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Penso rápido (46)

por Pedro Correia, em 01.09.14

Tempo de liberdade condicionada: enchemos a boca com direitos proclamatórios mas vivemos rodeados de "correctores". Reparo agora mesmo: tenho um telemóvel que me "corrige" as palavras. Estou proibido de escrever face, uma das palavras mais bonitas da língua portuguesa. O "corrector" emenda-a automaticamente para facebook. Algo que não tenho nem tenciono vir a ter. Volto à face, o aparelho volta a impor-me o face norte-americano. Não por acaso, o vocábulo já anda a ser pronunciado feice, entre nós, um pouco por todo o lado.

Liberdade condicionada: avança aos poucos, pé ante pé, e vai-nos cercando no dia a dia. Toma cautela com o que escreves. Há sempre um "corrector" para te emendar a prosa.

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A língua em constante evolução

por Pedro Correia, em 27.08.14

Ouço a todo o momento à minha volta o verbo "desamigar". Sinto-me marginalizado: até hoje ainda ninguém me "desamigou".

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Penso rápido (43)

por Pedro Correia, em 25.08.14

"Nunca devemos confundir movimento com acção", ensinava Hemingway. Tenho-me lembrado com frequência desta frase sábia que parecia antecipar o tempo actual, em que tudo se banaliza. É um tempo de anestesia colectiva, potenciado pelo efeito reprodutivo da internet, das redes sociais, dos canais de notícias, da televisão em fluxo contínuo. Já quase nada surpreende, já quase nada escandaliza ninguém. E o mais chocante nesta permanente girândola de imagens em movimento é o facto de as "consumirmos" (palavra muito em voga) numa total falta de enquadramento hierárquico de valores, proporcionada pela diluição do jornalismo clássico que funcionava como mediador neste circuito. Hoje tudo é importante. O que equivale a dizer que nada é importante. Somos bombardeados com imagens de "famosos" a levar com frívolos baldes de água fria intercaladas com o vídeo do jornalista americano prestes a ser decapitado por um carrasco encapuzado, exibido até à náusea por todos os meios disponíveis como veículo de propaganda da face mais repugnante do islamismo radical. E depois disto voltam os baldes de água fria. Ou o bebé assassinado pelo pai. Ou a crise do BES. Ou a contratação do enésimo "reforço" para um clube de futebol. Ou outro homicida ovacionado por "populares" à entrada de um tribunal neste país de alegados brandos costumes. Ou mais um avião que cai sabe-se lá onde, derrubado sabe-se lá por quem.
Nada choca, nada impressiona, nada fica, nada se retém numa sociedade narcísica onde se dilui a noção de privacidade à medida que tudo se "partilha" no instagram e no facebook, e que elege as selfies como supremo grito da moda: virar a câmara não para o mundo ou para os outros mas para o próprio fotógrafo que transforma o foco digital em espelho. A palavra eu sobrepondo-se à palavra tu e à palavra nós.

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Num país que mata lentamente

por Pedro Correia, em 13.08.14

Emídio Rangel não foi apenas mais um jornalista: fez a diferença, sem recear a polémica, pulverizando consensos, dividindo opiniões, sabendo andar sempre à frente do seu tempo.

Criou a TSF em 1988, desengravatando a rádio, aproximando-a das pessoas, rompendo o monopólio das agendas oficiais.

Criou a SIC em 1992, pondo fim a um longo ciclo do "Portugal sentado" nos telejornais da estação única, estatal, governamentalizada.

Criou um estilo muito próprio. Com um talento que já lhe vinha de trás, dos tempos em que trabalhou na rádio pública e foi justamente galardoado com um prestigiado prémio de jornalismo.

Foi amado e odiado, mas nunca deixou de ir à luta. Perdeu algumas batalhas, mas venceu as mais decisivas. Deixando a sua impressão digital em todos os sítios por onde passou.

Morre agora, no termo de uma longa e dura doença, com a mágoa de ter passado os últimos anos longe da profissão que tanto o apaixonou. No mesmo país em que direcções editoriais medíocres se perpetuam anos a fio apesar de conduzirem títulos históricos do jornalismo português a níveis irrisórios de audiência e credibilidade. Como se os seus méritos se tivessem dissipado e o jornalismo pudesse dar-se ao luxo de dispensar o contributo de alguém com a sua experiência e o seu currículo. Como se o tivessem condenado à morte cívica antes do desaparecimento físico neste país que "mata lentamente", como Sophia sabiamente nos alertou.

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Penso rápido (38)

por Pedro Correia, em 06.08.14
Tornei-me ainda mais adepto do género epistolar desde que entrámos na era dos sms. Uma era que nos tem levado a uma rápida compressão vocabular. Fala-se cada vez mais rápido e cada vez de forma mais "económica": bastam algumas dezenas de vocábulos para assegurar a comunicação instantânea. Tudo muito básico, muito linear. Ano após ano, centenas de palavras entram definitivamente em desuso entre nós. Para combater esta tendência, nada melhor do que regressar a páginas já antigas, algumas até de livros com páginas amarelecidas pela erosão do tempo. Regressar aos romances de Eça de Queiroz, regressar ao Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Regressar aos diários de Miguel Torga, regressar à prosa diarística de Vergílio Ferreira, aos contos de José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires, aos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen, aos inflamados panfletos de Jorge de Sena. Às cartas de todos eles.

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Penso rápido (28)

por Pedro Correia, em 21.07.14

Num blogue que se diz de esquerda, perante um dos mais chocantes atentados de que guardaremos memória, alguém escreve que a culpa foi do avião civil carregado de passageiros -- não do míssil que o destruiu.

Num blogue que se diz de direita, alguém salienta que a culpa foi do corredor aéreo, pois já devia ter sido fechado.

Falta pouco para concluir que a culpa do morticínio foi das pessoas assassinadas, não dos assassinos.

É espantoso que o atentado -- tenha a origem que tiver -- não mereça uma palavra de condenação, uma palavra de lamento, uma palavra de humana comiseração pelas vítimas. Antes de qualquer considerando de ordem política. Como se, perante uma atrocidade, tivéssemos de escolher sempre um lugar numa trincheira.

É intolerável que vítimas civis e desarmadas de um conflito armado, sejam quem foram, acabem apontadas como "danos colaterais" de um conflito armado, seja ele também qual for.

Não devemos calar a nossa indignação perante o crime, venha de onde vier. Nem podemos permanecer indiferentes perante o crime, sob pena de nos transformamos em pequeninos cúmplices dos carrascos. Nem é aceitável adoptarmos a atitude cínica de Estaline, que dizia que "a morte de um indivíduo é uma tragédia e a morte de um milhão de indivíduos é uma estatística".

Importa-me, num primeiro passo, o olhar desprovido de considerandos políticos perante vítimas da violência mais primária e mais chocante e mais gratuita. Elevámo-nos felizmente acima da condição do nosso antepassado mais remoto, o homem das cavernas, graças ao enorme passo civilizacional representado por esse olhar.

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Um crime é sempre um crime

por Pedro Correia, em 18.07.14

Foto Dmitri Lovetsky/AP

 

Foi ontem cometido um bárbaro atentado no espaço aéreo da Ucrânia contra um Boeing 777 que assegurava o voo 17 da Malaysian Airlines. Com 298 pessoas a bordo.

Um acto repugnante, sem explicação cabal nem justificação possível. Cobarde e vil, sem atenuantes de qualquer espécie.

Uma violação das mais elementares regras civilizacionais que nos devia revoltar até às entranhas. Porque um crime é sempre um crime. Não há crimes de "esquerda" ou de "direita", que mereçam a nossa tolerância ou a nossa benévola "compreensão" consoante o quadrante ideológico em que nos colocarmos.

Equacionar a questão de forma neutra é já ser cúmplice dos terroristas.

Verifico entretanto que nem o disparo de um míssil contra um avião civil que voava a dez mil metros de altitude assassinando passageiros inocentes (incluindo cerca de 80 crianças, que nunca terão ouvido pronunciar a palavra política) comove certas almas. Pelo contrário: alguns dos nossos leitores, confontados perante esta carnificina, discorrem tranquilamente sobre geoestratégia, política energética e a as "culpas" do Ocidente.

Como se levitassem no reino das abstracções. Como se ontem não tivesse acontecido nada.
Isto diz muito sobre os tempos actuais. E sobre as mentalidades do nosso tempo.

 

Leitura complementar: Inquérito internacional urgente sobre a queda de Boeing, do José Milhazes.

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Penso rápido (24)

por Pedro Correia, em 14.07.14

Paradoxos do progresso: hoje em dia, um miúdo de seis anos já domina os rudimentos de um computador mas é incapaz de algumas das mais simples operações manuais - atar os cordões de um sapato, por exemplo. Muitas crianças estão totalmente à vontade perante um teclado digital, mas revelam dificuldades crescentes na escrita manual: a caligrafia vai-se deteriorando à medida que a máquina impera. Um adolescente japonês gaba-se de só ter amigos virtuais e de namorar há dois anos com uma jovem que apenas conhece via computador. E já chegou ao ponto de confessar que nem pretende conhecê-la pessoalmente para não estragar uma relação que considera "perfeita".

Ganhamos certamente muito com este predomínio da técnica sobre o homem. Mas devemos deixar que seja ela a servir-nos em vez de nos deixarmos escravizar e desumanizar por ela.

