Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Um ano depois

por Pedro Correia, em 24.01.17

 

Sampaio da Nóvoa: este nome diz-vos alguma coisa?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pós-eleitorais (1)

por Pedro Correia, em 26.01.16

Ouço e leio que Sampaio da Nóvoa, rejeitado por mais de três quartos dos eleitores, "cumpriu os seus objectivos". O jornal Público,  para meu espanto, chegou a incluí-lo entre os vencedores da eleição presidencial. Pensava eu que o maior objectivo do antigo reitor era passar à segunda volta. Afinal estava enganado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (33)

por Pedro Correia, em 22.01.16

Os adversários abriram a Marcelo Rebelo de Sousa uma auto-estrada rumo ao Palácio de Belém.

Primeiro os adversários internos: mesmo promovidos pela imprensa amiga, durante meses a fio, nenhum deles saiu da sombra.

Depois, os da "verdadeira direita", seja lá o que isso for: ei-los adormecidos à sombra da bananeira enquanto ruminam um ódio antigo ao candidato "bacteriologicamente impuro" em quem fatalmente votarão.

A seguir, o PS: a estratégia suicida dos socialistas foi o condimento que faltava para a vitória anunciada do ex-presidente do PSD nesta eleição presidencial.

E desta vez Marcelo nem precisou de mergulhar no Tejo. Seria mais fácil, aliás, vermos Sampaio da Nóvoa a praticar tal gesto.

Pouco mais lhe resta senão isso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases de 2016 (10)

por Pedro Correia, em 22.01.16

«Mérito da candidatura de Sampaio da Nóvoa: é a candidatura que mais próxima está da solução governativa actual. E como eu acho que é importante alguma estabilidade dessa solução governativa, é importante que o Presidente possa ser fiável em relação a um apoio a essa solução política.»

Pacheco Pereira, ontem, na SIC Notícias

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (31)

por Pedro Correia, em 21.01.16

 

web2dsc_6240_0[1].jpg

 

1

Do debate a nove entre os candidatos presidenciais na RTP, anteontem, saíram uma vencedora clara e uma derrotada óbvia.

A vencedora foi Marisa Matias. Porque teve o mérito de sacudir a modorra discursiva dos seus oponentes considerando "vergonhosa" a decisão do Tribunal Constitucional que manda devolver com retroactivos as subvenções vitalícias a deputados que lhes haviam sido retiradas excepto em situações de comprovadas dificuldades financeiras. O tribunal deu luz verde à reclamação de 30 parlamentares e ex-parlamentares - 21 do PS e nove do PSD - que entendem ter direito àquela subvenção estatal, suprimida em 2005.

Foi preciso Marisa dar um metafórico murro na mesa, naquele debate até aí tão cordato, para assistirmos a um tardio desfile de indignações entre os restantes candidatos: todos a secundaram, com maior ou menor convicção. Nenhum quis ficar mal nesta fotografia.

 

MariaBelem[1].jpg

 

2

Maria de Belém foi a derrotada. Logo a começar, perdeu por falta de comparência. É certo que alegou estar muito consternada pelo falecimento - ocorrido na noite anterior - de António de Almeida Santos, que a antecedeu na presidência do PS e era um dos seus principais apoiantes nesta campanha. Mas Almeida Santos, que nunca virou costas a um debate, seria certamente o primeiro a incentivá-la a comparecer onde os eleitores dela esperariam a três dias do encerramento da corrida presidencial.

Contra sua vontade, Belém acabou por ser a ausente mais presente. Porque uma fuga de informação cirúrgica, ocorrida escassas horas antes do debate e com amplos ecos nos noticiários dessa tarde, incluía o seu nome entre os 30 peticionários que reclamaram a subvenção ao Tribunal Constitucional e cuja identidade até então se desconhecia.

Foi um golpe dirigido à jugular da candidata que não ocorreu por acaso e parece confirmar o aforismo de Churchill: "Os nossos adversários estão fora do partido enquanto os inimigos estão dentro." Como faria qualquer detective, basta interrogarmo-nos quem mais tem interesse, neste preciso momento, em colocar Maria de Belém fora da corrida.

 

821930[1].jpg

 

3

António Sampaio da Nóvoa não foi o principal perdedor. Mas andou lá perto. Desde logo porque lhe competia fazer a diferença, naquele mesmo estúdio, para tentar atenuar a enorme distância que o separa de Marcelo Rebelo de Sousa. Mas o académico limitou-se a debitar as habituais platitudes, que não demovem nem mobilizam ninguém.

Andou mal ao colar-se à candidata do Bloco de Esquerda em serôdios protestos contra as subvenções.

Andou pior - e habilitou-se a ganhar o campeonato da demagogia - ao pronunciar-se perante os jornalistas, depois de concluído o debate, contra a manutenção da subvenção aos ex-Presidentes da República. Algo que nunca suscitou a menor controvérsia na sociedade portuguesa, por resultar da específica dignidade do cargo de Chefe do Estado reconhecida na Constituição e que abrange apenas quatro cidadãos (António Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva - este só a partir de Março).

Três deles, por sinal, seus apoiantes. Suponho que terão gostado.

 

3-tribunal_constituciona-Enciclopédial[1].jpg

 

4

Rompeu-se um tabu em Portugal: a partir de agora voltou a ser possível criticar os acórdãos do Tribunal Constitucional, considerados sacrossantos ainda há bem pouco por um largo segmento da opinião publicada cá no burgo. Bastou para tanto a "vergonha" que Marisa Matias disse ter sentido.

É difícil não concordar com ela, embora indignação seja a expressão mais correcta para exprimir o que muitos de nós sentimos.

Pela minha parte, fiquei também perplexo. Por verificar que, uma vez mais, os doutos magistrados do Constitucional não resistiram à tentação de entrar em concorrência aberta com os políticos no espaço mediático. Nenhum deles poderia ignorar que a divulgação deste acórdão na recta final da campanha presidencial iria condicionar todos os debates e produzir os efeitos que produziu. Estilhaçando desde logo as já escassas perspectivas eleitorais de Maria de Belém, principal vítima deste envolvimento claro dos juízes na política.

Mais um. Como o tabu foi quebrado, podem enfim ser criticados. Já era tempo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (30)

por Pedro Correia, em 20.01.16

ng4553719[1].jpg

 Foto Mário Cruz/Lusa

 

Não adianta iludir o iniludível. O PS tem candidato nesta eleição presidencial: chama-se António Sampaio da Nóvoa. A garantia do líder socialista de que sabe "muito bem" em quem votará, expressa no mesmo dia em que o presidente do partido manifestou o apoio público a Nóvoa e em que o candidato teve o frente-a-frente televisivo com Marcelo Rebelo de Sousa, desfez as últimas dúvidas.

Mas não desfez a sensação de que faltou envergadura ao secretário-geral do PS em todo este processo.

A ausência de clareza é um dos pecados maiores da nossa vida política. Julgo que as manobras de dissimulação em que o PS se enredou durante meses a propósito das presidenciais em nada beneficiarão o partido. António Costa andou a milhas do desassombro que se exige dos políticos aspirantes a ser estadistas. Se não fosse assim, teria pronunciado com todas as letras o apoio a Nóvoa.

Tresanda a hipocrisia a tese oficial da "neutralidade" do partido, logo quebrada por Carlos César - figura cimeira na hierarquia oficial do PS - na senda do que já havia feito Ana Catarina Mendes, secretária-geral adjunta, braço direito de Costa. Um partido "neutral" não envolve o aparelho de norte a sul do País numa dispendiosa campanha que jamais poderia ser assumida pelo candidato independente nem manda avançar cinco ministros para os palcos dos comícios num momento em que o Executivo elabora a contra-relógio o próximo Orçamento do Estado, prioridade máxima da governação.

Numa eleição presidencial cujo vencedor se anuncia sem suspense algum, o PS acabará por perder sempre. Porque sai dela mais fragilizado e dividido do que entrou. E mais fragilizado ainda sairia se Maria de Belém tivesse o estofo e o fôlego revelado em 2006 por Manuel Alegre, outro vulto do partido abandonado pela estrutura dirigente numa campanha que começou mal e terminou pior para a máquina socialista.

Na noite de domingo e na manhã de segunda-feira muitos questionarão Costa se mereceu a pena pagar o preço de mais uma derrota eleitoral e de uma nova querela interna que deixará feridas ao envolver a sua nomenklatura no apoio não assumido a um académico sem filiação partidária e sem sombra de carisma que permaneceu seis décadas escondido dos olhares públicos.

Eu antecipo-me, questionando-o desde já. Valeu de quê este flirt com Nóvoa?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases de 2016 (7)

por Pedro Correia, em 20.01.16

«É uma alegria estar aqui a fazer democracia.»

Sampaio da Nóvoa, no debate com oito outros candidatos, ontem na RTP

Autoria e outros dados (tags, etc)

O hino de Sampaio da Nóvoa.

por Luís Menezes Leitão, em 15.01.16

 

Hoje no Público Francisco Assis pôs o dedo na ferida. É absolutamente inconcebível que António Costa tenha apoiado um candidato completamente vazio como Sampaio da Nóvoa, e deixado à sua sorte uma candidata que já foi presidente do PS, e tem muito maior currículo político, como Maria de Belém. Porque o que a campanha está a demonstrar é que a máquina do PS está colada em torno de Sampaio da Nóvoa, enquanto que Maria de Belém foi deixada sozinha. A afirmação de que o PS não tem posição na primeira volta parece ser assim claramente desmentida pelos factos: o PS de Costa apoia vigorosamente Sampaio da Nóvoa e tudo está a fazer para que ele fique pelo menos à frente de Maria de Belém.

 

Isto não vai servir absolutamente para nada, uma vez que estou absolutamente convencido de que Marcelo Rebelo de Sousa vai ganhar as eleições à primeira volta por uma margem esmagadora. E, mesmo que por milagre isso não acontecesse, também ganharia com a maior facilidade uma hipotética segunda volta. É assim evidente, para bem de todos nós, que o ex-reitor irá fazer os seus discursos messiânicos para outra freguesia, que não a de Belém.

 

O problema, no entanto, reside na forma como o PS vai ficar depois deste seu apoio a Sampaio da Nóvoa. É que, se o PS conseguiu chegar ao governo da forma como chegou, e já arranjou os sarilhos que se conhecem, adivinho como é que ficará depois de uma campanha com o hino que aparece acima. Não é apenas o ridículo da letra e da música, com o teor evangélico que já se conhecia. Chocou-me especialmente o facto de os figurantes colocarem uma caraça com a cara do candidato, assumindo-se assim claramente como seguidores do Messias, com quem se identificam: "Sampaio da Nóvoa somos nós". Tudo o resto é vazio: "palavras necessárias que saltam nas nossas mãos", "palavras solidárias no bater do coração", "palavras de aventura com gosto a sal". Parole parole parole. É isto um discurso político de um candidato presidencial? Basta, por exemplo, olhar para a campanha de Marisa Matias para se ver como se pode fazer uma campanha de esquerda com muito mais credibilidade e consistência.

