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Desapareceu

por José Navarro de Andrade, em 31.03.14

 

A revolução coperniciana ainda só tem quatrocentos e picos anos, um tempo manifestamente insuficiente para a termos interiorizado no nosso dia-a-dia.  Depois dela, compreender a natureza passou a ser uma pura construção mental, feita de modelos matemáticos e observações que os vão reiterando. Ou seja, o senso-comum, esse bem tão precioso em certas instâncias da actividade humana, pode bem ser um obstáculo quando se quer demonstrar que ainda ninguém viu claramente visto a Terra girar à volta do Sol, e que não há nenhuma prova empírica para essa bizarra ideia, todos os dias desmentida pela nossa observação. Sucede simplesmente que o modelo continua a funcionar e por isso continuar-se-á a tomá-lo como correcto.

Repare-se que do vôo MH370 até agora não se achou nem se viu nada. Os únicos elementos que existem dele são meros sinais elétricos que foram arduamente interpretados a partir de conjecturas matemáticas. Ora aqui está um exemplo supremo do intenso combate entre a inteligência humana e a natureza; o pouco que sabemos, sabemo-lo por pura dedução e por esforçada inferência, a partir de instrumentos.

Este caso extraordinário deveria reconduzir-nos à consciência não só da nossa abissal ignorância, como tem tudo para nos fazer reflectir sobre a forma como habitualmente pensamos as coisas, sobretudo noutras áreas da nossa vida: porque temos sempre que ir a correr para explicações quando elas simplesmente não existem? Porque nos entregamos ao logro imenso da especulação a partir de esquivas e insonsas provas empíricas? Porque levamos tão a sério o jogo rectórico onde sempre triunfa aquele que fala mais alto ou mais persuasivamente?

Sim, é possível que um vulto gigantesco como um Boeing 777 desapareça da realidade sem deixar rasto. Contra isto não há opinião que valha.

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O triunfo da irrelevância

por Pedro Correia, em 06.02.14

Por estes dias as indignações propagam-se em fluxos sincopados, produzindo um inevitável efeito de banalização. São sempre de alta intensidade e de extrema volatilidade: extinguem-se com a mesma rapidez com que despontam. Exigem apenas a disponibilidade de um dedo polegar num smartphone. Seja para evitar o abate de um cão que molestou uma criança ou de um boi que escapou na rota para o matadouro. Seja sobre a co-adopção, as praxes, a deposição de famosos no panteão ou a venda de umas telas de Miró.

Estas indignações avulsas, a propósito de tudo e de nada, promovem uma cultura de mediocridade, onde as óptimas causas se equivalem às péssimas sem hierarquia aparente e a tentação dominante é sempre nivelar por baixo, a coberto do pseudo-vanguardismo das "redes sociais" onde parece ter razão quem mais se exalta no conforto do sofá.

Assistimos impávidos ao triunfo da irrelevância e da superficialidade que acaba por produzir o efeito de uma anestesia geral: na semana seguinte já ninguém se lembra da polémica da semana precedente. Much ado about nothing, como nos ensinou um profundo conhecedor da natureza humana.

 

Reproduzido aqui, onde a partir de agora passo a escrever também

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O triunfo da javardice

por Pedro Correia, em 11.01.14

Eusébio, um dos maiores jogadores de sempre do futebol português, merecia o tributo das bancadas nos instantes que antecederam o Estoril-Sporting. Infelizmente o tempo é mais propício à javardice parola e exacerbada, como ficou demonstrado por elementos das claques presentes no estádio António Coimbra da Mota ao trocarem o minuto de silêncio por estrondosas vaias e cânticos tribais.

Vítor Damas, um grande símbolo de sempre do Sporting que também já não se encontra entre nós, foi adversário leal e um bom amigo de Eusébio. Tenho a certeza de que seria o primeiro a deplorar esta inaceitável atitude de adeptos incapazes de reconhecer mérito em figuras de outros clubes e de respeitar com decoro e dignidade a memória de quem partiu.

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Sinal dos tempos

por Pedro Correia, em 08.01.14

Vejo os títulos da imprensa de hoje nos quiosques. Títulos? Não, título. A manchete é comum: "Millennium apoia as empresas portuguesas". Um título não informativo, mas publicitário. Muda apenas o grafismo, cuidadosamente adaptado a cada periódico. Por aqui se vê a extrema debilidade financeira da nossa imprensa: basta um banco -- qualquer banco -- lançar uma campanha publicitária para todos os diários generalistas lhe cederem o seu espaço mais nobre, que devia estar reservado a notícias e não a anúncios.

Acontecesse isto noutro tempo e não tardariam vozes de indignação a multiplicar-se contra este abastardamento da nobre função de informar. Mas a coisa já passa agora sem o mais leve sussurro crítico, o que é um inequívoco sinal dos tempos.

Compro um exemplar do i - o único diário generalista que ficou à margem desta campanha. É o único que tem, portanto, uma manchete noticiosa: "Portugal sem estratégia para tempestades marítimas". Aqui fica a minha singela homenagem, enquanto leitor, ao jornal que quebrou o monopólio do Millennium neste chuvoso dia do novo ano.

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Do mérito perdido em parte incerta

por Pedro Correia, em 26.12.13

 

Passo por uma loja e volto atrás. Não para ver qualquer produto exposto na vitrina pós-natalícia mas para reler um letreiro que me ficou na retina. "Estamos a executar a montra", reza o aviso. Executar? Será possível que aquele comerciante tenha instintos homicidas, como tais palavras indiciam?

Mais adiante, noutra loja, outro letreiro promete "fazer as unhas" a quem se digne passar por lá. Como se as ditas não estivessem já feitas de origem.

E nesta ronda, como tantas vezes sucede, vou sentindo uma absurda estranheza perante o meu próprio idioma, tantas vezes maltratado, abastardado, vítima de aberrações lexicais que lhe são totalmente alheias não no sentido em que um Alexandre O'Neill ou um Mário-Henrique Leiria o "desconstruiam" mas devido à mais chocante ignorância.

A palavra-chave é esta mesmo: ignorância. Vivemos numa sociedade onde continua por implantar a cultura do mérito. Só isto explica que um responsável editorial escreva sem rasto de ironia, num dos principais jornais portugueses, que fulano de tal "houve o telejornal". Ou que um editor de cultura numa publicação de difusão nacional se gabe de não frequentar há longos anos uma sala de cinema.

Seria quase divertido se não funcionasse como espelho fiel da realidade, desta chocante falta de exigência que leva tantas vezes à promoção dos menos aptos e dos menos capazes. Não admira por isso que perante tais exemplos um jovem jornalista, escrevendo sobre uma promessa da música lusa algures na diáspora, faça notar que ela "tem descendência portuguesa" quando queria dizer exactamente o contrário. Ou que outro profissional do jornalismo em início de carreira considere essencial que "o professor haja" de outra forma na sala de estar. Ou que um elemento da direcção de um jornal diário, num editorial assinado com nome próprio, escreva esta pérola: "Se não houverem sobressaltos..."

Podia multiplicar os exemplos por cem ou por mil -- exemplos que não se circunscrevem à realidade portuguesa, como se pode comprovar aqui. Para chegar sempre à mesma conclusão: é lamentável ver tanta ignorância à solta. Escandalosamente impune. Quase como se fosse culta.

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A esperança em vez do medo

por Pedro Correia, em 08.12.13

 

Estes dias que se têm seguido à morte de Nelson Mandela mostraram-se muito férteis em manifestações de pesar que enaltecem o maior estadista de que há memória no continente africano, embora muitas não o façam pelo motivo mais adequado.

Sim, Mandela foi um admirável resistente a um regime iníquo. Sim, a sua tenacidade e a sua valentia são dignas de profunda admiração. Mas o que o torna superior aos demais, o que o torna realmente diferente de tantos nacionalistas africanos que também não se vergaram e resistiram à iniquidade e à opressão, aquilo que o projectará para sempre na memória colectiva das gerações vindouras é o seu exemplo ímpar de tolerância, reconciliação e diálogo num país que todas as cassandras de turno anteviam mergulhado em sangrentos conflitos étnicos e tribais.

Ao estender a mão fraterna ao inimigo de véspera, Mandela deu a todos os seus contemporâneos disseminados pelo planeta -- tenham a cor de pele, a fé religiosa ou a ideologia que tiverem -- uma extraordinária lição de dignidade humana que transcende épocas, fronteiras ou crenças. Foi uma verdadeira "fonte de inspiração", capaz de nos revelar "aquilo de que o ser humano é capaz quando é guiado pela esperança em vez do medo", como dele disse Barack Obama.

 

Retomo uma ideia já aqui muito bem expressa pela Ana Vidal: qualquer outro, no seu lugar, professaria a Lei de Talião -- o tal "olho por olho" que, como nos ensinou Gandhi, é o meio mais eficaz para tornar o mundo cego. Ele, que tinha mais razões que ninguém para impulsionar actos de vingança, apontou com rara sabedoria um rumo alternativo -- e conseguiu pô-lo em prática, não se confinando ao plano teórico -- durante cinco anos de mandato presidencial na África do Sul em que lançou os alicerces de uma sociedade verdadeiramente multirracial, congregando brancos e negros -- aqueles que agora o choram, unidos num genuíno abraço de pesar.

Um caso único de sucesso em África, o continente de todos os fracassos.

E o seu mérito não termina aí: abdicou voluntariamente do cargo supremo do país após ter cumprido um mandato presidencial, dando assim provas de um notável desapego do poder. Outro facto raríssimo em África.

 

No simples plano da convivência cívica, ao estabelecer pontes com adversários dos mais diversos matizes, Mandela soube ser grande. E único.

É tristemente irónico vê-lo agora enaltecido por todos quantos ignoram deliberadamente o seu exemplo, pregando nas colunas de opinião e no espaço público um exacerbado radicalismo, argamassado no ódio a quem pensa de maneira diferente e no desprezo pelas posições moderadas, racionais e não-extremistas.

