Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Masoquismo militante

por Pedro Correia, em 06.06.17

bashar_al_assad_20150930[1].jpg

 

O ditador sírio, agarrado com unhas e dentes ao poder que permanece nas mãos do clã Assad desde 1971, protagoniza uma guerra contra o seu próprio povo que já terá provocado 470 mil mortos e quase sete milhões de desalojados - metade dos quais crianças.

Os do costume, do lado de cá, apontam a "culpa" à Europa.

 

Redes de traficantes de seres humanos, sem o menor escrúpulo, enriquecem à custa das economias de muita gente que foge daquela guerra, embarcando homens, mulheres e crianças em barcos da morte.

Os do costume, do lado de cá, apontam a "culpa" à Europa.

 

O chamado 'estado islâmico', composto por extremistas que querem impor a sua ideologia à lei da bala, transforma várias porções de países do Médio Oriente em terra queimada.

Os do costume, do lado de cá, apontam a "culpa" à Europa.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Reflexão do dia

por Pedro Correia, em 23.12.16

«O puzzle sírio está finalmente desenhado: os ditadores da Rússia, do Irão e da Turquia sustentam no poder o ditador sírio, ajudando-o a anular de vez a resistência interna, depois de Alepo; Erdogan recebe luz verde para esmagar os curdos, que são a frente de combate mais activa contra o Daesh em Mossul; Trump junta-se a Putin para, depois da Síria resolvida, esmagar o Daesh e, de caminho, sacrificar os curdos. E a Europa recebe as vítimas da Síria. Quanto ao Daesh, escolhe como alvo privilegiado a Alemanha, que não tem nada a ver com o conflito, excepto na generosidade com que recebe os refugiados do desastre. É a velha e grande política de regresso.»

Miguel Sousa Tavares, no Expresso

Autoria e outros dados (tags, etc)

Alepo, cidade-mártir

por Pedro Correia, em 20.12.16

aleppo-may[1].jpg

Foto: Karam Al-Masri / AFP

 

Enquanto escrevo estas linhas, morrem seres humanos em Alepo. A lista de mortos ultrapassou 30 mil no ano passado, não havendo mais estatísticas oficiais de então para cá.

Aquela que foi a maior cidade síria - com uma população superior a cinco milhões de habitantes antes dos primeiros disparos, em Fevereiro de 2012 - e uma das urbes mais cosmopolitas do mundo árabe sucumbe sob os escombros da guerra total que contra ela foi decretada pelas hordas assassinas do ditador Bachar Assad, acolitado por milícias xiitas financiadas pelo Irão teocrático e por essa Legião Condor dos tempos modernos representada pelos sinistros bombardeiros russos.

Vladimir Putin, principal parceiro de Assad, bloqueou nos últimos cinco anos na ONU todas as resoluções que podiam determinar um desfecho não-sangrento para o drama sírio – incluindo a abertura de um corredor humanitário com supervisão internacional e o lançamento de víveres por via aérea aos civis sob cerco. Os vetos de Moscovo no Conselho de Segurança, somados à passividade da administração Obama, provocaram o êxodo maciço da população síria, que foge para onde pode, obedecendo ao instinto de sobrevivência.

Ei-los aí, os sírios em fuga - sem tecto, sem trabalho, sem assistência médica, subitamente desenraizados, buscando a Grécia, acorrendo ao Líbano, rumando aos campos de encarceramento turcos que servem para o proto-ditador Erdogan usar essa magoada e dolorida “mercadoria humana” como alvo de chantagem junto das chancelarias europeias.

 

Enquanto escrevo, mais uns civis sucumbem em Alepo, cidade-mártir. Alvejados por franco-atiradores munidos com fuzis russos e pagos pelos aiatolás de Teerão. Morrem mulheres e crianças, vitimadas por bombas de fósforo e gás de cloro, e o mundo cala-se. Consente estas novas Guernicas, estas novas Sarajevos. Em Portugal há até quem faça coro com o tirano de Damasco, que há muito devia ter sido forçado a trocar o trono de déspota pelo banco dos réus, respondendo por crimes de lesa-Humanidade por ter permitido a utilização de armas químicas contra a população do seu país.

Putin, que recebeu como prémio por apoiar Assad a primeira base naval russa no Mediterrâneo, segue na Síria a cartilha que já mandara aplicar à Chechénia: “encurralá-los até ao fim”. Assim transformou Grozni há década e meia num mar de ruínas, indiferente aos clamores da comunidade internacional. A mesma indiferença a que vota hoje as patéticas mensagens de impotência do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, que se limita a derramar lágrimas desvalidas perante o massacre, como se não representasse a maior potência económica, diplomática e militar do planeta.

