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Os novos pelourinhos em papel

por Pedro Correia, em 09.11.17

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Ela era a estrela do momento nos ecrãs televisivos. Ele era o ministro em ascensão no firmamento político cá do burgo - culto, apessoado, bem falante. Tiveram os seus dias de glória na imprensa cor-de-rosa - a que dispõe de carteira profissional sem nunca se sujeitar ao severo controlo deontológico que baliza a conduta das restantes publicações.

Superado esse tempo de esplendor na relva, virou-se a página. Veio o estupor nas trevas, em total contraste com as soalheiras manhãs de outrora. A imprensa continuou atenta, mas já sem vestígios do tom rosado. Essa imprensa que só é cordata e amável para quem está sob o foco das luzes da ribalta. Aos outros, aos que estão na sombra e no silêncio, condena-os sem os escutar, sentenciando-os sem remissão a penas com efeitos perpétuos em forma de manchetes e capas de onde está ausente qualquer presunção de inocência dos visados.

 

Muito se tem escrito, em tons de justa indignação, sobre o apedrejamento mediático daquela profissional dos ecrãs televisivos que tem visto a sua vida indecorosmente devassada, sem o menor respeito pela reserva da intimidade garantida no texto constitucional a todos os cidadãos portugueses - ao ponto de até os seus dois filhos menores serem utilizados como arma de arremesso contra a própria mãe.

Falta sublinhar um dos aspectos mais lamentáveis deste triste caso: na primeira linha desse apedrejamento têm figurado as chamadas revistas femininas - escritas por mulheres, dirigidas por mulheres.

Questiono-me o que sentirão elas da mulher concreta que visam, em capas sucessivas, sem remorso nem piedade. Questiono-me se alguma vez farão esse imprescindível exercício intelectual inerente ao jornalismo responsável que nos manda colocar, ao menos por instantes, no papel dos visados pelos nossos textos e pelos nossos títulos.

 

Algum do pior machismo vem surpreendentemente de onde menos se espera. Mulheres contra mulheres - tolerantes com eles, inclementes com elas.

Tanto se fala agora em mudança de mentalidades, mas aqui não vejo qualquer sinal de maturidade cívica ou conquista civilizacional: só vislumbro retrocesso a um passado de má memória. Os velhos pelourinhos dos nossos tetravós ressurgem hoje em forma de papel impresso. E todos os dias reclamam novas vítimas.

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Em tempos de "pós-verdade"

por Pedro Correia, em 08.10.17

 

Como uma mentira grosseira acabou por dar a volta ao mundo, travestida de "verdade".

 

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Outros quatro a ler no metro

por Pedro Correia, em 05.09.17

Entro na carruagem do metro, são quase 19 horas. A habitual multidão do fim da tarde: quase toda a gente - excepto turistas - de cabeça para baixo, mergulhada nos ecrãs dos telefones a que chamamos inteligentes apesar de fazerem de nós estúpidos. Questiono-me quantas destas pessoas alheadas de quem as cerca perdem tempo a ver vídeos de gatinhos ou a ler piadolas alarves ou a aprofundar "todos os pormenores" que jamais quiseram saber sobre celebridades da treta.

Aproveito para abrir o livro que por estes dias me acompanha. São seis estações até ao meu destino: à média habitual, dá para avançar umas dez páginas. Aproveitando todos os momentos disponíveis ao longo de fragmentos do dia, consegui ler 44 livros completos desde o início do ano até ao fim de Agosto. Era uma aposta muito pessoal para 2017: igualar ou superar agora enquanto leitor o ritmo veloz dos meus tempos de adolescente e jovem adulto, quando cheguei a ler 72 no ano em que passei dos 17 aos 18.

 

Guardo na mochila o Equador, de Miguel Sousa Tavares (sim, é deste romance que se trata), quando se anuncia a estação onde vou sair. E reparo então que nos lugares circundantes vão quatro pessoas também a ler. Duas mulheres, dois homens: paridade absoluta.

O que lêem elas? A Rapariga que inventou um sonho, de Haruki Murakami (edição Casa das Letras), e Filhos da Fortuna, de Jeffrey Archer (Europa-América).

O que lêem eles? A Game of Thrones, de George RR Martin (um paperback na versão original), e O Islão Político Ontem e Hoje, de John Owen (Bertrand).

 

Não deixo de sorrir: eis quatro parceiros de carruagem totalmente desconhecidos e que talvez nunca volte a ver mas a que me sinto de imediato ligado por um inesperado elo de cumplicidade.

Somos poucos mas não deixamos de remar contra a maré dominante, transformando o transporte de um livro num singelo acto de resistência. Demonstrando aos outros e a nós próprios esta evidência: é possível escapar ao vício dos telemóveis que cada vez mais nos uniformiza no espaço público.

Por mim, continuarei. Até ao fim deste ano e no outro que vier. Sem unicidade, sem uniformes, sem vídeos de gatinhos. Como escreveu o poeta, "só vou por onde / me levam meus próprios passos".

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Do jornalismo ao jornalixo

por Pedro Correia, em 31.08.17

As chamadas "redes sociais" são hoje a maior rede de amplificação de mentiras no quotidiano português. Qualquer aldrabice ali posta a circular ganha eco imediato, com opiniões definitivas cavadas em trincheiras, sem ninguém cuidar da verdade dos factos.

Nos últimos dias isto ficou bem evidente na absurda polémica dos caderninhos de apontamentos pré-escolares com capas a azul e cor-de-rosa, com centenas de pessoas a pronunciar-se sobre algo que nunca tinham visto nem faziam a menor ideia do que era. Bastaram uns bitaites no Twitter para logo a bola de neve engrossar. Da "rede social" a estória saltou para todos os media e destes para um obscuro organismo oficial pomposamente designado Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, e daqui para o gabinete do ministro adjunto do primeiro-ministro, que fez um inédito apelo público à retirada desses cadernos do mercado - onde se encontravam, sem qualquer polémica, desde Julho de 2016!

 

Tudo isto em apenas 24 horas e sem que se estabelecesse uma versão contraditória: estava em curso um linchamento colectivo e ululante, passatempo favorito das "redes". Ninguém fez caso do que disse  Susana Baptista, responsável pelas publicações infanto-juvenis da Porto Editora, ninguém ouviu a autora, Catarina Águas - licenciada em Educação de Infância na Escola Superior de Educação de Lisboa -, ou as ilustradoras dos tais cadernos, Ana Valente e Rita Duque. Todas do "genero" feminino, todas profissionais respeitáveis, todas ignoradas. Como se estivesse em causa uma empresa de vão de escada e não a maior editora portuguesa, com uma reputação alicerçada em sete décadas nos domínios da pedagogia e da didáctica.

Foi preciso um humorista - neste caso Ricardo Araújo Pereira - repor a verdade dos factos para a polémica se esvaziar quase tão depressa como tinha começado. Sem carteira profissional de jornalista, ele fez o que qualquer bom jornalista deveria ter feito: apurar o que realmente se passava, sem emprenhar de ouvido.

Este episódio envergonha os jornalistas portugueses. E ajuda a explicar por que motivo todos os títulos da imprensa continuam a cair a pique, como demonstram os calamitosos números referentes ao primeiro semestre de 2017 agora divulgados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação.

 

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Anteontem, embora com menos destaque, aconteceu uma história semelhante, também iniciada nas redes sociais. Sobre os supostos maus-tratos dados a um galo numa remota aldeia do concelho de Seia: o bicho, garantiam os arautos da pós-verdade refastelados nos seus sofás lisboetas sem nunca terem posto os pés na referida povoação, seria morto à paulada, com requintes de sadismo. Com a ave "agonizando lentamente fruto da malvadez".

Foi quanto bastou para que o PAN salivasse de indignação. A coisa meteu comunicado oficial do partido animalista, denúncias ao Ministério Público e à Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária. De imediato os órgãos de informação reproduziram tudo isto - uma vez mais, sem apurarem os factos, como mandaria a deontologia profissional.

Parecia um filme de terror. Com o ligeiro problema de ser mentira. Como a Câmara Municipal de Seia, presidida pelo socialista Carlos Filipe Camelo, se encarregou de esclarecer, desfazendo o boato. Entretanto, lamentavelmente, apenas o Jornal de Notícias tinha cumprido o dever jornalístico, estabelecendo o contraditório ao ouvir as pessoas daquela aldeia que desmentiram a atoarda sem rodeios numa peça escrita pela jornalista Madalena Ferreira (infelizmente não disponível em versão digital no momento em que escrevo estas linhas).

 

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Acontece que as redes estão-se nas tintas para a verdade. Essa "turba inorgânica", como bem lhe chama Francisco Mendes da Silva, quer indignar-se o tempo todo contra não importa o quê. Tal como os viciados em drogas duras, os junkies das caixas de comentários dos jornais - os mesmos que espalham qualquer atoarda no Twitter e no Facebook - fazem prova de vida berrando por escrito sobre assuntos acerca dos quais nada percebem, nada querem perceber e têm raiva a quem perceba.

Isto explica que as putativas agressões ao tal galo só existente na delirante imaginação do PAN tenham dado azo à habitual javardice histérica, com dezenas de pessoas disparando contra um alvo afinal inexistente.

 

Uma vez sem exemplo, aqui transcrevo algumas dessas opiniões, colhidas ao longo de 24 horas na caixa de comentários da edição electrónica do JN, para se avaliar bem o nível intelectual desta gente:

«Haja vergonha! Haja respeito por seres que sentem como nós!»

«Quais são as origens dessa barbaridade? Religião ou vudu?»

«Voltamos à idade da pedra mas da pior forma. É que nessa época matava-se para comer, agora mata-se por diversão.»

«É uma tradição de merda e já devia ter acabado.»

«Outra tradição para atrasados mentais... já não basta os doentes de Barrancos...»

«Que façam tradição com os seus familiares. Não têm que o fazer a seres inofensivos que estão ali por obrigação.»

«E que tal serem eles e a sua "tradição de caca" a levarem paulada?»

«Estes divertimentos de merda à custa do sofrimento dos animais pôem-me doente. Que tal substituir o galo pela besta (humana) lá da aldeia?»

«Sugiro para as pessoas que são a favor deste tipo de tradições seguirem a minha nova tradição: amarrar um de vocês e bater-lhes com um barrote até morrerem.»

«Podem substituir o galo pelo António Costa?»

 

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No meio deste vendaval de imbecilidades, uma  leitora ainda tentou repor a verdade: «Se há uma coisa que abomino é a falta de profissionalismo jornalístico e a política suja que se pratica no nosso pais. Para aqueles que gostam de opinar sem o devido conhecimento, informo que morte do galo é na verdade a morte do ovo: não andam à palauda ao galo mas ao ovo .»

Como era de calcular, ninguém fez caso: os "factos alternativos" são muito mais sedutores do que a verdade nua e crua.

Assim vamos andando: dispara-se primeiro e reflecte-se depois. Com o genuíno jornalismo praticamente em vias de extinção, entretanto absorvido pelas "redes". Cada vez mais travestido de jornalixo: vociferante, acéfalo, populista, irresponsável e mentiroso.

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Ponham-se a pau, Eça e Camões

por Pedro Correia, em 28.08.17

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Era o que faltava à Porto Editora para se actualizar: após mais de sete décadas ao serviço da excelência do serviço público, passou a receber lições de pedagogia do poder político.