Um pouco por toda a parte, neste mundo de múltiplas indignações plasmadas nas redes sociais, vivemos uma espécie de guerra civil de baixa intensidade. Que vê em cada palavra de bondade um sinal de fraqueza. Que faz de cada tribuna uma trincheira de rancor. Que imagina um inimigo oculto em cada divergência. Que transforma cada opinião discordante em casus belli. Que esmaga cada tese contrária com a fúria de um combatente apostado em não recolher prisioneiros nem respeitar convenções de Genebra.

 

Dizem admirar Mandela enquanto ignoram tudo quanto de essencial Mandela nos ensinou.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 27.10.13

«Os europeus vivem uma viragem de época: por outras palavras, já não podem viver como dantes. A Europa tem no estado social um dos pilares da sua identidade e do consenso social. "O Estado social não tem preço", diz-se. Mas o contrato intergeracional está ameaçado de ruptura. A resistência à reforma é a mais rápida via para o colapso. E, mesmo reduzido e racionalizado, o sistema não será sustentável sem crescimento. E não haverá crescimento sem outras reformas, cmo a do mercado de trabalho -- já efectiva nos países do Norte, mas ainda tabu nos países do Sul. O mito do "trabalho fixo para toda a vida" é uma fábrica de desemprego e um meio de segregar os jovens.»

Jorge Almeida Fernandes, Público

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Outono quente

por Pedro Correia, em 16.10.13

1. Já existe o canal Parlamento. Ainda não existe o canal Conselho de Ministros. Mas já faltou mais: as fugas de informação cirúrgicas tornam-se generalizadas e ganham a emoção de um relato de futebol. O sentido de Estado parece ter emigrado para parte incerta.

 

2. Difundir informações sem fundamento, causando um inconcebível alarme social, não penaliza só uns: penaliza todos.

 

3. Largar más notícias com abundância pelas manchetes da imprensa e pelos comentadores mais próximos enquanto se gere o silêncio: eis todo um programa de acção.

 

4. Bastam dez pessoas aos berros durante cinco minutos: as redes sociais transmutam a berraria em notícia, validada pelos chamados órgãos "de referência", muitos deles cheios de editoriais contra o "populismo". Meio século depois, nunca Marshall McLuhan esteve tão actual: o meio é a mensagem. Que, pelo efeito de banalização, logo se transforma em massagem.

 

5. Cento e cinquenta mil portugueses trabalham em Angola, nosso principal fornecedor de petróleo. Portugal é o maior parceiro comercial de Luanda. Há 8800 exportadoras portuguesas no mercado angolano, por mais que isso incomode certos aprendizes de feiticeiro. A parceria estratégica, que serve os interesses nacionais, devia ficar à margem da luta partidária. Para não desembocar nisto.

 

6. Taxa sobre produtores de electricidade, anunciada com espavento, vai repercutir-se na bolsa do consumidor. Eduardo Catroga, com notável despudor, já tinha avisado.

 

7. Bastam seis meses para a ambição partidária suplantar o espírito de serviço público? Se não é parece.

 

8. A extrema-esquerda em marcha. Abrindo caminho à extrema-direita: não acreditem que acontece só . Como alertava o PCP quando estava no Governo, em 17 de Junho de 1974, "as formas de luta devem ser cuidadosamente examinadas antes de decididas".

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Portugal e o mundo cinco anos depois

por Pedro Correia, em 12.10.13

Não sei se muita gente tem também este hábito: gosto de guardar jornais para mais tarde os confrontar com os efeitos da passagem do tempo.

Esta manhã, por coincidência, peguei num exemplar do Público datado de 12 de Outubro de 2008. Faz hoje precisamente cinco anos. E dei por mim a folheá-lo como se tivesse acabado de adquiri-lo numa banca.

A manchete situa-nos num facto concreto, no tempo e no espaço, que ainda hoje influencia -- e de que maneira -- o nosso quotidiano. Vivíamos as primeiras etapas visíveis da gravíssima crise em que permanecemos mergulhados e os políticos ensaiavam soluções de desfecho incerto. Incluindo a que surge estampada no título principal desta edição: "Europa e EUA nacionalizam bancos para sossegar bolsas".

Era um domingo, véspera de um encontro de emergência dos líderes da zona euro, a decorrer em Paris, enquanto no outro lado do Atlântico a General Motors e a Chrysler estudavam a possibilidade de uma fusão para sobreviver à pior crise do mercado automóvel em década e meia.

A ministra francesa das Finanças, uma tal de Christine Lagarde, admitia que os Estados europeus entrassem "ainda mais no capital dos bancos que se encontrem descapitalizados". Bem sabemos, à escala portuguesa, onde nos conduziu esta via, justificada para travar os cenários de colapso do sistema financeiro...

 

Não foi por falta de aviso para quem sabia interpretar os sinais dos tempos.

Na contracapa, Vasco Pulido Valente punha em causa a prioridade legislativa à agenda de costumes então muito em voga: "Na Assembleia da República, a esquerda e a direita tratam, com toda a seriedade, do casamento de homossexuais. Concordo inteiramente que a lei aprove o casamento de homossexuais. Mas, com o Ocidente à beira da falência, já para não falar de Portugal, essa não parece a prioridade do dia. (...) Talvez não fosse inútil imaginar como acabaria o País se a recessão americana (hoje inevitável) durasse, por exemplo, meia dúzia de anos; se a 'Europa' se desintegrasse ou enfraquecesse; ou se a esquerda e a direita voltassem, por força da necessidade, às nacionalizações de 1975. Compreendo que estas coisas deprimem e que, pelo contrário, o casamento de homossexuais puxa muito mais pela parlapatice."

Pulido Valente, com uma sagacidade imutável, pregava em vão. Porque Portugal parecia imune aos ventos da história. Uma investigação feita pelo jornalista Ricardo Dias Felner ao obscuro mundo das despesas do Estado feitas por ajuste directo, decorrente das alterações à lei da contratação pública, permitia concluir os mais desvairados gastos: "O gabinete de Sócrates reforçou a adega com sete mil euros em garrafas de vinho. O Ministério da Justiça comprou oito carpetes por 22 mil euros." Serviços de restauração, no âmbito de eventos camarários, equivalentes a quase 70 mil euros. Aluguer de "vários autocarros" pelo município de Gondomar: 33.250 euros. Cachê gasto pela câmara de Lagoa aos Da Weasel: 28.200 euros. Actuação de Rui Veloso a convite da autarquia de Elvas: 28.600 euros.

Especificava-se que as garrafas de vinho remetidas ao gabinete do primeiro-ministro eram da marca Quinta do Vale Meão, tinto, colheita de 2006, e destinavam-se a "oferta a entidades estrangeiras".

 

 

No estrangeiro, registava-se a morte de Joerg Haider, líder da direita nacionalista austríaca, ao volante de um veículo em excesso de velocidade. Sarah Palin, candidata à vice-presidência dos Estados Unidos por designação do republicano John McCain, enfrentava acusações de abuso de poder quando exercera funções de governadora do Alasca. O Público concedia-lhe foto a duas colunas, na primeira página. E questionava os leitores em título da página 2, dedicado à campanha eleitoral em curso nos EUA: "Abuso de poder de Palin é ferida mortal para John McCain?"

A imagem de McCain com o candidato democrata Barack Obama permite concluir que o actual inquilino da Casa Branca envelheceu bastante nestes cinco anos. McCain permanece no Senado. De Palin, estrela cadente, pouco ou nada se tem ouvido.

 

Há um anúncio de página inteira em que o Público felicita o primeiro aniversário de um jornal gratuito chamado Sexta. Vivia-se nessa época a febre dos "gratuitos", concebidos à semelhança dos folhetos de supermercado. Uma febre tão efémera quanto nefasta para o verdadeiro jornalismo.

Deste Sexta, confesso, não guardo qualquer memória. Mas a festa de aniversário deve ter sido de arromba. Embora menos dispensiosa do que a passagem de Marco Paulo, um verdadeiro artista português, pelo concelho de Lagoa, a expensas do contribuinte, pela módica quantia de 20.400 euros.

Notícias como esta, lidas à distância de cinco anos, ajudam a explicar o estado a que Portugal chegou.

 

E que mais?

Paulo Bento, na pele de técnico principal do Sporting, insurge-se contra as críticas, queixando-se da "pressão exterior", com o seguinte desabafo: "Toda a gente percebe de futebol menos o treinador". Isto enquanto o Presidente Cavaco Silva, supremo treinador do reino, evocava o "espírito" de Aljubarrota para enfrentar as "adversídades" do presente.

Cinco anos depois, há coisas que não mudam.

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De Estaline a Gordon Gekko

por Pedro Correia, em 31.08.13

 

Bem-vindos ao admirável mundo novo. O do trabalho sem direitos, o das jornadas laborais sem horários. Não me refiro às lúgubres linhas de montagem da China ou do Bangladeche, onde mulheres e crianças são atiradas, a troco de quase nada, para satisfazer as delícias consumistas das sociedades "emergentes". Refiro-me a outro género de escravatura contemporânea. À promovida pelos esclavagistas engravatados da City londrina, que utilizam jovens trabalhadores precários como peões da sua alucinada engrenagem do compra-e-vende, espécie de proletariado do nosso tempo que começa a trabalhar ainda antes de nascer o sol e continua agarrada à cadeira e ao telefone depois de o sol se pôr (porque há sempre uma Bolsa a abrir algures, noutro continente).

Um admirável mundo novo cheio de suicidas, em paragens tão diversas como Paris ou Tóquio. E com um novo mártir: um rapaz de 21 anos, oriundo da Alemanha, que trabalhou literalmente até morrer.

Chamava-se Moritz Erhardt, estava há sete semanas como estagiário da sede londrina do Bank of America Merrill Lynch, no sector da banca de investimento. Tinha como herói uma figura do cinema: Gordon Gekko, o implacável corretor interpretado por Michael Douglas em Wall Street, de Oliver Stone. O mesmo Gekko que proclamava: "A ganância é que faz mover o mundo."