 

Enquanto escrevo estas linhas, mata-se e morre-se nos últimos bairros sitiados de Alepo, onde todas as sombras macabras da história – da Tróia antiga à Estalinegrado do século XX – ressurgem numa demonstração evidente de como é ténue e frágil o fio que separa a civilização da barbárie, numa chocante confirmação de que o vertiginoso progresso tecnológico é incapaz de alterar um átomo da natureza humana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

460x.jpg

Mais uma vez o mundo ocidental lá se consternou e emocionou perante o olhar vazio e desalmado de Omar Daqneesh, uma criança de 5 anos que, num estado letárgico quase catatónico, esperava pacientemente pelo salvamento do resto da família (felizmente todos sobreviveram, mas outras cinco crianças morreram), depois do seu prédio, localizado num bairro de Aleppo conotado com os rebeldes, ter sido atingido por um raide aéreo da aviação russa ou síria. Nem um choro ou lamento de Omar, apesar do seu rosto estar coberto de sangue e o seu corpo todo sujo de terra, como quem foi literalmente arrancado das entranhas da terra. Os jornais e as televisões, com o seu tom teatral do costume, mas sem qualquer eficácia na prossecução e pressão para uma solução política-militar, propagaram a fotografia de Mahmoud Raslan, o fotojornalista que estava no local e que captou o momento. As "redes sociais", sempre prontas para apanhar a onda da solidariedade internacional, também se indignaram e, claro está, o tema tornou-se "viral". As sociedades civis comoveram-se e a comunidade política indignou-se. Mas, tudo isto foi ontem, porque, hoje, já passou, a vida continua e já ninguém quer saber.

 

Recordo que há uns meses, em Setembro, esse mesmo mundo ocidental, sempre confortável no seu quotidiano, esses mesmos jornais e televisões, com a sua queda para o dramatismo, essas mesmas redes sociais, sempre voluntaristas, essa mesma sociedade civil, sempre predisposta para a comoção, essa mesma comunidade política, sempre indignada, reagia com lágrimas à chocante fotografia de Aylan Kurdi, um rapazinho de 3 anos, jazido de barriga para baixo, nas areias de uma praia da Turquia. Era um refugiado que, juntamente com a sua família, fugia do conflito da Síria. Na altura, por exemplo, a CNN escrevia: "Some said they hoped the images of the boy lying on the beach and his limp body being scooped up by a rescue worker could be a turning point in the debate over how to handle the surge of people heading toward Europe." O que foi feito desde então? Pouco, muito pouco mesmo, para quem se dizia tão chocado e indignado com tal barbárie.

 

150902112836-restricted-refugee-boy-bodrum-exlarge

Autoria e outros dados (tags, etc)

 

"What we know about fascists is that they need to be defeated."

Um dos melhores discursos de que há memória na Câmara dos Comuns, aplaudido por parlamentares em todas as bancadas. John Crace, no Guardian, chamou-lhe "um Sermão da Montanha aos trabalhistas". Foi pronunciado quinta-feira por Hilary Benn, ministro-sombra dos Negócios Estrangeiros britânico, em colisão com a tese do líder do seu Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, opositor da intervenção de Londres contra as hordas totalitárias do chamado Estado Islâmico na Síria.

Sessenta e seis deputados trabalhistas contrariaram a orientação de Corbyn, votando ao lado do Governo conservador de David Cameron para autorizar os bombardeamentos aéreos britânicos aos islamofascistas do Daesh. A votação no Parlamento britânico foi categórica: 397 votos a favor, 223 contra.

No Reino Unido ou em qualquer outro país, esta é a única forma inteligente e patriótica de fazer oposição: o combate ao Governo termina onde começa a defesa do bem comum sem miopias partidárias e do interesse nacional sem espírito de trincheira.

Hilary Benn - filho de Tony Benn, ex-ministro e ex-deputado que chegou a liderar a ala esquerda do Labour - percebeu as lições da história no país que em 1939 com tanta coragem se ergueu contra os esbirros de Hitler e Mussolini. Resta saber se Corbyn, tão louvado por algumas boas almas lusas, percebeu também.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mais um crime do regime sírio

por Pedro Correia, em 24.09.15

Cartunista Akram Raslan torturado até à morte. Ao contrário de milhões de outros sírios, ele não conseguiu escapar dos torcionários de Assad.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Verão de 2014

por Rui Herbon, em 25.08.14

A Europa está de férias: as auto-estradas de França registam engarrafamentos de quilómetros, as pessoas procuram o mar ou refugiam-se nas montanhas, muitos andam colados ao seu telemóvel procurando saber o que ocorre no mundo — vivem a realidade a golpe de títulos mediáticos. Quando começou a Grande Guerra, faz agora cem anos, o escritor austríaco Stephan Zweig encontrava-se de férias perto do porto belga de Ostende. Relatava que os turistas se deitavam na praia junto às suas barracas de cores vivas ou se banhavam no mar, as crianças faziam voar os seus papagaios, os jovens dançavam frente aos cafés ou no passeio junto ao muro do porto. Toda a gente se divertia amigavelmente. 

 

Escreve Margaret MacMillan no seu livro sobre as causas que levaram à guerra de 1914-18 que em Maio do ano anterior, no breve interlúdio entre as duas guerras balcânicas, os primos Jorge V de Inglaterra, Nicolau II da Rússia e Guilherme II da Alemanha se reuniam em Berlim para o casamento da única filha do kaiser. Nada fazia pressagiar que dentro de um ano estariam os três em guerra, uma guerra que ninguém queria e que toda a gente temia fatalmente. Tentou-se travar a Áustria para que não declarasse guerra à Sérvia após o atentado de Serajevo, pressionou-se a Rússia para que não entrasse no conflicto em aliança com a França e a Inglaterra. O que um punhado de homens quis evitar sucedeu de forma calamitosa para toda a Europa: mais de nove milhões de mortos. Ninguém o queria mas todos, inclusive a opinião pública, se entregaram àquela carnificina humana com entusiasmo. 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Facto internacional de 2013

por Pedro Correia, em 09.01.14

GUERRA CIVIL NA SÍRIA

A guerra civil na Síria, iniciada em 2011, atingiu em 2013 um marco estatístico nada invejável ao ultrapassar a barreira das cem mil vítimas mortais. No fim do ano, segundo dados fidedignos, estavam contabilizados cerca de 130 mil mortos neste conflito, incluindo quase 12 mil mulheres e crianças. Os confrontos que opõem os insurgentes sírios à ditadura do Presidente Bachar al-Assad, no poder desde 2000, causaram já também sete milhões de desalojados, de acordo com dados das Nações Unidas.

