligência artificial e da sensorização da realidade;

- Os efeitos na sociedade (e, desde logo, no mercado de trabalho) das mudanças na produção de bens e serviços decorrentes de avanços nos sistemas de informação, na automação e na impressão 3D;

- As implicações das novas tecnologias na cidadania e nos sistemas políticos.

Entre os participantes, contam-se pessoas como David Brin (autor, entre outros, dos livros The Transparent Society e The Postman – o qual, na transposição para o cinema, permitiu novo tour de force a Kevin Costner, sem dúvida um dos melhores actores inexpressivos da história de Hollywood), Evgeny Morozov (redactor da New Republic e autor de livros como To Save Everything Click Here: The Folly of Technological Solutionism), Tyler Cowen (economista, colaborador dos principais jornais americanos e autor do blogue Marginal Revolution), Bruce Sterling (crítico, colaborador da Wired e autor de vários livros, entre os quais alguns dos mais importantes romances de ficção científica das últimas décadas) e, suponho que para demonstrar que a tecnologia não é tema exclusivo do género masculino, cinco – ou seis, que falta anunciar um nome – mulheres (em vinte participantes). Por exemplo, Ellen Jorgenson, directora executiva do Genspace, um laboratório dedicado à promoção da ciência e do acesso dos cidadãos à biotecnologia (aqui numa Ted Talk, apresentando o Genspace). Quem estiver interessado («não é cedo demais para marcar lugar no futuro», alertou David Lopes, usando mais uma das frases publicitárias) pode consultar o programa no site oficial. A inscrição custa 15 euros mas inclui almoço, servido no parque de estacionamento subterrâneo da Casa da Música (Lopes garante que a tecnologia o transformará num local onde os comensais poderão sentir-se na serra ou em frente ao mar mas eu, que conheço o local e também já estive em serras e junto ao mar, permaneço céptico). Extra programa, será possivel assistir à gravação da emissão da semana do Governo Sombra. Quem não quiser – ou não puder – estar presente poderá seguir as intervenções via streaming e a TVI24 providenciará ampla cobertura, sendo José Alberto Carvalho uma espécie de «mestre de cerimónias» do encontro (novamente, David Lopes dixit). 

 

E pronto. Acho que é tudo. Ah, não, também por lá encontrei colaboradores de outros blogues. São detestáveis. Mas o almoço estava óptimo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gestores portugueses

por Teresa Ribeiro, em 08.04.15

Segundo este estudo, os piores gestores da UE moram em Portugal e na Grécia, os membros mais vulneráveis e aflitos da união monetária. Falando dos nossos gestores, que é o que mais nos interessa, gostaria de saber o que resultaria da comparação entre a qualidade dos que temos e a dos que saíram para trabalhar fora.

Só posso especular, mas não duvido que se esse estudo comparado existisse indicaria duas coisas: que não temos nenhum problema genético, nem tão pouco ao nível da formação académica (há escolas superiores de gestão portuguesas no topo dos rankings internacionais). 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Férias da Páscoa

por Teresa Ribeiro, em 06.04.15

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

"Pai! Pai! Pai!" Era uma urgência, um clamor, mas sobretudo uma disputa com a irmã, pouco mais velha, talvez com uns nove anos. De temperamento menos nervoso, ataviada com a roupa de sair com o pai, a menina falava baixinho. Tão baixinho que o pai tinha de se curvar até quase roçar a cabeça dela. "Hã? Repete lá!" Em volta o miúdo sitiava-os, inventando números de circo. "Não te pendures aí, podes cair!" A voz do adulto saía controlada. Era a voz de passear os filhos em público.

"Pai! Pai! Pai!" E agora abanava-o, para o desviar dos sussurros da irmã. Mas a menina ignorava-o, prosseguindo a sua história interminável em surdina. Sem nunca perder a consciência de que estava a ser observado por estranhos, o homem tentava partir-se em dois, evitando acusar sinais de impaciência. Os garotos, também sem perder a consciência de que estavam a ser observados por estranhos, tentavam tirar o máximo partido da situação, esticando-o como se fosse uma corda. Cada um a puxá-lo pela sua ponta e um risco ao meio do terreno.