 

Colegas que partilhavam a residência estudantil com o jovem alemão encontraram Moritz morto no duche, há duas semanas. Vinha de 72 horas consecutivas de trabalho, sem pausa para dormir. Num meio onde é frequente trabalhar entre 12 e 16 horas diárias, seis a sete dias por semana.

Trabalha-se em piloto automático, muito para além dos primeiros sinais de fadiga e esgotamento começarem a ser emitidos pelo corpo humano: 110 horas semanais, sem fins de semana. Para satisfação permanente da ganância de alguns.

 

O jovem alemão morreu a 15 de Agosto, dia de festas e romarias em Portugal nas quais se conjugam o sagrado e o profano. Dia que chegou a estar na lista dos feriados nacionais a abolir entre nós, por vontade dos Gordon Gekkos lusitanos, pífios aprendizes de Estaline - sem bigode e com camisas Hermès em vez da samarra comunista.

O ditador soviético promovia a "heróis do socialismo" aqueles operários que mais horas consagrassem à patriótica tarefa de produzir em doses brutais. O maior de todos eles foi Andrei Stakhanov, um mineiro que, no dia 31 de Agosto de 1935, terá conseguido extrair 102 toneladas de carvão em cinco horas e 45 minutos.

No amplo formigueiro estalinista, Stakhanov foi apontado como exemplo a seguir: recebeu um caloroso abraço de Estaline, passou a ostentar a Ordem de Lenine, ascendeu a deputado no Soviete Supremo da URSS, teve honras de capa na capitalista Time e deu até origem a novas palavras: stakhanovismo e stakhanovista.

Milhões de soviéticos procuraram seguir este padrão, para louvor e glória da "pátria dos trabalhadores", conduzida pelo grande ditador.

Moritz Erhardt não teve tempo para receber o abraço de ninguém. Infeliz Stakhanov dos nossos tempos, escravo de gravata, sucumbiu em Londres, à hora em que abria a Bolsa de Tóquio, deixando tanta acção por vender e por comprar. "Money never sleeps", como Gordon Gekko ensinou aos seus contemporâneos.

 

Imagens, de cima para baixo: Moritz Erhardt (foto The Times); Michael Douglas, protagonista de Wall Street (1987); Andrei Stakhanov num selo soviético

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 02.08.13

Cão que matou bebé passa a chamar-se Mandela por ser um "símbolo da liberdade".

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Num ecrã perto de si

por José Gomes André, em 28.07.13

A televisão é um espantoso agente de estupidificação de massas. 2500 anos de civilização depois, há pessoas que se voluntariam para cantar enquanto pisam descalças tripas de peixe e larvas. Com câmaras a gravar, público a assistir e espectadores atentos nas suas casas. Deve ser isto a definição de "decadência".

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Tempo de incertezas

por Pedro Correia, em 05.07.13

 

Alguns nostálgicos do Egipto de Mubarak garantem em blogues que os problemas actuais naquele país se devem à deposição do ditador, em Fevereiro de 2011. É tão absurdo afirmar isto como sustentar que o PREC foi consequência da cadeira mal armada onde Salazar se sentou numa manhã de Agosto de 1968, no forte de Santo António. Não explica nada, não justifica nada, não projecta a menor luz sobre o problema, mas alivia algumas consciências que sentem a irresistível tentação de prever sempre o pior para depois poderem proclamar que tinham razão. Seria mais fácil seguirem a velha fórmula de Vasco Pulido Valente: "O mundo está perigoso." De alguma forma acertavam sempre.

Estas Cassandras sentem a nostalgia de um mundo arrumadinho e cheio de etiquetas, onde era fácil traçar diagnósticos e fazer previsões. Um mundo sem redes sociais, sem internet, sem globalização, sem a "voz da rua" a propagar-se de continente em continente. Um mundo de fronteiras esbatidas, onde o indignado de Teerão pode ser cúmplice do indignado de São Paulo, a multidão tronitruante em Alexandria provoca ecos em Barcelona e os protestos em Istambul se escutam em tempo real em todas as latitudes.

A única certeza que temos é a de vivermos num tempo de incertezas. Gostaria de vaticinar que destes anos tumultuosos que vamos testemunhando sairá um mundo mais livre. A isso me induz a comparação entre 2013 e 1913: o ser humano aumentou em décadas a esperança de vida, foram debeladas doenças epidémicas, a maioria dos habitantes do planeta vive hoje em países democráticos, as generalizadas sombras da guerra deram lugar a inúmeras peregrinações pela paz.

Mas sei bem que a história é feita de linhas sinuosas, não de rectas. Os amanhãs não cantam - talvez até chorem. Devemos estar sempre preparados para o pior.

Depois não digam que não avisei.

 

Imagem: multidão em protesto na praça Tahrir, no Cairo (Foto Reuters, 29 de Junho)

 

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Como se os algozes fossem vítimas

por Pedro Correia, em 28.06.13

Um homem mata a mulher, de quem estava separado, e uma amiga dela, suicidando-se a seguir. Escassas semanas depois, a tragédia repete-se - com outro assassino e outras vítimas.

Aconteceu recentemente em Portugal.

Como já previa, não tardaram os depoimentos televisivos a desresponsabilizar os actos criminosos. Há sempre teses socialmente correctas para justificar os actos mais repugnantes.

Um canal generalista abordou o assunto, com a seguinte legenda em letras maiúsculas: "Crise e problemas financeiros explicam depressão social". Enquanto a voz da jornalista procurava configurar a situação desta forma: "Um futuro sem esperança para um presente em crise".

Os crimes concretos, com vítimas concretas, diluem-se nesta amálgama de frases destinadas a "explicar" a inadmissível violência homicida por factores sociais e até políticos. E nestas ocasiões nunca faltam psiquiatras a conferir um atestado de respeitável validade à tese implícita de que o gatilho é premido pela "sociedade" e não pelos assassinos.

"Numa sociedade deprimida há uma grande falta de esperança, as pessoas não têm perspectiva de futuro. Esta desesperança pode levar algumas pessoas a atentar contra si e contra outros", explicava um psi.

"As situações de crise, com desemprego e endividamento, são fundamentais na saúde mental dos portugueses", justificava outro.

A voz da jornalista insistia: "O consumo de antidepressivos aumentou, os casos de depressão também."

Pasmo com tudo isto - incluindo a sugestão de relação directa entre o consumo de antidepressivos e a morte de mulheres às mãos de maridos e companheiros. Pasmo com a pseudo-modernidade a pretender "contextualizar" os mais bárbaros atavismos com palavras de compreensiva condescendência. Pasmo com este cíclico jogo de passa-culpas dotado de um pretenso aval científico.

Como se os algozes fossem vítimas e estas, para merecerem um mínimo de respeito público, tivessem de ser assassinadas segunda vez.

Também aqui

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Mudam-se os tempos

por Ana Vidal, em 21.06.13


É emocionante ver como as questões ideológicas, pelas quais tanto se matou desde sempre em todo o mundo, estão a ficar ultrapassadas e afastadas do essencial das lutas dos homens. Seja em regimes de esquerda ou de direita, por todo o lado os povos saem à rua em protesto contra aquilo que é transversal a todos esses regimes: a falta de liberdade de expressão, as injustiças e desigualdades sociais, a corrupção, os abusos de poder, a degradação das condições de vida, a negação do direito a um futuro melhor para os filhos. Chamem-me utópica, mas parece-me um sinal claro de que a humanidade está a evoluir, a conquistar a sua maturidade. A exigir que seja respeitada a sua impressão digital e a fazê-lo com voz própria, sem intermediários. E fico feliz por viver numa época em que este passo é visível.

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De cara descoberta e em pé

por Pedro Correia, em 20.06.13

 

É, desde já, uma das imagens icónicas do ano: um jovem de camisa clara e calças escuras, mãos nos bolsos e olhar fixo num retrato descomunal de Atatürk, o fundador da Turquia moderna. Em silêncio num mundo cada vez mais dominado pela vozearia. Em pé, contrastando com as legiões contemporâneas de cidadãos acomodados. Uma espécie de estátua viva à desobediência civil através do mais inesperado dos gestos: o que contesta a força bruta sem exaltação nem agressividade.

Como se lhe bastasse a força da razão. E basta.

 

Esteve assim na segunda-feira durante oito horas este homem, chamado Erdem Gündüz e coreógrafo de profissão. Na praça Taksim, epicentro de todos os protestos na maior cidade turca.

Uma original forma de luta logo copiada por centenas de turcos - em Istambul, Ancara, Antália e outras cidades. Um exemplo de dignidade, carregado de simbolismo.

 

A imagem substitui todas as palavras neste admirável símbolo de resistência cívica, digno de um Gandhi ou um Luther King.

De cara descoberta e em pé, num orgulhoso desafio às forças da desordem. Outros ocultam-se e rastejam: quem tem força moral não.

 

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Como se o tempo ficasse suspenso

por Pedro Correia, em 04.05.13

Um pisa-papéis, um mata-borrão, um selo de correio: três inesperados objectos defronte de mim. Todos, na minha infância, tinham uso quotidiano. Tal como o tinteiro para caneta de aparo ou a lousa onde se escrevia a giz. Passaram uns anos - mas parece ter decorrido uma eternidade. Estes objectos tornaram-se peças de museu e vários deles são hoje quase incompreensíveis para uma geração viciada em gadgets electrónicos, que nunca brincou ao pião ou não faz a menor ideia para que serve um dedal.

Tempos agitados, vertiginosos, de uma volatilidade estonteante. Os objectos mais familiares no quotidiano dos nossos avós pareciam vir desde os alvores da Humanidade, davam um toque de permanência num mundo que só era verdadeiramente sobressaltado por factores exógenos - uma guerra, um ano de más colheitas no campo, uma epidemia. Nada a ver com o frenesim actual, em que tudo é novidade - e em que o próprio conceito de novidade se vai alterando e adulterando em função da espuma dos dias. Os objectos que nos preenchem o quotidiano - como muitas palavras que usamos, como os nossos próprios laços afectivos - têm uma vida cada vez mais breve, um fôlego cada vez mais curto, um prazo de validade cada vez mais exíguo.