 

Esta campanha presidencial está cheia de candidatos folclóricos. Quem faça uma análise serena do discurso político de Sampaio da Nóvoa, chegará à conclusão de que ele é precisamente o mais folclórico de todos. Apesar disso, está ter um apoio de peso do PS que, diga-se de passagem, faria mais sentido que tivesse sido dirigido, por exemplo, a Tino de Rans, cujas ligações ao PS são muito mais antigas. Confesso que há muito tempo que para mim é um mistério o PS ter alinhado neste canto de sereia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (25)

por Pedro Correia, em 09.01.16

                   images[1].jpg OriginalSize$2014_10_31_09_18_53_236720[1].jpg 

 

Debate Maria de Belém-Sampaio da Nóvoa

 

Maria de Belém anunciou a candidatura à Presidência da República cinco meses após Sampaio da Nóvoa. Competia-lhe portanto, neste debate na TVI que encerrou a série de 21 confrontos televisivos a dois entre os candidatos ao Palácio de Belém, estabelecer as diferenças com o seu antagonista. Mas a ex-ministra da Saúde, salvo em dois ou três momentos demasiado fugazes, foi incapaz de apontar esses contrastes. Tal como esteve longe de conseguir replicar aos apoios de peso que Nóvoa tem granjeado sobretudo à esquerda. Ontem mesmo, escassas horas antes do debate, foi a vez de o actual presidente do PS, Carlos César, anunciar que votará no catedrático nascido em Caminha.

Pedindo emprestada a linguagem futebolística à política, dir-se-ia que Nóvoa parecia jogar em casa. Esteve mais seguro, mais desenvolto, mais afirmativo. Foi cordato, aliás como é costume, mas não deixou de lançar as suas estocadas. E a maior de todas foi a acusação que fez a Maria de Belém de ter "faltado à chamada", enquanto deputada socialista, quando foi necessário solicitar ao Tribunal Constitucional a fiscalização sucessiva do Orçamento do Estado para 2012 que cortava pensões e salários da função pública.

"Deixou a outros [deputados] essa responsabilidade", acusou. Acrescentando de imediato: "Eu não quero um Presidente da República que transfira as suas responsabilidades para outros."

Maria de Belém até teve um início enérgico, procurando encostar o adversário a estratégias de um "frentismo de extrema-esquerda". E apontou uma contradição ao candidato, que apesar de fazer constantes proclamações em defesa da "renovação" da política "passa a vida a invocar o apoio de três ex-Presidentes da República, aliás dois deles do PS".

Nóvoa reverteu esta crítica em elogio, reivindicando o "apoio de muitos socialistas do País inteiro". E fez questão de transmitir da sua adversária a imagem de uma pessoa hesitante, especialista em "acertar no totobola à segunda-feira". Dizendo uma vez e outra ser arauto de um "tempo novo". Linguagem "messiânica", como Belém referiu. Sem parecer muito segura de poder estar a criticá-lo ou a fazer-lhe outro elogio implícito ao falar assim.

 

Vencedor: Sampaio da Nóvoa

...............................................................

 

Frases do debate:

 

Nóvoa  - «A minha candidatura tem uma abrangência de muitas pessoas que se situam à esquerda, de muitas pessoas que se situam ao centro, de pessoas que se situam à direita.»

Belém  - «Não aceito que o facto de ser independente dê algo de acrescido e de dignificante ao exercício dum cargo desta natureza.»

Nóvoa - «Eu quero ser um Presidente que protege os portugueses.»

Belém - «Eu estive nas causas todas que o PS empreendeu nestes 40 anos. Como militante de base, como dirigente. Nunca vi o candidato Sampaio da Nóvoa nessas causas, nunca o vi lá, nunca o encontrei.»

Nóvoa - «A candidata Maria de Belém mostrou sempre um grande incómodo com este tempo novo que se criou.»

Belém - «O candidato Sampaio da Nóvoa passa a vida a falar num tempo novo. Eu gostava de saber que tempo novo é esse com a Constituição que temos tido.»

...............................................................

 

O melhor:

- Maria de Belém abriu as hostilidades empurrando Nóvoa para posições radicais enquanto se assumia como uma candidata moderada, próxima da social-democracia europeia.

- Carlos César, sucessor de Belém na presidência do PS, anunciara hora antes que votará no ex-reitor da Universidade de Lisboa. Um reforço de peso entre os apoiantes de Nóvoa, como o candidato fez questão em destacar.

O pior:

- Sampaio da Nóvoa acusou Marçal Grilo, mandatário nacional de Maria de Belém, de ter rotulado de "enorme desastre" um executivo PS com apoio parlamentar à esquerda. Exactamente a mesma acusação com que Marcelo Rebelo de Sousa procurara embaraçar a candidata no debate da véspera.

- Começar um debate na TVI a mencionar o aniversário da SIC Notícias, como fez Maria de Belém, é algo semelhante a aplaudir o Benfica no estádio de Alvalade. Pior é invocar alguém já falecido, como o ex-ministro Mariano Gago, como "trunfo" eleitoral.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (23)

por Pedro Correia, em 08.01.16

                           Marcelo-Rebelo-de-Sousa-2-560x840[1].jpg OriginalSize$2014_10_31_09_18_53_236720[1].jpg 

 

Debate Marcelo Rebelo de Sousa-Sampaio da Nóvoa

 

Sampaio da Nóvoa não é o maior adversário de Marcelo Rebelo de Sousa nesta campanha eleitoral. O que o ex-director do Expresso tem mais a temer é a abstenção: os portugueses votaram três vezes em menos de dois anos e é notório o desinteresse em torno das presidenciais, que muitos consideram já com desfecho anunciado.

O potencial risco desmobilizador desta convicção que se instalou junto de tanta gente é o maior obstáculo que Marcelo enfrenta. E o tom de bonomia em que têm decorrido os debates, sem crispação nem aquelas "dramatizações" que noutros tempos faziam as delícias do comentador Rebelo de Sousa, só contribui para acentuar o desinteresse.

Faltava portanto "dramatizar". Marcelo precisava de concretizar esse desígnio no frente-a-frente com António Sampaio da Nóvoa em horário nobre da SIC, ontem à noite. Assim fez. Surpreendeu o seu antagonista ao "entrar em campo" como costumam fazer as equipas treinadas por Jorge Jesus no campeonato nacional de futebol: exercendo pressão alta desde os instantes iniciais, confundindo e contundindo o adversário.

Nóvoa demorou a reagir, traindo o embaraço com exclamações como estas: "Muito me surpreende..."; "é a primeira vez que ouço..."; "não estava à espera..." E quando recuperou do embaraço inicial notou-se bem que lhe faltam os dotes histriónicos e a experiência televisiva do colega catedrático que tinha à sua frente.

Foi um debate vivo, à moda antiga - daqueles de que se falarão mais tarde. Um debate em que Nóvoa proclamou: "O Presidente da República tem de se bater por causas. Eu não vim para deixar tudo na mesma." O primeiro debate a sério desta campanha até agora feita de palavras demasiado dóceis. De tal maneira que a moderadora, Clara de Sousa, acabou por ter uma intervenção residual - o que aliás fazia todo o sentido pois tratava-se de um verdadeiro confronto, não apenas de uma troca de amabilidade para cumprir calendário.

Deste debate as frases que os telespectadores mais retiveram foram, em larga medida, proferidas pelo candidato que conta com o apoio do PSD e do CDS: "Os portugueses sabem onde eu estive. O professor apareceu agora, virgem. Onde é que esteve? Onde é que esteve? Onde é que esteve?"

Embalado, Marcelo acusou o antagonista de querer passar "de soldado raso a general" e de possuir muito mais meios do que ele para fazer campanha eleitoral: "Eu não tenho a sua estrutura nem os seus gastos de campanha." Visivelmente incomodado, o ex-reitor de Lisboa advertiu-o: "Não vá por aí, professor, não vá por aí."

Estava o verniz quebrado. Era precisamente o que Marcelo queria.

 

Vencedor: Marcelo Rebelo de Sousa

...............................................................

 

Frases do debate:

 

Nóvoa  - «Sobre cada matéria nós temos 20 citações suas a dizer uma coisa e 20 citações a dizer o contrário.»

Marcelo  - «Mas disse! Eu dizia e o senhor não dizia. Eu expunha-me e o senhor não se expunha.»

Nóvoa - «Eu venho da crítica às políticas de austeridade. O professor Marcelo Rebelo de Sousa vem do apelo ao voto em Passos Coelho e Paulo Portas.»

Marcelo - «O senhor tem que trazer na lapela três ex-Presidentes da República. Eu não, eu não preciso.»

Nóvoa - «As suas afirmações sobre gastos excessivos na campanha em período de crise são antidemocráticas. É evidente que a democracia tem custos. A ditadura é muito mais barata, até se faz à borla.»

Marcelo - «Sabe quem é que meteu dinheiro na minha campanha até agora? Fui eu.»

...............................................................

 

O melhor:

- Num eficaz golpe de retórica, Sampaio da Nóvoa transformou o comentador Marcelo num adversário do candidato Marcelo: "Eu não me ouço só a mim mesmo. Não gosto de passar o tempo todo a falar sem ouvir ninguém. Essa é uma diferença fundamental que nos separa no exercício do cargo."

- Quando Nóvoa questionou a "forma no mínimo discutível" como o ex-presidente do PSD aproveitou a sua enorme exposição mediática como trampolim para a política, Rebelo de Sousa retorquiu de imediato: "Isso impediria António Costa de ser candidato a primeiro-ministro". Aludindo à participação de Costa, durante anos, no programa de comentário político Quadratura do Círculo.

O pior:

- O ex-reitor da Universidade de Lisboa fala na necessidade de "sangue novo" e "outras pessoas" na política. Mas confessa que só avançou na corrida a Belém após "longuíssimas conversas" com três ex-Chefes do Estado: Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.

- Marcelo denunciou o "apoio tóxico" do MRPP à candidatura de Nóvoa, dando relevo a um facto irrelevante.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O segundo debate Marcelo-Sampaio.

por Luís Menezes Leitão, em 08.01.16

Há 25 anos Marcelo Rebelo de Sousa envolveu-se de alma e coração numa candidatura à câmara de Lisboa, fazendo tudo para chamar a atenção de um eleitorado que não o conhecia, como conduzir um táxi pelas ruas da capital e mergulhar no Tejo. A sua campanha local apareceu com tanta força que ninguém do PS se dispunha a enfrentar Marcelo nessa corrida. Vítor Constâncio demitiu-se, perante as sucessivas recusas que foi recebendo, e o seu sucessor, Jorge Sampaio, foi obrigado, enquanto líder da oposição, a apresentar uma candidatura pessoal contra Marcelo. Já nessa altura coube a António Costa fazer as pontes para um acordo de esquerda contra Marcelo. Mas mesmo esse acordo não parecia ser suficiente, uma vez que Sampaio suscitava pouco entusiasmo perante a energia e o brilhantismo de Marcelo.