 

Este foi o facto internacional mais relevante do ano, eleito por larga margem aqui no DELITO DE OPINIÃO. A recente morte de Nelson Mandela foi o segundo mais votado, tendo a surpreendente resignação do Papa Bento XVI ficado na terceira posição. A eleição do Papa Francisco e o acordo Irão-Estados Unidos sobre energia nuclear também justificaram votos.

Em 2010 elegemos como facto do ano, a nível internacional, as revelações da Wikileaks e em 2011 a nossa escolha recaiu nas revoltas ocorridas no mundo árabe.

Foto AFP

Autoria e outros dados (tags, etc)

Carta aberta, para o lixo

por Ana Vidal, em 12.09.13

Caro presidente Obama,

Sei que é um homem muito ocupado, não lhe tomo muito tempo. Venho apenas lembrá-lo de que tem em casa um Nobel da Paz. Mais: um prémio que lhe foi atribuído por antecipação, antes de qualquer obra de vulto que o justificasse. Ou seja, um inédito voto de confiança no seu carácter e na sua capacidade de promover a paz no mundo, que o sentou directamente ao lado de pessoas como Nelson Mandela e Madre Teresa de Calcutá. Tem agora uma excelente ocasião para provar que mereceu essa honra. Espero, sinceramente, que não a desperdice.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sem petróleo não há invasão, mas...

por João André, em 29.05.13

A UE e os EUA descobriram finalmente como fazer dinheiro com o conflito sírio. Acaba-se com o embargo aos rebeldes para lhes vender armas. A Rússia e a China fazem o mesmo a Hassad. Entra-se numa bola de neve onde o conflito se prolonga, necessitando sempre de mais armas e os cifrões vão crescendo. Se os rebeldes vencem, ganha-se dinheiro e um aliado. Se Hassad vence pelo menos fez-se dinheiro. Se o conflito se prolonga, muito dinheiro entrará. Que final feliz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Confundir as trevas com a luz

por Pedro Correia, em 20.08.12

 

"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva."

Vladimir Nabokov

 

As imagens estão a correr mundo: raras vezes tenho visto algo tão chocante. Nas imediações de Rustenburg, na África do Sul, a polícia abriu fogo e disparou indiscriminadamente contra uma multidão de mineiros em greve. As consequências foram trágicas: 44 mortos e pelo menos 78 feridos. O mais revoltante, nestas imagens junto à mina de platina de Lonmin, foi o aparente sangue-frio das forças policiais, que não hesitaram em atirar para matar, como se os seus alvos fossem peças de caça em vez de seres humanos.

Outras imagens impressionantes chegam-nos por estes dias da Síria, onde forças governamentais têm bombardeado colunas de civis que procuram refúgio junto da fronteira turca, a norte de Alepo, capital económica do país. Correspondentes de guerra falam em massacre indiscriminado de mulheres e crianças pelos esbirros do ditador Bachar al-Assad, armados até aos dentes. "Aqui não há prisões, só há tumbas", diz um dos rebeldes ao enviado especial do jornal espanhol El País, transmitindo uma ideia exacta do que é hoje a Síria: um país mergulhado em guerra civil apenas porque a família Assad - no poder há 40 anos - quer perpetuar o seu mando absoluto, indiferente aos clamores de protesto da praça pública, por mais que isso faça correr o sangue dos cidadãos.

 

Estranhamente, ou talvez não, estes massacres não parecem suscitar ondas de indignação entre os bem-pensantes do costume. Em Lisboa, por exemplo, as habituais agremiações de manifestantes nem sequer convocaram uma concentração junto à embaixada da África do Sul. Não houve um comunicado. Nem uma declaração. Nem uma frase a exigir justiça ao Presidente Jacob Zuma.

O rastilho da indignação fácil vira-se agora para Londres, onde Julian Assange está refugiado na embaixada do Equador, país que lhe garantiu "asilo político". Chovem protestos contra as autoridades britânicas por não deixarem este australiano que é acusado de ter cometido crimes sexuais na Suécia partir para Quito. A justiça sueca pediu a extradição, a justiça britânica autorizou, mas o Presidente equatoriano, Rafael Correa, mantém Assange à sua guarda por recear - diz ele - pela integridade física ou até pela vida do fundador da WikiLeaks.

Como se a Suécia não fosse o país mais respeitador dos direitos humanos que conhecemos, onde qualquer cidadão pode confiar nas instituições - muito mais do que no Equador, onde toda a imprensa independente tem vindo a ser ferozmente reprimida pelo Presidente Correa e os seus sequazes do poder judicial. Como se o respeitável estatuto de refugiado político possa aplicar-se a alguém acusado de um delito comum. O Guardian - um dos cinco jornais com repercussão mundial que deram eco às fugas de informação produzidas pela WikiLeaks - deixa bem clara a sua posição: "tanto em termos legais como em termos morais", Assange não tem direito a tal estatuto.