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Penso rápido (12)

por Pedro Correia, em 30.06.14

Vivemos num tempo fragmentado, que convida à dispersão. E somos vítimas crescentes dessa fragmentação. A nossa capacidade de concentração é cada vez mais escassa. Paramos a série televisiva a meio para ver não importa o quê, tornámo-nos incapazes de assistir a um filme de duas horas sem interrupções, espreitamos a todo o momento o ecrã do telemóvel em busca de novas mensagens mesmo sem esperarmos mensagem alguma, as redes sociais solicitam-nos adesões ou indignações contínuas, os dias vão-se dissolvendo em 24 horas de espuma. Este estúpido frenesim em que mergulhámos graças aos avanços tecnológicos impede-nos quase sempre de pensar. E afinal era nisto que devíamos investir muito mais do nosso tempo: pensar.

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Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 19.06.14

Del siglo XIX al siglo XXI, de Rosa Montero

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Como juntar a injúria ao drama

por Pedro Correia, em 12.06.14

 

Um novo despedimento colectivo no grupo Controlinveste. O segundo em cinco anos. Em 2009, já tinha sido o maior de sempre na imprensa portuguesa: de uma vez só, da noite para a manhã, foi apontada a porta de saída a 122 profissionais. Agora o mesmo sucede a 160 trabalhadores, num novo e ainda mais lamentável recorde. Decidido no Dia de Portugal, por amarga ironia. Em vésperas do início do Mundial de futebol, quando as atenções gerais andam dispersas pelos estádios brasileiros. E com o requinte acrescido de ocorrer quando toda a fachada do edifício-sede está engalanada com um cartaz alusivo às festas de Lisboa, como a Teresa já aqui observou.

Pior ainda: numa edição que devia trazer hoje a solenidade do luto ou pelo menos o recato que o pudor impõe, em elementar respeito pela dignidade de profissionais que no seu conjunto deram milhares de anos àquela empresa (e sei de quem falo pois conheço-os a todos), o DN surge nas bancas com um eufórico encarte, ligeiro e colorido, cheio de meninas risonhas, com a legenda "Vamos viver juntos as emoções do Mundial". Nem é publicidade paga: trata-se de um anúncio da própria empresa proprietária encimado com o histórico cabeçalho do matutino. Como se o tempo na Controlinveste fosse propício a festas. Como se ainda ali houvesse algo para celebrar.

Pior: a notícia do brutal despedimento surge com o seguinte título, na página 44 do jornal: "Controlinveste Conteúdos faz redução de 160 efe[c]tivos". Ou, como se escreve noutro periódico do grupo, "Controlinveste avança para reestruturação". Que títulos vergonhosos são estes, meus senhores? Despedir é "avançar"? Pôr na rua é "reestruturar"? Como se a palavra trabalho queimasse. Como se trabalhar fosse algo indigno. Como se um trabalhador devesse ocultar esta sua condição numa sociedade - e num continente inteiro, como bem revelam as estatísticas europeias - onde um posto de trabalho é um bem cada vez mais escasso.

Quem pretendem iludir com tão inaceitáveis eufemismos?

Nessa casa, tanto quanto sei (e trabalhei lá 14 anos), um trabalhador sempre foi um trabalhador - nunca foi um "efe[c]tivo". Nessa casa, que foi domicílio profissional de muitos dos melhores jornalistas portugueses desde o século XIX, nunca se escreveu "fazer redução"[sic] para evitar recorrer ao termo despedimento.

É duro, bem sei. É incómodo, não duvido. Mas corresponde a uma das principais regras da escrita de imprensa, que recusa a imprecisão e a ambiguidade. E evita juntar ao drama do despedimento, já de si tão chocante, a injúria de ver esta palavra banida do dicionário jornalístico quando está mais presente que nunca na vida real.

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Podemos

por Pedro Correia, em 12.06.14

 

Formada nas redes sociais no início do ano, Podemos tornou-se a quarta maior força eleitoral de Espanha nestas europeias - e a terceira mais votada em Madrid - com uma mobilização clara e eficaz contra a "casta" que domina a cena política do país há quatro décadas. Conquistou mais de 1,2 milhões de votos, correspondendo a quase 8% dos votos expressos, e elegeu cinco eurodeputados.

Houve logo analistas que se apressaram a rotulá-la, procurando reduzir ao esquematismo das fórmulas já gastas pelo uso um fenómeno como este, que é novo. E complexo. E sintomático do desencanto de uma larga fatia dos cidadãos perante a representação política tradicional.

Este escrutínio de 25 de Maio deixou bem claro: ou os partidos mudam radicalmente ou verão fugir cada vez mais eleitores em futuras eleições. Em Espanha, PP e PSOE perderam em conjunto mais de cinco milhões de votos e recuaram cerca de 30 pontos percentuais face aos resultados de 2009. Funcionou como um sinal de alarme que deve ser levado a sério.

Entretanto vale a pena espreitar um dos spots de propaganda televisiva com a marca Podemos. Para se perceber como os votos começam a ser conquistados por esta via. Com profissionalismo e competência.

E aqui não há empates: ou se ganha ou se perde. Na televisão, quem concebeu esta campanha jogou para vencer. Como bem se vê.

Publicado também aqui

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Aprenderam pouco...

por Helena Sacadura Cabral, em 27.05.14



No meu tempo de aluna de Economia passeavam-se pela Universidade uns filhos família cujo nome, pronunciado em voz alta, dizia tudo da sua origem. Vestiam e falavam de maneira especial e de um modo geral conviviam em grupo fechado, olhando os restantes colegas como representantes de uma classe social que pouco ou nada lhes dizia. Tinham-me algum respeito porque era eu que fazia as "sebentas" de algumas cadeiras, porque era a melhor aluna e porque, sem bem saberem porquê, usava um nome conhecido da História. E, de nomes, parece que percebiam. Mas não pertencíamos ao mesmo mundo. Isso era tão claro para mim quanto para eles...

Há dias quando fui tomar a bica ao local habitual, vejo parar um Maserati - lindo, confesso - e sair de lá um homem dos seus 35 anos, bastante alto, indumentária casual, cabelo claro e passada confiante. Dir-se-ia um ilustre representante da fidalguia do dinheiro.

Não me enganei. Com efeito, ao fazer a encomenda - dado o tom de voz, todos ficámos a conhece-la -, lá veio o nome. Nesse momento, ao ouvi-lo, reconheci o pai, na voz, no rosto e, claro, no apelido.

Saíu com a mesma ligeireza com que entrou. O Maserati arrancou em beleza e, por instantes, na sala reinou um silêncio incómodo, que apenas foi interrompido por um pedido meu de mais um rissol, emblemática escolha de classe social, que fazia toda a diferença com o rol que ouvíramos antes.

Enquanto comia o pastel, pensei como depois de 40 anos passados sobre o 25 de Abril, as classes dominantes usam sempre o mesmo apelido e pouco ou nada aprenderam. Ou, dito de outro modo, como pouco ou nada, os obreiros da revolução lhes ensinaram!

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Valor e preço

por Pedro Correia, em 09.05.14

 

Vale a pena reflectir sobre o valor noticioso do silêncio: na maior parte dos casos, o preço aumenta na razão inversa das declarações que justificam sonoros títulos propagados pelos tambores mediáticos. Incluindo aqueles que não hesitam em fazer do mau gosto uma permanente senha de identidade.

Monica Lewinsky rompe agora um silêncio de uma década em sóbrias confissões à Vanity Fair. Talvez a mais relevante seja a de que chegou a ser aliciada com dez milhões de dólares para ampliar de viva voz o escândalo que a ligou ao ex-presidente Clinton.

Numa época fértil em propostas irrecusáveis, a recusa em falar ao longo deste tempo tornou cada palavra sua ainda mais cobiçável pela comunicação social de todos os matizes. Mas haverá justo preço para a dignidade que apenas o silêncio voluntário permite preservar?

"Todo necio / confunde valor y precio", escreveu Antonio Machado. Tinha razão, como sempre acontece com os melhores poetas.

Texto publicado inicialmente aqui

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Desapareceu

por José Navarro de Andrade, em 31.03.14

 

A revolução coperniciana ainda só tem quatrocentos e picos anos, um tempo manifestamente insuficiente para a termos interiorizado no nosso dia-a-dia.  Depois dela, compreender a natureza passou a ser uma pura construção mental, feita de modelos matemáticos e observações que os vão reiterando. Ou seja, o senso-comum, esse bem tão precioso em certas instâncias da actividade humana, pode bem ser um obstáculo quando se quer demonstrar que ainda ninguém viu claramente visto a Terra girar à volta do Sol, e que não há nenhuma prova empírica para essa bizarra ideia, todos os dias desmentida pela nossa observação. Sucede simplesmente que o modelo continua a funcionar e por isso continuar-se-á a tomá-lo como correcto.

Repare-se que do vôo MH370 até agora não se achou nem se viu nada. Os únicos elementos que existem dele são meros sinais elétricos que foram arduamente interpretados a partir de conjecturas matemáticas. Ora aqui está um exemplo supremo do intenso combate entre a inteligência humana e a natureza; o pouco que sabemos, sabemo-lo por pura dedução e por esforçada inferência, a partir de instrumentos.

