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Custa a acreditar neste novo mundo!

por Helena Sacadura Cabral, em 07.06.17

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 "La donación de 320 millones de euros que anunció el pasado marzo la Fundación Amancio Ortega para la renovación de los equipos de diagnóstico y tratamiento del cáncer en los hospitales públicos españoles no se ve con buenos ojos desde muchas asociaciones de usuarios de la sanidad pública.

El lunes pasado la Asociación para la Defensa de la Sanidad Pública de Aragón mostró su rechazo a la donación de 10 millones que la Fundación Amancio Ortega acordó con la Comunidad Autónoma de Aragón. El colectivo explica que no es necesario "recurrir, aceptar, ni agradecer la generosidad, altruismo o caridad de ninguna persona o entidad".
"Aspiramos a una adecuada financiación de las necesidades mediante una fiscalidad progresiva que redistribuya recursos priorizando la sanidad pública", afirma el grupo.
Esta asociación no es la única que se ha opuesto a este donativo. La semana pasada se hizo pública la donación de 17 millones a la región de Canarias, y la Asociación para la Defensa de la Sanidad Pública de esta comunidad criticó la actuación."
 
                                                      in El Mundo
 
Nem me dei ao trabalho de traduzir, porque se lê e se compreende. O que não se compreende é a recusa elitista da Associação para a Defesa da Saúde Pública de Aragão em aceitar dinheiro, cuja a finalidade se destinava à melhoria do sistema de saúde publico espanhol, no tratamento do cancro.
O que pensarão desta recusa todos aqueles doentes oncológicos a quem a referida doação poderia mitigar o seu sofrimento? Inacreditável, de facto, até onde a ideologia pode levar certas pessoas...
Amancio Ortega, filho de um ferroviário, começou a trabalhar aos 14 anos. Hoje é o dono da Inditex que possui marcas como a Zara, Massimo Dutti, Oysho, Zara Home, Kiddy's Class, Tempe, Stradivarius, Pull and Bear, Bershka e foi considerado pela Forbes o homem mais rico da Europa e um dos homens mais ricos do mundo.
Se o mundo não está louco, decerto que para lá caminha...

 

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Não a percam jamais

por Bandeira, em 13.04.16

Amigos do serviço de urgência do Hospital de S. Francisco Xavier: Não me conheceis, nem isso importa; sou filho da velhinha que foi deixada ao vosso cuidado por dois diligentes bombeiros ao princípio da chuvosa noite de ontem, vítima de um desmaio e subsequente queda que lhe rasgou um corte feio na cabeça e fez perigar o recobro das intervenções duras que a senhora havia sofrido, semanas antes, noutro hospital. Durante todo o tempo que a minha velhinha passou no interior do vosso serviço, entre análises e exames de imagiologia, percebi – no fundo já o sabia – o quanto são duras as vossas tarefas, difícil o trato humano. Sempre que tenham de lidar com uma velhinha assustada, um alcoolizado violento, um acidentado grosseiro ou um adolescente em pânico, por favor sintam o meu respeito e admiração. Obrigado por terem tratado a minha velhinha como se fora a vossa velhinha; por esse vosso espírito estranhamente jubiloso que vos permite acumular lucidez para os momentos mais difíceis; e sobretudo pela vossa gentileza, a vossa incomensurável gentileza: não a percam jamais.

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A utilização da morte como argumento de acção política é de uma indigência inenarrável. Contudo, e sem surpresa (pelo menos, para mim), Bloco de Esquerda, Partido Comunista Português e Os Verdes lançaram-se ontem num festim de necrofagia política raras vezes visto no Parlamento. Sem sinal de assombro ou de pudor, nem tão pouco de respeito pela família em luto, a morte do jovem David Duarte no hospital de São José foi usada pela esquerda para ataques e apartes no debate parlamentar – e para lamentar.

Felizmente, a inanidade da esquerda nacional foi mitigada no mesmo dia por uma excelente entrevista do Ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, à TVI. O início da conversa foi o evidente para qualquer pessoa de elementar bom senso: A morte “não pode ter uma leitura política”. Ponto. Isto não impediu o Ministro de fazer as críticas e os reparos que entendeu serem necessários. Disse, por exemplo, que o “SNS de 2015 não é melhor do que o de 2011”. Afirmou ainda que lhe parece “totalmente inaceitável que se considere que tudo se deve aos cortes, como também [lhe] parece inaceitável que se diga que os cortes não tiveram qualquer tipo de efeito”. Mais do que qualquer outra coisa, as declarações do Ministro da Saúde tiveram o mérito de repor a decência no debate e a capacidade de afastar o Governo da delinquência em auto-gestão vigente nos partidos que o apoiam.

Quanto às causas do sucedido, o Ministro foi prudente dizendo aguardar a conclusão do inquérito. Mas deu uma notícia. Discretamente, Adalberto Campos Fernandes declarou estar convencido que se tivesse havido um apelo a uma equipa de neurocirurgia de outro hospital, público ou privado, seguramente a resposta seria positiva – algo já sugerido pelo médico Luís Carvalho Rodrigues num artigo de opinião publicado no Observador. O hospital terá que se explicar a este respeito. Resta agora esperar que as inquirições em curso não bocejem em resultados inconclusivos ou habilmente salomónicos. O Ministro da Saúde promete que nunca se justificará com as condições que o antecederam. Cá estaremos para ver.

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Sem stress

por Rui Rocha, em 19.12.15

É diluir o Calcitrin em água e já podem vendê-lo como medicamento homeopático.

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Gitanes

por Francisca Prieto, em 14.12.15

Quem deu cabo do coração ao meu pai não foi a minha mãe. Foi uma mulher vestida de sevilhana que dançava de braço alçado com uma castanhola no ar, toda ela envolta em névoa misteriosa.

Despedaçou-lhe a aorta, o raio da mulher. A pontos de lhe provocar enfartes, fanicos, nós no peito, desmaios e palpitações,

Tinha ginete a senhora. Temperamento forte, aroma almiscarado. E era tão perigosa que um dia houve um médico que aconselhou o meu pai a mandá-la porta fora.

Depois disto, nunca mais vi o meu pai fumar.

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SNS: atrás de mim virá...

por Teresa Ribeiro, em 06.06.15

  

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Fiquei a saber por uma amiga que as urgências dos hospitais particulares já não são o que eram. Desde que os seguros de saúde se popularizaram, as salas de espera começaram a encher e o atendimento a degradar-se. O tempo em que as pessoas eram logo recebidas pelo médico já lá vai. Ela, que por razões de saúde recorre com frequência a estes serviços, está a ver crescer o seu rol de queixas a olhos vistos. O último episódio aconteceu há dias. Entrou no hospital da Luz a deitar sangue pelo nariz e pela boca, sem motivo evidente, e deixaram-na plantada à espera, com um saco para aparar a hemorragia na mão, alegando que ali o atendimento é por ordem de chegada.

Há uns tempos, desta feita no hospital da CUF, também eu fui surpreendida por uma cena ao melhor estilo do SNS. Uma médica teve o topete de me dizer, para começo de conversa, que só tinha 15 minutos para me atender. Num centro de saúde os mimos seriam os mesmos só que ficariam muito mais em conta.

Tudo isto me fez pensar na morte anunciada do SNS e nos mitos que paralelamente se têm alimentado acerca da excelência dos serviços de saúde privados. Com a massificação do acesso das pessoas a estes cuidados é claro que a qualidade tende a degradar-se. Aquela médica que precisava de me despachar em 15 minutos devia ter um contrato de outsourcing com o hospital que a obrigava a aviar x doentes à hora. Para oferecerem tarifas competitivas, estes hospitais têm que despachar muita gente em pouco tempo. No caso das urgências aplica-se a mesma lógica com a agravante de a facturação por utente poder subir exponencialmente em função dos exames pedidos, o que nos remeterá sempre para dúvidas quanto à real necessidade de alguns desses exames. Business is business

Faço um flash back e vêm-me à memória as inúmeras decepções que apanhei com o nosso Estado Social. Sempre me senti roubada por ser obrigada a pagar tantos impostos por tão baixo retorno. Idealmente o que o Estado nos cobra devia corresponder a serviços de excelência, só que tal nunca aconteceu nem acontecerá, bem sei. Mas como diz o ditado popular, "atrás de mim virá quem de mim bom fará". 

Se é para pagar um mau serviço prefiro o que me custa menos dinheiro e não seja para lucro de investidores privados. Admito que nesta minha escolha há uma base ideológica. Não abdico da convicção de que o melhor sistema é o que assegura aos contribuintes o retorno dos seus impostos através de apoio à doença, à velhice e no desemprego. Isso faz de mim, aos olhos dos meus amigos liberais, uma estatista, com a cabeça cheia de ideias anquilosadas, defensora de um modelo de sociedade que só aproveita aos parasitas que não têm fibra para se fazer à vida sem o Estado a pôr a mão por baixo.