Pegue-se num livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço na era da incessante troca de mensagens telefónicas, onde o domínio vocabular é cada vez mais escasso e a abreviatura predomina? Consequência disso, o pensamento comprime-se, torna-se esquemático e utilitário, perde elasticidade e subtileza, passa a satisfazer apenas impulsos imediatos. Toda a elaboração teórica sedimentada por séculos de cultura no mundo ocidental se torna virtualmente incompreensível nestes dias em que o significado se subordina ao mais elementar significante.

 

                             

 

Felizmente o sol ainda não é sintético e high tech. Este sol que entra no escritório pela frincha da janela é o mesmo que os nossos mais remotos antepassados contemplaram com espanto virginal à medida que se sucediam as estações e em relação ao qual vários povos acenderam altares votivos.

Com este sol oblíquo que me ilumina pego num corta-papéis - outro objecto que ficou sem uso - e vou abrindo lentamente dois livros que há muito tinha adormecidos na biblioteca: Sobre as Falésias de Mármore, de Ernst Jünger, e O Escravo, de Isaac Bashevis Singer. As páginas desfolham-se com um vagar antigo enquanto regresso às tardes da minha infância noutro escritório, o do meu pai, enquanto executava exactamente a mesma operação a vários livros por inaugurar que ia encontrando nas estantes. Foi uma das primeiras tarefas graves e sérias, dignas de um adulto, que me lembro de executar no meu universo infantil. Uma tarefa que me ajudou a mergulhar, quase por acaso, no mundo dos livros.

Regresso a ela com o vagar de então, ocasionalmente revivido. Como se o tempo ficasse suspenso e os rumores do mundo mais não fossem do que um eco distante, dissolvido no ar do outro lado da porta.

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A demissão cívica dos intelectuais

por Pedro Correia, em 01.04.13

 

A morte de José Saramago é também a morte simbólica do intelectual que se indigna. Com o desaparecimento do autor de Levantado do Chão, encerra-se uma era caracterizada pela intensa participação de escritores e artistas na vida pública dos seus países e até na cena política internacional. A separação entre arte e vida não existiu para a maioria dos intelectuais do século XX: uma era o prolongamento natural da outra. Intelectuais como Zola (que, com o seu "J' Accuse", ainda no século XIX, influenciou as gerações que lhe sucederam), Gramsci, Bertrand Russell, Gide, Céline, Pound, Dos Passos, Malaparte, Malraux, Hemingway, Orwell, Sartre, Aron, Koestler, Camus e Simone Weil. À esquerda e à direita.

É certo que muitos desses intelectuais acabaram por apoiar alguns dos regimes mais despóticos da sua época, caucionando-os com a sua pretensa autoridade moral. Mas o reverso desta medalha, igualmente negativo, é a apatia dos intelectuais de hoje, que se comprazem a mirar o próprio umbigo e fogem cuidadosamente de tudo quanto cheire a controvérsia.

Pensemos à escala portuguesa: alguém se recorda de alguma atitude indignada de um intelectual, nos últimos anos, contra a corrupção galopante, a justiça descredibilizada, a economia inviável, as assimetrias sociais, o drama imparável do desemprego, as mentiras dos políticos? Calando-se agora a voz de Saramago, que nunca evitou as polémicas, sobra um silêncio conformista e resignado. Cada qual só se preocupa com a sua "obra", com as suas "vendas", com a sua vidinha, abdicando da intervenção cívica. A própria reforma ortográfica passou perante um generalizado encolher de ombros e quase sem um sussurro crítico dos "intelectuais", com a excepção honrosa de Vasco Graça Moura. Muito ao contrário do que sucedeu no final da década de 80, quando pela primeira vez a Academia de Ciências de Lisboa procurou impingir aos portugueses um "acordo ortográfico" que equivalia a uma rendição incondicional à norma brasileira.

É um sinal dos tempos. Nesta era de feroz individualismo, o intelectual regressa à torre de marfim. Ou imita aqueles distraídos xadrezistas de Bizâncio, de olhos concentrados no tabuleiro enquanto a cidade ardia. Compreende-se: é mais cómodo ser assim. Depois da intervenção cívica, a demissão cívica. E, no entanto, a Terra move-se.

 

Na sequência desta reflexão de Maria do Rosário Pedreira, reedito o texto originalmente publicado no DELITO DE OPINIÃO a 7 de Julho de 2010

 

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Túmulos caiados

por Pedro Correia, em 19.02.13

Existe algo obsceno nesta litigação milionária, no exacto momento em que vivemos. Ao ponto de afrontar a consciência de um cristão que um banqueiro alegadamente católico continue a proclamar-se discípulo espiritual do Nazareno. Daquele que sempre enalteceu a caridade e sempre combateu a cupidez. Daquele que expulsou os vendilhões ao vê-los profanar o templo. Daquele que condenou sem rodeios a hipocrisia dos fariseus, "túmulos caiados", capazes de atribuir mais importância ao ouro do que ao altar.

 

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Mundo Cão

por Pedro Correia, em 18.02.13

 

A África do Sul - e o mundo - em estado de choque: Oscar Pistorius, campeão dos campeões nas pistas olímpicas, primeiro atleta deficiente a competir de igual para igual com os restantes apesar de ter próteses no lugar dos pés, não seria o deus que milhões supunham mas apenas um homem. E dos piores, pois é acusado de ter assassinado a noiva com quatro tiros.

O drama amplia-se nos media porque a morta, Reeva Steenkamp, era também uma figura popularíssima: advogada e modelo, rica, linda, transbordando energia, vitalidade e virtudes.

 

Pareciam o par ideal. Mas tudo leva a crer que não eram: há uma enorme diferença entre a vida real e a vida pintada nas publicações cor de rosa - e hoje, na era das "plataformas multimédia", quase todas as publicações acabam por ter esta cor.

Oscar, ídolo caído em desgraça, alega ter confundido o barulho feito pela noiva na luxuosa mansão onde vivia, às três da manhã, com um assaltante (na zona de Pretória, como na África do Sul em geral, os assaltos violentos fazem parte do quotidiano) e revela ter disparado "por instinto".

Muito poucos acreditam nesta versão. 

 

Os mesmos órgãos de informação que dantes endeusavam o mediático par, ofertando-lhes capas cheias de glamour, dissecam agora os minuciosos detalhes deste crime, ainda por cima cometido no Dia dos Namorados.

As redes sociais são, nesta matéria, um maná inesgotável. Graças a elas, e à curiosidade insaciável de uma imprensa que tudo ultrapassa em matéria de sensacionalismo, já tomámos conhecimento do último tuíte escrito pela malograda Reeva, que tinha apenas 29 anos e uma infinidade de sonhos pela frente agora afogados em sangue. Examinam-se todas as mensagens que o assassino deixou na Rede, onde todos quantos a frequentam ficam capturados para sempre. A Nike suspendeu uma campanha publicitária - de "óbvio mau gosto", conclui-se só agora - em que Oscar aparecia sob a legenda "sou a bala na câmara".

 

Refazem-se mitos à pressa - com a mesma pressa com que foram designados, entre torrentes de elogio mediaticamente correctos. Os supostos deuses da véspera tornam-se demónios do dia seguinte, sempre com uma rapidez vertiginosa - tudo tão rápido como a espectacular passada de Oscar Pistorius nos 400m, em Agosto último, no estádio olímpico de Londres. E como o espectáculo tem de continuar, suceda o que suceder, a estação sul-africana SABC1 decidiu manter no ar a quinta temporada de Island of Treasure, equivalente local d' Os Sobreviventes, com a falecida Reeva no elenco. A produção parece ter considerado a sua morte um "dano colateral" que afinal contribuirá para atrair ainda mais audiência para o reality show, rodado em 2012 na Jamaica.

 

Eis o Mundo Cão em todo o seu esplendor.

Por maior que seja o glamour momentâneo, estamos sempre mais perto do homem-lobo iniciático do que imaginamos. Cinco milénios de cultura são mero verniz, incapaz de mudar o essencial da natureza humana.

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Homens e bichos

por Pedro Correia, em 11.01.13

 

Acho um absurdo ver mais pessoas a mobilizar-se por um animal do que por um ser humano. Desde a difusão mundial dos filmes produzidos por Walt Disney com as suas personagens antropomorfizadas, criou-se a convicção que os animaizinhos, coitadinhos, são iguaizinhos a nós. Rejeita-se a natureza em função da dimensão "cultural" dos bichos, fecha-se os olhos a essa evidência que é o instinto primário, faz-se de conta que nunca foi sequer inventada a palavra feroz - algo que soa a um inaceitável primitivismo.

Alarga-se o conceito rousseauniano do "bom selvagem" aos animais, que imaginamos imunes à contaminação do mal. E desembocamos nisto: 30 mil almas sensíveis em defesa de um enternecedor ão-ão que se limitou a "atacar" um bebé de ano e meio (o verbo "atacar" funciona aqui como eufemismo para iludir os factos) e ao qual deve ser concedida uma "segunda oportunidade" (tese quase obscena neste caso, pois cão que mata uma vez pode matar duas ou três).
Eis a doutrina Padre Américo em versão animal, com uns pós de Brecht: não há cachorros maus. A culpa não é do rio, mas das margens que o comprimem. Aliás, se o conceito de "reabilitação social" vigora para os seres humanos, porque não haveremos de lhe atribuir uma interpretação extensiva, colando-o às feras?

A propósito desta história com um final tão infeliz, interrogo-me: se o pitbull de Beja fosse poupado ao abate por um inesperado indulto, que espécie de futuro dono poderia dar guarida, sem o menor sobressalto de consciência, a um cão que levou uma criança à morte?
Apetece dizer-lhes que se vão catar. Não às bestas, mas aos bípedes.

