Um pisa-papéis, um mata-borrão, um selo de correio: três inesperados objectos defronte de mim. Todos, na minha infância, tinham uso quotidiano. Tal como o tinteiro para caneta de aparo ou a lousa onde se escrevia a giz. Passaram uns anos - mas parece ter decorrido uma eternidade. Estes objectos tornaram-se peças de museu e vários deles são hoje quase incompreensíveis para uma geração viciada em gadgets electrónicos, que nunca brincou ao pião ou não faz a menor ideia para que serve um dedal.
Tempos agitados, vertiginosos, de uma volatilidade estonteante. Os objectos mais familiares no quotidiano dos nossos avós pareciam vir desde os alvores da Humanidade, davam um toque de permanência num mundo que só era verdadeiramente sobressaltado por factores exógenos - uma guerra, um ano de más colheitas no campo, uma epidemia. Nada a ver com o frenesim actual, em que tudo é novidade - e em que o próprio conceito de novidade se vai alterando e adulterando em função da espuma dos dias. Os objectos que nos preenchem o quotidiano - como muitas palavras que usamos, como os nossos próprios laços afectivos - têm uma vida cada vez mais breve, um fôlego cada vez mais curto, um prazo de validade cada vez mais exíguo.
Pegue-se num livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço na era da incessante troca de mensagens telefónicas, onde o domínio vocabular é cada vez mais escasso e a abreviatura predomina? Consequência disso, o pensamento comprime-se, torna-se esquemático e utilitário, perde elasticidade e subtileza, passa a satisfazer apenas impulsos imediatos. Toda a elaboração teórica sedimentada por séculos de cultura no mundo ocidental se torna virtualmente incompreensível nestes dias em que o significado se subordina ao mais elementar significante.
Felizmente o sol ainda não é sintético e high tech. Este sol que entra no escritório pela frincha da janela é o mesmo que os nossos mais remotos antepassados contemplaram com espanto virginal à medida que se sucediam as estações e em relação ao qual vários povos acenderam altares votivos.
Com este sol oblíquo que me ilumina pego num corta-papéis - outro objecto que ficou sem uso - e vou abrindo lentamente dois livros que há muito tinha adormecidos na biblioteca: Sobre as Falésias de Mármore, de Ernst Jünger, e O Escravo, de Isaac Bashevis Singer. As páginas desfolham-se com um vagar antigo enquanto regresso às tardes da minha infância noutro escritório, o do meu pai, enquanto executava exactamente a mesma operação a vários livros por inaugurar que ia encontrando nas estantes. Foi uma das primeiras tarefas graves e sérias, dignas de um adulto, que me lembro de executar no meu universo infantil. Uma tarefa que me ajudou a mergulhar, quase por acaso, no mundo dos livros.
Regresso a ela com o vagar de então, ocasionalmente revivido. Como se o tempo ficasse suspenso e os rumores do mundo mais não fossem do que um eco distante, dissolvido no ar do outro lado da porta.
A morte de José Saramago é também a morte simbólica do intelectual que se indigna. Com o desaparecimento do autor de Levantado do Chão, encerra-se uma era caracterizada pela intensa participação de escritores e artistas na vida pública dos seus países e até na cena política internacional. A separação entre arte e vida não existiu para a maioria dos intelectuais do século XX: uma era o prolongamento natural da outra. Intelectuais como Zola (que, com o seu "J' Accuse", ainda no século XIX, influenciou as gerações que lhe sucederam), Gramsci, Bertrand Russell, Gide, Céline, Pound, Dos Passos, Malaparte, Malraux, Hemingway, Orwell, Sartre, Aron, Koestler, Camus e Simone Weil. À esquerda e à direita.
É certo que muitos desses intelectuais acabaram por apoiar alguns dos regimes mais despóticos da sua época, caucionando-os com a sua pretensa autoridade moral. Mas o reverso desta medalha, igualmente negativo, é a apatia dos intelectuais de hoje, que se comprazem a mirar o próprio umbigo e fogem cuidadosamente de tudo quanto cheire a controvérsia.
Pensemos à escala portuguesa: alguém se recorda de alguma atitude indignada de um intelectual, nos últimos anos, contra a corrupção galopante, a justiça descredibilizada, a economia inviável, as assimetrias sociais, o drama imparável do desemprego, as mentiras dos políticos? Calando-se agora a voz de Saramago, que nunca evitou as polémicas, sobra um silêncio conformista e resignado. Cada qual só se preocupa com a sua "obra", com as suas "vendas", com a sua vidinha, abdicando da intervenção cívica. A própria reforma ortográfica passou perante um generalizado encolher de ombros e quase sem um sussurro crítico dos "intelectuais", com a excepção honrosa de Vasco Graça Moura. Muito ao contrário do que sucedeu no final da década de 80, quando pela primeira vez a Academia de Ciências de Lisboa procurou impingir aos portugueses um "acordo ortográfico" que equivalia a uma rendição incondicional à norma brasileira.
É um sinal dos tempos. Nesta era de feroz individualismo, o intelectual regressa à torre de marfim. Ou imita aqueles distraídos xadrezistas de Bizâncio, de olhos concentrados no tabuleiro enquanto a cidade ardia. Compreende-se: é mais cómodo ser assim. Depois da intervenção cívica, a demissão cívica. E, no entanto, a Terra move-se.
Na sequência desta reflexão de Maria do Rosário Pedreira, reedito o texto originalmente publicado no DELITO DE OPINIÃO a 7 de Julho de 2010
Existe algo obsceno nesta litigação milionária, no exacto momento em que vivemos. Ao ponto de afrontar a consciência de um cristão que um banqueiro alegadamente católico continue a proclamar-se discípulo espiritual do Nazareno. Daquele que sempre enalteceu a caridade e sempre combateu a cupidez. Daquele que expulsou os vendilhões ao vê-los profanar o templo. Daquele que condenou sem rodeios a hipocrisia dos fariseus, "túmulos caiados", capazes de atribuir mais importância ao ouro do que ao altar.
A África do Sul - e o mundo - em estado de choque: Oscar Pistorius, campeão dos campeões nas pistas olímpicas, primeiro atleta deficiente a competir de igual para igual com os restantes apesar de ter próteses no lugar dos pés, não seria o deus que milhões supunham mas apenas um homem. E dos piores, pois é acusado de ter assassinado a noiva com quatro tiros.
O drama amplia-se nos media porque a morta, Reeva Steenkamp, era também uma figura popularíssima: advogada e modelo, rica, linda, transbordando energia, vitalidade e virtudes.
Pareciam o par ideal. Mas tudo leva a crer que não eram: há uma enorme diferença entre a vida real e a vida pintada nas publicações cor de rosa - e hoje, na era das "plataformas multimédia", quase todas as publicações acabam por ter esta cor.
Oscar, ídolo caído em desgraça, alega ter confundido o barulho feito pela noiva na luxuosa mansão onde vivia, às três da manhã, com um assaltante (na zona de Pretória, como na África do Sul em geral, os assaltos violentos fazem parte do quotidiano) e revela ter disparado "por instinto".
Muito poucos acreditam nesta versão.
Os mesmos órgãos de informação que dantes endeusavam o mediático par, ofertando-lhes capas cheias de glamour, dissecam agora os minuciosos detalhes deste crime, ainda por cima cometido no Dia dos Namorados.
As redes sociais são, nesta matéria, um maná inesgotável. Graças a elas, e à curiosidade insaciável de uma imprensa que tudo ultrapassa em matéria de sensacionalismo, já tomámos conhecimento do último tuíte escrito pela malograda Reeva, que tinha apenas 29 anos e uma infinidade de sonhos pela frente agora afogados em sangue. Examinam-se todas as mensagens que o assassino deixou na Rede, onde todos quantos a frequentam ficam capturados para sempre. A Nike suspendeu uma campanha publicitária - de "óbvio mau gosto", conclui-se só agora - em que Oscar aparecia sob a legenda "sou a bala na câmara".
Refazem-se mitos à pressa - com a mesma pressa com que foram designados, entre torrentes de elogio mediaticamente correctos. Os supostos deuses da véspera tornam-se demónios do dia seguinte, sempre com uma rapidez vertiginosa - tudo tão rápido como a espectacular passada de Oscar Pistorius nos 400m, em Agosto último, no estádio olímpico de Londres. E como o espectáculo tem de continuar, suceda o que suceder, a estação sul-africana SABC1 decidiu manter no ar a quinta temporada de Island of Treasure, equivalente local d' Os Sobreviventes, com a falecida Reeva no elenco. A produção parece ter considerado a sua morte um "dano colateral" que afinal contribuirá para atrair ainda mais audiência para o reality show, rodado em 2012 na Jamaica.
Eis o Mundo Cão em todo o seu esplendor.
Por maior que seja o glamour momentâneo, estamos sempre mais perto do homem-lobo iniciático do que imaginamos. Cinco milénios de cultura são mero verniz, incapaz de mudar o essencial da natureza humana.
Acho um absurdo ver mais pessoas a mobilizar-se por um animal do que por um ser humano. Desde a difusão mundial dos filmes produzidos por Walt Disney com as suas personagens antropomorfizadas, criou-se a convicção que os animaizinhos, coitadinhos, são iguaizinhos a nós. Rejeita-se a natureza em função da dimensão "cultural" dos bichos, fecha-se os olhos a essa evidência que é o instinto primário, faz-se de conta que nunca foi sequer inventada a palavra feroz - algo que soa a um inaceitável primitivismo.
Alarga-se o conceito rousseauniano do "bom selvagem" aos animais, que imaginamos imunes à contaminação do mal. E desembocamos nisto: 30 mil almas sensíveis em defesa de um enternecedor ão-ão que se limitou a "atacar" um bebé de ano e meio (o verbo "atacar" funciona aqui como eufemismo para iludir os factos) e ao qual deve ser concedida uma "segunda oportunidade" (tese quase obscena neste caso, pois cão que mata uma vez pode matar duas ou três).
Eis a doutrina Padre Américo em versão animal, com uns pós de Brecht: não há cachorros maus. A culpa não é do rio, mas das margens que o comprimem. Aliás, se o conceito de "reabilitação social" vigora para os seres humanos, porque não haveremos de lhe atribuir uma interpretação extensiva, colando-o às feras?
A propósito desta história com um final tão infeliz, interrogo-me: se o pitbull de Beja fosse poupado ao abate por um inesperado indulto, que espécie de futuro dono poderia dar guarida, sem o menor sobressalto de consciência, a um cão que levou uma criança à morte?
Apetece dizer-lhes que se vão catar. Não às bestas, mas aos bípedes.
Alterei o texto inicial, no penúltimo parágrafo, e actualizei o número dos peticionários
Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura - do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.
A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos "virtuais" que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim - mesmo numa sala de cinema - sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.
E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias - tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.
De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.
E não abdiquemos também do direito de pensar - arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. "O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas", escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.
Tentemos que o nosso 2013 não seja assim.
Se há algo que achava impensável assistir neste país era a que nuestros hermanos do país vizinho dissessem que o nosso Governo está a vender Portugal. Mas para piorar tudo isto, essa venda está a ser feita a pataco, por tuta e meia, com o Conselho de Ministros a pedir dinheiro ao potencial comprador logo na sua própria reunião. Neste momento, empresas públicas portugueses de longa tradição, como a TAP e a ANA, vendem-se como se fossem produtos da feira do relógio. Será possível termos descido tão baixo?
A brincadeira - inicialmente muito celebrada nas redes sociais - de dois animadores de uma rádio australiana conduziu ao suicídio de uma enfermeira do Hospital Rei Eduardo VII, em Londres, onde esteve internada a duquesa de Cambridge, que se encontra grávida. Este caso, tão dramático, sublinha uma evidência demasiadas vezes esquecida: a da responsabilidade social de todos os comunicadores, sejam jornalistas ou não. Porque "comunicadores", nesta era dos internautas, somos todos nós. E há palavras, gestos e atitudes que podem matar.
