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O "rosto humano" dos homicidas

por Pedro Correia, em 31.03.15

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Nunca cessarei de me espantar com o reduzido valor da vida humana na moeda corrente do tráfego noticioso. Um indivíduo comete um crime horroroso, arrastando com premeditação para a morte centena e meia de inocentes a bordo de um avião como se fossem reses a caminho do açougue. E logo de todo o lado despontam peças amáveis, que o tratam familiarmente pelo nome próprio, atribuem o massacre de que foi responsável aos efeitos de uma arreliadora "depressão", difundem incessantemente fotografias do pacato e risonho rapaz que seria antes de se ter "descontrolado" e divulgam testemunhos abonatórios acerca da personalidade do visado, assegurando ao mundo que se tratava de uma pessoa tranquila, um rapaz "competente e sonhador".

E - cherchez la femme - jamais esquecem de mencionar, vezes sem conta, que o sujeito se viu abandonado pela namorada. Sugerindo assim ao leitor ou espectador incauto que a responsabilidade suprema do massacre não terá sido do assassino mas da rapariga que recusou prolongar o namoro. Nestes momentos surge sempre um psicólogo a mencionar a condição depressiva como causa do "acidente" (benigno vocábulo utilizado em profusão) e talvez nem falte até um sociólogo de pacotilha a mencionar o indivíduo como "vítima" de uma sociedade injusta ou do sistema capitalista, que "é por natureza repressor".

 

Já lemos e ouvimos de tudo nesta sociedade-espectáculo que cultiva a emoção em sessões contínuas mas segmentadas em capítulos sucintos e precários. Por isso a indignação de muito boa gente tem prazos de validade cada vez mais curtos e é dirigida a alvos móveis, que variam consoante a tendência do momento.

Neste caso, por exemplo, a primeira vaga de estridência nas redes sociais dirigiu-se contra a idade avançada da aeronave da Germanwings, uma companhia aérea de baixo custo integrada no grupo Lufthansa. Sem investigação, sem aprofundamento dos factos, sem nada comprovado: bastou alguém acender um rastilho para logo milhares de almas ferverem de fúria contra a companhia aérea que se permitia utilizar aparelhos tão "antigos". Na escala de valores contemporâneos, como sabemos, ser novo é sinónimo de ser bom.

 

O problema é que não se tratou de um "acidente", não foi um azar, não foi um capricho divino. Foi um homicídio premeditado pelo tal jovem sorridente e desportivo cujas imagens nos invadem o domicílio à hora dos telediários. Com o nome impresso por toda a parte, irresistível tentação para outros psicopatas que anseiam por minutos de fama à custa do sangue alheio.

Em vez uma bomba ou uma AK-47, o tal tipo amável optou antes por um Airbus 320 como instrumento do massacre. “Descontrolou-se”, repete alguém. Como já sucedera com aquele assassino norueguês, um monstro de sorriso gélido que em 2011 matou a sangue-frio 77 adolescentes num acampamento de Verão.

Também ele contou com a benevolência de psiquiatras que logo o consideraram “inimputável” – como se o mal não estivesse inscrito desde os confins dos tempos na condição humana. Também ele teve o nome e o rosto impressos por toda a parte.

Um e outro, celebridades instantâneas à escala planetária. Neste mesmo mundo em que tantos benfeitores permanecem anónimos e jamais serão procurados para notícia de telejornal.

 

Leitura complementar:

A glória póstuma do assassino

A barbárie está no meio de nós

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O veneno do medo

por Pedro Correia, em 20.02.15

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 Foto AFP

 

É, desde já, uma das imagens mais terríveis deste ano ainda no início: um homem queimado vivo dentro de uma jaula onde estava preso como se fosse um animal selvagem.

Foi outra vítima do autoproclamado Estado Islâmico, o mais sanguinário movimento terrorista contemporâneo, que recua no terreno – como sucedeu há dias, em Kobane, numa batalha ganha pelas forças curdas – mas vai progredindo nos circuitos mediáticos. Porque cada vídeo com estes homicídios difundido nas redes sociais constitui um marco na estratégia de propaganda do fundamentalismo islamita que injecta nas sociedades contemporâneas aquilo a que o poeta mexicano Octavio Paz chamava “o veneno do medo”.

Vídeo após vídeo, fotografia após fotografia, somos inoculados pelo veneno do medo ministrado pelas bestas totalitárias. Que no Iraque, na Síria, no Níger, na Nigéria, no Iémene e em tantos outros países lapidam mulheres, desmembram homossexuais, crucificam cristãos, enterram crianças vivas. Com um ódio letal que nenhuma crença religiosa autoriza, nenhuma ideologia justifica, nenhuma doutrina é capaz de explicar.

O homem, um piloto jordano, chamava-se Moaz al Kasasbeh. Foi assassinado da forma mais bárbara – “executado”, como lhe chamaram os cultores de sofismas. E morto milhares de vezes depois disso nas redes sociais que reproduziram aquela cena macabra com a tranquila frivolidade utilizada dias mais tarde para difundir imagens do aniversário de Cristiano Ronaldo. Como se o culto da morte e a festa da vida fossem a mesma coisa.

 

Publicado originalmente no jornal i

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Je suis Sun

por Pedro Correia, em 21.01.15

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Pressões feministas põem fim a uma das mais conhecidas tradições da imprensa britânica: a página 3 do tablóide The Sun, existente há 44 anos na versão "arejada"

 

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Olhares sobre o drama de Paris

por Pedro Correia, em 15.01.15

David Brooks, New York Times: «Os jornalistas do Charlie Hebdo estão a ser justamente celebrados como mártires da liberdade de expressão, mas encaremos os factos: se eles pretendessem publicar o seu jornal satírico em qualquer universidade norte-americana das últimas duas décadas o projecto não teria durado 30 segundos. As associações de estudantes tê-los-iam acusado de fomentarem o ódio. As administrações universitárias ter-lhes-iam bloqueado o financiamento e encerrado a publicação.»

 

Nick Cohen, The Observer: «Temos em vigor uma lei contra a blasfémia. Não foi aprovada por nenhum eleitor. Nenhum parlamento a votou. Nenhum juiz decide sobre a sua aplicação e nenhum júri avalia eventuais culpas dos infractores. Não há direito a recurso. E a pena é a morte. Não é cumprida por intervenção de polícias sujeitos a códigos de conduta, mas pelo temor de quem nem se atreve a pronunciar-lhe o nome. E a cobardia é tão grande que até falta a coragem para admitir que se tem medo.»

 

Javier Martínez-Torrón, El Confidencial: «Se queremos erradicar o fanatismo religioso - e é essencial que o façamos - o caminho não passa por glorificar o insulto de quem pensa de maneira diferente da nossa, mas por um jornalismo mais consciente da sua responsabilidade social e mais sensível em relação aos valores das minorias.»

 

Jonathan Turley, Washington Post: «Se os franceses querem honrar a memória dos assassinados na sede do Charlie Hebdo, podem começar por revogar as suas leis que criminalizam o insulto, a difamação, o incitamento ao ódio, à discriminação ou à violência com base em religião, raça, etnia, nacionalidade, incapacidade física ou orientação sexual. Estas leis têm sido usadas durante anos para penalizar o jornal satírico e ameaçar os seus profissionais. As opiniões em França estão a ser circunscritas ao seu uso "responsável", sugerindo-se assim que a liberdade de expressão é mais um privilégio do que um direito de quem a exerce de forma controversa.» 