 

Isto foi assim até que se realizou um debate entre Sampaio e Marcelo. Nesse debate Marcelo decidiu adoptar uma pose mais serena por contraponto ao que até então tinha sido a sua intervenção. Esse erro foi-lhe fatal. Jorge Sampaio, com a experiência de advogado de barra, explorou as fragilidades do discurso de Marcelo e, ao contrário do que se esperava, Marcelo não foi capaz de lhe dar a réplica devida. Marcelo saiu do debate a dizer que se calhar tinha desiludido os seus apoiantes e de facto nesse dia perdeu as eleições.

 

Nestas eleições, passou-se o contrário. Marcelo optou por uma campanha completamente vazia, o que envolvia sérios riscos como aqui salientei. Mas, ao contrário do que se passou há 25 anos, não descurou o debate com Sampaio da Nóvoa. Pelo contrário, entrou completamente a matar, chamando a atenção para a total falta de currículo político do candidato, a sua ignorância absoluta da função presidencial, e o seu comprometimento ideológico com uma minoria dos eleitores. Nóvoa, perante o massacre que sofreu, só lhe faltou levantar os braços e invocar a convenção de Genebra. Lá foi dando uns apartes sobre o serviço nacional de saúde, que Marcelo facilmente desmontou, e fez referência aos antigos presidentes que o apoiam, o que Marcelo ridicularizou. No fim Marcelo deu-lhe uma estocada final decisiva quando chamou a atenção para a carrinha dos seis assessores que ele tinha trazido, criando no público a sensação de que sem assessores Nóvoa não existe.

 

Marcelo teve passados 25 anos a sua segunda oportunidade num debate político decisivo. Desta vez não a desperdiçou. No próximo dia 24 será entronizado presidente. E, diga-se de passagem, no actual quadro político é a melhor solução para o país.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (17)

por Pedro Correia, em 06.01.16

      

                 914463[1].jpg OriginalSize$2014_10_31_09_18_53_236720[1].jpg

 

Debate Paulo de Morais-Sampaio da Nóvoa

 

António Sampaio da Nóvoa fez uma boa proposta no frente-a-frente da noite passada na TVI 24. Fê-lo com algum atraso, no quarto debate televisivo a dois em que participou, dando finalmente a ideia de que é capaz de subir ao concreto nesta farpa a Cavaco Silva: "O Presidente da República, infelizmente, não cumpre o código dos contratos públicos e não procede à publicitação on line dos seus contratos. Isto é uma prática que tem que mudar. Aquele que promulga as leis tem de ser o primeiro a dar o exemplo."

Foi o seu melhor momento neste confronto com Paulo de Morais. Mas foi também aquele que permitiu evidenciar mais a destreza verbal do seu antagonista. O ex-braço direito de Rui Rio na câmara do Porto pegou-lhe na palavra e correu com ela pista adiante: "Não chega ao Presidente da República dar o exemplo. O Presidente tem que exigir transparência a toda a classe política." Contestou os apelos de Nóvoa à estabilidade revelando que nessa manhã deixara um cravo vermelho junto à tumba do primeiro Rei de Portugal. "Não foi com estabilidade que D. Afonso Henriques fez o País. Não foi com estabilidade que se fez o 25 de Abril. Tem que haver instabilidade para haver progresso. A estabilidade só é boa quando as coisas estão bem."

No resto, cumpriu-se o guião: Morais conduziu o debate para o campo que lhe garante votos, o do justiceiro contra a corrupção, disparando contra as sociedades de advogados de Lisboa e o Parlamento, que a seu ver "está organizado como uma central de negócios". Nóvoa refugiou-se em fórmulas vagas: "Corrupção? Reconheço que há problemas, que há dificuldades. Muitas denúncias que o doutor Paulo Morais tem feito estão certas."

Era precisamente isto o que o seu opositor pretendia ouvir.

 

Vencedor: Paulo de Morais

...............................................................

 

Frases do debate:

 

Nóvoa  - «É muito estranho que alguns considerem a política como uma espécie de clube privado.»

Morais - «Há sociedades de advogados que são verdadeiras irmandades, para não dizer máfias.»

Nóvoa  - «Estabilidade não é estagnação. Estabilidade é um processo de mudança.»

Morais - «A justiça em Portugal tem meios ridículos. O Ministério das Finanças tem verbas disponíveis para tapar buracos superiores ao orçamento da justiça.»

 

...............................................................

 

O melhor:

- Sampaio da Nóvoa deixou claro qual é o eleitorado a que se dirige: "Desde 4 de Outubro abriu-se uma nova cultura de diálogo e de compromisso na sociedade portuguesa."

- O ex-vice-presidente da Câmara do Porto revelou enfim alguma consciência social: "Que dignidade existe numa idosa de 80 anos que vive com 200 euros de reforma? Neste momento há mil cantinas sociais em Portugal que dão de comer às pessoas por esmola."

O pior:

- Os assessores da campanha do antigo reitor da Universidade de Lisboa devem recomendar-lhe que não baixe constantemente os olhos para os papéis enquanto fala. Dá a sensação de que procura a cábula.

- "Parece-me normal que tenha havido acusação no caso Sócrates", disse Morais. O problema é que ainda não houve acusação alguma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (14)

por Pedro Correia, em 05.01.16

                   img_300x400$2015_10_08_13_33_28_265267[1].jpg OriginalSize$2014_10_31_09_18_53_236720[1].jpg

 

Debate Edgar Silva-Sampaio da Nóvoa

 

O candidato apoiado pelo PCP transmite uma sensação de desconforto por usar agora fato e gravata. Falta-lhe espontaneidade e alegria. Disso parece ter-se apercebido Sampaio da Nóvoa no debate que travaram ontem à noite na TVI 24: "Eu já dei quatro voltas a Portugal, faço campanha com enorme alegria."

Ficava marcado algum contraste entre dois candidatos que se equivalem no plano da retórica: ambos recorrem a um prolixo vocabulário para exprimir ideias que talvez fossem emitidas com mais eficácia com menos palavras. Deve reconhecer-se que, à partida, a missão de Nóvoa estava facilitada: competia-lhe não beliscar o eleitorado do PCP, que poderá vir a ser-lhe útil - e esse desígnio foi cumprido. Edgar, pelo seu lado, deixou por esclarecer o motivo que o levou a avançar, já após as legislativas, quando o antigo reitor da Universidade de Lisboa se encontrava há meses no terreno.

Incapaz de estabelecer diferenças de conteúdo face a Sampaio da Nóvoa, o ex-sacerdote madeirense procurou vislumbrá-las numa eventual subalternização das questões do emprego nas propostas do seu opositor. Demonstrou assim não ter lido a carta de princípios de Nóvoa, como este facilmente esclareceu. Mas, talvez por esquecimento, o catedrático omitiu o maior trunfo de que dispõe nesta matéria: o apoio à sua candidatura por parte de Carvalho da Silva, que durante um quarto de século liderou a CGTP. Coube a Paulo Magalhães, moderador do debate, assinalar tal facto.

O jornalista perturbou ainda Edgar com uma pergunta que ameaça tornar-se um clássico: "Considera a Coreia do Norte uma democracia?" O membro do Comité Central do PCP, embaraçado, falou muito mas deixou a pergunta sem resposta. Já vimos este filme em algum lado.

 

Vencedor: Sampaio da Nóvoa

...............................................................

 

Frases do debate:

 

Nóvoa - «Esta candidatura nasce da cidadania, sem ter esperado por partidos.»

Edgar  - «O apoio do PCP é um certificado de garantia.»

Nóvoa - «O conhecimento não está só nas universidades: o conhecimento está nas pessoas.»

Edgar  - «A reestruturação da dívida permitiria construir cerca de 30 hospitais em Portugal.»

 

...............................................................

 

O melhor:

- Sampaio da Nóvoa promete uma "presidência de proximidade", apelando implicitamente aos portugueses que contribuíram para a eleição de Mário Soares.

- Edgar Silva introduz a poesia na campanha ao invocar a "defesa da nossa casa comum" e sublinhar a necessidade de "ouvir o grito dos pobres e o clamor da terra".

O pior:

- O ex-reitor da Universidade de Lisboa continua a refugiar-se em proclamações genéricas, demonstrando dificuldade em descer ao concreto.

- "Se eu fosse... ou vier a ser Presidente..." Este lapso verbal demonstra que o ex-sacerdote tem pouca fé nas suas possibilidades de vitória.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (9)

por Pedro Correia, em 03.01.16

                 Henrique_Neto20[1].jpg  OriginalSize$2014_10_31_09_18_53_236720[1].jpg

   

Debate Henrique Neto-Sampaio da Nóvoa

 

António Sampaio da Nóvoa foi surpreendido neste seu segundo debate - travado ontem à noite na RTP3 - pela acutilância de Henrique Neto. São ambos independentes, mas têm estilos antagónicos. Nóvoa gaba-se de ter estado "muitos anos no governo de uma grande universidade pública", Neto orgulha-se de ter sido "trabalhador, operário, empresário e dirigente industrial".

O moderador, José Rodrigues dos Santos, começou por questionar a experiência política de ambos. O ex-reitor da Universidade de Lisboa evocou em sua defesa "uma vida dedicada a um combate permanente pelas liberdades". Descendo ao concreto, Neto acusou o jornalista de estar "mal informado", recordando que militou desde os 14 anos em todos os movimentos de combate ao salazarismo, incluindo o MUD Juvenil e a candidatura de Humberto Delgado. E cedo passou da defesa ao ataque: "Nem os candidatos do sistema nem os de fora do sistema têm a minha experiência política, económica e empresarial."

Durante quase todo o frente-a-frente Neto primou pela contundência face ao opositor: "O meu espanto é que, sendo académico, tenha tão pouco sentido crítico em relação àquilo que o rodeia." Nóvoa, desconfortável no terreno do confronto directo, refugiou-se em fórmulas abstractas, como esta: "A experiência política é a história de uma vida."

Às tantas, desabafou: "Eu não estou para ajustar contas com o passado." Como se tivesse a noção de que o debate não lhe estava a correr bem. E assim era, na verdade.

 

Vencedor: Henrique Neto

...............................................................

 

Frases do debate:

 

Nóvoa  - «Precisamos de um país mais preparado e mais capaz.»

Neto - «Os portugueses estão cansados de académicos.»

Nóvoa  - «Não ouvi nada do candidato Henrique Neto sobre nenhuma matéria.»

Neto - «O discurso do senhor candidato [Nóvoa] dá para tudo. Faz um conjunto de afirmações que estão fora da realidade das pessoas.»

 

...............................................................

 

O melhor:

- Henrique Neto colocou o opositor em posições defensivas, recorrendo com frequência ao sarcasmo: "O senhor candidato não saiu da universidade."

- Sampaio da Nóvoa ensaiou um discurso unitário de esquerda ao qualificar de desastrosas as políticas de austeridade.

O pior:

- O empresário da Marinha Grande aproveitou o debate para fazer publicidade a dois livros que escreveu.