Mas a verdade é que não me importo de sustentar com o dinheiro dos meus impostos os "parasitas" que recorrem ao SNS e vão inscrever-se no centro de emprego para ganhar algum nos cursos de formação. Não foram esses que entupiram a administração pública de tachos, blindaram a justiça, puseram o que deviam descontar para impostos a render em off-shores, desperdiçaram os rios de dinheiro que nos chegaram da UE em tempo útil e assinaram  contratos que levaram o Estado à ruína.

Os meus amigos que um dia vão sentir no seu lliberal pêlo o que é adoecer e envelhecer numa sociedade quase sem protecção social, ainda vão ter muitas saudades do velho SNS enquanto secam na urgência que puderem pagar, pelos cuidados que o seu seguro de saúde cobrir. 

 

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IPO. Pediatria. Falemos disto (agora já) sem medos

por Marta Spínola, em 04.02.15

Em dia de luta contra, deixo isto. E um abraço a todos, não só a quem luta, a quem tem alguém próximo que luta, não só aos mais pequenos, a todos, porque todos o tememos de uma forma ou outra e devemos luitar contra o cancro.

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Eu - como tanta gente - pensei muitas vezes o que seria a pediatria num sítio como o IPO. Todos queremos distância de tal sítio - do IPO todo, não só da pediatria - por todos os motivos e mais algum, se a pudermos ter. Nunca tinha lá entrado, nunca tive de lá ir. 

Ouvi muitas vezes e provavelmente também o terei dito que a ala pediátrica devia ser dura, que voluntariado sim mas ali não. Falamos muito, nós. 

O ano passado dei comigo a ir ao IPO com uma criança de pouco mais de um ano, a Carlota. Acompanhei dias de análises, consultas e exames e várias horas de espera de resultados, quer no Hospital de Dia quer no piso do Serviço de Pediatria. Vi crianças em tratamento, umas pacientemente à espera do fim, outras mais agitadas. Vi pais mais resistentes que outros, vi pais permitirem-se um desabafo lá fora para aguentar mais um pouco junto dos filhos. 

Testemunhei como o pessoal é dedicado e orientado para as crianças, vi os doutores palhaços acocorados cantar para a Carlota enquanto ela comia e não sabiamos se a sopa ía ficar ou voar no minuto a seguir. Não é um mundo de que se queira fazer parte, mas estando lá as coisas são feitas para que seja o nosso mundinho enquanto for necessário. E bem. E é.

Não, nunca me "fez impressão", no dia em que entrei pela primeira vez no Hospital de Dia o drama da minha cabeça foi-se. Não por não ser dramático o que lá se passa, naturalmente que é, mas o meu drama e o de tanta gente estava deslocado, não era por ali.

Vi muitas crianças, muitas. Uma que fosse já era demais, mas vi várias. E foi ao ver estas crianças que percebi como quando dizemos que não éramos capazes não podíamos estar mais longe da verdade. Eu acredito que muita gente não fosse capaz de ali estar, respeito a resistência de cada um. Mas passa-se a porta e não é sobre nós, passa a ser sobre eles. Comigo foi automático, sem esforço. Entrei e ali contavam só aquelas crianças, eu não, não as impressões, não os dramas de conversas ditas sem saber na pele sobre as coisas. Eu poderia eventualmente ajudar no que pudesse e não atrapalhar. A Carlota e os outros meninos é que importavam ali dentro.

Outra coisa de que as pessoas têm receio é de ver crianças em sofrimento. É claro que haverá níveis e casos para tudo, é claro que em pediatria há pré-adolescentes e é bem diferente com eles, sentem tudo de outra forma e torna-se mais duro nesses casos, admito. Mas muitas das crianças que vi temiam as "picas" - viam um enfermeiro e de beicinho queixavam-se "não... tu dás pica" (e o meu coração desfazia-se mais um bocadinho) ou de tirar adesivos, do repelão na pele. Isto comoveu-me de uma maneira que não sei explicar, problemas tão piores as levavam ali mas os medos delas são muitas vezes estes. A verdadeira e mais pura inocência. A mesmo inocência que as faz pedir aos pais para irem mais cedo e poderem ir brincar no Lions antes das análises, exames e tratamentos. 

O meu fantasma de fazer voluntariado num lugar assim foi-se. Não seria fácil, não tenho essa ilusão, mas hoje sei que teria a força que um dia achei não ter. Eles não choram o que lhes aconteceu, quem sou eu para me sentir fraca perante isso?

 

Originalmente publicado aqui.

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Ver para crer

por Teresa Ribeiro, em 05.11.14

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Quantas pessoas serão alérgicas aos kiwis? Suponho que a percentagem em relação à população total não é relevante, mas eu conheço uma. Descobri que tinha esse problema no dia em que a vi com a cara desfigurada, tal era o inchaço e a vermelhidão. Expllicou-me que só tinha tocado numa faca que antes servira para cortar aquele fruto. Mas fora o bastante.

É inacreditável como a reacção do corpo pode ser tão exuberante, mesmo quando o contacto é mínimo. É inacreditável, mas acredita-se. Apesar de a maioria das pessoas não ser reactiva ao kiwi, acredita-se na reacção alérgica porque vê-se.

Noutras situações, como a intolerância alimentar ou medicamentosa, já é mais difícil fazer prova do que se passa. As queixas correspondem a uma reacção psicossomática, ou a um verdadeiro problema funcional? Na dúvida... duvida-se, sobretudo quando falamos de administração de fármacos. Os médicos, que detestam que um doente se queixe dos efeitos secundários do que receitam, guiam-se pela estatística: se a maioria dos seus doentes metabolizam bem o medicamento X, é porque esse medicamento não faz mal. E se a bula refere efeitos secundários não interessa nada, porque o que vem lá, argumentam, não é necessariamente verdade. Não é? Ou continuamos no universo da estatística? As bulas referem "efeitos possíveis". Quer dizer que podem ocorrer, ainda que numa percentagem da população pouco significativa. Certo? 

Voltemos ao kiwi. Alguém acreditaria que o simples toque num objecto que cortou um fruto que não incomoda ninguém pudesse estar na origem de uma reacção alérgica tão impressionante caso não se visse? 

Os médicos pecam, demasiadas vezes, por excesso de confiança no que receitam e de desconfiança nas pessoas que atendem.

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Da falta de bom senso ao consenso

por Ana Lima, em 30.10.14

Quando, aqui há uns anos, Lili Caneças pronunciou a frase "estar vivo é o contrário de estar morto", não houve quem não gozasse com tal tirada. Afinal, vemos agora que, para alguns, essa distinção não é assim tão clara. Mas depois de os profissionais do Hospital de Aveiro, durante algum tempo, não saberem se deveriam dar alta, dar baixa ou dar em doidos, parece que o assunto lá se resolveu... 

 

(apesar do post escrito em tom jocoso, esta situação seria tudo menos divertida e, mesmo com as justificações dadas, não se compreende como é que se pode criar uma norma daquelas)

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Na urgência de Santa Maria

por Teresa Ribeiro, em 31.08.14

- Pois, no raio x não se vê nada de especial, mas a verdade é que este não é o exame mais indicado para avaliar o seu problema. Idealmente deveria fazer uma endoscopia, mas não lha posso prescrever aqui. Só se fosse um caso de vida ou de morte. Lamento...

 

Dito isto a simpática interna, à falta de melhor, baseou-se no instinto e receitou-me umas coisas. Depois de ter esperado quatro horas pela consulta e de ter pago 20 euros de taxas moderadoras.

Só que não correu bem e tive que voltar à urgência no dia seguinte. Apanhei mudança de turno, de modo que comecei a consulta com uma médica e acabei-a, já depois de feitos os exames, com outra. A primeira mandou-me fazer um novo raio x. Apeteceu-me objectar, mas a minha experiência diz-me que não adianta contestar os actos clínicos, porque nunca levamos a melhor, de modo que não levantei ondas. A segunda, comentou: a minha colega pediu um raio x, só que um raio x é inútil nestes casos.

Perante a falta de exames conclusivos, optou pela solução mais prática. Receitou-me medicamentos para tratar cada um dos meus sintomas. Este tipo de medicina também eu sei praticar em casa, com a minha farmácia doméstica, pensei. 

Mas estas coisas acontecem sempre ao fim-de-semana, nada a fazer. Amanhã lá terei que marcar uma consulta a sério. Entretanto gastei mais vinte euros em taxas moderadoras e 14 horas, distribuídas pelos dois dias que passei pelo banco do hospital.

 

Assim vai o SNS.

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Eficácia e inovação medicamentosa

por João André, em 29.07.14

Esta notícia é, à partida, muito boa. O estado deixa de perder tempo e dinheiro com coisas que não funcionam e concentra-se nas que têm utilidade. Assim fosse com tudo. Há especialistas com reservas e dúvidas, mas tocam aspectos sobre os quais não tenho conhecimentos. Levanto apenas duas outras dúvidas.

 

1. No caso de cancros, parte dos tratamentos de quimioterapia passam por um sistema de tentativa e erro, não se sabendo muitas vezes à partida qual o medicamento que poderá ter sucesso. Segundo me explicaram no passado, alguns há que têm uma enorme taxa de sucesso em casos específicos e são completamente inúteis noutros, aparentemente semelhantes. Esperemos que a avaliação do sucesso seja competente.