 

Com 44 vítimas indefesas que tombaram sob uma chuva de balas na África do Sul, à mercê de uma inqualificável repressão policial, com inocentes a cair mortos todos os dias na Síria, a opinião pública sofisticada e envernizada prefere solidarizar-se com Assange. Um mitómano a quem aparentemente se aplica o aforismo de Truman Capote: "O excesso de êxito pode arruinar um homem tão irremediavelmente como o excesso de fracasso." Um homem que não corre risco de vida, que tem dinheiro para contratar os melhores advogados do mundo (um deles, que já trabalha na sua defesa, é o juiz espanhol Baltasar Garzón) e apenas é procurado por não ter respondido, como lhe competia, perante a justiça sueca - talvez a mais civilizada do planeta.

"O senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva", dizia Vladimir Nabokov. Lamento que confundamos tantas vezes a luz com as trevas e as trevas com a luz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A crónica miopia dos idiotas úteis

por Pedro Correia, em 06.08.12

 

O primeiro-ministro sírio, Riad Hijab, desertou e juntou-se à oposição em protesto contra os "crimes de guerra e genocídio" que o déspota de Damasco continua a cometer naquele país, submetido há 40 anos ao poder tirânico da família Assad, espécie de monarquia que ousa proclamar-se republicana. Nas últimas semanas, tem sido imparável a fuga de diplomatas, oficiais e até membros do Governo de Assad II para os países vizinhos, sinal inequívoco de que o regime tem os dias contados. O próprio Hijab aguentou apenas seis semanas em funções antes de abandonar o país.

 

Enquanto isto sucede, este defensor tuga das ditaduras "socialistas", fazendo da escrita uma espécie de Omo que lava mais branco, elogia o "laicismo sírio" e anseia por ver o regime de Damasco premiado com medalhas olímpicas.

 

Desde o início da actual revolta contra Assad II, em Março de 2011, quando a polícia reprimiu um protesto estudantil, já se registaram 17 mil mortos, segundo as Nações Unidas, e cerca de 300 mil pessoas abandonaram o país, escapando à escalada repressiva de um regime que nunca olhou a meios para alcançar os fins. Como ensinou o camarada Estaline, a morte de uma pessoa é uma tragédia enquanto a morte de milhares ou milhões é uma simples estatística. E, apesar das deserções, nunca faltam cúmplices de plantão, companheiros de caminho, idiotas úteis prontos a ocultar as mais gritantes evidências. Por inabalável miopia crónica - na melhor das hipóteses. Coniventes com quem pratica os crimes e não com as vítimas desses crimes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Como se a culpa fosse das vítimas

por Pedro Correia, em 05.06.12

 

Mesmo numa região como o Médio Oriente, habituada às maiores atrocidades, este foi um massacre particularmente chocante: 108 pessoas mortas a sangue-frio, degoladas ou assassinadas com tiros na cabeça à queima-roupa, incluindo dezenas de crianças. Aconteceu em Houla, no centro da Síria: as chocantes imagens desta barbárie correram mundo, não tardando a ser disseminadas pelas redes sociais e fazendo abrir os olhos a alguns que ainda condescendiam com a feroz ditadura de Bachar al-Assad. Por unanimidade, o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou estas atrocidades, atribuídas à milícia pró-governamental Shabiha. Ao contrário do que sucedeu em ocasiões anteriores, desta vez China e Rússia juntaram-se à condenação, que deixa o ditador de Damasco ainda mais isolado.

"Os responsáveis por estes crimes brutais serão responsabilizados", garantiu o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, enviado desta organização e da Liga Árabe à Síria. Enquanto Barack Obama se confessava "horrorizado" por estas atrocidades e diversas capitais - incluindo Washington, Paris e Londres - expulsavam diplomatas sírios em sinal de vigoroso protesto. Assad pode vir a ser julgado por crimes contra a humanidade, admite Navi Pillay, alta-comissária das Nações Unidas para os direitos humanos.

O mundo comoveu-se com a história do menino de 11 anos que se fingiu de morto, esfregando-se com sangue do seu próprio irmão assassinado, para poder escapar com vida e contar aqueles momentos aterrorizantes que o assombrarão para sempre. "Eu estava apavorado. Todo o meu corpo tremia", relatou o pequeno Ali, que viu a sua família mais próxima ser massacrada.

Não admira, por tudo isto, que o tirano sírio conte cada vez com menos adeptos. Mas, embora poucos, são indubitavelmente fiéis. Com destaque para o Avante! "O massacre está a ser atribuído ao regime, mas o governo liderado por Bashar Al Assad nega a responsabilidade pelo crime e acusa os grupos terroristas", tranquiliza-nos o jornal comunista numa notícia com onze parágrafos em sintonia com as teses do ditador. Como se a culpa fosse das vítimas e não dos verdugos.