 

Jean Daniel, L'Obs: «O verdadeiro debate, desde que os homens são homens, é sabermos se nos é permitido matar, se devemos responder ao crime recorrendo à vingança e se devemos esquecer aquilo que a Bíblia observa: "Se o mal responde ao mal, quando haverá fim para o mal?" Estamos aí. Hoje os franceses parecem querer, simbolicamente ou não, solidamente ou não, responder a esta imposição da Bíblia. O mal terminará quando houver suficientes homens e mulheres decididos, como aconteceu no domingo, a demonstrar através da sua pungente unidade que existem caminhos para tentar pôr-lhe fim.»
 
Ignacio Camacho, ABC: «Com estes tipos [Charb, Wolinski, Cabu], até 6 de Janeiro, qualquer pessoa razoável podia ter sérias diferenças, considerá-los excessivos, grosseiros, irreverentes, gratuitamente desrespeitosos. Mas desde 7 de Janeiro são os heróis e os mártires da nossa liberdade. Da nossa, sim, da de todos. Também, mesmo que não saibam ou não queriam saber, da liberdade dos muçulmanos que a ela se acolhem. Da de todos esses que preferem habitar numa Europa cujos valores odeiam ou rejeitam do que em qualquer dos 57 países islâmicos de onde emigraram.»

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Alá nada tem a ver com isto

por Pedro Correia, em 14.01.15

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Membros do grupo fundamentalista Boko Haram, responsável por milhares de mortes na Nigéria

 

Sou incapaz de diluir a responsabilidade individual dos homicidas em factores étnicos, culturais, sociais ou religiosos.

Um "crime passional" (expressão detestável) pode ser avaliado por factores externos: solidão, ciúme, depressão, desemprego, exclusão social. Podemos tentar "compreender" a vertente externa do crime. E, se formos advogados de quem cometeu esse crime, até talvez devamos invocar tudo isso como possível atenuante em tribunal.
Nada apaga, no entanto, a componente do livre-arbítrio. É o grande trunfo - e também o grande fardo - da condição humana.

Isto ficou, de resto, plasmado na jurisprudência internacional nos célebres julgamentos de Nuremberga que julgaram os responsáveis pelos crimes cometidos durante o regime totalitário hitleriano. A linha defensiva dos réus era invariável: todos tinham agido em obediência a ordens superiores, como se a responsabilidade de cada um estivesse diluída numa espécie de imperativo categórico ditado pelas forças do mal.
O tribunal rejeitou esta tese - e muito bem, condenando a generalidade dos réus a duras penas. Foi uma conquista civilizacional do direito que não deve ser revertida nestes tempos de barbárie à solta em tantos locais - de  Paris ao Paquistão, passando pelos crimes hediondos que por estes dias têm sido cometidos pelas hordas fundamentalistas do  Boko Haram na Nigéria. Nenhuma "exclusão social" ou "marginalização" de qualquer espécie justifica o comportamento daqueles que degolam, lançam a bomba ou comprimem o gatilho.

Alá nada tem a ver com isto. É tudo humano, demasiado humano, por vezes insuportavelmente humano.

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 07.01.15

Este é o maior problema da Europa actual: a liberdade seriamente condicionada pelos seus mais encarniçados inimigos. Paris, outrora Cidade-Luz, é hoje cidade ensanguentada pelo fanatismo mais extremista.

Somos todos, a partir de agora, um pouco menos livres. E trocaremos cada vez mais parcelas de liberdade em troca de segurança. Dilema ilusório. Porque nos alicerces da nossa civilização - que o terrorismo islâmico combate sem tréguas - liberdade e segurança são conceitos indissociáveis. Um não faz sentido sem o outro.

Hoje estamos todos mais inseguros e menos livres. É um dia de júbilo para os cultores da barbárie, que não estão algures em parte incerta.

Estão aqui, no meio de nós.

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Bestas humanas

por Pedro Correia, em 04.12.14

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Não se passou entre bosquímanos ou bijagós, como alguns diriam com pseudo-superioridade etnocêntrica se tivesse ocorrido noutra latitude. Passou-se a dois passos de nossa casa, entre galegos e castelhanos. A pretexto de um jogo de futebol, o Atlético de Madrid-Deportivo da Corunha, dois grupos antagónicos de militantes radicais envolveram-se em violenta pancadaria na capital espanhola que terminou com a agressão fatal a um apoiante da equipa galega, atirado já gravemente ferido ao rio Manzanares. Acabou por morrer no hospital.

A polícia assistiu impávida a esta orgia de violência, que envolveu cerca de duzentos indivíduos. A cúpula dirigente do futebol em Espanha mandou que o jogo se realizasse, mesmo em atmosfera de luto e dor. E as redes sociais encheram-se de proclamações de ódio, a que infelizmente nos vamos habituando ao ponto da indiferença. Como se a fúria assassina não começasse precisamente nestas mensagens de quem diaboliza toda a diferença e apela aos instintos mais rasteiros para suprimi-la.

Leio com crescente repulsa a transcrição de alguns destes "tuítes do ódio", como lhes chama o El Mundo. Há um pouco de tudo - desde o sarcástico elogio ao Manzanares como um local óptimo "para nadar" até à expressão da boçal "alegria" pela morte de alguém transformado em inimigo póstumo pelo simples facto de apoiar um clube de futebol rival. Não falta mesmo quem solte este urro: "Oxalá morram mais!"

Que sociedade estamos a criar? Que valores andamos a incutir aos nossos filhos? De que Europa ainda falamos quando aludimos a padrões civilizacionais? Até onde nos conduzirá este caminho que trilhamos de absoluto desprezo por tudo aquilo que ao longo dos milénios foi distinguindo o homo sapiens da primitiva besta humana?

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Sinais dos tempos

por Pedro Correia, em 19.11.14

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas "redes sociais" funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público. Eis mais um.

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Sou espectador assíduo da quarta temporada de Segurança Nacional, uma das melhores séries televisivas de todos os tempos. Não só pela trama, não só pela meticulosa criação de atmosferas claustrofóbicas com tendência para se adensarem de temporada em temporada e de episódio em episódio, não só pelo desempenho dos principais intérpretes (começando pela extraordinária Claire Danes, invertendo com êxito o estereótipo de protagonista de comédias românticas a que esteve associada), mas sobretudo pelo impiedoso olhar que lança sobre este nosso tempo em que se vão diluindo elementares direitos, liberdade e garantias em nome do sacrossanto e cada vez mais difuso “interesse nacional”.

 

Bem-vindos ao admirável século XXI, onde o direito à privacidade se tornou miragem e o direito à intimidade não passa de um mito. Homeland (nome original desta série norte-americana iniciada em 2011 e por sua vez inspirada numa produção televisiva israelita, intitulada Hatufim) desvenda-nos um mundo onde toda a gente espia e é espiada em simultâneo, um mundo onde nada é tão relativo como as juras de fidelidade a uma pátria ou a uma bandeira, um mundo onde os direitos fundamentais foram exilados para uma espécie de terra de ninguém, um mundo onde uma conquista civilizacional tão relevante como a clássica separação de poderes teorizada por Montesquieu parece ter sido atirada para o caixote do lixo da História.