 

2. Para mim preocupante é o ênfase na questão dos novos medicamentos, ditos inovadores. Em muitos casos os novos medicamentos nada têm de novo a não ser uma pequena modificação da fórmula, a qual nada traz de novo a não ser uma patente. São introduzidos porque a patente anterior está a expirar e o componente activo poderá passar a ser vendido como genérico. O novo medicamento é apresentado como sendo uma inovação mas nada acrescenta ao anterior. Esperemos bem que, ao avaliar novos medicamentos, o Sinats e o Infarmed se preocupem mais com as bolsas dos pacientes do que com as dos laboratórios.

 

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Com jeito vai

por Sérgio de Almeida Correia, em 30.04.14

"Não haverá aumento de impostos ou esforço extra sobre salários e pensões", Maria Luís Albuquerque, 15/04/2014

 

"IVA sobe para 23,25%";

"A taxa contributiva, conhecida como TSU, vai aumentar 0,2 pontos percentuais para todos os trabalhadores, subindo, assim, de 11% para 11,2%";

"Pensões acima de mil euros pagam nova CES"

 

A Rádio Renascença, que deve andar mancomunada com a CGTP e o camarada Jerónimo, confirmou-me que, efectivamente, a ministra disse uma coisa no dia 15 de Abril e duas semanas depois acabou a dar o dito por não dito. Sei que o Governo também anunciou que os aumentos seriam só para 2015, que as previsões para o desemprego são mais optimistas do que as da troika e que em 2018 não haverá défice. Boas notícias, portanto.

Registo que com a mesma seriedade disseram antes que não iam cortar salários nem subsídios; que ninguém mexeria nas pensões; que o OE de 2012 foi condicionado, mas que o de 2013 é que já era deles. Enfim, a execução orçamental seria uma maravilha, a economia estaria a crescer no final de 2012, sem cortes, e por aí fora. Pelo caminho percebi que Passos Coelho se estava a lixar para as eleições. Os portugueses até nisto acreditaram e estoicamente tudo suportaram. Tinham motivos para isso.

Agora que tudo passou, que vêm aí as eleições europeias, que vejo os reformados e os trabalhadores muito mais aliviados nas suas pensões e salários, estou tão baralhado que entrei na fase em que acredito em tudo. Até na ministra.

Convenci-me, sabe-se lá porquê, como diz o exagerado do Pedro Santos Guerreiro, que "o martírio é agora diferente". Exultei com a boa nova. Estou tão esperançoso com o futuro dos meus compatriotas e do meu longínquo Portugal que não sei se compre uma garrafa de champagne. Ou, estou indeciso, se aproveitarei o facto de estarmos no Primeiro de Maio para acender uma vela à família Pingo Doce e encomendar uns panchões para celebrar as conquistas deste novo Abril, quarenta anos depois.

De qualquer modo, penso que os portugueses vão ficar satisfeitos. As coisas estão a compor-se. Tanto mais que agora vem aí mais um grupo de trabalho para transformar Portugal numa enorme cozinha, cheia de pançudos e de estrelas Michelin, há todos os motivos para celebrar.

Para os mais cépticos - sim, porque nestas ocasiões aparecem sempre uns tipos a desfazer estas conquistas -, e de maneira a que o martírio se torne ainda menos doloroso e se transforme em prazer, pois que já se sabe que apesar das iguarias só ficaremos limpos lá para 2018, o melhor mesmo é os portugueses estarem preparados para o que ainda aí vem. E ouvirem tudo com muita atenção. Os sorteios de carros do fisco já ninguém os tira, mas não tarda e o ministro Paulo Macedo, já me confidenciaram, anunciará com o seu à-vontade de fadista o aprofundamento do estado social e a compartição integral do Serviço Nacional de Saúde na aquisição de bisnagas de vaselina. Este Governo sabe que quando se trata de abrir alas para a entrada dos clisteres que nos irão ajudar a libertar as gorduras e reformar o Estado, não há nada como ter alguém que zele por nós, garanta os cuidados paliativos e nos facilite o martírio.

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A esmolar no SNS

por Teresa Ribeiro, em 05.04.14

Há poucas semanas, quando entrou na urgência de Santa Maria, a médica  que lhe deu ordem de internamento confidenciou-me: "Há pessoas que com estes níveis de creatinina morrem. É por ter uma insuficiência renal crónica que ele consegue resistir desta forma. O organismo, de alguma forma, adaptou-se". Ele, tem 94 anos.

Depois do internamento passou para o ambulatório, mas está muito fraco. Há dias foi-se abaixo e as enfermeiras, que já o conhecem bem, deram uma palavrinha ao médico, a ver se o internavam outra vez. O doutor disse que sim, mas houve mudança de turno e a colega que o veio substituir decidiu mandá-lo para casa. Argumento: não há camas.

Tem 94 anos mas um espírito invejável. Em casa faz tudo. Adora cozinhar para a rapariga de 92 anos com quem está casado há mais de 60, segue com interesse as notícias na televisão e cuida com esmero da sua aparência. Só os rins não colaboram e como incha nas pernas, receia subir e descer as escadas sozinho. Sempre que vai ao hospital, são 80 euros para ir e vir de cadeirinha com os bombeiros.

Como está mal, os médicos querem vê-lo de dois em dois dias, só que a pensão assim não chega. A ideia de ficar dependente do favor de familiares angustia-o muito, visto não ter filhos. Diz que na próxima deslocação ao hospital vai tentar descer do terceiro andar onde vive para poupar nos bombeiros. Terei que lá chegar a tempo de impedir a façanha, o que o vai sensibilizar e stressar ao mesmo tempo. E chegados ao hospital apelarei à solidariedade dos médicos, explicando que estão a fazê-lo viver acima das suas possibilidades. Talvez o chavão político os divirta e assim condescendam em desencantar-lhe uma camita.

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Da falta de decência

por João André, em 27.03.14

«O problema é as pessoas estarem a consumir medicamentos a mais»

via José Simões.

 

Tempos houve quando o nosso primeiro-primeiro era o actual avisador-prefaciador e o país era mal gerido mas havia dinheiro a fundo perdido vindo dos confres europeus que acabou nos bolsos da Mercedes e BMW e afins e das construtoras europeias, tempos houve dizia eu em que um ministro (ou secretário de estado, perdoem-me a idade) disse uma piadita acerca de doentes de hemodiálise, uma piada que foi de mau gosto mas que toda a gente sabia ser uma piada e foi despedido. Nesses tempos em que já éramos mal governados (ou desgovernados) e já andávamos enganados pela propaganda europeia chegada pela agência de S. Bento da altura a gastar acima das nossas possibilidades, ainda havia uma aparência de decência que os membros do governo tinham que respeitar e ai de quem não o fizesse.

 

Hoje, com o cantador mentiroso a primeiro-segundo e o primeiro-vice-primeiro irrevogável no governo, temos os tipos vindos dos seguros de saúde com o objectivo de desmantelar tornar mais eficiente o serviço nacional de saúde a mandar bojardas para o ar e a dispararem conversas do tipo de andar a viver acima das suas possibilidades o que no caso dos medicamentos só pode querer dizer andar a viver e ponto final. Em tempos passados e nem assim há tanto tempo esta criatura teria sido despachada para de onde veio e provavelmente a seguir viria outra igualzinha nos objectivos e pensamento (heheh, piada) mas com mais decência fingir que se preocupava com as aparências. Assim sabemos de forma clara que sua excelência o ministro da saúde privada tem como úbico pbjectivo tratar-nos da saúde mas com a expressão a ser usada no seu sentido puramente figurativo e nunca literal porque para tratar da saúde no sentido liberal já existe a médis.

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A frase

por Teresa Ribeiro, em 19.09.13

"A ADSE deve funcionar para comparticipação de óculos, aparelhos auditivos, cadeirinhas – no fundo, para serviços que o Estado não paga ou paga de forma incompleta. Não pode é servir para alimentar grupos privados" - Isabel do Carmo ao i.

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Estranhos víveres

por Teresa Ribeiro, em 17.06.13

Os talos dos agriões, antes tenros e delgados, agora concorrem com os das nabiças, que por sua vez apresentam folhas tão largas e tão espessas que mais parecem as das couves, embora a sua configuração menos recortada e longilínea lembre a dos espinafres. As alfaces também mudaram de aspecto. Tornaram-se enormes e de folha grossa. Os morangos estão cada vez maiores e as maçãs, muito polidas, dobraram o volume. As nêsperas, as ameixas e os pêssegos  cresceram, mas à razão inversa do seu perfume e sabor. Fora do frigorífico não aguentam mais de dois dias. Algumas espécies de fruta desapareceram. Lembro-me que quando era miúda me deliciava com as pêras pérola e as carapinheiras, de sabor tão característico, hoje praticamente extintas.

O feijão verde alargou e já nem lembro em que época do ano chegava aos mercados quando apenas se consumia o que a terra dava em cada estação. As cebolas, por exemplo, já não são as mesmas. Apodrecem com manha. Por fora perfeitas e nas camadas interiores putrefactas. As batatas também  enganam. Muitas parecem sãs mas estão pôdres. Diz que é dos químicos. Até o pão já leva aditivos, por isso é que no dia seguinte se transforma numa borracha inodora.