Ao fim de 14 meses, a revolta popular síria já provocou cerca de 13.400 vítimas mortais, mas nem isso perturba o inabalável Avante!: noutra notícia desta mesma edição, o órgão central do PCP relata que os "povos estão em luta do norte de África ao Médio Oriente". Mas não na Síria, claro. Com uma chocante indiferença pelas vítimas de Assad. E um solene desprezo pela sensibilidade e pela inteligência dos seus leitores.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Aplausos calorosos aos torcionários

por Pedro Correia, em 07.03.12

 

De Homs, cidade-mártir, continuam a chegar dramáticos testemunhos sobre a acção homicida dos esbirros de Bachar el-Assad, o ditador sírio que não hesita em utilizar os mais repugnantes meios para atingir o seu fim: perpetuar-se no poder até à morte, como sucedeu ao pai, Hafez Assad. O filho limita-se a seguir o lamentável exemplo paterno: Hafez (1930-2000) foi o caudillo da Síria durante três décadas e autor moral do massacre de Hama, em 1982, justamente lembrado no portal da Amnistia Internacional. Há 30 anos, tal como acontece hoje, o regime esmagava todos quantos reclamavam liberdade, direitos humanos e justiça social. Nem nos hospitais os sírios escapam à tortura. E as crianças sofrem tantas represálias como os adultos, segundo denunciam prestigiadas organizações não-governamentais, como o Observatório de Direitos Humanos. Situações que podem ser classificadas como crimes contra a Humanidade enquanto os cadáveres se amontoam: segundo estimativas das Nações Unidas, já terão sido liquidadas cerca de 7500 pessoas em 11 meses de contestação aberta à tirania.

«Um massacre é um massacre. Seja onde for, independentemente de quem o pratique, qualquer que seja a justificação invocada, deve ser condenado por todos os que conservam um mínimo de empatia por outro ser humano», como justamente escreve Pedro Viana no Vias de Facto.«Os que encaram os seres humanos como peões de um jogo de guerra, moeda de troca ou simples matéria-prima a utilizar numa espécie de "lego" social e político, alistam-se e mobilizam-se ao serviço da desigualdade e da reprodução da opressão», assinala também - com uma frase certeira - Miguel Serras Pereira no mesmo blogue. «Matar um povo barricado numa cidade é genocídio, e qualquer insurreição popular democrática contra uma ditadura – independentemente das direcções políticas que estão à frente dessa insurreição – deve contar com o nosso apoio», sublinha por sua vez Raquel Varela no 5 Dias.

Todos de acordo, ao menos nisto? Claro que não. A ditadura síria encontra fervorosos apoiantes na extrema-esquerda blogosférica, que usa e abusa da palavra revolução mas entra imediatamente em êxtase cada vez que os torcionários disparam o gatilho. No próprio 5 Dias encontramos pessoas como o Renato Teixeira, que põe umas aspas medrosas na palavra ditadura para qualificar a Síria, demonstrando respeitinho pelos pides de Damasco. Ou o Bruno Carvalho, que celebra sem pudor as atrocidades cometidas em Homs pelos animais fardados às ordens de Assad.

Regresso às lúcidas palavras de Raquel Varela: «Não é esmagando um povo que se reforça a sua capacidade de resistência ao imperialismo.» Nada mais certo. Palavras que recomendaria ao Bruno e ao Renato se eles soubessem ler algo mais do que as folhas de propaganda da criminosa dinastia que há mais de 40 anos oprime o povo sírio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

D. Duarte e PCP: os apoios de Assad

por João Carvalho, em 06.03.12

Depois de garantir que deixaria o poder e de alterar a lei para se permitir continuar no poder enquanto lhe aprouver, o déspota que manda na Síria paga a peso de ouro um exército que pratica diária e crescentemente em nome dele a maior barbárie. Esperam-se cinco atitudes esta semana.

 

1. Espera-se que Bashar al-Assad, o ditador sírio, continue a tentar justificar ao mundo a matança e toda a barbaridade que enforma os crimes contra a Humanidade que está a praticar no seu sofrido país.

2. Espera-se que o PCP, através do enquistado Avante! e das não menos enquistadas mentes e mãos que o concebem e editam venham reconfirmar as razões de Assad e o apoio que os comunistas portugueses desavergonhadamente lhe dispensam.

3. Espera-se que a ONU não tenha de voltar a ver vetadas soluções que ponham cobro imediato à acção do déspota que está a dizimar o seu próprio povo.

4. Espera-se que a nossa comunicação social em geral e que a RTP e a Lusa em particular deixem de chamar "rebeldes" aos indefesos opositores que enfrentam o regime imposto por um presidente que não elegeram e que lhes prometeu em vão democracia.

5. Espera-se que D. Duarte de Bragança faça uma declaração pública a explicar que já não é tão amigo do sanguinário Assad e a denunciar as atrocidades na Síria que visitou tão lesto quando o país já estava a ferro-e-fogo há sete meses.

 

Relativamente a este quinto ponto, sendo importante que o duque de Bragança se manifeste em nome da coerência que devíamos esperar dele, tem também alguma importância relativa que D. Duarte não continue a deixar-se confundir com a posição oficial do PCP neste caso tão negro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A última reportagem de Marie Colvin

por Pedro Correia, em 23.02.12

 

Em 1982, o ditador sírio Hafez al-Assad afogou em sangue uma rebelião sunita em Hama, ainda hoje lembrada como um dos maiores morticínios registados no Médio Oriente. Segundo o testemunho do prestigiado jornalista Robert Fisk, a brutal intervenção do exército sírio para asfixiar a revolta popular contra o tirano terá causado cerca de 20 mil mortos.

Hama, cidade-mártir. Mas não a única: Homs, outra povoação rebelde, é alvo por estes dias da fúria desembestada das tropas de Bachar al-Assad, filho do déspota anterior e tão sanguinário como o primeiro. «Homs sangra à vista do mundo»: este título do El País resume de forma exemplar a tragédia que ali se vem desenrolando há várias semanas, sob a chocante indiferença de boa parte da comunidade internacional e a cumplicidade activa de alguns redutos domésticos, como os comunistas portugueses, que se colocam sem pestanejar ao lado da tirania de Damasco, indiferentes às mais chocantes atrocidades cometidas pelos esbirros de Assad.

