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O historiador e o pára-quedista

por Pedro Correia, em 27.09.17

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Estranhei um artigo de Rui Ramos, ontem publicado no Observador, que é um autêntico panegírico a André Ventura. Estranhei porque considero haver um fosso intelectual entre o historiador e o pára-quedista do PSD em Loures, que ali faz uma espécie de tirocínio para outros voos.

O problema de Ventura, ao contrário do que é referido nesse artigo, está muito longe de se circunscrever à questão dos  ciganos - o que já bastaria para o desqualificar como candidato autárquico de um partido que não pertence às franjas do sistema democrático.

Ventura é também um assumido defensor da  prisão perpétua, do  trabalho compulsivo de presos e da castração química de certos delinquentes, além de não lhe repugnar a pena de morte. Está portanto em oposição aberta não à gestão comunista em Loures - que aliás contou com a colaboração activa do PSD nestes quatro anos - mas ao Código Penal.

Algo insólito, num jurista.

Mais um motivo para este artigo de Rui Ramos me causar estranheza. O autor chega ao ponto de reduzir, sem ironia, as 308 eleições autárquicas de domingo a um "referendo sobre André Ventura em Loures": julgo que nem o próprio bafejado por estas palavras iria tão longe acerca de si próprio.

São palavras pelo menos tão deslocadas da realidade como a suposta "inteligência e sofisticação" do candidato assim descrito pelo historiador, que o eleva à condição de "herói de cidadãos fartos do concurso de misses do politicamente correcto”.

 

Reflecti nestas palavras. E acabei por concluir que esta peça no Observador, mais do que enaltecer Ventura, visa quem ousou criticá-lo  internamente.  Com destaque para Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho, que na sequência imediata das afirmações iniciais de Ventura se demarcaram o mais possível dele. Ao ponto de a líder do CDS ter declarado fim unilateral à coligação pré-eleitoral com o PSD em Loures.
Aparentemente, Rui Ramos inclui a presidente do CDS e a vice-presidente do PSD entre os membros da "oligarquia política" que, à direita, "embora não tendo aderido ainda ao PS, já são inofensivos". Este raciocínio terá muito menos a ver, portanto, com o putativo "plebiscito" de Loures do que com os  ajustes de contas e a recomposição de forças à direita do PS que se prenuncia após a soma dos 308 escrutínios de domingo.

Acontece que para esse filme o contributo de Ventura será residual ou mesmo nulo. O que o ex-director de campanha de Luís Filipe Vieira ambiciona é a presidência do Benfica. Loures, onde caiu de pára-quedas, serviu apenas de isco para o "herói" de Rui Ramos ganhar um palco mediático extra-futebol. Como podia ter sido Sintra, "única terra que verdadeiramente [o] apaixona", como chegou a confessar numa entrevista.

Ou Cascalheira de Cima ou Alguidares de Baixo. Para o caso tanto faz.

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A redução ao absurdo

por Sérgio de Almeida Correia, em 22.08.17

Poderá fazer sentido que se dê a uma crónica um título – "Se Mandela fosse do PSD, o BE arranjaria maneira de lhe chamar racista" – de cuja leitura não restem dúvidas sobre quem são os destinatários do texto, assim se restringindo a audiência. Neste caso ao BE, seus militantes e simpatizantes, e aos próprios e indefectíveis leitores do autor do texto. Isso pode servir também de aviso para quem, eventualmente, pudesse estar interessado em alargar horizontes, analisar argumentos e reflectir com o autor sobre o tema.

Se o cronista considera que as posições críticas do BE em relação a Passos Coelho são um disparate, penso que faz muito bem em dizê-lo. Isso é saudável em qualquer democracia. Mas devia, penso eu, fazê-lo de maneira a não restringir tanto o campo dos seus potenciais leitores.

Afinal, Feliciano Barreiras Duarte, que foi secretário de Estado nos três últimos governos do PSD, e também discorreu de viva voz para o semanário Expresso sobre o que foi dito no Pontal, tendo visto "com muita preocupação" as declarações de Passos Coelho sobre as alterações à lei da emigração e chegando ao ponto de dizer que "têm sido muitas as pessoas e as instituições, sendo ou não do PSD, que depois dessas declarações me têm contactado, demonstrando nuns casos revolta e indignação e noutros casos preocupação, porque não se revêem neste tipo de proclamações e temem o efeito rastilho que podem ter negativamente para Portugal e os portugueses", ainda acrescentando que "para muitos a grande dúvida é se este tipo de proclamações é apenas típico da época pré-eleitoral autárquica ou se é o início de um caminho diferente do PSD relativamente a estas matérias", poderia ter interesse em também ler sobre esse assunto. Tal como José Eduardo Martins e muitos outros que no PSD não partilham de todas as opiniões de Passos Coelho.

O racismo é com todos nós e não me parece que alguém, mesmo no BE, no seu perfeito juízo considerasse que as infelizes declarações de Arménio Carlos, a raiarem pelo menos o preconceito e que Rui Ramos achou por bem repescar neste momento, devessem ser aplaudidas. Como também não me parece, pela mesma ordem de razões, que alguém, à esquerda ou à direita e no seu perfeito juízo, fosse retirar das igualmente infelizes declarações de Passos Coelho no Pontal, que o fulano é racista ou xenófobo.   

Pensava eu que de um professor universitário e historiador seria de esperar outro tipo de argumentação. Mas não, voltei a enganar-me. Para além da mais do que evidente confusão de conceitos, enfiando tudo no mesmo saco, como aliás é típico do discurso populista mais ranhoso, ultimamente muito em voga na Casa Branca, a argumentação usada por Rui Ramos, de tão básica e redutora, assemelha-se à que, segundo ele, é utilizada pelos que no BE criticam Passos Coelho.

Pessoalmente, desconheço que esquerda democrática é essa, e à qual Rui Ramos se refere, que adopta o método "comunista e neo-comunista" (sic) de "desqualificar os adversários". Ramos devia esclarecê-lo, dizendo a quem se refere, porque só uma esquerda estúpida e ignorante o faria. Desqualificar os adversários é próprio de gente estúpida. De outro modo, se não o fizer, estaremos perante uma outra forma de reduzir a argumentação ao primarismo daquela que foi por ele usada no seu texto.

Em todo o caso, tenho a convicção de que Mandela, por muito que virasse à direita, nunca seria deste PSD a que Ramos se refere, o que desde logo e para seu evidente desgosto retiraria ao BE a oportunidade de lhe chamar racista, e a ele a oportunidade de escrever outra crónica como a que escreveu.

Parafraseando o autor, "com o devido respeito", "resistir sem medo" à argumentação delirante e maniqueísta de um cronista, professor universitário e historiador,  "não é apenas um meio de manter a liberdade de espírito necessária para enfrentar problemas como os que derivam das migrações do Médio Oriente: é também um meio de defender a democracia". E, acrescento eu, uma forma de manter a sanidade e combater os que dividem o mundo entre os que estão com Passos Coelho e os outros.

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