Se os produtos da terra mudaram, dos alimentos de origem animal é melhor nem falar. Os ovos andam estranhos, demasiado quebradiços e com corantes a pintar as gemas. O peixe, contaminado pela poluição das águas, não se recomenda. O melhor é consumir o de plástico, alimentado a ração. A carne, já se sabe, provém de animais criados à pressão, sob stress tão intenso desde que nascem até que morrem que só podem sofrer de grandes perturbações. Alimentamo-nos pois de animais loucos, a que dão antibióticos para se aguentarem dentro dos padrões considerados próprios para consumo até ao dia do abate.

Ingeridos diariamente mesmo que em pequenas doses ao fim de umas décadas os químicos às vezes viram químio. Há cada vez mais informação sobre isto.

Chamam-lhes frescos no supermercado, para distingui-los dos produtos embalados. Frescos como a indústria que os pôs.

 

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Zoom

por Teresa Ribeiro, em 06.05.13

O caso do espanhol a quem foi retirada uma prótese do joelho por falta de pagamento permite-nos obter um plano aproximado do futuro do SNS. Como o sapo de momento não me deixa fazer o link, espreitem assim: www.publico.pt/mundo/noticia/hospital-espanhol-retira-protese-a-doente-por-falta-de-pagamento-1593472. E digam lá, ó amigos anti-estatistas, se vos parece bem.

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Os meus amigos liberais

por Teresa Ribeiro, em 31.10.12

"A saúde é um estado transitório que não augura nada de bom." Esta frase, que ouvi uma vez a um médico, lembra-nos que por mais saudáveis que sejamos um dia fatalmente o nosso sistema baixará a guarda e precisaremos de ser assistidos. O aumento da esperança de vida só contribui ainda mais para essa certeza, por isso é normal que a atrofia progressiva do SNS provoque a maior preocupação nas pessoas que como eu consideram que um sistema de saúde universal tendencialmente gratuito e de qualidade é o modelo por que todos devíamos lutar. O princípio que lhe subjaz não poderia ser mais justo: financiamo-lo com os nossos impostos para que possamos em devido tempo obter retorno sob a forma de cuidados de saúde.

Quando refiro este princípio, os meus amigos liberais desdenham. Invariavelmente argumentam que não temos, nem nunca tivemos, um retorno justo dos nossos impostos, que esse dinheiro que nos é tirado só serviu para alimentar, no que respeita à saúde, o monstro corrrupto e ineficiente que é o SNS. Para a Saúde defendem a redução do papel do Estado através do estabelecimento de parcerias com unidades de saúde privadas e o investimento em seguros. Quando respondo a estes meus amigos, gente de classe média, sem fortuna pessoal que, por exemplo, nos casos de doença prolongada que impliquem tratamentos caros os seguros descartam responsabilidades com a maior facilidade e que por isso mesmo, se num dia se encontrarem nessa situação estarão lixados, viram a agulha e começam a falar da crise e de demografia: que não temos dinheiro para esses luxos e além disso estamos a envelhecer e a população activa a diminuir e portanto o SNS é insustentável. Não procuro iludir essas questões e parece-me óbvio que por dificuldades de financiamento terá que haver um retrocesso na quantidade e qualidade de prestação desses serviços, mas não deixa de me arrepiar a ligeireza com que os meus amigos liberais celebram o fim do sistema que mais os defende. Quando um dia sentirem as tendências demográficas materializarem-se nas suas artríticas articulações, talvez o fim do Estado Social que agora preconizam não lhes pareça tão higiénico.

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Magister dixit

por José Navarro de Andrade, em 03.10.12

Bem sei que a questão já vem a despropósito (sobretudo hoje!) e que vou ser – se calhar desnecessariamente – massudo. Mas deu-me para ler o famigerado parecer do inefável Conselho Nacional para a Ética e para as Ciências da Vida (CNECV) que tanta celeuma provocou. É um documento exemplar do estado pouco menos que miserável de alguma intelligentzia portuguesa, de índole conservadora.

Baseio-me para este juízo na seguinte e escabrosa passagem:

“Vivemos num mundo não-imaginário, onde pode já não existir lugar para a teoria de John Rawls (Rawls, 1971). A teoria desenvolvida no contexto de uma sociedade quase utópica que preconiza a harmonia entre a racionalidade e razoabilidade não permite a aplicação integral em qualquer sociedade democrática e imperfeita. Teremos, assim, de reformular, ao nível profissional, social e político, a utopia de Rawls do “maior bem” para o maior número, por uma visão eticamente mais comprometida do “maior bem possível” para o maior número. Deste modo, o compromisso de aumentar os níveis de saúde de toda a população pode, nesta fase, resultar num aumento eticamente inaceitável das desigualdades na distribuição dos recursos existentes.”

Deste trecho decorre necessariamente que:

1) É ilimitada a petulância de certos magistri lusitanos.

2) O documento está eivado de uma forte componente ideológica, (não verifiquei se recorre às penetrantes, embora polémicas, objeções de Nozik a Rawls, mas aposto que não) o que anula a sua pretensão objectivante.

3) O autor (ou relator) não percebe um caracol do princípio “maximin” de Rawls:

“(1) Each person is to have an equal right to the most extensive total system of equal basic liberties compatible with a similar system of liberty for all.

(2) Social and economic inequalities are to be arranged so that they are both:

               (a) to the greatest benefit of the least advantaged, consistent with the just savings principle, and

               (b) attached to offices and positions open to all under conditions of fair equality of opportunity.”

Objectar a estes claríssimos postulados substituindo a ideia de “maior bem” por “maior bem possível” é tão lógico como dizer, por exemplo, “chuva possivelmente molhada” no lugar de “chuva molhada”.  

O resultado desta funesta especulação é patético, pois o metafísico de meia-tijela, dada a posição em que se colocou, fica incapacitado para lucubrar qualquer conceito pragmático, muito menos utilitário. Afinal tratava-se de um documento capaz de fornecer guidelines à prática clínica e o melhor que consegue proferir é:

“Existe fundamento ético para que o Serviço Nacional de Saúde promova medidas para conter custos com medicamentos.” E “as opções fundamentais serão entre os “mais baratos dos melhores” (fármacos de comprovada efectividade) e não sobre os “melhores dos mais baratos”.

Com menos verborreia: “Eh pá, gastem lá menos comprimidos…”

Depois, quando foi preciso explicitar estas abstracções o que saiu foi: “Será que mais dois meses de vida, independentemente dessa qualidade de vida, justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros? Tudo isso tem de ser muito transparente e muito claro, envolvendo todos os interessados.”

É o que dá…

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Mas que cambalhota!!

por Fernando Sousa, em 28.09.12

“A palavra racionamento, no jargão da política da Saúde, Economia da Saúde e Bioética é um termo absolutamente benigno, e significa otimizar os recursos racionalmente, não desperdiçar e não haver ineficiência”, ou seja, não significa cortar no essencial. Extraordinário! Mas que cambalhota! Miguel Oliveira da Silva é bem um artista português! Palmas! Quando sair do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida tem emprego assegurado.

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N de nada

por Teresa Ribeiro, em 27.09.12

É preciso manter o foco. N sabe-o, mas os dedinhos dos neurónios estão sempre a puxá-la para baixo. Tempos houve em que se via como uma mulher de sucesso, eficiente no trabalho e despachada na cama. Agora envergonha-se das baixas sucessivas e para escapar a indagações isola-se. Já correu metade dos psiquiatras da praça, mas para aquela tristeza funda não há cura.

A escassez de serotonina no sistema nervoso central está para o seu humor, como uma fractura num pé para uma bailarina. Ambas as situações são incapacitantes, mas ao contrário da bailarina que contará com a simpatia e compreensão dos outros, no seu caso o padecimento será fonte de desconfiança até para si própria. 

Às vezes N repete os sintomas da depressão como um mantra em que se embala para combater a insónia, noutras ocasiões parte-se em duas e cita-os de si para si para apaziguar a sua permanente sensação de culpa. Esta actual cultura do faça-se você mesmo dificulta-lhe ainda mais as possibilidades de recuperação.O paleio dos gurus da psicologia positiva, as entrevistas das figuras públicas nas revistas, fotografadas em shorts proactivos e decotes desafiantes a dizer em Ariel "A felicidade constrói-se", confirmam-na como uma inútil, incapaz de reagir.

Quando se pode atribuir à depressão uma causa concreta é mais fácil combatê-la, mas a tristeza dela é endógena. Aprendeu-a em pequena ou até antes. Provavelmente já lhe vem no sangue, um orh tristíssimo que um dia expurgou a N colorida e bem sucedida.

Na vida ficcional de todos os dias N não tem lugar. No emprego hostilizam-na. A família e até alguns médicos olham-na de esguelha, os amigos desmobilizaram. Só nas estatísticas e nas notícias de jornal N faz sentido.