Os mesmos esbirros que acabam de assassinar dois enviados especiais, incluindo a americana Marie Colvin, uma figura quase lendária do jornalismo contemporâneo, herdeira directa dos maiores repórteres de guerra do século XX. O seu último texto, publicado no Sunday Times, é um arrepiante testemunho das atrocidades que estão a ser cometidas na Síria. A todo o momento. No próprio instante em que escrevo, no próprio instante em que são lidas estas linhas. «A escala da tragédia humana na cidade é imensa. Os seus habitantes vivem no terror. Quase todas as famílias parecem ter sofrido a morte ou um ferimento de um ser querido.»

Reportagem testamento de Marie Colvin em Homs, nova cidade-mártir que lhe serviu de túmulo. Palavras destinadas a abalar muitas consciências adormecidas em todos os recantos do planeta. Porque nenhum homem é uma ilha e não devemos perguntar por quem dobram os sinos. Na Síria, eles dobram por todos nós.

 

ADENDA. A última entrevista da jornalista, horas antes de morrer, à BBC: Marie Colvin compara a situação em Homs ao massacre de Srebrenica (Bósnia) em 1995. 

Imagem: Marie Colvin há um ano no Cairo. Foto EPA

Autoria e outros dados (tags, etc)

A mentira é a verdade

por Pedro Correia, em 15.02.12

 

Depois da Líbia, onde foram os primeiros, os últimos e os mais ardentes defensores da ditadura de Kadhafi, os comunistas portugueses acorrem agora em defesa da ditadura de Assad na Síria. Contra as mais gritantes evidências, contra todos os sinais de alerta de organizações respeitadas e prestigiadas como a Amnistia Internacional e o Observatório de Direitos Humanos, contra as imagens chocantes que nos têm chegado de Homs, a cidade-mártir, e de outros pontos da Síria, o PCP mantém-se fiel à sua prática internacionalista muito peculiar de se solidarizar não com os povos oprimidos mas com os regimes que oprimem esses povos. Em sintonia com a China e a Rússia, como nos saudosos tempos da Guerra Fria, como se ainda houvesse Muro de Berlim e Pacto de Varsóvia, o órgão central do PCP tem-se distinguido pelo ardor na defesa de Bachar al-Assad, tal como já defendera o pai deste, Hafez Assad: os comunistas adoram a monarquia hereditária se esta for "republicana" e "socialista".

«Síria desmonta campanha imperialista.» Foi este o título estampado na primeira página do Avante! para destacar uma "notícia" centrada na versão dos acontecimentos fornecida pelo ministério do Interior sírio. Nada mais chocante, nada mais manipulador, nada mais indiferente ao sofrimento de um povo. Imaginem, no Portugal dos últimos anos de Salazar, um jornal estrangeiro a noticiar o que aqui se passava dando voz ao ministro Gonçalves Rapazote, que tutelava a PIDE...

Também na última edição, o jornal comunista congratula-se com o veto russo e chinês à condenação da ditadura síria no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Transferindo para as vítimas o ónus da culpa pelo banho de sangue perpetrado pelo regime de Damasco, à margem de toda a legalidade internacional, numa escala de repressão sem precedentes no país. Como se o PCP não soubesse que há mais de dez meses a polícia e o exército, actuando como esbirros de Assad, vêm procedendo sistematicamente ao massacre da população civil. No total terão já morrido cerca de sete mil sírios. Apenas porque reclamam liberdade e o respeito pelos mais elementares direitos humanos.

Leio estas "notícias" no Avante! e vem-me inevitavelmente à memória aquele mote totalitário inspirado no 1984 de Orwell: «A mentira é a verdade». Lembrem-se das atrocidades cometidas contra os civis de Homs e Damasco -- ou os de Misrata e Bengazi -- cada vez que ouvirem o PCP, de lágrima compungida, falar em populações que sofrem.

Imagem: saudações fascistas em louvor do ditador sírio,

de que o 'Avante!' tanto gosta

Autoria e outros dados (tags, etc)

Um registo necessário

por João Carvalho, em 15.02.12

 

Apesar de crescerem em força (e em vítimas civis indiscriminadas) os bombardeamentos em Homs, «um porta-voz do governo sírio repudiou esta terça-feira as declarações da Alta Comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Navi Pillay, e acusou o organismo mundial de ignorar os crimes que Damasco atribui a grupos terroristas com apoio estrangeiro».

Esta insistência doentia do ditador Bashar al-Assad, sempre a teimar que está apenas a defender o seu país de grupos estrangeiros organizados, é recorrente, já cheira mal e deixou de disfarçar os contornos de genocídio da tragédia que se abate sobre os sírios por ordem do poder instalado. Já vimos o mesmo na Líbia de Kadhafi.

Os bombardeamentos consecutivos em Homs continuam a fazer cada vez mais mortos entre os cidadãos civis, a Síria está a ferro-e-fogo e Damasco é a capital de um terror que não reconhece inocentes, tenham a idade que tiverem. Também já vimos o mesmo na Líbia de Kadhafi.

Enquanto isso, o nosso D. Duarte de Bragança mantém-se alheio às obrigações públicas que criou por sua iniciativa, fingindo-se agora esquecido de denunciar o massacre de um déspota sobre o seu povo, o povo que era suposto governar e contra o qual lidera a prática selvagem continuada de crimes contra a Humanidade.