 

Alterei o texto inicial, no penúltimo parágrafo, e actualizei o número dos peticionários

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Parar para ler, parar para pensar

por Pedro Correia, em 02.01.13

 

Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura - do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.

A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos "virtuais" que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim - mesmo numa sala de cinema - sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.

E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias - tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.

De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.

E não abdiquemos também do direito de pensar - arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. "O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas", escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.

Tentemos que o nosso 2013 não seja assim. 

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Portugal à venda.

por Luís Menezes Leitão, em 21.12.12

 

Se há algo que achava impensável assistir neste país era a que nuestros hermanos do país vizinho dissessem que o nosso Governo está a vender Portugal. Mas para piorar tudo isto, essa venda está a ser feita a pataco, por tuta e meia, com o Conselho de Ministros a pedir dinheiro ao potencial comprador logo na sua própria reunião. Neste momento, empresas públicas portugueses de longa tradição, como a TAP e a ANA, vendem-se como se fossem produtos da feira do relógio. Será possível termos descido tão baixo?

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Há palavras que podem matar

por Pedro Correia, em 08.12.12

A brincadeira - inicialmente muito celebrada nas redes sociais - de dois animadores de uma rádio australiana conduziu ao suicídio de uma enfermeira do Hospital Rei Eduardo VII, em Londres, onde esteve internada a duquesa de Cambridge, que se encontra grávida. Este caso, tão dramático, sublinha uma evidência demasiadas vezes esquecida: a da responsabilidade social de todos os comunicadores, sejam jornalistas ou não. Porque "comunicadores", nesta era dos internautas, somos todos nós. E há palavras, gestos e atitudes que podem matar.

Os autores do 'furo' radiofónico, efémeros heróis à escala planetária, já estão a ser transformados em vilões pela mesma máquina implacável de produção de celebridades instantâneas. Ovacionados ontem, apedrejados hoje. Pelos mesmos que não tardarão em vitoriar outros efémeros ídolos ao virar da primeira esquina, repetindo-se o ciclo de rápida subida aos céus seguido de uma vertiginosa descida ao inferno. Com o mecanismo de sempre: muita exaltação irreprimível e muita indignação efervescente nas redes sociais.

Quase toda esta gente que dispara frases como se fossem tiros ignora que a palavra pode ser a mais cruel das armas. Como ainda agora voltou a confirmar-se.

 

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Nem tudo está perdido

por Rui Rocha, em 26.11.12

Os últimos dias trouxeram várias notícias que abalaram profundamente uma certa organização do mundo em que nos habituámos a viver. Vejamos alguns exemplos, sem qualquer pretensão de fazer uma enumeração exaustiva: o MacGyver está gordo como um texugo, o JR do Dallas morreu, Portugal não participará no Festival da Canção de 2013, escasseiam as informações sobre os Jogos Sem Fronteiras, Alberto João Jardim anunciou a intenção de abandonar a política activa e o burro e a vaca (ou o boi ou lá o que é) foram expulsos do presépio. Será isto um sinal de aproximação do fim do noso tempo? Devemos então admitir que estamos a ficar velhos e ultrapassados pelos acontecimentos? Tenderia a responder que sim, não fosse dar-se o caso de, contrariando todo o pessimismo, o Tony e o Manuel José terem sido considerados aptos para voltar aos relvados

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Daisy Rebeautiful Chick

por Rui Rocha, em 24.11.12

Tive de fazer um downsizing do meu lifestyle.

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Aprender com Vargas Llosa

por Pedro Correia, em 18.11.12

«Agora, graças à grande revolução audiovisual e cibernética, a privacidade deixou de existir, e em qualquer caso ninguém a respeita: transgredi-la é um desporto praticado diariamente pelos órgãos de informação perante um público que assim o exige com avidez. Desde que rebentou este escândalo [o da suposta infidelidade do general David Petraeus, director da CIA], as televisões, as rádios e os jornais - já para não falar das redes sociais - exploram o acontecimento de forma incessante e frenética, até à náusea. Esta é a civilização do espectáculo dura e crua, vomitando insídia em abundância mas também, há que reconhecer, submetendo o sistema a uma autocrítica impiedosa, implacável, mostrando as fragilidades que se ocultam por detrás do aparato do poder, e como as misérias e as debilidades humanas encontram sempre forma de entranhar-se nos redutos que mais parecem defendidos contra elas.»

Mario Vargas Llosa, hoje, no El País

(tradução minha)

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Um presidente chamado Jimmy

por Pedro Correia, em 27.10.12

 

Estas coisas andam sempre ligadas. Talvez o início do fim do prestígio norte-americano no planeta tenha uma data exacta: 20 de Janeiro de 1977. Precisamente o dia em que tomou posse Jimmy Carter como 39º inquilino da Casa Branca (ou 38º, na versão do presidente Harry Truman, que nunca entendeu por que motivo um dos seus antecessores, Glover Cleveland, foi contabilizado a dobrar, por dois mandatos diferentes).

Jimmy quê? – perguntou muita gente, sem perceber muito bem como um antigo cultivador de amendoins da Geórgia chegava ao mais poderoso cargo político do globo terrestre. O problema era precisamente esse: ninguém podia levar a sério um presidente chamado Jimmy. Nada a ver com os aristocráticos nomes de baptismo de anteriores titulares da Casa Branca, como William McKinley, Woodrow Wilson, Warren Harding, Herbert Hoover. Nada a ver com o prestigiado Franklin Delano Roosevelt, cujo nome era todo um programa: sugeria um rasto de nobreza e autoridade natural, muito adequado à solenidade do cargo (impossível alguém chamar-lhe Frank).

 

Eram os tempos do disco sound e das calças à boca de sino: foi aí que os Estados Unidos começaram a vulgarizar-se irremediavelmente. Nunca mais foram respeitados como outrora tinha acontecido. Alguém como o ex-presidente Dwight David Eisenhower, o general que chegou à presidência depois de derrotar os nazis na Europa, haveria certamente de encarar com maus olhos este plebeísmo onomástico no nº 1600 da Avenida Pensilvânia, em Washington. Richard Nixon, que foi seu vice-presidente antes de concorrer ele próprio à presidência, era tratado na intimidade por Dick ('Tricky Dick', na carinhosa terminologia dos adversários). Mas ninguém sonharia nesses respeitáveis anos com um Dick Nixon na Casa Branca. 

Com Jimmy, tudo mudou. Depois dele ainda veio Ronald Reagan, um nome de presidente clássico, mas já o vice-presidente de George Bush (pai) era alguém simplesmente chamado Dan Quayle. E seguiu-se a presidência de Bill Clinton, que tinha como braço direito Al Gore. Nomes tão vulgares como o João dos Anzóis. E quase tudo em diminutivo de então para cá: o vice-presidente de George Bush (filho) era Dick Cheney – chegava enfim um Dick à administração americana. E o vice-presidente actual é Joe Biden. Alguém com um nome equivalente ao nosso Zé.

Já não estranhei, por isso, que nos obituários do irmão mais novo do presidente John Fitzgerald Kennedy, em Agosto de 2009, toda a gente chamasse Ted ao senador do Massachusetts que fora apresentado ao mundo, décadas antes, como Edward Kennedy. John, que ocupou a Casa Branca entre Janeiro de 1961 e Novembro de 1963, se vivesse hoje seria conhecido por Jack. Tu-cá tu-lá, sem qualquer espécie de apreço pelo nome de baptismo.

Ao menos Obama parece estar livre desta praga contemporânea de tratar os mais altos titulares de cargos públicos nos EUA por ridículos petits noms familiares, como se fossem colegiais. Mas só devido à singularidade do seu nome africano. Alguém imagina qual será o diminutivo de Barack?

 

O Reino Unido, como aliado preferencial de Washington, aderiu nos anos 90 à moda dos políticos com diminutivo nos nomes próprios. Aconteceu com Tony Blair, que assim dava a impressão de ser um indivíduo como qualquer outro nesses tempos em que a correcção política atingia o auge - algo que escandalizaria os vetustos primeiros-ministros britânicos Stanley Baldwin, Winston Churchilll, Clement Attlee, Harold MacMillan e James Callaghan. Entre nós, governava então António Guterres. Que, apesar de ser muito amigo de Blair, nunca fez questão de ser tratado por Toni. E muito bem.

A Portugal, felizmente, ainda não chegou a moda de tratar os políticos pelo diminutivo. Caso contrário teríamos por exemplo um ministro conhecido por Vitinho Gaspar, o líder parlamentar do PCP só responderia quando lhe chamassem Dino Soares e o titular do Palácio de Belém promulgaria diplomas com o nome nada austero de Ani Cavaco Silva. De momento, esta praga parece longe dos nossos hábitos. Mas não nos iludamos: também há-de cá chegar, como todas as outras modas que têm sido importadas dos States. Já começo até a ouvir com alguma insistência alusões a um tal de Tó Zé, secretário-geral do Partido Socialista...

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 23.10.12

 

Alguns são aprendizes, mas em Portugal só Augusto Cid é o mestre. O melhor cartunista português, exímio praticante da sátira política em forma de caricatura, cultor do salutar princípio castigat ridendo mores (que herdámos dos antepassados romanos), está hoje desempregado. O que é outro sintoma da decadência do nosso jornalismo. Em qualquer outro país, Cid seria disputado por todos os jornais - da esquerda, do centro ou da direita. Assinaria editoriais desenhados, escreveria colunas de opinião com bonecos, faria reportagens com o recurso à arte da caricatura, que domina como se fosse herdeiro directo de Rafael Bordalo Pinheiro, Francisco Valença e Stuart de Carvalhais. Nós, por cá, assobiamos para o ar e fingimos tantas vezes que o talento não existe enquanto prestamos tributo à mediocridade. Puro engano. Basta ler esta excelente entrevista assinada por Leonardo Ralha no Correio da Manhã: eis Cid no seu melhor, igual a si próprio, falando do mesmo modo que sempre desenhou. Sem punhos de renda, sem papas na língua.