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Cama 306

por Fernando Sousa, em 27.09.12

… não estou aqui, imagino que não estou aqui, estou numa cama de um hospital, a cama 306, já não tenho a inteligência ligada à saúde, tenho só o corpo ligado a tubos e a esperança ligada à vida, imagino que os médicos se enganaram, ou que não previram tudo, que tenho mais do que dois meses de vida, imagino um milagre, eu, finalmente entre a morte e a fé, imagino o meu neto que nascerá dentro de três meses, aquele abraço que devo, o muro que não acabei de mandar abaixo, a novela a que só me falta um capítulo e mais umas coisas que o meu sentimento de eternidade foi adiando; imagino que me vieram perguntar, um senhor muito gentil, muito, muito compreensivo, do economato, se não me importava de morrer no prazo certo, ou se possível mais cedo, pois gastam comigo fortunas devidas à dívida soberana. Não estou aqui, estou numa cama de um hospital, público, português, corre Setembro de 2012, já não tenho a inteligência ligada à saúde, apenas rezo, eu, que sempre achei a oração como um desperdício da razão, para que os médicos se tenham enganado, o que às vezes acontece, ou haja um milagre, o que também não é raro, ou então para que me apague como uma pessoa e não uma rubrica do Orçamento de Estado. 

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Boas notícias

por Ana Vidal, em 14.09.12

 

Eu sei, as boas notícias são quase impossíveis de descobrir no meio desta maré negra que nos invade. Mas, teimosa que sou, consegui encontrar uma para vos dar. E é daquelas que interessam a todos nós.

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A igualdade vai dar-nos muito trabalho

por Rui Rocha, em 09.07.12

Parece que os médicos convocaram uma greve para quarta e quinta-feira. A justificação que apresentam relaciona-se com um conjunto de reivindicações que incluem o novo regime de trabalho das quarenta horas semanais e a respectiva grelha salarial. Mais tarde ou mais cedo, as partes vão acabar por sentar-se à mesa das negociações. Em nome do princípio da igualdade, e atendendo às matérias em causa, imagino que os trabalhadores do sector privado  serão chamados para participar na discussão. Pela minha parte, confesso que não me dá grande jeito. Mas, por amor à Constituição, estou disponível para fazer um sacrifício. Só peço que não marquem nada para 5ª feira (já tenho reuniões agendadas) e para 6ª à tarde (tenho uma consulta marcada e da última vez demorei quatro horas a ser atendido). 

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Ainda sobre o Hospital de Viseu

por Rui Rocha, em 06.07.12

No passado Domingo, publiquei um post em que manifestei a minha indignação na sequência de uma notícia do Jornal de Notícias relativa ao Hospital de Viseu. Entretanto, a Administração do Hospital, em comunicado,  desmentiu a notícia. Não tenho meios para apurar qual a versão que retrata correctamente os factos, mas espero sinceramente que seja a da Administração do Hospital. Nesse caso, tudo se reduziria a péssimo jornalismo o que, sendo grave, sempre seria melhor do que a alternativa de ver doentes com a vida posta em risco. Em qualquer caso, não seria correcto negar à posição do Hospital de Viseu destaque idêntico ao que dei à notícia do Jornal de Notícias. Assim, aqui fica o comunicado em causa que me chegou através do nosso leitor Artur Mendes:

 

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Urgências

por José António Abreu, em 05.07.12

É um contra-senso: as urgências de um centro de saúde ou de um hospital, em especial durante a noite, em especial no interior do país, são locais não de movimento e urgência mas de espera, monotonia e burocracia atrozes; de desamparo, resignação e indiferença. O objectivo de quem ali trabalha – em particular do pessoal clínico, quase todo «desterrado» contra vontade – parece ser despachar quem ali chega tão depressa quanto possível, após realização dos testes mais básicos, ainda que isso signifique combater apenas os sintomas e não as causas, ainda que isso signifique abrir a porta a nova visita do mesmo paciente dias – ou horas – mais tarde. Não por maldade – pelo, menos não explícita (de resto, na maioria das vezes o que é a maldade senão uma lógica inflexível?) – mas por uma inércia muito característica, por um cansaço desconfiado feito de desilusão e agressividade, e também por regras que a crise, para além de impor, ajuda a utilizar como desculpa. E nas feias salas de espera, a que cartazes ensinando a lavar as mãos ou a espirrar para o braço acrescentam um enjoativo toque de boas intenções, acompanhantes (quase sempre familiares) arrancados à normalidade por um grito, pelo ruído de uma queda ou por um telefonema e metidos à força no enredo de O Castelo, de Kafka (num mundo de mil e uma regras com uma lógica difícil de contestar, regras que dão ideia de terem sido elaboradas para que ninguém fora do sistema as possa usar a seu favor: a burocracia – e recordemos o pormenor de Kafka a conhecer bem, funcionário que era de uma Companhia de Seguros – é a mais subtil representação e também a melhor forma de preservação do totalitarismo, seja ele evidente e sanguinário, seja na versão bufa, assente na diferença de poder e de conhecimento – no respeitinho, em suma – que impera nos mais variados sítios), nas tais salas de espera esses acompanhantes imaginam cartas de reclamação que são levadas a sério e acabam em castigos ou despedimentos e processos legais (como os que se vêem nos filmes e nas séries de televisão norte-americanas) que acabam em pesadas indemnizações, apenas para esbarrarem, até mesmo dentro da fantasia, nas realidades não menos kafkianas de como as castas se auto-protegem e de como a Justiça portuguesa não funciona. E então pensam em denúncias à TVI, que as coisas só se resolvem quando aparecem na televisão, mas rapidamente percebem que apenas se o familiar morrer o caso terá interesse para as televisões e acabam por limitar-se a levá-lo para casa (de resto, é o que ele, humilhado e a transbordar de analgésicos, deseja) e a tentar dormir umas horas. Até o grito ou o ruído da queda ou o telefonema os retirar novamente da rotina e todo o processo se repetir.

 

Adenda: Se puderem, evitem as urgências do hospital da Guarda.

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Certo burro teimava, como é próprio das asininas bestas, em comer. Uma burrice, já se vê. Sendo que esta, dirão mentes despertas, só se pode combater com inteligência. Foi o que o dono do burro fez. Convocando não mais de dois neurónios que lhe sobravam ociosos de todos os seus permanentes e elevados raciocínios, decidiu cortar à ração lentamente. E a cada dia, o burro passou a comer um pouco menos. A vida faz-se de pequenos nadas. E um nadinha menos de ração a cada dia representa, ao fim de algum tempo, uma poupança considerável. Exactamente nisto devem ter pensado os génios que gerem o hospital de Viseu. Pelo visto, e vendo a história ao preço a que a comprei ao Jornal de Notícias, decidiram que os doentes diabéticos podem passar muito bem sem o leite e a meia-dúzia de bolachas de água e sal que lhes eram servidas pelas 23h00. Os doentes, ao que parece, vão resistindo à prova e sobrevivem cerca de 12 horas sem comer. É certo que um ou outro já terão amanhecido descompensados. Mas, o que é isso perante a poupança que o corte de um copo de leite e meia-dúzia de bolachas já não deve ter gerado... É claro que na história do burro, a coisa acabou por não correr exactamente como o seu genial proprietário previra. Então não é que o bicho, no preciso momento em que se habituara a não comer, não dando já qualquer despesa, acabou por morrer? Em todo o caso, nada temamos. A analogia entre a história do burro e a dos doentes diabéticos do Hospital de Viseu não é perfeita. É que, se por acaso, algum deles, um dia destes morrer por hipoglicemia, até isso poderá ter as suas vantagens. Afinal de contas, os mortos não consomem medicamentos, não tomam pequeno-almoço, nem almoçam, nem jantam. Imagine-se só a poupança. Por outro lado, e se virmos bem, na história do burro temos a besta asinina e o seu dono que é também uma boa besta. No caso do Hospital de Viseu, as bestas são os génios da gestão. Deviam premiá-los em conformidade. Pagando-lhes o salário apenas em leite e bolachas de água e sal. Na exacta quantidade que pouparem cortando-as aos doentes diabéticos. Nem mais, nem menos. Com um bocadinho de sorte, pode ser que consigam sobreviver.

 

Adenda em 2 de Julho: chamo em todo o caso a atenção para os comentários da Isabel e do Artur Mendes. Espero que os factos que aqui nos trazem se confirmem, caso em que a minha indignação terá de voltar-se, naturalmente, para a peça jornalística.