- O ex-reitor da Universidade de Lisboa foi incapaz de dar réplica eficaz às farpas do seu antagonista, que o fustigou reiteradamente pelo seu alegado "vazio de ideias".

Autoria e outros dados (tags, etc)

 (...) temos de gerir com inteligência a torrente, transformando a sua força em energia e progressivamente ir alargando as margens, aplacando a velocidade a que corre o caudal, permitindo navegação tranquila e com rumo certo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (6)

por Pedro Correia, em 02.01.16

 

                    Marisa-Matias1[1].jpg  OriginalSize$2014_10_31_09_18_53_236720[1].jpg

   

Debate Marisa Matias-Sampaio da Nóvoa

Ambos de esquerda, ambos apostados em contribuir para uma segunda volta. Estas são as semelhanças mais notórias. Mas ontem, no debate de estreia da RTP 3 na campanha presidencial, estiveram mais à vista as diferenças entre Marisa Matias e Sampaio da Nóvoa. Com a candidata bloquista a criticar Ramalho Eanes - destacado apoiante de Nóvoa - lembrando que o ex-Presidente contribuiu para a fundação de um partido político a partir de Belém. E o ex-reitor da Universidade de Lisboa a invocar como pergaminhos o facto de ter avançado para a corrida presidencial muito antes da eurodeputada do BE, acusando-a implicitamente de querer transformar este escrutínio numa "segunda volta" das legislativas.

Mas a maior diferença entre ambos surgiu a propósito da intervenção no Banif - tema suscitado pelo moderador, José Rodrigues dos Santos. Com Nóvoa a sustentar a tese do Governo, que a seu ver foi "a solução menos má", e Marisa a contestá-la: "Não é uma boa solução continuar a ir buscar dinheiro aos contribuintes para alimentar a banca."

A dirigente bloquista foi categórica: deveria ter sido retirada a confiança ao governador do Banco de Portugal. Nóvoa, sem descolar do Executivo, garantiu que teria promulgado o orçamento rectificativo que a esquerda à esquerda do PS em uníssono rejeitou. Outros temas poderão granjear-lhe votos: o Banif, pelo contrário, não lhe terá dado nenhum.

 

Vencedora: Marisa Matias

...............................................................

 

Frases do debate:

 

Nóvoa  - «A pluralidade é sempre positiva em política.»

Marisa - «Eu não serei a candidata do medo.»

Nóvoa  - «Comigo haverá sempre uma cultura do diálogo e do compromisso.»

Marisa - «Temos de tirar, de uma vez por todas, a Constituição da gaveta.»

 

...............................................................

 

O melhor:

- Marisa Matias transpareceu convicção e pôs sempre alguma emoção no discurso.

- O ex-reitor da Universidade de Lisboa lançou uma farpa eficaz à oponente lembrando não ter "esperado pelas legislativas" para avançar com a candidatura.

O pior:

- Sampaio da Nóvoa peca por uma retórica que soa a vazio. Ao dizer frases como esta: "No futuro dos jovens está o futuro de todos nós."

- A linguagem gestual de Marisa Matias traiu algum excesso de ansiedade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A folha viçosa.

por Luís Menezes Leitão, em 17.12.15

Vasco Pulido Valente tinha justamente escrito há uma semana o seguinte sobre a candidatura de Sampaio de Nóvoa: "O dr. Nóvoa apresenta como a sua maior credencial o facto de Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio lhe darem a sua bênção e o seu apoio. Mas nenhum dos três se explicou ainda a esse respeito e o país continua sem saber o que eles, com a sua suposta clarividência, viram naquela tristíssima personagem".

 

Agora o Dr. Jorge Sampaio aceitou o repto e já nos esclareceu as razões desse apoio. Segundo ele, "o esforço que Nóvoa tem desenvolvido mostra abertura de espírito, uma correcta interpretação dos poderes presidenciais e os grandes ideais por que se bate são coisas fundamentais num Presidente da República". Se o critério é este, não entendo o que distingue Nóvoa de 99,99% da população portuguesa em idade de votar, que seguramente também tem "abertura de espírito", entende quais são os poderes presidenciais, e tem ideais. Quem não os tem?

 

Pareceria assim que Jorge Sampaio entende que apoia Nóvoa como podia apoiar um desconhecido qualquer para presidente. Isso só nos faria concluir pela absoluta irrelevância do cargo que em tempos ocupou. Mas não. Ele acha que "as eleições presidenciais são muito importantes, Abril já foi há muito tempo e as pessoas esquecem-se”. Parece assim que o objectivo da candidatura é permitir aos mais esquecidos que se recordem dos bons velhos tempos de Abril. Tal só demonstra que eu tive razão quando escrevi aqui que a razão destes apoios é o candidato lhes recordar as suas maiores paixões da juventude, a luta intransigente pelos gloriosos amanhãs que cantam, o que o torna irresistível para políticos com mais de 75 anos.

 

Vítor Bento disse uma vez com razão ser absolutamente intrigante que "uma parte importante da classe política considere, ao fim de 40 anos de regime, que a Presidência da República - que em caso de crise grave é o último fusível do regime - é o local ideal para se perder a virgindade política". Mas Jorge Sampaio explica que "um Presidente da República não é uma folha seca, é alguém que tem de ter princípios e valores que defende a Constituição e está recheado de vivências". Jorge Sampaio explica assim aos portugueses que apoia Nóvoa porque o considera uma folha viçosa. Isto só me faz lembrar quando o Dr. Jorge Sampaio anunciou que havia mais vida para além do orçamento. Se me permitirem o trocadilho, eu diria que nesta candidatura há muito viço e pouco siso.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases de 2015 (62)

por Pedro Correia, em 14.12.15

«Os portugueses escolheram este governo.»

Sampaio da Nóvoa, em entrevista à SIC (9 de Dezembro)

Autoria e outros dados (tags, etc)

SAMPAIO NATAL.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

Presidenciais (1)

por Pedro Correia, em 09.12.15

sidonio_pais2_large[1].jpg

 

Longe da fama e das espadas,

Alheio às turbas ele dorme.

Em torno há claustros ou arcadas?

Só a noite enorme.

Fernando Pessoa, À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais

 

Numa entrevista hoje concedida à SIC, António Sampaio da Nóvoa - pessoa cuja cultura, naturalmente, está acima de toda a suspeita - invocou, entre os motivos que o levam a candidatar-se à Presidência da República, o desejo de ver o Norte finalmente representado no Palácio de Belém.

"Gostaria que os portugueses, pela primeira vez na história, elegessem um presidente acima do Douro. Ou mesmo acima do Mondego. Acho que nunca houve nenhum presidente eleito acima do Mondego. Gostaria muito que isso acontecesse", declarou Nóvoa, nascido há quase 61 anos em Valença do Minho.

O antigo reitor da Universidade de Lisboa anda mal informado. Certamente por falta de tempo, ainda não consultou as biografias sucintas dos Presidentes da República Portuguesa. Se o tivesse feito saberia que Sidónio Bernardino da Silva Pais (chefe do Estado entre 27 de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918) era natural de Caminha - oriundo, portanto, do mesmo distrito que Nóvoa.

Além de ser tão minhoto como o candidato presidencial nascido em Valença, Sidónio Pais foi também o primeiro Presidente português eleito "por sufrágio directo dos cidadãos eleitores", a 28 de Abril de 1918, como esclarece a página oficial da Presidência da República.

António Sampaio da Nóvoa terá, portanto, de encontrar outro motivo para pedir o voto aos cidadãos. Compreendo que gostasse de ser o primeiro Presidente nascido "acima do Douro ou mesmo do Mondego", mas já chega tarde. Chega com quase 98 anos de atraso, concretamente.

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Tudo no meu corpo é Minho, todo o meu corpo é Norte".

Sampaio da Nóvoa

Autoria e outros dados (tags, etc)

O léxico dos candidatos (1)

por Pedro Correia, em 04.12.15

img_999x556$2015_04_06_11_09_07_115598[1].jpg

 

ABRIL

«Este é o tempo do futuro. Não podemos aceitar retrocessos no caminho feito depois de Abril.»

AMORFISMO

«Lutarei contra o amorfismo, a indiferença, a resignação, a passividade, o conformismo e o pensamento único.»

ATENTO

«Estarei especialmente atento à celebração, no futuro, de compromissos que reduzam os poderes soberanos do nosso país.»

CONTEMPORANEIDADE

«Estarei atento à pluralidade e à diversidade, às diferentes maneiras de pensar e de estar na vida, sempre aberto à contemporaneidade e às grandes questões do nosso tempo.»

DAR

«Há momentos na vida em que precisamos de dar tudo. Esse momento é agora.»

DIFERENTE

«Farei uma campanha diferente, durante a qual me preocuparei sobretudo em ouvir e pensar com as pessoas, em conhecer as diferentes histórias que coexistem num mesmo tempo e num mesmo espaço.»

ENCONTRAR

«Temos de encontrar soluções para uma dívida que sufoca os Estados.»

EMIGRAÇÃO

«Não podemos aceitar a emigração da nossa juventude mais qualificada, da nossa ciência e do nosso conhecimento.»

ESCUTA

«Procurarei não ficar por um conhecimento superficial da realidade e inscrever um outro conhecimento da vida e do país real, através do encontro e da escuta.»

ESPERANÇA

«Esta é, tem que ser, novamente, a nossa hora, a hora de todas as mulheres e homens deste país, a hora de Portugal. Abriu-se o tempo da esperança.»

EXISTIR

«É preciso unir uma sociedade rasgada, juntando os portugueses, as portuguesas, numa luta comum, sem medo de existir.»

HUMANIDADE

«É preciso trazer a vida para dentro da política, com humanidade.»

IMPACIENTEMENTE

«Apoiarei sempre as iniciativas mais dinâmicas, as forças de inovação e de progresso que existem na sociedade portuguesa. Impacientemente.»

LEGADO

«Em tudo, procurarei honrar a confiança em mim depositada, dando continuidade ao legado dos mandatos dos Presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio.»

PALAVRAS

«As palavras não são só palavras. São pessoas, são vidas, são passado e são futuro.»

PESSOAS

«É preciso que a política se faça com as pessoas, pelas pessoas, com sentido de Estado e de serviço público.»

PROPOR

«Tentarei antecipar os problemas, propor, agir para que se alcancem soluções sólidas e duradouras.»

SOLIDARIEDADE

«A minha magistratura será de solidariedade nacional.»

URGENTE

«É urgente reforçar a confiança da população na Administração Pública.»

VITALIZAR

«O Presidente da República ajuda a vitalizar e a aprofundar a democracia, como voz independente que ouve e dialoga com todas as pessoas.»