Este caso extraordinário deveria reconduzir-nos à consciência não só da nossa abissal ignorância, como tem tudo para nos fazer reflectir sobre a forma como habitualmente pensamos as coisas, sobretudo noutras áreas da nossa vida: porque temos sempre que ir a correr para explicações quando elas simplesmente não existem? Porque nos entregamos ao logro imenso da especulação a partir de esquivas e insonsas provas empíricas? Porque levamos tão a sério o jogo rectórico onde sempre triunfa aquele que fala mais alto ou mais persuasivamente?

Sim, é possível que um vulto gigantesco como um Boeing 777 desapareça da realidade sem deixar rasto. Contra isto não há opinião que valha.

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O triunfo da irrelevância

por Pedro Correia, em 06.02.14

Por estes dias as indignações propagam-se em fluxos sincopados, produzindo um inevitável efeito de banalização. São sempre de alta intensidade e de extrema volatilidade: extinguem-se com a mesma rapidez com que despontam. Exigem apenas a disponibilidade de um dedo polegar num smartphone. Seja para evitar o abate de um cão que molestou uma criança ou de um boi que escapou na rota para o matadouro. Seja sobre a co-adopção, as praxes, a deposição de famosos no panteão ou a venda de umas telas de Miró.

Estas indignações avulsas, a propósito de tudo e de nada, promovem uma cultura de mediocridade, onde as óptimas causas se equivalem às péssimas sem hierarquia aparente e a tentação dominante é sempre nivelar por baixo, a coberto do pseudo-vanguardismo das "redes sociais" onde parece ter razão quem mais se exalta no conforto do sofá.

Assistimos impávidos ao triunfo da irrelevância e da superficialidade que acaba por produzir o efeito de uma anestesia geral: na semana seguinte já ninguém se lembra da polémica da semana precedente. Much ado about nothing, como nos ensinou um profundo conhecedor da natureza humana.

 

Reproduzido aqui, onde a partir de agora passo a escrever também

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O triunfo da javardice

por Pedro Correia, em 11.01.14

Eusébio, um dos maiores jogadores de sempre do futebol português, merecia o tributo das bancadas nos instantes que antecederam o Estoril-Sporting. Infelizmente o tempo é mais propício à javardice parola e exacerbada, como ficou demonstrado por elementos das claques presentes no estádio António Coimbra da Mota ao trocarem o minuto de silêncio por estrondosas vaias e cânticos tribais.

Vítor Damas, um grande símbolo de sempre do Sporting que também já não se encontra entre nós, foi adversário leal e um bom amigo de Eusébio. Tenho a certeza de que seria o primeiro a deplorar esta inaceitável atitude de adeptos incapazes de reconhecer mérito em figuras de outros clubes e de respeitar com decoro e dignidade a memória de quem partiu.

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Sinal dos tempos

por Pedro Correia, em 08.01.14

Vejo os títulos da imprensa de hoje nos quiosques. Títulos? Não, título. A manchete é comum: "Millennium apoia as empresas portuguesas". Um título não informativo, mas publicitário. Muda apenas o grafismo, cuidadosamente adaptado a cada periódico. Por aqui se vê a extrema debilidade financeira da nossa imprensa: basta um banco -- qualquer banco -- lançar uma campanha publicitária para todos os diários generalistas lhe cederem o seu espaço mais nobre, que devia estar reservado a notícias e não a anúncios.

Acontecesse isto noutro tempo e não tardariam vozes de indignação a multiplicar-se contra este abastardamento da nobre função de informar. Mas a coisa já passa agora sem o mais leve sussurro crítico, o que é um inequívoco sinal dos tempos.

Compro um exemplar do i - o único diário generalista que ficou à margem desta campanha. É o único que tem, portanto, uma manchete noticiosa: "Portugal sem estratégia para tempestades marítimas". Aqui fica a minha singela homenagem, enquanto leitor, ao jornal que quebrou o monopólio do Millennium neste chuvoso dia do novo ano.

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Do mérito perdido em parte incerta

por Pedro Correia, em 26.12.13

 

Passo por uma loja e volto atrás. Não para ver qualquer produto exposto na vitrina pós-natalícia mas para reler um letreiro que me ficou na retina. "Estamos a executar a montra", reza o aviso. Executar? Será possível que aquele comerciante tenha instintos homicidas, como tais palavras indiciam?

Mais adiante, noutra loja, outro letreiro promete "fazer as unhas" a quem se digne passar por lá. Como se as ditas não estivessem já feitas de origem.

E nesta ronda, como tantas vezes sucede, vou sentindo uma absurda estranheza perante o meu próprio idioma, tantas vezes maltratado, abastardado, vítima de aberrações lexicais que lhe são totalmente alheias não no sentido em que um Alexandre O'Neill ou um Mário-Henrique Leiria o "desconstruiam" mas devido à mais chocante ignorância.

A palavra-chave é esta mesmo: ignorância. Vivemos numa sociedade onde continua por implantar a cultura do mérito. Só isto explica que um responsável editorial escreva sem rasto de ironia, num dos principais jornais portugueses, que fulano de tal "houve o telejornal". Ou que um editor de cultura numa publicação de difusão nacional se gabe de não frequentar há longos anos uma sala de cinema.

Seria quase divertido se não funcionasse como espelho fiel da realidade, desta chocante falta de exigência que leva tantas vezes à promoção dos menos aptos e dos menos capazes. Não admira por isso que perante tais exemplos um jovem jornalista, escrevendo sobre uma promessa da música lusa algures na diáspora, faça notar que ela "tem descendência portuguesa" quando queria dizer exactamente o contrário. Ou que outro profissional do jornalismo em início de carreira considere essencial que "o professor haja" de outra forma na sala de estar. Ou que um elemento da direcção de um jornal diário, num editorial assinado com nome próprio, escreva esta pérola: "Se não houverem sobressaltos..."

Podia multiplicar os exemplos por cem ou por mil -- exemplos que não se circunscrevem à realidade portuguesa, como se pode comprovar aqui. Para chegar sempre à mesma conclusão: é lamentável ver tanta ignorância à solta. Escandalosamente impune. Quase como se fosse culta.

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A esperança em vez do medo

por Pedro Correia, em 08.12.13

 

Estes dias que se têm seguido à morte de Nelson Mandela mostraram-se muito férteis em manifestações de pesar que enaltecem o maior estadista de que há memória no continente africano, embora muitas não o façam pelo motivo mais adequado.

Sim, Mandela foi um admirável resistente a um regime iníquo. Sim, a sua tenacidade e a sua valentia são dignas de profunda admiração. Mas o que o torna superior aos demais, o que o torna realmente diferente de tantos nacionalistas africanos que também não se vergaram e resistiram à iniquidade e à opressão, aquilo que o projectará para sempre na memória colectiva das gerações vindouras é o seu exemplo ímpar de tolerância, reconciliação e diálogo num país que todas as cassandras de turno anteviam mergulhado em sangrentos conflitos étnicos e tribais.

Ao estender a mão fraterna ao inimigo de véspera, Mandela deu a todos os seus contemporâneos disseminados pelo planeta -- tenham a cor de pele, a fé religiosa ou a ideologia que tiverem -- uma extraordinária lição de dignidade humana que transcende épocas, fronteiras ou crenças. Foi uma verdadeira "fonte de inspiração", capaz de nos revelar "aquilo de que o ser humano é capaz quando é guiado pela esperança em vez do medo", como dele disse Barack Obama.

 

Retomo uma ideia já aqui muito bem expressa pela Ana Vidal: qualquer outro, no seu lugar, professaria a Lei de Talião -- o tal "olho por olho" que, como nos ensinou Gandhi, é o meio mais eficaz para tornar o mundo cego. Ele, que tinha mais razões que ninguém para impulsionar actos de vingança, apontou com rara sabedoria um rumo alternativo -- e conseguiu pô-lo em prática, não se confinando ao plano teórico -- durante cinco anos de mandato presidencial na África do Sul em que lançou os alicerces de uma sociedade verdadeiramente multirracial, congregando brancos e negros -- aqueles que agora o choram, unidos num genuíno abraço de pesar.

Um caso único de sucesso em África, o continente de todos os fracassos.

E o seu mérito não termina aí: abdicou voluntariamente do cargo supremo do país após ter cumprido um mandato presidencial, dando assim provas de um notável desapego do poder. Outro facto raríssimo em África.

 

No simples plano da convivência cívica, ao estabelecer pontes com adversários dos mais diversos matizes, Mandela soube ser grande. E único.

É tristemente irónico vê-lo agora enaltecido por todos quantos ignoram deliberadamente o seu exemplo, pregando nas colunas de opinião e no espaço público um exacerbado radicalismo, argamassado no ódio a quem pensa de maneira diferente e no desprezo pelas posições moderadas, racionais e não-extremistas.

Um pouco por toda a parte, neste mundo de múltiplas indignações plasmadas nas redes sociais, vivemos uma espécie de guerra civil de baixa intensidade. Que vê em cada palavra de bondade um sinal de fraqueza. Que faz de cada tribuna uma trincheira de rancor. Que imagina um inimigo oculto em cada divergência. Que transforma cada opinião discordante em casus belli. Que esmaga cada tese contrária com a fúria de um combatente apostado em não recolher prisioneiros nem respeitar convenções de Genebra.

 

Dizem admirar Mandela enquanto ignoram tudo quanto de essencial Mandela nos ensinou.