Um mundo bipolar, onde as sombras progridem e as luzes recuam. Tão bipolar como a protagonista, Carrie Mathison – alto quadro da CIA, especialista no combate ao terrorismo islâmico, sentinela em permanente vigilância contra as teias inimigas, militante da crença na maldade intrínseca do ser humano, persuadida de que todos os meios são lícitos para atingir os fins.

 

É uma série com uma perturbante capacidade de pôr em causa muitas das nossas convicções mais firmes – desde logo a convicção de que o progresso tecnológico é um aliado natural do destino humano. No mundo que Segurança Nacional nos desvenda, pelo contrário, a tecnologia desenvolve-se na razão inversa dos valores morais e dos parâmetros éticos estabelecidos ao longo de séculos de consenso civilizacional.

É um mundo sob o contínuo escrutínio de sinais de alarme, que comprime a liberdade em nome da segurança como se fossem esferas dicotómicas ou compartimentos estanques - e que assim se vai tornando cada vez menos livre mas afinal também cada vez mais inseguro.

E não adianta colocarmo-nos de fora, resguardados na mera condição de espectadores. De algum modo tudo isto também nos diz respeito. De algum modo cada um de nós também se encontra lá.

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A corda cada vez mais esticada

por Pedro Correia, em 20.10.14

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O cenário está longe de ser brilhante. A Europa em risco de enfrentar a terceira recessão desde 2008, a Grécia às portas de outra intervenção financeira externa de emergência, italianos e franceses incapazes de cumprir as metas do Tratado Orçamental que dita as condições de sobrevivência do euro, perspectivas de estagnação da economia da Alemanha (principal parceira económica de Espanha, por sua vez principal parceira económica de Portugal).

Enquanto isto acontece, PSD e CDS enfrentam-se irresponsavelmente por interpostas notícias de jornal a ver quem estica mais a corda antes de rebentar, deixando antever uma coligação em estado pré-comatoso. O assunto do momento é qual dos partidos poderá beneficiar mais com os efeitos mediáticos de umas quantas migalhas fiscais, invocadas sem sombra de pudor ao fim de quase quatro anos de sacrifícios colectivos. Isto enquanto a esquerda mais extrema persegue sem fadiga a quadratura do círculo, exigindo em simultâneo o reforço das prestações sociais e a redução de impostos.

Tudo isto se desenrola na espuma dos dias como se o monstro da dívida pública não permanecesse incontrolado. Como se a despesa do Estado não cessasse de aumentar. Como se houvesse petróleo ao largo das Berlengas. Como se jogássemos uma tranquila partida de xadrez na Bizâncio sitiada.

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Penso rápido (55)

por Pedro Correia, em 09.10.14

Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria - e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.

Nesta época em que tanto se fala em direitos humanos, alguns desses direitos vão sendo diariamente comprimidos ao que parece sem surpresa ou escândalo de quase ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, por exemplo. O narcisismo exibicionista sobrepõe-se a tudo o resto.

Como há-de o Estado - mesmo o Estado democrático, já nem falo em estados totalitários - respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente entre nós estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Mas não são.

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Penso rápido (52)

por Pedro Correia, em 25.09.14

Várias vezes, nos mais diversos paradeiros, somos submetidos a detectores de metais. As câmaras da chamada "videovigilância" estão por todo o lado. Os meios electrónicos que nos facilitam a vida funcionam também como registo permanente do nosso paradeiro -- as vias verdes nas auto-estradas, o multibanco que permite detectar onde levantámos dinheiro e a que horas e qual a quantia em causa, o telemóvel sofisticado que traz incorporado um GPS que constitui uma espécie de segunda impressão digital nossa: é impossível viver sem ele, é impossível apagar o traço da nossa passagem com ele, seja por onde for.

A sociedade aterradora delineada por George Orwell, em que a tecnologia constitui já não só um instrumento de um sistema totalitário mas o seu próprio fundamento, ultrapassou as páginas da literatura de ficção, incorporando-se no nosso quotidiano. Quando até já um Procurador-Geral da República admitiu ser alvo de escutas telefónicas ilegais, todo o cidadão tem não só o direito mas também o dever de se sentir preocupado. Em nome do combate ao terrorismo ou até à delinquência comum, estamos a fazer recuar drasticamente as fronteiras da privacidade. O mesmo é dizer: as fronteiras da liberdade individual, um valor inestimável.

A semente totalitária começa a germinar aqui.

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A luz ao fundo do túnel

por Pedro Correia, em 09.09.14

Mais de quatro milhões de portugueses já têm smartphones. Negócio valeu 123 milhões de euros só no primeiro semestre. Até final do ano ainda vão ser vendidos mais 2,5 milhões de telefones inteligentes.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 05.09.14

«A autoproclamada jihad decapitou um segundo jornalista porque a primeira decapitação foi um sucesso. Não foi um sucesso porque o homem tenha morrido: matar um homem, para a dita, é uma rotina quase entediante. Foi um sucesso porque, tal como os amadores das redes sociais, também muitos profissionais da imprensa, da rádio e da televisão de todo o mundo voltaram a noticiá-la acriticamente, com um pé no voyeurismo e outro no maniqueísmo. O jornalismo-tipo-partilha-de-Facebook, em que todos, em maior ou menor grau, vimos embarcando, não tem os dias contados: pode até acontecer que seja o único a sobreviver. Mas implica custos e, provavelmentem, só dentro de algumas décadas começaremos a ter uma ideia da sua dimensão. Uma coisa é certa: ela é maior do que aquilo que agora nos parece - mesmo aos mais pessimistas.»

Joel Neto, no Diário de Notícias

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Penso rápido (46)

por Pedro Correia, em 01.09.14

Tempo de liberdade condicionada: enchemos a boca com direitos proclamatórios mas vivemos rodeados de "correctores". Reparo agora mesmo: tenho um telemóvel que me "corrige" as palavras. Estou proibido de escrever face, uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa. O "corrector" emenda-a automaticamente para facebook. Algo que não tenho nem tenciono vir a ter. Volto à face, o aparelho volta a impor-me o face norte-americano. Não por acaso, o vocábulo já anda a ser pronunciado feice, entre nós, um pouco por todo o lado.

Liberdade condicionada: avança aos poucos, pé ante pé, e vai-nos cercando no dia a dia. Toma cautela com o que escreves. Há sempre um "corrector" para te emendar a prosa.

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A língua em constante evolução

por Pedro Correia, em 27.08.14

Ouço a todo o momento à minha volta o verbo "desamigar". Sinto-me marginalizado: até hoje ainda ninguém me "desamigou".

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Penso rápido (43)

por Pedro Correia, em 25.08.14

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito. Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou a crise do BES. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.
Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.

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Num país que mata lentamente

por Pedro Correia, em 13.08.14

Emídio Rangel não foi apenas mais um jornalista: fez a diferença, sem recear a polémica, pulverizando consensos, dividindo opiniões, sabendo andar sempre à frente do seu tempo.

Criou a TSF em 1988, desengravatando a rádio, aproximando-a das pessoas, rompendo o monopólio das agendas oficiais.

Criou a SIC em 1992, pondo fim a um longo ciclo do "Portugal sentado" nos telejornais da estação única, estatal, governamentalizada.