 

Da Carta de Princípios de António Sampaio da Nóvoa

Autoria e outros dados (tags, etc)

Atirados borda fora.

por Luís Menezes Leitão, em 09.10.15

António Costa tinha uma estratégia que sempre achei absolutamente suicidária para o PS, mas que tinha alguma lógica política. A lógica passava pela repetição da velha FRS, uma ideia de Soares de abrir o PS à esquerda como contraponto à AD, sem, no entanto, fazer acordos com o PCP. António Costa imaginou assim fazer o PS apresentar-se a eleições com um discurso mais à esquerda, que seria apoiado por outros partidos de esquerda, mais colaborantes do que o Bloco e o PCP. Essa fórmula visaria dar ao PS uma imagem frentista que permitisse roubar algum voto aos habituais irredutíveis partidos da esquerda parlamentar, tradicionalmente incapazes de qualquer concessão ideológica a troco de lugares de governo.

 

É assim que surge o Livre de Rui Tavares, a partir de uma cisão do Bloco de Esquerda, que propugnava o apoio ao PS. O Livre chegou mesmo a ser convidado para os congressos do PS e, se tivesse eleito deputados, faria um grupo parlamentar totalmente alinhado com o PS, imitando a relação do PEV com o PCP.

 

Ao mesmo tempo, qual cereja em cima do bolo, o PS apoiaria um candidato presidencial que encabeçasse essa nova frente de esquerda. Sampaio da Nóvoa, com o seu discurso gongórico e o seu inexistente passado político, era a pessoa ideal para o efeito, podendo atrair as esquerdas desavindas e tapar o caminho a Marcelo. Foi assim que Sampaio da Nóvoa foi estimulado a avançar por António Costa, com o apoio de três anteriores presidentes da república e era convidado habitual em todas as sessões públicas organizadas pelo PS.

 

Esta estratégia era, no entanto, absolutamente assustadora para o eleitorado do centro, que nesse cenário iria obviamente apoiar a coligação, e nas presidenciais irá todo direitinho para Marcelo. E a verdade é que também foi ferozmente combatida pelos partidos à esquerda do PS. Catarina Martins encarregou-se de reduzir o LIvre a zero, e agora Jerónimo de Sousa, ao mesmo tempo que promete apoio a um governo PS, já apresentou um candidato presidencial próprio "para a primeira volta", o que reduz a nada as hipóteses de Sampaio da Nóvoa ser eleito. E o próprio PS mostrou que não se deixava arrastar desta maneira para o desastre, tendo surgido a candidatura de Maria de Belém, que obviamente tem muito mais hipóteses do que a de Nóvoa.

 

Perante isto António Costa esqueceu-se do apoio que deu ao Livre e a Sampaio da Nóvoa, avisando agora que vai dar liberdade de voto "na primeira volta", ao mesmo tempo que os próprios iniciais apoiantes de Nóvoa lhe dão indicações para desistir. Este, no entanto, parece que ainda não percebeu o que lhe aconteceu e deu ontem uma conferência de imprensa a avisar que não desiste, salientando que as eleições legislativas reforçaram a "urgência da candidatura" e apelando ao "compromisso histórico" com os partidos que ainda não tiveram oportunidade de formar governo, parecendo assim querer liderar uma coligação PS+PCP+BE. Só se estivesse tudo doido no PS é que os seus militantes alinhariam num disparate semelhante.

 

Neste momento António Costa só quer salvar a pele como líder do PS e já atirou pela borda fora Rui Tavares e Sampaio da Nóvoa. O Livre provavelmente irá acabar, estando hoje reduzido a fazer peditórios para pagar as despesas da campanha. Já Sampaio da Nóvoa está muito enganado se julga que vai a algum lado sem o apoio do PS. Alguém que lhe explique como é que vai acabar o filme em que deixou que o colocassem como actor principal. É que a história da sua candidatura arrisca-se a ser a triste demonstração de que a política é um campo minado, e que não vale a pena alguém que nada sabe de desminagem, nem sequer onde as minas estão, entrar nesse terreno. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases de 2015 (43)

por Pedro Correia, em 08.10.15

«Vou bater-me por um país com uma nova visão geoestratégica.»

Sampaio da Nóvoa, hoje

Autoria e outros dados (tags, etc)

A implosão do PS.

por Luís Menezes Leitão, em 18.08.15

550[1].gif

Depois do Bloco de Esquerda, que literalmente implodiu em pequenos partidos, o que estamos a assistir agora é à implosão do PS. Efectivamente, o derrube de Seguro por António Costa causou imensas feridas, que se acentuaram com o disparatado posicionamento do PS à extrema esquerda, e ainda mais com o patético apoio a Sampaio da Nóvoa, que obviamente iria fracturar o partido em dois. Se alguém tem dúvidas sobre o posicionamento ideológico de António Costa, que veja a sua última declaração: é contra os contratos de trabalho a prazo. Só que o contrato de trabalho a prazo foi uma invenção de Mário Soares em 1976 para tornear a rigidez da legislação laboral. O que António Costa pretende é assim voltar a 1975, o que também constitui um tempo áureo para o seu candidato presidencial. Na verdade, o que se vê em Nóvoa, para além de uma absoluta ausência de currículo político, é uma ideologia muito marcada, o que naturalmente constitui um grave óbice para uma candidatura a Belém. E não são os seus passeios de bicicleta no Algarve, por baixo de um sol arrasador, que o transformarão num bom candidato.

 

Maria de Belém pode não ser uma candidata muito forte, mas não assusta o eleitorado do centro, ao contrário do que Nóvoa e pelos vistos o próprio António Costa estão a querer fazer. Não admira por isso a multiplicação de apoios que está a ter no PS, a que se associa o ódio declarado dos apoiantes de Nóvoa. Durante a campanha para as legislativas, o que o PS discute acaloradamente são assim os seus candidatos presidenciais, o que demonstra um partido em implosão. E o único responsável por isso é António Costa. Mas em bom rigor, ele está a colher a tempestade dos ventos que semeou. Tivesse Seguro continuado no cargo, e o PS estaria calmamente a caminhar para a vitória. Com António Costa, passou a ficar tudo em causa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Deprimente

por Sérgio de Almeida Correia, em 16.08.15

17427040_770x433_acf_cropped-770x433.jpg

Não tenho por princípio ser contra ninguém por ser de direita ou de esquerda, antes mesmo de se saber o que as pessoas pensam, o que dizem, quem são, de onde vêm, para onde querem ir e por que meios. Porque é no campo das ideias e da acção que as coisas devem ser discutidas, sem preconceitos nem complexos. Do Prof. Sampaio da Nóvoa, candidato presidencial assumido e apoiado por três ex-Presidentes da República, tirando algum voluntarismo discursivo, confesso que tinha uma impressão razoavelmente boa, não querendo com isto dizer que o considerava um bom candidato presidencial. Com um bom perfil académico, uma carreira, bons princípios, possuindo alguma desenvoltura no discurso e uma bagagem cultural muito acima da média, até poderia ser um candidato aceitável e vir a dar um Presidente da República à altura das nossas necessidades e das exigências do cargo. Sampaio da Nóvoa pode ser, e será com toda a certeza pelo que tenho visto e ouvido e pelo aval que lhe é conferido por Ramalho Eanes e Jorge Sampaio, um excelente homem. Mas depois de ler a sua entrevista ao Expresso, de registar a forma pouco simpática, diria mesmo aflitiva, como se referiu a outras candidaturas na mesma área política e como fugiu às respostas que poderiam fazer a diferença, sem que eu percebesse se não respondia para não se comprometer ou se para ser politicamente correcto, o que em qualquer um dos casos seria mau, cheguei ao fim da sua leitura com uma ideia formada. É triste dizê-lo, só que a impressão razoavelmente boa que ainda poderia ter do candidato desapareceu. Esfumou-se. Mantenho a mesma impressão em relação ao homem, não tenho dificuldade em dizê-lo, mas em relação ao candidato perdi as dúvidas que ainda tivesse. Politicamente, o candidato Sampaio da Nóvoa é muito mau.

Para se sair da mediocridade em que estamos não basta ser sério, ter boa formação, preparação académica, uma carreira profissional, e chegar com as melhores intenções. A entrevista que o Prof. Sampaio da Nóvoa deu este sábado ao Expresso dá cabo de qualquer candidatura. Não sei se a culpa será só dele, se também do PS e de alguns amigos da onça que lhe vão dando gás e palmadas nas costas. Em qualquer caso, Sampaio da Nóvoa devia ser o primeiro a ver que as suas hipóteses de chegar a Belém são agora mais fracas. E, vendo isso, gerir uma saída de cena que não cause mais danos à sua pessoa. Para se ser um cidadão exemplar não é preciso fazer papel de mártir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

As frases infelizes

por Helena Sacadura Cabral, em 15.08.15

Há frases infelizes. É o caso da proferida por Sampaio da Nóvoa, quando diz ao Expresso: “tenho dificuldades em perceber como é que as pessoas que fracturam tudo, mesmo dentro dos próprios partidos, se podem propor para lideranças agregadoras do conjunto dos portugueses”.

Será que o académico não reconhece a Maria de Belém o direito de se candidatar à Presidência da República? É este o seu conceito de liderança agregadora?

Maria de Belém já tem um movimento de apoio à sua candidatura. Frases deste tipo só servem para o reforçar!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases de 2015 (26)

por Pedro Correia, em 08.07.15

«Apoio do PS é muito importante para mim.»

Sampaio da Nóvoa

Autoria e outros dados (tags, etc)

Costa tira o tapete a Nóvoa.

por Luís Menezes Leitão, em 03.07.15

Desde o início, logo que Costa empurrou Nóvoa para Belém, que tenho vindo a afirmar que com essa iniciativa Costa se suicidava politicamente, arrastando todo o PS com ele. É evidente que o apoio a um candidato radical de esquerda vai assustar o eleitorado de centro, que é onde se ganham as eleições. Que seria do PS se alguma vez tisse apoiado Otelo em 1976 ou Pintasilgo em 1986? Nessa altura, por muita simpatia que esses candidatos suscitassem na sua ala esquerda, os socialistas souberam ter juízo e não embarcar em cantos de sereia.

 

António Costa manifestamente não tem a mesma ponderação e mergulhou de cabeça no desastrado apoio a Nóvoa. Mas pelos vistos ainda há gente no PS com algum senso e já desafiaram Maria de Belém a avançar. Faz todo o sentido, pois dificilmente o PS poderia ter um nome mais adequado para o palácio de Belám. Já imagino os slogans: "Para Belém, Maria de Belém".

 

E perante isto o que faz António Costa? Naturalmente tira o tapete a Nóvoa, dizendo que afinal o PS pode não apoiar nenhum candidato. Temos aqui claramente um padrão de comportamento político. Depois de ter tirado o tapete a Seguro, Costa tira o tapete a Nóvoa. Resta saber quantos mais tapetes vai tirar nesta campanha alegre.

 

Em consequência, Nóvoa vai ser lançado às feras, logo agora que ele tinha alcançado uma vitória retumbante no referendo do Livre, tendo alcançado nada menos que 87% de 867 votos! Como se pode compreender então que António Costa se queira ver Livre dele?