Os autores do 'furo' radiofónico, efémeros heróis à escala planetária, já estão a ser transformados em vilões pela mesma máquina implacável de produção de celebridades instantâneas. Ovacionados ontem, apedrejados hoje. Pelos mesmos que não tardarão em vitoriar outros efémeros ídolos ao virar da primeira esquina, repetindo-se o ciclo de rápida subida aos céus seguido de uma vertiginosa descida ao inferno. Com o mecanismo de sempre: muita exaltação irreprimível e muita indignação efervescente nas redes sociais.
Quase toda esta gente que dispara frases como se fossem tiros ignora que a palavra pode ser a mais cruel das armas. Como ainda agora voltou a confirmar-se.
Os últimos dias trouxeram várias notícias que abalaram profundamente uma certa organização do mundo em que nos habituámos a viver. Vejamos alguns exemplos, sem qualquer pretensão de fazer uma enumeração exaustiva: o MacGyver está gordo como um texugo, o JR do Dallas morreu, Portugal não participará no Festival da Canção de 2013, escasseiam as informações sobre os Jogos Sem Fronteiras, Alberto João Jardim anunciou a intenção de abandonar a política activa e o burro e a vaca (ou o boi ou lá o que é) foram expulsos do presépio. Será isto um sinal de aproximação do fim do noso tempo? Devemos então admitir que estamos a ficar velhos e ultrapassados pelos acontecimentos? Tenderia a responder que sim, não fosse dar-se o caso de, contrariando todo o pessimismo, o Tony e o Manuel José terem sido considerados aptos para voltar aos relvados.
Tive de fazer um downsizing do meu lifestyle.
Mario Vargas Llosa, hoje, no El País
(tradução minha)
Estas coisas andam sempre ligadas. Talvez o início do fim do prestígio norte-americano no planeta tenha uma data exacta: 20 de Janeiro de 1977. Precisamente o dia em que tomou posse Jimmy Carter como 39º inquilino da Casa Branca (ou 38º, na versão do presidente Harry Truman, que nunca entendeu por que motivo um dos seus antecessores, Glover Cleveland, foi contabilizado a dobrar, por dois mandatos diferentes).
Jimmy quê? – perguntou muita gente, sem perceber muito bem como um antigo cultivador de amendoins da Geórgia chegava ao mais poderoso cargo político do globo terrestre. O problema era precisamente esse: ninguém podia levar a sério um presidente chamado Jimmy. Nada a ver com os aristocráticos nomes de baptismo de anteriores titulares da Casa Branca, como William McKinley, Woodrow Wilson, Warren Harding, Herbert Hoover. Nada a ver com o prestigiado Franklin Delano Roosevelt, cujo nome era todo um programa: sugeria um rasto de nobreza e autoridade natural, muito adequado à solenidade do cargo (impossível alguém chamar-lhe Frank).
Eram os tempos do disco sound e das calças à boca de sino: foi aí que os Estados Unidos começaram a vulgarizar-se irremediavelmente. Nunca mais foram respeitados como outrora tinha acontecido. Alguém como o ex-presidente Dwight David Eisenhower, o general que chegou à presidência depois de derrotar os nazis na Europa, haveria certamente de encarar com maus olhos este plebeísmo onomástico no nº 1600 da Avenida Pensilvânia, em Washington. Richard Nixon, que foi seu vice-presidente antes de concorrer ele próprio à presidência, era tratado na intimidade por Dick ('Tricky Dick', na carinhosa terminologia dos adversários). Mas ninguém sonharia nesses respeitáveis anos com um Dick Nixon na Casa Branca.
Com Jimmy, tudo mudou. Depois dele ainda veio Ronald Reagan, um nome de presidente clássico, mas já o vice-presidente de George Bush (pai) era alguém simplesmente chamado Dan Quayle. E seguiu-se a presidência de Bill Clinton, que tinha como braço direito Al Gore. Nomes tão vulgares como o João dos Anzóis. E quase tudo em diminutivo de então para cá: o vice-presidente de George Bush (filho) era Dick Cheney – chegava enfim um Dick à administração americana. E o vice-presidente actual é Joe Biden. Alguém com um nome equivalente ao nosso Zé.
Já não estranhei, por isso, que nos obituários do irmão mais novo do presidente John Fitzgerald Kennedy, em Agosto de 2009, toda a gente chamasse Ted ao senador do Massachusetts que fora apresentado ao mundo, décadas antes, como Edward Kennedy. John, que ocupou a Casa Branca entre Janeiro de 1961 e Novembro de 1963, se vivesse hoje seria conhecido por Jack. Tu-cá tu-lá, sem qualquer espécie de apreço pelo nome de baptismo.
Ao menos Obama parece estar livre desta praga contemporânea de tratar os mais altos titulares de cargos públicos nos EUA por ridículos petits noms familiares, como se fossem colegiais. Mas só devido à singularidade do seu nome africano. Alguém imagina qual será o diminutivo de Barack?
O Reino Unido, como aliado preferencial de Washington, aderiu nos anos 90 à moda dos políticos com diminutivo nos nomes próprios. Aconteceu com Tony Blair, que assim dava a impressão de ser um indivíduo como qualquer outro nesses tempos em que a correcção política atingia o auge - algo que escandalizaria os vetustos primeiros-ministros britânicos Stanley Baldwin, Winston Churchilll, Clement Attlee, Harold MacMillan e James Callaghan. Entre nós, governava então António Guterres. Que, apesar de ser muito amigo de Blair, nunca fez questão de ser tratado por Toni. E muito bem.
A Portugal, felizmente, ainda não chegou a moda de tratar os políticos pelo diminutivo. Caso contrário teríamos por exemplo um ministro conhecido por Vitinho Gaspar, o líder parlamentar do PCP só responderia quando lhe chamassem Dino Soares e o titular do Palácio de Belém promulgaria diplomas com o nome nada austero de Ani Cavaco Silva. De momento, esta praga parece longe dos nossos hábitos. Mas não nos iludamos: também há-de cá chegar, como todas as outras modas que têm sido importadas dos States. Já começo até a ouvir com alguma insistência alusões a um tal de Tó Zé, secretário-geral do Partido Socialista...
Alguns são aprendizes, mas em Portugal só Augusto Cid é o mestre. O melhor cartunista português, exímio praticante da sátira política em forma de caricatura, cultor do salutar princípio castigat ridendo mores (que herdámos dos antepassados romanos), está hoje desempregado. O que é outro sintoma da decadência do nosso jornalismo. Em qualquer outro país, Cid seria disputado por todos os jornais - da esquerda, do centro ou da direita. Assinaria editoriais desenhados, escreveria colunas de opinião com bonecos, faria reportagens com o recurso à arte da caricatura, que domina como se fosse herdeiro directo de Rafael Bordalo Pinheiro, Francisco Valença e Stuart de Carvalhais. Nós, por cá, assobiamos para o ar e fingimos tantas vezes que o talento não existe enquanto prestamos tributo à mediocridade. Puro engano. Basta ler esta excelente entrevista assinada por Leonardo Ralha no Correio da Manhã: eis Cid no seu melhor, igual a si próprio, falando do mesmo modo que sempre desenhou. Sem punhos de renda, sem papas na língua.
Leiam a entrevista: vale a pena. Desde as histórias da tropa, durante a guerra em Angola, às atribulações provocadas pela investigação às misteriosas circunstâncias da morte de Francisco Sá Carneiro em Camarate, do 25 de Abril aos retratos falados de diversos protagonistas de quatro décadas da política nacional.
Um episódio revelador, em discurso directo, ocorrido quando Sá Carneiro era primeiro-ministro: «Além de militante [do PSD] desde Maio de 1974, sou o autor das famosas setas. Ingressei no jornal do partido, o Povo Livre, onde fazia cartoons, e estive lá até a AD ir para o Governo. Quando isso aconteceu, fui ter com o Sá Carneiro, de quem era bastante amigo, e disse-lhe: "O sr. dr. vai desculpar, mas uma coisa é fazer desenhos num órgão de um partido que está na oposição e outra é o partido chegar ao poder e eu passar a ter que fazer desenhos que o apoiem. Não contem mais comigo".»
E assim foi.
Há tempos, no jornal onde colaborava, reduziram-lhe o salário. Pouco depois, nova redução. Cid disse basta: passou à pré-reforma e agora dedica-se à escultura. «Cheguei a um ponto em que aquilo que ganhava não justificava o que fazia. Não é só desenhar. Isto implica muito tempo a pensar e a investigar até chegar ao desenho final», confessou.
Há momentos assim, que exigem a palavra não. Palavra que é quase lema obrigatório de um grande cartunista - a estirpe a que Augusto Cid sempre pertencerá.
Também aqui
Há sempre uma primeira vez, para tudo e para todos. Comigo, deu-se há uns dias, quando fiquei incomunicável. Explico-me. Nessa santa terra onde fui descansar, o meu telemóvel caiu ao chão. Como tantas vezes, já, antes acontecera. Remontadas as peças que se haviam espalhado, o dito retomou a forma original e parecia de excelente saúde. Voltou, assim, para a carteira que é o local onde habitualmente o coloco.
Aí ficou, tranquilo, até que precisei de fazer uma chamada. Marcado o número, nem eu me fazia ouvir, nem do outro lado alguém bugia. Voltei a ligar e a experiência repetiu-se. Apesar de tecnologicamente incompetente dediquei-me à tarefa de eventual reparadora. Desliguei o dito, esventrei-o e voltei a ligá-lo.
Chamada retomada, o silencio bilateral foi a resposta. Foi nessa altura que me dei conta do numero de pessoas que tentaram falar-me. Alarmante!
Numa última tentativa, fui ao botão de aumentar o som que estava a meio da escala e, convencida, aumentei-o. Singularmente, a cada investida, o regulador descia mais.
Bingo! Fez-se luz. A queda, lateral, fizera perecer o botão maravilha, aquele que nos destina à comunicação mais ou menos ruidosa.
Dei-me, todavia, conta, do agradável que havia sido aquele silêncio forçado. Como já aqui escrevi, desde Abril, o meu ritmo mudou. Passei a funcionar a vapor, numa época em que a norma é andar a todo o gás...
Assim, resolvi que iria continuar neste dolce farniente de telemóveis, num retorno a tempos saudosos em que tinha todo o tempo do mundo. Quem quiser falar-me, manda mail. Que eu verei, claro, quando ligar o computador. Sem qualquer garantia de data.
Mas que este novo ritmo telefónico me está a agradar, não há qualquer dúvida...
"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva."
Vladimir Nabokov
As imagens estão a correr mundo: raras vezes tenho visto algo tão chocante. Nas imediações de Rustenburg, na África do Sul, a polícia abriu fogo e disparou indiscriminadamente contra uma multidão de mineiros em greve. As consequências foram trágicas: 44 mortos e pelo menos 78 feridos. O mais revoltante, nestas imagens junto à mina de platina de Lonmin, foi o aparente sangue-frio das forças policiais, que não hesitaram em atirar para matar, como se os seus alvos fossem peças de caça em vez de seres humanos.
Outras imagens impressionantes chegam-nos por estes dias da Síria, onde forças governamentais têm bombardeado colunas de civis que procuram refúgio junto da fronteira turca, a norte de Alepo, capital económica do país. Correspondentes de guerra falam em massacre indiscriminado de mulheres e crianças pelos esbirros do ditador Bachar al-Assad, armados até aos dentes. "Aqui não há prisões, só há tumbas", diz um dos rebeldes ao enviado especial do jornal espanhol El País, transmitindo uma ideia exacta do que é hoje a Síria: um país mergulhado em guerra civil apenas porque a família Assad - no poder há 40 anos - quer perpetuar o seu mando absoluto, indiferente aos clamores de protesto da praça pública, por mais que isso faça correr o sangue dos cidadãos.