Leiam a entrevista: vale a pena. Desde as histórias da tropa, durante a guerra em Angola, às atribulações provocadas pela investigação às misteriosas circunstâncias da morte de Francisco Sá Carneiro em Camarate, do 25 de Abril aos retratos falados de diversos protagonistas de quatro décadas da política nacional.

Um episódio revelador, em discurso directo, ocorrido quando Sá Carneiro era primeiro-ministro: «Além de militante [do PSD] desde Maio de 1974, sou o autor das famosas setas. Ingressei no jornal do partido, o Povo Livre, onde fazia cartoons, e estive lá até a AD ir para o Governo. Quando isso aconteceu, fui ter com o Sá Carneiro, de quem era bastante amigo, e disse-lhe: "O sr. dr. vai desculpar, mas uma coisa é fazer desenhos num órgão de um partido que está na oposição e outra é o partido chegar ao poder e eu passar a ter que fazer desenhos que o apoiem. Não contem mais comigo".»

E assim foi.

Há tempos, no jornal onde colaborava, reduziram-lhe o salário. Pouco depois, nova redução. Cid disse basta: passou à pré-reforma e agora dedica-se à escultura. «Cheguei a um ponto em que aquilo que ganhava não justificava o que fazia. Não é só desenhar. Isto implica muito tempo a pensar e a investigar até chegar ao desenho final», confessou.

Há momentos assim, que exigem a palavra não. Palavra que é quase lema obrigatório de um grande cartunista - a estirpe a que Augusto Cid sempre pertencerá.

Também aqui

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Uma experiência original...

por Helena Sacadura Cabral, em 22.08.12

Há sempre uma primeira vez, para tudo e para todos. Comigo, deu-se há uns dias, quando fiquei incomunicável. Explico-me. Nessa santa terra onde fui descansar, o meu telemóvel caiu ao chão. Como tantas vezes, já, antes acontecera. Remontadas as peças que se haviam espalhado, o dito retomou a forma original e parecia de excelente saúde. Voltou, assim, para a carteira que é o local onde habitualmente o coloco.

Aí ficou, tranquilo, até que precisei de fazer uma chamada. Marcado o número, nem eu me fazia ouvir, nem do outro lado alguém bugia. Voltei a ligar e a experiência repetiu-se. Apesar de tecnologicamente incompetente dediquei-me à tarefa de eventual reparadora. Desliguei o dito, esventrei-o e voltei a ligá-lo. 

Chamada retomada, o silencio bilateral foi a resposta. Foi nessa altura que me dei conta do numero de pessoas que tentaram falar-me. Alarmante!

Numa última tentativa, fui ao botão de aumentar o som que estava a meio da escala e, convencida, aumentei-o. Singularmente, a cada investida, o regulador descia mais.

Bingo! Fez-se luz. A queda, lateral, fizera perecer o botão maravilha, aquele que nos destina à comunicação mais ou menos ruidosa.

Dei-me, todavia, conta, do agradável que havia sido aquele silêncio forçado. Como já aqui escrevi, desde Abril, o meu ritmo mudou. Passei a funcionar a vapor, numa época em que a norma é andar a todo o gás...

Assim, resolvi que iria continuar neste dolce farniente  de telemóveis, num retorno a tempos saudosos em que tinha todo o tempo do mundo. Quem quiser falar-me, manda mail. Que eu verei, claro, quando ligar o computador. Sem qualquer garantia de data.

Mas que este novo ritmo telefónico me está a agradar, não há qualquer dúvida...

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Confundir as trevas com a luz

por Pedro Correia, em 20.08.12

 

"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva."

Vladimir Nabokov

 

As imagens estão a correr mundo: raras vezes tenho visto algo tão chocante. Nas imediações de Rustenburg, na África do Sul, a polícia abriu fogo e disparou indiscriminadamente contra uma multidão de mineiros em greve. As consequências foram trágicas: 44 mortos e pelo menos 78 feridos. O mais revoltante, nestas imagens junto à mina de platina de Lonmin, foi o aparente sangue-frio das forças policiais, que não hesitaram em atirar para matar, como se os seus alvos fossem peças de caça em vez de seres humanos.

Outras imagens impressionantes chegam-nos por estes dias da Síria, onde forças governamentais têm bombardeado colunas de civis que procuram refúgio junto da fronteira turca, a norte de Alepo, capital económica do país. Correspondentes de guerra falam em massacre indiscriminado de mulheres e crianças pelos esbirros do ditador Bachar al-Assad, armados até aos dentes. "Aqui não há prisões, só há tumbas", diz um dos rebeldes ao enviado especial do jornal espanhol El País, transmitindo uma ideia exacta do que é hoje a Síria: um país mergulhado em guerra civil apenas porque a família Assad - no poder há 40 anos - quer perpetuar o seu mando absoluto, indiferente aos clamores de protesto da praça pública, por mais que isso faça correr o sangue dos cidadãos.

 

Estranhamente, ou talvez não, estes massacres não parecem suscitar ondas de indignação entre os bem-pensantes do costume. Em Lisboa, por exemplo, as habituais agremiações de manifestantes nem sequer convocaram uma concentração junto à embaixada da África do Sul. Não houve um comunicado. Nem uma declaração. Nem uma frase a exigir justiça ao Presidente Jacob Zuma.

O rastilho da indignação fácil vira-se agora para Londres, onde Julian Assange está refugiado na embaixada do Equador, país que lhe garantiu "asilo político". Chovem protestos contra as autoridades britânicas por não deixarem este australiano que é acusado de ter cometido crimes sexuais na Suécia partir para Quito. A justiça sueca pediu a extradição, a justiça britânica autorizou, mas o Presidente equatoriano, Rafael Correa, mantém Assange à sua guarda por recear - diz ele - pela integridade física ou até pela vida do fundador da WikiLeaks.

Como se a Suécia não fosse o país mais respeitador dos direitos humanos que conhecemos, onde qualquer cidadão pode confiar nas instituições - muito mais do que no Equador, onde toda a imprensa independente tem vindo a ser ferozmente reprimida pelo Presidente Correa e os seus sequazes do poder judicial. Como se o respeitável estatuto de refugiado político possa aplicar-se a alguém acusado de um delito comum. O Guardian - um dos cinco jornais com repercussão mundial que deram eco às fugas de informação produzidas pela WikiLeaks - deixa bem clara a sua posição: "tanto em termos legais como em termos morais", Assange não tem direito a tal estatuto.

 

Com 44 vítimas indefesas que tombaram sob uma chuva de balas na África do Sul, à mercê de uma inqualificável repressão policial, com inocentes a cair mortos todos os dias na Síria, a opinião pública sofisticada e envernizada prefere solidarizar-se com Assange. Um mitómano a quem aparentemente se aplica o aforismo de Truman Capote: "O excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente como o excesso de fracasso." Um homem que não corre risco de vida, que tem dinheiro para contratar os melhores advogados do mundo (um deles, que já trabalha na sua defesa, é o juiz espanhol Baltasar Garzón) e apenas é procurado por não ter respondido, como lhe competia, perante a justiça sueca - talvez a mais civilizada do planeta.

"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva", dizia Vladimir Nabokov. Lamento que confundamos tantas vezes a luz com as trevas e as trevas com a luz.

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A Harrods acabou de inaugurar a primeira secção de brinquedos que será, alegadamente, de género neutro. No  Toy Kingdom, ao contrário do que costuma suceder, os brinquedos estão organizados por temas e não por género. A remodelação implicou um investimento de vários milhões de libras e foi conduzida por uma empresa especializada. O espaço inclui uma floresta encantada, um mundo de brinquedos em miniatura e uma sala de leitura. A julgar pelas fotografias, todavia, trata-se sobretudo de um golpe de marketing que visa aproveitar a onda dos jogos olímpicos e a vaga do politicamente correcto. Sem levar esta última, todavia, às últimas consequências. Na verdade, se virmos bem, se o espaço quer ser neutro, os brinquedos são os de sempre. Ali estão de um lado os carrinhos e os tractores e do outro as Hello Kitty cor-de-rosa. E também não falta a loja das guloseimas, questionando as regras elementares da alimentação saudável...

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Indignação, espanto, lamento

por Pedro Correia, em 12.07.12

Já vos deve ter acontecido também. A falta de tempo, conjugada com outros assuntos que vão surgindo a requerer uma palavra urgente e necessária, acaba por nos fazer passar à margem de temas que gostaríamos de comentar - com espanto, lamento ou indignação. Ando há semanas para falar aqui de três temas. Que são estes:

 

Indignação. Achei inqualificável que o PSD/Madeira tenha rompido o consenso parlamentar, demonstrando que nem a morte põe fim aos gestos do mais rasteiro sectarismo. Refiro-me ao voto de pesar pela morte do eurodeputado Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, na Assembleia Regional madeirense, em que uns deputados que se dizem sociais-democratas se abstiveram ou saíram da sala. Simplesmente vergonhoso.

 

Espanto. Emídio Rangel foi condenado a 300 dias de multa, a uma taxa diária de 20 euros (o que atinge o valor de seis mil euros), e a 50 mil euros por danos não patrimoniais à Associação Sindical dos Juízes Portugueses e ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. Por ter dito algo que é do conhecimento comum: as informações de processos em segredo de justiça são transmitidas por fontes judiciais aos jornalistas. (António Barreto fora muito mais contundente, em Fevereiro de 2010, numa entrevista ao Expresso: "Há pessoas que estão a ganhar fortunas para vender informações em segredo de justiça.") Uma vez mais, nos tribunais de primeira instância, faz-se tábua rasa da liberdade de expressão, direito garantido e protegido pela Constituição, optando-se pela primazia ao direito ao bom nome. Mas o mais escandaloso é o montante da indemnização, ao que suponho inédita e totalmente desproporcionada. Tenho a certeza de que tribunais superiores, em sede de recurso, alterarão este veredicto. E em última instância, se for necessário, o tribunal das comunidades fará prevalecer o exacto sentido das proporções. Como, infelizmente, tem sucedido várias vezes em processos deste género. Com humilhantes condenações ao Estado português.