- Pai! Pai! Pai!

- Não grites, não vês que incomodas as pessoas?

Sempre em tom civilizado, desta vez com a menina a prender-lhe a cintura, tentava acalmar o filho, mas este continuava num desatino, a lutar contra o tempo, porque o comboio estava a chegar e antes que viesse ele queria, mais que tudo no mundo, ele queria, queria, queria que o pai o visse.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Losers

por Teresa Ribeiro, em 28.03.15

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Loser é um insulto que ouvimos com tanta frequência nos filmes e séries de tv americanas que mais parece um tique de linguagem. Entre nós "és um falhado" pode dizer-se, mas não andamos por aí a ouvi-lo na rua. Imagino-o a aplicar-se só em contexto dramatico-telenovelesco e mesmo assim em privado. Parece que não, mas soa mais pesado que um vulgar "és um merdas", algo que facilmente concebemos ouvir alguém proferir à porta de um café ou em frente a um grupo de amigos. Há até quem use o impropério com bonomia "anda cá meu merdas, dá cá um beijinho". E quem diz este, diz outros, até mais cabeludos.

A diferença entre este género de insultos e o estrangeirado "és um falhado" está logo à partida na forma como os pronunciamos. A emoção que carrega o nosso vernáculo retira-lhe conteúdo, pois é sabido que o que dizemos com raiva não corresponde necessariamente ao que pensamos. Loser, sempre o senti, possui a frieza de um golpe de arma branca. Começa no tom, que não é de raiva, mas de desprezo. Não julga o carácter, mas a capacidade de sobrevivência. É um chumbo numa sociedade onde ter sucesso e ser popular é tudo. E é aqui que se chega à questão da filiação ideológica do vitupério americano. Loser é um anátema. Corporiza tudo o que não se quer ser numa sociedade que odeia falhados.

Claro que também por cá não nos faltam recursos linguísticos para humilhar o próximo. A diferença que por enquanto existe entre uma sociedade como a americana e a nossa é que ainda não é compulsiva, mecânica e massiva a utilização do insucesso como arma de arremesso. Mas tudo indica que estamos quase lá. Há dias, no cinema, um anúncio a uma aplicação para telemóvel rematava com o icónico vocábulo. "Loser", assim mesmo, sem tradução. Para que o conceito passe com toda a sua força expressiva e fique.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Da indignação

por José António Abreu, em 27.03.15

O aspecto mais curioso na sociedade que busca incessantemente motivos para se indignar (aquela onde vivemos) é ser cada vez mais difícil prever quais os temas que gerarão maior desagrado. Como seria de esperar, a política, especialmente em anos de crise, funciona bem. A religião, evidentemente, também é quase sempre óptima a catalisar ódios reprimidos (um paradoxo?). O futebol, claro, permanece excelente a fazer com que opiniões contrárias ou pequenas provocações pareçam ataques pessoais indesculpáveis. Mas existe uma miríade de outros temas que, na sequência de uma piada seca ou de um adjectivo dúbio, têm um inesperado potencial para desencadear fúrias quase homicidas (o advérbio pode não passar de optimismo deslocado). Que num dado momento todos se afirmem Charlie não passa, evidentemente, de reacção condicionada pelo horror, pela força da opinião dominante e por défice de auto-análise. Dias, horas depois, regressa a indignação por tudo aquilo que não parece bem ter sido dito, ou feito, ou até pensado. Na política, isto tem consequências preocupantes: como já foi escrito, Churchill (inconveniente, irónico, fumador, gordo)  nunca seria eleito nos dias que correm. Em contrapartida, Hitler ou Estaline (convictos, sem pinga de humor inconveniente - quase um pleonasmo -, tão indignados quanto a generalidade da população) poderiam muito bem ganhar eleições. Paulo Tunhas escrevia no Observador há um par de semanas: A seguir ao futebol, o desporto da indignação é certamente o desporto mais noticiado em Portugal. É também o mais praticado, mesmo fora das redes sociais e dos meios de comunicação (em ambiente familiar ou laboral, por exemplo). E podia ao menos servir de catarse (J. G. Ballard defendia que não se procurasse eliminar a violência associada ao desporto porque fazê-lo levaria a explosões menos previsíveis) mas creio que nem isso sucede. Revela-se apenas esgotante, para todas as partes envolvidas, e faz com que muitos prefiram não se expor. Subsistem, por um lado, os clichés e, por outro, o ruído e os especialistas no mesmo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Intolerâncias