Estranhamente, ou talvez não, estes massacres não parecem suscitar ondas de indignação entre os bem-pensantes do costume. Em Lisboa, por exemplo, as habituais agremiações de manifestantes nem sequer convocaram uma concentração junto à embaixada da África do Sul. Não houve um comunicado. Nem uma declaração. Nem uma frase a exigir justiça ao Presidente Jacob Zuma.
O rastilho da indignação fácil vira-se agora para Londres, onde Julian Assange está refugiado na embaixada do Equador, país que lhe garantiu "asilo político". Chovem protestos contra as autoridades britânicas por não deixarem este australiano que é acusado de ter cometido crimes sexuais na Suécia partir para Quito. A justiça sueca pediu a extradição, a justiça britânica autorizou, mas o Presidente equatoriano, Rafael Correa, mantém Assange à sua guarda por recear - diz ele - pela integridade física ou até pela vida do fundador da WikiLeaks.
Como se a Suécia não fosse o país mais respeitador dos direitos humanos que conhecemos, onde qualquer cidadão pode confiar nas instituições - muito mais do que no Equador, onde toda a imprensa independente tem vindo a ser ferozmente reprimida pelo Presidente Correa e os seus sequazes do poder judicial. Como se o respeitável estatuto de refugiado político possa aplicar-se a alguém acusado de um delito comum. O Guardian - um dos cinco jornais com repercussão mundial que deram eco às fugas de informação produzidas pela WikiLeaks - deixa bem clara a sua posição: "tanto em termos legais como em termos morais", Assange não tem direito a tal estatuto.
Com 44 vítimas indefesas que tombaram sob uma chuva de balas na África do Sul, à mercê de uma inqualificável repressão policial, com inocentes a cair mortos todos os dias na Síria, a opinião pública sofisticada e envernizada prefere solidarizar-se com Assange. Um mitómano a quem aparentemente se aplica o aforismo de Truman Capote: "O excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente como o excesso de fracasso." Um homem que não corre risco de vida, que tem dinheiro para contratar os melhores advogados do mundo (um deles, que já trabalha na sua defesa, é o juiz espanhol Baltasar Garzón) e apenas é procurado por não ter respondido, como lhe competia, perante a justiça sueca - talvez a mais civilizada do planeta.
"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva", dizia Vladimir Nabokov. Lamento que confundamos tantas vezes a luz com as trevas e as trevas com a luz.
A Harrods acabou de inaugurar a primeira secção de brinquedos que será, alegadamente, de género neutro. No Toy Kingdom, ao contrário do que costuma suceder, os brinquedos estão organizados por temas e não por género. A remodelação implicou um investimento de vários milhões de libras e foi conduzida por uma empresa especializada. O espaço inclui uma floresta encantada, um mundo de brinquedos em miniatura e uma sala de leitura. A julgar pelas fotografias, todavia, trata-se sobretudo de um golpe de marketing que visa aproveitar a onda dos jogos olímpicos e a vaga do politicamente correcto. Sem levar esta última, todavia, às últimas consequências. Na verdade, se virmos bem, se o espaço quer ser neutro, os brinquedos são os de sempre. Ali estão de um lado os carrinhos e os tractores e do outro as Hello Kitty cor-de-rosa. E também não falta a loja das guloseimas, questionando as regras elementares da alimentação saudável...
Já vos deve ter acontecido também. A falta de tempo, conjugada com outros assuntos que vão surgindo a requerer uma palavra urgente e necessária, acaba por nos fazer passar à margem de temas que gostaríamos de comentar - com espanto, lamento ou indignação. Ando há semanas para falar aqui de três temas. Que são estes:
Indignação. Achei inqualificável que o PSD/Madeira tenha rompido o consenso parlamentar, demonstrando que nem a morte põe fim aos gestos do mais rasteiro sectarismo. Refiro-me ao voto de pesar pela morte do eurodeputado Miguel Portas, do Bloco de Esquerda, na Assembleia Regional madeirense, em que uns deputados que se dizem sociais-democratas se abstiveram ou saíram da sala. Simplesmente vergonhoso.
Espanto. Emídio Rangel foi condenado a 300 dias de multa, a uma taxa diária de 20 euros (o que atinge o valor de seis mil euros), e a 50 mil euros por danos não patrimoniais à Associação Sindical dos Juízes Portugueses e ao Sindicato dos Magistrados do Ministério Público. Por ter dito algo que é do conhecimento comum: as informações de processos em segredo de justiça são transmitidas por fontes judiciais aos jornalistas. (António Barreto fora muito mais contundente, em Fevereiro de 2010, numa entrevista ao Expresso: "Há pessoas que estão a ganhar fortunas para vender informações em segredo de justiça.") Uma vez mais, nos tribunais de primeira instância, faz-se tábua rasa da liberdade de expressão, direito garantido e protegido pela Constituição, optando-se pela primazia ao direito ao bom nome. Mas o mais escandaloso é o montante da indemnização, ao que suponho inédita e totalmente desproporcionada. Tenho a certeza de que tribunais superiores, em sede de recurso, alterarão este veredicto. E em última instância, se for necessário, o tribunal das comunidades fará prevalecer o exacto sentido das proporções. Como, infelizmente, tem sucedido várias vezes em processos deste género. Com humilhantes condenações ao Estado português.
Lamento. Costumo dizer que aprendemos mais com quem nos critica do que com quem nos elogia. Uma das vozes mais críticas - mas também mais respeitáveis - na imprensa portuguesa é, há muitos anos, a do João Paulo Guerra. Muitas vezes discordei do que escrevia na sua 'Coluna Vertebral' do Diário Económico mas habituei-me a respeitar a sua acutilância sempre elegante e a sua mordacidade que nunca resvalava para o cinismo e menos ainda para o insulto. Escrevi em tempos, e reitero, que o considero um dos três melhores cronistas da imprensa portuguesa. Lamento muito que a sua coluna tenha terminado. Espero lê-lo um dia destes num outro jornal qualquer.
O Eleftherotypia foi durante 37 anos o segundo diário mais importante da Grécia. Erros de gestão atiraram-no para a falência. Com os salários suspensos desde Agosto de 2011, os jornalistas ainda trabalharam quatro meses numa desesperada tentativa para o manterem vivo. Em vão: o jornal fechou em Dezembro.
No mundo do jornalismo, nada volta a ser o que já foi. As receitas da imprensa norte-americana em 2011 foram apenas metade das geradas em 2005. Diariamente, um pouco por todo o mundo ocidental, jornais existentes há décadas - ou mesmo há mais de um século - despedem-se das edições em papel. Títulos tão conhecidos e tão diversos como o Christian Science Monitor, Rocky Mountain News, Cincinnati Post (EUA), La Tribune (França), Público (Espanha), Post-och Inrikes Tidningar (Suécia) e o Jornal do Brasil deixaram de se publicar na forma tradicional, embora alguns continuem à disposição do público na internet.
O popularíssimo France-Soir, que chegou a ser o jornal com maior tiragem no continente europeu (1,5 milhões de exemplares diários em 1955), encerrou definitivamente em Dezembro passado. Títulos norte-americanos tão prestigiados como o San Francisco Chronicle, o Boston Globe ou o San Diego Union Tribune estiveram já a um passo do fecho definitivo por sérias dificuldades financeiras. E até gigantes como o New York Times ou o El País têm problemas financeiros eventualmente insuperáveis a médio prazo.
"Vivemos a mais grave crise da história da imprensa", admite um dos mais influentes jornalistas norte-americanos, Allan Mutter, em declarações à revista brasileira Veja. Quando um jornal tão emblemático como o Washington Post luta pela sobrevivência, agora que se assinalam o 40º aniversário da eclosão do caso Watergate.
Lembro-me por vezes dos jornais da minha infância. Quase todos fecharam: O Século, Comércio do Porto, Jornal do Comércio, Diário de Lisboa, Diário Popular, República, Mundo Desportivo, A Capital. Restam o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e o Expresso. Também revistas como a Flama, o Século Ilustrado e a Vida Mundial já há muito desapareceram das bancas - tal como tantos títulos surgidos após o 25 de Abril, como O Jornal, O Ponto, Opção, Jornal Novo, Tempo, O País, O Dia, O Diário, Se7e, Grande Reportagem, Tal & Qual, Semanário, O Independente, Já, Euronotícias e 24 Horas, entre vários outros. E já não falo em publicações regionais, incluindo títulos históricos como o Comércio do Funchal ou o Notícias de Évora.
Não são problemas que digam respeito apenas aos jornalistas. Porque não existe democracia sem imprensa. A progressiva extinção de publicações que funcionaram como testemunhas vivas da História empobrece a sociedade no seu conjunto, tornando o debate político mais vazio de conteúdo e menos sujeito ao indispensável escrutínio que entre nós lançou raízes no tempo do constitucionalismo liberal. É verdade que existem hoje múltiplos espaços de notícia e comentário no universo da Rede, muitos dos quais não sujeitos a qualquer filtro deontológico nem obedecendo sequer às normas do mais elementar bom senso. Mas não conheço nenhuma democracia que subsista sem grupos sólidos de imprensa. E neste aspecto andamos a caminhar perigosamente para trás.
A falta de exigência de muita da nossa "crítica", nas mais diversas especialidades, chega a ser quase chocante. Este é um tema recorrente nas minhas reflexões e regresso hoje a ele a propósito de uma "crítica" gastronómica que acabo de ler. Como vem sendo costume com excessiva frequência, nem sombra de reparo crítico nesta prosa: só elogios. Mas elogios a quê? Ao inusual, ao raro, ao criativo, ao extraordinário? Não: um elogio à febra grelhada. Sim, ao mais banal e desinspirado prato do nosso quotidiano alimentar. Daqueles que comemos em casa e que de modo algum justificam uma deslocação ao restaurante.
O artigo espraia-se em elogios aos maiores lugares-comuns da gastronomia portuguesa, com recurso a adjectivos tão banais como os pratos que descreve. Diz o articulista que o estabelecimento onde mastigou justifica a "sua inclusão entre os bons restaurantes" de uma certa cidade. Cozinha "simples, mas cuidada e de bom gosto". O enchido é "saboroso". O entrecosto grelhado é "excelente". Comem-se por lá "dois bons pratos" de bacalhau. Quais são? Se apostaram na banalidade, uma vez mais, acertaram: frito e à Brás.
E chegamos às febras, "talvez o prato mais emblemático" do restaurante. "De textura e sabor cativantes". Grelhadas só com sal.
Um interminável bocejo, esta prosa. Uma confrangedora pobreza estilística e conceptual, esta "crítica" que apenas elogia. Um significativo sinal dos tempos, esta elementar falta de vontade de ultrapassar o lugar-comum.
“She loved me for the dangers I had passed, And I loved her that she did pity them"
Shakespeare, Otelo
O Mal existe. Tem nome e rosto. Tem identidade própria. Tem alegadas "motivações", propaladas aos quatro ventos através da caixa de ressonância dos órgãos de informação. Tem até defensores - uns por razões políticas, porque interessa "destruir o sistema", outros simplesmente porque sim.
Não faltam aqueles que procuram negar a existência do Mal. Desde logo por crerem na bondade intrínseca à natureza humana: essas excelentes almas acreditam convictamente que não há rapazes maus. Ou por negarem validade às estruturas axiológicas: esses são os que argumentam pela irrelevância das fronteiras entre o Bem e o Mal, sobretudo porque as imaginam sempre contaminadas de conteúdo religioso. Sem repararem que tantas vezes, ao difundirem tal crença, assumem com frequência um fervor simétrico ao dos mais ortodoxos fiéis de uma determinada igreja.