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Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 27.10.13

«Os europeus vivem uma viragem de época: por outras palavras, já não podem viver como dantes. A Europa tem no estado social um dos pilares da sua identidade e do consenso social. "O Estado social não tem preço", diz-se. Mas o contrato intergeracional está ameaçado de ruptura. A resistência à reforma é a mais rápida via para o colapso. E, mesmo reduzido e racionalizado, o sistema não será sustentável sem crescimento. E não haverá crescimento sem outras reformas, cmo a do mercado de trabalho -- já efectiva nos países do Norte, mas ainda tabu nos países do Sul. O mito do "trabalho fixo para toda a vida" é uma fábrica de desemprego e um meio de segregar os jovens.»

Jorge Almeida Fernandes, Público

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Outono quente

por Pedro Correia, em 16.10.13

1. Já existe o canal Parlamento. Ainda não existe o canal Conselho de Ministros. Mas já faltou mais: as fugas de informação cirúrgicas tornam-se generalizadas e ganham a emoção de um relato de futebol. O sentido de Estado parece ter emigrado para parte incerta.

 

2. Difundir informações sem fundamento, causando um inconcebível alarme social, não penaliza só uns: penaliza todos.

 

3. Largar más notícias com abundância pelas manchetes da imprensa e pelos comentadores mais próximos enquanto se gere o silêncio: eis todo um programa de acção.

 

4. Bastam dez pessoas aos berros durante cinco minutos: as redes sociais transmutam a berraria em notícia, validada pelos chamados órgãos "de referência", muitos deles cheios de editoriais contra o "populismo". Meio século depois, nunca Marshall McLuhan esteve tão actual: o meio é a mensagem. Que, pelo efeito de banalização, logo se transforma em massagem.

 

5. Cento e cinquenta mil portugueses trabalham em Angola, nosso principal fornecedor de petróleo. Portugal é o maior parceiro comercial de Luanda. Há 8800 exportadoras portuguesas no mercado angolano, por mais que isso incomode certos aprendizes de feiticeiro. A parceria estratégica, que serve os interesses nacionais, devia ficar à margem da luta partidária. Para não desembocar nisto.

 

6. Taxa sobre produtores de electricidade, anunciada com espavento, vai repercutir-se na bolsa do consumidor. Eduardo Catroga, com notável despudor, já tinha avisado.

 

7. Bastam seis meses para a ambição partidária suplantar o espírito de serviço público? Se não é parece.

 

8. A extrema-esquerda em marcha. Abrindo caminho à extrema-direita: não acreditem que acontece só . Como alertava o PCP quando estava no Governo, em 17 de Junho de 1974, "as formas de luta devem ser cuidadosamente examinadas antes de decididas".

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Portugal e o mundo cinco anos depois

por Pedro Correia, em 12.10.13

Não sei se muita gente tem também este hábito: gosto de guardar jornais para mais tarde os confrontar com os efeitos da passagem do tempo.

Esta manhã, por coincidência, peguei num exemplar do Público datado de 12 de Outubro de 2008. Faz hoje precisamente cinco anos. E dei por mim a folheá-lo como se tivesse acabado de adquiri-lo numa banca.

A manchete situa-nos num facto concreto, no tempo e no espaço, que ainda hoje influencia -- e de que maneira -- o nosso quotidiano. Vivíamos as primeiras etapas visíveis da gravíssima crise em que permanecemos mergulhados e os políticos ensaiavam soluções de desfecho incerto. Incluindo a que surge estampada no título principal desta edição: "Europa e EUA nacionalizam bancos para sossegar bolsas".

Era um domingo, véspera de um encontro de emergência dos líderes da zona euro, a decorrer em Paris, enquanto no outro lado do Atlântico a General Motors e a Chrysler estudavam a possibilidade de uma fusão para sobreviver à pior crise do mercado automóvel em década e meia.

A ministra francesa das Finanças, uma tal de Christine Lagarde, admitia que os Estados europeus entrassem "ainda mais no capital dos bancos que se encontrem descapitalizados". Bem sabemos, à escala portuguesa, onde nos conduziu esta via, justificada para travar os cenários de colapso do sistema financeiro...

 

Não foi por falta de aviso para quem sabia interpretar os sinais dos tempos.

Na contracapa, Vasco Pulido Valente punha em causa a prioridade legislativa à agenda de costumes então muito em voga: "Na Assembleia da República, a esquerda e a direita tratam, com toda a seriedade, do casamento de homossexuais. Concordo inteiramente que a lei aprove o casamento de homossexuais. Mas, com o Ocidente à beira da falência, já para não falar de Portugal, essa não parece a prioridade do dia. (...) Talvez não fosse inútil imaginar como acabaria o País se a recessão americana (hoje inevitável) durasse, por exemplo, meia dúzia de anos; se a 'Europa' se desintegrasse ou enfraquecesse; ou se a esquerda e a direita voltassem, por força da necessidade, às nacionalizações de 1975. Compreendo que estas coisas deprimem e que, pelo contrário, o casamento de homossexuais puxa muito mais pela parlapatice."

Pulido Valente, com uma sagacidade imutável, pregava em vão. Porque Portugal parecia imune aos ventos da história. Uma investigação feita pelo jornalista Ricardo Dias Felner ao obscuro mundo das despesas do Estado feitas por ajuste directo, decorrente das alterações à lei da contratação pública, permitia concluir os mais desvairados gastos: "O gabinete de Sócrates reforçou a adega com sete mil euros em garrafas de vinho. O Ministério da Justiça comprou oito carpetes por 22 mil euros." Serviços de restauração, no âmbito de eventos camarários, equivalentes a quase 70 mil euros. Aluguer de "vários autocarros" pelo município de Gondomar: 33.250 euros. Cachê gasto pela câmara de Lagoa aos Da Weasel: 28.200 euros. Actuação de Rui Veloso a convite da autarquia de Elvas: 28.600 euros.

Especificava-se que as garrafas de vinho remetidas ao gabinete do primeiro-ministro eram da marca Quinta do Vale Meão, tinto, colheita de 2006, e destinavam-se a "oferta a entidades estrangeiras".

 

 

No estrangeiro, registava-se a morte de Joerg Haider, líder da direita nacionalista austríaca, ao volante de um veículo em excesso de velocidade. Sarah Palin, candidata à vice-presidência dos Estados Unidos por designação do republicano John McCain, enfrentava acusações de abuso de poder quando exercera funções de governadora do Alasca. O Público concedia-lhe foto a duas colunas, na primeira página. E questionava os leitores em título da página 2, dedicado à campanha eleitoral em curso nos EUA: "Abuso de poder de Palin é ferida mortal para John McCain?"

A imagem de McCain com o candidato democrata Barack Obama permite concluir que o actual inquilino da Casa Branca envelheceu bastante nestes cinco anos. McCain permanece no Senado. De Palin, estrela cadente, pouco ou nada se tem ouvido.

 

Há um anúncio de página inteira em que o Público felicita o primeiro aniversário de um jornal gratuito chamado Sexta. Vivia-se nessa época a febre dos "gratuitos", concebidos à semelhança dos folhetos de supermercado. Uma febre tão efémera quanto nefasta para o verdadeiro jornalismo.

Deste Sexta, confesso, não guardo qualquer memória. Mas a festa de aniversário deve ter sido de arromba. Embora menos dispensiosa do que a passagem de Marco Paulo, um verdadeiro artista português, pelo concelho de Lagoa, a expensas do contribuinte, pela módica quantia de 20.400 euros.

Notícias como esta, lidas à distância de cinco anos, ajudam a explicar o estado a que Portugal chegou.

 

E que mais?

Paulo Bento, na pele de técnico principal do Sporting, insurge-se contra as críticas, queixando-se da "pressão exterior", com o seguinte desabafo: "Toda a gente percebe de futebol menos o treinador". Isto enquanto o Presidente Cavaco Silva, supremo treinador do reino, evocava o "espírito" de Aljubarrota para enfrentar as "adversídades" do presente.

Cinco anos depois, há coisas que não mudam.

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De Estaline a Gordon Gekko

por Pedro Correia, em 31.08.13

 

Bem-vindos ao admirável mundo novo. O do trabalho sem direitos, o das jornadas laborais sem horários. Não me refiro às lúgubres linhas de montagem da China ou do Bangladeche, onde mulheres e crianças são atiradas, a troco de quase nada, para satisfazer as delícias consumistas das sociedades "emergentes". Refiro-me a outro género de escravatura contemporânea. À promovida pelos esclavagistas engravatados da City londrina, que utilizam jovens trabalhadores precários como peões da sua alucinada engrenagem do compra-e-vende, espécie de proletariado do nosso tempo que começa a trabalhar ainda antes de nascer o sol e continua agarrada à cadeira e ao telefone depois de o sol se pôr (porque há sempre uma Bolsa a abrir algures, noutro continente).

Um admirável mundo novo cheio de suicidas, em paragens tão diversas como Paris ou Tóquio. E com um novo mártir: um rapaz de 21 anos, oriundo da Alemanha, que trabalhou literalmente até morrer.

Chamava-se Moritz Erhardt, estava há sete semanas como estagiário da sede londrina do Bank of America Merrill Lynch, no sector da banca de investimento. Tinha como herói uma figura do cinema: Gordon Gekko, o implacável corretor interpretado por Michael Douglas em Wall Street, de Oliver Stone. O mesmo Gekko que proclamava: "A ganância é que faz mover o mundo."