Pedagogia censória, passe o oxímoro, em nome de valores respeitáveis, como a igualdade e a liberdade. E com solene chancela oficial, que manda - utilizando o eufemismo "recomenda" - retirar duas publicações dos postos de venda. O fantasma do doutor Salazar deve emitir uns sopros irónicos lá entre os vetustos reposteiros de São Bento.

Com a diligente brigada dos bons costumes apostada em pôr multidões ordeiras e ululantes a entoar a novilíngua deste admirável mundo novo, condenando sem cuidar sequer do rigor dos factos, o vocabulário comum em democracia torna-se policiado como se vivêssemos em ditadura. E não tenhamos ilusões: esses patrulheiros não tardarão a exercer censura com carácter retrospectivo, pois só quem controla o passado é capaz de controlar o futuro. Atenção, misógino Pessoa. Toma cuidado, falocrático Eça - reles perpetuador de "estereótipos de género". Põe-te a pau, racista e islamófobo Camões.

Haja cuidadinho com as cores também. Os daltónicos, coitados, é que se tramam.

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Flagrantes do país real

por Pedro Correia, em 25.08.17

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 Foto António José/Lusa

 

O País continua a arder pelo terceiro mês consecutivo. Há incêndios nomeadamente em Oleiros, Guarda, Sertã e Sabrosa, combatidos por 2254 bombeiros e 21 meios aéreos. Só ontem, mais seis bombeiros ficaram feridos - um deles em estado muito grave, forçando a sua evacuação para o hospital de Santa Maria, em Lisboa - e pelo menos oito habitações foram destruídas pelas chamas que vão cercando aldeias e devastando áreas florestais e agrícolas. A Polícia Judiciária já deteve 78 pessoas, número que quase duplica o do ano passado por esta altura. Não admira: segundo o presidente da Liga dos Bombeiros, "há mão humana em 98% dos incêndios e 80% têm origem criminosa".

A Comissão de Inquérito à tragédia de Pedrógão, que provocou 65 vítimas mortais, prossegue o seu pachorrento trabalho: as conclusões hão-de vir lá para o cair da folha outonal, passados os calores estivais e as eleições autárquicas. À espera que o tempo decorra, e que os fogos se apaguem naturalmente pela chuva que um dia há-de chegar, o Governo tarda em encarar de frente o problema, que exige medidas drásticas, incluindo a reposição das extintas equipas de guardas florestais e a formação de um corpo profissionalizado de bombeiros especializados no combate permanente a estes fogos. Não nos iludamos: está em curso uma calamidade ambiental e climática. Enfrentamos um autêntico atentado à segurança nacional, como bem acentuou Viriato Soromenho-Marques, aconselhando o Executivo a "decretar um longo estado de emergência nas áreas florestais".

Podemos esperar sentados: assim que os órgãos de informação se cansarem de vez de reportar o rasto destruidor dos incêndios no Portugal mais pobre e desprotegido, a Lisboa mediática retomará, festiva e faiscante, as prioridades tribais que a formatam durante quase todo o ano, em circuito fechado, ditadas pelo amiguismo travestido de jornalismo. Talvez por isto, os diários vendem cada vez menos e vários vão-se arrastando em dolorosa agonia, enquanto os noticiários televisivos perdem espectadores a ritmo acelerado.

O país profundo, o que não se movimenta no eixo Chiado-Príncipe Real nem tem protagonistas a monopolizar cabeçalhos e setas viradas para cima na imprensa, vai tentando a sorte e derrapando na estrada. Desde Janeiro, já se registaram em Portugal 81.124 acidentes rodoviários, com 320 mortos - mais 51 do que no período homólogo de 2016 - e 26.757 feridos. E nos primeiros seis meses de 2017 os portugueses perderam, em média, 3,1 milhões de euros por dia em apostas sem prémio no jogo legal.

Há anos assim, em que nos bate à porta o azar. Chamemos-lhe assim ou outra coisa qualquer.

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Padronizados como nunca

por Teresa Ribeiro, em 23.08.17

Espero num lobby de uma torre de escritórios. À minha frente também esperam três raparigas que, não se conhecendo entre si, parecem coreografadas. Todas seguram o telemóvel, todas com unhas de gel, todas com pestanas postiças, todas com pernas traçadas, cabelos compridos e lisos e dentro da mesma faixa etária. Uma das portas do lobby dá para um gueto de fumadores onde de momento só se avistam homens e então reparo neles. Também com idades aproximadas, em grupos ou separados apresentam-se com fatos semelhantes, os mesmos modelos de sapatos, a mesma barba aparada. É certo que a moda masculina é mais monótona, mas talvez porque todo este cenário é enquadrado por tecnologia (eles também olham obsessivamente para o telemóvel enquanto fumam), ou porque falta um toque de humanidade em tudo isto, parece que estou a vê-los através de um ecrã. 

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A missão do jornalismo

por Pedro Correia, em 16.08.17

Há dias, na primeira página de um jornal, li o seguinte título: "Dona da MEO convida mais de 50 trabalhadores a rescindir contratos".

Adoro estes doces eufemismos dos tempos modernos. Eufemismos como o dos recentes "furtos" de Tancos, pondo de lado a rude palavra "roubo", que ainda há pouco ouvíamos proferir a torto e a direito a propósito das mais diversas situações. Ou até a despropósito.

A MEO quer despedir mais de 50 trabalhadores. Tão simples como isto. E tão incómodo, compreendo. Nada que um jornal deva ocultar. Porque a missão do jornalismo é relatar a verdade, não silenciar ou camuflar factos incómodos.

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Um país futebolizado

por Pedro Correia, em 16.05.17

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Vivemos por estes dias mergulhados na futebolização do País. As pantalhas dedicam horas sem fim à conversa de taberna sobre bola transposta para os estúdios televisivos. Os partidos manipulam militantes, tratando-os como membros de claques de futebol. Os debates políticos estão cheios de metáforas associadas ao chamado desporto-rei. E a linguagem mediática imita o pior dos jargões ouvidos nos estádios, anunciando divergências ao som de clarins de guerra.

Há dois aspectos a ter em conta neste fenómeno: um é o factor de identidade tribal potenciado pelos clubes desportivos. Em regra este é um factor positivo: o ser humano necessita de mecanismos de afinidade grupal e quando faltam outros, mais tradicionais, o desporto - ou, no caso português, apenas o futebol - potencia-o como forma de preencher algum vazio deixado pelos restantes (família, igrejas, sindicatos, partidos, academias, etc.)

Outro - muito diferente e claramente negativo - é o da diabolização do antagonista. Este é um fenómeno com ramificações muito diferentes, e algumas bem recentes, influenciadas pela linguagem dicotómica das redes sociais, que tendem a ver tudo a preto e branco, numa réplica do imaginário infantil (cowboys & índios; polícias & ladrões, etc) transfigurado para a idade adulta.

 

O eco que os meios de informação tradicionais fazem do que se publica na Rede, amplificando tudo de forma acrítica e seguidista, vai produzindo cada vez mais estragos.

A crise financeira dos media conduziu nos últimos anos a drásticas alterações de âmbito editorial. A deontologia jornalística manda auscultar todas as partes com interesses atendíveis numa determinada história, obrigando também o jornalista a não eleger uma "verdade" sem pelo menos registar a soma das "verdades" em disputa. Acontece que a urgência de conseguir leitores e audiências tem levado muitos jornais e televisões a "queimar etapas" e a elevar o tom do relato noticioso, desvirtuando-o.

Os adversários tornaram-se inimigos, os desafios transformaram-se em batalhas, os saudáveis confrontos derivaram para devastadoras guerras.

 

Somar a febre do futebol à necessidade imperiosa de estancar quebras de tiragens dos jornais e fugas dos telespectadores para canais temáticos alternativos dá nisto: visões extremadas onde a emoção substitui o raciocínio, toda a moderação é considerada imprestável e o "vencedor" proclamado dos debates é invariavelmente o que berra mais que os outros.

Eis-nos mergulhados num caldo de cultura que nada augura de bom.

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Os talibãs e a tentação da carne

por Pedro Correia, em 28.03.17

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 Um touro desenhado por Picasso

 

Sinto uma aversão inata a todo o tipo de extremismos. Por mais em voga que estejam. Isto inclui o extremismo animalista, povoado de fanáticos com vocação para policiar comportamentos alheios. Não tenho a menor dúvida: hoje invadem ruedos e cercam ganadarias, exigindo a abolição imediata das touradas. Amanhã assaltarão instalações agro-pecuárias reivindicando o fim do abate de aves e gado. Depois de amanhã patrulharão restaurantes para impedir os incautos de consumir iscas ou bifanas.

As minhas últimas dúvidas dissiparam-se ao ler há dias, numa revista feminina, a exaltada proclamação de uma activista vegan contra os agricultores que se atrevem a colher leite em vacarias e ovos em capoeiras. Eis a tese marxista da luta de classes aplicada à relação entre o homem, as vacas e as galinhas. “Os animais trabalham indevidamente para servir os seres humanos”, escandalizava-se esta animalista, insurgindo-se contra o “stress e o sofrimento dos animais quando estão em fila para o sacrifício” em aviários e matadouros.

 

Se pudessem, no seu incansável proselitismo, estes devotos da rúcula e do agrião decretavam o consumo exclusivo de produtos macrobióticos. Aboliriam rodízios e encerrariam churrasqueiras. Proibiriam a extracção de mel das colmeias para não beliscar o labor das abelhas. A matança de porcos, frangos e coelhos seria rigorosamente interdita. No limite, todas estas espécies – só existentes pelo seu valor alimentício e, portanto, comercial – extinguir-se-iam, para deleite destes supostos defensores dos direitos dos animais. Antes vê-los desaparecidos de vez do que em “sofrimento potencial".

Como mandam as cartilhas, tudo isto ocorre em nome de autoproclamados princípios éticos, levando as falanges animalistas mais extremas a entrincheirar-se sem um esgar de hesitação contra os bípedes no milenar confronto entre homens e bestas. A exemplo daquela talibã “antitaurina” que nas redes sociais em Espanha desejou a morte imediata de um rapazinho doente de cancro só porque o miúdo teve a desdita de confessar que quando fosse grande queria ser toureiro.

“Devias morrer já”, assanhou-se a meiga patrulheira, acusando o menino de querer “matar herbívoros inocentes”.

 

Quem é capaz disto é capaz de tudo. Capaz inclusive de exigir a extracção compulsiva dos dentes caninos à população humana para evitar a proliferação do pecado entre quase todos nós, aqueles que continuamos a ceder à tentação da carne.

Já estivemos mais longe.

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More or less

por Pedro Correia, em 27.03.17

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A falta de cultura exibida como flor na botoeira é uma das características dominantes nestes dias em que quase tudo se nivela forçosamente por baixo. O sábio e o burro vivem irmanados à mercê de um clique digital. Razão tem o pai da Internet, Tim Berners-Lee, em mostrar-se  preocupado com a desinformação galopante, potenciada pelo seu invento.

Lembrei-me disto ao ouvir há dias num canal televisivo o jovem curador da "primeira exposição-manifesto” no novíssimo Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia de Lisboa, intitulada Utopia/Distopia. Dizia ele que este evento se destina a "celebrar os 500 anos da Utopia de Thomas "Moore" (pronunciando "Múa"). E adulterou duas vezes o apelido de sir Thomas More para que ninguém ousasse duvidar da sua falta de conhecimentos na matéria.