E no entanto o Mal existe. Podemos vislumbrá-lo em múltiplas erupções quotidianas. No indivíduo que pela calada da noite põe uma bomba no carro de um autarca basco e encolhe indiferentemente os ombros quando a explosão desse veículo mata crianças que ignoram o significado da palavra nacionalismo, considerando-as "danos colaterais" - o homicídio mais aleatório e mais gratuito elevado à categoria de instrumento de acção política. O monstro de sorriso gélido que planeia friamente a execução sumária de algumas dezenas de adolescentes num acampamento de férias na Noruega e acaba classificado de inimputável por um colégio de psiquiatras. O fanático anti-semita que transforma o ódio étnico, cultural ou religioso em senha de identidade à margem de todos os considerandos de ordem moral, convertendo o massacre de seres humanos numa espécie de mandamento ditado pelo sectarismo mais irracional.
É preciso correr o sangue de inocentes para também a França republicana, ilustrada e laica reparar que alberga a semente do Mal no seu seio iluminista. Não adianta proclamar, como fazem alguns saudosos discípulos de Sartre, que o inferno são os outros. Não tenhamos ilusões: a barbárie está no meio de nós. E ganha cada vez mais terreno quanto mais tentarmos justificá-la com uma indiferença cúmplice invocando argumentos de sociologia política para validar as cartilhas ideológicas que autorizam a dissolução da dignidade humana em benefício de impulsos liberticidas. Como se os fins justificassem todos os meios. Como se houvesse equivalência moral entre carrascos e vítimas.
"Observar um crime em silêncio é cometê-lo", ensinou-nos José Martí. Nada mais certo. Não podemos resignar-nos ao poder da barbárie. Nem tolerá-la. Nem "compreendê-la". Nem deixar que ela se banalize a tal ponto que comece até a ser encarada com indiferença. Enquanto mastigamos qualquer coisa à hora do telejornal.
Temos que dizer basta. Sem esperar que os cadáveres se amontoem. Porque um já é de mais.
Imagem: O Massacre dos Inocentes (1609-11), de Rubens
Não houve primavera como a de Odilon Redon, não há primavera como a de Ann Craven.
Cada um no príncipio do seu século, ambos desconformes à norma do seu tempo.
Odilon Redon, "Evocação de borboletas", 1911
Ann Craven, "Red miracle", 2007
Nunca é de mais lembrar que bestas como esta andam por aí. Perto, demasiado perto.

Ora aqui está uma excelente parábola sobre os estranhos tempos que atravessamos. Para reflectir neste fim-de-semana gelado.
A degradação do debate no espaço público, designadamente nas chamadas redes sociais, está bem patente nos comentários a este anúncio televisivo de um lóbi antitaurino.
Repare-se como o diálogo entre quem pensa de maneira diferente se vai enquistando e obstruindo à medida que se processa a troca de argumentos. Ao ponto de alguns alegados defensores dos direitos do touro chegarem a sustentar a condenação à morte de quem se assume como amante de touradas. Aparentemente sem repararem até que ponto esta indefensável posição invalida toda a sua lógica argumentativa anterior.
Vivemos num mundo de valores erráticos em que se cruzam correntes antagónicas: não falta, por exemplo, quem pugne pela humanização dos animais enquanto revela uma tolerância sem limites perante a irreversível bestialização do ser humano.
Há quem, ironicamente, aponte a principal responsabilidade por esta inversão de valores sobretudo às produções Walt Disney, organização pioneira na tendência de antropomorfização dos bichos. Mas a questão é mais séria. E deve mesmo levar a interrogar-nos sobre a saúde das democracias liberais num mundo onde toda a divergência de opiniões suscita reacções de brutal intolerância -- desde logo da parte dos que se proclamam tolerantes. Nem todos os sistemas se equivalem, nem todos os valores são relativos. A democracia é um bem demasiado frágil e demasiado escasso: não merece ser desbaratada a todo o momento nas novas plataformas digitais. Que deviam estar ao serviço da cidadania e acabam afinal por pervertê-la a todo o passo.
Em França, um pai aparentemente furioso por o filho de três anos se ter portado mal na creche decide enfiá-lo na máquina de lavar a roupa e ligar o aparelho. A morte trágica da criança indefesa às mãos de quem devia assegurar-lhe sustento, agasalho e segurança em nome do mais elementar traço de civilidade, já para não evocar aqui a voz do sangue, suscita por estes dias larga polémica na pátria de Descartes e Diderot. Andámos durante demasiados anos entretidos por vendedores de ilusões que nos prometiam livre acesso à "modernidade" e supostas engenharias sociais que permitiriam forjar "novas famílias" subitamente despojadas do pecado original. Como se este estranho animal a que chamamos homem fosse moldado em plasticina.
Reparem no que se passa à nossa volta: por toda a parte irrompem sementes de violência, em tudo iguais às que assombram a espécie desde a primeira madrugada do mundo. Percebo bem esta perplexidade generalizada na pátria do iluminismo: andam os arautos da virtude há quase trezentos anos a prometer-nos o homem novo e a todo o momento regressam afinal as sombras do passado, empurrando-nos para longe das luzes, num cíclico retorno às trevas.
Leio as edições digitais dos periódicos franceses, onde não faltam as habituais teses prontas a invalidar o livre arbítrio em função de "factores sociais" que permitem "compreender" senão mesmo justificar os mais repugnantes crimes. Nada de novo: também o extremista norueguês que assassinou 77 pessoas em Julho acaba de ser considerado inimputável por respeitáveis psiquiatras encarregados de o examinar. Crente na bondade natural do homem, esta amável legião de sábios dos nossos dias encara sempre o mal como algo alheio aos tortuosos labirintos da mente.
De novo me interrogo se a noção de progresso é aplicável a qualquer horizonte sulcado pelos descendentes de Caim. De novo me questiono, como Adorno, se é possível haver poesia depois de Auschwitz ter acontecido. De novo me pergunto, com aquela angústia existencial que vislumbramos nos melhores quadros de Munch, se haverá limites para a bestialidade humana.
Luchino Visconti chamou-lhe "La donna più bella dell'universo": Laura Antonelli faz hoje 70 anos. Quantos se lembram ainda de que ela foi uma extraordinária sex symbol do cinema europeu? E quantos recordam ainda como o cinema foi capaz de antecipar a revolução de costumes da década de 60 com o filme E Deus Criou a Mulher, estreado há exactamente 55 anos, com Brigitte Bardot a incendiar paixões na tela?
A cultura pop, que submergiu o Ocidente no último meio século, forja e tritura ícones a uma velocidade estonteante: esta é a sua grande força, esta é a sua enorme fragilidade. Ídolos de pés de barro, vivem da imagem e apagam-se no esquecimento colectivo quando essa imagem fatalmente se extingue. Tanto mais impressivo quanto mais fugaz. "Não somos mais do que o pó das estrelas", ensinou-nos Carl Sagan. Quantas destas estrelas -- as de cinema -- foram por sua vez reduzidas a pó depois de terem povoado os nossos sonhos?
Várias vezes, nos mais diversos locais, somos submetidos a detectores de metais. As câmaras da chamada "videovigilância" estão por todo o lado. Os meios electrónicos que nos facilitam a vida funcionam também como registo permanente do nosso paradeiro -- as vias verdes nas auto-estradas, o multibanco que permite escrutinar onde levantamos dinheiro e a que horas e qual a quantia em causa, o telemóvel sofisticado que traz incorporado um GPS que constitui uma espécie de segunda impressão digital nossa: é impossível viver sem ele, é impossível apagar o traço da nossa passagem com ele, seja por onde for.
A sociedade aterradora delineada por George Orwell, em que a tecnologia constitui já não só um instrumento de um sistema totalitário mas o seu próprio fundamento, ultrapassou as páginas da literatura de ficção, incorporando-se no nosso quotidiano. Quando o próprio Procurador-Geral da República admite estar a ser alvo de escutas telefónicas ilegais, todo o cidadão tem não só o direito mas também o dever de exprimir preocupação. Em nome do combate ao terrorismo ou até à delinquência comum, estamos a fazer recuar drasticamente as fronteiras da privacidade. O mesmo é dizer: as fronteiras da liberdade individual, um valor inestimável.
A semente totalitária começa a germinar assim.
Este vídeo está a correr mundo. Uma menina de dois anos foi atropelada na cidade de Fuzhou, no sul da China. Passaram 18 pessoas por ela -- todas indiferentes ao pequeno corpo inanimado, ali a poucos metros. O alerta acabou por ser dado apenas sete minutos depois por uma empregada de limpeza de 58 anos, chamada Chen Xianmei: a menina foi enfim conduzida ao hospital, já em coma.
As câmaras de vigilância registaram tudo. É uma perfeita imagem do mundo actual: a mais olímpica indiferença colectiva perante o sofrimento alheio. Talvez por isso, a atitude de Chen Xianmei foi recebida com surpresa geral e as autoridades da província de Guangdong, onde se situa Fuzhou, anunciaram já que lhe será atribuído um prémio pecuniário equivalente a três mil dólares. A humilde empregada de limpeza, perplexa, limitou-se a afirmar que cumpriu o seu dever.
Ao contrário do que sucede nos filmes, esta foi uma história sem final feliz. A menina, Wang Yue, acabou por morrer no hospital.
O selvagem anormal que executou a chacina na Noruega regressa à ribalta. Desta vez, o nome do assassino que protagonizou o cobarde massacre protagoniza ainda uma longa metragem. Bem pode o realizador explicar o que quiser, que jamais deixará de ofender o senso comum.
Como já escreveu aqui com toda a oportunidade o nosso Pedro Correia, referindo-se ao «grau máximo de notoriedade» que está na ansiedade de um assassino, «a repetição até à náusea do seu nome, nos mais diversos órgãos de informação, constitui uma homenagem involuntária à barbaridade do acto que praticou» e, assim, «o seu nome banaliza-se, ganhando uma espécie de estatuto de imortalidade». Só que agora nem pode considerar-se que esta "consagração" na Sétima Arte seja involuntária, como é evidente.
Adivinho que a mente perversa do homicida exulta com a própria perversão das pessoas "normais", que parecem insatisfeitas na procura incessante das mais diversas fórmulas para perpetuarem o seu nome, como sempre aconteceu com os autores de muitos outros crimes horrendos. E este estranho endeusamento tanto pode ser atraente para outras mentes distorcidas, como também pode ser inspirador para os mais diversos "criadores" de receitas para a glória fácil.
É bom que o mercado saiba responder-lhes. Como muito bem disse o Pedro Correia, «retemos na memória o nome de demasiados assassinos, o que constitui uma espécie de caução póstuma aos seus actos criminosos». Para uns e para outros, assassinos e pseudo-intelectuais, é importante estarmos cientes da resposta certa. Merecem ser ignorados.
Escuto um daqueles programas destinados a "ouvir a voz do povo" num canal televisivo de notícias. O tema da tarde era a queda da ditadura líbia no preciso momento em que as forças da oposição irrompiam no bunker de Kadhafi, no centro de Trípoli, e se confirmava a conquista da capital após seis meses de sangrenta guerra civil.
Para meu espanto, nem uma só voz se ergueu em defesa dos combatentes anti-Kadhafi. Todas as opiniões exprimiam apoio explícito ou velado ao coronel que oprimiu a Líbia durante 42 anos.
Opiniões como estas:
«A Líbia é um paraíso. É um país como a Suíça, mas [os opositores] deram cabo dele.»
«Preocupa-me saber o que é que estes senhores [da oposição] vão fazer quando chegarem lá [ao poder].»
«Eu nunca estive na Líbia. Mas o que está em causa na Líbia é o dinheiro, é o petróleo.»
«Há duas semanas também houve violência na Inglaterra.»
«Não me venham falar em direitos humanos.»
«O que vão fazer ao Kadhafi? O mesmo que ao Saddam Hussein?»
Trinta e sete anos depois do 25 de Abril, chegámos a isto: queremos a democracia para nós enquanto toleramos e até aplaudimos a ditadura para os outros. Quem lamenta a queda de Kadhafi, pela mesma lógica, alinharia por Marcelo Caetano contra Salgueiro Maia.
«Não me venham falar em direitos humanos.» Uma frase que poderia ter sido proferida por Salazar, reeditada neste Portugal do século XXI. Como se a atracção pelos regimes de "pulso forte" estivesse inscrita no nosso código genético.