por José António Abreu, em 25.03.15

Alastram, são cada vez mais assumidas, tornam-se moda. Quem, há vinte ou trinta anos, ouvira falar da intolerância à lactose ou ao glúten?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Estou com ela

por Teresa Ribeiro, em 22.03.15

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Quem está contra a lista de pedófilos alegando que impõe medidas que na prática funcionam como a prorrogação de penas já cumpridas, certamente não ignora que estes criminosos por regra reincidem.

Numa situação em que não é possível proteger com igual eficácia vítimas e agressores, é razoável privilegiar os direitos das primeiras, sobretudo se forem, como é o caso, especialmente vulneráveis. Fernando Negrão, presidente da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República, disse a propósito desta polémica que "o Direito não pode ser imóvel, tem de apresentar soluções novas". Assino por baixo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O sucesso orwelliano

por Teresa Ribeiro, em 21.02.15

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Valoriza-se muito o acesso à cultura no seio familiar para justificar as desigualdades que existem à partida entre crianças em idade escolar e nunca se discute o acesso a competências funcionais que, mais que os livros, são determinantes para a sua evolução.

Agora que tanta importância se atribui à inteligência emocional, algo que se determina muito precocemente na vida, devíamos estudar melhor esse campo para perceber porque é que alguns aplicam com êxito nas relações que estabelecem com os outros os princípios que defendem os livros de auto-ajuda sem alguma vez os terem consultado e outros se afogam nessa literatura, em sessões de psicoterapia, pílulas da felicidade e sabe-se lá que mais sem nunca alcançarem os efeitos desejados.

A prova de que motivações para alcançarem o sucesso não faltam a estes falhados é que o negócio dos livros de "aprenda-você-mesmo-a-ser-o-máximo" é um negócio de milhões. A conclusão que muitos tiram depois de anos de psis, prozacs e leituras do género é que a dificuldade não está em assimilar a teoria, mas em levá-la à prática com autenticidade. Não há nada mais patético do que ver um triste a tentar ser engraçado ou um tímido a dar-se ares de predador. A autenticidade fareja-se.

Não é preciso ensinar a crianças da pré-primária quem são os líderes naturais da turma. Os traços de personalidade identificam-se na primeira infância. Nascemos com tendências comportamentais genéticas que rapidamente desenvolvemos ou atrofiamos conforme o teatrinho familiar em que nos achamos inseridos. O optimismo, o pessimismo, o sentido de humor, a autoconfiança, a insegurança, a coragem, o medo, a violência, a inveja ensinam-se. E são esses ensinamentos que ficam, que nos ficam para a vida. Nestes tempos de facebook constatamos invariavelmente que pessoas que não víamos há décadas "não mudaram nada" e é a essa massa de pizza que nos referimos, não aos ingredientes que lhes juntaram ao longo dos anos.

Tal como as diferenças de acesso à cultura, também estes diversos níveis de acesso precoce à alegria, à tristeza, ao medo, à confiança, etc, deviam ser estudados para não se cometerem tantas injustiças na avaliação que fazemos dos outros. Quando não existia tanta pressão para sermos iguais na resiliência, optimismo, pro-actividade e competitividade, os falhados ao menos podiam levar uma vida mais sossegada. As diferenças aceitavam-se com naturalidade e conviviam bem. Não duvido de que o aumento exponencial de casos de depressão que se verifica nos últimos anos no mundo ocidental tem a ver com o sentimento de exclusão que a "felicidade" orwelliana inspira nos que por natureza não são tudo o que hoje se deve ser, ou pelo menos parecer.