Criou um estilo muito próprio. Com um talento que já lhe vinha de trás, dos tempos em que trabalhou na rádio pública e foi justamente galardoado com um prestigiado prémio de jornalismo.

Foi amado e odiado, mas nunca deixou de ir à luta. Perdeu algumas batalhas, mas venceu as mais decisivas. Deixando a sua impressão digital em todos os sítios por onde passou.

Morre agora, no termo de uma longa e dura doença, com a mágoa de ter passado os últimos anos longe da profissão que tanto o apaixonou. No mesmo país em que direcções editoriais medíocres se perpetuam anos a fio apesar de conduzirem títulos históricos do jornalismo português a níveis irrisórios de audiência e credibilidade. Como se os seus méritos se tivessem dissipado e o jornalismo pudesse dar-se ao luxo de dispensar o contributo de alguém com a sua experiência e o seu currículo. Como se o tivessem condenado à morte cívica antes do desaparecimento físico neste país que "mata lentamente", como Sophia sabiamente nos alertou.

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Penso rápido (38)

por Pedro Correia, em 06.08.14
Tornei-me ainda mais adepto do género epistolar desde que entrámos na era dos sms. Uma era que nos tem levado a uma rápida compressão vocabular. Fala-se cada vez mais rápido e cada vez de forma mais "económica": bastam algumas dezenas de vocábulos para assegurar a comunicação instantânea. Tudo muito básico, muito linear. Ano após ano, centenas de palavras entram definitivamente em desuso entre nós. Para combater esta tendência, nada melhor do que regressar a páginas já antigas, algumas até de livros com páginas amarelecidas pela erosão do tempo. Regressar aos romances de Eça de Queiroz, regressar ao Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Regressar aos diários de Miguel Torga, regressar à prosa diarística de Vergílio Ferreira, aos contos de José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires, aos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen, aos inflamados panfletos de Jorge de Sena. Às cartas de todos eles.

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Penso rápido (28)

por Pedro Correia, em 21.07.14

Num blogue que se diz de esquerda, perante um dos mais chocantes atentados de que guardaremos memória, alguém escreve que a culpa foi do avião civil carregado de passageiros -- não do míssil que o destruiu.

Num blogue que se diz de direita, alguém salienta que a culpa foi do corredor aéreo, pois já devia ter sido fechado.

Falta pouco para concluir que a culpa do morticínio foi das pessoas assassinadas, não dos assassinos.

É espantoso que o atentado -- tenha a origem que tiver -- não mereça uma palavra de condenação, uma palavra de lamento, uma palavra de humana comiseração pelas vítimas. Antes de qualquer considerando de ordem política. Como se, perante uma atrocidade, tivéssemos de escolher sempre um lugar numa trincheira.

É intolerável que vítimas civis e desarmadas de um conflito armado, sejam quem foram, acabem apontadas como "danos colaterais" de um conflito armado, seja ele também qual for.

Não devemos calar a nossa indignação perante o crime, venha de onde vier. Nem podemos permanecer indiferentes perante o crime, sob pena de nos transformamos em pequeninos cúmplices dos carrascos. Nem é aceitável adoptarmos a atitude cínica de Estaline, que dizia que "a morte de um indivíduo é uma tragédia e a morte de um milhão de indivíduos é uma estatística".

Importa-me, num primeiro passo, o olhar desprovido de considerandos políticos perante vítimas da violência mais primária e mais chocante e mais gratuita. Elevámo-nos felizmente acima da condição do nosso antepassado mais remoto, o homem das cavernas, graças ao enorme passo civilizacional representado por esse olhar.

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Um crime é sempre um crime

por Pedro Correia, em 18.07.14

Foto Dmitri Lovetsky/AP

 

Foi ontem cometido um bárbaro atentado no espaço aéreo da Ucrânia contra um Boeing 777 que assegurava o voo 17 da Malaysian Airlines. Com 298 pessoas a bordo.

Um acto repugnante, sem explicação cabal nem justificação possível. Cobarde e vil, sem atenuantes de qualquer espécie.

Uma violação das mais elementares regras civilizacionais que nos devia revoltar até às entranhas. Porque um crime é sempre um crime. Não há crimes de "esquerda" ou de "direita", que mereçam a nossa tolerância ou a nossa benévola "compreensão" consoante o quadrante ideológico em que nos colocarmos.

Equacionar a questão de forma neutra é já ser cúmplice dos terroristas.

Verifico entretanto que nem o disparo de um míssil contra um avião civil que voava a dez mil metros de altitude assassinando passageiros inocentes (incluindo cerca de 80 crianças, que nunca terão ouvido pronunciar a palavra política) comove certas almas. Pelo contrário: alguns dos nossos leitores, confontados perante esta carnificina, discorrem tranquilamente sobre geoestratégia, política energética e a as "culpas" do Ocidente.

Como se levitassem no reino das abstracções. Como se ontem não tivesse acontecido nada.
Isto diz muito sobre os tempos actuais. E sobre as mentalidades do nosso tempo.

 

Leitura complementar: Inquérito internacional urgente sobre a queda de Boeing, do José Milhazes.

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Penso rápido (24)

por Pedro Correia, em 14.07.14

Paradoxos do progresso: hoje em dia, um miúdo de seis anos já domina os rudimentos de um computador mas é incapaz de algumas das mais simples operações manuais - atar os cordões de um sapato, por exemplo. Muitas crianças estão totalmente à vontade perante um teclado digital, mas revelam dificuldades crescentes na escrita manual: a caligrafia vai-se deteriorando à medida que a máquina impera. Um adolescente japonês gaba-se de só ter amigos virtuais e de namorar há dois anos com uma jovem que apenas conhece via computador. E já chegou ao ponto de confessar que nem pretende conhecê-la pessoalmente para não estragar uma relação que considera "perfeita".

Ganhamos certamente muito com este predomínio da técnica sobre o homem. Mas devemos deixar que seja ela a servir-nos em vez de nos deixarmos escravizar e desumanizar por ela.

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Penso rápido (12)

por Pedro Correia, em 30.06.14

Vivemos num tempo fragmentado, que convida à dispersão. E somos vítimas crescentes dessa fragmentação. A nossa capacidade de concentração é cada vez mais escassa. Paramos a série televisiva a meio para ver não importa o quê, tornámo-nos incapazes de assistir a um filme de duas horas sem interrupções, espreitamos a todo o momento o ecrã do telemóvel em busca de novas mensagens mesmo sem esperarmos mensagem alguma, as redes sociais solicitam-nos adesões ou indignações contínuas, os dias vão-se dissolvendo em 24 horas de espuma. Este estúpido frenesim em que mergulhámos graças aos avanços tecnológicos impede-nos quase sempre de pensar. E afinal era nisto que devíamos investir muito mais do nosso tempo: pensar.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 19.06.14

Del siglo XIX al siglo XXI, de Rosa Montero

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Como juntar a injúria ao drama

por Pedro Correia, em 12.06.14

 

Um novo despedimento colectivo no grupo Controlinveste. O segundo em cinco anos. Em 2009, já tinha sido o maior de sempre na imprensa portuguesa: de uma vez só, da noite para a manhã, foi apontada a porta de saída a 122 profissionais. Agora o mesmo sucede a 160 trabalhadores, num novo e ainda mais lamentável recorde. Decidido no Dia de Portugal, por amarga ironia. Em vésperas do início do Mundial de futebol, quando as atenções gerais andam dispersas pelos estádios brasileiros. E com o requinte acrescido de ocorrer quando toda a fachada do edifício-sede está engalanada com um cartaz alusivo às festas de Lisboa, como a Teresa já aqui observou.

