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Memória de 4 de Dezembro

por Rui Rocha, em 04.12.16

Lembro-me de ser noite e de sair com o meu pai da Ordem da Trindade, onde a minha mãe estava internada. Passavam muitos carros a apitar, em direcção à Avenida dos Aliados, com pessoas a berrar, entusiasmadas, com bandeiras do Partido Comunista. Festejavam a morte de Sá Carneiro, umas horas antes, em Camarate. Alguns desses democratas ainda devem andar por aí a chorar baba e ranho pela morte do Fidel.

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Uma memória de Sá Carneiro

por Pedro Correia, em 19.07.16

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Francisco Sá Carneiro desempenhou um papel histórico no actual regime: reconciliou a direita portuguesa com a democracia. Esta foi uma missão para a qual estava vocacionado, por uma espécie de sentido messiânico, e em que viria a ser bem sucedido nos dois últimos anos da sua vida, desenrolados de forma vertiginosa, numa desesperada corrida contra o tempo. O facto de ter rompido com o regime anterior ao 25 de Abril após uma fracassada tentativa de levá-lo por rumos reformistas, como viria a suceder em Espanha, conferia-lhe uma legitimidade que poucos tinham na sua área política, dados os compromissos estabelecidos com a ditadura.

O combate decisivo para a implantação da democracia no alucinado Verão quente de 1975, contra a esquerda revolucionária, fora liderado por Mário Soares, com quem Sá Carneiro sempre estabeleceu uma rivalidade que nunca viria a ser superada, apesar da cordialidade pública que exibiam. Desafiado nesta espécie de confronto íntimo com Soares, o fundador do PPD/PSD sentiu ainda mais pressa em entrar na História, o que viria a suceder. Tinha qualidades para o efeito, bem reveladas na sua singular trajectória de uma década no palco da política: visão estratégica, uma inegável capacidade de comunicação e aquele atributo tão indispensável quanto indefinível que à falta de melhor certos politólogos costumam chamar carisma.

 

Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, a partir de uma sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. Teve razão desde o início ao defender a autonomia regional, o afastamento da tutela militar e o fim do virtual monopólio da economia pública no Portugal pós-25 de Abril. E superou o teste da governação, após duas maiorias conquistadas nas urnas, embora ninguém saiba até que ponto poderia vir a ser vítima dos próprios impulsos se o destino não o tivesse colocado na fatal rota de Camarate, tragédia que lhe amputou a história e engrandeceu o mito.

Não teve razão, com alguma frequência, quando deixava a emoção sobrepor-se à implacável lógica cartesiana. Foi, nomeadamente, o que sucedeu no seu desenfreado combate contra o Presidente Ramalho Eanes que lhe consumiu as energias nos últimos meses de vida. A derrota nas presidenciais de 1980, a que já não assistiu, confirmava que tinham razão aqueles que em vão procuraram dissuadi-lo de transformar o popular Chefe do Estado em adversário principal.

 

Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.

Graças a ele, a democracia portuguesa tornou-se mais sólida.  

Ficámos todos a dever-lhe isso.

 

Francisco Sá Carneiro (1934-1980) faria hoje 82 anos.

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Pacheco, Sá Carneiro e o PSD

por Pedro Correia, em 03.03.16

Hoje, pela enésima vez, Pacheco Pereira surgiu na Quadratura do Círculo como auto-declarado intérprete do "pensamento autêntico" de Sá Carneiro em matéria de social-democracia. Proclamando que o actual PSD, tão tenazmente combatido por ele próprio, nada tem a ver com o do fundador do partido.

"Os homens de Passos Coelho são tudo menos sociais-democratas, são pessoas que se revêem mais facilmente no CDS do ponto de vista doutrinário. (...) Passos Coelho não tem nada de social-democrata: mostra agora um oportunismo verbal que eu reconheço na personagem pois sempre a conheci assim." Palavras do ex-vice-presidente do PSD, ex-líder da distrital laranja de Lisboa e ex-presidente do grupo parlamentar social-democrata pronunciadas há pouco na SIC Notícias.

Sá Carneiro, tragicamente desaparecido em 1980, já cá não está para exercer o contraditório. Mas até por isso convém recordar aos mais desmemorizados que há pelo menos um elo a ligar o partido nestas duas fases da sua história: Pacheco Pereira combateu ambas.

Porque nunca ele militou no PSD de Sá Carneiro. Pelo contrário, ele militou contra o PSD de Sá Carneiro.

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A perigosa retórica antipartidos

por Pedro Correia, em 17.07.13

 

No seu habitual espaço de comentário da TVI 24, Manuela Ferreira Leite louvou o «belíssimo discurso» ao País do Presidente da República. Como seria de esperar. Chegou a dizer o seguinte, que aqui registo para memória futura: «Se a atitude do Presidente da República provocasse um terramoto interno nos partidos não seria mau. Se há coisa sobre a qual a opinião pública não tem uma boa opinião é relativamente aos partidos», havendo portanto que «metê-los na ordem».