Estamos em 2011, como estivemos em 1989, a viver tempos de grande aceleração da História. Um passo é dado sem que tenhamos capacidade para prever qual será o passo seguinte, tão dinâmica é a realidade e tão voláteis são alguns cenários que julgávamos sólidos e resistentes. Há seis meses, por exemplo, nenhum dos mais credenciados observadores da cena política internacional era capaz de vaticinar os movimentos insurreccionais que se sucederam no Magrebe e na Península Arábica contra as ditaduras de diversos matizes ali instaladas. Ben Ali e Hosni Mubarak, que geriam com punho de ferro a Tunísia e o Egipto, caíram do pedestal e viram-se forçados a enfrentar pesadas acusações do foro criminal. O coronel Kadhafi, outrora ídolo da esquerda radical europeia, está cada vez mais cercado no seu bunker de Trípoli, com a Líbia a ferro e fogo, enfrentando um crescente movimento de revolta popular: em desespero, não consegue encontrar melhor modelo do que o Franco de 1939 para garantir que esmagará o seu próprio povo. Na Síria, a ditadura de Assad tenta desesperadamente dispersar a tiro o irreprimível movimento de protesto que leva milhares de pessoas para as ruas em massas compactas de indignação: muitas delas já pagaram com a vida este impulso em defesa da liberdade.
Ao contrário do que pensadores como Hegel e Marx defendiam no século XIX, há sérios limites para a capacidade de previsão em História. Que o digam todos aqueles cultores da realpolitik - com Henry Kissinger à cabeça - que nas décadas de 70 e 80 agiam como se a política de blocos nascida da Conferência de Ialta estivesse inscrita nas estrelas, como garantia para a eternidade. Nenhum deles foi capaz de prever aquele inesquecível ano de 1989, quando toda a Europa de Leste submetida ao domínio comunista se desmoronou como um castelo de cartas e o Muro de Berlim ruiu enfim sob a pressão de quantos o viam como aquilo que de facto era: um inaceitável símbolo de intolerância e repressão.
O mundo bipolar que ditou o destino de três gerações tornou-se tão obsoleto como a grafonola, o telégrafo ou a máquina de escrever. Mas pelo menos uma lição podemos e devemos extrair tanto dos acontecimentos de 1989 como deste extraordinário ano de 2011 ainda em curso: não é possível governar os povos pela força durante o tempo todo. Nenhuma região do mundo está imune aos ventos da liberdade.
De súbito, sobe da rua um ruído que me soa a algo muito antigo, vindo dos confins das décadas. Acorro à janela. É o que eu pensava: um amola-tesouras, empurrando o carrinho enquanto toca o inconfundível realejo, fazendo-se anunciar a quem precisa de recorrer aos seus bons ofícios.
Vejo-o progredir lentamente no passeio da avenida como se fizesse uma inesperada viagem no tempo: este era um dos sons tradicionais da minha infância. Raro era então o dia em que não passava à nossa porta - noutras ruas de outras cidades - um amolador, pronto a consertar varetas de guarda-chuvas ou qualquer utensílio doméstico, pronto a devolver o gume de facas à sua condição natural. Isto sucedia antes da era do usa-e-deita-fora, em que nos desabituámos de remendar ou reparar o que quer que fosse: ao mínimo estrago, à menor amolgadela, ao mais ínfimo rasgão, comprava-se logo algo de novo.
Os tempos mudaram. Vivemos dias de crise, desemprego e exclusão social. Tempos que forçam muita gente a ir à luta, a arregaçar as mangas, a fazer-se à estrada, a retomar ofícios aprendidos com pais e avós. Jardins de habitações são de repente transformados em hortas, até nas grandes cidades. Propriedades rurais deixadas ao abandono, onde o mato silvestre crescia sem obstáculo de qualquer espécie, passam a ser cultivadas. Estofadores, marceneiros, limpa-chaminés voltam a ser profissões com grande oferta e procura. Multiplicam-se as pequenas lojas de reparações de fatos, calças, camisas e vestidos: vejo algumas delas, no bairro onde habito, trabalhando noite adiante, já após o horário habitual do fecho do comércio.
Este é o melhor lado da crise: aquele que incentiva o regresso ao engenho de cada um para dar a volta à sorte, para dar a volta à vida. Mas há o pior. Aumenta o número de pessoas a pedir esmola envergonhada nas ruas - gente sem trabalho, que deixou de conseguir pagar a prestação da casa, gente que devido a uma doença ou um divórcio viu tudo tornar-se de repente ainda mais difícil e caminha sem destino, implorando "alguma coisinha" para uma malga de sopa.
A crise está presente noutros quadros do nosso quotidiano. Proliferam as lojas que proclamam em letras garrafais: "Compra-se ouro". Este metal precioso nunca esteve tão bem cotado no mercado internacional, o que tem levado muitos a desfazer-se de peças de valor pessoal inestimável para obter algum dinheiro vivo em troca. E reabrem outros estabelecimentos mais sombrios, que não via igualmente desde a minha infância: as lojas de penhores, agora também cada vez com maior procura.
Penso nisto tudo enquando escuto a música do amolador dissipando-se à distância. Só não regressa outro som inconfundível dos meus tempos de menino: o dos pregões dos ardinas, anunciando jornais vespertinos. Ficou célebre o daquele, comunista, que gritava "Lisboa Capital República Popular!" Uma original forma de anunciar a venda de exemplares do Diário de Lisboa, A Capital, a República e o Diário Popular.
Os ardinas não voltam. Deixou de haver vespertinos e a própria palavra caiu tanto em desuso que soa já a português arcaico. Nenhum daquelas jornais que permitiam o trocadilho do engenhoso comunista existe hoje e são cada vez mais insistentes os rumores sobre o possível encerramento de alguns outros. É um efeito adicional da crise: com tão pouco dinheiro disponível, as pessoas começam por cortar no consumo da imprensa, que aliás por estes dias quase só divulga más notícias.
E para isso bem basta o que já se sabe.
Aproveito a tarde soalheira mas fresca para um longo passeio a pé entre Campo de Ourique e o Saldanha. Os lisboetas andam pouco a pé: cruzo-me quase só com turistas.
De caminho, passo por ruas inteiras que são um autêntico pesadelo estético, com as fachadas dos prédios sistematicamente desfiguradas por marquises, essa triste instituição nacional – e lisboeta em particular. O que levará os nossos compatriotas a fechar as varandas neste país felizmente tão bafejado pelo sol?
No Largo do Rato, passo pela histórica Papelaria Fernandes, que ainda ali marca presença apesar das notícias sobre a sua iminente falência. Mas logo a seguir, já na rua Alexandre Herculano, verifico que a charcutaria Brasil deixou de existir: era um dos melhores estabelecimentos do género na capital, tinha clientes famosos (uma vez vi lá Mário Soares), mas nem isso a fez resistir à crise. “Foi vendida”, informa-me o empregado de um café vizinho, onde não se vislumbra um só cliente. No lugar da inconfundível charcutaria há agora obras que se destinam a um estabelecimento de características bem diferentes.
Na rua Braancamp, a poucos metros do prédio onde vive José Sócrates, uma moto passa por mim e logo se imobiliza a poucos metros, num semáforo. Ouço o condutor: “Tás bom, Pedro?” É o ministro da Solidariedade e da Segurança Social, Luís Pedro Mota Soares. Sentado na sua vespa, com a maior simplicidade do mundo. Este é, de facto, um Governo diferente do que estávamos habituados…
Perto das Picoas, na rua Sousa Martins, também o restaurante Sucre – um dos meus preferidos – deixou de existir, dando lugar a um pronto-a-comer qualquer. Os restaurantes alfacinhas sofreram uma quebra de 30 por cento na clientela desde que a crise se instalou em força. A muitos, sem crédito bancário disponível nem clientes, só resta fechar as portas.
No Saldanha, entro numa das minhas livrarias favoritas. Há uma nova edição portuguesa do melhor romance da I Guerra Mundial. A Oeste Nada de Novo, de Erich Maria Remarque. Tenho um exemplar velhinho, que pertenceu ao meu avô paterno, antigo combatente em La Lys. Hesito: comprarei esta versão actualizada? Mas logo nas primeiras páginas a editora me informa que o texto “está conforme” as novas regras estabelecidas no (des)Acordo Ortográfico. Desfeito o dilema: reponho de imediato o livro na estante.
Folheio duas outras obras: A Volta do Gato Preto, o diário que Erico Veríssimo escreveu durante a sua permanência nos Estados Unidos, nos anos da II Guerra Mundial. Nunca li este livro, ainda por cima de um género literário que tanto me seduz. Mas reparo no preço: 28 euros. Excessivo. Pelo mesmo motivo, não trago uma biografia de George Gershwin, do brasileiro José Olympio, que também gostaria muito de ler: igualmente 28 euros. O aumento do IVA afugenta cada vez mais os leitores. Vejo por mim.
Mas não saio de mãos a abanar: trago El Hombre que amaba a los perros, do cubano Leonardo Padura. Por apenas 12 euros. Dizem-me que há já uma tradução portuguesa. Mas é seguramente mais cara e assim tenho o prazer acrescido de ler Padura no original.
No pórtico da obra, uma citação de Gregorio Marañón: “La vida es más ancha que la história.” É bem verdade.
Amy Winehouse morreu com apenas 27 anos e quase ninguém pareceu surpreendido. Como se fosse algo inevitável: havia um funesto destino a marcar encontro com ela há muito tempo. Tinha um talento vocal ímpar - bem expresso nas interpretações que nos deixou em temas como Back to Black, Rehab, Love is a Losing Game e You know I'm no good - e, ao mesmo tempo, uma absoluta incapacidade para lidar com a fama.
Interrogo-me com frequência sobre a multidão de artistas do mundo da música, dos mais diversos géneros, que se afunda nos abismos do álcool, das drogas e da solidão. Abraçam o fracasso por absoluta incapacidade psicológica de encararem o êxito. Amy Winehouse é apenas a mais recente de uma longa lista que inclui Elvis Presley, John Coltrane, Billy Holiday, Elis Regina, Janis Joplin, 'Mama' Cass Elliot, Dalida, Keith Moon, Karen Carpenter, Charlie Parker, Dolores Duran, Judy Garland, Jim Morrison, Brian Jones, Chet Baker, Dinah Washington, Sid Vicious e Kurt Corbain. Entre tantos outros.
Desaparecidos na voragem do palco, entre mil focos de angústia nos bastidores. Tocados por uma irreprimível fúria de viver, morrem sempre cedo de mais.
Há um nome de um assassino que nunca me sairá da memória: Shiran Bishara Shiran. Foi o indivíduo que matou traiçoeiramente Robert Kennedy, irmão do malogrado presidente, na cozinha de um hotel em Los Angeles, quando o ex-procurador-geral dos EUA, com apenas 42 anos, acabava de ganhar a decisiva primária da Califórnia pelo Partido Democrata, o que o colocava em excelente posição para concorrer à Casa Branca.
Corria o mês de Junho de 1968. Eu era um miúdo mas já acompanhava com todo o interesse as imagens dos telejornais e Robert Kennedy foi o primeiro dos meus heróis. Fixei para sempre o rosto escuro e triste daquele indivíduo natural da Palestina que, ao premir o gatilho, matou também para sempre os sonhos de milhões de norte-americanos. Escapou por um triz a ser executado, após ter sido condenado à morte, pois a pena capital acabou entretanto por ser abolida no estado da Califórnia, e ainda hoje está detido. Um destino bem diferente do de Lee Harvey Oswald, o assassino de John Fitzgerald Kennedy a 22 de Novembro de 1963 e por sua vez assassinado dois dias mais tarde, em Dallas, por um tal Jack Ruby, figura do bas fond. Este último foi o primeiro homicídio transmitido em directo pela televisão – para os EUA e para o mundo todo. Algo impensável em 14 de Abril de 1865, quando John Wilkes Booth assassinou o presidente Abraham Lincoln enquanto este assistia a uma representação teatral em Washington.