Autoria e outros dados (tags, etc)

A grande ilusão.

por Luís Menezes Leitão, em 21.06.15

 

António Costa acusa Passos Coelho de criar a ilusão de que o país está melhor. Trata-se de uma ilusão tão grande que até António Costa foi iludido. Afinal não foi ele que há quatro meses foi dizer à comunidade chinesa que Portugal está melhor hoje do que há quatro anos? Mas António Costa não é ilusionista e por isso não faz promessas que não pode cumprir, como a abolição ou redução das portagens na via do Infante. António Costa limitou-se a descobrir a solução para a crise. A solução não está nem "na saída do euro, nem na prossecução da austeridade". Está na "coesão e convergência das economias europeias". Acho que o Syriza fez mais ou menos a mesma promessa, de que iria abolir a austeridade sem sair do euro, apostando na coesão e convergência dos restantes países europeus. Os quais, diga-se de passagem, não lhe têm faltado com o seu apoio nesta fase crítica.

 

Mas António Costa tem todas as garantias para conseguir ter sucesso nas suas promessas eleitorais. Para isso conta com o seu candidato presidencial que já avisou que, se for eleito (longe vá o agoiro), vai exigir que as promessas eleitorais sejam cumpridas. Isto porque, como bem salienta o candidato, "um Presidente da República pode exigir que as promessas sejam cumpridas. Pode exigir e vigiar e se entender que as promessas não estão a ser cumpridas, deve usar todos os meios ao seu dispor para encetar uma renovação política". Ficamos assim a saber que Sampaio de Nóvoa admite demitir o governo e dissolver a assembleia, se chegar à conclusão que as promessas feitas na campanha não estão a ser cumpridas. Se calhar alguém já lhe chamou a atenção de que a assembleia pode nesse caso renovar a confiança no governo, ou o país reeleger novamente o mesmo partido, caso em que ao presidente só resta renunciar ao cargo. Mas isso não preocupa nada o candidato. "Serei um Presidente da República despojado porque não tenho nenhuma carreira política ou outra qualquer pela frente. Não hesitarei nunca em tomar as decisões que eu ache que devem ser tomadas”. Teríamos assim um Presidente cheio de iniciativa. Como o próprio assume: "Todos os dias acordarei a pensar e a mobilizar os portugueses para as grandes causas”.

 

Estes dois precisam rapidamente de um profundo mergulho na realidade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma campanha alegre.

por Luís Menezes Leitão, em 02.06.15

Não consigo resistir ao bom humor que provoca a pré-campanha de Sampaio da Nóvoa. Agora teve uma intervenção no Comedy Lisboa, que de facto pelas notícias mais parecia uma stand up comedy do que uma sessão política.

 

O candidato apresentou três ideias, qual delas a mais absurda. A primeira ideia é aproveitar "os movimentos de renovação artística" para inspirar uma mudança profunda. Segundo o candidato, “andamos o tempo todo a ouvir os mesmos, a falar com os mesmos". Por isso, o debate público faz-se com as “ideias de sempre, um bocadinho gastas” o que deixa os portugueses “prisioneiros de um pensamento que vem de trás”. Por isso, Nóvoa defende que “é preciso chamar pessoas improváveis e grupos improváveis”. Já sabemos assim que se for eleito Presidente, Nóvoa formará um governo de improváveis. Resta saber como é que esse governo passa na Assembleia...

 

A segunda ideia resume-se numa frase: “Portugal tem tudo para ser um país diferente”. Isto de ideia não tem nada, mas é capaz de ser bem verdade. Se Nóvoa fosse eleito, Portugal seria de facto um país muito diferente, gerido pelos tais improváveis. Arrisca-se a não fica pedra sobre pedra.

 

E para demonstrar que Nóvoa nada aprendeu com a quase-bancarrota nacional, defende "investimentos estratégicos continuados, sustentados”, criticou os “últimos quatro anos” em tudo parece ter parado. “Se eu num determinado momento da minha vida venho para a política é por não aceitar esse corte na escola, na educação, nas artes, na segurança social”.

 

Aqui até os apoiantes de Nóvoa vacilaram. Uma apoiante achou que ele seria melhor candidato a primeiro-ministro. Outro apoiante, Elísio Summavielle, que fora responsável pela cultura nos tempos de Sócrates, e portanto um dos autores dos cortes que Nóvoa tanto critica, achou que ele tinha que se deixar de conversas e passar à campanha, designadamente aos outdoors. Sugeriu até que ele fosse como Soares à Marinha Grande sujeitar-se a "duas bofetadas". Imaginar Nóvoa a ser atacado na Marinha Grande, ele que é de uma esquerda ainda mais radical que os operários que lá andam, é de facto o non sense político absoluto.

 

Mas o candidato rejeita manobras eleiçoeiras deste género e até diz: "Eu não quero a minha cara nos outdoors". Mais vale tirá-la também dos boletins de voto.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Será o Benedito?

por Luís Menezes Leitão, em 26.05.15

Da apresentação da declaração de princípios de Sampaio de Nóvoa retive que o mesmo se compromete a dar continuidade ao legado de Eanes, Soares e Sampaio, deixando naturalmente Cavaco de fora, talvez pela singela razão de que este não o apoiou. Na verdade, trata-se de mandatos presidenciais absolutamente contraditórios, que vão desde o total intervencionismo (Eanes) à omissão absoluta (Sampaio), pelo que obviamente não resulta dali qualquer legado comum. Nóvoa bem podia por isso ter acrescentado o legado dos Reis de Portugal, desde D. Afonso Henriques a D. Manuel II, que o resultado prático seria o mesmo. É por isso que Nóvoa já acrescentou mais uma frase memorável ao rol com que nos costuma presentear ao dizer que "o Presidente da República não deve agir nem contra nem a favor dos governos ou das oposições".

 

Uma vez que Nóvoa tanto gosta de citações talvez pudesse recordar a inspiração dessa frase numa célebre boutade do político brasileiro Benedito Valadares, que dizia: "Eu não sou contra nem a favor, muito pelo contrário!". Na verdade, tudo em Nóvoa lembra a história de Benedito Valadares. Da mesma forma que António Costa não tinha candidato presidencial, Getúlio Vargas não tinha candidato a governador de Minas Gerais, tendo tomado a decisão de escolher Benedito Valadares por um motivo singelo: "Todos tinham candidato e queriam apenas que eu adoptasse as preferências alheias. Só eu não podia ter candidato, e pensei que deveria tê-lo. Escolhi esse rapaz tranquilo e modesto, que me procurou antes, sem nunca pensar que seu nome pudesse ser apontado como interventor". A decisão causou de tal forma surpresa na população que surgiu em todo o Brasil uma célebre frase: "Será o Benedito?". A reacção geral em Portugal à escolha de Sampaio da Nóvoa por António Costa será seguramente de teor semelhante. Quanto ao candidato promete-nos "ser um Presidente presente, próximo das pessoas, capaz de ouvir, de cuidar, de proteger". Acredito que também acabe a dizer como Benedito Valadares: "Estou rouco de tanto ouvir!".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os apoios de Sampaio de Nóvoa.

por Luís Menezes Leitão, em 22.05.15

Há um sintoma preocupante que atinge os políticos portugueses de esquerda, principalmente a partir dos 75 anos de idade: uma tendência irresistível para o apoio a Sampaio da Nóvoa. Quem pode resistir afinal a um candidato que lhes recorda as suas maiores paixões da juventude, a luta intransigente pelos gloriosos amanhãs que cantam? Quem pode resistir a um candidato que participou na LUAR, nas comissões de moradores e de trabalhadores, e que fundou o glorioso movimento do TMUPA, Trabalhadores Moradores Unidos para as Autarquias, que arrasou tudo e todos nas eleições para a Assembleia de Freguesia da Parede em 1976? Quem pode resistir a um candidato que considera abominável o "arco da governação", porque logo à partida exclui 20% dos portugueses, que deveriam naturalmente ser a vanguarda da classe operária?  É por isso que, como Presidente, se propõe fazer consensos em torno de projectos, que é de todas as coisas a que faz melhor. Mas desde que não seja ao centro, que essa amálgama do centro é uma coisa muito irritante em Portugal. Nóvoa nem sequer está muito preocupado com a estabilidade governativa, admitindo dar posse a um governo minoritário (se calhar dos tais 20%…), já que para ele estabilidade não é ficar tudo na mesma. Por isso também não quer um governo de bloco central, já que o seu ponto de partida é a crítica às políticas de austeridade. Este discurso recorda-me Vasco Gonçalves, o saudoso companheiro Vasco, que após as eleições de Abril de 1975 garantiu que não podia permitir que fossem perdidas nas urnas as conquistas revolucionárias tão duramente obtidas pelo povo português.

 

Os apoios de Sampaio da Nóvoa são inteiramente justificados. Da mesma forma que o candidato considera aqueles momentos dos anos revolucionários os mais importantes da sua vida, quando tinha a sensação de que tudo era possível, os seus apoiantes aspiram também pelo regresso a esses tempos heróicos. Se calhar também já estou afectado pelos discursos de Sampaio da Nóvoa, pois só recordo a propósito uma citação do poema de Casimiro de Abreu, As Primaveras, de 1859: "Oh! que saudades que eu tenho/ Da aurora da minha vida/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores/ Naquelas tardes fagueiras/ À sombra das bananeiras/ Debaixo dos laranjais!". Mas o problema é que Sampaio de Nóvoa também defende a não assinatura do Acordo de Parceria Transatlântica para o Comércio, um referendo aos tratados europeus e a renegociação da dívida até ao limite do possível. Parece-me por isso que ele e os seus apoiantes vão ter um duro choque com a realidade. Tão duro que provavelmente acabarão mas é a cantar o Que reste t'il de nos amours?, de Charles Trenet.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os candidatos.

por Luís Menezes Leitão, em 10.05.15

 À Direita já se percebeu que vai haver dois candidatos às presidenciais. Um é Marcelo Rebelo de Sousa, que já disse de si próprio que é como o código postal: "meio caminho andado". Na verdade, fez muito mais de meio caminho, andando há anos a preparar a sua candidatura, através de um processo metódico de reconstrução televisiva da sua persona pública. Hoje já ninguém se lembra do Marcelo mefistofélico e criador constante de factos políticos, mas não se sabe se essa personagem não vai regressar, logo que ele se veja em Belém. É por isso que nem nos seus maiores pesadelos Passos Coelho admite Marcelo Rebelo de Sousa na presidência e tudo fará para que ele não seja eleito. O mesmo dirá Portas, que ainda se lembra de como terminou a segunda AD, que construiu com Marcelo. Este só poderá assim avançar em caso de derrota da coligação.

 

Em caso de vitória da coligação, já se sabe que o candidato é Rui Rio. E será uma boa escolha. É um candidato que deixou uma imagem de seriedade na gestão da Câmara do Porto e tem condições de imparcialidade para assumir a presidência. Curiosamente não é muito bem visto na entourage de Passos Coelho que, vá lá saber-se porquê, sempre preferiu Luís Filipe Menezes. Talvez por esse motivo, Rui Rio apareceu nos últimos tempos muito próximo de António Costa, o que pode ser uma vantagem para as presidenciais. Já não o será, porém, em caso de derrota da coligação, pois aí naturalmente disputará a liderança do PSD e esta proximidade a António Costa pode lhe ser fatal.