 

Colegas que partilhavam a residência estudantil com o jovem alemão encontraram Moritz morto no duche, há duas semanas. Vinha de 72 horas consecutivas de trabalho, sem pausa para dormir. Num meio onde é frequente trabalhar entre 12 e 16 horas diárias, seis a sete dias por semana.

Trabalha-se em piloto automático, muito para além dos primeiros sinais de fadiga e esgotamento começarem a ser emitidos pelo corpo humano: 110 horas semanais, sem fins de semana. Para satisfação permanente da ganância de alguns.

 

O jovem alemão morreu a 15 de Agosto, dia de festas e romarias em Portugal nas quais se conjugam o sagrado e o profano. Dia que chegou a estar na lista dos feriados nacionais a abolir entre nós, por vontade dos Gordon Gekkos lusitanos, pífios aprendizes de Estaline - sem bigode e com camisas Hermès em vez da samarra comunista.

O ditador soviético promovia a "heróis do socialismo" aqueles operários que mais horas consagrassem à patriótica tarefa de produzir em doses brutais. O maior de todos eles foi Andrei Stakhanov, um mineiro que, no dia 31 de Agosto de 1935, terá conseguido extrair 102 toneladas de carvão em cinco horas e 45 minutos.

No amplo formigueiro estalinista, Stakhanov foi apontado como exemplo a seguir: recebeu um caloroso abraço de Estaline, passou a ostentar a Ordem de Lenine, ascendeu a deputado no Soviete Supremo da URSS, teve honras de capa na capitalista Time e deu até origem a novas palavras: stakhanovismo e stakhanovista.

Milhões de soviéticos procuraram seguir este padrão, para louvor e glória da "pátria dos trabalhadores", conduzida pelo grande ditador.

Moritz Erhardt não teve tempo para receber o abraço de ninguém. Infeliz Stakhanov dos nossos tempos, escravo de gravata, sucumbiu em Londres, à hora em que abria a Bolsa de Tóquio, deixando tanta acção por vender e por comprar. "Money never sleeps", como Gordon Gekko ensinou aos seus contemporâneos.

 

Imagens, de cima para baixo: Moritz Erhardt (foto The Times); Michael Douglas, protagonista de Wall Street (1987); Andrei Stakhanov num selo soviético

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Coisas verdadeiramente importantes

por Pedro Correia, em 02.08.13

Cão que matou bebé passa a chamar-se Mandela por ser um "símbolo da liberdade".

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Num ecrã perto de si

por José Gomes André, em 28.07.13

A televisão é um espantoso agente de estupidificação de massas. 2500 anos de civilização depois, há pessoas que se voluntariam para cantar enquanto pisam descalças tripas de peixe e larvas. Com câmaras a gravar, público a assistir e espectadores atentos nas suas casas. Deve ser isto a definição de "decadência".

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Tempo de incertezas

por Pedro Correia, em 05.07.13

 

Alguns nostálgicos do Egipto de Mubarak garantem em blogues que os problemas actuais naquele país se devem à deposição do ditador, em Fevereiro de 2011. É tão absurdo afirmar isto como sustentar que o PREC foi consequência da cadeira mal armada onde Salazar se sentou numa manhã de Agosto de 1968, no forte de Santo António. Não explica nada, não justifica nada, não projecta a menor luz sobre o problema, mas alivia algumas consciências que sentem a irresistível tentação de prever sempre o pior para depois poderem proclamar que tinham razão. Seria mais fácil seguirem a velha fórmula de Vasco Pulido Valente: "O mundo está perigoso." De alguma forma acertavam sempre.

Estas Cassandras sentem a nostalgia de um mundo arrumadinho e cheio de etiquetas, onde era fácil traçar diagnósticos e fazer previsões. Um mundo sem redes sociais, sem internet, sem globalização, sem a "voz da rua" a propagar-se de continente em continente. Um mundo de fronteiras esbatidas, onde o indignado de Teerão pode ser cúmplice do indignado de São Paulo, a multidão tronitruante em Alexandria provoca ecos em Barcelona e os protestos em Istambul se escutam em tempo real em todas as latitudes.

A única certeza que temos é a de vivermos num tempo de incertezas. Gostaria de vaticinar que destes anos tumultuosos que vamos testemunhando sairá um mundo mais livre. A isso me induz a comparação entre 2013 e 1913: o ser humano aumentou em décadas a esperança de vida, foram debeladas doenças epidémicas, a maioria dos habitantes do planeta vive hoje em países democráticos, as generalizadas sombras da guerra deram lugar a inúmeras peregrinações pela paz.

Mas sei bem que a história é feita de linhas sinuosas, não de rectas. Os amanhãs não cantam - talvez até chorem. Devemos estar sempre preparados para o pior.

Depois não digam que não avisei.

 

Imagem: multidão em protesto na praça Tahrir, no Cairo (Foto Reuters, 29 de Junho)

 

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Como se os algozes fossem vítimas

por Pedro Correia, em 28.06.13

Um homem mata a mulher, de quem estava separado, e uma amiga dela, suicidando-se a seguir. Escassas semanas depois, a tragédia repete-se - com outro assassino e outras vítimas.

Aconteceu recentemente em Portugal.

Como já previa, não tardaram os depoimentos televisivos a desresponsabilizar os actos criminosos. Há sempre teses socialmente correctas para justificar os actos mais repugnantes.

Um canal generalista abordou o assunto, com a seguinte legenda em letras maiúsculas: "Crise e problemas financeiros explicam depressão social". Enquanto a voz da jornalista procurava configurar a situação desta forma: "Um futuro sem esperança para um presente em crise".

Os crimes concretos, com vítimas concretas, diluem-se nesta amálgama de frases destinadas a "explicar" a inadmissível violência homicida por factores sociais e até políticos. E nestas ocasiões nunca faltam psiquiatras a conferir um atestado de respeitável validade à tese implícita de que o gatilho é premido pela "sociedade" e não pelos assassinos.

"Numa sociedade deprimida há uma grande falta de esperança, as pessoas não têm perspectiva de futuro. Esta desesperança pode levar algumas pessoas a atentar contra si e contra outros", explicava um psi.

"As situações de crise, com desemprego e endividamento, são fundamentais na saúde mental dos portugueses", justificava outro.

A voz da jornalista insistia: "O consumo de antidepressivos aumentou, os casos de depressão também."

Pasmo com tudo isto - incluindo a sugestão de relação directa entre o consumo de antidepressivos e a morte de mulheres às mãos de maridos e companheiros. Pasmo com a pseudo-modernidade a pretender "contextualizar" os mais bárbaros atavismos com palavras de compreensiva condescendência. Pasmo com este cíclico jogo de passa-culpas dotado de um pretenso aval científico.

Como se os algozes fossem vítimas e estas, para merecerem um mínimo de respeito público, tivessem de ser assassinadas segunda vez.

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Mudam-se os tempos

por Ana Vidal, em 21.06.13


É emocionante ver como as questões ideológicas, pelas quais tanto se matou desde sempre em todo o mundo, estão a ficar ultrapassadas e afastadas do essencial das lutas dos homens. Seja em regimes de esquerda ou de direita, por todo o lado os povos saem à rua em protesto contra aquilo que é transversal a todos esses regimes: a falta de liberdade de expressão, as injustiças e desigualdades sociais, a corrupção, os abusos de poder, a degradação das condições de vida, a negação do direito a um futuro melhor para os filhos. Chamem-me utópica, mas parece-me um sinal claro de que a humanidade está a evoluir, a conquistar a sua maturidade. A exigir que seja respeitada a sua impressão digital e a fazê-lo com voz própria, sem intermediários. E fico feliz por viver numa época em que este passo é visível.

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De cara descoberta e em pé

por Pedro Correia, em 20.06.13

 

É, desde já, uma das imagens icónicas do ano: um jovem de camisa clara e calças escuras, mãos nos bolsos e olhar fixo num retrato descomunal de Atatürk, o fundador da Turquia moderna. Em silêncio num mundo cada vez mais dominado pela vozearia. Em pé, contrastando com as legiões contemporâneas de cidadãos acomodados. Uma espécie de estátua viva à desobediência civil através do mais inesperado dos gestos: o que contesta a força bruta sem exaltação nem agressividade.

Como se lhe bastasse a força da razão. E basta.

 

Esteve assim na segunda-feira durante oito horas este homem, chamado Erdem Gündüz e coreógrafo de profissão. Na praça Taksim, epicentro de todos os protestos na maior cidade turca.

Uma original forma de luta logo copiada por centenas de turcos - em Istambul, Ancara, Antália e outras cidades. Um exemplo de dignidade, carregado de simbolismo.

 

A imagem substitui todas as palavras neste admirável símbolo de resistência cívica, digno de um Gandhi ou um Luther King.

De cara descoberta e em pé, num orgulhoso desafio às forças da desordem. Outros ocultam-se e rastejam: quem tem força moral não.

 

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Como se o tempo ficasse suspenso

por Pedro Correia, em 04.05.13

Um pisa-papéis, um mata-borrão, um selo de correio: três inesperados objectos defronte de mim. Todos, na minha infância, tinham uso quotidiano. Tal como o tinteiro para caneta de aparo ou a lousa onde se escrevia a giz. Passaram uns anos - mas parece ter decorrido uma eternidade. Estes objectos tornaram-se peças de museu e vários deles são hoje quase incompreensíveis para uma geração viciada em gadgets electrónicos, que nunca brincou ao pião ou não faz a menor ideia para que serve um dedal.