Tenho pensado um pouco em tudo isto por estes dias, a propósito do massacre na Noruega. O que assassinos deste calibre procuram, sob um pretexto político, religioso ou outro qualquer, é um grau máximo de notoriedade – se possível à escala universal. A repetição até à náusea do seu nome, nos mais diversos órgãos de informação, constitui uma homenagem involuntária à barbaridade do acto que praticou. O seu nome banaliza-se, ganhando uma espécie de estatuto de imortalidade. Foi assim com Booth, foi assim com Oswald.
É por isto que me revejo por inteiro naquilo que Jorge Almeida Fernandes escreveu há dias no Público. «Em Julho de 356 a.C um anódino Eróstrato incendiou o Templo de Artemisa, em Éfeso, de que se dizia ser uma das “sete maravilhas do mundo”. Assumiu que o fizera como desesperado meio de alcançar a glória. O sacrilégio foi condenado com a morte. Como póstuma punição, os magistrados proibiram os efésios de jamais citarem o seu nome, que foi também apagado de todos os documentos. Mas um historiador de outra cidade nomeou-o, outros o repetiram e Eróstrato entrou na História. Ninguém conhece o nome do arquitecto que desenhou o templo de Éfeso. Tal como Eróstrato, B. está a ganhar.»
B. é o assassino norueguês. Recuso-me a escrever e até a fixar o seu nome. Como certamente sucede com Almeida Fernandes, indigna-me vê-lo a toda a hora impresso e difundido pelos órgãos de informação. Como se de um filantropo ou um benemérito se tratasse. Como se fosse uma figura familiar, muito lá de casa. Como, no fundo, fosse um de nós.
Não é um de nós. E, por mim, nenhum jornalista deveria atribuir-lhe o estatuto de Eróstrato do nosso tempo. Retemos na memória o nome de demasiados assassinos, o que constitui uma espécie de caução póstuma aos seus actos criminosos. Entristece-me saber que jamais apagarei da memória o nome de Shiran Bishara Shiran – o primeiro homicida de que ouvi falar quando percebi, menino ainda, que o Mal é capaz de triunfar sobre o Bem e assombrar-nos para sempre. Como um lado lunar dos contos de fadas. Na vida, ao contrário do que sucedia nos filmes e séries da nossa infância, nenhum final feliz está garantido.
Morreu António Jorge Branco, uma figura inconfundível da rádio portuguesa, a quem muitos profissionais da comunicação justamente chamavam mestre. Morreu Joaquim Lobo, um dos nossos melhores fotojornalistas, testemunha de momentos irrepetíveis da História. Morreu, aos 98 anos, uma figura singular da política europeia do século XX: o arquiduque Otto de Habsburgo, último herdeiro do trono austro-húngaro, nascido ainda antes da I Guerra Mundial, durante o reinado do avô, o imperador Francisco José, e descendente de uma dinastia que dominou a Europa Central durante quase sete séculos.
Cada qual à sua escala, a vida destes homens dava um filme - a do arquiduque, que chegou a viver refugiado no Funchal, dava seguramente uma longa-metragem. Durante a II Guerra Mundial, Hitler mandou executá-lo: escapou da morte ao ser salvo por Aristides de Sousa Mendes. Distinguiu-se como deputado no Parlamento Europeu (1979-99) e foi um dos grandes responsáveis pela fuga de húngaros para o Ocidente em 1989, o que viria a influenciar decisivamente a queda do Muro de Berlim. Viria a estar sempre ligado a Portugal, como o seu pai, o imperador Carlos, falecido na Madeira em 1922. "Hasta el último dia de sua vida, el emperador expresó su agradecimiento hacia los campesinos de Madeira, que acudían a la casa en la que se refugiaba la familia imperial com alimentos frescos e sencillos regalos para el pequeño Otto", lembrava hoje o El Mundo, em artigo de página inteira.
No entanto, ao ler a imprensa portuguesa, não vi nenhuma destas notícias desenvolvidas para além de uns banalíssimos parágrafos de circunstância. Um bom obituário, escrito com a paixão de quem gosta de narrar histórias, podia e devia fazer a diferença na imprensa diária, cada vez mais previsível e redundante. Hoje houve estas três oportunidades praticamente perdidas. E só faço a ressalva devido à talentosa veia nostálgica do Ferreira Fernandes, no DN. Excepção à regra. Mas porquê apenas esta?
Imagem: casamento de Otto com a princesa Regina, em Nancy, França (1951)
Tanto barulho para nada. Andam os espíritos muito alvoroçados porque um simpático duo intitulado Os Homens da Luta, composto pelos irmãos Jel e Falâncio, venceu o Festival RTP da Canção com um tema “revolucionário”. Que horror. As tias “socialistas” tremem de indignação: que mau aspecto, que falta de chá, a imagem portuguesa ficará manchada por estes nossos representantes no certame da Eurovisão, a realizar em Düsselforf. A começar pelo nome da cançoneta que se atreveram a levar ao palco do Teatro Camões, em Lisboa: A Luta é Alegria.
Nada disto faz sentido. O Festival RTP permanecia moribundo há pelo menos 15 anos. Jel e Falâncio acabam de recuperá-lo do estado comatoso em que se encontrava: de repente quase não se fala de outra coisa em Portugal. A RTP vive, graças a eles, um inesperado (e talvez indesejado) momento de glória como só tinha ultimamente por ocasião de uma ocasional partida de futebol. Além disso, os Homens da Luta não nasceram ontem: têm muita estrada percorrida. Começaram há anos com um programa intitulado Vai Tudo Abaixo , na SIC Radical, que era uma corrosiva diatribe aos hábitos e costumes portugueses, sem poupar nada nem ninguém. Munidos de uma viola e de um megafone, irrompiam em comícios, manifestações, celebrações laicas e religiosas, e até em posses de governos, como herdeiros improvisados das sátiras vicentinas à dimensão dos tempos actuais. Não se especializaram no humor politicamente correcto, liofilizado e engomadinho de outros: eles adoram mesmo disparar em todas as direcções. Por isso a rábula que levaram ao palco do festival visa caricaturar, em primeira linha, certos baladeiros pós-25 de Abril, com a sua música pseudo-revolucionária misturando estribilhos com batida folclórica, e em segunda linha funciona como uma farpa afiada aos actuais detentores do poder político, autênticos vendedores de ilusões.
Se Portugal fizer má figura na Alemanha, nos tempos mais próximos, certamente não será por culpa dos Homens da Luta. Segundo as mais recentes sondagens, 60 por cento dos contribuintes alemães – muitos dos quais irão a votos este ano, em sucessivas eleições estaduais – recusam continuar a financiar a dívida pública de países como Portugal com os seus impostos. A luta continua. Mas a nossa velha lata de persistir em viver de dádivas alheias, muito acima das nossas possibilidades e sem olhar a consequências, parece ter os dias contados. Ainda bem.
Hoje sabe-se quando uma revolução está no bom caminho.
É quando são milhões e há flores.
É quando as mulheres têm voz.
É quando os militares também são povo e a solidariedade não tem fronteiras.
É quando a liberdade não tem idade e a resistência tem pão.
É quando todas as ditaduras são denunciadas e rejeitadas.
É quando existe informação sem fronteiras.
É quando as pedras servem para gravar mensagens.
É quando os exemplos dos outros não foram em vão.
É quando pessoas de religiões diferentes rezam juntas em público.
Há cinco anos, todos os cenários jornalísticos estavam montados para uma bipolarização nas eleições presidenciais. Para muitos comentadores e vários jornalistas que tomavam decisões editoriais, apenas dois candidatos contavam: Cavaco Silva e Mário Soares. Esta é a lógica do sistema: raciocinar em dicotomia simples. Ou simplista. Um cenário que envolva mais que duas opções faz confusão a muita gente. Porque, tal como nas brincadeiras de crianças, é sempre mais fácil catalogar os políticos em duas categorias: os bons e os maus. Índios e cobóis, polícias e ladrões. Os bons são os nossos, os maus são os deles.
Nem o melhor jornalismo escapa a esta lógica maniqueísta. Só isto explica que o Expresso tenha publicado uma edição de 40 páginas a uma semana das presidenciais sem mencionar numa só linha o candidato Fernando Nobre, subitamente riscado da corrida a Belém em nome de critérios “jornalísticos” semelhantes aos que levaram os apaniguados de Estaline a apagar as imagens de Trotsky das fotos da Revolução de Outubro. O mesmo maniqueísmo que levou um comentador como Daniel Oliveira (também com coluna no Expresso) a proferir quatro vezes seguidas, como se martelasse uma evidência, a frase “há dois candidatos” na última emissão do Eixo do Mal. À força de tantas vezes repetidas, certas inverdades perdem o prefixo.
Vários destes jornalistas e comentadores são os mesmos que em 2006 não conseguiram digerir o segundo lugar obtido nas urnas por Alegre, com um milhão e 125 mil votos, correspondentes a 20,7% dos sufrágios. Ainda hoje devem interrogar-se: como foi possível um candidato presidencial não apoiado por qualquer partido político ter chegado tão longe?
Não aprenderam nada em cinco anos.
ADENDA. Clara Ferreira Alves na mesmíssima edição do Expresso: "Nunca foi tão visível o empobrecimento intelectual do jornalismo e da política." Pois.
Em 2010, certas palavras e expressões entraram no léxico corrente, à escala internacional, e algumas delas tornaram-se até substantivos comuns. Essas palavras traduzem muito do que foi o ano passado, para além da inevitável e insuportável crise económica.
Eis cinco delas:
Vuvuzela - Este irritante instrumento de sopro assombrou os jogos da fase final do campeonato do mundo de futebol, disputado na África do Sul. De repente, em poucos dias, milhões de vuvuzelas saltaram das bancadas desses estádios para os vulgares cenários do nosso quotidiano, afastando-nos ainda mais um pouco de um bem que se tornou muito escasso: o silêncio.
Eyjafjallajökull - Nome do vulcão islandês que despejou cinzas nos céus da Europa, perturbando durante vários dias as ligações aéreas no Velho Continente. A palavra é quase impronunciável mas este vulcão confirmou a urgência de intensificar alternativas ao transporte aéreo num ano em que os aeroportos também foram afectados pelo mau tempo e pela greve selvagem dos controladores de tráfego aéreo espanhóis.
Tea Party - Há quem os acuse de ter uma imensa falta de chá, ao contrário do que o nome indica, mas a verdade é que os conservadores norte-americanos agrupados nesta sigla com crescente impacto mediático demonstraram em 2010 que vieram para ficar, influenciando as primárias do Partido Republicano nas eleições intercalares em que Barack Obama perdeu a maioria na Câmara dos Representantes. Voltaremos a ouvir falar muito deles em 2011 e 2012.
Bunga bunga - Era uma espécie de código sexual que servia de senha a certas amigas de porte duvidoso do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. As revelações do mais recente escândalo protagonizado pelo empresário de Milão que metade de Itália ama e outra metade odeia trouxeram este termo para a praça pública. Continua a ignorar-se ao certo o que significa, mas passou a andar na boca dos italianos. E não só.
WikiLeaks - Pode uma organização virtual, acerca da qual pouco ou nada se sabe, constituir uma ameaça para a segurança dos estados contemporâneos, dinamitando o segredo das malas diplomáticas em nome da necessidade de tornar tudo "transparente"? A resposta é afirmativa. E resume-se numa palavra que percorreu 2010: WikiLeaks. Se a política é a arte do possível, a diplomacia internacional perante a ameaça permanente da quebra do sigilo tornou-se uma tarefa quase impossível. Algo sem dúvida preocupante. Porque a alternativa à diplomacia costuma ser a guerra.