"Estamos mais desinformados que nunca", reconhecia amargamente Berners-Lee na sua carta publicada há dias no blogue da Fundação World Wide Web. Tem motivos de sobra para concluir isto, quando a Utopia de More é atribuída por alguém com supostas responsabilidades culturais a um tal Moore. Presumivelmente da família do ex-007. Moore, Roger Moore.

São sinais dos tempos: verdade ou mentira, rigor ou imprecisão, More or less. Tanto faz. E siga a banda.

 

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O declínio do pensamento

por Pedro Correia, em 09.02.17

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“Fui professor e garanto-lhe que os meus primeiros alunos podiam agora ser catedráticos. Saber pensar e raciocinar está em declínio.” Palavras do escritor espanhol Félix de Azúa, em recente entrevista ao jornal El Mundo. Palavras certeiras, que ilustram a erosão cultural a que vamos assistindo nos mais variados domínios. Erosão que começa no vocabulário, cada vez mais comprimido: a cada década que passa, milhares de palavras vão morrendo por falta de utilizadores. A capacidade de decifração de textos escritos há meio século, para não recuar mais no tempo, vai-se reduzindo. Vocabulário exíguo gera pensamento estreito e dicotómico, que pretende expurgar toda a complexidade e só busca respostas simplistas, potenciadas pelo maniqueísmo da chamada democracia digital, pronta a colocar o ignorante no pedestal antes reservado ao sábio.

O erudito está hoje condenado ao ostracismo pela ululante multidão de “utilizadores” das chamadas redes sociais, dispostos a substituir o pensamento racional por emoções avulsas, inflamadas com muitos likes.

 

Voltei a reflectir em tudo isto ao ver ontem uma cena de uma série televisiva, aliás excelente, rodada em Paris por alturas do Natal. Um americano encontra-se com uma francesa numa brasserie e ela pede ao empregado: “Mon ami voudrait bien un verre de vin.” Tradução, na legendagem: “O meu amigo gostaria de um vinho verde.”

O copo de vinho [verre de vin] transforma-se num inverosímil vinho verde [sem tradução, mas que à letra seria vin vert]­, por obra e graça sabe-se lá de quê, transportando a frescura das adegas de Penafiel ou Mondim de Basto para o aconchego natalício de uma brasserie parisiense.

O contexto, a circunstância, o enquadramento cultural – tudo isto importa tanto como a carpintaria da língua quando se traduz seja o que for. Mas raciocinar é uma velharia em declínio. Para quê desgastar os neurónios se não tarda muito teremos um qualquer robot multilingue a desempenhar tão cansativa função por nós?

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Director, um lugar precário

por Pedro Correia, em 05.01.17

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Há oito meses, escrevi aqui um artigo que dava nota de um facto inimaginável há poucos anos: não existe hoje cargo tão precário num órgão de informação como o de director.

Isto afecta toda a cadeira hierárquica, introduzindo um factor adicional de perturbação no funcionamento das empresas jornalísticas. Os directores - que deviam ser uma referência de estabilidade junto dos restantes profissionais - estão afinal sujeitos aos estados de alma de quem os tutela na estrutura accionista. Duram em funções quase tão pouco tempo como os treinadores de futebol: em apenas 14 jornadas do campeonato nacional da modalidade, já  nove treinadores - metade do total - foram substituídos.

As "chicotadas psicológicas" sucedem-se no jornalismo. O que contribui para o descrédito e a desvalorização social da profissão, que já foi uma das mais conceituadas em Portugal.

 

Em Abril dei nota no DELITO de uma estatística relevante: 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) tinham directores em funções havia menos de dois anos.

Desde então já se registaram várias mudanças. Bárbara Reis anunciou em Maio que deixaria a direcção do Público, ao mesmo tempo que se tornava conhecida a transferência de David Dinis da TSF para o diário da Sonae, dando por sua vez lugar na rádio a Arsénio Reis, que ali iniciou funções há quatro meses. Em Junho, André Macedo demitiu-se de director do Diário de Notícias, sendo substituído em Setembro por Paulo Baldaia. Também em Junho, João Garcia cedeu o lugar de director da revista Visão a Mafalda Anjos.

André Macedo não chegou a completar dois anos no posto cimeiro do DN: só lá esteve 22 meses, antes de se transferir para a RTP, onde é hoje director-adjunto.

João Garcia foi director da Visão durante um ano exacto.

David Dinis não permaneceu mais de quatro meses ao leme da TSF.

Bárbara Reis foi excepção: aguentou-se sete anos à frente do Público.

 

Entretanto o Diário Económico, que vegetava já só na edição digital, encerrou de vez. Passou a haver duas novas publicações - ambas na área económica, o que é um significativo sinal dos tempos: o Jornal Económico, surgido em Setembro com Vítor Norinha como director, logo promovido a director-geral da empresa proprietária, passando o seu anterior lugar a ser ocupado a partir de Dezembro por Filipe Alves, até aí director-adjunto; e desde Outubro o Eco - só com edição em linha -, sob a direcção de António Costa.

Veremos se vieram para ficar, como rezava um antigo slogan publicitário de uma marca de automóveis.

 

Balanço: de 23 títulos jornalísticos, apenas sete - menos de um terço - têm directores há mais de dois anos. E só um ultrapassou a década nestas funções - caso absolutamente excepcional.

Fica o registo destes resistentes:

Vítor Serpa (director do diário A Bola desde 1992).

Octávio Ribeiro (director do Correio da Manhã desde Março de 2007)

Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009)

José Manuel Ribeiro (director do jornal O Jogo desde Maio de 2011)

Rui Hortelão (director da revista Sábado desde Novembro de 2013)

António Magalhães (director do Record desde Setembro de 2014)

Afonso Camões (director do Jornal de Notícias desde Outubro de 2014)

 

Certamente não por acaso, três destes sete profissionais trabalham no mesmo grupo editorial - a Cofina, que se assume assim como uma aparente ilha de estabilidade no meio das convulsões que agitam o sector.

Mais curioso é o facto de entre os sete veteranos figurarem os responsáveis máximos dos três diários desportivos portugueses. Felizmente para eles, os jornais que dirigem noticiam "chicotadas psicológicas" no futebol mas parecem pouco afectados por elas.

Ao contrário de muitos outros, num tempo em que o jornalismo imita o pior do futebol.

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Começo a pensar que sou antigo

por Pedro Correia, em 27.12.16

Quando comecei a desenvolver os neurónios, toda a gente chamava cozinheiros aos cozinheiros. Com alguma lógica, convenhamos.

Depois houve quem passasse a chamar-lhes chefes. Hoje intitulam-se chefs, à francesa.

Sou um bota-de-elástico. Continuo a chamar-lhes cozinheiros.

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A (des)organização do trabalho

por Pedro Correia, em 16.12.16

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 Fotograma do filme Playtime, de Jacques Tati (1967)

 

Esta notícia de que o Governo espanhol equaciona a redução dos horários de trabalho, fixando as 18 horas como padrão do fim do dia laboral, demonstra até que ponto continuamos atrasados nestas matérias. Por cá, toda a discussão se centra nos aumentos periódicos da massa salarial, à revelia dos ganhos de produtividade, quando devíamos debater outras questões, não menos importantes. O incentivo ao teletrabalho, por exemplo. Ou a generalização dos horários flexíveis nas empresas, o que contribuiria para descongestionar o tráfego, encurtar as distâncias entre domicílios e empregos, e diminuir os níveis de poluição associados aos engarrafamentos rodoviários.

É o que já sucede em países como a Suécia, que tem vindo a adoptar com sucesso a jornada laboral de seis horas diárias, que permite uma conciliação exemplar entre o trabalho e a vida familiar, sem prejuízo da produtividade global. Pelo contrário, os especialistas acentuam que a motivação de um trabalhador é directamente proporcional à racionalização dos horários. Que o digam os executivos da Toyota, que em 2002 fixaram as seis horas diárias de trabalho na sua fábrica sueca em Gotemburgo: os lucros da empresa aumentaram 25% e ninguém equaciona um regresso ao horário anterior.

Entre nós, lamentavelmente, a revolução tecnológica continua dissociada da organização do trabalho. Trabalhamos em rede, com instrumentos sofisticados e uma rapidez de obtenção de dados inimaginável há duas décadas, mas este mundo digital do século XXI insere-se em absurdas rotinas laborais que remontam ao século XIX. Ter toda a gente concentrada nos mesmos espaços físicos em simultâneo, sujeita aos mesmos custos de contexto, é tão absurdo como o regresso às antiquadas máquinas de escrever e aos obsoletos telefones de disco.

Os pioneiros da era digital sonhavam com novas sociedades em que a redução do tempo de permanência nos postos de trabalho decorria naturalmente da rapidez das telecomunicações, ampliando a qualidade de vida. Hoje o mundo inteiro está para qualquer de nós à distância de um clique num dispositivo portátil. Com ganhos de eficiência garantidos – desde logo em tempo e dinheiro. Acontece que estas conquistas geraram por sua vez novas necessidades, numa voragem que parece não conhecer limites. Em vez da natural redução da vida laboral, que aliás em grande parte pode hoje ser desempenhada na casa de cada um, os horários reais alargam-se a níveis absurdos. Toda a gente continua a seguir os mesmos percursos casa-trabalho às mesmas horas, tornando cada vez mais caótico o fluxo do trânsito e cada vez mais generalizado o desperdício de tempo – que é, ninguém duvide, o bem mais precioso.

Gostaria de ver a nossa concertação social pelo menos tão ocupada a debater tudo isto como a discutir o aumento do salário mínimo. Se outro pretexto não existir, que sirva ao menos este: já se encontra na agenda política e empresarial espanhola. Quantos anos demorará a atravessar a fronteira?

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O DN sem Liberdade

por Pedro Correia, em 20.11.16

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Prémio Valmor 1940 deixa de ter um jornal lá dentro 

 

Este domingo é um dia muito triste na vida secular do Diário de Notícias. Mas é também um dia triste para Lisboa e para o jornalismo português. A capital perde um dos seus principais símbolos iconográficos – o primeiro edifício construído de raiz para albergar um jornal em toda a Península Ibérica deixa de ter um jornal lá dentro.

Por amarga ironia, o que a ditadura e a censura não conseguiram – retirar o DN do seu espaço histórico no topo da Avenida da Liberdade – conseguiram-no os poderes fácticos da democracia: o velho jornal onde escreveram tantas penas ilustres do nosso jornalismo e da nossa literatura, começando pela de Eça de Queirós, acaba de ser remetido para uma parcela de uma torre modernaça, próxima da Segunda Circular. Mais distante do bulício da cidade e do ruído da rua. Mais distante das pessoas concretas, de carne e osso.

Isto sucede quase sem um pestanejar de indignação da nossa “sociedade civil” numa semana em que o País andou dias e noites a discutir se dois presidentes de clubes passaram das palavras aos actos numa quase-briga de corredor num estádio de futebol. É um sinal dos tempos no declinar deste ano em que o Dicionário Oxford elegeu pós-verdade como palavra mais emblemática de 2016. Na era das “redes sociais” e da televisão interactiva, onde a suposta verdade é proclamada por quem berra mais alto, a nova palavra de algum modo assinala o dobre a finados do jornalismo.