Tempos agitados, vertiginosos, de uma volatilidade estonteante. Os objectos mais familiares no quotidiano dos nossos avós pareciam vir desde os alvores da Humanidade, davam um toque de permanência num mundo que só era verdadeiramente sobressaltado por factores exógenos - uma guerra, um ano de más colheitas no campo, uma epidemia. Nada a ver com o frenesim actual, em que tudo é novidade - e em que o próprio conceito de novidade se vai alterando e adulterando em função da espuma dos dias. Os objectos que nos preenchem o quotidiano - como muitas palavras que usamos, como os nossos próprios laços afectivos - têm uma vida cada vez mais breve, um fôlego cada vez mais curto, um prazo de validade cada vez mais exíguo.

Pegue-se num livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço na era da incessante troca de mensagens telefónicas, onde o domínio vocabular é cada vez mais escasso e a abreviatura predomina? Consequência disso, o pensamento comprime-se, torna-se esquemático e utilitário, perde elasticidade e subtileza, passa a satisfazer apenas impulsos imediatos. Toda a elaboração teórica sedimentada por séculos de cultura no mundo ocidental se torna virtualmente incompreensível nestes dias em que o significado se subordina ao mais elementar significante.

 

                             

 

Felizmente o sol ainda não é sintético e high tech. Este sol que entra no escritório pela frincha da janela é o mesmo que os nossos mais remotos antepassados contemplaram com espanto virginal à medida que se sucediam as estações e em relação ao qual vários povos acenderam altares votivos.

Com este sol oblíquo que me ilumina pego num corta-papéis - outro objecto que ficou sem uso - e vou abrindo lentamente dois livros que há muito tinha adormecidos na biblioteca: Sobre as Falésias de Mármore, de Ernst Jünger, e O Escravo, de Isaac Bashevis Singer. As páginas desfolham-se com um vagar antigo enquanto regresso às tardes da minha infância noutro escritório, o do meu pai, enquanto executava exactamente a mesma operação a vários livros por inaugurar que ia encontrando nas estantes. Foi uma das primeiras tarefas graves e sérias, dignas de um adulto, que me lembro de executar no meu universo infantil. Uma tarefa que me ajudou a mergulhar, quase por acaso, no mundo dos livros.

Regresso a ela com o vagar de então, ocasionalmente revivido. Como se o tempo ficasse suspenso e os rumores do mundo mais não fossem do que um eco distante, dissolvido no ar do outro lado da porta.

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A demissão cívica dos intelectuais

por Pedro Correia, em 01.04.13

 

A morte de José Saramago é também a morte simbólica do intelectual que se indigna. Com o desaparecimento do autor de Levantado do Chão, encerra-se uma era caracterizada pela intensa participação de escritores e artistas na vida pública dos seus países e até na cena política internacional. A separação entre arte e vida não existiu para a maioria dos intelectuais do século XX: uma era o prolongamento natural da outra. Intelectuais como Zola (que, com o seu "J' Accuse", ainda no século XIX, influenciou as gerações que lhe sucederam), Gramsci, Bertrand Russell, Gide, Céline, Pound, Dos Passos, Malaparte, Malraux, Hemingway, Orwell, Sartre, Aron, Koestler, Camus e Simone Weil. À esquerda e à direita.

É certo que muitos desses intelectuais acabaram por apoiar alguns dos regimes mais despóticos da sua época, caucionando-os com a sua pretensa autoridade moral. Mas o reverso desta medalha, igualmente negativo, é a apatia dos intelectuais de hoje, que se comprazem a mirar o próprio umbigo e fogem cuidadosamente de tudo quanto cheire a controvérsia.

Pensemos à escala portuguesa: alguém se recorda de alguma atitude indignada de um intelectual, nos últimos anos, contra a corrupção galopante, a justiça descredibilizada, a economia inviável, as assimetrias sociais, o drama imparável do desemprego, as mentiras dos políticos? Calando-se agora a voz de Saramago, que nunca evitou as polémicas, sobra um silêncio conformista e resignado. Cada qual só se preocupa com a sua "obra", com as suas "vendas", com a sua vidinha, abdicando da intervenção cívica. A própria reforma ortográfica passou perante um generalizado encolher de ombros e quase sem um sussurro crítico dos "intelectuais", com a excepção honrosa de Vasco Graça Moura. Muito ao contrário do que sucedeu no final da década de 80, quando pela primeira vez a Academia de Ciências de Lisboa procurou impingir aos portugueses um "acordo ortográfico" que equivalia a uma rendição incondicional à norma brasileira.

É um sinal dos tempos. Nesta era de feroz individualismo, o intelectual regressa à torre de marfim. Ou imita aqueles distraídos xadrezistas de Bizâncio, de olhos concentrados no tabuleiro enquanto a cidade ardia. Compreende-se: é mais cómodo ser assim. Depois da intervenção cívica, a demissão cívica. E, no entanto, a Terra move-se.

 

Na sequência desta reflexão de Maria do Rosário Pedreira, reedito o texto originalmente publicado no DELITO DE OPINIÃO a 7 de Julho de 2010

 

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Túmulos caiados

por Pedro Correia, em 19.02.13

Existe algo obsceno nesta litigação milionária, no exacto momento em que vivemos. Ao ponto de afrontar a consciência de um cristão que um banqueiro alegadamente católico continue a proclamar-se discípulo espiritual do Nazareno. Daquele que sempre enalteceu a caridade e sempre combateu a cupidez. Daquele que expulsou os vendilhões ao vê-los profanar o templo. Daquele que condenou sem rodeios a hipocrisia dos fariseus, "túmulos caiados", capazes de atribuir mais importância ao ouro do que ao altar.

 

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Mundo Cão

por Pedro Correia, em 18.02.13

 

A África do Sul - e o mundo - em estado de choque: Oscar Pistorius, campeão dos campeões nas pistas olímpicas, primeiro atleta deficiente a competir de igual para igual com os restantes apesar de ter próteses no lugar dos pés, não seria o deus que milhões supunham mas apenas um homem. E dos piores, pois é acusado de ter assassinado a noiva com quatro tiros.

O drama amplia-se nos media porque a morta, Reeva Steenkamp, era também uma figura popularíssima: advogada e modelo, rica, linda, transbordando energia, vitalidade e virtudes.

 

Pareciam o par ideal. Mas tudo leva a crer que não eram: há uma enorme diferença entre a vida real e a vida pintada nas publicações cor de rosa - e hoje, na era das "plataformas multimédia", quase todas as publicações acabam por ter esta cor.

Oscar, ídolo caído em desgraça, alega ter confundido o barulho feito pela noiva na luxuosa mansão onde vivia, às três da manhã, com um assaltante (na zona de Pretória, como na África do Sul em geral, os assaltos violentos fazem parte do quotidiano) e revela ter disparado "por instinto".

Muito poucos acreditam nesta versão. 

 

Os mesmos órgãos de informação que dantes endeusavam o mediático par, ofertando-lhes capas cheias de glamour, dissecam agora os minuciosos detalhes deste crime, ainda por cima cometido no Dia dos Namorados.

As redes sociais são, nesta matéria, um maná inesgotável. Graças a elas, e à curiosidade insaciável de uma imprensa que tudo ultrapassa em matéria de sensacionalismo, já tomámos conhecimento do último tuíte escrito pela malograda Reeva, que tinha apenas 29 anos e uma infinidade de sonhos pela frente agora afogados em sangue. Examinam-se todas as mensagens que o assassino deixou na Rede, onde todos quantos a frequentam ficam capturados para sempre. A Nike suspendeu uma campanha publicitária - de "óbvio mau gosto", conclui-se só agora - em que Oscar aparecia sob a legenda "sou a bala na câmara".

 

Refazem-se mitos à pressa - com a mesma pressa com que foram designados, entre torrentes de elogio mediaticamente correctos. Os supostos deuses da véspera tornam-se demónios do dia seguinte, sempre com uma rapidez vertiginosa - tudo tão rápido como a espectacular passada de Oscar Pistorius nos 400m, em Agosto último, no estádio olímpico de Londres. E como o espectáculo tem de continuar, suceda o que suceder, a estação sul-africana SABC1 decidiu manter no ar a quinta temporada de Island of Treasure, equivalente local d' Os Sobreviventes, com a falecida Reeva no elenco. A produção parece ter considerado a sua morte um "dano colateral" que afinal contribuirá para atrair ainda mais audiência para o reality show, rodado em 2012 na Jamaica.

 

Eis o Mundo Cão em todo o seu esplendor.

Por maior que seja o glamour momentâneo, estamos sempre mais perto do homem-lobo iniciático do que imaginamos. Cinco milénios de cultura são mero verniz, incapaz de mudar o essencial da natureza humana.

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Homens e bichos

por Pedro Correia, em 11.01.13

 

Acho um absurdo ver mais pessoas a mobilizar-se por um animal do que por um ser humano. Desde a difusão mundial dos filmes produzidos por Walt Disney com as suas personagens antropomorfizadas, criou-se a convicção que os animaizinhos, coitadinhos, são iguaizinhos a nós. Rejeita-se a natureza em função da dimensão "cultural" dos bichos, fecha-se os olhos a essa evidência que é o instinto primário, faz-se de conta que nunca foi sequer inventada a palavra feroz - algo que soa a um inaceitável primitivismo.