Como bem anota o Miguel Marujo, também eu estranho o ensurdecedor silêncio do deputado socialista Miguel Vale de Almeida, tão fervoroso crítico da tolerância de ponto concedida a 13 de Maio. O que era intolerável então, é aceitável hoje, dia em que a capital parou para deixar passar as limusinas de Obama, Sarkozy, Berlusconi e tutti quanti. É até capaz de ser giro, sei lá.
Morreu Luis García Berlanga, o maior cineasta espanhol de sempre após Luis Buñuel. Os jornais espanhóis de hoje - como se pode verificar aqui, aqui e aqui - dedicam várias páginas à vida e obra do autor de filmes como Bienvenido Mister Marshall, El Verdugo e La Vaquilla. Inteiramente compreensível e digno de aplauso. O que de todo não se compreende é que dos quatro jornais diários portugueses de expansão nacional apenas um tenha estado atento a este facto. Dois ignoram totalmente a morte do cineasta e um terceiro arruma a coisa em meia dúzia de linhas, adulterando o seu nome.
Como jornalista, só posso lamentar tão escandalosa omissão. E reconhecer aqui, como em tantos outros factos do quotidiano, a gritante crise do nosso jornalismo, cada vez mais divorciado dos leitores a que se destina, cada vez mais mergulhado no fait divers inócuo, na frivolidade que não ultrapassa a espuma dos dias. Por desleixo, incúria, falta de investimento nas redacções, falta de exigência, falta de cultura e uma pavorosa falta de memória. Um triste, lamentável e acentuado ocaso.
Na segunda metade da década de 20, Portugal perdera virtualmente a soberania no capítulo económico. A bancarrota espreitava. À esquerda e à direita, reclamava-se "mão forte": era preciso aparecer alguém que pusesse as contas públicas em ordem. A república, que nascera entre fervores nacionalistas como reacção ao ultrajante ultimato inglês de 1890, conduzira o país a um vexame ainda maior: em 1926, Portugal vivia de empréstimos externos, já via fugir os créditos bancários internacionais e começava a depender da caridade alheia.
As condições estavam maduras para a entrada em cena de um jovem especialista em finanças, de pendor autoritário, catedrático da Universidade de Coimbra com manifesto desdém pelos jogos políticos lisboetas e pela balbúrdia do regime implantado década e meia antes. António de Oliveira Salazar tinha 37 anos quando chegou pela primeira vez ao Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço. Demorou-se poucos dias: a ditadura militar não lhe dava as condições de mando que pretendia. Regressou dois anos mais tarde, numa situação de ainda maior penúria, e dessa vez demorou-se 40 anos exactos. A incompetência generalizada da classe política, tanto do 5 de Outubro como do imediato pós-28 de Maio, abriu caminho a esta longa ditadura unipessoal que começou por legitimar-se no domínio das finanças: a bancarrota foi evitada, as contas públicas ganharam equilíbrio e o défice deu lugar em poucos anos a um surpreendente superavit. O resto da história sabemos qual foi.
Lembrei-me hoje de tudo isto ao ouvir num café, em voz bem alta, a conversa de dois homens na casa dos 30 anos.
- Eu não vivi no tempo do Salazar. Certo que era uma ditadura e havia a PIDE, mas ouço dizer que nessa altura tínhamos boa azeitona, boa agricultura, tudo - dizia um.
- Cambada de chulos - reclamava outro, referindo-se aos políticos actuais, alguns dos quais mencionando-os pelos nomes.
Pela conversa, um e outro pareciam desempregados: o diálogo de café deve ajudá-los a combater o tédio dos dias sem perspectiva de futuro. Ouço esta e muitas outras conversas do nosso quotidiano quando está quase à porta 2011, um ano que todos antevemos como pior do que este já foi, e questiono-me sobre o ovo da serpente que a incompetência dos políticos actuais está a germinar.
Enquanto em Portugal se aposta no rotineiro e no previsível, numa corrida presidencial que volta a excluir as mulheres, aparentemente sem uma palavra de indignação das feministas de serviço, os brasileiros insistem em fazer História. Há oito anos, elegeram um operário metalúrgico e líder sindical para o Palácio do Planalto. Agora acabam de eleger uma mulher para o lugar de Lula, que abandona o poder em ombros, deixando o país com uma taxa de crescimento económico de 6,5% - o dobro da que José Sócrates prometeu para Portugal (e não cumpriu, como sabemos).
Este excelente desempenho económico brasileiro - o terceiro melhor do mundo, após o da China e o da Índia - explica os elevadíssimos índices de aprovação popular de Lula, na ordem dos 80%. O terreno fora preparado antes, pelo Plano Real de Fernando Henrique Cardoso, o melhor presidente brasileiro desde Juscelino. Mas Lula, que não percebe nada de finanças nem consta que tenha biblioteca, revelou-se exímio na arte de não estragar o melhor legado do antecessor. E fez mais: lançou a Bolsa Família, aproveitando o superavit das contas públicas para arrancar 20 milhões de brasileiros da miséria. E projectou, com mais vigor que nunca, o seu país na cena política internacional, mesmo que para isso tivesse de venerar algumas das figuras mais execráveis do planeta.
Sabe-se qual foi o reverso da medalha: o Partido dos Trabalhadores, instalado em Brasília, transformou a ética política num conceito muito relativo. Sucederam-se os escândalos de corrupção, tráfico de influências e abuso de poder no país do "jeitinho". Os dois putativos sucessores de Lula, José Dirceu e Antonio Palocci, foram devorados nestes escândalos, que também não poupou Erenice Guerra, substituta de Dilma no Executivo e ex-fiel colaboradora da nova Presidente, que terá uma longa e penosa tarefa se apostar seriamente na moralização dos costumes num país que celebrizou a frase "rouba, mas faz", alusiva ao ex-governador de São Paulo Ademar Barros.
Depois de ter cortejado as congregações religiosas - e a Igreja Católica em particular - durante a campanha, sem provocar sobressaltos de indignação nas patrulhas laicistas de turno deste lado do Atlântico, Dilma conseguiu aquilo que muitos considerarão um milagre político: sobe ao poder sem ser "esposa de", como a argentina Cristina Fernández Kirchner, ou "filha de", como a popular Michelle Bachelet, que cumpriu um excelente mandato presidencial no Chile. É certo que por detrás desta mulher há notoriamente um homem: Lula, que a designou como sucessora e herdeira política. Mas Dilma tem biografia, talento e determinação - saberá decerto dar um cunho muito próprio ao seu mandato. Com as bênçãos dos orixás e do Senhor do Bonfim.
Houve um tempo em que os brasileiros se agigantavam no futebol e se banalizavam na política. Hoje, é o contrário. Felizmente para eles. E também para nós.
Vi há dias a líder dos socialistas franceses, Martine Aubry, numa manifestação de protesto em Paris contra a decisão do Governo de aumentar a idade de reforma dos 60 para os 62 anos. E ouvi-a proferir declarações indignadas contra esta medida, que se destina a viabilizar o sistema público de pensões em França, país que tem sérios problemas de natalidade e índices crescentes de esperança de vida: segundo as estimativas oficiais, daqui a duas décadas 31% da população terá pelo menos 60 anos, o que altera drasticamente a tradicional proporção entre trabalhadores activos e trabalhadores aposentados, base essencial do sistema.
Numa altura em que toda a Europa faz imensos sacrifícios em nome das gerações futuras, esta posição da dirigente máxima do PSF pareceu-me profundamente demagógica, irresponsável e até indigna de alguém que tem sérias ambições políticas. Interrogo-me o que faria Martine Aubry se estivesse no Governo. Certamente nada muito diferente do que o seu camarada Zapatero, presidente do Governo de Madrid, que em Maio anunciou a subida de 65 para 67 anos da idade da reforma em Espanha. E daquilo que o primeiro-ministro Giorgio Papandreou – também socialista – se viu obrigado a pôr em prática na Grécia, aliás de acordo com as receitadas preconizadas pelo FMI, cujo presidente é o socialista francês Dominique Strauss-Kahn. Já para não falar nas restrições que José Sócrates – igualmente parceiro de Aubry na Internacional Socialista – impôs este ano, por duas vezes, em Portugal.
A diferença entre um demagogo e um estadista é que o demagogo pensa na eleição seguinte e o segundo pensa na geração seguinte. Martine Aubry merece, sem dúvida, o primeiro dos qualificativos e está muito longe de justificar o segundo. Nem por isso lhe auguro sucesso nas próximas eleições francesas.
Estamos a ser testemunhas de um dos momentos mais tristes da História: o do fim do estado de bem-estar, do estado social, do estado-providência que levantou a Europa das cinzas da guerra. Este período prolongou-se por 60 anos e teve os seus heróis: Alcide de Gasperi, Konrad Adenauer, Clement Attlee, Robert Schumann, Paul-Henri Spaak, Jean Monnet (europeus), Harry Truman e George Marshall (norte-americanos). Foi um período ímpar de crescimento económico e paz social, com largos anos de pleno emprego e um cortejo de conquistas em vários planos - da queda drástica da mortalidade infantil à virtual erradicação do analfabetismo. Foi uma revolução sem bombas nem mortos - uma revolução silenciosa que levou o progresso a centenas de milhões de pessoas no continente europeu e, por natural contágio, a outras partes do mundo.
Um longo caminho se percorreu dos heróis de então aos vilões actuais, coveiros do estado social que garantiam proteger. De uns e outros falará a História - a que se deixa seduzir pelos factos, não pela propaganda.
Fotos: Gasperi e Adenauer
Esta é já, para mim, a frase do ano. Foi proferida por um dos 33 mineiros libertados por um prodígio de tecnologia após 69 dias de cárcere imprevisto 700 metros abaixo de terra. "Estuve con Dios y estuve con el diablo. Me pelearon y ganó Dios, me agarré de la mejor mano." É esta a frase, proferida pelo extrovertido Mario Sepúlveda, o segundo mineiro que regressou à superfície naquele já inesquecível 14 de Outubro, o primeiro de dois dias que fez colar mil milhões de pessoas aos ecrãs televisivos em todo o mundo. "La mejor mano" possibilitou que esta história, ao contrário de quase todas que nos vão chegando ao domicílio, tivesse um final feliz. Mais emocionante, mais empolgante, mais cheia de imprevistos e com muito melhor elenco do que a esmagadora maioria da ficção televisiva e dos reality shows que se produz actualmente. Foi uma espécie de fim de ciclo, completando a aventura espacial de há 40 anos. Nessa altura, o homem aventurou-se em direcção a outro planeta; agora desce às entranhas da Terra, como as personagens de Verne, e regressa para relatar o que viu.
Heróis do nosso tempo, estes mineiros: vamos ouvir falar deles através dos anos. A operação de resgate que os devolveu à luz do dia resgatou-nos também, de algum modo, o orgulho pela espécie humana, tão abalado tem andado por estes dias.
Faz agora cem anos, o inquilino da Casa Branca era um republicano de grande corpulência e bigodes farfalhudos chamado William Howard Taft. A imagem dele, vista pelos olhos de hoje, é totalmente anacrónica: Taft (na foto em baixo) foi o último presidente dos EUA a poupar nas lâminas de barbear. Os 17 líderes norte-americanos que se seguiram, de Woodrow Wilson a Barack Obama, apresentaram-se aos eleitores de face escanhoada. Barba, pera ou um prosaico bigode ficaram desde então arredados do número 1700 da avenida Pensilvânia, em Washington.
Com o atraso sempre habitual nestas coisas, os políticos europeus adoptaram a moda americana. Desde logo no Reino Unido, onde o rei Jorge V, falecido em 1936, foi o último monarca a usar barba, outrora um indispensável adereço da aristocracia britânica. Os filhos que lhe sucederam, Eduardo VIII e Jorge VI, disseram adeus aos pelos faciais: patilhas, cavanhaques, bigodes retorcidos tornaram-se símbolos de outros tempos, associados a vultos oitocentistas como Otto von Bismarck e Giuseppe Garibaldi.