Anotei a perfeita sintonia destas palavras com declarações quase simultâneas de Rui Rio, também em claro elogio ao inquilino de Belém. «Não sei se os partidos se conseguem entender. Mas foi-lhes dada pelo Presidente da República uma oportunidade única de se poderem credibilizar perante a opinião pública», declarara horas antes o presidente da Câmara Municipal do Porto.

Começa a fazer caminho, entre as personalidades que têm como principal referência política o actual Chefe do Estado, a ideia de que a democracia portuguesa está degenerada por culpa dos partidos.

É um caminho perigoso e que contradiz todo o património histórico do PSD desde os tempos do seu fundador, Francisco Sá Carneiro.

Vale a pena reler com atenção a última entrevista concedida por Sá Carneiro, publicada no próprio dia da sua trágica morte, a 4 de Dezembro de 1980, na revista espanhola Cambio 16. «Eanes, com este projecto impossível de acordo entre os socialistas e os sociais democratas, é um factor de instabilidade», criticava o malogrado fundador do PSD, visando o então Presidente da República, a quem acusava sem rodeios: «Eanes é um homem que provoca crises nos partidos porque tem uma visão da política que é a do poder pessoal.»

A história repete-se, com mais frequência do que muitos imaginam. Não deixa de ser irónico que Cavaco - ex-ministro das Finanças de Sá Carneiro - sirva hoje de bandeira à retórica antipartidos emanada de alguns dos seus apoiantes mais notórios.

 

Imagem: Cavaco Silva e Sá Carneiro em 1980

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O que faria Francisco Sá Carneiro?

por Pedro Correia, em 12.07.13

 

Trataria, desde logo, de clarificar a situação. Abandonando ambiguidades e consensos pastosos, que nada resolvem e tudo complicam.

Apresentaria uma moção de confiança no Parlamento. Que separasse águas e tornasse evidente a legitimidade política do Governo na única sede perante a qual é politicamente responsável à luz do que estipula a nossa lei fundamental: a Assembleia da República.

A política, para ser eficaz, exige clareza.

Um gesto destes perturbaria o tacticismo pessoal de alguns vultos majestáticos ocupados em escrever livros de memórias antes do tempo? Talvez.

Paciência. A democracia é assim.

 

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Camarate: a 10ª Comissão

por Helena Sacadura Cabral, em 23.06.12

Os jornais noticiam que avança a 10ª Comissão de Camarate.

Parece que será formalizada a proposta do CDS e do PSD que acordaram criar a décima comissão parlamentar de inquérito sobre a queda do avião que, em 1980, causou a morte do então primeiro-ministro, Sá Carneiro. Independentemente de quem propõe - já foram vários partidos a fazê-lo -, alguém acredita que tal seja possível? E, sendo possível, como parece que é, alguém acredita que produza mais resultados? É doloroso para aqueles que perderam os - aqui o mais importante -, e é enxovalhante para o país onde estes factos acontecem. 

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A vergonhosa deslembrança

por Laura Ramos, em 04.12.11

 

Há 31 anos estava eu numa certa sede de campanha, a cobrir a hora de jantar. Este era o frete reservado aos novatos líricos e não numerários.
Quando a bomba rebentou, não acreditei, evidentemente. Precisei de atravessar a rua para entrar num café apinhado de gente desconhecida mas igualmente incrédula, de olhos cravados na televisão. E ouvir em directo a absurda notícia. No ar, por todo o lado, a mesma sentença terrível: «Mataram-no». «Mataram-nos», diziam os cautelosos em murmúrios e os temerários em exaltações. Numa mesa falava-se de Sidónio Pais: as memórias de um déjà vu nacional que nada me dizia.
Hoje é quase impossível transmitir a brutal violência do choque que sentimos.
Tal como é intraduzível o desânimo, o sentido de injustiça, a revolta, o desalento, o descrédito perante o país que perpetra um crime horrendo como este, exactamente na hora H, ou seja, a escassos dias de conquistar o direito a uma democracia com norte, organizada e construtiva.
À noite, na tertúlia alargada do costume, desgastei-me com outros numa interminável discussão sobre o acerto da tese de atentado, contra os restantes paternalistas que troçavam dos nossos delírios de razão, embotada pelo sentimentalismo. Era um aparente mas hipócrita e falsíssimo bom senso, o deles. Tiravam-me do sério.
Camarate foi a minha primeira grande, brutal desilusão.
Quanto ao resto, sempre fiquei na minha, durante estas 3 décadas.
E agora sabe-se que a verdade estava desde o princípio debaixo dos nossos olhos.
Certo, certo, é que desde então nunca mais confiei neste país manhoso, de honra manifestamente duvidosa, onde a impunidade, orquestrada pelas vozes do falso bom senso, continua a vingar. Convenientemente. Comodamente.  Por entre esta espécie de cobardia de um povo acostumado.

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