Alarga-se o conceito rousseauniano do "bom selvagem" aos animais, que imaginamos imunes à contaminação do mal. E desembocamos nisto: 30 mil almas sensíveis em defesa de um enternecedor ão-ão que se limitou a "atacar" um bebé de ano e meio (o verbo "atacar" funciona aqui como eufemismo para iludir os factos) e ao qual deve ser concedida uma "segunda oportunidade" (tese quase obscena neste caso, pois cão que mata uma vez pode matar duas ou três).
Eis a doutrina Padre Américo em versão animal, com uns pós de Brecht: não há cachorros maus. A culpa não é do rio, mas das margens que o comprimem. Aliás, se o conceito de "reabilitação social" vigora para os seres humanos, porque não haveremos de lhe atribuir uma interpretação extensiva, colando-o às feras?

A propósito desta história com um final tão infeliz, interrogo-me: se o pitbull de Beja fosse poupado ao abate por um inesperado indulto, que espécie de futuro dono poderia dar guarida, sem o menor sobressalto de consciência, a um cão que levou uma criança à morte?
Apetece dizer-lhes que se vão catar. Não às bestas, mas aos bípedes.

 

Alterei o texto inicial, no penúltimo parágrafo, e actualizei o número dos peticionários

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Parar para ler, parar para pensar

por Pedro Correia, em 02.01.13

 

Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura - do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.

A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos "virtuais" que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim - mesmo numa sala de cinema - sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.

E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias - tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.

De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.

E não abdiquemos também do direito de pensar - arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. "O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas", escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.

Tentemos que o nosso 2013 não seja assim. 

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Portugal à venda.

por Luís Menezes Leitão, em 21.12.12

 

Se há algo que achava impensável assistir neste país era a que nuestros hermanos do país vizinho dissessem que o nosso Governo está a vender Portugal. Mas para piorar tudo isto, essa venda está a ser feita a pataco, por tuta e meia, com o Conselho de Ministros a pedir dinheiro ao potencial comprador logo na sua própria reunião. Neste momento, empresas públicas portugueses de longa tradição, como a TAP e a ANA, vendem-se como se fossem produtos da feira do relógio. Será possível termos descido tão baixo?

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Há palavras que podem matar

por Pedro Correia, em 08.12.12

A brincadeira - inicialmente muito celebrada nas redes sociais - de dois animadores de uma rádio australiana conduziu ao suicídio de uma enfermeira do Hospital Rei Eduardo VII, em Londres, onde esteve internada a duquesa de Cambridge, que se encontra grávida. Este caso, tão dramático, sublinha uma evidência demasiadas vezes esquecida: a da responsabilidade social de todos os comunicadores, sejam jornalistas ou não. Porque "comunicadores", nesta era dos internautas, somos todos nós. E há palavras, gestos e atitudes que podem matar.

Os autores do 'furo' radiofónico, efémeros heróis à escala planetária, já estão a ser transformados em vilões pela mesma máquina implacável de produção de celebridades instantâneas. Ovacionados ontem, apedrejados hoje. Pelos mesmos que não tardarão em vitoriar outros efémeros ídolos ao virar da primeira esquina, repetindo-se o ciclo de rápida subida aos céus seguido de uma vertiginosa descida ao inferno. Com o mecanismo de sempre: muita exaltação irreprimível e muita indignação efervescente nas redes sociais.

Quase toda esta gente que dispara frases como se fossem tiros ignora que a palavra pode ser a mais cruel das armas. Como ainda agora voltou a confirmar-se.

 

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Nem tudo está perdido

por Rui Rocha, em 26.11.12

Os últimos dias trouxeram várias notícias que abalaram profundamente uma certa organização do mundo em que nos habituámos a viver. Vejamos alguns exemplos, sem qualquer pretensão de fazer uma enumeração exaustiva: o MacGyver está gordo como um texugo, o JR do Dallas morreu, Portugal não participará no Festival da Canção de 2013, escasseiam as informações sobre os Jogos Sem Fronteiras, Alberto João Jardim anunciou a intenção de abandonar a política activa e o burro e a vaca (ou o boi ou lá o que é) foram expulsos do presépio. Será isto um sinal de aproximação do fim do noso tempo? Devemos então admitir que estamos a ficar velhos e ultrapassados pelos acontecimentos? Tenderia a responder que sim, não fosse dar-se o caso de, contrariando todo o pessimismo, o Tony e o Manuel José terem sido considerados aptos para voltar aos relvados

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Daisy Rebeautiful Chick

por Rui Rocha, em 24.11.12

Tive de fazer um downsizing do meu lifestyle.

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Aprender com Vargas Llosa

por Pedro Correia, em 18.11.12

«Agora, graças à grande revolução audiovisual e cibernética, a privacidade deixou de existir, e em qualquer caso ninguém a respeita: transgredi-la é um desporto praticado diariamente pelos órgãos de informação perante um público que assim o exige com avidez. Desde que rebentou este escândalo [o da suposta infidelidade do general David Petraeus, director da CIA], as televisões, as rádios e os jornais - já para não falar das redes sociais - exploram o acontecimento de forma incessante e frenética, até à náusea. Esta é a civilização do espectáculo dura e crua, vomitando insídia em abundância mas também, há que reconhecer, submetendo o sistema a uma autocrítica impiedosa, implacável, mostrando as fragilidades que se ocultam por detrás do aparato do poder, e como as misérias e as debilidades humanas encontram sempre forma de entranhar-se nos redutos que mais parecem defendidos contra elas.»

Mario Vargas Llosa, hoje, no El País

(tradução minha)

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Um presidente chamado Jimmy

por Pedro Correia, em 27.10.12

 

Estas coisas andam sempre ligadas. Talvez o início do fim do prestígio norte-americano no planeta tenha uma data exacta: 20 de Janeiro de 1977. Precisamente o dia em que tomou posse Jimmy Carter como 39º inquilino da Casa Branca (ou 38º, na versão do presidente Harry Truman, que nunca entendeu por que motivo um dos seus antecessores, Glover Cleveland, foi contabilizado a dobrar, por dois mandatos diferentes).

Jimmy quê? – perguntou muita gente, sem perceber muito bem como um antigo cultivador de amendoins da Geórgia chegava ao mais poderoso cargo político do globo terrestre. O problema era precisamente esse: ninguém podia levar a sério um presidente chamado Jimmy. Nada a ver com os aristocráticos nomes de baptismo de anteriores titulares da Casa Branca, como William McKinley, Woodrow Wilson, Warren Harding, Herbert Hoover. Nada a ver com o prestigiado Franklin Delano Roosevelt, cujo nome era todo um programa: sugeria um rasto de nobreza e autoridade natural, muito adequado à solenidade do cargo (impossível alguém chamar-lhe Frank).

 

Eram os tempos do disco sound e das calças à boca de sino: foi aí que os Estados Unidos começaram a vulgarizar-se irremediavelmente. Nunca mais foram respeitados como outrora tinha acontecido. Alguém como o ex-presidente Dwight David Eisenhower, o general que chegou à presidência depois de derrotar os nazis na Europa, haveria certamente de encarar com maus olhos este plebeísmo onomástico no nº 1600 da Avenida Pensilvânia, em Washington. Richard Nixon, que foi seu vice-presidente antes de concorrer ele próprio à presidência, era tratado na intimidade por Dick ('Tricky Dick', na carinhosa terminologia dos adversários). Mas ninguém sonharia nesses respeitáveis anos com um Dick Nixon na Casa Branca. 

Com Jimmy, tudo mudou. Depois dele ainda veio Ronald Reagan, um nome de presidente clássico, mas já o vice-presidente de George Bush (pai) era alguém simplesmente chamado Dan Quayle. E seguiu-se a presidência de Bill Clinton, que tinha como braço direito Al Gore. Nomes tão vulgares como o João dos Anzóis. E quase tudo em diminutivo de então para cá: o vice-presidente de George Bush (filho) era Dick Cheney – chegava enfim um Dick à administração americana. E o vice-presidente actual é Joe Biden. Alguém com um nome equivalente ao nosso Zé.

Já não estranhei, por isso, que nos obituários do irmão mais novo do presidente John Fitzgerald Kennedy, em Agosto de 2009, toda a gente chamasse Ted ao senador do Massachusetts que fora apresentado ao mundo, décadas antes, como Edward Kennedy. John, que ocupou a Casa Branca entre Janeiro de 1961 e Novembro de 1963, se vivesse hoje seria conhecido por Jack. Tu-cá tu-lá, sem qualquer espécie de apreço pelo nome de baptismo.

Ao menos Obama parece estar livre desta praga contemporânea de tratar os mais altos titulares de cargos públicos nos EUA por ridículos petits noms familiares, como se fossem colegiais. Mas só devido à singularidade do seu nome africano. Alguém imagina qual será o diminutivo de Barack?