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Em nome da MAC, talvez... fazer

por Rui Rocha, em 13.04.12

Tal como acontece com 99,78% dos portugueses que já se pronunciaram, não percebo um caraças do assunto. Isto dito, constato que têm sido produzidos abundantes argumentos e até alguns não-argumentos para defender a continuidade da MAC. No que diz aos não-argumentos, eles foram apresentados pelo Daniel Oliveira, com razoável poder de síntese, neste post. Quanto aos argumentos, agrupei-os em categorias e atrevo-me a fazer na tabela que se segue alguns comentários tão ignorantes como bem intencionados (sublinho que, em geral, as observações de outros comentadores podem ser catalogadas como ignorantes e mal intencionadas ou conhecedoras mas mal intencionados, dispensando-me neste preciso momento de tecer quaisquer considerações sobre o efeito da utilização de uma adversativa):

Isto é, se querem defender a MAC deviam perder mais tempo a estruturar argumentos para que não fosse possível a um tipo que não percebe do assunto rebatê-los com uma tabela mal amanhada. Da mesma maneira, não me parece grande trunfo comparar a situação da MAC com encerramento de maternidades em outros pontos do país. É que, no caso da MAC, a alternativa não está  a mais de 50 km de distância. Significa isto que não vejo solução para a MAC? Nada mais falso. O que é preciso é dar utilidade à capacidade instalada por via do aumento da natalidade. E, basicamente, só há uma forma de chegar a esse resultado, embora nem toda a gente goste de praticar a modalidade homologada para o efeito. Mas o activismo consiste precisamente na disponibilidade para colocar a causa acima dos interesses pessoais. Por isso, rapaziada, em nome da sobrevivência da MAC (e até do SNS) o que é que deviam fazer? Pois, talvez... fazer. 

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Maternidade Alfredo da Costa

por José António Abreu, em 11.04.12

A posição do PS: fechar centros de saúde no interior do país era um acto de boa gestão; fechar uma maternidade em Lisboa é um crime de lesa-majestade.

 

A posição de muita gente que protesta: sim, o governo deve cortar nos gastos; não, não deve fechar uma estrutura redundante. 

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"A" maternidade desde 1932

por Ana Lima, em 06.04.12

Na noite em que eu nasci os vizinhos que levaram a minha mãe para o hospital resolveram virar à direita na marginal e não à esquerda. Foi assim que eu fui nascer a Oeiras e não a Lisboa. Durante muitos anos eu era um caso raro entre os meus amigos e conhecidos, cuja naturalidade era, invariavelmente, São Sebastião da Pedreira. Esta era, de longe, a freguesia que mais constava no bilhete de identidade daqueles cujos pais residiam em Lisboa e arredores. Depois passou a poder apresentar-se como naturalidade a localidade de residência da mãe. E aí tudo começou a mudar. Felizmente para todos nós outros hospitais começaram a ter as necessárias condições à realização de partos seguros. Mas a Maternidade Alfredo da Costa nunca deixou de ser uma referência, sobretudo para as situações mais complexas. E, para tal, contribuíram, sobretudo, os profissionais, as equipas, constituídas por elementos de várias áreas, cuja experiência é, de há muito, elogiada. 

Recentemente, terão sido feitos investimentos significativos que melhoraram os serviços prestados.

Dizem os responsáveis que o encerramento desta maternidade é apenas um dos cenários possíveis. Pois. Mas isto de discutir cenários já sabemos que é um exercício que, por vezes, dá um resultado errado. Sobretudo porque nunca são previstas todas as consequências. Esperemos que não seja o caso. Não pelos que nasceram na Alfredo da Costa. Mas pelos que, possivelmente, deixarão de beneficiar do saber acumulado dentro daquele edifício, projectado por Ventura Terra, e que não chegou a ser visto pelo médico que lhe emprestou o nome e que tanto por ele se bateu.

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Toma e vai-te curar

por Teresa Ribeiro, em 03.04.12

O que é um medicamento mais barato? É um medicamento que não faz tão bem quanto isso? Se for assim, a médio ou mesmo a curto prazo acaba por sair mais caro. A não ser, é claro, que os doentes morram da cura. Pelos vistos é  nesta presunção que se gere o SNS

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Este aterrou agora

por João Campos, em 15.03.12

O secretário-geral do PS mostrou-se impressionado com as condições do serviço de urgência do Hospital de Faro, onde os doentes são muitas vezes obrigados a ficar em macas ao longo dos corredores do serviço (Público). Bem vindo ao mundo real, Sr. Seguro.

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Classe Social: um termo em desuso?

por Ana Lima, em 05.03.12

Podemos questionar a forma como os estudos são feitos. Podemos concordar mais ou menos com as suas conclusões. Podemos argumentar que o determinismo, neste caso, como noutros, é uma teoria pouco fiável. Mas há factos para os quais a terminologia nem sequer conta muito.

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Com pinças

por Teresa Ribeiro, em 01.03.12

Apanharam duas médicas a receber dinheiro de um laboratório farmacêutico. Estranho. Pergunto-me o que terá falhado para o caso ter caído nas malhas da justiça. Cá para mim foi algum colega invejoso que as denunciou, porque como se sabe as boas relações entre laboratórios e médicos nunca são perturbadas pelas autoridades. Nem pela Ordem dos Médicos, sempre muito preocupada em defender a classe no matter what, nem pela justiça. Aliás, soube-se agora que a justiça nestes casos só pode actuar em relação aos médicos que trabalham no Serviço Nacional de Saúde. No consultório toda a corrupção é consentida. O bastonário da OM, que designa estes casos por "falhas éticas graves", não vá ofender os corruptos, diz que está mal. Mas é a lei que temos. A lei às vezes é uma querida, mas só para quem merece.

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Urgências

por José António Abreu, em 21.02.12

A polémica acerca da falta de tolerância de ponto no Carnaval mostra várias coisas interessantes. Aquela a que acho mais piada é como, avaliando pelo que a televisão nos mostra, hoje quase não há casos urgentes nos hospitais e centros de saúde. Pelos vistos, os portugueses só têm problemas de saúde nos dias de trabalho.

 

(Donde talvez o Ministro da Saúde devesse tentar convencer o resto do governo a aumentar e não a diminuir o número de feriados. A poupança que isso permitiria...)

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Águas turvas

por Teresa Ribeiro, em 21.02.12

 

Fala-se neste artigo que a maioria das estações de tratamento de águas do nosso país não faz terceira depuração do precioso líquido, porque fica caro. Em consequência há bactérias resistentes a antibióticos que passam incólumes para as redes de distribuição de águas. Imaginam como vai ser quando este sector passar para os privados?

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O olhómetro

por Teresa Ribeiro, em 24.01.12

 

Neste fim-de-semana adoeci. Sempre que tal acontece procuro resolver a crise recorrendo à minha farmácia caseira e ao know-how que com o tempo ganhei no tratamento de viroses e cenas afins. Mas no domingo a tosse era tanta que decidi recorrer à Linha Saúde 24. Debalde. A senhora que me atendeu, muito simpática, recusou-se a aconselhar-me o tratamento, argumentando que eu devia ser vista por um médico. A ideia não me entusiasmava, mas percebi as suas razões. Aquela tosse persistente que me partia em duas merecia honras de auscultação, just in case.

Lá fui a um centro de saúde, destes que têm urgência ao fim-de-semana. Penei três horas. Por fim, lá tive os meus cinco minutos de protagonismo. Enquanto me queixava da minha tosse de guincho e fazia olhinhos para o estetoscópio, achei que não perdia nada  em dizer que estava ali a conselho da Linha Saúde 24: "Disseram-me que devia mesmo ser vista por um médico. Do you know what I mean?"

Fiz bem. A médica levantou os olhos do que estava a escrever desde que começara a consulta e fitou-me. A sua expressão dizia-me: "O que tu queres sei eu!" E quando se levantou na minha direcção rejubilei. Finalmente. As minhas três horas de espera não tinham sido em vão.

Mas em vez de pegar no meu objecto de desejo a senhora abeira-se de mim e pede para lhe mostrar a goela. Espreitou e fez-me saber que estava muito inflamada. Ainda bem que mo disse.

A seguir mete-me a receitinha na mão e estima as minhas melhoras. Mais nada. Três horas para me espreitar a garganta. Da receita constava paracetamol entre outras drogas que dispensam prescrição médica, o que aumentou ainda mais a minha frustração. Nem para aviar aquela receita eu precisava de ter passado pela consulta. Enfim, mas tinha sido vista por uma médica, isso ninguém podia negar. Ela viu-me e eu vi-a. Em Portugal "ver doentes" é uma expressão que pode ser tomada à letra. Cientes de que a Medicina não é um ciência exacta, os médicos portugueses, quando são mesmo bons, dispensam os meios auxiliares de diagnóstico. Estetoscópios? Raio x? Para quê se podem usar o olhómetro?

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Declarações, declarações

por Ana Margarida Craveiro, em 11.01.12

1. Manuela Ferreira Leite tem um talento especial para a declaração explosiva. É o chamado efeito de bombista suicida: rebenta com tudo, incluindo a si própria. Evidentemente, nas suas declarações há uma parte verdadeira, de fundo, e uma parte disparatada, que gera o tal efeito de explosão. É evidente para todos, incluindo o sr. dr. Arnaut, que o SNS tem problemas graves de sustentabilidade, e que urge resolvê-los. Também é relativamente claro para muitos que a igualdade de acesso e tratamento não significa necessariamente igualdade na participação dos custos. Não pagamos todos o mesmo de IRS, o nosso contributo para o sistema não é igual. Para alguns, incluindo o actual executivo, o pagamento do acto médico deve também ser diferenciado, conforme o rendimento. É esta a parte verdadeira: o pagamento pode, numa determinada visão, não ser todo igual. Quem tem mais, pode pagar mais. O erro de Ferreira Leite foi misturar os pagamentos com critérios etários. 