 

Muita gente, que utiliza a resignação como flor na lapela, dirá que não havia volta a dar: são os cultores do “inevitável”, para quem todo o esforço de remar contra a maré é sempre inglório. O ar do tempo recomenda esta pose cínica: em regra, as energias são gastas a combater alvos remotos e abstractos – quanto mais longínquos melhor.

E no entanto, ao contrário do que possa por vezes imaginar-se, nem sempre foi assim. Na dobra do século, um movimento de jornalistas do próprio DN levou por diante um bem-sucedido surto de indignação que extravasou das paredes do diário para os meios políticos e culturais do País, travando a anunciada transferência do jornal para um espaço arrendado no edifício do Entreposto, em Moscavide. O Conselho de Redacção, de que fiz parte por eleição dos meus colegas, liderou esse movimento que se prolongou durante meses e foi coroado de sucesso. Graças a ele, o periódico fundado por Eduardo Coelho em 1864 manteve a sede durante mais década e meia na principal avenida de Lisboa.

Como porta-voz do Conselho de Redacção, escrevi um memorando sobre o edifício, inaugurado em 1940, galardoado nesse ano com o Prémio Valmor e que integra a lista do património arquitectónico da capital. Esse memorando chegou a centenas de personalidades de reconhecido relevo na vida pública do País.

Foram-se multiplicando as adesões a esse abaixo-assinado que contestava a transferência do DN. Não esqueço Agustina Bessa-Luís, que encabeçava a lista organizada por ordem alfabética e que do Porto nos dirigiu uma mensagem de inabalável solidariedade. Nem da calorosa mensagem que nos fez chegar José Saramago - entre vários outros escritores, de Lídia Jorge a Mário de Carvalho, de Mário Cláudio a Manuel Alegre. Nem das vibrantes palavras de Manuela de Azevedo, então (como hoje) prestigiada decana dos profissionais portugueses da comunicação social.

 

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 Painel de Almada Negreiros no piso térreo do edifício

 

Foram meses febris, a contra-relógio, antes da assinatura do contrato de arrendamento das novas instalações. Eu coordenava o processo e funcionava como porta-voz do movimento junto de outros órgãos de informação, a quem dava nota periódica das adesões. Era raro o dia em que não me chegavam novas mensagens, recolhidas por colegas como a Ana Marques Gastão, o Carlos Albino, o José Manuel Barroso, a Céu Neves, a Filomena Naves ou a saudosa Cadi Fernandes, entre vários outros. Da redacção Norte, sem a menor quebra de solidariedade apesar da distância física, chegavam palavras de apoio reunidas pelo Francisco Mangas, pela Ilídia Pinto ou pelo Fernando Madaíl.

Eu encarreguei-me sobretudo dos políticos – incluindo quatro dos cinco dirigentes partidários à época. Francisco Louçã (BE), Carlos Carvalhas (PCP) e Paulo Portas (CDS) foram dos primeiros a aderir à nossa causa. Durão Barroso, que então liderava o PSD, não quis comprometer-se de início. Mas de todos os quadrantes nos chegavam expressivas demonstrações de apoio.

Quando esgotei a lista dos políticos, passei a outros protagonistas da vida pública portuguesa, pedindo uma declaração exclusiva a cada um. O único que ma recusou foi um historiador muito mediático, já falecido, que do outro lado da linha telefónica me disse em tom agreste que as administrações dos jornais tinham “todo o direito” de transferirem as redacções para onde lhes apetecesse. Agradeci-lhe e desliguei: a pessoa em causa acabara de perder um admirador.

 

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 Postal publicitário de Stuart Carvalhais anunciando o novo edifício (1939)

 

Decepcionante foi também o comportamento de alguns colegas de redacção, felizmente muito poucos. Uns pareciam mais preocupados em reservar lugares de estacionamento no novo edifício, ignorando a nossa recolha de assinaturas, outros opinaram olimpicamente que se tratava de um esforço inútil e foram à vidinha. É sempre mais fácil apregoar camaradagem do que praticá-la.

O tempo demonstrou que não tinham a menor razão. Conseguimos pôr o assunto na agenda mediática, suscitámos uma onda crítica que foi engrossando semana após semana e forçámos a administração do DN a recuar. O ponto culminante foi o depoimento solidário de Durão Barroso, que me apressei a transmitir ao Pedro Lima, no Expresso. Nesse sábado, o semanário destacou-o em lugar cimeiro nas suas notícias da primeira página. Na segunda-feira seguinte, a administração comunicou-nos que a batalha fora ganha. E eu, que até era (e sou) amigo do secretário-geral do Entreposto, partilhei com indizível entusiasmo o sentimento de profunda satisfação que percorreu a Redacção do DN – satisfação que abrangeu os próprios directores, Mário Bettencourt Resendes e António Ribeiro Ferreira.

Foi apenas há década e meia mas parece ter acontecido há uma eternidade.

 

Desliguei-me em 2013 dos quadros do DN, mas mantenho-me profundamente ligado ao jornal, onde passei 15 anos da minha vida profissional. Não houve um só dia em que não me sentisse orgulhoso de trabalhar naquele edifício projectado pelo arquitecto Pardal Monteiro – com o seu elegante torreão, o seu vasto arquivo subterrâneo abrigado num cofre-forte, a sua emblemática porta-giratória, o seu magnífico átrio com painéis de Almada Negreiros.

A tristeza dos profissionais do Diário de Notícias é a minha tristeza. Uma tristeza ainda mais profunda e dilacerante do que a simples despedida do edifício há 76 anos implantado numa avenida chamada Liberdade: o encerramento deste capítulo na vida do diário mais antigo de Lisboa simboliza também, de algum modo, o fim do jornalismo tal como o conhecemos – enquanto alguns charlatães de turno proclamam que qualquer indivíduo pode “tornar-se jornalista” com uma aplicação móvel ao seu dispor.

Nada mais ilusório neste ano da “pós-verdade”. Como o futuro próximo se encarregará de comprovar.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 19.11.16

Intelectuais mas idiotas. De Nassim Taleb.

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Prostitutos

por Pedro Correia, em 22.10.16

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Parafraseando Gertrude Stein, um prostituto é um prostituto é um prostituto é um prostituto. Mesmo que tenha filhos a mamar da teta do erário público e sorva afectuosas cumplicidades no elenco de putativos servidores da nação.

Todos os prostitutos, como é de regra, têm os seus chulos. E vorazes clientes, enquanto a torneira não cessa de pingar.

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Até à náusea (parte 2)

por Pedro Correia, em 22.10.16

 

TVI:

GNR monta caça ao homem na região de Trás-os-Montes

 

Correio da Manhã:

Caça ao homem em Vila Real continua

 

RTP:

Caça ao homem é intensa em Aguiar da Beira

 

O Jogo:

As imagens da "caça ao homem" em Arouca

 

i:

Caça ao homem em São Pedro do Sul depois de tiroteio em Aguiar da Beira

 

Viseu Mais:

GNR faz caça ao homem em S. Pedro do Sul

 

Rádio Cruzeiro:

Caça ao homem na Serra da Arada

 

Jornal de Leiria:

Leiria está a ajudar caça ao homem

 

Jornal de Notícias:

As imagens de uma noite de caça ao homem

 

Rádio Renascença:

GNR mantém forte dispositivo na caça ao homem

 

SIC:

Coordenação da caça ao homem criticada

 

Expresso:

Coordenação da caça ao homem criticada

 

Porto Canal:

Entidades queixam-se da falta de coordenação entre polícias na caça ao homem

 

Diário de Notícias:

Falta de coordenação entre polícias na caça ao homem preocupa governo

 

Espalha Factos:

Caça ao homem leva CMTV a máximo do ano

 

TSF:

Caça ao homem continua

 

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Contra a devassa da vida alheia

por Pedro Correia, em 26.09.16

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Um dos factos mais notórios do nosso tempo é a crescente desvalorização da reserva da vida privada. A todo o momento milhões de pessoas expõem na Rede imagens e palavras oriundas do seu reduto mais íntimo, colectivizando aquilo que devia ser privado.

Conceitos como recato e pudor parecem ter deixado de fazer sentido na era digital, em nome da “transparência”, conceito controverso quando estão em causa questões sem o menor interesse público e propícias a infames manipulações por parte das multinacionais que operam as chamadas “redes sociais” e de indivíduos sem escrúpulos, prontos a fazer comércio devassando a intimidade alheia.

Um Estado totalitário, munido destas ferramentas, iria hoje muito mais longe do que foram a Alemanha hitleriana ou a Rússia estalinista no aniquilamento cívico de um número incalculável de pessoas.

 

A palavra de ordem, nos dias que correm, é pôr tudo em linha com a rapidez de um relâmpago. Escancarando encontros e desencontros, paixões e ódios, amores e desamores. Contribuindo assim para o drástico recuo do direito à preservação da esfera íntima de cada um.

Como escrevia ontem Yoani Sánchez num artigo de opinião no El País, as gerações mais jovens, sobretudo, “sentem que o tempo da privacidade chegou ao fim”. Dizer não à devassa ficou fora de moda.

“Nas redes sociais, vimo-los superar o acne, livrar-se dos aparelhos dentários, estrear barba e extensões capilares. Estão dispostos a entregar informação pessoal em troca de uma socialização mais intensa. Os filhos fazem parte desta experiência: exibem-nos na Rede, sorridentes, ingénuos, desprovidos de filtros. Dão à luz, amam, protestam e morrem frente a uma webcam. Criam relações baseadas na horizontalidade, em parte porque as redes lhes inculcaram a convicção de que interagem com os seus pares, sem hierarquias”, observa a jornalista cubana.

 

Um perfeito retrato do nosso tempo em que se esbatem fronteiras entre informação rigorosa e mexericos destinados a estimular o voyeurismo mais primário. E no entanto, por mais fora de moda que seja, impõe-se remar contra a maré. Urge lembrar que cada cidadão tem assegurada protecção constitucional à reserva da intimidade da sua vida privada, um direito humano fundamental.

É preciso sublinhar isto todas as vezes que for necessário. Sem desistir.

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A ideologia nas séries de TV

por Pedro Correia, em 14.06.16

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 CSI original (2000)

 

Os ditames da correcção política têm levado as séries televisivas norte-americanas a distanciar-se progressivamente da realidade, criando um universo paralelo que só existe na tela e nada tem a ver com o mundo real. Serve de entretenimento, claro. Mas em nenhum momento sentimos que existe ali a amálgama de sangue, suor e lágrimas correspondente à vida de todos os dias. E em poucos domínios isso se verifica tanto como nas séries policiais.

Senti isso recentemente, ao ver há meses pela primeira vez as duas temporadas iniciais (2000-02) do tão celebrado CSI: Crime Scene Investigation – o genuíno, o de Las Vegas. Uma série inovadora por focar aspectos científicos e tecnológicos relacionados com a perícia forense, aliás depois repetidos até à náusea por um enxame de imitações muito inferiores.

CSI entrelaça habilmente as vidas de vítimas, criminosos e funcionários do laboratório policial da cidade, ressaltando dessa amálgama um curioso mosaico social. O problema é vermos esse mosaico distorcido pela ideologia: os criminosos são na esmagadora maioria homens brancos, de 30 a 45 anos, pertencentes à classe média-alta ou ricos. Matam em regra por cupidez, ganância, inveja. Em mais de 40 episódios destas duas temporadas só por duas vezes vi criminosos oriundos das chamadas minorias étnicas.