Há dias encontrei na net a reprodução online de uma entrevista que a conceituada professora de Neurologia Teresa Paiva deu em 2010, à revista das Selecções do Reader's Digest. Não duvido que se deve à sua formação científica e longa experiência profissional ter falado de si e do seu sucesso nos seguintes termos:

"Como não me fiz a mim própria, como não me escolhi, não tenho uma particular vaidade de dizer que sou assim ou assado. Não sei se devemos ficar muito orgulhosos por ter feito uma coisa; no fundo temos essa potencialidade. Esta humildade é importante tê-la".

Pois. Quanto mais se estuda o cérebro, mais se percebe até que ponto o "hardware" e o "software" se condicionam mutuamente. Onde começa e acaba o verdadeiro mérito de se ser assim ou assado é certamente uma das questões que ficam no ar para quem mergulha nesta área do conhecimento.

Ela disse "humildade"? Aí está uma palavra proscrita. Deviam dizer-lhe que na novilíngua orwelliana é um conceito que não existe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A violência mais cobarde

por Teresa Ribeiro, em 03.02.15

São machos traídos pela vida e que descontam na mulher e nos filhos todo o ódio acumulado desde a infância por culpa dos pais, dos tios, dos irmãos, dos colegas, dos professores, dos vizinhos, das namoradas, dos patrões e do raio que os parta.

Mais do que acusá-los, puni-los e dar visibilidade aos seus crimes era importante chamá-los pelos nomes. Um macho que gosta de arrear na mulher e nos filhos chama-se cobarde. Em todas as línguas.

Depois da censura social dos actos - coisa ainda tão inacreditavelmente recente - era importante avançar para o enxovalho social dos sujeitos, usando a terminologia que melhor entendem. Ora a um macho que é macho o pior que podem chamar é cobarde. Gostei da campanha que passou no Verão sobre o abandono dos animais, em que várias figuras públicas diziam o que pensavam sobre esses donos. Não tenho dúvidas de que uma campanha feita em moldes semelhantes sobre violência doméstica ajudava a estigmatizar os agressores, o que seria bom. Porque o estigma tolhe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fazer filhos por dever é triste

por Teresa Ribeiro, em 22.01.15

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Não fosse o ditame "crescei e multiplicai-vos" e a sexualidade jamais seria tolerada pela moral cristã. Mas como para povoar a Terra é absolutamente necessário ceder aos prazeres da carne, não há outro remédio senão abençoar o acto, mediante certas condições, como se sabe. Uma é o casamento, outra é a cópula espiritualmente assistida, ou seja, estritamente orientada para a procriação.

Tudo o mais é luxúria, egoísmo, concubinato. Felizmente vivemos numa sociedade livre, em que até os católicos podem aligeirar estes preceitos e constituir família com muitos, poucos, ou filhos alguns. Não se livram, os casais menos férteis, é de levar com o epíteto de egoístas, só porquepreferem juntar dinheiro para comprar um jeep ou para ir de férias, do que para aumentar a prole.

Mas se vamos a falar de egoísmos também podemos considerar o dos casais que têm filhos por capricho, ou por uma questão de afirmação social, ou para preencher vazios existenciais. Esses egoísmos geram muitas famílias disfuncionais, por isso quando não se tem condições para assumir uma paternidade responsável por razões profissionais, psicológicas ou outras igualmente respeitáveis, mais vale comprar um jeep do que trazer ao mundo crianças infelizes.

Nos tempos que correm, parece-me muito mais adequado pregar o amor e disponibilidade que se deve aos filhos que se planeiam e não o dever de os ter, até porque ter filhos por dever é triste.

A paternidade responsável passa pela gestão controlada do número de crianças. Pode ter consequências graves para a demografia, só que esse não é um problema das populações, mas de quem as governa. Por isso a pressão deve ser feita sobre as políticas sociais e não sobre as pessoas. Ninguém faz filhos por causa da demografia. 