 

2. Erro? Mas será mesmo assim? Eu discordo fundamentalmente desta visão determinista, que assume que a partir de certa idade os idosos são um peso para a sociedade. Independentemente de questões médicas (alguns processos são mais lentos, doenças que seriam fulminantes num jovem têm um desenvolvimento bastante mais lento num idoso), pressupõe uma redução dos direitos básicos de uma classe etária. Parece aberrante, assim dito, mas é feito. Dou-vos um exemplo muito concreto: perto dos 80 anos, o meu avô foi diagnosticado com um cancro específico, que poderia ser operado. Seguido num IPO, foi comunicado à família e doente que não seria operado, por causa da idade. Numa idade tão tardia, não fazia sentido sujeitar um doente a uma operação. Era um desperdício do tempo de vida do doente, a quem foi proposto um tratamento paliativo, e era um desperdício dos recursos financeiros do próprio IPO. Isto pôs-nos um dilema moral enorme, que infelizmente foi resolvido pelo agravamento súbito da doença, a que se seguiu uma morte relativamente rápida. Mas voltando à questão central: podemos decidir, só pela idade, se uma pessoa "merece" sequer a escolha de um tratamento? Então, que pensar de idosos tão famosos e activos como Gentil Martins, Mário Soares, ou Manoel de Oliveira? 

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Um verdadeiro dilema

por Ana Lima, em 03.01.12

Ontem de manhã, por ter de esperar a minha vez num consultório, dei por mim a ver um programa de televisão (vi agora numa pesquisa que se chama "Cartas da Maya - O Dilema") no qual a taróloga Maya respondia às dúvidas de uma senhora que tinha ligado para o canal através de um número de telefone começado por 760. Segundo se dizia são consultas de orientação pessoal ao vivo e em directo. Para lá da importância que se atribui à tarologia, numerologia ou astrologia a forma como as previsões ou conselhos são interpretadas por cada um também varia. Mas confesso que fiquei verdadeiramente boquiaberta quando, perante queixas de dores nas costas, por parte da tal senhora, ouvi, num tom de voz peremptório, expressões como: "é um problema muscular, não é grave, não é operável, passa com anti-inflamatórios". E, pelos vistos, há várias "consultas" deste género por programa.

Podemos pensar, claro, que ninguém confia, mais que um tanto, nestes conselhos. Quando muito considera-os complementares. No entanto só a existência da dúvida numa matéria deste tipo parece-me bastante grave. Tanto investimento na formação de médicos e em meios de diagnóstico e depois, em segundos, as cartas que saem de um baralho dão, de uma penada, o diagnóstico e a terapêutica?

O dilema é portanto optar entre ir consultar um médico e pagar as novas taxas moderadoras ou fazer uma chamada telefónica o que, mesmo que seja para um número de valor acrescentado, sempre ficará mais barato. E daí...

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À nossa saúde

por Laura Ramos, em 01.01.12


Num recente relatório (Health at a Glance, 2011) a OCDE divulgou importantes indicadores sobre os sistemas de saúde dos seus 34 países membros.
Portugal surge em 1.º lugar no declínio da mortalidade infantil. É o 4.º melhor nos dados sobre mortalidade por enfarte e está ligeiramente abaixo da média nas ocorrências de mortalidade por cancro. É ainda o 5.º país com melhor evolução na esperança de vida e (até que enfim!) aproxima-se da média global na mortalidade por acidente.
Globalmente, estes resultados em saúde dão a Portugal uma posição acima da média geral da OCDE, surgindo como o 2.º país com melhor evolução entre 1970 e 2009 (grosso modo, os anos da construção do Serviço Nacional de Saúde).
Por outro lado, confirma-se também que Portugal está entre os países com mais médicos por cada 1 000 habitantes (apesar da sua distribuição desigual), situando-se num padrão claramente  superior à média. E entre os que, no global das despesas contraídas em cuidados de saúde, menos participação directa ("out-of-pocket") exigem ao cidadão.

Este foi um dos domínios em que melhor trabalhámos sempre. E onde gastámos como se não houvesse amanhã, insistindo num regime de isenções impraticável e temerário, numa utopia já há muito tempo insustentável aos olhos de qualquer pessoa sensata.

Tarde e a más horas, como sempre, 2012 vai ser um balde de água fria e trazer-nos sacrifícios agravados neste capítulo.
Acredito que a saúde em Portugal tem um lastro de qualidade suficiente para aguentar o embate, se houver coragem para distinguir o essencial do acessório.

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Então e os subsistemazinhos de saúde?

por Teresa Ribeiro, em 07.12.11

Para equilibrar as contas da saúde lá teve o ministro de anunciar medidas impopulares: agora foi o aumento das taxas moderadoras, seguir-se-ão os cortes nas comparticipações de alguns exames e medicamentos. É chato mas diz que não há dinheiro, portanto os sacrifícios têm de se repartir por todos (todos é uma palavra que quando aplicada em contextos como este tem uma certa força moral). Sobre a necessidade de cortar nos encargos com os subsistemas de saúde de que ainda beneficiam algumas castas como as polícias e os militares é que não oiço nem um sussurro. O respeitinho é muito bonito e a coragem política tem os seus limites. Não é? Pois é.

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Bons excessos

por Laura Ramos, em 29.11.11

Como imaginam, raras vezes a leitura do Diário da nossa República nos reserva mais do que bocejos e urgentes  escapadelas para um café. Devia estar no index: digo sempre. Combateríamos assim o absentismo e a contaminação do fenómeno da quadratura mental. Mas hoje saiu - como diria o Eça - um diplomazinho importante para a qualidade de vida dos portugueses, em que se estabelece o regime da formação do preço dos medicamento e se diminui a margem de lucro arrecadada pelas farmácias e pelos distribuidores.

A revisão da política do medicamento em Portugal era urgente por variadas razões, nem todas especialmente novas - como a transparência do mercado farmacêutico - mas agora assume um papel redobradamente importante, actuando também na suavização dos efeitos da austeridade.
Quer pelo lado do consumidor privado, porque a baixa generalizada dos preços lhe facilita o acesso a terapêuticas de custos comportáveis. Quer pelo lado do consumidor público, o Estado, que assim poderá reduzir os seus gastos sem comprometer uma parcela dos objectivos do SNS.

Algumas destas medidas cumprem metas assumidas no 'Memorando de Entendimento' com a Troika, é verdade. Mas vão mais além, concretizando linhas de acção estabelecidas no programa do Governo.
Era assim que eu gostava de ver o Governo a exceder os compromissos com a Troika: distribuindo o ónus da crise por todos os portugueses, incluindo os grupos de interesses privados.

- Isto não lhe diz respeito porque não toma remédios?
- Não importa: ligue-se, porque um dia tomará.

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Up yours!

por Teresa Ribeiro, em 06.11.11

A Ordem dos Médicos ameaça boicotar os genéricos. A patroa da saúde em Portugal, que até hoje nenhum governo conseguiu dobrar, diz que está nesta guerra em defesa dos interesses dos doentes. Muito preocupados com a nossa saúde, os senhores da OM recusam a prescrição  dos medicamentos que dizem ser menos fiáveis. A indústria farmacêutica, que amiúde lhes proporciona salutares convívios em locais exóticos, também concorda que, para nosso bem, o melhor é continuarmos a consumir os medicamentos de marca.

Não fossem outros médicos, como os do Sindicato Independente dos Médicos, dizerem que a prescrição por substância activa "é essencialmente segura e serve os melhores interesses dos doentes e sociedade", e eu saber que em países ricos e civilizados como a Inglaterra e a Alemanha se aplicam políticas que favorecem o mercado de genéricos, eu ainda pensava duas vezes. Assim, parece-me que o que está mesmo a fazer falta a esta discussão é o debate sobre a necessidade de se produzir um novo medicamento para a prepotência e impudicícia, a aplicar no único sítio que me ocorre. Sim, falo de supositórios.

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SNS vs Privada: decidam-se!

por Laura Ramos, em 09.09.11

Pois eu, que defendo o direito dos cidadãos a um Serviço Nacional de Saúde, vejo as coisas assim:

Tem de haver uma divisão de águas e - mais do que isso - uma clarificação de ideias e de opções por parte da cidadania crítica.

 

A propósito desta medida, e exercendo um amigável contraditório com alguém que muito prezo, proponho-me  adivinhar as razões por que muitos médicos se "manifestam preocupados" e outros - que não se encontram claramente entre as fileiras eleitorais deste Governo - aplaudem a estratégia adoptada, antevendo, contudo, os efeitos erosivos da desinformação junto da opinião pública.

 

Vejamos: a pílula deixará de ser comparticipada, mas continuará a ser distribuída nos centros de saúde e nas consultas regulares de planeamento familiar dos hospitais públicos.

- Medida maquiavélica? - Concorrência desleal entre medicina pública e medicina privada?

Não, rigorosamente, não.

De facto, fica mais barato ao Estado dar do que comparticipar.

- Porquê? Porque os medicamentos comprados em grandes quantidades envolvem custos inferiores aos dispendidos na fracção da comparticipação. Assim sendo, o Estado, via SNS, pode oferecer a pílula e, deixando de a comparticipar, estará mesmo em condições de aumentar os stocks reservados para distribuição gratuita.