Pior ainda: numa edição que devia trazer hoje a solenidade do luto ou pelo menos o recato que o pudor impõe, em elementar respeito pela dignidade de profissionais que no seu conjunto deram milhares de anos àquela empresa (e sei de quem falo pois conheço-os a todos), o DN surge nas bancas com um eufórico encarte, ligeiro e colorido, cheio de meninas risonhas, com a legenda "Vamos viver juntos as emoções do Mundial". Nem é publicidade paga: trata-se de um anúncio da própria empresa proprietária encimado com o histórico cabeçalho do matutino. Como se o tempo na Controlinveste fosse propício a festas. Como se ainda ali houvesse algo para celebrar.

Pior: a notícia do brutal despedimento surge com o seguinte título, na página 44 do jornal: "Controlinveste Conteúdos faz redução de 160 efe[c]tivos". Ou, como se escreve noutro periódico do grupo, "Controlinveste avança para reestruturação". Que títulos vergonhosos são estes, meus senhores? Despedir é "avançar"? Pôr na rua é "reestruturar"? Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Quem pretendem iludir com tão inaceitáveis eufemismos?

Nessa casa, tanto quanto sei (e trabalhei lá 14 anos), um trabalhador sempre foi um trabalhador - nunca foi um "efe[c]tivo". Nessa casa, que foi domicílio profissional de muitos dos melhores jornalistas portugueses desde o século XIX, nunca se escreveu "fazer redução"[sic] para evitar recorrer ao termo despedimento.

É duro, bem sei. É incómodo, não duvido. Mas corresponde a uma das principais regras da escrita de imprensa, que recusa a imprecisão e a ambiguidade. E evita juntar ao drama do despedimento, já de si tão chocante, a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

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Podemos

por Pedro Correia, em 12.06.14

 

Formada nas redes sociais no início do ano, Podemos tornou-se a quarta maior força eleitoral de Espanha nestas europeias - e a terceira mais votada em Madrid - com uma mobilização clara e eficaz contra a "casta" que domina a cena política do país há quatro décadas. Conquistou mais de 1,2 milhões de votos, correspondendo a quase 8% dos votos expressos, e elegeu cinco eurodeputados.

Houve logo analistas que se apressaram a rotulá-la, procurando reduzir ao esquematismo das fórmulas já gastas pelo uso um fenómeno como este, que é novo. E complexo. E sintomático do desencanto de uma larga fatia dos cidadãos perante a representação política tradicional.

Este escrutínio de 25 de Maio deixou bem claro: ou os partidos mudam radicalmente ou verão fugir cada vez mais eleitores em futuras eleições. Em Espanha, PP e PSOE perderam em conjunto mais de cinco milhões de votos e recuaram cerca de 30 pontos percentuais face aos resultados de 2009. Funcionou como um sinal de alarme que deve ser levado a sério.

Entretanto vale a pena espreitar um dos spots de propaganda televisiva com a marca Podemos. Para se perceber como os votos começam a ser conquistados por esta via. Com profissionalismo e competência.

E aqui não há empates: ou se ganha ou se perde. Na televisão, quem concebeu esta campanha jogou para vencer. Como bem se vê.

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Aprenderam pouco...

por Helena Sacadura Cabral, em 27.05.14



No meu tempo de aluna de Economia passeavam-se pela Universidade uns filhos família cujo nome, pronunciado em voz alta, dizia tudo da sua origem. Vestiam e falavam de maneira especial e de um modo geral conviviam em grupo fechado, olhando os restantes colegas como representantes de uma classe social que pouco ou nada lhes dizia. Tinham-me algum respeito porque era eu que fazia as "sebentas" de algumas cadeiras, porque era a melhor aluna e porque, sem bem saberem porquê, usava um nome conhecido da História. E, de nomes, parece que percebiam. Mas não pertencíamos ao mesmo mundo. Isso era tão claro para mim quanto para eles...

Há dias quando fui tomar a bica ao local habitual, vejo parar um Maserati - lindo, confesso - e sair de lá um homem dos seus 35 anos, bastante alto, indumentária casual, cabelo claro e passada confiante. Dir-se-ia um ilustre representante da fidalguia do dinheiro.

Não me enganei. Com efeito, ao fazer a encomenda - dado o tom de voz, todos ficámos a conhece-la -, lá veio o nome. Nesse momento, ao ouvi-lo, reconheci o pai, na voz, no rosto e, claro, no apelido.

Saíu com a mesma ligeireza com que entrou. O Maserati arrancou em beleza e, por instantes, na sala reinou um silêncio incómodo, que apenas foi interrompido por um pedido meu de mais um rissol, emblemática escolha de classe social, que fazia toda a diferença com o rol que ouvíramos antes.

Enquanto comia o pastel, pensei como depois de 40 anos passados sobre o 25 de Abril, as classes dominantes usam sempre o mesmo apelido e pouco ou nada aprenderam. Ou, dito de outro modo, como pouco ou nada, os obreiros da revolução lhes ensinaram!

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Valor e preço

por Pedro Correia, em 09.05.14

 

Vale a pena reflectir sobre o valor noticioso do silêncio: na maior parte dos casos, o preço aumenta na razão inversa das declarações que justificam sonoros títulos propagados pelos tambores mediáticos. Incluindo aqueles que não hesitam em fazer do mau gosto uma permanente senha de identidade.

Monica Lewinsky rompe agora um silêncio de uma década em sóbrias confissões à Vanity Fair. Talvez a mais relevante seja a de que chegou a ser aliciada com dez milhões de dólares para ampliar de viva voz o escândalo que a ligou ao ex-presidente Clinton.

Numa época fértil em propostas irrecusáveis, a recusa em falar ao longo deste tempo tornou cada palavra sua ainda mais cobiçável pela comunicação social de todos os matizes. Mas haverá justo preço para a dignidade que apenas o silêncio voluntário permite preservar?

"Todo necio / confunde valor y precio", escreveu Antonio Machado. Tinha razão, como sempre acontece com os melhores poetas.

Texto publicado inicialmente aqui

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Desapareceu

por José Navarro de Andrade, em 31.03.14

 

A revolução coperniciana ainda só tem quatrocentos e picos anos, um tempo manifestamente insuficiente para a termos interiorizado no nosso dia-a-dia.  Depois dela, compreender a natureza passou a ser uma pura construção mental, feita de modelos matemáticos e observações que os vão reiterando. Ou seja, o senso-comum, esse bem tão precioso em certas instâncias da actividade humana, pode bem ser um obstáculo quando se quer demonstrar que ainda ninguém viu claramente visto a Terra girar à volta do Sol, e que não há nenhuma prova empírica para essa bizarra ideia, todos os dias desmentida pela nossa observação. Sucede simplesmente que o modelo continua a funcionar e por isso continuar-se-á a tomá-lo como correcto.