Regista-se a atitude de apoio aberto ao déspota, que é a única que o duque D. Duarte, herdeiro da Casa de Bragança e pretendente ao trono de Portugal, nos deu a conhecer há meia dúzia de meses. Será este o exemplo que ele quer deixar aos seus próprios herdeiros?

Autoria e outros dados (tags, etc)

D. Duarte vai voltar à Síria?

por João Carvalho, em 04.02.12

Há meio ano, assinalei aqui que o duque de Bragança tinha ido a Damasco descobrir que o presidente da Síria, Bashar al-Assad, é "um homem muito bem-intencionado" que "tem tentado democratizar e humanizar a política". É evidente que isto de humanizar a política naquele país a ferro-e-fogo dá cada vez menos trabalho, porque os humanos são cada vez menos.

Só ontem, as forças militares do presidente, certamente orientadas pelas boas intenções do seu chefe supremo, mataram mais de 270 civis, daqueles que continuam a opor-se à democracia musculada de Bashar al-Assad em manifestações de rua às claras.

Gostava de saber se D. Duarte de Bragança, com o seu especial interesse pela evolução do regime sírio, tenciona regressar a Damasco para acompanhar as centenas de enterros dos que têm uma opinião diferente sobre as intenções do ainda presidente da Síria. Se não voltar lá, D. Duarte criou há seis meses uma obrigação de que tem andado a furtar-se, sem desculpa para tamanho silêncio: denunciar publicamente o massacre que o tenebroso ditador tem promovido, entre as mentiras de que está a abrir o regime e as promessas de que irá retirar-se.

Não sou necessariamente monárquico, mas sempre respeitei as monarquias constitucionais e não estou habituado a ver um rei calado e encostado a posições dúbias como D. Duarte entendeu fazer. Parece que tenho andado enganado, afinal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Levantar a voz contra os reprimidos

por Pedro Correia, em 23.11.11

O PCP continua a defender fielmente os seus ditadores de estimação. Derrubada a tirania de Kadhafi, os comunistas portugueses saem agora em defesa do ditador sírio, Bachar al-Assad, e do brutal autocrata iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. "Nos últimos dias multiplicaram-se as ameaças abertas contra o Irão e a Síria", adverte a mais recente edição do Avante!, transformando os carrascos em vítimas e as vítimas em carrascos. Na Soeiro Pereira Gomes ainda ninguém deve ter lido o mais recente relatório do prestigiado Observatório de Direitos Humanos que menciona a existência de pelo menos 3500 vítimas mortais provocadas pelo esmagamento da revolta popular, pró-democracia, desencadeada em Março no país submetido desde 1971 à despótica dinastia Assad. "Bachar governa ainda sob a influência do espectro do pai [falecido em 2000]", observa um sírio citado pelo jornalista Robert Fisk no Independent. Entretanto, o Exército Livre da Síria vai conquistando terreno, reforçado com centenas de militares que desertam dos quartéis. A situação chegou a tal ponto que a Liga Árabe se viu forçada a suspender a Síria, sob forte pressão da comunidade internacional.

Nada que comova o Avante! O órgão central do PCP subscreve a posição oficial da ditadura síria, copiando as posições pró-Kadhafi que assumiu sem sombra de pudor nos meses que antecederam a queda da ditadura líbia. Em vez de criticar o tirano, contesta aqueles que ousam levantar-se contra ele, denunciando supostas milícias responsáveis por "actos considerados terroristas em qualquer parte do mundo, como ataques a esquadras e instalações do exército".

Uma vez mais, coloca-se ao lado de quem reprime e levanta a voz contra os reprimidos. Azar das Catarinas Eufémias sírias: elas jamais contarão com a solidariedade do PCP.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os ventos da liberdade

por Pedro Correia, em 18.08.11

 

Estamos em 2011, como estivemos em 1989, a viver tempos de grande aceleração da História. Um passo é dado sem que tenhamos capacidade para prever qual será o passo seguinte, tão dinâmica é a realidade e tão voláteis são alguns cenários que julgávamos sólidos e resistentes. Há seis meses, por exemplo, nenhum dos mais credenciados observadores da cena política internacional era capaz de vaticinar os movimentos insurreccionais que se sucederam no Magrebe e na Península Arábica contra as ditaduras de diversos matizes ali instaladas. Ben Ali e Hosni Mubarak, que geriam com punho de ferro a Tunísia e o Egipto, caíram do pedestal e viram-se forçados a enfrentar pesadas acusações do foro criminal. O coronel Kadhafi, outrora ídolo da esquerda radical europeia, está cada vez mais cercado no seu bunker de Trípoli, com a Líbia a ferro e fogo, enfrentando um crescente movimento de revolta popular: em desespero, não consegue encontrar melhor modelo do que o Franco de 1939 para garantir que esmagará o seu próprio povo. Na Síria, a ditadura de Assad tenta desesperadamente dispersar a tiro o irreprimível movimento de protesto que leva milhares de pessoas para as ruas em massas compactas de indignação: muitas delas já pagaram com a vida este impulso em defesa da liberdade.

Ao contrário do que pensadores como Hegel e Marx defendiam no século XIX, há sérios limites para a capacidade de previsão em História. Que o digam todos aqueles cultores da realpolitik - com Henry Kissinger à cabeça - que nas décadas de 70 e 80 agiam como se a política de blocos nascida da Conferência de Ialta estivesse inscrita nas estrelas, como garantia para a eternidade. Nenhum deles foi capaz de prever aquele inesquecível ano de 1989, quando toda a Europa de Leste submetida ao domínio comunista se desmoronou como um castelo de cartas e o Muro de Berlim ruiu enfim sob a pressão de quantos o viam como aquilo que de facto era: um inaceitável símbolo de intolerância e repressão.