 

(foto de Dorothea Lange (Migrant Mother, de 1936)

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Islão e a Europa (2)

por João André, em 10.01.15

O meu post anterior fazia referência às perspectivas sobre as causas do terrorismo ou à ausência de vontade para as compreender. Neste abordo outro aspecto: a percepção da "ameaça islamista" na Europa.

latuff-hebdo.png

 

Na minha opinião, um dos cartoons mais relevantes que foi publicado na sequência do ataque foi o que está acima. Porquê? Porque as reacções ocidentais (especialmente as europeias) irão no sentido de apontar dedos (quando não outras extremidades mais sinistras) aos muçulmanos. Não é difícil imaginar Marine Le Pen e outros da mesma laia a salivarem-se de antecipação. Estes ataques são para eles uma profecia que se cumpre: a Europa está a ficar islamizada e os muçulmanos não só não se integram como são altamente hostir aos valores ocidentais.

 

Só que não é assim, pelo menos acreditando neste gráfico da Al-Jazeera, perdão, do Economist. Aparentemente nem a Europa está a islamizar-se tanto quanto se pensa nem há assim tantos riscos quanto isso. Os independentistas parecem ser mais perigosos que os islamistas.

20150110_gdc999_3.png

 

Porque razão esta disparidade (se me permitem que tente reflectir)? Bom, parece simples: pelas mesmas razões que referi antes. É mais simples hostilizar alguém que parece ter diferenças fundamentais em relação a nós (religião, cultura, cor, hábitos alimentares, vestuário, etc) do que aqueles que parecem perfeitamente iguais, ao ponto de não se compreender os motivos da violência (compare-se a diferença entre um árabe e um europeu e a que existe entre um basco e um andaluz).

 

E é este o perigo do populismo: reduz os temas que lhe interessam às questões que lhes interessam. Na Alemanha o Pegida nasceu em zonas onde os muçulmanos estão menos presentes. Na Suíça foram aprovados referendos que não só nasciam de falsas questões (há pouquíssimos minaretes no país) como eram prejudiciais ao país (pelo menos se os governantes e a UE não encontrarem soluções intermédias). A única solução para este problema é acção civil e informação. Na Alemanha, por exemplo, as contra-manifestações têm tido enorme sucesso. Faltaria uma mentalidade semelhante noutros países. É por isso que este movimento é tão importante como o Je suis Charlie. De certa forma, é mais importante.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Islão e a Europa (1)

por João André, em 10.01.15

E pronto. Bastaram uns dias e a esquerda já tem culpas no cartório. Até me admirei isto não ter aparecido mais cedo. A esquerda são aqueles tipos que comem criancinhas (não muçulmanas) ao pequeno almoço e que cometem esse pecado incrível de querer compreender as causas dos actos de indivíduos. Que disparate. Como se atrevem? Deviam era exercer o seu "direito ao silêncio" (adoro esta expressão novolinguística). Nem vale a pena explicar porque razão tais comentários seriam em si mesmos uma tentativa camuflada de limitar aquilo que pretendem defender.

 

O princípio de quem ataca esse tipo de declarações parece ser simples: os atacantes eram terroristas com ódio à liberdade de expressão do jornal e cartoonistas pelas suas aparentes injúrias ao Islão. Porque razão o fizeram? Porque eram terroristas. Porque razão eram terroristas? Porque o fizeram. O argumento anda, mais ramificação menos ramificação em torno des lógica (sic).

 

A muita gente dá jeito manter uma imagem monstruosa dos atacantes. Não são verdadeiramente humanos, são monstros com noções de cultura completamente díspares das nossas. Deveríamos era construir muros/deportá-los/prendê-los/massacrá-los (riscar o que não interessa). Quem são eles? Pois... eles, os terroristas. São muçulmanos, não é? Esses. Pois.