 

À Esquerda está tudo definido. É Sampaio da Nóvoa o candidato único, já que até Carvalho da Silva desistiu de o defrontar. Não admira. Como se vê nesta entrevista, mais do que o candidato do PS, Nóvoa é o candidato dos sectores à esquerda do PS. O seu baptismo político foi na LUAR e numa entrevista televisiva recusou-se a assumir que votaria PS. Na verdade, o discurso político de Nóvoa faz lembrar o discurso de Lurdes Pintasilgo, parecendo que recuámos trinta anos no tempo. Diz que é independente e até acha que essa independência será apreciada pelos sectores militares, como se os militares tivessem um voto diferente do de qualquer outro cidadão. É contra o "arco da governação" e só a contragosto é que daria posse a um governo do Bloco Central, já que acha que é capaz de forjar outros entendimentos contra a austeridade. Mas em qualquer caso, dará posse a um governo minoritário, sem problemas com a estabilidade, já que estabilidade para ele "não é ficar tudo na mesma". E de tal forma o assume que quer referendos aos Tratados Europeus e defende a renegociação da dívida "até ao limite do possível". Quanto ao fracasso desta política na Grécia, ainda não o consegue ver. Pelo contrário, até acha que "estamos aqui e agora, para poder construir um projecto de mudança em Portugal e darmos um contributo para a mudança na Europa".

 

Como bem lembrou João Gonçalves, num célebre debate entre Soares e Pintasilgo, aquele respondeu a este tipo de discurso sonhador com a afirmação de que "nem um castiçal cá ficava se a senhora fosse eleita". Mas o Soares de hoje já não é o mesmo desses tempos. O que espanta, no entanto, é que António Costa empurre o PS para um apoio a um candidato com este perfil e que, felizmente para todos nós, não tem a mínima hipótese de ser eleito. A não ser que o objectivo de António Costa seja o de apresentar este candidato para satisfazer a ala esquerda do seu partido,  permitindo a eleição de Rui Rio, com quem facilmente pode estabelecer pontes. Neste enquadramento a estratégia faz sentido. Só que, como acima se salientou, para Rui Rio ser candidato é necessário que Costa perca igualmente as eleições legislativas…

Autoria e outros dados (tags, etc)

Assentar praça em general

por Pedro Correia, em 07.05.15

SAMPAIO[1].jpg

 

A entrevista de António Sampaio da Nóvoa à RTP Informação - muito bem conduzida por Vítor Gonçalves, um dos melhores entrevistadores actuais da televisão portuguesa - permitiu mostrar enfim ao País o candidato presidencial apoiado por uma parte do PS.

Confirma-se: é uma solene vacuidade.

Sampaio da Nóvoa surge como emanação directa do brilhante "laboratório de ideias" pessoais de Mário Soares, de onde na última década já haviam saído o próprio Soares, em marcação cerrada a Manuel Alegre (o que entregou a Presidência de bandeja a Cavaco Silva em 2006), e Fernando Nobre (novamente para travar o passo a Alegre). Mas Alegre e Nobre - como Almeida Santos, que Soares em vão planeou lançar, como sucessor de si próprio, nas presidenciais de 1996 - tinham percurso e biografia. Nóvoa, pelo contrário, nada tem para exibir além das suas respeitáveis credenciais académicas e de umas quantas frases grandiloquentes mas vazias de conteúdo político, como a que rematou a entrevista de ontem: «Os livros são a vida, está lá tudo.»

 

A frase, de algum modo, revela o candidato. Até ao momento em que decidiu apresentar-se na corrida a Belém, após conversar com «milhares de pessoas» (das quais apenas menciona Soares), Nóvoa notabilizou-se na vida pública por dois discursos: um pronunciado no 10 de Junho de 2012, a convite de Cavaco, e outro em Novembro de 2014, no congresso do PS, a convite de António Costa.

Tinha 19 anos quando aconteceu o 25 de Abril: o que fez na altura? O mesmo que já fazia na véspera da revolução: estudava e jogava futebol em Coimbra. E durante o febril processo revolucionário? E na ressaca do PREC? E militou antes, de algum modo, contra a ditadura?

Tudo na mesma linha, tão vaga como nevoeiro.

 

Durante décadas, nada dele transpareceu fora das opacas paredes da Academia. É especialista em História (como Pinheiro Chagas, vergastado por Eça numa das mais célebres polémicas de que há memória cá na terra) e sempre foi «de esquerda». Sem no entanto revelar aos compatriotas que ignoram tudo sobre ele quais foram as suas opções de voto nestas quatro décadas.

Entende que «há uma democracia que vai para além dos partidos», frase que já Otelo proclamava em 1975 e pouco grata vinda de um candidato que se prepara para ter um aparelho partidário a fazer-lhe a campanha.

Só por insistência do entrevistador, já no final, introduziu na sua prédica a necessidade de combater a corrupção - matéria essencial na política portuguesa. E jura que, se fosse Presidente da República, teria dissolvido a Assembleia da República em Julho de 2013, a pretexto da saída de Vítor Gaspar e do momentâneo arrufo de Paulo Portas - apesar de haver uma sólida maioria parlamentar e o País, sem acesso aos mercados financeiros, se encontrar então sob assistência externa de emergência. Transformando assim, por contraste e certamente sem intenção, Cavaco Silva num estadista.

 

Ao escutar Sampaio da Nóvoa, dei por mim a lembrar uma expressão que ouvia muito quando era miúdo: «Este quer assentar praça em general.»

Envolto em névoa, é mesmo isso que pretende Nóvoa: assentar praça em general. Sem tirocínio político, sem percurso cívico conhecido dos eleitores que serão convocados às urnas em Janeiro, chega aos 60 anos confessando que tremeria perante a primeira crise séria se estivesse em Belém, lançando o País numa aventura irresponsável.

É pouco como cartão de visita. E, francamente, não se recomenda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O candidato.

por Luís Menezes Leitão, em 30.04.15

 

Se alguém tinha dúvidas sobre a absoluta vaguidade de Sampaio da Nóvoa, corporizada na total ausência de ideias e propostas concretas, ficou esclarecido com o seu discurso de ontem. Qualquer candidato a Presidente da República, na apresentação da sua candidatura, deve responder a algumas questões básicas. Este candidato respondeu assim:

— Por que é que se candidata?

— Pela "obrigação de não ficar em silêncio, não me esconder num tempo tão duro".

— O que é que vai fazer na Presidência?

— "Se for eleito Presidente da República não serei o espectador impávido perante a degradação da nossa vida pública".

— Mas então o que vai fazer de concreto?

— Vou ser "presente, capaz de ouvir, cuidar, proteger e promover a inclusão".

— Mas de que forma?

— Vou "unir os portugueses e fazer pactos para o futuro" "Tudo na mesma é que não".

— Mas não nos consegue dizer nada de mais preciso?

— O meu compromisso para Presidente ficará selado numa carta de princípios a ser apresentada "dentro em breve".

— Mas o que é que acha de que facto pode fazer um Presidente da República?

— Um Presidente da República "pode fazer a diferença". "Não governa nem legisla", mas deve ser "um moderador, um regulador". "É por isso que aqui estou". Proponho-me dizer o que penso sobre as grandes questões de Portugal e "agitar".

 

O candidato questionou: "Que política é esta, sem uma única ideia de futuro para Portugal, que país é este que parece sem vontade, sem pensamento e sem rumo?". Acho que deveria começar por olhar para si próprio, já que não apresentou nenhuma ideia nem nenhum pensamento em concreto, tendo até contraditoriamente assumido a posição simultânea de moderador e de agitador. Talvez seja essa a razão por que foi escolhido para candidato pelo PS, em detrimento de Henrique Neto que, esse sim, tem falado de coisas concretas, como o número de políticos a contas com a justiça.

 

Em qualquer caso, está visto que a candidatura de Sampaio da Nóvoa não entusiasma ninguém. Não é por acaso que foi lançada no Teatro da Trindade, com uma capacidade para 400 pessoas, quando o lógico seria que fosse na Aula Magna da Universidade de Lisboa, da qual foi Reitor, com uma capacidade para 1600 pessoas, e que foi onde Jorge Sampaio apresentou a sua candidatura. E mesmo no Teatro da Trindade, os lugares tiveram que ser preenchidos com gente do PS. Já António Costa, que empurrou o candidato para Belém, convenientemente nem sequer compareceu, limitando-se a mandar a família. Na verdade, o candidato não existe sem o PS, e se este não lhe tivesse manifestado apoio, estaria ao nível dos outros candidatos folclóricos que têm surgido. Mas o apoio de um partido não chega para eleger um candidado anódino, como ficou demonstrado em 1980 quando a AD apoiou um general desconhecido, Soares Carneiro, para Belém. Sampaio da Nóvoa já começou a tomar consciência disso, quando disse que "vai ser difícil". Não me lembro de ter ouvido essa frase em nenhum outro lançamento de candidatura.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Frases de 2015 (14)

por Pedro Correia, em 20.04.15

«Seria ilusório pensar que, passada esta crise, vamos ter políticas de crescimento. Mas, num certo sentido, isto pode não ser totalmente negativo.»

Sampaio da Nóvoa

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma arrancada fulgurante.

por Luís Menezes Leitão, em 18.04.15

Vá lá saber-se porquê, o Expresso decidiu arrancar como órgão oficioso de apoio à candidatura de Sampaio da Nóvoa. É assim que interpreta as suas próprias notícias, absolutamente desastrosas para o candidato, em sentido favorável ao mesmo. Ontem os resultados da sondagem que publicou indicam que 48% dos portugueses ignora totalmente quem é Sampaio da Nóvoa e só 44% ouviu alguma vez falar dele. Precisamente por isso só 16,5% acham que ele tem alguma hipótese de ganhar as presidenciais. O que é que conclui o Expresso disto? Numa "análise benigna, constata-se que o caminho de Sampaio da Nóvoa até poder chegar a Belém é longo mas não impossível". Eu diria antes que, face a estes resultados, Sampaio da Nóvoa tem tantas hipóteses de chegar a Belém como a Torre Eiffel de dançar o samba.

 

Hoje a notícia do Expresso é que o PCP não afasta apoio a Nóvoa. Só que o texto da notícia diz precisamente o contrário. O PCP vai como sempre apresentar um candidato próprio, e só admite retirá-lo à boca das urnas se uma outra candidatura tiver hipóteses de vencer. O que está muito longe de ser o caso da de Nóvoa.

 

Entretanto, como não poderia deixar de ser, quem anda entusiasmadíssimo com o avanço de Nóvoa é Marcelo Rebelo de Sousa, que nem acredita na prenda da Páscoa que recebeu. É assim que faz apelos fulgurantes a que não lhe retirem o prometido despique com o candidato Nóvoa: "Apoiado por três ex-presidentes é um candidato fraco? Vou ali e já venho". Só que o apoio dos três ex-presidentes só significa três votos, permitindo por isso esse fortíssimo candidato a Marcelo ir-se embora e só regressar na véspera das presidenciais.