Lamento, mas o mundo não é assim – um mundo enxameado de assassinos brancos e tendencialmente milionários, não muito novos nem velhos. Este padrão de criminoso socialmente correcto, mais do que os prodígios tecnológicos destinados a esboçar a identidade de um homicida a partir de um cabelo plantado num soalho, fazem de CSI um produto distorcido, embora estimável.

 

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 Um Crime, Um Castigo: a diferença francesa

 

Nada a ver por exemplo com uma excelente série policial francesa que revi em simultâneo, na RTP 2 – canal que deste modo cumpre a sua missão de serviço público ao proporcionar-nos o acesso a produções fora do âmbito da indústria norte-americana. Refiro-me a Um Crime, Um Castigo (originalmente intitulada Engrenages), realizada entre 2005 e 2014.

Ao contrário da equipa chefiada pelo biólogo Gil Grissom na noite de Las Vegas, a brigada que tem como líder a capitã Laure Berthaud lida com todo o género de criminosos: residentes e imigrantes, velhos e novos, homens e mulheres, vagabundos, prostitutas, chulos e drogados, pessoas de todas as cores, de todas as classes e todas as crenças ou descrenças. É gente que anda por aí, nas esquinas de avenidas, ruas e vielas. Gente comum, surgindo no ecrã sem o absurdo espartilho imposto por sucessivas exclusões étnicas, religiosas ou de género que abre um abismo entre a televisão e a vida real nos Estados Unidos.

Antes o panorama era diferente - algo bem demonstrado por séries como Hill Street Blues (1981-87)ainda realizadas longe das ameaças de boicotes e processos judiciais exercidas pelos influentes grupos de pressão que hoje condicionam os estúdios cinematográficos e televisivos norte-americanos, onde funcionam como comissões de censura prévia, impondo um monolítico padrão de mau – invariavelmente WASP [White, Anglo-Saxon, Protestant].

Os Sopranos (1999-2007) foi talvez a  última grande série norte-americana capaz de enfrentar com êxito estes poderosos lóbis que patrulham a escrita, realização e actuação televisiva nos Estados Unidos. Ali havia assassinos que “vinham de baixo”, falavam inglês com sotaque e matavam porque o mal é intrínseco à natureza humana, ao contrário do que apregoam os novos teólogos da ideologia socialmente correcta.

Que o digam Laure e os tenentes Gilou e Tintin: eles enfrentam marginais de carne e osso, não apenas as caricaturas de conveniência que a cartilha impõe.

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Em flagrante dislate

por Pedro Correia, em 01.06.16

Vivemos submersos em diluviões de retórica suscitada pelos mais irrelevantes temas. Ontem, ao  que me dizem, o dia nas redes sociais foi preenchido por refregas verbais em torno das declarações de um popular cantor a um canal de televisão que ninguém ouve nem ninguém vê. Rasgaram-se as vestes e flagelaram-se as carnes a propósito de uma frase polémica da pessoa em causa como se tivesse sido proferida na véspera. Acontece que eram extraídas de uma entrevista de 2010. Os responsáveis do dito canal, em concorrência directa com a RTP Memória e conscientes de que bastam duas semanas bem preenchidas com política e futebol para dissolver lembranças colectivas, decidiram ressuscitar o morto – isto é, recuperar a entrevista de há seis anos e devolver-lhe honras de antena, fomentando a ilusão de que se tratava de matéria nova.

E tudo aconteceu como se assim fosse. Alguém por engano espreitou aquilo e lembrou-se de incendiar as redes com afrontamentos de indignação. Logo as labaredas varreram essa pradaria que a todo o momento perverte o nobre adjectivo “social”, sem ninguém se interrogar sequer se havia justificação para envolver palavras velhas com erupções de fúria nova.

O resultado não tardou: muitos daqueles que em Janeiro de 2015 se apressaram a pôr a mão no peito dizendo que eram “Charlie” estiveram agora na primeira linha do apedrejamento em rede ao tal cantor, esquecendo as efémeras juras de fidelidade eterna à liberdade de expressão formuladas há menos de ano e meio também em coro afinadinho. Na linha daquele sindicalista que, confrontado há dias pela primeira vez com uma farpa análoga às saraivadas de palavras que costuma disparar contra terceiros, ergueu o dedo virginal em riste mandando anunciar que iria recorrer aos tribunais para reparar o orgulho ferido.

A este, que também andou armado em "Charlie", recomendo a leitura de um estimulante artigo de Francisco Teixeira da Mota sobre a amplitude do direito à crítica nas democracias liberais. Aos outros, que apelam ao linchamento reputacional de figuras públicas apanhadas em flagrante dislate, limito-me a sugerir que apliquem a estas questões a banalíssima regra dos iogurtes: reparar na data antes de consumir. Evitando palrar primeiro e só pensar depois.

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Nem o São Google ajuda

por Pedro Correia, em 09.05.16

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Nono episódio da terceira temporada de Mad Men, que vejo com imperdoável atraso: é uma das melhores séries televisivas de sempre. Conrad Hilton, o magnata dos hotéis cuja figura é aqui recriada num registo ficcional muito próximo da realidade, e Dan Draper - o protagonista da série - conversam madrugada adiante, ambos já bem bebidos. Às tantas o magnata pergunta: «Depois de tudo quanto atácamos o Krutchov, você sabe o que o fez cair?» E apressa-se a fornecer a resposta: "O facto de ele não ter podido ir à Disneylândia

O problema é que esta conversa travava-se em Setembro de 1963. O líder soviético só caiu mais de um ano depois, derrubado por um golpe interno no Kremlin desencadeado pelos camaradas que até ao último momento lhe garantiam apoio formal. Fica a prova de que até nas mais excelentes séries, como esta é, pode cair a nódoa. E nem o São Google ajuda quando a cultura de base não dá para mais.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 26.04.16

«Me invadió la tristeza y la angustia de asistir a la larga y dolorosa decadencia de un oficio ejercido con alma. La misma angustia de mi gente: los periodistas que han hecho grande el diario y que ahora sólo pueden - sólo podemos - pedir que se nos despida con la dignidad que merecemos.»

Lucía Méndez, "La dignidad de mi gente", no El Mundo

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À mercê da ira de um deus menor

por Pedro Correia, em 14.04.16

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Durante anos, o cargo de director de jornal funcionava como patamar supremo da profissão, a que apenas uns poucos acediam. Mas funcionava também como um patamar de estabilidade: um director tornava-se o rosto da publicação que liderava, dava-lhe o cunho da sua personalidade, imprimia-lhe o seu estilo. Desde logo porque tinha tempo e espaço para isso.

Sei bem do que falo. Trabalhei com excelentes directores, de quem guardo gratas memórias – grandes profissionais, como o Vicente Jorge Silva, o Joaquim Vieira ou o Mário Bettencourt Resendes, só para mencionar três exemplos.

Hoje, ao contrário do que sucedia nos tempos em que me iniciei no jornalismo, a função de director degradou-se de modo irremediável. Tornou-se instável e acidental. O contingente jogo de cadeiras nas direcções dos órgãos de informação acelerou num ritmo vertiginoso: são raros os profissionais que aguentam nos cargos. Muitos são apeados por gestores e administradores que, nada percebendo de jornalismo, aludem ao fracasso dos outros para ocultarem falhas próprias. Como nos ensinou Freud, "os fracassos são muitas vezes desejados pelo inconsciente".

 

Escrevo estas linhas a propósito da saída de Helena Garrido da direcção do Jornal de Negócios. Como é costume nos meios informativos actuais, em que se esconde muito mais do que se revela, quase nada se divulgou sobre as causas desta inesperada substituição, para mim injustificável. Há um comunicado lacónico em que se dá nota da mudança, anuncia-se o nome do sucessor e a orquestra continua a tocar. Como se a curiosidade jornalística embatesse nesse poderoso tabu que é o escrutínio do próprio jornalismo.

Conheço a Helena Garrido, trabalhei com ela no Diário de Notícias e enquanto leitor atento faço uma avaliação muito positiva do seu mandato como directora do Negócios. Despediu-se com um “Até sempre”, num texto sucinto e digno. É uma partida que lamento.

 

Ela dirigia o Negócios desde Novembro de 2013: manteve-se durante dois anos e quatro meses. Pode não parecer, mas aguentou acima da média actual nos cargos directivos dos media portugueses. Dos 22 directores dos órgãos de informação de carácter nacional (televisão, rádio, jornais e agência noticiosa), só cinco ocupam essas funções há mais de três anos. E metade iniciou-as desde Março de 2015, o que diz muito sobre a instabilidade do cargo. Apenas um ultrapassou a década como director: Vítor Serpa, que lidera A Bola desde 1992. Algo impensável em qualquer outro jornal.

Embora a grande distância deste caso único, é já considerável a longevidade no exercício do cargo de Octávio Ribeiro (que dirige o Correio da Manhã desde Março de 2007), Graça Franco (directora da Rádio Renascença desde Janeiro de 2009) e Bárbara Reis (que iniciou as actuais funções no Público em Novembro de 2009). Depois vieram José Manuel Ribeiro (director do diário O Jogo desde Maio de 2011) e Rui Hortelão (à frente da revista Sábado desde Novembro de 2013).

 

Os restantes 16 títulos jornalísticos (72,7% do total) têm directores há menos de dois anos.

Vou mencioná-los por ordem cronológica de entrada em cena: André Macedo (Diário de Notícias, Setembro de 2014); António Magalhães (Record, Setembro de 2014); Afonso Camões (Jornal de Notícias, Outubro de 2014); Sérgio Figueiredo (TVI, Janeiro de 2015); Paulo Dentinho (RTP, Março de 2015); João Paulo Baltazar (Antena 1, Março de 2015); João Garcia (Visão, Junho de 2015); Pedro Camacho (Lusa, Outubro de 2015); Mário Ramires (Sol e i, Dezembro de 2015); Miguel Pinheiro (Observador, Fevereiro de 2016); David Dinis (TSF, Março de 2016); Pedro Santos Guerreiro (Expresso, Março de 2016); Ricardo Costa (SIC, Março de 2016); e Raul Vaz prepara-se para ficar à frente do Negócios. Transitando do Diário Económico, que dirigia desde Abril de 2015. Entretanto o Económico, agora só na versão digital, passou a ter direcção conjunta de Filipe Alves e Mónica Silvares. Por tempo incerto.

Vários deles, imitando Sísifo, empurram a pedra montanha acima - esforço inglório de heróis precários à mercê da ira de um deus menor.

 

Leitura complementar: Homens e mulheres para queimar

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Homens e mulheres para queimar

por Pedro Correia, em 17.03.16

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 Cena do filme They Were Expendable, de John Ford (1945)

 

Fala-se muito na crise do jornalismo contemporâneo. Mas, entre os factores desta crise, é quase sempre omitido um dos principais: a gritante incompetência de muitos proprietários de órgãos de informação, que não têm cultura mediática e por vezes são totalmente destituídos de dinâmica empresarial. Usam títulos prestigiados dos media como mero veículo de promoção pessoal ou plataforma intermédia para negócios de outro tipo, ao ritmo voraz das ervas daninhas.

Por vezes são pessoas que não lêem um jornal e desprezam profundamente o universo jornalístico. Não têm sequer formação académica ou humanística que lhes forneça a convicção de que a existência de meios prestigiados de comunicação social é um requisito fundamental das democracias. E seriam incapazes de parafrasear Thomas Jefferson, que preferia a existência de jornais sem haver governo a um governo com ausência de jornais.