Repare-se que do vôo MH370 até agora não se achou nem se viu nada. Os únicos elementos que existem dele são meros sinais elétricos que foram arduamente interpretados a partir de conjecturas matemáticas. Ora aqui está um exemplo supremo do intenso combate entre a inteligência humana e a natureza; o pouco que sabemos, sabemo-lo por pura dedução e por esforçada inferência, a partir de instrumentos.

Este caso extraordinário deveria reconduzir-nos à consciência não só da nossa abissal ignorância, como tem tudo para nos fazer reflectir sobre a forma como habitualmente pensamos as coisas, sobretudo noutras áreas da nossa vida: porque temos sempre que ir a correr para explicações quando elas simplesmente não existem? Porque nos entregamos ao logro imenso da especulação a partir de esquivas e insonsas provas empíricas? Porque levamos tão a sério o jogo rectórico onde sempre triunfa aquele que fala mais alto ou mais persuasivamente?

Sim, é possível que um vulto gigantesco como um Boeing 777 desapareça da realidade sem deixar rasto. Contra isto não há opinião que valha.

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O triunfo da irrelevância

por Pedro Correia, em 06.02.14

Por estes dias as indignações propagam-se em fluxos sincopados, produzindo um inevitável efeito de banalização. São sempre de alta intensidade e de extrema volatilidade: extinguem-se com a mesma rapidez com que despontam. Exigem apenas a disponibilidade de um dedo polegar num smartphone. Seja para evitar o abate de um cão que molestou uma criança ou de um boi que escapou na rota para o matadouro. Seja sobre a co-adopção, as praxes, a deposição de famosos no panteão ou a venda de umas telas de Miró.

Estas indignações avulsas, a propósito de tudo e de nada, promovem uma cultura de mediocridade, onde as óptimas causas se equivalem às péssimas sem hierarquia aparente e a tentação dominante é sempre nivelar por baixo, a coberto do pseudo-vanguardismo das "redes sociais" onde parece ter razão quem mais se exalta no conforto do sofá.

Assistimos impávidos ao triunfo da irrelevância e da superficialidade que acaba por produzir o efeito de uma anestesia geral: na semana seguinte já ninguém se lembra da polémica da semana precedente. Much ado about nothing, como nos ensinou um profundo conhecedor da natureza humana.

 

Reproduzido aqui, onde a partir de agora passo a escrever também

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O triunfo da javardice

por Pedro Correia, em 11.01.14

Eusébio, um dos maiores jogadores de sempre do futebol português, merecia o tributo das bancadas nos instantes que antecederam o Estoril-Sporting. Infelizmente o tempo é mais propício à javardice parola e exacerbada, como ficou demonstrado por elementos das claques presentes no estádio António Coimbra da Mota ao trocarem o minuto de silêncio por estrondosas vaias e cânticos tribais.

Vítor Damas, um grande símbolo de sempre do Sporting que também já não se encontra entre nós, foi adversário leal e um bom amigo de Eusébio. Tenho a certeza de que seria o primeiro a deplorar esta inaceitável atitude de adeptos incapazes de reconhecer mérito em figuras de outros clubes e de respeitar com decoro e dignidade a memória de quem partiu.

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Sinal dos tempos

por Pedro Correia, em 08.01.14

Vejo os títulos da imprensa de hoje nos quiosques. Títulos? Não, título. A manchete é comum: "Millennium apoia as empresas portuguesas". Um título não informativo, mas publicitário. Muda apenas o grafismo, cuidadosamente adaptado a cada periódico. Por aqui se vê a extrema debilidade financeira da nossa imprensa: basta um banco -- qualquer banco -- lançar uma campanha publicitária para todos os diários generalistas lhe cederem o seu espaço mais nobre, que devia estar reservado a notícias e não a anúncios.

Acontecesse isto noutro tempo e não tardariam vozes de indignação a multiplicar-se contra este abastardamento da nobre função de informar. Mas a coisa já passa agora sem o mais leve sussurro crítico, o que é um inequívoco sinal dos tempos.

Compro um exemplar do i - o único diário generalista que ficou à margem desta campanha. É o único que tem, portanto, uma manchete noticiosa: "Portugal sem estratégia para tempestades marítimas". Aqui fica a minha singela homenagem, enquanto leitor, ao jornal que quebrou o monopólio do Millennium neste chuvoso dia do novo ano.

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Do mérito perdido em parte incerta

por Pedro Correia, em 26.12.13

 

Passo por uma loja e volto atrás. Não para ver qualquer produto exposto na vitrina pós-natalícia mas para reler um letreiro que me ficou na retina. "Estamos a executar a montra", reza o aviso. Executar? Será possível que aquele comerciante tenha instintos homicidas, como tais palavras indiciam?

Mais adiante, noutra loja, outro letreiro promete "fazer as unhas" a quem se digne passar por lá. Como se as ditas não estivessem já feitas de origem.

E nesta ronda, como tantas vezes sucede, vou sentindo uma absurda estranheza perante o meu próprio idioma, tantas vezes maltratado, abastardado, vítima de aberrações lexicais que lhe são totalmente alheias não no sentido em que um Alexandre O'Neill ou um Mário-Henrique Leiria o "desconstruiam" mas devido à mais chocante ignorância.

A palavra-chave é esta mesmo: ignorância. Vivemos numa sociedade onde continua por implantar a cultura do mérito. Só isto explica que um responsável editorial escreva sem rasto de ironia, num dos principais jornais portugueses, que fulano de tal "houve o telejornal". Ou que um editor de cultura numa publicação de difusão nacional se gabe de não frequentar há longos anos uma sala de cinema.

Seria quase divertido se não funcionasse como espelho fiel da realidade, desta chocante falta de exigência que leva tantas vezes à promoção dos menos aptos e dos menos capazes. Não admira por isso que perante tais exemplos um jovem jornalista, escrevendo sobre uma promessa da música lusa algures na diáspora, faça notar que ela "tem descendência portuguesa" quando queria dizer exactamente o contrário. Ou que outro profissional do jornalismo em início de carreira considere essencial que "o professor haja" de outra forma na sala de estar. Ou que um elemento da direcção de um jornal diário, num editorial assinado com nome próprio, escreva esta pérola: "Se não houverem sobressaltos..."

Podia multiplicar os exemplos por cem ou por mil -- exemplos que não se circunscrevem à realidade portuguesa, como se pode comprovar aqui. Para chegar sempre à mesma conclusão: é lamentável ver tanta ignorância à solta. Escandalosamente impune. Quase como se fosse culta.

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A esperança em vez do medo

por Pedro Correia, em 08.12.13

 

Estes dias que se têm seguido à morte de Nelson Mandela mostraram-se muito férteis em manifestações de pesar que enaltecem o maior estadista de que há memória no continente africano, embora muitas não o façam pelo motivo mais adequado.

Sim, Mandela foi um admirável resistente a um regime iníquo. Sim, a sua tenacidade e a sua valentia são dignas de profunda admiração. Mas o que o torna superior aos demais, o que o torna realmente diferente de tantos nacionalistas africanos que também não se vergaram e resistiram à iniquidade e à opressão, aquilo que o projectará para sempre na memória colectiva das gerações vindouras é o seu exemplo ímpar de tolerância, reconciliação e diálogo num país que todas as cassandras de turno anteviam mergulhado em sangrentos conflitos étnicos e tribais.