O mundo bipolar que ditou o destino de três gerações tornou-se tão obsoleto como a grafonola, o telégrafo ou a máquina de escrever. Mas pelo menos uma lição podemos e devemos extrair tanto dos acontecimentos de 1989 como deste extraordinário ano de 2011 ainda em curso: não é possível governar os povos pela força durante o tempo todo. Nenhuma região do mundo está imune aos ventos da liberdade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Que tudo mude para que nada mude

por Pedro Correia, em 10.08.11

Na Síria, organizações de direitos humanos contabilizam já 1700 mortos desde o início do levantamento popular contra o ditador. Nada que mereça, por cá, uma só palavra da extrema-esquerda incendiária: ao 5 Dias apenas interessa ver Londres a arder. "É preciso que a destruição seja total!!", berra o professor Vidal, o maior esbanjador de pontos de exclamação da blogosfera portuguesa. Assad, o titular de uma dinastia sanguinária que oprime os sírios há meio século, é um gajo porreiro para estes mecos: "criminoso" é Cameron, eleito por voto popular. E há já mesmo quem pretenda ver Portugal transformado numa "nova Inglaterra" - desde que não lhe queimem a casinha, o carrito e a magra biblioteca, presumo.

Estes pequeno-burgueses excitam-se sempre que vêem uma viatura a arder, imaginando um Jean Valjean munido de BlackBerry em cada pilhador de subúrbio numa grande cidade europeia. Ao lê-los, vem-me à memória uma frase de J. G. Ballard: "There's nothing like a little violence to tone up the system."

Pura verdade. Sem necessidade de ponto de exclamação algum.

 

ADENDA. O Sérgio Lavos diz aqui praticamente o mesmo por outras palavras: "Os motins são escaramuças inúteis, improdutivas, que apenas poderão ter como consequência um reforço da legitimidade de uma sociedade que discrimina e guetiza parte dos seus cidadãos." É óbvio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

D. Duarte e al-Assad avançam juntos

por João Carvalho, em 08.07.11

O presidente da Síria, Bashar al-Assad, é "um homem muito bem-intencionado" — afirmou ontem em Damasco o duque de Bragança. O pretendente ao trono de Portugal conseguiu assim, espantosamente e de uma assentada, destruir todo o empenho que colocou há uns anos a favor do povo timorense então subjugado pela ditadura indonésia. E pouco importa que benefícios o duque foi agora buscar à capital síria, porque esta história cheira a prato de lentilhas que até chateia.

É útil saber que D. Duarte de Bragança se deslocou à Síria para contactos com o regime de Damasco e a convite do próprio Bashar al-Assad, o homem que recebeu do pai a presidência daquele país de partido único e que a conserva desde 2000. Ainda assim, D. Duarte não se conteve sem declarar que al-Assad não só "tem tentado democratizar e humanizar a política" como até "já conseguiu grandes avanços".

Há algo nesta nova e estranha face do duque de Bragança que começa a assemelhar-se perigosamente com a triste figura do ex-ministro Mendonça: o TGV também não avançava, mas havia sempre grandes avanços...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os inimigos da liberdade

por Pedro Correia, em 05.05.11

         

 

O que há de comum entre Robert Mugabe, Hu Jintao, Mahmoud Ahmadinejad, Raúl Castro e Kim Jong-il? São todos inimigos da liberdade de imprensa. A lista completa, agora divulgada pelos Repórteres Sem Fronteiras, inclui também organizações criminosas, como a Mafia e a ETA. Vale a pena consultá-la aqui. Uma lista com 38 nomes - menos dois do que em 2010 devido à queda dos ditadores do Egipto e da Tunísia, duas das melhores notícias do ano.

Com lugar cativo na lista figura um ditador que ainda não caiu - o sírio Bachar al-Assad, responsável por 632 mortes e pelo menos três mil detenções desde que começaram os protestos populares contra o regime de Damasco, a 15 de Março. E também o ditador líbio, Muammar Kadhafi, que persiste em bombardear Misrata, cidade-mártir, surdo aos apelos à demissão feitos até por antigos aliados como o primeiro-ministro turco Recep Erdogan, agora estupefacto por ver que o tirano líbio condena o seu próprio povo a "sangue, lágrimas e opressão".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Avante, por Assad e Castro!

por Pedro Correia, em 23.04.11

A ditadura síria, acossada por gigantescas manifestações de rua, manda disparar contra o próprio povo. O morticínio ocorre até durante a realização de funerais. O mundo inteiro protesta contra esta barbaridade. O mundo inteiro? Não. Em Portugal, o Avante! defende a despótica dinastia Assad, revelando aos seus leitores que os EUA "financiam a oposição síria" e as autoridades de Damasco "negam responsabilidades nas vítimas" (sic). Nem o Omo lava mais branco...

Mas que outra coisa seria de esperar de um jornal capaz de enaltecer, pela pena de um dos principais dirigentes do PCP, o "admirável processo de democracia participativa" em Cuba?

 

ADENDA. Um artigo esclarecedor no El País: Siria se hunde en la represión sangrienta.

Autoria e outros dados (tags, etc)




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D