 

É imensa a lista dos periódicos desaparecidos no último quarto de século em Portugal. Boa parte deles foi confiada na pior altura às piores pessoas, que lhes ditaram ou apressaram o fim. O primado dos ignorantes e dos trampolineiros, rodeados de pequenas cortes de gente medíocre e totalmente divorciada da missão de serviço público que deve ser desempenhada pelos títulos jornalísticos, condenou muitos deles a uma acelerada extinção enquanto outros, já mortalmente feridos, vegetam em penosa e prolongada agonia.

Largas centenas de genuínas vocações jornalísticas foram amputadas ao longo destes anos em que assistimos ao maior êxodo de profissionais de que há memória neste ofício em contínua degradação salarial e social – aqui tão depreciado enquanto noutros quadrantes, como no Brasil, é cada vez mais valorizado.

 

O que vemos por cá? Jornalistas dispensados, afastados, saneados, emprateleirados, escorraçados. Só por terem experiência, cabelos brancos, pesarem mais na folha salarial – numa visão míope do custo/benefício. Enquanto é recrutada mão-de-obra quase escrava para as redacções – sem contratos, sem direitos, sem salários dignos. Nenhum jornalismo digno desse nome pode ser exercido, de forma continuada, em empresas onde existem editores a trabalhar 14 horas por dia, seis dias por semana, com todo o desgaste e o peso da responsabilidade que isso implica, e a levarem para casa 700 euros. Enquanto alguns dos proprietários ou administradores dessas empresas exibem obscenos sinais exteriores de opulência, indiferentes às situações de desespero humano que vão gerando em seu redor.

Conheço diversos jornalistas que comem apenas uma vez por dia para poderem pagar a renda ao fim do mês.

 

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Por estes dias, mais um título prestigiado da imprensa portuguesa – o Diário Económico – atravessa um momento gravíssimo.

Foi mal gerido, mal administrado, mal dimensionado por quem quis dar o passo maior que a perna. Sobreviveu a múltiplas crises internas que se somavam às naturais dificuldades provocadas pela reconversão tecnológica do sector e à endémica crise financeira da última década. Mas, como outros antes dele, foi duramente atingido pela incompetência de um dos William Randolph Hearst de pacotilha que pululam por aí – desses que abrem e fecham jornais como se fossem mercearias ou lojas de penhores sem nunca deixarem de pavonear-se nas festas da moda.

Há meses que no Económico os salários deixaram de ser pagos com regularidade. Muitos profissionais abandonaram entretanto o jornal. Mas vários outros permanecem lá, com a angústia que adivinho. Sentem-se como aqueles soldados do filme de Ford, They Were Expendable (Homens Para Queimar, na versão portuguesa). As dificuldades são tantas e o desrespeito da entidade patronal por eles é tão notório que cumpriram um dia de greve no passado dia 10. Sem meios, sem motivação, sem perspectivas de futuro, cada edição que vai saindo tornou-se um pequeno milagre quotidiano.

Leitor regular do jornal que sou, e amigo de alguns, é para todos que envio um forte abraço solidário. Eles, os que sofrem, são a parte boa do empreendimento. Enquanto quem os colocou nesta situação, a erva daninha, se comporta como se fosse digno de apreço público. Sem sobressaltos de consciência, sem um pingo de vergonha.

 

ADENDA: o Diário Económico publica amanhã a última edição em papel.

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Alá nada tem a ver com isto

por Pedro Correia, em 15.11.15

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Membros do grupo fundamentalista Boko Haram, responsável por milhares de mortes na Nigéria

 

Sou incapaz de diluir a responsabilidade individual dos homicidas em factores étnicos, culturais, sociais ou religiosos.

Um "crime passional" (expressão detestável) pode ser avaliado por factores externos: solidão, ciúme, depressão, desemprego, exclusão social. Podemos tentar "compreender" a vertente externa do crime. E, se formos advogados de quem cometeu esse crime, até talvez devamos invocar tudo isso como possível atenuante em tribunal.
Nada apaga, no entanto, a componente do livre-arbítrio. É o grande trunfo - e também o grande fardo - da condição humana.

Isto ficou, de resto, plasmado na jurisprudência internacional nos célebres julgamentos de Nuremberga que julgaram os responsáveis pelos crimes cometidos durante o regime totalitário hitleriano. A linha defensiva dos réus era invariável: todos tinham agido em obediência a ordens superiores, como se a responsabilidade de cada um estivesse diluída numa espécie de imperativo categórico ditado pelas forças do mal.
O tribunal rejeitou esta tese - e muito bem, condenando a generalidade dos réus a duras penas. Foi uma conquista civilizacional do direito que não deve ser revertida nestes tempos de barbárie à solta em tantos locais - de  Paris a Beirute, sem esquecer Ancara, passando pelos crimes hediondos que têm sido cometidos pelas hordas fundamentalistas do  Boko Haram na Nigéria. Nenhuma "exclusão social" ou "marginalização" de qualquer espécie justifica o comportamento daqueles que degolam, lançam a bomba ou comprimem o gatilho.

Alá nada tem a ver com isto. É tudo humano, demasiado humano, por vezes insuportavelmente humano.

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 14.11.15

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Este é o maior problema da Europa actual: a liberdade seriamente condicionada pelos seus mais encarniçados inimigos. Paris, outrora Cidade-Luz, é hoje cidade ensanguentada pelo fanatismo mais extremista.

Somos todos, a partir de agora, um pouco menos livres. E trocaremos cada vez mais parcelas de liberdade em troca de segurança. Dilema ilusório. Porque nos alicerces da nossa civilização - que o terrorismo islâmico combate sem tréguas - liberdade e segurança são conceitos indissociáveis. Um não faz sentido sem o outro.

Hoje estamos todos mais inseguros e menos livres. É um dia de júbilo para os cultores da barbárie, que não estão algures em parte incerta.

Estão aqui, no meio de nós.

Texto reeditado

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Um bom exemplo...

por Pedro Correia, em 07.09.15

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... para combater o nosso défice demográfico.

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Charlie n' est plus Charlie

por Pedro Correia, em 21.07.15

O instinto de sobrevivência sobrepõe-se ao direito à blasfémia (só contra os muçulmanos). Seis meses depois, já ninguém é Charlie. Nem sequer o Charlie Hebdo.

 

Leitura complementar: Não somos todos Charlie (texto de 9 de Janeiro)

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Stabat Mater

por Ana Vidal, em 13.07.15

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Olho esta imagem e vejo nela dois seres humanos sorridentes, cúmplices, felizes. Uma mãe orgulhosa, que parece dizer “vejam como o meu filho é o rapazinho mais bonito do mundo”, e uma criança amada, sentindo-se segura sob a asa protectora da mãe. O eterno quadro da maternidade feliz, que inspira ternura e nos resgata, como nenhum outro, dos nossos piores receios sobre a pantanosa natureza humana, sempre tão cheia de surpresas.

 

E no entanto, esta imagem apresenta-nos os protagonistas de uma das mais lancinantes notícias dos últimos dias. Uma história que não pode deixar de marcar-nos profundamente, tenhamos ou não filhos: Ji’Aire Lee, o menino de três anos que nos sorri na fotografia, morreu de hipotermia e desidratação no baloiço de um parque infantil em Maryland (EUA), após ter sido empurrado ininterruptamente durante quarenta e oito horas pela mãe, Romechia Simms. Não sabemos muito sobre as causas deste acto desesperado, a não ser que Romechia é uma sem-abrigo com aparentes problemas mentais.

 

Sabemos também que James Lee, o pai da criança, pedira recentemente a custódia judicial do filho por achar que a sua ex-mulher não tinha condições para cuidar dele, apesar de reconhecer que ela “não é uma mãe incapaz” e que nunca faria mal ao filho de forma consciente. Todos os que a conhecem têm a mesma opinião, a de que é boa pessoa e amava o filho, e a autópsia confirma a ausência de quaisquer indícios de maus-tratos.

 

Especulando, eu diria que esta mulher perdeu tudo o que a podia manter equilibrada e ligada a uma realidade considerada “normal”, atropelada pela voracidade de uma sociedade que exige sucesso a todo o preço e sacrifica implacavelmente os seus mais frágeis, os que se revelam incapazes de corresponder ao padrão. O último elo que ligava Romechia a essa normalidade era o filho, uma criança saudável e feliz que representava, muito provavelmente, o seu único sucesso. Mas a frustração de nada poder dar-lhe, aliada à notícia de que ia perdê-lo, deve ter abalado violentamente o que sobrava ainda da sua sanidade mental. Restou nela apenas o mais recôndito e ancestral dos instintos, a única coisa que podia e sabia fazer melhor do que ninguém pelo filho: embalá-lo. E foi esse gesto de ternura, automático e repetido até à exaustão, que acabou por matá-lo.

 

O terrível simbolismo desta história deveria fazer-nos pensar muito seriamente no modelo de sociedade que criámos para nós.

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Espanha em transição

por Pedro Correia, em 20.05.15

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 Dirigentes do Podemos numa manifestação que reuniu 150 mil pessoas em Madrid (Janeiro de 2015)

 

Entretidos com mil e uma futilidades que ajudam a preencher o quotidiano nacional, os nossos órgãos de informação - e, em particular, os canais televisivos especializados em notícias, cujo horizonte por estes dias quase não abarca nada mais do que o futebol - parecem totalmente desinteressados das eleições municipais e autonómicas do próximo domingo em Espanha.

Fazem mal.

Porque o veredicto das urnas deve confirmar a tendência de pulverização do sistema político do país vizinho, fragmentando-o em quatro blocos partidários (enquanto condena os comunistas à definitiva irrelevância). Confirmando aquilo que já prenunciavam as recentes eleições antecipadas na  Andaluzia - da qual ainda não resultou a formação de um executivo, pois a indigitada presidente regional, a socialista Susana Díaz, já recebeu três chumbos consecutivos no Parlamento de Sevilha e poderá ter de sujeitar-se a novo teste nas urnas a partir de Junho.

 

Nas duas principais cidades, Madrid e Barcelona, a disputa está acesa como nunca. Não sendo de excluir que as candidaturas da esquerda populista, apoiada pelo Podemos, triunfem em qualquer dos escrutínios. Segundo a sondagem de domingo do El País, o Partido Popular de Mariano Rajoy poderá perder o seu feudo madrileno, onde mantém hegemonia há 24 anos, e os nacionalistas catalães deverão recuar do primeiro para o segundo posto em Barcelona.

Tempestade política à vista, pois. Que prenunciará tendências de voto para as legislativas de Novembro num país que leva quatro décadas sem coligações ao nível do Governo central - o centro-direita e os socialistas têm-se alternado no poder com maiorias absolutas ou fortes maiorias relativas completadas com pontuais concessões parlamentares aos nacionalistas catalães ou bascos.

 

A cultura do pacto vai ter de instalar-se em Espanha, à esquerda e à direita, com a erupção eleitoral do  Podemos e dos Cidadãos, que vieram abalar fortemente as rotinas dominantes na cena política espanhola. PSOE e PP (que resultou da fusão da UCD centrista com a AP conservadora) habituaram-se durante 35 anos a ditar as regras à vez pondo todos a falar a uma só voz. Esse tempo terminou, como o escrutínio de domingo indiciará sem ambiguidades e o de Novembro confirmará de modo ainda mais evidente.