 

A desumanização do outro lado é truque tão antigo como a humanidade. Essa desumanização pode ser feita pelo lado da cor, cultura, raça, religião, ideologia, idade, etc. É a melhor forma de garantir a hostilidade. Infelizmente é também falsamente execrável. Qualquer ataque às tentativas de entender os possíveis motivos dos terroristas/assassinos (não riscar nenhuma opção) é não só um mau serviço à liberdade que se pretende defender, é também altamente contraproducente. As teorias para explicar o racismo ideológico, o ódio religioso ou a rejeição cultural de um grupo ou indivíduos podem estar completamente erradas. Sousa Santos poderá estar a dizer disparates atrás de disparates. Só que isso não sucede por tentar explicar.

 

Infelizmente ainda domina um conceito estranho que parece defender que é possível ser-se inatamente racista (seja lá qual for a forma que o racismo assuma) e que impede a análise destas mentalidades. Infelizmente não o somos (as coisas seriam mais simples) e há sempre razões sociais e individuais para os actos como os desta semana em França. A melhor forma de impedir a sua repetição é precisamente compreender aquilo que lhes deu origem. Não estamos a desculpar os terroristas, estamos a tentar evitar que outros surjam. Não o fazer seria o mesmo que condenar o virús do ebola por ser mau e não tentar compreender como evitar novos surtos.

 

Como o Pedro escreveu, não somos todos Charlie. Evitei tais facilitismos no meu texto por isso mesmo. Somos humanos. E, por muito que muitos o queiram ignorar colocando a cabeça na areia, os terroristas também o eram. Por isso são perigosos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os novos tabus

por Teresa Ribeiro, em 06.01.15

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Pode não se ter vocação para advogado, ou para professor, ou para arquitecto, ou para médico, ou para detective. Pode não se ter qualidades para ser um bom atleta, modelo ou actor. Pode não se ter perfil para líder, vendedor, gestor, relações públicas, assistente social...

Podia continuar a enumerar profissões, ou ocupações cujas características exigem certas competências por parte de quem as exerce com a certeza de que todas as afirmações seriam aceites como algo que de tão óbvio nem carece de discussão. Se há coisas que esses concursos de televisão mostram até à saciedade é como são patéticas as pessoas que não se enxergam e teimam em querer ser o que não podem como cantores mesmo não tendo voz, ou empresários, embora revelando a mais absoluta falta de instinto para o negócio.  

Tudo isto é evidente, mas... ninguém ouse dizer que não tem capacidade para ser aquilo que a cartilha liberal revela como estando ao alcance de todos. Ninguém diga de si próprio que não tem espírito empreendedor, porque mais politicamente incorrecto não poderia estar a ser. Corrijo: mais político não poderia estar a ser. Porque afirmar essa incapacidade é primeiro que tudo uma declaração política. E quem o fizer arrisca-se a junto com a desconfiança e a censura dos convertidos levar o rótulo de preguiçoso, acomodado, cobardolas, piegas.

Não tem perfil de empreendedor? Sério? Shiuuu!!! Não diga isso a ninguém. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Marketing de carreiras

por João André, em 09.12.14

No moderno mundo profissional vemos constantemente os conselhos para progredir na carreira. Desde os "7 hábitos de pessoas muito bem sucedidas"; aos conselhos sobre o que dizer ou perguntar e como agir em entrevistas; passando pelos inevitáveis apelos a empreendedorismo, iniciativa, destaque no meio da multidão, formas de discernir quais os maus chefes ou se estamos entalados numa determinada posição.

 

Não sou alguém que se aborreça com conselhos, bem pelo contrário, aceito-os de bom grado, mas pergunto-me onde neste mundo há espaço para as pessoas que não têm ambições especiais. Não falo daqueles que vão atingindo o seu tecto, que por força de idade, capacidades ou qualificações não se conseguem desenvolver mais. Falo apenas daqueles que, sendo capaz de se destacar, preferem não o fazer. Falo dos milhões de profissionais que gostam de facto das suas funções e não as trocariam por uma carreira de sucesso pela simples razão que... já são bem sucedidos ao serem pagos por fazer aquilo que lhes dá prazer.