 

A esquerda está a cometer com o apoio a Nóvoa o mesmo erro que a direita cometeu em 1980 quando Sá Carneiro impôs um candidato absolutamente desconhecido, Soares Carneiro, para Belém. Qualquer analista político sabe que o primeiro teste a fazer a um candidato é o teste do reconhecimento: saber se os eleitores fazem a mínima ideia de quem o candidato seja. Nesse primeiro teste Nóvoa não passou. Mas provavelmente isso não interessa nada aos estrategas do PS, que já que devem estar a preparar os slogans da campanha: "Na presidência um desconhecido". Ou: "Vote em Nóvoa mesmo sem saber quem ele seja".

 

O problema desta candidatura é, no entanto, outro. É que vai multiplicar os candidatos presidenciais da direita, que já se imaginarão em Belém, sabendo que o adversário da esquerda é Sampaio da Nóvoa. Assim sendo, a prenda que Marcelo Rebelo de Sousa julga ter recebido pode revelar-se um presente envenenado. Passos Coelho não quer Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, pelo que só constrangido o PSD lhe daria apoio para evitar a vitória de um candidato de esquerda. Se o candidato for Nóvoa, o PSD pode muito bem optar antes por Santana Lopes, uma vez que até ele daria um banho eleitoral a Nóvoa. O resultado desta estratégia desastrada de António Costa pode ser assim a ida de Santana Lopes para Belém, algo que nem nos meus maiores pesadelos eu julgaria que fosse possível.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Outro que fuma mas não inala?

por Pedro Correia, em 12.04.15

51638882-e1346793153523[1].jpg

 

António Sampaio da Nóvoa, enquanto reitor da Universidade de Lisboa, presidiu ao júri que em 2007 chumbou José Luís Saldanha Sanches na prova de agregação que lhe permitiria tornar-se professor catedrático da Faculdade de Direito.

A prova realizou-se cinco dias antes das eleições autárquicas em Lisboa que dariam a primeira vitória a António Costa para presidente do município. Saldanha Sanches - um homem que sempre foi de esquerda - integrava a equipa do candidato socialista como seu mandatário financeiro.

Segundo testemunhos insuspeitos, Saldanha Sanches - já então considerado um dos mais reputados professores da faculdade, na sua especialidade de Direito Fiscal - foi alvo de um inaceitável achincalhamento durante essa prova devido a motivações políticas, acto facilitado pela cobardia do anonimato então vigente entre os avaliadores, que não necessitavam de tornar pública a respectiva decisão.

José Luís Saldanha Sanches morreu menos de três anos depois, com o prestígio intacto. A inédita reprovação de que foi alvo não o manchou a ele: manchou quem o avaliou. "Chumbaram-no de forma vil", garante João Taborda da Gama. Dizem agora testemunhas presenciais do evento que a coisa decorreu de tal forma que a sala se foi despovoando, em mudos sinais de protesto. "Chorei de raiva no dia em que Saldanha Sanches foi chumbado de forma persecutória nas suas provas de agregação", lembra Isabel Moreira.

Sampaio da Nóvoa, presidente do júri por inerência, terá ficado incomodado. Não consta, no entanto, que tivesse à época esboçado o menor protesto. Não saiu da sala, não deixou lavrado em acta qualquer sobressalto, não teve sequer um gesto simbólico que o demarcasse do ocorrido.

"É prerrogativa do presidente de um júri de provas de agregação interromper, ou mesmo impugnar, os trabalhos, se achar que o processo não é transparente. Ou achou que a avaliação foi limpa (coisa extraordinária), ou não teve coragem para contrariar os seus doutos colegas", acentua aqui André Pinto, assegurando que o reitor "tinha mecanismos estatutários que lhe permitiam pelo menos anular a infâmia praticada", algo que terá sucedido noutros casos.

Conclusão provisória (aguardando pronunciamento do visado): António da Nóvoa permaneceu em silêncio perante a iniquidade. Uma versão lusitana do outro que, lá por bandas norte-americanas, fumava sem inalar.

Será este um bom cartão de visita para quem ambiciona ocupar o Palácio de Belém?

Autoria e outros dados (tags, etc)

O candidato.

por Luís Menezes Leitão, em 11.04.15

Já tinha tido ocasião de escrever aqui que, com o seu apoio a Sampaio da Nóvoa, António Costa tinha decidido suicidar-se politicamente, arrastando todo o PS com ele. Sabe-se agora que o fez completamente sozinho, sem avisar o seu partido, parecendo assim Andreas Lubitz, que se fechou no cockpit, e resolveu atirar o avião contra a montanha. Como bem se salienta aqui, imagine-se o que não se diria de António José Seguro se tivesse feito alguma vez algo semelhante.

 

Apesar de as legislativas serem muito mais importantes do que as presidenciais, são estas eleições as que despertam maior interesse pela fulanização que originam, pelo que a identificação antecipada do principal partido da oposição com um candidato presidencial é altamente redutora para esse partido, especialmente se o candidato vai ser igualmente apoiado por uma frente de partidos de esquerda, na qual o PS se dissolverá, afastando o eleitorado do centro, que é onde se ganham as eleições.

 

Mas o problema principal do apoio a esta candidatura é que se trata de um candidato absolutamente vazio, sem qualquer passado político, que esconde a vacuidade das suas propostas através de um discurso gongórico. Já imagino o seu discurso de apresentação da candidatura:

 

«Chegou de novo o dia em que temos de pensar mais nos outros do que em nós, em que temos de nos virar para o país, procurar sentidos, construir sentidos, uma vida digna de ser vivida (…).

Sei que tenho a obrigação de dizer palavras de futuro, e não as encontro. Não sei onde é que estão. Não sei para onde foram». (…) 

«É viver no presente mas para além das fronteiras do presente. Por isso, é nosso dever, é nossa obrigação, ir à procura da esperança, de uma esperança que é mudança. E se não a encontrarmos à primeira, então que façamos dela luta, resistência, união em torno de causas maiores que recusem as políticas menores que nos asfixiam. (…)».

É tempo de dizer não! (…). Não a um país sem futuro. “Perdoai-lhes Senhor, porque eles sabem o que fazem!” (Sophia de Mello Breyner).”»(…)

«O que mais nos surpreende, e nos indigna, é a fragilidade deste país. Parece que tudo abana à mais leve rajada de vento. Abanam as convicções, as pessoas, as instituições.

É por isso que temos de ser impacientes.

Não há nada mais urgente do que uma ideia de futuro, do que uma visão de longo prazo. Porque é ela que nos permite dar o primeiro passo. E nele vai já o caminho todo, toda a energia do percurso que temos de fazer» (…).

«Não queremos uma pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões (Almada Negreiros). Precisamos de uma coerência que está inscrita na história que fizemos depois de Abril. Não voltaremos atrás. (…)»

«Portugueses somos, como escreve Joel Serrão, que cito, para concluir:

“Nem a chuva amainou ainda, nem o sudoeste deixou de soprar em rajadas fortes, nem é menor o frio que há pouco sentia. Porém, ao olhar pela vidraça, como quem espairece o ânimo alquebrado por um momento de desânimo ou talvez de cansaço, que vejo? Que esperança é esta que sinto correr com o meu sangue?

Desculpai a confidência: à chuva, ao vento, as roseiras que podei em Dezembro rebentam já, e um cacho de glicínias – um só cacho ainda – antecipa-se em promessa do que será, em breve, um lençol lilás… Portugueses somos, amigos. É bom sabê-lo – e assumi-lo.”»

 

Precisamente em virtude da sua absoluta falta de passado político, a única coisa que se arranjou para se apontar ao candidato foi ter presidido ao júri de professores da minha Faculdade que reprovou Saldanha Sanches na agregação. Eu tinha uma profunda admiração por Saldanha Sanches e senti uma enorme tristeza com a sua morte prematura, como na altura tive ocasião de escrever. É, no entanto, evidente que Sampaio da Nóvoa não tem qualquer responsabilidade na decisão de um júri de uma Faculdade de que não faz parte, e em cujas deliberações nem sequer vota, sendo a sua presidência enquanto Reitor meramente protocolar. Apesar de muito bem escrito, este texto não tem por isso o mínimo fundamento, sendo a acusação final absolutamente ridícula.

 

Mas curiosamente, apesar de a acusação ser ridícula, a mesma desencadeou um coro de ataques ao articulista, que não me lembro de alguma vez ter ocorrido com artigos de opinião. Desde Augusto Santos Silva, passando por Isabel Moreira, e acabando em Arnaldo Matos, toda a esquerda se uniu no ataque a quem se atreveu a apontar uma única nódoa que fosse ao branquíssimo candidato, por mais insignificante — e neste caso inexistente — que fosse essa nódoa.

 

A única conclusão que se pode retirar de tudo isto é que afinal não é apenas António Costa mas a esquerda em geral que está a levar este candidato a sério. Só me apetece citar alguém — não foi Sophia de Mello Breyner — que disse: "Perdoai-lhes, senhor, porque eles não sabem o que fazem!" (Lc. 23,24).

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 10.04.15

«O sr. Sampaio da Nóvoa, à sua maneira, anuncia o fim da ordem democrática que nasceu em 25 de Novembro de 1975. Nunca antes uma personagem do regime (e muito menos uma dúzia de "senadores") nos tinha sugerido que votássemos numa criatura que não existe. O sr. Sampaio da Nóvoa, aos 60 anos, não pode apresentar um único acto político de consequência. Teoricamente, é igual votar nele ou votar num boneco fabricado pelos partidos, excepto que o boneco talvez fosse mais modesto e mais consciente do seu embaraçoso estatuto.»

Vasco Pulido Valente, no Público

Autoria e outros dados (tags, etc)

Leitura recomendada

por Pedro Correia, em 09.04.15

Sampaio da Nóvoa Presidente. De João Taborda da Gama, no Diário de Notícias.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Quanto vale o apoio de Soares?

por Pedro Correia, em 06.04.15

Dizem-nos que António Sampaio da Nóvoa - um ilustre desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses - beneficia à partida do apoio de Mário Soares como candidato à eleição presidencial.

Mas quanto valerá este apoio? Em 2006, Soares recusou apoiar Manuel Alegre (que foi o segundo mais votado, após Cavaco Silva), concorrendo ele próprio a Belém: ficou-se por uns modestíssimos 14,3%. Em 2011, recusando novamente apoiar Alegre, optou por Fernando Nobre. Que ficou na terceira posição, com 14%.

Vale o que vale, portanto. Muito pouco.

Autoria e outros dados (tags, etc)

O aval?

por Sérgio de Almeida Correia, em 15.03.15

909474.jpg

 (foto João Silva, Público)

Autoria e outros dados (tags, etc)


O nosso livro


Apoie este livro.



Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2017
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2016
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2015
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2014
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2013
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2012
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2011
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2010
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2009
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D