São sinais de uma tendência generalizada na Europa que só agora vai chegando à Península Ibérica. E com inevitáveis reflexos nas próximas eleições portuguesas - mais do que alguns gurus da opinião imaginam por cá, ancorados às certezas de sempre como se a realidade teimasse em permanecer imutável.

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Penso rápido (67)

por Pedro Correia, em 12.05.15

Um misto de apatia, individualismo e alheamento cívico caracteriza muito do comportamento dominante no mundo ocidental. E ajuda a explicar esta permanente sensação de crise larvar, que ultrapassa em larga escala o plano económico. É uma crise de valores, que o fundamentalismo islâmico procura colmatar à sua maneira apelando ao instinto gregário e aos códigos tribais em decomposição nas chamadas sociedades "evoluídas". Isto tem uma capacidade de sedução que ultrapassa largamente o círculo de convertidos, seduzindo novas hordas de fanáticos em potência desprovidos de valores alternativos.

Quem não perceber isto nada percebe de essencial.

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Manguito em inglês

por Pedro Correia, em 13.04.15

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António Guterres, que figurava no topo da lista dos desejados do PS para as próximas presidenciais, fez um original manguito em inglês, com uma frase soprada a um órgão de informação estrangeiro, a Euronews: «Sempre disse que não sou candidato a candidato.» [Fica a tradução, sob a minha responsabilidade, para quem não domina o idioma de William Shakespeare e Francis Underwood]

Para os pacóvios de cá ouvirem e baixarem as orelhas: eis um esclarecedor sinal dos tempos. One more for the road.

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O "rosto humano" dos homicidas

por Pedro Correia, em 31.03.15

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Nunca cessarei de me espantar com o reduzido valor da vida humana na moeda corrente do tráfego noticioso. Um indivíduo comete um crime horroroso, arrastando com premeditação para a morte centena e meia de inocentes a bordo de um avião como se fossem reses a caminho do açougue. E logo de todo o lado despontam peças amáveis, que o tratam familiarmente pelo nome próprio, atribuem o massacre de que foi responsável aos efeitos de uma arreliadora "depressão", difundem incessantemente fotografias do pacato e risonho rapaz que seria antes de se ter "descontrolado" e divulgam testemunhos abonatórios acerca da personalidade do visado, assegurando ao mundo que se tratava de uma pessoa tranquila, um rapaz "competente e sonhador".

E - cherchez la femme - jamais esquecem de mencionar, vezes sem conta, que o sujeito se viu abandonado pela namorada. Sugerindo assim ao leitor ou espectador incauto que a responsabilidade suprema do massacre não terá sido do assassino mas da rapariga que recusou prolongar o namoro. Nestes momentos surge sempre um psicólogo a referir a condição depressiva como causa do "acidente" (benigno vocábulo utilizado em profusão) e talvez nem falte até um sociólogo de pacotilha a designar o indivíduo como "vítima" de uma sociedade injusta ou do sistema capitalista, que "é por natureza repressor".

 

Já lemos e ouvimos de tudo nesta sociedade-espectáculo que cultiva a emoção em sessões contínuas mas segmentadas em capítulos sucintos e precários. Por isso a indignação de muito boa gente tem prazos de validade cada vez mais curtos e é dirigida a alvos móveis, que variam consoante a tendência do momento.

Neste caso, por exemplo, a primeira vaga de estridência nas redes sociais dirigiu-se contra a idade avançada da aeronave da Germanwings, uma companhia aérea de baixo custo integrada no grupo Lufthansa. Sem investigação, sem aprofundamento dos factos, sem nada comprovado: bastou alguém acender um rastilho para logo milhares de almas ferverem de fúria contra a companhia aérea que se permitia utilizar aparelhos tão "antigos". Na escala de valores contemporâneos, como sabemos, ser novo é sinónimo de ser bom.

 

O problema é que não se tratou de um "acidente", não foi um azar, não foi um capricho divino. Foi um homicídio premeditado pelo tal jovem sorridente e desportivo cujas imagens nos invadem o domicílio à hora dos telediários. Com o nome impresso por toda a parte, irresistível tentação para outros psicopatas que anseiam por minutos de fama à custa do sangue alheio.

Em vez uma bomba ou uma AK-47, o tal tipo amável optou antes por um Airbus 320 como instrumento do massacre. “Descontrolou-se”, repete alguém. Como já sucedera com aquele assassino norueguês, um monstro de sorriso gélido que em 2011 matou a sangue-frio 77 adolescentes num acampamento de Verão.

Também ele contou com a benevolência de psiquiatras que logo o consideraram “inimputável” – como se o mal não estivesse inscrito desde os confins dos tempos na condição humana. Também ele teve o nome e o rosto impressos por toda a parte.

Um e outro, celebridades instantâneas à escala planetária. Neste mesmo mundo em que tantos benfeitores permanecem anónimos e jamais serão procurados para notícia de telejornal.

 

Leitura complementar:

A glória póstuma do assassino

A barbárie está no meio de nós

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O veneno do medo

por Pedro Correia, em 20.02.15

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 Foto AFP

 

É, desde já, uma das imagens mais terríveis deste ano ainda no início: um homem queimado vivo dentro de uma jaula onde estava preso como se fosse um animal selvagem.

Foi outra vítima do autoproclamado Estado Islâmico, o mais sanguinário movimento terrorista contemporâneo, que recua no terreno – como sucedeu há dias, em Kobane, numa batalha ganha pelas forças curdas – mas vai progredindo nos circuitos mediáticos. Porque cada vídeo com estes homicídios difundido nas redes sociais constitui um marco na estratégia de propaganda do fundamentalismo islamita que injecta nas sociedades contemporâneas aquilo a que o poeta mexicano Octavio Paz chamava “o veneno do medo”.

Vídeo após vídeo, fotografia após fotografia, somos inoculados pelo veneno do medo ministrado pelas bestas totalitárias. Que no Iraque, na Síria, no Níger, na Nigéria, no Iémene e em tantos outros países lapidam mulheres, desmembram homossexuais, crucificam cristãos, enterram crianças vivas. Com um ódio letal que nenhuma crença religiosa autoriza, nenhuma ideologia justifica, nenhuma doutrina é capaz de explicar.

O homem, um piloto jordano, chamava-se Moaz al Kasasbeh. Foi assassinado da forma mais bárbara – “executado”, como lhe chamaram os cultores de sofismas. E morto milhares de vezes depois disso nas redes sociais que reproduziram aquela cena macabra com a tranquila frivolidade utilizada dias mais tarde para difundir imagens do aniversário de Cristiano Ronaldo. Como se o culto da morte e a festa da vida fossem a mesma coisa.

 

Publicado originalmente no jornal i

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Je suis Sun

por Pedro Correia, em 21.01.15

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Pressões feministas põem fim a uma das mais conhecidas tradições da imprensa britânica: a página 3 do tablóide The Sun, existente há 44 anos na versão "arejada"

 

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Olhares sobre o drama de Paris

por Pedro Correia, em 15.01.15

David Brooks, New York Times: «Os jornalistas do Charlie Hebdo estão a ser justamente celebrados como mártires da liberdade de expressão, mas encaremos os factos: se eles pretendessem publicar o seu jornal satírico em qualquer universidade norte-americana das últimas duas décadas o projecto não teria durado 30 segundos. As associações de estudantes tê-los-iam acusado de fomentarem o ódio. As administrações universitárias ter-lhes-iam bloqueado o financiamento e encerrado a publicação.»

 

Nick Cohen, The Observer: «Temos em vigor uma lei contra a blasfémia. Não foi aprovada por nenhum eleitor. Nenhum parlamento a votou. Nenhum juiz decide sobre a sua aplicação e nenhum júri avalia eventuais culpas dos infractores. Não há direito a recurso. E a pena é a morte. Não é cumprida por intervenção de polícias sujeitos a códigos de conduta, mas pelo temor de quem nem se atreve a pronunciar-lhe o nome. E a cobardia é tão grande que até falta a coragem para admitir que se tem medo.»

 

Javier Martínez-Torrón, El Confidencial: «Se queremos erradicar o fanatismo religioso - e é essencial que o façamos - o caminho não passa por glorificar o insulto de quem pensa de maneira diferente da nossa, mas por um jornalismo mais consciente da sua responsabilidade social e mais sensível em relação aos valores das minorias.»

 

Jonathan Turley, Washington Post: «Se os franceses querem honrar a memória dos assassinados na sede do Charlie Hebdo, podem começar por revogar as suas leis que criminalizam o insulto, a difamação, o incitamento ao ódio, à discriminação ou à violência com base em religião, raça, etnia, nacionalidade, incapacidade física ou orientação sexual. Estas leis têm sido usadas durante anos para penalizar o jornal satírico e ameaçar os seus profissionais. As opiniões em França estão a ser circunscritas ao seu uso "responsável", sugerindo-se assim que a liberdade de expressão é mais um privilégio do que um direito de quem a exerce de forma controversa.» 

 

Jean Daniel, L'Obs: «O verdadeiro debate, desde que os homens são homens, é sabermos se nos é permitido matar, se devemos responder ao crime recorrendo à vingança e se devemos esquecer aquilo que a Bíblia observa: "Se o mal responde ao mal, quando haverá fim para o mal?" Estamos aí. Hoje os franceses parecem querer, simbolicamente ou não, solidamente ou não, responder a esta imposição da Bíblia. O mal terminará quando houver suficientes homens e mulheres decididos, como aconteceu no domingo, a demonstrar através da sua pungente unidade que existem caminhos para tentar pôr-lhe fim.»
 
Ignacio Camacho, ABC: «Com estes tipos [Charb, Wolinski, Cabu], até 6 de Janeiro, qualquer pessoa razoável podia ter sérias diferenças, considerá-los excessivos, grosseiros, irreverentes, gratuitamente desrespeitosos. Mas desde 7 de Janeiro são os heróis e os mártires da nossa liberdade. Da nossa, sim, da de todos. Também, mesmo que não saibam ou não queriam saber, da liberdade dos muçulmanos que a ela se acolhem. Da de todos esses que preferem habitar numa Europa cujos valores odeiam ou rejeitam do que em qualquer dos 57 países islâmicos de onde emigraram.»

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Alá nada tem a ver com isto

por Pedro Correia, em 14.01.15

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Membros do grupo fundamentalista Boko Haram, responsável por milhares de mortes na Nigéria

 

Sou incapaz de diluir a responsabilidade individual dos homicidas em factores étnicos, culturais, sociais ou religiosos.

Um "crime passional" (expressão detestável) pode ser avaliado por factores externos: solidão, ciúme, depressão, desemprego, exclusão social. Podemos tentar "compreender" a vertente externa do crime. E, se formos advogados de quem cometeu esse crime, até talvez devamos invocar tudo isso como possível atenuante em tribunal.
Nada apaga, no entanto, a componente do livre-arbítrio. É o grande trunfo - e também o grande fardo - da condição humana.