Ao estender a mão fraterna ao inimigo de véspera, Mandela deu a todos os seus contemporâneos disseminados pelo planeta -- tenham a cor de pele, a fé religiosa ou a ideologia que tiverem -- uma extraordinária lição de dignidade humana que transcende épocas, fronteiras ou crenças. Foi uma verdadeira "fonte de inspiração", capaz de nos revelar "aquilo de que o ser humano é capaz quando é guiado pela esperança em vez do medo", como dele disse Barack Obama.

 

Retomo uma ideia já aqui muito bem expressa pela Ana Vidal: qualquer outro, no seu lugar, professaria a Lei de Talião -- o tal "olho por olho" que, como nos ensinou Gandhi, é o meio mais eficaz para tornar o mundo cego. Ele, que tinha mais razões que ninguém para impulsionar actos de vingança, apontou com rara sabedoria um rumo alternativo -- e conseguiu pô-lo em prática, não se confinando ao plano teórico -- durante cinco anos de mandato presidencial na África do Sul em que lançou os alicerces de uma sociedade verdadeiramente multirracial, congregando brancos e negros -- aqueles que agora o choram, unidos num genuíno abraço de pesar.

Um caso único de sucesso em África, o continente de todos os fracassos.

E o seu mérito não termina aí: abdicou voluntariamente do cargo supremo do país após ter cumprido um mandato presidencial, dando assim provas de um notável desapego do poder. Outro facto raríssimo em África.

 

No simples plano da convivência cívica, ao estabelecer pontes com adversários dos mais diversos matizes, Mandela soube ser grande. E único.

É tristemente irónico vê-lo agora enaltecido por todos quantos ignoram deliberadamente o seu exemplo, pregando nas colunas de opinião e no espaço público um exacerbado radicalismo, argamassado no ódio a quem pensa de maneira diferente e no desprezo pelas posições moderadas, racionais e não-extremistas.

Um pouco por toda a parte, neste mundo de múltiplas indignações plasmadas nas redes sociais, vivemos uma espécie de guerra civil de baixa intensidade. Que vê em cada palavra de bondade um sinal de fraqueza. Que faz de cada tribuna uma trincheira de rancor. Que imagina um inimigo oculto em cada divergência. Que transforma cada opinião discordante em casus belli. Que esmaga cada tese contrária com a fúria de um combatente apostado em não recolher prisioneiros nem respeitar convenções de Genebra.

 

Dizem admirar Mandela enquanto ignoram tudo quanto de essencial Mandela nos ensinou.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 27.10.13

«Os europeus vivem uma viragem de época: por outras palavras, já não podem viver como dantes. A Europa tem no estado social um dos pilares da sua identidade e do consenso social. "O Estado social não tem preço", diz-se. Mas o contrato intergeracional está ameaçado de ruptura. A resistência à reforma é a mais rápida via para o colapso. E, mesmo reduzido e racionalizado, o sistema não será sustentável sem crescimento. E não haverá crescimento sem outras reformas, cmo a do mercado de trabalho -- já efectiva nos países do Norte, mas ainda tabu nos países do Sul. O mito do "trabalho fixo para toda a vida" é uma fábrica de desemprego e um meio de segregar os jovens.»

Jorge Almeida Fernandes, Público

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Outono quente

por Pedro Correia, em 16.10.13

1. Já existe o canal Parlamento. Ainda não existe o canal Conselho de Ministros. Mas já faltou mais: as fugas de informação cirúrgicas tornam-se generalizadas e ganham a emoção de um relato de futebol. O sentido de Estado parece ter emigrado para parte incerta.

 

2. Difundir informações sem fundamento, causando um inconcebível alarme social, não penaliza só uns: penaliza todos.

 

3. Largar más notícias com abundância pelas manchetes da imprensa e pelos comentadores mais próximos enquanto se gere o silêncio: eis todo um programa de acção.

 

4. Bastam dez pessoas aos berros durante cinco minutos: as redes sociais transmutam a berraria em notícia, validada pelos chamados órgãos "de referência", muitos deles cheios de editoriais contra o "populismo". Meio século depois, nunca Marshall McLuhan esteve tão actual: o meio é a mensagem. Que, pelo efeito de banalização, logo se transforma em massagem.

 

5. Cento e cinquenta mil portugueses trabalham em Angola, nosso principal fornecedor de petróleo. Portugal é o maior parceiro comercial de Luanda. Há 8800 exportadoras portuguesas no mercado angolano, por mais que isso incomode certos aprendizes de feiticeiro. A parceria estratégica, que serve os interesses nacionais, devia ficar à margem da luta partidária. Para não desembocar nisto.

 

6. Taxa sobre produtores de electricidade, anunciada com espavento, vai repercutir-se na bolsa do consumidor. Eduardo Catroga, com notável despudor, já tinha avisado.

 

7. Bastam seis meses para a ambição partidária suplantar o espírito de serviço público? Se não é parece.

 

8. A extrema-esquerda em marcha. Abrindo caminho à extrema-direita: não acreditem que acontece só . Como alertava o PCP quando estava no Governo, em 17 de Junho de 1974, "as formas de luta devem ser cuidadosamente examinadas antes de decididas".

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Portugal e o mundo cinco anos depois

por Pedro Correia, em 12.10.13

Não sei se muita gente tem também este hábito: gosto de guardar jornais para mais tarde os confrontar com os efeitos da passagem do tempo.

Esta manhã, por coincidência, peguei num exemplar do Público datado de 12 de Outubro de 2008. Faz hoje precisamente cinco anos. E dei por mim a folheá-lo como se tivesse acabado de adquiri-lo numa banca.

A manchete situa-nos num facto concreto, no tempo e no espaço, que ainda hoje influencia -- e de que maneira -- o nosso quotidiano. Vivíamos as primeiras etapas visíveis da gravíssima crise em que permanecemos mergulhados e os políticos ensaiavam soluções de desfecho incerto. Incluindo a que surge estampada no título principal desta edição: "Europa e EUA nacionalizam bancos para sossegar bolsas".

Era um domingo, véspera de um encontro de emergência dos líderes da zona euro, a decorrer em Paris, enquanto no outro lado do Atlântico a General Motors e a Chrysler estudavam a possibilidade de uma fusão para sobreviver à pior crise do mercado automóvel em década e meia.

A ministra francesa das Finanças, uma tal de Christine Lagarde, admitia que os Estados europeus entrassem "ainda mais no capital dos bancos que se encontrem descapitalizados". Bem sabemos, à escala portuguesa, onde nos conduziu esta via, justificada para travar os cenários de colapso do sistema financeiro...

 

Não foi por falta de aviso para quem sabia interpretar os sinais dos tempos.

Na contracapa, Vasco Pulido Valente punha em causa a prioridade legislativa à agenda de costumes então muito em voga: "Na Assembleia da República, a esquerda e a direita tratam, com toda a seriedade, do casamento de homossexuais. Concordo inteiramente que a lei aprove o casamento de homossexuais. Mas, com o Ocidente à beira da falência, já para não falar de Portugal, essa não parece a prioridade do dia. (...) Talvez não fosse inútil imaginar como acabaria o País se a recessão americana (hoje inevitável) durasse, por exemplo, meia dúzia de anos; se a 'Europa' se desintegrasse ou enfraquecesse; ou se a esquerda e a direita voltassem, por força da necessidade, às nacionalizações de 1975. Compreendo que estas coisas deprimem e que, pelo contrário, o casamento de homossexuais puxa muito mais pela parlapatice."