 

Resultados desta medida:

- Quem quer ir à "privada", vai. Ou, rigorosamente, continua a ir, porque forçosamente já o fazia antes, para obter a necessária receita médica que titulava o direito à comparticipação. Convenhamos, com toda a razoabilidade, que quem está apto a pagar uma consulta privada pode bem pagar a pílula a preço integral. Ou não?

- Quem não quer, ou não pode ir aos privados (atenção aos termos, que não são sinónimos), vai à consulta do SNS e obtém a pílula gratuitamente, aproveitando, se calhar, para fazer, também a custo zero, a citologia, as análises clínicas e outros inomináveis exames regulares de rastreio que não preciso de enunciar, porque todas as mulheres os conhecem: os tais de que ninguém gosta e poucas de nós cumprem com a regularidade devida (falo por mim).

 

Pontos fortes e pontos fracos:

- Nós, os contribuintes, deixaremos de dar tanto a ganhar aos farmacêuticos.

-Nós, os contribuintes, deixaremos de sustentar uma via verde para a medicina privada, porque esta medida impede que os consultórios  já não sejam tão facilmente procurados para, por acréscimo, garantirem o receituário e o competente desconto, suportado por todos nós.

 

Em conclusão:

Não percebo tanta animosidade contra uma reforma que, numa lógica distributiva de recursos escassos, me parece inteligente e inteiramente justa. Democrática, para sermos exactos.

Uma reforma que combate o desperdício.

E que desagrada, é verdade, à maioria dos médicos que exercem medicina privada.

Nem todos, diga-se: porque, na verdade, não há monopólio moral de pecados na privada, nem monopólo de virtudes na medicina pública. Muitos profissionais acumulam, e acumulam, eticamente, muito bem.

 

Só que, quanto a isto - e outras coisas  - convém reunir ideias:

 

- Afinal de contas, queremos exactamente o quê?

 

Separem-se as águas.

 

E sim, definitivamente, reforce-se o SNS.

 

Precisamente desta maneira.

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Haja esperança

por António Manuel Venda, em 08.09.11

Nem todos os serviços nacionais de saúde estão na falência. Veja-se por exemplo este, referido no «Estatuto Remuneratório e outros Direitos dos Deputados»: «Relativamente a cuidados de saúde, a Assembleia da República dispõe de um Gabinete Médico e de Enfermagem, ao qual compete prestar cuidados médicos e de enfermagem gerais ou de emergência aos deputados e pessoal da Assembleia da República. Assim, no decorrer das sessões plenárias há um médico em permanência no Gabinete. Nos restantes dias, os médicos prestam consultas em horários específicos e a prestação de cuidados de enfermagem é assegurada todos os dias durante as horas de expediente./ O Parlamento dispõe, também, de um seguro de grupo para todos os deputados, que inclui um seguro de saúde.»

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Um país cíclico

por Cláudia Köver, em 08.09.11

Actualmente o estado regula os ciclos menstruais de todos os portugueses - as dores de barriga, as irritações, os afrontamentos e as menopausas - quer seja de forma comparticipada, quer não.

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Uma questão de pele

por Teresa Ribeiro, em 01.08.11

Lembrei-me logo daquele telefonema. Do outro lado a minha colega soluçava, ainda em choque: "O médico disse-me que se tivesse passado mais um mês talvez fosse tarde". Referia-se a um melanoma que tinha acabado de extrair. Um sinal a que não dera qualquer importância até ao dia em que uma médica do IPO, que por acaso frequentava o mesmo ginásio, reparou nele e a aconselhou a ir, sem demora, a uma consulta. Solícita, ofereceu-se para meter cunha se houvesse uma grande lista de espera. Havia. E a cunha salvou-lhe a vida. 

Lembrei-me daquele telefonema quando, na urgência de dermatologia, sou atendida por um jovem de olhos coruscantes, que antes mesmo de olhar para a cara da minha filha, nos diz: "Eu não vos devia receber. Sinais nunca são caso para urgência. O que deviam era ter marcado uma consulta". Expliquei-lhe que estávamos ali a conselho de um colega dele, de Clínica Geral, que tinha consultado antes. "Sim?", respondeu enquanto fremia de rabo alçado:

-- Então e o que disse exactamente o meu colega?

-- O seu colega disse que o melhor era ser vista numa urgência de dermatologia.

-- Sim? Só que aqui não temos aparelhos para ver sinais. Só na consulta. O procedimento deve ser esse. Vai à consulta, é observada, depois marca outra para daí a seis meses para ver se ocorreu alguma alteração. É assim que se faz.

O sinal que antes era castanho e liso, agora estava preto, saliente e irregular. Tal como nalgumas fotos que são distribuídas à população nas campanhas de prevenção do cancro da pele. Expliquei-lhe que essas alterações já tinham ocorrido e que por esse motivo o seu colega tinha dito que o sinal era para tirar. Só não sabia se com urgência. A frase excitou-o:

-- Ai ele disse que "era para tirar"?

Só então se dispôs a observar o sinal. Perguntei-me o que nos diria aquele boneco do dragon ball, apreciador de fungos e carcinomas mas não de pessoas, se depois de o examinar, percebesse que era mesmo um melanoma bem nutrido. Daria o dito por não dito, ou manteria o seu discurso para não perder a face?

Felizmente para ele e para nós o caso não era urgente.

-- É congénito e ainda por cima tem pêlos.

Só faltou cuspir-lhe em cima. Mas aquele olímpico desdém deixou-me louca de alegria. Podia, enfim, esperar que a dermatologista que costumo consultar viesse de férias para tratar calmamente do assunto.

Do episódio só me ficou a memória daqueles olhos verde água, a chispar energia cósmica, cheios de raiva contra a Humanidade talvez porque estava um belo dia de praia e havia que ficar de banco no hospital, e da minha vontade de voar dali p'ra fora com a minha menina, num jacto triunfal: kamé hamé!!!

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Sócrates, pepinos e companhia

por João Carvalho, em 03.06.11

O secretário-geral do PS foi forçado a interromper a sua intervenção no comício de Barcelos quando atiraram ovos para a tribuna e para o palco. Sócrates fez bem ao jogar pelo seguro, porque tão depressa são ovos como logo a seguir são tomates e a coisa ainda podia descambar para pepinos assassinos.

 

Já os três portugueses que chegaram infectados da Alemanha colocaram-nos em perigo muito sério. Clinicamente, dois deles já tiveram alta e um apresenta uma «evolução aceitável, no bom sentido» (nem se vê como uma evolução aceitável poderia ser em sentido diferente, mas adiante). O problema é que a ministra da Saúde disse que está à espera da confirmação de que se trata da mesma estirpe multi-resistente detectada na Alemanha e que existe a «coincidência» de todos eles «terem regressado da Alemanha». É isto que nos coloca em grande perigo, porque a Alemanha pode não gostar do que andamos a dizer e é bem capaz de retaliar aumentando os juros da nossa dívida pública.

 

Por aqui se vê como os alemães não percebem peva da Europa. Alguma vez um português ia à Alemanha comer pepinos, com tantos legumes oblongos de primeira qualidade na própria terra? Se eu fosse a ministra Ana Jorge limitava-me a dar ordens para o impagável e omnipresente Francisco George fazer aquilo que ele mais gosta: acompanhar o caso. Mas desta vez é para acompanhar o caso a sério, não é para fazer as fitas do costume. Por exemplo: se o caso passar no Marquês, o bom do George tem de ser visto a acompanhá-lo poucos metros atrás. E nada de ir para a televisão botar sentença; ou bem que anda a acompanhar o caso, ou bem que anda atrás das televisões. Estamos entendidos?

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Saúde mental

por João Carvalho, em 10.10.10

 

A televisão de Pyongyang acaba de mostrar imagens de Kim Jong-il — o líder do sistema comunista dinástico da chamada República Democrática da Coreia do Norte por herança do grande líder Kim Il-sung — pela primeira vez acompanhado pelo filho mais novo, Kim Jong-un, já graduado em general e herdeiro do trono republicano do povo.

 

As imagens de Pyongyang aqui patentes dão bem conta de quão grande era o líder-pai e da capital que espera o líder-neto, onde as mulheres-polícias asseguram que não há engarrafamentos numa cidade sem trânsito.

Já as imagens da televisão norte-coreana com o líder-filho e o líder-neto é presumível que tenham sido para assinalar este 10 de Outubro, Dia Mundial da Saúde Mental. Boa ideia.

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Tendencialmente

por João Carvalho, em 02.10.10

A comparticipação do Estado em medicamentos desce, em exames clínicos também, em apoio a doenças crónicas igualmente, em próteses idem, em equipamento para deficientes igual, em assistência ambulatória semelhante, etc., etc., etc., enquanto os respectivos preços sobem por via do aumento do IVA.

Afinal, não era o PS que andava a dizer muito agastado que o PSD queria matar o SNS tendencialmente gratuito e acabar com o Estado social? Pois quer-me parecer que está aí uma fórmula nova: o Estado social tendencialmente falido. E o PS tendencialmente falhado.

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