Isto ficou, de resto, plasmado na jurisprudência internacional nos célebres julgamentos de Nuremberga que julgaram os responsáveis pelos crimes cometidos durante o regime totalitário hitleriano. A linha defensiva dos réus era invariável: todos tinham agido em obediência a ordens superiores, como se a responsabilidade de cada um estivesse diluída numa espécie de imperativo categórico ditado pelas forças do mal.
O tribunal rejeitou esta tese - e muito bem, condenando a generalidade dos réus a duras penas. Foi uma conquista civilizacional do direito que não deve ser revertida nestes tempos de barbárie à solta em tantos locais - de  Paris ao Paquistão, passando pelos crimes hediondos que por estes dias têm sido cometidos pelas hordas fundamentalistas do  Boko Haram na Nigéria. Nenhuma "exclusão social" ou "marginalização" de qualquer espécie justifica o comportamento daqueles que degolam, lançam a bomba ou comprimem o gatilho.

Alá nada tem a ver com isto. É tudo humano, demasiado humano, por vezes insuportavelmente humano.

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Mais inseguros e menos livres

por Pedro Correia, em 07.01.15

Este é o maior problema da Europa actual: a liberdade seriamente condicionada pelos seus mais encarniçados inimigos. Paris, outrora Cidade-Luz, é hoje cidade ensanguentada pelo fanatismo mais extremista.

Somos todos, a partir de agora, um pouco menos livres. E trocaremos cada vez mais parcelas de liberdade em troca de segurança. Dilema ilusório. Porque nos alicerces da nossa civilização - que o terrorismo islâmico combate sem tréguas - liberdade e segurança são conceitos indissociáveis. Um não faz sentido sem o outro.

Hoje estamos todos mais inseguros e menos livres. É um dia de júbilo para os cultores da barbárie, que não estão algures em parte incerta.

Estão aqui, no meio de nós.

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Bestas humanas

por Pedro Correia, em 04.12.14

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Não se passou entre bosquímanos ou bijagós, como alguns diriam com pseudo-superioridade etnocêntrica se tivesse ocorrido noutra latitude. Passou-se a dois passos de nossa casa, entre galegos e castelhanos. A pretexto de um jogo de futebol, o Atlético de Madrid-Deportivo da Corunha, dois grupos antagónicos de militantes radicais envolveram-se em violenta pancadaria na capital espanhola que terminou com a agressão fatal a um apoiante da equipa galega, atirado já gravemente ferido ao rio Manzanares. Acabou por morrer no hospital.

A polícia assistiu impávida a esta orgia de violência, que envolveu cerca de duzentos indivíduos. A cúpula dirigente do futebol em Espanha mandou que o jogo se realizasse, mesmo em atmosfera de luto e dor. E as redes sociais encheram-se de proclamações de ódio, a que infelizmente nos vamos habituando ao ponto da indiferença. Como se a fúria assassina não começasse precisamente nestas mensagens de quem diaboliza toda a diferença e apela aos instintos mais rasteiros para suprimi-la.

Leio com crescente repulsa a transcrição de alguns destes "tuítes do ódio", como lhes chama o El Mundo. Há um pouco de tudo - desde o sarcástico elogio ao Manzanares como um local óptimo "para nadar" até à expressão da boçal "alegria" pela morte de alguém transformado em inimigo póstumo pelo simples facto de apoiar um clube de futebol rival. Não falta mesmo quem solte este urro: "Oxalá morram mais!"

Que sociedade estamos a criar? Que valores andamos a incutir aos nossos filhos? De que Europa ainda falamos quando aludimos a padrões civilizacionais? Até onde nos conduzirá este caminho que trilhamos de absoluto desprezo por tudo aquilo que ao longo dos milénios foi distinguindo o homo sapiens da primitiva besta humana?

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Sinais dos tempos

por Pedro Correia, em 19.11.14

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas "redes sociais" funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público. Eis mais um.

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Sou espectador assíduo da quarta temporada de Segurança Nacional, uma das melhores séries televisivas de todos os tempos. Não só pela trama, não só pela meticulosa criação de atmosferas claustrofóbicas com tendência para se adensarem de temporada em temporada e de episódio em episódio, não só pelo desempenho dos principais intérpretes (começando pela extraordinária Claire Danes, invertendo com êxito o estereótipo de protagonista de comédias românticas a que esteve associada), mas sobretudo pelo impiedoso olhar que lança sobre este nosso tempo em que se vão diluindo elementares direitos, liberdade e garantias em nome do sacrossanto e cada vez mais difuso “interesse nacional”.

 

Bem-vindos ao admirável século XXI, onde o direito à privacidade se tornou miragem e o direito à intimidade não passa de um mito. Homeland (nome original desta série norte-americana iniciada em 2011 e por sua vez inspirada numa produção televisiva israelita, intitulada Hatufim) desvenda-nos um mundo onde toda a gente espia e é espiada em simultâneo, um mundo onde nada é tão relativo como as juras de fidelidade a uma pátria ou a uma bandeira, um mundo onde os direitos fundamentais foram exilados para uma espécie de terra de ninguém, um mundo onde uma conquista civilizacional tão relevante como a clássica separação de poderes teorizada por Montesquieu parece ter sido atirada para o caixote do lixo da História.

Um mundo bipolar, onde as sombras progridem e as luzes recuam. Tão bipolar como a protagonista, Carrie Mathison – alto quadro da CIA, especialista no combate ao terrorismo islâmico, sentinela em permanente vigilância contra as teias inimigas, militante da crença na maldade intrínseca do ser humano, persuadida de que todos os meios são lícitos para atingir os fins.

 

É uma série com uma perturbante capacidade de pôr em causa muitas das nossas convicções mais firmes – desde logo a convicção de que o progresso tecnológico é um aliado natural do destino humano. No mundo que Segurança Nacional nos desvenda, pelo contrário, a tecnologia desenvolve-se na razão inversa dos valores morais e dos parâmetros éticos estabelecidos ao longo de séculos de consenso civilizacional.

É um mundo sob o contínuo escrutínio de sinais de alarme, que comprime a liberdade em nome da segurança como se fossem esferas dicotómicas ou compartimentos estanques - e que assim se vai tornando cada vez menos livre mas afinal também cada vez mais inseguro.

E não adianta colocarmo-nos de fora, resguardados na mera condição de espectadores. De algum modo tudo isto também nos diz respeito. De algum modo cada um de nós também se encontra lá.

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A corda cada vez mais esticada

por Pedro Correia, em 20.10.14

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O cenário está longe de ser brilhante. A Europa em risco de enfrentar a terceira recessão desde 2008, a Grécia às portas de outra intervenção financeira externa de emergência, italianos e franceses incapazes de cumprir as metas do Tratado Orçamental que dita as condições de sobrevivência do euro, perspectivas de estagnação da economia da Alemanha (principal parceira económica de Espanha, por sua vez principal parceira económica de Portugal).

Enquanto isto acontece, PSD e CDS enfrentam-se irresponsavelmente por interpostas notícias de jornal a ver quem estica mais a corda antes de rebentar, deixando antever uma coligação em estado pré-comatoso. O assunto do momento é qual dos partidos poderá beneficiar mais com os efeitos mediáticos de umas quantas migalhas fiscais, invocadas sem sombra de pudor ao fim de quase quatro anos de sacrifícios colectivos. Isto enquanto a esquerda mais extrema persegue sem fadiga a quadratura do círculo, exigindo em simultâneo o reforço das prestações sociais e a redução de impostos.

Tudo isto se desenrola na espuma dos dias como se o monstro da dívida pública não permanecesse incontrolado. Como se a despesa do Estado não cessasse de aumentar. Como se houvesse petróleo ao largo das Berlengas. Como se jogássemos uma tranquila partida de xadrez na Bizâncio sitiada.

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Penso rápido (55)

por Pedro Correia, em 09.10.14

Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria - e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.

Nesta época em que tanto se fala em direitos humanos, alguns desses direitos vão sendo diariamente comprimidos ao que parece sem surpresa ou escândalo de quase ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, por exemplo. O narcisismo exibicionista sobrepõe-se a tudo o resto.

Como há-de o Estado - mesmo o Estado democrático, já nem falo em estados totalitários - respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente entre nós estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Mas não são.

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Penso rápido (52)

por Pedro Correia, em 25.09.14

Várias vezes, nos mais diversos paradeiros, somos submetidos a detectores de metais. As câmaras da chamada "videovigilância" estão por todo o lado. Os meios electrónicos que nos facilitam a vida funcionam também como registo permanente do nosso paradeiro -- as vias verdes nas auto-estradas, o multibanco que permite detectar onde levantámos dinheiro e a que horas e qual a quantia em causa, o telemóvel sofisticado que traz incorporado um GPS que constitui uma espécie de segunda impressão digital nossa: é impossível viver sem ele, é impossível apagar o traço da nossa passagem com ele, seja por onde for.

A sociedade aterradora delineada por George Orwell, em que a tecnologia constitui já não só um instrumento de um sistema totalitário mas o seu próprio fundamento, ultrapassou as páginas da literatura de ficção, incorporando-se no nosso quotidiano. Quando até já um Procurador-Geral da República admitiu ser alvo de escutas telefónicas ilegais, todo o cidadão tem não só o direito mas também o dever de se sentir preocupado. Em nome do combate ao terrorismo ou até à delinquência comum, estamos a fazer recuar drasticamente as fronteiras da privacidade. O mesmo é dizer: as fronteiras da liberdade individual, um valor inestimável.

A semente totalitária começa a germinar aqui.

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A luz ao fundo do túnel

por Pedro Correia, em 09.09.14

Mais de quatro milhões de portugueses já têm smartphones. Negócio valeu 123 milhões de euros só no primeiro semestre. Até final do ano ainda vão ser vendidos mais 2,5 milhões de telefones inteligentes.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 05.09.14

«A autoproclamada jihad decapitou um segundo jornalista porque a primeira decapitação foi um sucesso. Não foi um sucesso porque o homem tenha morrido: matar um homem, para a dita, é uma rotina quase entediante. Foi um sucesso porque, tal como os amadores das redes sociais, também muitos profissionais da imprensa, da rádio e da televisão de todo o mundo voltaram a noticiá-la acriticamente, com um pé no voyeurismo e outro no maniqueísmo. O jornalismo-tipo-partilha-de-Facebook, em que todos, em maior ou menor grau, vimos embarcando, não tem os dias contados: pode até acontecer que seja o único a sobreviver. Mas implica custos e, provavelmentem, só dentro de algumas décadas começaremos a ter uma ideia da sua dimensão. Uma coisa é certa: ela é maior do que aquilo que agora nos parece - mesmo aos mais pessimistas.»

Joel Neto, no Diário de Notícias

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Penso rápido (46)

por Pedro Correia, em 01.09.14

Tempo de liberdade condicionada: enchemos a boca com direitos proclamatórios mas vivemos rodeados de "correctores". Reparo agora mesmo: tenho um telemóvel que me "corrige" as palavras. Estou proibido de escrever face, uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa. O "corrector" emenda-a automaticamente para facebook. Algo que não tenho nem tenciono vir a ter. Volto à face, o aparelho volta a impor-me o face norte-americano. Não por acaso, o vocábulo já anda a ser pronunciado feice, entre nós, um pouco por todo o lado.

Liberdade condicionada: avança aos poucos, pé ante pé, e vai-nos cercando no dia a dia. Toma cautela com o que escreves. Há sempre um "corrector" para te emendar a prosa.

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A língua em constante evolução

por Pedro Correia, em 27.08.14

Ouço a todo o momento à minha volta o verbo "desamigar". Sinto-me marginalizado: até hoje ainda ninguém me "desamigou".

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