Pulido Valente, com uma sagacidade imutável, pregava em vão. Porque Portugal parecia imune aos ventos da história. Uma investigação feita pelo jornalista Ricardo Dias Felner ao obscuro mundo das despesas do Estado feitas por ajuste directo, decorrente das alterações à lei da contratação pública, permitia concluir os mais desvairados gastos: "O gabinete de Sócrates reforçou a adega com sete mil euros em garrafas de vinho. O Ministério da Justiça comprou oito carpetes por 22 mil euros." Serviços de restauração, no âmbito de eventos camarários, equivalentes a quase 70 mil euros. Aluguer de "vários autocarros" pelo município de Gondomar: 33.250 euros. Cachê gasto pela câmara de Lagoa aos Da Weasel: 28.200 euros. Actuação de Rui Veloso a convite da autarquia de Elvas: 28.600 euros.

Especificava-se que as garrafas de vinho remetidas ao gabinete do primeiro-ministro eram da marca Quinta do Vale Meão, tinto, colheita de 2006, e destinavam-se a "oferta a entidades estrangeiras".

 

 

No estrangeiro, registava-se a morte de Joerg Haider, líder da direita nacionalista austríaca, ao volante de um veículo em excesso de velocidade. Sarah Palin, candidata à vice-presidência dos Estados Unidos por designação do republicano John McCain, enfrentava acusações de abuso de poder quando exercera funções de governadora do Alasca. O Público concedia-lhe foto a duas colunas, na primeira página. E questionava os leitores em título da página 2, dedicado à campanha eleitoral em curso nos EUA: "Abuso de poder de Palin é ferida mortal para John McCain?"

A imagem de McCain com o candidato democrata Barack Obama permite concluir que o actual inquilino da Casa Branca envelheceu bastante nestes cinco anos. McCain permanece no Senado. De Palin, estrela cadente, pouco ou nada se tem ouvido.

 

Há um anúncio de página inteira em que o Público felicita o primeiro aniversário de um jornal gratuito chamado Sexta. Vivia-se nessa época a febre dos "gratuitos", concebidos à semelhança dos folhetos de supermercado. Uma febre tão efémera quanto nefasta para o verdadeiro jornalismo.

Deste Sexta, confesso, não guardo qualquer memória. Mas a festa de aniversário deve ter sido de arromba. Embora menos dispensiosa do que a passagem de Marco Paulo, um verdadeiro artista português, pelo concelho de Lagoa, a expensas do contribuinte, pela módica quantia de 20.400 euros.

Notícias como esta, lidas à distância de cinco anos, ajudam a explicar o estado a que Portugal chegou.

 

E que mais?

Paulo Bento, na pele de técnico principal do Sporting, insurge-se contra as críticas, queixando-se da "pressão exterior", com o seguinte desabafo: "Toda a gente percebe de futebol menos o treinador". Isto enquanto o Presidente Cavaco Silva, supremo treinador do reino, evocava o "espírito" de Aljubarrota para enfrentar as "adversídades" do presente.

Cinco anos depois, há coisas que não mudam.

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De Estaline a Gordon Gekko

por Pedro Correia, em 31.08.13

 

Bem-vindos ao admirável mundo novo. O do trabalho sem direitos, o das jornadas laborais sem horários. Não me refiro às lúgubres linhas de montagem da China ou do Bangladeche, onde mulheres e crianças são atiradas, a troco de quase nada, para satisfazer as delícias consumistas das sociedades "emergentes". Refiro-me a outro género de escravatura contemporânea. À promovida pelos esclavagistas engravatados da City londrina, que utilizam jovens trabalhadores precários como peões da sua alucinada engrenagem do compra-e-vende, espécie de proletariado do nosso tempo que começa a trabalhar ainda antes de nascer o sol e continua agarrada à cadeira e ao telefone depois de o sol se pôr (porque há sempre uma Bolsa a abrir algures, noutro continente).

Um admirável mundo novo cheio de suicidas, em paragens tão diversas como Paris ou Tóquio. E com um novo mártir: um rapaz de 21 anos, oriundo da Alemanha, que trabalhou literalmente até morrer.

Chamava-se Moritz Erhardt, estava há sete semanas como estagiário da sede londrina do Bank of America Merrill Lynch, no sector da banca de investimento. Tinha como herói uma figura do cinema: Gordon Gekko, o implacável corretor interpretado por Michael Douglas em Wall Street, de Oliver Stone. O mesmo Gekko que proclamava: "A ganância é que faz mover o mundo."

 

Colegas que partilhavam a residência estudantil com o jovem alemão encontraram Moritz morto no duche, há duas semanas. Vinha de 72 horas consecutivas de trabalho, sem pausa para dormir. Num meio onde é frequente trabalhar entre 12 e 16 horas diárias, seis a sete dias por semana.

Trabalha-se em piloto automático, muito para além dos primeiros sinais de fadiga e esgotamento começarem a ser emitidos pelo corpo humano: 110 horas semanais, sem fins de semana. Para satisfação permanente da ganância de alguns.

 

O jovem alemão morreu a 15 de Agosto, dia de festas e romarias em Portugal nas quais se conjugam o sagrado e o profano. Dia que chegou a estar na lista dos feriados nacionais a abolir entre nós, por vontade dos Gordon Gekkos lusitanos, pífios aprendizes de Estaline - sem bigode e com camisas Hermès em vez da samarra comunista.

O ditador soviético promovia a "heróis do socialismo" aqueles operários que mais horas consagrassem à patriótica tarefa de produzir em doses brutais. O maior de todos eles foi Andrei Stakhanov, um mineiro que, no dia 31 de Agosto de 1935, terá conseguido extrair 102 toneladas de carvão em cinco horas e 45 minutos.

No amplo formigueiro estalinista, Stakhanov foi apontado como exemplo a seguir: recebeu um caloroso abraço de Estaline, passou a ostentar a Ordem de Lenine, ascendeu a deputado no Soviete Supremo da URSS, teve honras de capa na capitalista Time e deu até origem a novas palavras: stakhanovismo e stakhanovista.

Milhões de soviéticos procuraram seguir este padrão, para louvor e glória da "pátria dos trabalhadores", conduzida pelo grande ditador.

Moritz Erhardt não teve tempo para receber o abraço de ninguém. Infeliz Stakhanov dos nossos tempos, escravo de gravata, sucumbiu em Londres, à hora em que abria a Bolsa de Tóquio, deixando tanta acção por vender e por comprar. "Money never sleeps", como Gordon Gekko ensinou aos seus contemporâneos.

 

Imagens, de cima para baixo: Moritz Erhardt (foto The Times); Michael Douglas, protagonista de Wall Street (1987); Andrei Stakhanov num selo soviético

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 02.08.13

Cão que matou bebé passa a chamar-se Mandela por ser um "símbolo da liberdade".

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Num ecrã perto de si

por José Gomes André, em 28.07.13

A televisão é um espantoso agente de estupidificação de massas. 2500 anos de civilização depois, há pessoas que se voluntariam para cantar enquanto pisam descalças tripas de peixe e larvas. Com câmaras a gravar, público a assistir e espectadores atentos nas suas casas. Deve ser isto a definição de "decadência".

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