 

O Reino Unido, como aliado preferencial de Washington, aderiu nos anos 90 à moda dos políticos com diminutivo nos nomes próprios. Aconteceu com Tony Blair, que assim dava a impressão de ser um indivíduo como qualquer outro nesses tempos em que a correcção política atingia o auge - algo que escandalizaria os vetustos primeiros-ministros britânicos Stanley Baldwin, Winston Churchilll, Clement Attlee, Harold MacMillan e James Callaghan. Entre nós, governava então António Guterres. Que, apesar de ser muito amigo de Blair, nunca fez questão de ser tratado por Toni. E muito bem.

A Portugal, felizmente, ainda não chegou a moda de tratar os políticos pelo diminutivo. Caso contrário teríamos por exemplo um ministro conhecido por Vitinho Gaspar, o líder parlamentar do PCP só responderia quando lhe chamassem Dino Soares e o titular do Palácio de Belém promulgaria diplomas com o nome nada austero de Ani Cavaco Silva. De momento, esta praga parece longe dos nossos hábitos. Mas não nos iludamos: também há-de cá chegar, como todas as outras modas que têm sido importadas dos States. Já começo até a ouvir com alguma insistência alusões a um tal de Tó Zé, secretário-geral do Partido Socialista...

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Bom jornalismo

por Pedro Correia, em 23.10.12

 

Alguns são aprendizes, mas em Portugal só Augusto Cid é o mestre. O melhor cartunista português, exímio praticante da sátira política em forma de caricatura, cultor do salutar princípio castigat ridendo mores (que herdámos dos antepassados romanos), está hoje desempregado. O que é outro sintoma da decadência do nosso jornalismo. Em qualquer outro país, Cid seria disputado por todos os jornais - da esquerda, do centro ou da direita. Assinaria editoriais desenhados, escreveria colunas de opinião com bonecos, faria reportagens com o recurso à arte da caricatura, que domina como se fosse herdeiro directo de Rafael Bordalo Pinheiro, Francisco Valença e Stuart de Carvalhais. Nós, por cá, assobiamos para o ar e fingimos tantas vezes que o talento não existe enquanto prestamos tributo à mediocridade. Puro engano. Basta ler esta excelente entrevista assinada por Leonardo Ralha no Correio da Manhã: eis Cid no seu melhor, igual a si próprio, falando do mesmo modo que sempre desenhou. Sem punhos de renda, sem papas na língua.

Leiam a entrevista: vale a pena. Desde as histórias da tropa, durante a guerra em Angola, às atribulações provocadas pela investigação às misteriosas circunstâncias da morte de Francisco Sá Carneiro em Camarate, do 25 de Abril aos retratos falados de diversos protagonistas de quatro décadas da política nacional.

Um episódio revelador, em discurso directo, ocorrido quando Sá Carneiro era primeiro-ministro: «Além de militante [do PSD] desde Maio de 1974, sou o autor das famosas setas. Ingressei no jornal do partido, o Povo Livre, onde fazia cartoons, e estive lá até a AD ir para o Governo. Quando isso aconteceu, fui ter com o Sá Carneiro, de quem era bastante amigo, e disse-lhe: "O sr. dr. vai desculpar, mas uma coisa é fazer desenhos num órgão de um partido que está na oposição e outra é o partido chegar ao poder e eu passar a ter que fazer desenhos que o apoiem. Não contem mais comigo".»

E assim foi.

Há tempos, no jornal onde colaborava, reduziram-lhe o salário. Pouco depois, nova redução. Cid disse basta: passou à pré-reforma e agora dedica-se à escultura. «Cheguei a um ponto em que aquilo que ganhava não justificava o que fazia. Não é só desenhar. Isto implica muito tempo a pensar e a investigar até chegar ao desenho final», confessou.

Há momentos assim, que exigem a palavra não. Palavra que é quase lema obrigatório de um grande cartunista - a estirpe a que Augusto Cid sempre pertencerá.

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Uma experiência original...

por Helena Sacadura Cabral, em 22.08.12

Há sempre uma primeira vez, para tudo e para todos. Comigo, deu-se há uns dias, quando fiquei incomunicável. Explico-me. Nessa santa terra onde fui descansar, o meu telemóvel caiu ao chão. Como tantas vezes, já, antes acontecera. Remontadas as peças que se haviam espalhado, o dito retomou a forma original e parecia de excelente saúde. Voltou, assim, para a carteira que é o local onde habitualmente o coloco.

Aí ficou, tranquilo, até que precisei de fazer uma chamada. Marcado o número, nem eu me fazia ouvir, nem do outro lado alguém bugia. Voltei a ligar e a experiência repetiu-se. Apesar de tecnologicamente incompetente dediquei-me à tarefa de eventual reparadora. Desliguei o dito, esventrei-o e voltei a ligá-lo. 

Chamada retomada, o silencio bilateral foi a resposta. Foi nessa altura que me dei conta do numero de pessoas que tentaram falar-me. Alarmante!

Numa última tentativa, fui ao botão de aumentar o som que estava a meio da escala e, convencida, aumentei-o. Singularmente, a cada investida, o regulador descia mais.

Bingo! Fez-se luz. A queda, lateral, fizera perecer o botão maravilha, aquele que nos destina à comunicação mais ou menos ruidosa.

Dei-me, todavia, conta, do agradável que havia sido aquele silêncio forçado. Como já aqui escrevi, desde Abril, o meu ritmo mudou. Passei a funcionar a vapor, numa época em que a norma é andar a todo o gás...

Assim, resolvi que iria continuar neste dolce farniente  de telemóveis, num retorno a tempos saudosos em que tinha todo o tempo do mundo. Quem quiser falar-me, manda mail. Que eu verei, claro, quando ligar o computador. Sem qualquer garantia de data.

Mas que este novo ritmo telefónico me está a agradar, não há qualquer dúvida...

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Confundir as trevas com a luz

por Pedro Correia, em 20.08.12

 

"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva."

Vladimir Nabokov

 

As imagens estão a correr mundo: raras vezes tenho visto algo tão chocante. Nas imediações de Rustenburg, na África do Sul, a polícia abriu fogo e disparou indiscriminadamente contra uma multidão de mineiros em greve. As consequências foram trágicas: 44 mortos e pelo menos 78 feridos. O mais revoltante, nestas imagens junto à mina de platina de Lonmin, foi o aparente sangue-frio das forças policiais, que não hesitaram em atirar para matar, como se os seus alvos fossem peças de caça em vez de seres humanos.

Outras imagens impressionantes chegam-nos por estes dias da Síria, onde forças governamentais têm bombardeado colunas de civis que procuram refúgio junto da fronteira turca, a norte de Alepo, capital económica do país. Correspondentes de guerra falam em massacre indiscriminado de mulheres e crianças pelos esbirros do ditador Bachar al-Assad, armados até aos dentes. "Aqui não há prisões, só há tumbas", diz um dos rebeldes ao enviado especial do jornal espanhol El País, transmitindo uma ideia exacta do que é hoje a Síria: um país mergulhado em guerra civil apenas porque a família Assad - no poder há 40 anos - quer perpetuar o seu mando absoluto, indiferente aos clamores de protesto da praça pública, por mais que isso faça correr o sangue dos cidadãos.

 

Estranhamente, ou talvez não, estes massacres não parecem suscitar ondas de indignação entre os bem-pensantes do costume. Em Lisboa, por exemplo, as habituais agremiações de manifestantes nem sequer convocaram uma concentração junto à embaixada da África do Sul. Não houve um comunicado. Nem uma declaração. Nem uma frase a exigir justiça ao Presidente Jacob Zuma.

O rastilho da indignação fácil vira-se agora para Londres, onde Julian Assange está refugiado na embaixada do Equador, país que lhe garantiu "asilo político". Chovem protestos contra as autoridades britânicas por não deixarem este australiano que é acusado de ter cometido crimes sexuais na Suécia partir para Quito. A justiça sueca pediu a extradição, a justiça britânica autorizou, mas o Presidente equatoriano, Rafael Correa, mantém Assange à sua guarda por recear - diz ele - pela integridade física ou até pela vida do fundador da WikiLeaks.

Como se a Suécia não fosse o país mais respeitador dos direitos humanos que conhecemos, onde qualquer cidadão pode confiar nas instituições - muito mais do que no Equador, onde toda a imprensa independente tem vindo a ser ferozmente reprimida pelo Presidente Correa e os seus sequazes do poder judicial. Como se o respeitável estatuto de refugiado político possa aplicar-se a alguém acusado de um delito comum. O Guardian - um dos cinco jornais com repercussão mundial que deram eco às fugas de informação produzidas pela WikiLeaks - deixa bem clara a sua posição: "tanto em termos legais como em termos morais", Assange não tem direito a tal estatuto.

 

Com 44 vítimas indefesas que tombaram sob uma chuva de balas na África do Sul, à mercê de uma inqualificável repressão policial, com inocentes a cair mortos todos os dias na Síria, a opinião pública sofisticada e envernizada prefere solidarizar-se com Assange. Um mitómano a quem aparentemente se aplica o aforismo de Truman Capote: "O excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente como o excesso de fracasso." Um homem que não corre risco de vida, que tem dinheiro para contratar os melhores advogados do mundo (um deles, que já trabalha na sua defesa, é o juiz espanhol Baltasar Garzón) e apenas é procurado por não ter respondido, como lhe competia, perante a justiça sueca - talvez a mais civilizada do planeta.

"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva", dizia Vladimir Nabokov. Lamento que confundamos tantas vezes a luz com as trevas e as trevas com a luz.

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