Apesar de tudo, o bigode resistiu mais tempo no Reino Unido. O último chefe do Governo a usá-lo foi Harold Macmillan, um conservador que abandonou o poder em 1963. Seis anos depois, os franceses viam partir do palácio do Eliseu o general Charles de Gaulle, último chefe do Estado gaulês militar, último chefe do Estado gaulês com bigode.
Mais finos ou mais exuberantes, os bigodes estiveram associados ao poder totalitário. Talvez isto explique o facto de todos os líderes políticos subsequentes a Hitler e Estaline, na Alemanha e na Rússia, terem optado pela lâmina de barbear. Foi logo assim com o primeiro chanceler alemão do pós-guerra, Konrad Adenauer (1949), e com o homem que em 1953 substituiu Estaline no Kremlin, Nikita Krutchov. E assim tem sido com todos os outros de então para cá.
Hoje seria quase impensável um político obeso e de grandes bigodes, como Taft (1857-1930), vencer uma eleição presidencial ou legislativa. Embora esta seja a regra, há sempre uma excepção que a confirma: José María Aznar, um homem de baixa estatura e grande bigode, foi primeiro-ministro em Espanha entre 1996 e 2004. Isto apesar de o bigode estar associado ao franquismo: Francisco Franco e outros destacados membros da sua ditadura tinham bigode, o que não sucede com o actual Rei Juan Carlos e já não sucedia com o seu pai, o conde de Barcelona – um antifranquista convicto.
É uma evidência histórica: as ditaduras estão em regressão acelerada. Até na América Latina, onde outrora pontificavam tiranos como Trujillo e Pinochet (que usavam bigode). E ninguém gosta de ser associado a elas, ainda que de forma subliminar. O próprio Aznar, que hoje viaja com frequência aos Estados Unidos, rendeu-se à moda: disse adeus ao bigode. De Taft aos nossos dias foi uma longa caminhada.
De D. Pedro a Santana Lopes
Em Portugal, o último chefe do Estado a usar bigode foi o marechal Óscar Carmona, falecido em 1951. Todos os dirigentes militares da ditadura instalada em 28 de Maio de 1926 – como Gomes da Costa, Mendes Cabeçadas e o próprio Carmona – tinham bigode. A moda vinha de trás: os últimos reis portugueses, de D. Pedro IV a D. Manuel II, usavam um bigode bem característico da dinastia de Bragança. E entre os sete presidentes da breve I República (1910-26), apenas o almirante João Canto e Castro, inquilino de Belém entre 1918 e 1919, tinha a cara barbeada. Tal como viria a suceder com todos os presidentes e primeiros-ministros pós-25 de Abril. António Guterres chegou a usar um típico bigode mexicano e Pedro Santana Lopes gostava de aparecer de barba. Mas ambos se apresentaram de face escanhoada quando chegaram ao poder. Em política, o que parece é.
Nunca devemos menosprezar a estupidez humana como força motriz da história. Muitos actos do nosso quotidiano só são explicáveis à luz da imensa estupidez que os motiva. Repare-se em dois acontecimentos muito recentes que tiveram amplo eco na imprensa mundial: um russo com idade para ter juízo morreu, à impensável temperatura de 110 graus, quando disputava um concurso destinado a apurar quem conseguiria resistir mais tempo sob o sufocante calor extremo de uma sauna finlandesa; um reputado cirurgião plástico, daqueles que costumam recauchutar mil beldades de Hollywood, morreu num acidente de trânsito em Los Angeles enquanto enviava um twitter com o mais recente retrato do seu caniche de estimação ao mesmo tempo que conduzia. O caniche, talvez por viajar no banco de trás, sobreviveu ao acidente.
Dois casos que são também notórios sinais dos tempos: por um lado, a desenfreada tentação de protagonismo a qualquer preço; por outro, as novas tecnologias ao serviço do culto da futilidade.
Pura estupidez.
Um pouco por toda a Terra, a Marcha Contra a Fome começou hoje na Austrália e está a angariar fundos destinados ao Programa Alimentar das Nações Unidas, a fim de minorar as carências dos povos mais pobres do mundo, onde todos os dias se morre por falta de alimentos. No Porto e em Lisboa, seis mil pessoas aderem à iniciativa.
Entre os seis mil portugueses que integram a campanha internacional de solidariedade, a falta mais notória é a de um conhecido adepto das corridas matinais à beira-mar e das maratonas nas travessias do Tejo. A ausência tem explicação: foi a Trancoso com um dos seus doze motoristas receber a medalha de ouro da cidade, atribuída pela autarquia social-democrata por ficar com uma autoestrada à porta.
Não sei se Trancoso fica com uma autoestrada para ver passar alguns carros ao largo, nem sei se teve, tem ou vai deixar de ter centro de saúde, maternidade, postos da PSP e da GNR, estação de correios, tribunal e uma escola com menos de vinte alunos, mas sei reconhecer os sinais dos tempos. Uns correm para recolher fundos pelos que têm fome, outros correm para recolher medalhas por obras que vão empurrando o país para a fome.
Diz-me a que som danças hoje, dir-te-ei que 'dótor' serás amanhã.
(via Mar Salgado)
Paulo Pedroso: «Eu queria simpatizar com o PEC mas não consigo. (...) O Governo do PS, em que votei, vai introduzir um tecto de despesa nas prestações sociais não contributivas, o que quer dizer que quando ele estiver esgotado, quem receber, por exemplo, o subsídio social de desemprego ou o complemento solidário para idosos, apesar de ter direito à prestação já não a receberá. (...) Hoje sinto-me particularmente feliz por não ter sido candidato a deputado nesta legislatura.»
Pedro Adão e Silva: «Quem vai sofrer mais com o PEC não são as classes médias, são os mais pobres. É dramático, mas o maior contributo para a diminuição da despesa é dado pela redução das transferências do Orçamento do Estado para a segurança social. Ou seja, as políticas que formam a rede de mínimos sociais verão o seu financiamento muito limitado (do complemento solidário para idosos ao subsídio social de desemprego, passando pelo rendimento social de inserção). Não falo do modo como esta opção contradiz o programa eleitoral com que o PS se apresentou às eleições, nem sequer do que esta escassez de recursos representará num país pobre como o nosso, quando o desemprego se manterá a níveis socialmente intoleráveis. O que está em causa é também uma questão de identidade partidária.»
Tiago Barbosa Ribeiro: «Tenho sérias reservas em relação a algumas privatizações (CTT, energia, entre outras) e discordo do plafonamento da despesa com as medidas sociais, sem perceber o critério para a medida. Esgotado este tecto, quem tiver direito ao RSI ou ao Complemento Solidário, só para dar dois exemplos, não será elegível por falta de orçamentação. Num contexto de crise, é uma factura muito pesada para os mais pobres e muitos portugueses poderão ficar sem qualquer apoio do Estado.»
João Pinto e Castro: «Uma das coisas que mais me engalinham no PEC é a facilidade com que se concebem e disparam políticas definitivas que, nunca tendo sido objecto de discussão, não foram obviamente amadurecidas e ponderadas. Um exemplo. A mim, não me faz espécie uma eventual privatização dos CTT, mas estranho que a decisão apareça assim caída do céu, como se fosse a coisa mais natural e inquestionável do Mundo.»
Porfírio Silva: «Este pode ser o momento de viragem deste governo. Ou Sócrates toma a coisa a peito, mostra quem manda e mostra que o programa eleitoral é para cumprir - e pode recuperar a iniciativa política, redesenhando a equação própria do PS e os desafios que ela deve colocar aos outros partidos e forças sociais (incluindo sindicatos e patronato); ou o PS, Sócrates, o grupo parlamentar e os fazedores de opinião socialista calam a boca por conveniência - e acabou a festa, pá. A partir daqui será sempre a cair.»
Durante um par de horas, fui acompanhando, quase incrédulo, as imagens dramáticas que nos chegavam da Madeira após dez horas consecutivas de chuva torrencial. A fúria da água, transportando incalculáveis quilos de lama, transformou ruas, praças e avenidas em violentos caudais que arrastavam tudo quanto surgia pela frente. A Avenida Arriaga, a Rotunda Sá Carneiro, a Rua 5 de Outubro, a Marginal do Funchal totalmente irreconhecíveis. A ponte junto ao Mercado dos Lavradores destruída. Horas de pânico na capital madeirense e também na bela vila da Ribeira Brava. O aeroporto de Santa Catarina fechado, o porto do Funchal também. Balanço provisório da tragédia: 32 mortos. Infelizmente com tendência para aumentar, pois é grande o número de pessoas desaparecidas.
Portugal está de luto. Portugal inteiro? Não: algures no Porto, a meio da tarde, um político fala aos militantes do seu partido, com direito a transmissão directa no canal público de notícias. Pura acção de propaganda, ao jeito a que este político já nos habituou. E que diz ele? Repete que os jornalistas cometeram "crimes" ao divulgar escutas telefónicas. Proclama, como se ele próprio acreditasse nisso, que Portugal "foi dos primeiros países a sair da recessão técnica" e que "podemos esperar crescimento económico já em 2010". Empolgado pela sua própria oratória, afirma: "Aumentámos o défice para evitar que o desemprego subisse." Estranhamente, sem escutar um coro de gargalhadas na sala.
O político a que me refiro é José Sócrates. Insensível à tragédia ocorrida numa parcela do território nacional, teimou em manter o discurso aos militantes do seu partido, como se a hora não fosse de luto. Confirma-se: para ele a propaganda está sempre em primeiro lugar. Nunca conseguirei espantar-me o suficiente com a falta de sentido de Estado deste homem.
"Neste momento, temos o corretor pronto a ser instalado em todos os computadores." A frase - com o itálico da minha lavra - consta de um despacho de sexta-feira da agência Lusa, que desde ontem começou a escrever notícias "ao abrigo do Acordo Ortográfico", como foi sublinhando no remate de todos os telegramas distribuídos ao longo de sábado.
Li aquelas linhas e espantei-me: um corretor vai ser instalado nos computadores do mais oficial órgão de informação existente em Portugal? Durou pouco a perplexidade: afinal a notícia não aludia a um tipo qualquer especializado em transaccionar acções da Bolsa de Valores mas a um corrector ortográfico, agora destinado a dar caça às supostas consoantes mudas. E emprego aqui o adjectivo supostas porque muitas dessas consoantes têm a insubstituível missão de abrir as vogais. "Ao abrigo" da nova norma, para usar a curiosa expressão da Lusa, o vocábulo "diretor" passa a ser lido com E mudo, o som do A em "redação" também emudece e nem preciso de referir que o O de "adotar" passa a equivaler a U. Nada que refreie o entusiasmo do "diretor" da agência, que revela: "Cada jornalista esteve um dia a refletir sobre a filosofia geral do Acordo."
Também a mim isto dá para "filosofar". E lembro-me da celeuma que a reforma ortográfica concebida por Malaca Casteleiro gerou há 20 anos na comunidade literária portuguesa, com alguns dos nossos maiores escritores - de Miguel Torga a Vergílio Ferreira, de Agustina Bessa-Luís a Sophia de Mello Breyner - tomando posição firme contra a falsa "unificação", afinal quase um decalque da norma brasileira. Sophia, particularmente, acentuou então a importância das chamadas consoantes mudas na abertura das vogais num país que a sul do Mondego persiste em fechá-las.
Desta vez quase não houve polémica, o que é um esclarecedor sinal dos tempos. Adeus corrector, olá corretor e meses escritos em minúscula. Este é o tempo dos inteletuais, não dos intelectuais. Prontos a "abrigar-se" sob qualquer tecto. Perdão, teto.
Fernando Savater, um dos autores espanhóis que mais admiro - professor de Filosofia, agnóstico e homem convictamente de esquerda -, proclama o direito de qualquer criança a ter simultaneamente um pai e uma mãe. Parece um lugar-comum, mas já não o é nestes tempos de constantes engenharias sociais em que a ciência, através da inseminação artificial, satisfaz não só a natural pretensão de casais inférteis a ter filhos mas também, em grau crescente, de pessoas que não formam um casal.
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