 

Lamento. Costumo dizer que aprendemos mais com quem nos critica do que com quem nos elogia. Uma das vozes mais críticas - mas também mais respeitáveis - na imprensa portuguesa é, há muitos anos, a do João Paulo Guerra. Muitas vezes discordei do que escrevia na sua 'Coluna Vertebral' do Diário Económico mas habituei-me a respeitar a sua acutilância sempre elegante e a sua mordacidade que nunca resvalava para o cinismo e menos ainda para o insulto. Escrevi em tempos, e reitero, que o considero um dos três melhores cronistas da imprensa portuguesa. Lamento muito que a sua coluna tenha terminado. Espero lê-lo um dia destes num outro jornal qualquer.

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Como eles envelheceram...

por Helena Sacadura Cabral, em 09.07.12

Este fim de semana nem vi a luz do Sol, embrenhada que estou a terminar nove biografias históricas. Faltam-me duas e vivo isolada a escrever.

Mas, ao almoço fiz uma pequena interrupção, para meter na boca qualquer coisa. Liguei a televisão e, sei lá porquê, havia um programa em que o actual governo dava o ar da sua graça.

Ia-me dando um colapso. Mas eles estão com mais dez anos em cima...

Estão surpreendentemente envelhecidos. O cabelo branqueou ou escasseou, as olheiras são profundas e alguma frescura que pudessem ter tido antes ficou tão lá para trás que não se acredita que tenha alguma vez existido. Pareceu-me um governo de sexagenários. Logo, de idosos.

Que a política envelheceu os portugueses, disso não há qualquer dúvida. Mas que tenha envelhecido tanto os seus mandantes deixou-me estarrecida. Se durarem mais um ano, passaremos a ter um governo de septuagenários e daqui a pouco tenho um filho que parece meu irmão!

Sempre era preferível que fosse eu a rejuvenescer...

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Nada volta a ser o que já foi

por Pedro Correia, em 09.07.12

O Eleftherotypia  foi durante 37 anos o segundo diário mais importante da Grécia. Erros de gestão atiraram-no para a falência. Com os salários suspensos desde Agosto de 2011, os jornalistas ainda trabalharam quatro meses numa desesperada tentativa para o manterem vivo. Em vão: o jornal fechou em Dezembro.

No mundo do jornalismo, nada volta a ser o que já foi. As receitas da imprensa norte-americana em 2011 foram apenas metade das geradas em 2005. Diariamente, um pouco por todo o mundo ocidental, jornais existentes há décadas - ou mesmo há mais de um século - despedem-se das edições em papel. Títulos tão conhecidos e tão diversos como o Christian Science Monitor, Rocky Mountain News, Cincinnati Post (EUA), La Tribune (França), Público (Espanha), Post-och Inrikes Tidningar (Suécia) e o Jornal do Brasil deixaram de se publicar na forma tradicional, embora alguns continuem à disposição do público na internet.

 

O popularíssimo France-Soir, que chegou a ser o jornal com maior tiragem no continente europeu (1,5 milhões de exemplares diários em 1955), encerrou definitivamente em Dezembro passado. Títulos norte-americanos tão prestigiados como o San Francisco Chronicle, o Boston Globe ou o San Diego Union Tribune estiveram já a um passo do fecho definitivo por sérias dificuldades financeiras. E até gigantes como o New York Times ou o El País têm problemas financeiros eventualmente insuperáveis a médio prazo.

"Vivemos a mais grave crise da história da imprensa", admite um dos mais influentes jornalistas norte-americanos, Allan Mutter, em declarações à revista brasileira Veja. Quando um jornal tão emblemático como o Washington Post luta pela sobrevivência, agora que se assinalam o 40º aniversário da eclosão do caso Watergate.

 

Lembro-me por vezes dos jornais da minha infância. Quase todos fecharam: O Século, Comércio do Porto, Jornal do Comércio, Diário de Lisboa, Diário Popular, República, Mundo Desportivo, A Capital. Restam o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e o Expresso. Também revistas como a Flama, o Século Ilustrado e a Vida Mundial já há muito desapareceram das bancas - tal como tantos títulos surgidos após o 25 de Abril, como O Jornal, O Ponto, Opção, Jornal Novo, Tempo, O País, O Dia, O Diário, Se7e, Grande Reportagem, Tal & Qual, Semanário, O Independente, Já, Euronotícias e 24 Horas, entre vários outros. E já não falo em publicações regionais, incluindo títulos históricos como o Comércio do Funchal ou o Notícias de Évora.

Não são problemas que digam respeito apenas aos jornalistas. Porque não existe democracia sem imprensa. A progressiva extinção de publicações que funcionaram como testemunhas vivas da História empobrece a sociedade no seu conjunto, tornando o debate político mais vazio de conteúdo e menos sujeito ao indispensável escrutínio que entre nós lançou raízes no tempo do constitucionalismo liberal. É verdade que existem hoje múltiplos espaços de notícia e comentário no universo da Rede, muitos dos quais não sujeitos a qualquer filtro deontológico nem obedecendo sequer às normas do mais elementar bom senso. Mas não conheço nenhuma democracia que subsista sem grupos sólidos de imprensa. E neste aspecto andamos a caminhar perigosamente para trás.

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A crítica que apenas sabe elogiar

por Pedro Correia, em 03.07.12

A falta de exigência de muita da nossa "crítica", nas mais diversas especialidades, chega a ser quase chocante. Este é um tema recorrente nas minhas reflexões e regresso hoje a ele a propósito de uma "crítica" gastronómica que acabo de ler. Como vem sendo costume com excessiva frequência, nem sombra de reparo crítico nesta prosa: só elogios. Mas elogios a quê? Ao inusual, ao raro, ao criativo, ao extraordinário? Não: um elogio à febra grelhada. Sim, ao mais banal e desinspirado prato do nosso quotidiano alimentar. Daqueles que comemos em casa e que de modo algum justificam uma deslocação ao restaurante.

O artigo espraia-se em elogios aos maiores lugares-comuns da gastronomia portuguesa, com recurso a adjectivos tão banais como os pratos que descreve. Diz o articulista que o estabelecimento onde mastigou justifica a "sua inclusão entre os bons restaurantes" de uma certa cidade. Cozinha "simples, mas cuidada e de bom gosto". O enchido é "saboroso". O entrecosto grelhado é "excelente". Comem-se por lá "dois bons pratos" de bacalhau. Quais são? Se apostaram na banalidade, uma vez mais, acertaram: frito e à Brás.

E chegamos às febras, "talvez o prato mais emblemático" do restaurante. "De textura e sabor cativantes". Grelhadas só com sal.

Um interminável bocejo, esta prosa. Uma confrangedora pobreza estilística e conceptual, esta "crítica" que apenas elogia. Um significativo sinal dos tempos, esta elementar falta de vontade de ultrapassar o lugar-comum.

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Devil is in details

por Ana Vidal, em 08.05.12

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Periodismo del corazón

por Pedro Correia, em 21.04.12

 

“She loved me for the dangers I had passed, And I loved her that she did pity them"

Shakespeare, Otelo

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A barbárie está no meio de nós

por Pedro Correia, em 26.03.12

 

O Mal existe. Tem nome e rosto. Tem identidade própria. Tem alegadas "motivações", propaladas aos quatro ventos através da caixa de ressonância dos órgãos de informação. Tem até defensores - uns por razões políticas, porque interessa "destruir o sistema", outros simplesmente porque sim.

Não faltam aqueles que procuram negar a existência do Mal. Desde logo por crerem na bondade intrínseca à natureza humana: essas excelentes almas acreditam convictamente que não há rapazes maus. Ou por negarem validade às estruturas axiológicas: esses são os que argumentam pela irrelevância das fronteiras entre o Bem e o Mal, sobretudo porque as imaginam sempre contaminadas de conteúdo religioso. Sem repararem que tantas vezes, ao difundirem tal crença, assumem com frequência um fervor simétrico ao dos mais ortodoxos fiéis de uma determinada igreja.

E no entanto o Mal existe. Podemos vislumbrá-lo em múltiplas erupções quotidianas. No indivíduo que pela calada da noite põe uma bomba no carro de um autarca basco e encolhe indiferentemente os ombros quando a explosão desse veículo mata crianças que ignoram o significado da palavra nacionalismo, considerando-as "danos colaterais" - o homicídio mais aleatório e mais gratuito elevado à categoria de instrumento de acção política. O monstro de sorriso gélido que planeia friamente a execução sumária de algumas dezenas de adolescentes num acampamento de férias na Noruega e acaba classificado de inimputável por um colégio de psiquiatras. O fanático anti-semita que transforma o ódio étnico, cultural ou religioso em senha de identidade à margem de todos os considerandos de ordem moral, convertendo o massacre de seres humanos numa espécie de mandamento ditado pelo sectarismo mais irracional.

É preciso correr o sangue de inocentes para também a França republicana, ilustrada e laica reparar que alberga a semente do Mal no seu seio iluminista. Não adianta proclamar, como fazem alguns saudosos discípulos de Sartre, que o inferno são os outros. Não tenhamos ilusões: a barbárie está no meio de nós. E ganha cada vez mais terreno quanto mais tentarmos justificá-la com uma indiferença cúmplice invocando argumentos de sociologia política para validar as cartilhas ideológicas que autorizam a dissolução da dignidade humana em benefício de impulsos liberticidas. Como se os fins justificassem todos os meios. Como se houvesse equivalência moral entre carrascos e vítimas.

"Observar um crime em silêncio é cometê-lo", ensinou-nos José Martí. Nada mais certo. Não podemos resignar-nos ao poder da barbárie. Nem tolerá-la. Nem "compreendê-la". Nem deixar que ela se banalize a tal ponto que comece até a ser encarada com indiferença. Enquanto mastigamos qualquer coisa à hora do telejornal.