 

Este é apenas mais um reflexo da cultura moderna ocidental que leoniza os profissionais muitíssimo bem sucedidos e os dá como exemplos para toda a gente. É uma cultura que também acaba por menorizar os outros, que não se desenvolveram mais simplesmente porque não era possível, não é possível a todos serem gestores. É ainda a cultura que promove encontros de antigos colegas de escola e universidade que promove confissões quando alguém é felicitado por ser um gestor sénior: «Sim, sou o gestor sénior de mim mesmo». Ou quando as boas e velhas secretárias (que continuam a ser as figuras mais influentes em muitas organizações) são promovidas a "assistentes de gestão". Não estaremos longe do momento em que o nome "Gestor de resíduos processuais administrativos" será entregue a quem despeja o cesto dos papéis.

 

Peço que não me vejam como um velho do restelo. Não quero o regresso aos tempos em que ser um manga de alpaca era o sonho promovido pelo governo ou mundo empresarial. Há no entanto um momento em que o marketing na área das carreiras deixa de ser vantajoso: esse momento chega quando deixamos de chamar os bois pelos nomes e temos que lhes dar o título de "gestores de motricidade de transportes não motorizados".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pós-química

por José António Abreu, em 29.11.14

Nos tempos actuais - e ainda que a ciência o tenha validado -, a química é um conceito pouco exacto para descrever o mecanismo de atracção entre duas pessoas. As reacções químicas tendem a alterar significativamente os elementos que as sofrem. Mais correcto e moderno será ver as relações como redes Wi-Fi, nas quais se saltita entre hotspots consoante a força do sinal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Lolitas

por Teresa Ribeiro, em 27.10.14

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

Todos os dias as vejo por aí a esvoaçar, de calções muito curtos, meias de rede, saltos altíssimos, soutiens push up, maquilhagem pesada, unhas de gel, tatuagens, piercings, tudo o que a moda lhes ensinou e o comércio lhes vende a preço de saldo. Algumas são tão novinhas, mas já tão mulheres. Coxas e peitos poderosos, a explodir na roupa.  Tão jovens que é natural que confundam tudo e não percebam que a moda é traiçoeira. As roupas que ficam a matar na modelo esquelética da capa de revista por vezes não vão bem em corpos roliços.

Julgam-se sexy porque atraem os olhares, mas mais parecem meninas de bar de alterne. A distância entre a vulgaridade e a poesia é tão curta que dói ver estas ninfetas a afirmar-se, muito donas da sua sexualidade, da forma errada. Será que não têm mães em casa para as ensinar a vestir? 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Virar o bico ao prego

por João André, em 17.10.14

Era uma questão de tempo até as empresas virarem o bico ao prego. Agora, desincentivar as mulheres a terem filhos é visto, pelo menos por certas empresas, como um apoio às mesmas. Não importa que a medida seja cosmética e que a esmagadora maioria das mulheres que decidam aderir não venham a retirar quaisquer benefícios. As empresas terão apoiado a promoção das mulheres nas suas estruturas.

 

É por isso que não aceito que o Estado se isente das vidas empresariais. Os mecanismos de auto-regulação nas empresas não funcionam nunca em favor dos mais fracos - os trabalhadores - e é aqui que o Estado tem de agir. Não pode estar a querer dirigir a economia - fá-lo-à sempre de forma menos eficiente - mas tem que corrigir as assimetrias de poder.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A paz quer-se podre

por Teresa Ribeiro, em 26.09.14

Já se ouve por aí dizer a propósito do que tem saído na Imprensa sobre a Webrand/ PSD e a Tecnoforma/ Passos Coelho que "qualquer dia ninguém vem para a política, porque ninguém é santo". São desabafos laranjinhas, mas se fossem outros os apertos logo mudariam de cor. O que interessa é perceber que mais do que reflectirem um nervosismo "clubista" denunciam uma total indiferença pela coisa pública. A preocupação não se foca nos eventuais dolos, mas nos putativos infractores, vistos neste contexto como vítimas de uma caça às bruxas. Esta é a nossa cultura cívica. Temerosa, reticente e dual. Se para moralizar o sistema é preciso escrutinar os nossos, o melhor é deixar estar.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D