Temos que dizer basta. Sem esperar que os cadáveres se amontoem. Porque um já é de mais.

Imagem: O Massacre dos Inocentes (1609-11), de Rubens

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De vez em quando a primavera

por José Navarro de Andrade, em 20.03.12

Não houve primavera como a de Odilon Redon, não há primavera como a de Ann Craven.

Cada um no príncipio do seu século, ambos desconformes à norma do seu tempo.

 

Odilon Redon, "Evocação de borboletas", 1911

 

 Ann Craven, "Red miracle", 2007

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Right

por Patrícia Reis, em 09.03.12

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No Dia da Mulher ou noutro qualquer

por Pedro Correia, em 08.03.12

Nunca é de mais lembrar que bestas como esta andam por aí. Perto, demasiado perto.

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Para nos entendermos?

por Patrícia Reis, em 04.03.12

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A suprema ironia

por Ana Vidal, em 10.02.12

 

Ora aqui está uma excelente parábola sobre os estranhos tempos que atravessamos. Para reflectir neste fim-de-semana gelado.

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Da bestialização do ser humano

por Pedro Correia, em 13.12.11

 

A degradação do debate no espaço público, designadamente nas chamadas redes sociais, está bem patente nos comentários a este anúncio televisivo de um lóbi antitaurino.

Repare-se como o diálogo entre quem pensa de maneira diferente se vai enquistando e obstruindo à medida que se processa a troca de argumentos. Ao ponto de alguns alegados defensores dos direitos do touro chegarem a sustentar a condenação à morte de quem se assume como amante de touradas. Aparentemente sem repararem até que ponto esta indefensável posição invalida toda a sua lógica argumentativa anterior.

Vivemos num mundo de valores erráticos em que se cruzam correntes antagónicas: não falta, por exemplo, quem pugne pela humanização dos animais enquanto revela uma tolerância sem limites perante a irreversível bestialização do ser humano.

Há quem, ironicamente, aponte a principal responsabilidade por esta inversão de valores sobretudo às produções Walt Disney, organização pioneira na tendência de antropomorfização dos bichos. Mas a questão é mais séria. E deve mesmo levar a interrogar-nos sobre a saúde das democracias liberais num mundo onde toda a divergência de opiniões suscita reacções de brutal intolerância -- desde logo da parte dos que se proclamam tolerantes. Nem todos os sistemas se equivalem, nem todos os valores são relativos. A democracia é um bem demasiado frágil e demasiado escasso: não merece ser desbaratada a todo o momento nas novas plataformas digitais. Que deviam estar ao serviço da cidadania e acabam afinal por pervertê-la a todo o passo.

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Da bestialidade humana

por Pedro Correia, em 05.12.11

 

Em França, um pai aparentemente furioso por o filho de três anos se ter portado mal na creche decide enfiá-lo na máquina de lavar a roupa e ligar o aparelho. A morte trágica da criança indefesa às mãos de quem devia assegurar-lhe sustento, agasalho e segurança em nome do mais elementar traço de civilidade, já para não evocar aqui a voz do sangue, suscita por estes dias larga polémica na pátria de Descartes e Diderot. Andámos durante demasiados anos entretidos por vendedores de ilusões que nos prometiam livre acesso à "modernidade" e supostas engenharias sociais que permitiriam forjar "novas famílias" subitamente despojadas do pecado original. Como se este estranho animal a que chamamos homem fosse moldado em plasticina.

Reparem no que se passa à nossa volta: por toda a parte irrompem sementes de violência, em tudo iguais às que assombram a espécie desde a primeira madrugada do mundo. Percebo bem esta perplexidade generalizada na pátria do iluminismo: andam os arautos da virtude há quase trezentos anos a prometer-nos o homem novo e a todo o momento regressam afinal as sombras do passado, empurrando-nos para longe das luzes, num cíclico retorno às trevas.

Leio as edições digitais dos periódicos franceses, onde não faltam as habituais teses prontas a invalidar o livre arbítrio em função de "factores sociais" que permitem "compreender" senão mesmo justificar os mais repugnantes crimes. Nada de novo: também o extremista norueguês que assassinou 77 pessoas em Julho acaba de ser considerado inimputável por respeitáveis psiquiatras encarregados de o examinar. Crente na bondade natural do homem, esta amável legião de sábios dos nossos dias encara sempre o mal como algo alheio aos tortuosos labirintos da mente.

De novo me interrogo se a noção de progresso é aplicável a qualquer horizonte sulcado pelos descendentes de Caim. De novo me questiono, como Adorno, se é possível haver poesia depois de Auschwitz ter acontecido. De novo me pergunto, com aquela angústia existencial que vislumbramos nos melhores quadros de Munch, se haverá limites para a bestialidade humana.

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La più bella dell' universo

por Pedro Correia, em 28.11.11

 

Luchino Visconti chamou-lhe "La donna più bella dell'universo": Laura Antonelli faz hoje 70 anos. Quantos se lembram ainda de que ela foi uma extraordinária sex symbol do cinema europeu? E quantos recordam ainda como o cinema foi capaz de antecipar a revolução de costumes da década de 60 com o filme E Deus Criou a Mulher, estreado há exactamente 55 anos, com Brigitte Bardot a incendiar paixões na tela?

A cultura pop, que submergiu o Ocidente no último meio século, forja e tritura ícones a uma velocidade estonteante: esta é a sua grande força, esta é a sua enorme fragilidade. Ídolos de pés de barro, vivem da imagem e apagam-se no esquecimento colectivo quando essa imagem fatalmente se extingue. Tanto mais impressivo quanto mais fugaz. "Não somos mais do que o pó das estrelas", ensinou-nos Carl Sagan. Quantas destas estrelas -- as de cinema -- foram por sua vez reduzidas a pó depois de terem povoado os nossos sonhos?

 

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A semente totalitária

por Pedro Correia, em 26.10.11

 

Várias vezes, nos mais diversos locais, somos submetidos a detectores de metais. As câmaras da chamada "videovigilância" estão por todo o lado. Os meios electrónicos que nos facilitam a vida funcionam também como registo permanente do nosso paradeiro -- as vias verdes nas auto-estradas, o multibanco que permite escrutinar onde levantamos dinheiro e a que horas e qual a quantia em causa, o telemóvel sofisticado que traz incorporado um GPS que constitui uma espécie de segunda impressão digital nossa: é impossível viver sem ele, é impossível apagar o traço da nossa passagem com ele, seja por onde for.

A sociedade aterradora delineada por George Orwell, em que a tecnologia constitui já não só um instrumento de um sistema totalitário mas o seu próprio fundamento, ultrapassou as páginas da literatura de ficção, incorporando-se no nosso quotidiano. Quando o próprio Procurador-Geral da República admite estar a ser alvo de escutas telefónicas ilegais, todo o cidadão tem não só o direito mas também o dever de exprimir preocupação. Em nome do combate ao terrorismo ou até à delinquência comum, estamos a fazer recuar drasticamente as fronteiras da privacidade. O mesmo é dizer: as fronteiras da liberdade individual, um valor inestimável.

A semente totalitária começa a germinar assim.

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Homo lupus homini

por Pedro Correia, em 21.10.11

 

Este vídeo está a correr mundo. Uma menina de dois anos foi atropelada na cidade de Fuzhou, no sul da China. Passaram 18 pessoas por ela -- todas indiferentes ao pequeno corpo inanimado, ali a poucos metros. O alerta acabou por ser dado apenas sete minutos depois por uma empregada de limpeza de 58 anos, chamada Chen Xianmei: a menina foi enfim conduzida ao hospital, já em coma.

As câmaras de vigilância registaram tudo. É uma perfeita imagem do mundo actual: a mais olímpica indiferença colectiva perante o sofrimento alheio. Talvez por isso, a atitude de Chen Xianmei foi recebida com surpresa geral e as autoridades da província de Guangdong, onde se situa Fuzhou, anunciaram já que lhe será atribuído um prémio pecuniário equivalente a três mil dólares. A humilde empregada de limpeza, perplexa, limitou-se a afirmar que cumpriu o seu dever.

Ao contrário do que sucede nos filmes, esta foi uma história sem final feliz. A menina, Wang Yue, acabou por morrer no hospital.

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A melhor resposta

por João Carvalho, em 17.10.11

O selvagem anormal que executou a chacina na Noruega regressa à ribalta. Desta vez, o nome do assassino que protagonizou o cobarde massacre protagoniza ainda uma longa metragem. Bem pode o realizador explicar o que quiser, que jamais deixará de ofender o senso comum.

Como já escreveu aqui com toda a oportunidade o nosso Pedro Correia, referindo-se ao «grau máximo de notoriedade» que está na ansiedade de um assassino, «a repetição até à náusea do seu nome, nos mais diversos órgãos de informação, constitui uma homenagem involuntária à barbaridade do acto que praticou» e, assim, «o seu nome banaliza-se, ganhando uma espécie de estatuto de imortalidade». Só que agora nem pode considerar-se que esta "consagração" na Sétima Arte seja involuntária, como é evidente.

Adivinho que a mente perversa do homicida exulta com a própria perversão das pessoas "normais", que parecem insatisfeitas na procura incessante das mais diversas fórmulas para perpetuarem o seu nome, como sempre aconteceu com os autores de muitos outros crimes horrendos. E este estranho endeusamento tanto pode ser atraente para outras mentes distorcidas, como também pode ser inspirador para os mais diversos "criadores" de receitas para a glória fácil.

É bom que o mercado saiba responder-lhes. Como muito bem disse o Pedro Correia, «retemos na memória o nome de demasiados assassinos, o que constitui uma espécie de caução póstuma aos seus actos criminosos». Para uns e para outros, assassinos e pseudo-intelectuais, é importante estarmos cientes da resposta certa. Merecem ser ignorados.

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